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 Sobre a Deficiência Visual


Vejo Melhor as Coisas Com os Pés

Jason Roberts

O viajante cego - Jason Roberts


O cego fez uma pausa para sentir a ponta da bengala. Estava corroída e enegrecida, a poucos segundos de romper em chamas. Rolou a ponta nas cinzas abundantes para a arrefecer e continuou a subir, na direcção da boca do vulcão.

O seu amigo, um jovem médico irlandês chamado Robert Madden, olhou em volta com um misto de interesse clínico e fascínio pessoal:
 

A grande erupção de Junho, 1821, foi testemunhada por mim. Acompanhei o célebre Viajante Cego, o tenente Holman, na véspera da noite em que a sua violência atingiu o auge.

Visto de longe, o James Holman de 34 anos não parecia cego. O titubear da sua bengala parecia mais um tique do que um acto de orientação.
 

 Imagem relacionada
A Voyage round the World  by James Holman
O Viajante Cego [1786-1857]


Apesar da sua condição, continuava a ser um oficial de uniforme da Marinha Real Britânica, embora naquele momento estivesse irreverentemente completado por um largo chapéu de palha. Tinha uma figura atraente. Magro, com uma altura acima da média e claramente acostumado tanto à vida militar como à do exterior, irradiava uma postura confiante, de costas direitas, e as feições juvenis emanavam um entusiasmo inteligente. Jane Austen tê-lo-ia reconhecido imediatamente como um cavalheiro militar, elegante e nobre, ideal para a personagem principal de um dos seus romances:
 

Insistia em ir a pé até sítios onde pudesse ouvir o rachar da lava pelo fogo debaixo dos pés, ao mesmo nível da boca da nova cratera, que vertia chuva de fogo, água e lava, e ocasionalmente massas de rocha de dimensões fantásticas, a alturas impressionantes.

Discutia-se nervosamente se deviam abortar a subida, mas o tenente Holman manteve-se firme no comando da sua pequena expedição. Tinha começado a subir na disposição de o fazer sozinho, e dos seus companheiros esperava mais «divertimento e informação, em vez de orientação e protecção». Signore Salvatori oferecera-se para os transportar parte do caminho de mula, mas ele insistiu em fazer o caminho inteiro a pé.

― «Vejo melhor as coisas com os pés», explicou.

Décadas mais tarde, quando o Dr. Madden abandonou a medicina e se dedicou à escrita pirata, descreveu aquela noite nas suas memórias. Nem sequer eram as suas. Estava mais a imitar The Literary Life and Correspondence of lhe Countess of Blessington, quando um capítulo passado em Itália o inspirou a incluir um devaneio pessoal nessas páginas:
 

Com certeza que foi uma mudança de vento que nos enterrou debaixo das cinzas ou da lava moldada. Normalmente, as enormes rochas voltavam a cair para dentro da cratera de onde saíam. O chão brilhava com calor debaixo dos nossos pés, obrigando-nos a mudar de posição constantemente.

Chegaram à berma da cratera e Salvatori, provindo de uma família de guias do Monte Vesúvio havia várias gerações, anunciou que Holman tinha acabado de fazer história. As tentativas de chegar ao vulcão eram tão poucas que o Rei de Nápoles recebia um relatório pessoal de todas, e Salvatori estava desejoso de informar Sua Majestade sobre o primeiro homem cego a alcançar o cume. Mas agora era tempo de regressar. O ar era irrespirável e a instabilidade do terreno perfeitamente audível. Todos alternavam o peso nas pernas, quase aos saltos. O contacto excessivo com o chão fumegante era suficiente para queimar as solas dos pés, apesar do calçado.

Holman deixou-se ficar enquanto pôde, saboreando o cheiro do enxofre, os sons da Terra em movimento e a própria omnipresença do calor.

Quando finalmente recuaram alguns metros, sacudiu as cinzas dos sapatos e fez notar, calmamente, que este era o cume do vulcão activo e não o da montanha propriamente dita. Existia outra cratera, dormente, que os esperava mais acima, e ele tencionava continuar, até não haver mais nada para subir. Depois de abandonarem os campos activos de lava, o ar seria bem frio e a caminhada teria de ser enérgica. Não se tinha lembrado de trazer um casaco.

Era tempo de Salvatori declarar uma impossibilidade. Talvez o tenente não tivesse reparado que já passava da meia-noite. A Lua estava a desaparecer e a zona agora iluminada pelo brilho da erupção em breve estaria envolta numa perigosa escuridão. Claro que se tratava de um problema para Madden e Salvatori, mas não para Holman, que graciosamente concedeu. Começaram a descer em silêncio.

A paisagem da baía de Nápoles c da cidade distante, vista do topo do Vesúvio numa bela noite de luar, sem uma nuvem no céu, como a que tivemos a sorte de gozar, teve um efeito quase mágico. Tal serenidade, silêncio e beleza formavam um contraste marcante com o brilho ofuscante das massas quentes e vermelhas que o vulcão emitia, bem como as entranhas assustadoras da montanha ardente onde caminhávamos.

Ainda estava escuro quando chegaram ao abrigo mais próximo, uma cabana de montanha a seis quilómetros de distância. O seu ocupante, uma espécie de empresário-monge, serviu-lhes livremente canecas de um vinho local caríssimo chamado Lachrymae Christi, As Lágrimas de Cristo. Um grupo de austríacos, deitados em colchões, esperavam pelo nascer do Sol para tentarem subir ao topo. No calor da lareira e do vinho, Holman permitiu que o orgulho ultrapassasse a exaustão.


Era o primeiro, mesmo o primeiro.

Era um triunfo, não tanto da sua coragem como da sua capacidade em seguir mentalmente um trilho na direcção certa. Não havia memória de o Vesúvio estar numa fase mais violenta do que aquela e, no entanto, conseguira apaziguar as graves preocupações dos amigos, fintar os cuidados profissionais de Salvatori e comandar as suas próprias passadas até ao precipício. Uma liberdade tão reafirmada não era apenas um bálsamo para a dignidade. Na sua opinião, era a única coisa que o mantinha vivo.

Dois anos antes, Holman era um inválido acamado que regressava lentamente à vida. Incapaz de curar a cegueira ou a dor acutilante que o impedia de se mover, os médicos decidiram que um clima mais quente poderia proporcionar um cenário mais confortável, se não mesmo uma cura, para o resto dos seus dias. Entregue a si próprio para chegar até ao Mediterrâneo, o paciente não fez nada disso, dada a sua pobreza, orgulho e espírito de autodestruição. Resolveu apanhar um barco para França, completamente sozinho.

Seis meses depois chegou à costa do Mediterrâneo, cansado e desgastado pela viagem, mas também revigorado. Tinha percebido que viajar sozinho era uma colisão entre o caos e o momento, uma chamada permanente aos seus sentidos e atenção. Distraía-o da dor e despertava novas energias dentro de si. Em vez de se deixar ficar no novo destino, optou por continuar a andar e agarrar-se à estrada como uma bóia de salvação.

Tinha assim chegado até à beira do vulcão e agora saboreava a realização de que poderia chegar também a qualquer outro sítio.

O monge mantinha um livro de visitas e Salvatori insistiu para que lá escrevesse alguma coisa. Molharam uma pena com tinta e colocaram-na na sua mão, após o que a conduziram gentilmente à página correcta. Holman, que antes de ser oficial fora poeta, pensou um momento e escreveu o que esperou que se aproximasse de uma escrita legível:
 

Algumas dificuldades encontradas, muitas plenas.
Não as reconheço, nem as procuro.

Devolveu o livro e a pena, sem perceber que tinha acabado de compor o mote da sua vida. Anos mais tarde, no auge da fama, acrescentava sempre esse pequeno verso aos autógrafos que dava, como se fosse um pacto privado com o mundo.


Quero atravessar e não conquistar. Não me conquistem a mim.

Holman levantou-se da cadeira, sem precisar de perguntar as horas. O monge deixara de alimentar o fogo. Os austríacos remexiam-se a dormir. Sem tocar em nada, sabia precisamente onde ficavam as janelas (podia tocar-lhes com a bengala se quisesse), pois um novo calor emanava agora dos vidros. O Sol estava a nascer. Já havia suficiente luz para iluminar o caminho dos seus companheiros. Era hora de partir.

 

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prelúdio da obra:
O Viajante Cego - como um Cego se Tornou no Maior Viajante da História
autor: Jason Roberts
título original: A Sense of the World, 2006
tradução: Sofia Serra
Casa das Letras - 1.ª edição, 2008

ler também:
http://www.deficienciavisual.pt/r-A_voyage_round_the_world-James_Holman.htm


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[5.Out.2012]
Publicado por MJA