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 Sobre a Deficiência Visual

 

Uma Casa na Pradaria

Laura Ingalls Wilder

-excerto-

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Ilustrações de Garth Williams para a 'Little House on the Prairie' (1953)
 

Maria, Carrie, a bebé Graça e a mãe tinham todas tido escarlatina. Como os Nelsons, que viviam do outro lado do ribeiro, também tiveram a doença, não houvera ninguém para ajudar o pai e Laura.

O médico fora lá a casa todos os dias e o pai não sabia como pagaria a conta. Mas pior do que tudo, muito pior, era o facto de a febre se ter concentrado nos olhos de Maria e a ter deixado cega.

Agora já se conseguia levantar, embrulhada em mantas, e sentar-se na velha cadeira de balanço de nogueira da mãe. Não chorara ao longo das semanas e semanas em que ainda conseguira ver um pouco, mas menos de dia para dia. Agora não conseguia ver nem a luz mais forte, mas continuava paciente e corajosa.

O seu bonito cabelo louro desaparecera. O pai cortara-lho por causa da febre e a sua pobre cabeça rapada parecia a de um rapaz. Os seus olhos azuis ainda eram bonitos, mas não sabiam o que se passava à frente deles e Maria nunca mais poderia utilizá-los para dizer a Laura, sem proferir uma palavra, o que estava a pensar.
 

*

Maria tinha necessidade de sair para apanhar um pouco de sol.

Por isso, quando terminava o trabalho da manhã, Laura acompanhava Maria no seu passeio pela planície. As flores primaveris estavam nascendo e as nuvens projetavam sombras sobre as encostas recobertas de relva.

Era engraçado lembrar que, quando eram menores, Maria, por ser mais velha, gostava de mandar, mas agora que tinham crescido, pareciam da mesma idade. Gostavam dos longos passeios, que faziam juntas ao vento e ao sol, colhendo violetas e rainúnculos e comendo os frutos da azedinha. Os botões graciosamente encurvados da azedinha, suas folhas em forma de trevo e seus finos pecíolos tinham um gosto acre.

— O gosto da azedinha é o gosto da primavera, disse Laura.

— É sim, parece-se com o gosto de essência de limão, Laura, corrigiu Maria. Antes de comer, ela perguntava sempre :

— Você olhou bem? Não tem nenhum bicho?

— Nunca tem bicho, protestou Laura. Esta planície é tão limpinha! Nunca houve um lugar tão limpo.

— Está bem, mas olhe de qualquer jeito. Não quero comer o único bicho que exista em todo o Território de Dakota.

Riam-se juntas. Maria estava tão feliz agora que quase sempre fazia brincadeiras como esta. Seu rosto estava tão sereno, protegido pelo chapeuzinho, seus olhos azuis tão claros e sua voz tão alegre, que nem parecia que ela vivia nas trevas.

Maria sempre fora boa. As vezes, ela era tão boa que Laura quase não podia agüentar. Mas agora ela estava diferente. Certa vez, Laura interpelou-a sobre o assunto.

— Você costumava procurar ser boazinha todo o tempo e era sempre. Às vezes eu ficava danada, tinha vontade de bater em você. Mas agora você é boa mesmo sem fazer força.

Maria estacou de repente:

— Laura, que horror! Você ainda me quer bater agora?

— Não, agora não, respondeu Laura sinceramente.

— De verdade mesmo? Você não está dizendo isto, só porque eu sou cega.

— Não, juro que não, Maria. Quase nunca penso na sua cegueira. Eu... eu fico contente de você ser minha irmã, queria ser como você. Mas acho que nunca conseguirei. Não entendo como é que você pode ser tão boa.

— Mas eu não sou, disse Maria. Bem que eu procuro ser, mas se você soubesse como eu fico revoltada e como me sinto má às vezes, se você pudesse ver como é que eu sou mesmo, por dentro, você não ia mais querer ser como eu.

— Eu posso ver como é que você é mesmo, por dentro. Está tão claro sempre. Você é sempre paciente e nunca é mesquinha.

— Eu sei por que você me queria bater. Era porque eu me estava mostrando. De verdade, eu não estava querendo ser boa. Estava-me mostrando boazinha, estava era sendo vaidosa e bem que merecia apanhar por causa disso.

Laura chocou-se com o que a irmã estava dizendo. Então, de repente, ela compreendeu que sempre soubera de tudo. Mas não era verdade, não no caso de Maria.

— Não, você não é assim, de verdade. Você é boa mesmo.

— "Somos todos terrivelmente maus e inclinados ao mal, como as fagulhas que sobem", disse Maria, citando uma passagem da Bíblia. Mas isto não tem importância.

— O quê?! gritou Laura.

— Quero dizer que acho que não devíamos pensar muito a nosso próprio respeito, se somos bons ou maus, explicou Maria.

— Mas meu Deus, como é que se pode ser bom sem pensar?

— Não sei, acho que não podemos mesmo. Não sei explicar direito o que eu quero dizer. Não é bem pensar demais, mas apenas saber. Basta a gente ter certeza da bondade de Deus.

Laura ficou parada, e Maria também, porque ela não tinha coragem de andar sem apoiar-se no braço da irmã para guiá-la. Ali ficou Maria de pé, no meio da imensa campina florida, agitada levemente pelo vento, e sob o imenso céu azul, percorrido por nuvens brancas, que ela não podia ver.

Todos sabem que Deus é bom, mas Laura pensava que Maria devia saber disso de uma maneira especial.

— Você sabe que Deus é bom, não sabe?

— Sei, sim, agora tenho absoluta certeza. "O Senhor é o meu Pastor, nada me faltará. Ele me deu campos frescos onde me deito, ele me levou até águas tranqüilas". Acho que este é o mais belo salmo.

Por que paramos aqui? Não estou sentindo o perfume das violetas.

— Nós viemos pelo charco dos búfalos, conversando, e vamos voltar por ele, respondeu Laura.

Na volta, Laura podia ver um bom pedaço de terra que subia da vegetação espessa do pântano até a pequena cabana do sítio. Parecia pouco maior que uma gaiola, com seu meio-telhado. O estábulo de adobe mal aparecia entre a vegetação. Mais adiante, estavam Ellen e os dois bezerros no pasto e, mais para leste, Papai estava plantando milho no solo arado de novo.

Ele tinha arroteado tudo quanto pudera, antes que o solo ficasse seco demais. Tinha passado a grade na terra arada no ano passado e semeado aveia. Agora, com um saco de sementes de milho suspenso do ombro, caminhava lentamente pela terra que acabara de arar.

— Papai está plantando milho, disse Laura. Vamos por aqui, pelo charco dos búfalos.

— Eu sei, respondeu Maria.

Ficaram paradas um instante, aspirando profundamente o perfume dasvioletas que subia espesso como o mel. O charco dos búfalos, perfeitamente redondo, parecia um prato, com mais ou menos um metro de profundidade, e estava cheio de violetas. Milhares, milhões de violetas, tantas que umas escondiam as outras.

Maria mergulhou o rosto nas violetas e sorveu profundamente o seu perfume. Seus dedos tocavam delicadamente as pétalas e depois escorregavam pelo pecíolo para colhê-las.

FIM

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Era o ano de 1878, e a corrida à terra era grande. Entre os muitos que partiram em busca de uma nova vida na nova terra estavam os Ingalls: Charles, a sua jovem mulher Caroline e as três filhas Mary, Laura e Carrie. Colocandos os seus escassos pertences dentro de uma carroça, depediram-se dos amigos e da família e seguiram o trilho do Oeste que os conduziria à sua nova casa em Plum Creek, nas planícies do Minnesota.
Os Ingalls, procurando o sonho Americano, chegam à conclusão de que têm que lutar por cada centímetro de terra em que tocam... por cada pedaço de terra que plantam. Lutar contra a doença, a natureza, os preconceitos locais, os rigores de um clima hostil.
Mary era a irmã mais velha de Laura. Aos 14 anos de idade, ficou seriamente doente. A sua doença, descrita como escarlatina e meningite, resultou num derrame que a deixou cega. Então, Laura tornou-se nos "olhos de Mary", descrevendo tudo para ela.
Em 1881, o Território do Dakota pagou os estudos de Mary na 'Iowa School for the Blind' in Vinton, Iowa. Graduou-se em 1889, e regressou a casa para morar com os pais. Como a maioria das mulheres cegas desse tempo, Mary nunca se casou e ficou com os pais até a morte deles. Depois, Mary passou a viver em casa da irmã mais nova.
Os 11 livros escritos por Laura Ingalls Wilder entre 1932 e 1943 - e que constituem a série "Little House on the Prairie" - baseiam-se nas suas memórias e desenham um retrato romantizado mas verdadeiro da sua infância e juventude e da vida dos pioneiros nas longínquas terras do Oeste americano de há mais de 100 anos atrás.  in FNAC e Wikipedia

 

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capa de 'Little House on the Prairie'
 

excertos de 'Nas Margens do Lago da Prata'  e
'Uma Pequena Cidade na Pradaria' livros 5 e 7 da série:

'Uma Casa Na Pradaria'
Laura Ingalls Wilder
1.ª edição, Mem Martins: Publicações Europa-América
título original: Little House on the Prairie
publ. Harper & Brothers -1932 a 1943
 


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[20.Dez.2016]
Publicado por MJA