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 Sobre a Deficiência Visual


Relatório Sobre Cegos

- cap. III de 'Heróis e Túmulos' -

Ernesto Sábato

imegem da capa de uma edição de "Sobre Héroes y Tumbas"
capa de "Sobre Héroes y Tumbas"
 

Introducción a Héroes Y Tumbas
de Astor Piazzolla 


Oh, deuses da noite! Oh, deuses das trevas,
do incesto e do crime, da melancolia e do suicídio!
Oh, deuses dos ratos e das cavernas, dos morcegos, das baratas!
Oh, violentos, imperscrutáveis deuses do sono e da morte!

 

I.

Quando começou isto que vai agora terminar com o meu assassínio? Esta feroz lucidez que agora tenho é como um farol e posso aproveitar um feixe de luz intensíssimo até vastas regiões da minha memória: vejo rostos, ratos num celeiro, ruas de Buenos Aires ou Argel, prostitutas e marinheiros; movo um foco de luz e vejo coisas mais longínquas: uma fonte na quinta, uma tarde muito quente, pássaros e olhos que furo com um prego. Talvez aí, mas quem sabe: pode ser muito mais atrás, em épocas que agora não recordo, em períodos remotíssimos de minha primeira infância. Não sei! Além disso, que importa?

Recordo perfeitamente, no entanto, os começos de minha investigação sistemática (a outra, a inconsciente, talvez a mais profunda, como posso sabê-lo?). Foi num dia de verão de 1947, ao passar em frente à Praça de Maio, pela Rua San Martin, na travessa do Município. Vinha distraído, quando de súbito ouvi uma campainha, uma campainha como de alguém que quisesse despertar-me de um sonho milenar. Eu caminhava, enquanto ouvia a campainha que tentava penetrar nos estratos mais profundos de minha consciência; ouvia-a, mas não a escutava. Até que, de repente, aquele som, ténue mas penetrante e obsessivo, pareceu tocar alguma zona sensível de meu eu, algum desses lugares em que a pele do eu é finíssima e de sensibilidade anormal: e despertei sobressaltado, como ante um perigo repentino e perverso, como se na obscuridade tivesse tocado com as minhas mãos a pele gelada de um réptil. Diante de mim, enigmática e dura, observando-me com todo o seu rosto, vi a cega que ali vendia bugigangas. Havia parado de tocar a sua campainha; como se a tivesse movido unicamente para mim, para despertar-me de meu insensato sono, para advertir-me que a minha existência anterior havia acabado, como uma estúpida etapa preparatória, e que agora deveria enfrentar a realidade. Imóvel, com o seu rosto abstracto dirigido para mim, eu paralisado como por uma aparição infernal mas frígida, ficámos assim durante esses instantes que não formam parte do tempo e dão acesso à eternidade. Tão logo minha consciência voltou a entrar na torrente do tempo, fugi.

Assim começou a etapa final de minha existência.

Compreendi, a partir daquele dia, que não era possível deixar transcorrer mais um só instante e que devia iniciar imediatamente a exploração daquele universo tenebroso.

Passaram-se vários meses, até que num dia daquele Outono produziu-se o segundo encontro decisivo. Eu estava em plena investigação, mas meu trabalho estava atrasado por uma inexplicável abulia, que agora penso ter sido seguramente uma forma falaz do pavor ao desconhecido.

Vigiava e estudava os cegos, no entanto.

Sempre me haviam preocupado e em várias ocasiões tive discussões sobre a sua origem, hierarquia, maneira de viver e condição zoológica. Apenas começava então a esboçar a hipótese da pele fria e já havia sido insultado por cartas e de viva voz por membros das sociedades vinculadas ao mundo dos cegos. E com essa eficácia, rapidez e misteriosa informação que sempre têm as lojas e seitas secretas; essas lojas e seitas que estão invisivelmente difundidas entre os homens e que, sem que o saibamos ou sem que cheguemos a suspeitar, nos vigiam permanentemente, nos perseguem, decidem o nosso destino, o nosso fracasso e até a nossa morte. Coisa que acontece em sumo grau com a seita dos cegos, que, para maior desgraça dos incautos, tem ao seu serviço homens e mulheres normais: em parte enganados pela Organização; em parte, como consequência de uma propaganda sentimentalóide e demagógica, e, por fim, em boa medida, por temor aos castigos físicos e metafísicos que recebem, segundo se murmura, os que se atrevem a indagar os seus segredos. Castigos que, diga-se de passagem, tive então a impressão de ter recebido parcialmente e a convicção de que continuaria a recebê-los, em forma cada vez mais espantosa e subtil; o que, sem dúvida por causa de meu orgulho, não teve outro resultado senão acentuar a minha indignação e o meu propósito de levar as minhas investigações até às últimas instâncias.

Se fosse um pouco mais néscio, poderia talvez gabar-me de ter confirmado com essas investigações a hipótese que desde jovem imaginei, sobre o mundo dos cegos, já que foram os pesadelos e alucinações da minha infância que me trouxeram a primeira revelação. Logo, à medida que fui crescendo, foi se acentuando a minha prevenção contra esses usurpadores, espécie de chantagistas morais que, coisa natural, abundam nos subterrâneos, por essa condição que os aparenta com os animais de sangue frio e pele resvaladiça que habitam covas, cavernas, sótãos, antigas vielas, canos, esgotos, poços, fossas negras, grutas profundas, minas abandonadas com silenciosas infiltrações de água; e alguns, os mais poderosos, em enormes covas subterrâneas, às vezes a centenas de metros de profundidade, como se pode deduzir de relatórios equívocos e reticentes de espeleólogos e procuradores de tesouros; suficientemente claros, no entanto, para os que conhecem as ameaças que pesam sobre os que tentam violar o grande segredo.

Antigamente, quando era mais jovem e menos desconfiado, embora convencido de minha teoria, resistia a verificá-la e mesmo a enunciá-la, porque esses preconceitos sentimentais que são a demagogia das emoções me impediam de atravessar as defesas erguidas pela seita, tanto mais impenetráveis quanto mais subtis e invisíveis, feitas de instruções aprendidas nas escolas e jornais, respeitadas pelo governo e pela polícia, propagadas pelas instituições de beneficência, as senhoras e os mestres. Defesas que impedem de se chegar até esses tenebrosos subúrbios onde os lugares-comuns começam a rarefazer-se mais e mais, e nos quais se começa a suspeitar da verdade.

Muitos anos tiveram de transcorrer para que eu pudesse ultrapassar as defesas exteriores. E assim, paulatinamente, com uma força tão grande e paradoxal como a que nos pesadelos nos faz caminhar até ao horror, fui penetrando nas regiões proibidas onde começa a reinar a obscuridade metafísica, vislumbrando aqui e ali, no começo indistintamente, como fugitivos e equívocos fantasmas, logo com maior e aterradora precisão, todo um mundo de seres abomináveis.

Já irei contar como alcancei esse pavoroso privilégio e como, depois de anos de busca e de ameaças, pude entrar no recinto onde se agita uma multidão de seres, dos quais os cegos comuns são apenas a manifestação menos impressionante.


II

Recordo muito bem aquele 14 de Junho: dia gélido e chuvoso. Vigiava o comportamento de um cego que trabalha no metropolitano em Palermo: um homem mais para o baixo, sólido, tez morena, sumamente vigoroso e muito mal-educado; um homem que percorre os vagões com uma violência mal contida, oferecendo esticadores para os colarinhos, entre uma compacta massa de gente amontoada. No meio dessa multidão, o cego avança violenta e rancorosamente, com uma das mãos estendida onde recebe os tributos que, com sagrado receio, lhe oferecem os infelizes empregados de escritórios, enquanto com a outra mão guarda os esticadores simbólicos: pois é impossível que alguém possa viver da venda real dessas varetas, já que alguém necessitará de um par de esticadores por ano ou por mês: mas ninguém, louco ou milionário, pode comprar uma dezena por dia. De modo que, como é lógico, e todo mundo assim o compreende, os esticadores para os colarinhos são meramente simbólicas, algo como o distintivo do cego, uma espécie de bandeira de corsário que o distingue do resto dos mortais, além da sua célebre bengala branca.

Vigiava, pois, a marcha dos acontecimentos, disposto a seguir esse indivíduo até ao fim para confirmar de uma vez por todas a minha teoria. Fiz inúmeras viagens entre a Plaza Mayo e Palermo, tratando de dissimular a minha presença nos terminais, porque temia despertar suspeitas da seita e ser denunciado como ladrão ou qualquer outra idiotice semelhante num momento em que meus dias eram de um valor incalculável. com certas precauções, pois, mantive-me em estreito contacto com o cego e quando por fim realizamos a última viagem da uma e meia, precisamente naquele 14 de Junho, resolvi seguir o homem até à sua guarida.

No terminal da Plaza Mayo, antes que o comboio fizesse a sua última viagem até Palermo, o cego desceu e se encaminhou até à saída que dá para a San Martin.

Começamos a caminhar por essa rua até à rua Cangallo.

Nessa esquina virou para a cidade baixa.

Tive que aumentar as minhas precauções, pois na noite invernosa e deserta não havia mais transeuntes senão o cego e eu, ou quase. De modo que o segui a prudente distância, levando em conta o ouvido que têm e o instinto que os adverte de qualquer perigo que ronde seus segredos.

O silêncio e a solidão tinham essa impressionante vigência que têm sempre de noite no bairro dos Bancos. Bairro muito mais silencioso e solitário, de noite, que qualquer outro; provavelmente por contraste, pela violenta azáfama dessas ruas durante o dia; pelo ruído, a inenarrável confusão, a pressa, a imensa multidão que ali se agita durante as horas de Escritório. Mas também, quase com certeza, pela solidão sagrada que reina nesses lugares quando o Dinheiro descansa, uma vez que os últimos empregados e gerentes se retiram, quando chega ao fim essa estafante e descabelada tarefa em que um pobre-diabo que ganha cinco mil pesos por mês maneja cinco milhões, e na qual verdadeiras multidões depositam com infinitas precauções pedaços de papel com propriedades mágicas que outras multidões retiram de outras janelinhas com precauções inversas. Processo todo fantasmagórico e mágico, pois, embora eles, os crentes, se julguem pessoas realistas e práticas, aceitam esse papelucho sujo onde, com muita atenção, se pode decifrar uma espécie de promessa absurda, em virtude da qual um senhor que nem sequer assina com sua própria mão se compromete, em nome do Estado, a dar não sei que coisa ao crente em troca do papelucho. E o curioso é que a esse indivíduo basta a promessa, pois ninguém, que eu saiba, jamais reclamou que se cumpra o compromisso; e ainda mais surpreendente é que em lugar desses papéis sujos se entrega geralmente outro papel mais limpo mas ainda mais disparatado, em que outro senhor promete que em troca desse papel entregará ao crente uma certa quantidade dos mencionados papeluchos sujos: algo assim como uma loucura ao quadrado. E tudo em representação de Algo que ninguém jamais viu e que dizem estar depositado em Alguma Parte, principalmente nos Estados Unidos, em grutas de Aço. E a prova de que toda essa história é coisa de religião é, em primeiro lugar, palavras como créditos e fiduciário.

Dizia, pois, que esses bairros, ao ficarem despojados da frenética multidão de crentes, nas horas nocturnas se tornam mais desertos de gente que nenhum outro, pois ali ninguém vive de noite, nem poderia viver, em virtude do silêncio que domina e da tremenda solidão dos gigantescos halls dos templos e dos grandes sótãos onde são guardados os incríveis tesouros. Enquanto isso, dormem ansiosamente, com pílulas e drogas, perseguidos por pesadelos de desastres financeiros, os poderosos homens que controlam essa magia. E, também pela óbvia razão de que nesses bairros não há alimentos, não há nada que permita a vida permanente de seres humanos, ou mesmo de ratos e baratas; pela extrema limpeza que existe nesses redutos do nada, onde tudo é simbólico e ainda mais, de papel; e mesmo esses papéis, que poderiam representar certo alimento para traças e outros bichos pequenos, são guardados em formidáveis recintos de aço, invulneráveis a qualquer espécie de seres vivos.

Em meio, pois, ao silêncio total que impera no bairro dos Bancos, segui o cego pela Cangallo até à cidade baixa. Seus passos ressoavam apagadamente e tomavam a cada instante uma personalidade mais secreta e mais perversa.

Assim descemos até à rua Leandro Alem e, depois de atravessar a avenida, nos encaminhamos até a zona do porto.

Tornei extrema minha cautela: por momentos pensei que o cego poderia ouvir meus passos e até minha respiração agitada.

O homem caminhava agora com uma segurança que me parecia aterradora, pois descartava a ideia simples de que não fosse verdadeiramente cego.

Mas o que mais me assombrou e acentuou meu temor foi que de repente pegasse novamente a esquerda, até o Luna Park. E digo que me atemorizou porque não era lógico, já que, se fosse esse seu plano desde o começo, não havia nenhum motivo para que, depois de cruzar a avenida, tivesse tomado a direita. E como a suposição de que o homem tivesse se enganado de caminho era radicalmente inadmissível, dada a segurança e rapidez com que se movia, restava a hipótese (temível) de que tivesse notado minha perseguição e estivesse tentando despistar-me. Ou, o que era infinitamente pior, tratando de preparar-me uma cilada.

Não obstante, a mesma tendência que nos induz a aproximarmo-nos de um abismo me conduzia a perseguir o cego e cada vez com maior determinação. Assim, já quase correndo (o que teria sido grotesco se não fosse tenebroso), podia-se ver um indivíduo de bengala branca e com o bolso cheio de esticadores, perseguido silenciosa mas freneticamente por outro indivíduo: primeiro pela Bouchard até o norte e logo, ao terminar o edifício do Luna Park, pela direita, como quem pensa descer até a zona portuária.

Então o perdi de vista porque, como é natural, eu o seguia a cerca de cinquenta passos.

Acelerei com desespero os passos, temendo perdê-lo, quando quase tinha (assim o pensei então) boa parte do segredo em minhas mãos.

Quase em disparada cheguei à esquina e dobrei bruscamente à direita, tal como havia feito o outro.

Espanto! O cego estava contra a parede, agitado, evidentemente à espera. Não pude evitar empurrá-lo para a frente. Agarrou-me então o braço com uma força sobre-humana e senti sua respiração contra meu rosto. A luz era escassa e mal consegui distinguir sua expressão; mas toda a sua atitude, seu arquejar, o braço que me apertava como tenazes, sua voz, tudo manifestava rancor e uma desapiedada indignação.

- Está me seguindo! - exclamou em voz baixa, mas como se gritasse.

Com asco (sentia seu hálito sobre meu rosto, cheirava sua pele húmida), assustado, murmurei monossílabos, neguei louca e desesperadamente, disse-lhe "o senhor está enganado", quase caí desmaiado de asco e prevenção.

Como podia ter notado? Em que momento? De que maneira? Era impossível admitir que mediante os recursos normais de um simples ser humano tivesse podido notar minha perseguição. Quê? Os cúmplices, talvez? Os invisíveis colaboradores que a seita tem distribuídos astutamente por todas as partes e em todas as posições e ofícios mais insuspeitos: criadas, professoras secundárias, senhoras respeitáveis, bibliotecárias, guardas de comboios? Sabe-se lá! Mas dessa forma confirmei, aquela madrugada, uma de minhas intuições sobre a seita.

Pensei tudo isso vertiginosamente enquanto lutava para libertar-me de suas garras.

Saí fugindo como pude e por muito tempo não tive coragem de prosseguir com minha pesquisa. Não só por temor, temor que sentia em grau intolerável, mas também por cálculo, pois imaginava que aquele episódio nocturno podia ter provocado sobre mim a mais estreita e perigosa vigilância. Teria de esperar meses e talvez anos, teria que despistar, deveria fazer crer que aquilo havia sido uma simples perseguição com objectivo de roubo.

Outro acontecimento me conduziu, mais de três anos depois, à grande pista e pude, por fim, entrar no reduto dos cegos.


III.

Há uma diferença fundamental entre os homens que perderam a vista por enfermidade ou acidente e os cegos de nascença. Devo a essa diferença o facto de ter penetrado em seus redutos, se bem que não tenha entrado nos antros mais secretos, de onde governam a Seita e, portanto, o Mundo, os grandes e desconhecidos hierarcas. Dessa espécie de subúrbio, mal cheguei a ter notícias, sempre reticentes e equívocas, sobre aqueles monstros e sobre os meios de que se valem para dominar o universo inteiro. Soube assim que essa hegemonia se realiza e se mantém (à parte o simples aproveitamento do sentimentalismo corrente) mediante textos anónimos, intrigas, o contágio de pestes, o controle dos sonhos e pesadelos, o sonambulismo e o tráfico de drogas. Basta recordar a operação à base de maconha e cocaína que se descobriu nos colégios secundários dos Estados Unidos, onde se corrompiam meninos e meninas desde os onze e doze anos de idade para tê-los sob servidão incondicional e absoluta. A investigação, claro, terminou onde deveria começar de verdade: no umbral inviolável. Quanto ao domínio mediante os sonhos, nem vale a pena demonstrar que para isso a Seita tem a seu serviço todo o exército de videntes, de bruxas de bairro, de curandeiros, benzedeiras, cartomantes e espiritistas: muitos deles, a maioria, são meros farsantes; mas outros têm autênticos poderes e, o que é curioso, costumam dissimular esses poderes sob a aparência de certo charlatanismo, para melhor dominar o mundo que os rodeia.

Se, como dizem, Deus tem o poder sobre o céu, a Seita tem o domínio sobre a terra e sobre a carne. Ignoro se, em última instância, essa organização tem de prestar contas, mais cedo ou mais tarde, ao que se poderia chamar de Potência Luminosa; mas, enquanto isso, o óbvio é que o universo está sob seu poder absoluto, poder de vida e morte, que se exerce mediante a peste ou a revolução, a enfermidade ou a tortura, o engano ou a falsa compaixão, a mistificação ou os escritos anónimos, as professorinhas ou os inquisidores.

Não sou teólogo e não estou em condições de crer que esses poderes infernais possam ter explicação em alguma retorcida Teodicéia. Em todo caso, isso seria teoria ou esperança. O outro, o que vi e sofri, isso são factos.

Mas voltemos às diferenças.

Ou melhor, não: há muito ainda que dizer sobre esse assunto de poderes infernais, porque talvez algum ingénuo possa pensar que se trata de uma simples metáfora, não de uma crua realidade. Sempre me preocupou o problema do mal, quando ainda criança ficava ao lado de um formigueiro armado de um martelo e começava a matar formigas a torto e a direito. O pânico se apoderava das sobreviventes, que corriam em qualquer sentido. Logo, com a mangueira, eu punha água: inundação. Ficava imaginando as cenas lá dentro, as obras de emergência, as corridas, as ordens e contra-ordens para salvar depósitos de alimentos, ovos, segurança das rainhas, etc. Finalmente, com uma pá, removia tudo, abria grandes brechas, buscava as tocas e destruía tudo: catástrofe geral. Depois ficava pensando sobre o sentido geral da existência e sobre nossas próprias inundações e terramotos. Assim fui elaborando uma série de teorias, pois a ideia de que fôssemos governados por um Deus omnipotente, omnisciente e bondoso parecia-me tão contraditória que nem sequer acreditava que pudesse ser levada a sério. Ao chegar a época da quadrilha de assaltantes, já havia elaborado as seguintes possibilidades:

1.° Deus não existe.
2.° Deus existe e é um canalha.
3.° Deus existe, mas às vezes dorme: seus pesadelos são nossa existência.
4.° Deus existe, mas tem acessos de loucura: esses acessos são nossa existência.
5.° Deus não é omnipresente, não pode estar em todas as partes. Às vezes está ausente. Em outros mundos? Em outras coisas?
6.° Deus é um pobre-diabo, com um problema complicado demais para suas próprias forças. Luta com a matéria como um artista com sua obra. Algumas vezes, em alguns momentos, consegue ser um Goya, mas geralmente é um desastre.
7.° Deus foi derrotado antes da História pelo Príncipe das Trevas. Derrotado, convertido em suposto Diabo, é duplamente desprestigiado, já que se lhe atribui este universo calamitoso.

Eu não inventei todas essas possibilidades, embora naquela época assim o cresse; mais tarde, verifiquei que algumas haviam constituído tenazes convicções dos homens, sobretudo a hipótese do Demónio triunfante. Durante mais de mil anos homens intrépidos e lúcidos tiveram de enfrentar a morte e a tortura por terem desvelado o segredo. Foram aniquilados e dispersados, já que, supõe-se, as forças que dominam o mundo não irão deter-se em pequenezas quando são capazes de fazer o que fazem geralmente. E assim, pobres-diabos ou génios, foram igualmente atormentados, queimados pela Inquisição, enforcados, esfolados vivos, povos inteiros foram dizimados e dispersados. Da China à Espanha, as religiões de Estado (cristãs ou masdeístas) limparam o mundo de qualquer intento de revelação. Pois, mesmo quando algumas das seitas não puderam ser aniquiladas, converteram-se por sua vez em nova fonte de mentira, tal como sucedeu com os maometanos.

Vejamos o mecanismo: segundo os gnósticos, o mundo sensível foi criado por um demónio chamado Jeová. Por longo tempo a Suprema Deidade deixa que trabalhe livremente no mundo, mas por fim envia seu Filho para que temporariamente habite no corpo de Jesus, para assim libertar o mundo dos falazes ensinamentos de Moisés. Muito bem:

Maomé pensava, como alguns desses gnósticos, que Jesus era simples ser humano, que o Filho de Deus havia descido sobre ele no baptismo e o abandonara na Paixão, já que senão seria inexplicável o famoso grito: "Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?" E, quando os romanos e os judeus escarnecem de Jesus, estão escarnecendo de uma espécie de fantasma. Mas o grave é que desse modo (e em forma mais ou menos similar acontece com as outras seitas rebeldes) não se revelou a mistificação que foi, isso sim, fortalecida. Porque, para as seitas cristãs que sustentavam que Jeová era o Demónio e que com Jesus se inicia a nova era, como para os maometanos, se o Príncipe das Trevas reinou até Jesus (ou até Maomé), agora, por outro lado, derrotado, voltou aos seus infernos. Como se compreende, essa é uma dupla mistificação: quando se debilita a grande mentira, esses pobres-diabos a consolidam.


IV

Mas voltemos de uma vez por todas às diferenças.

Existe uma disparidade essencial entre os cegos de nascença e os que perderam a vista por enfermidade ou acidente. Evidentemente, os noviços adquirem com o tempo os atributos da raça, em parte pelo mesmo mecanismo que mimetiza os judeus em meio a uma raça que os odeia e despreza. Porque, e isso é um facto singular, o ódio que os cegos têm pelos que vêem é superado pelo que têm aos noviços.

A que se deverá esse fenómeno? No começo, pensei que poderia ser motivado por causas semelhantes às que provocam o rancor entre países vizinhos, ou entre os próprios compatriotas: já se sabe que as guerras mais cruéis são as civis e bastaria recordar as lutas civis na Argentina do século passado ou a guerra espanhola. Uma professorinha, Norma Gladys Pugliese, a qual utilizei durante alguns meses para estudar certas reacções de intelectualóides, pensava, naturalmente, que o ódio e as guerras entre os homens eram devidos ao mútuo desconhecimento e à ignorância geral; tive de explicar-lhe que a única forma de manter a paz entre os seres humanos era mediante a ignorância recíproca e o desconhecimento, únicas condições em que esses bichos são relativamente bondosos e justiceiros, já que todos somos bastante equânimes em relação às coisas que não nos interessam. com alguns livros de história e com a página policial dos jornais em mãos, via-me obrigado a explicar o á-bê-cê da condição humana a essa pobre coitada que fora educada sob a direcção de distintas educadoras e que acreditava, mais ou menos, que a alfabetização resolveria o problema geral da humanidade: momento em que eu lhe recordava que o povo mais alfabetizado do mundo era o que havia instaurado os campos de concentração para a tortura em massa e a cremação de judeus e católicos. com o resultado, quase sempre, de levantar-se da cama, indignada comigo, em lugar de indignar-se com os alemães: já que os mitos são mais fortes que os factos que tentam destruí-los, e o mito do ensino primário na Argentina, por disparatado e cómico que pareça, resistiu e resistirá ao ataque de qualquer quantidade de sátiras e demonstrações.

Mas, voltando ao problema que nos interessa, reflecti mais tarde, quando conheci e estudei melhor a Seita, que o decisivo nesse rancor contra os noviços é o orgulho de casta e, como consequência, o ressentimento contra os que tentam, e de certa forma conseguem, aceder a ela.

Isso, claro, não é privativo dos cegos, já que também ocorre nas classes altas da sociedade, onde só com muito tempo e caras viradas se admitem aqueles que, por sua grande fortuna e pelo casamento dos filhos, acabam por ingressar no estrato superior: há um subtil desprezo, mas esse mero desprezo logo vai se mesclando, pouco a pouco, a um crescente ressentimento; talvez porque dessa forma, por essa lenta mas firme invasão, não estão seguros e encouraçados como imaginavam e porque, em definitivo, começam assim a experimentar uma paradoxal sensação de inferioridade.

Finalmente, também influi o facto de serem surpreendidos em seus segredos por seres que até o dia anterior haviam sido suas vítimas ignorantes e objectos de seus actos mais desapiedados. Testemunhas incómodas, que, embora não tenham a menor probabilidade de voltar a seu mundo de origem, de qualquer forma descobrem, assombradas, as ideias e os sentimentos desses seres que haviam imaginado ser o cúmulo do desamparo.

Tudo isso, no entanto, é análise, e, o que é pior, análise com palavras e conceitos que só valem para nós. A rigor, temos tanta possibilidade de entender o universo dos cegos como o dos gatos ou o das serpentes. Isto é: os gatos são independentes, são aristocráticos e traiçoeiros, são inseguros; mas na verdade todos esses conceitos têm um valor relativo, pois estarmos aplicando conceitos e valorizações humanas a entes incomensuráveis connosco: da mesma forma que é impossível aos homens imaginar deuses que não tenham certas características humanas, até o grotesco ponto que os deuses gregos tinham cornos.


V.

Conto agora como entrou em jogo o tipógrafo Celestino Iglesias e como cheguei à grande pista. Mas antes quero dizer quem sou, de que me ocupo, etc.

Chamo-me Fernando Vidal Olmos, nasci em 24 de Junho de 1911 em Capitán Olmos, vilarejo da província de Buenos Aires que leva o nome de meu tetravô. Meço um metro e setenta e. oito, peso cerca de setenta quilos, olhos cinza-esverdeados, cabelo liso e encanecido. Sinais particulares: nenhum.

Poder-se-ia perguntar por que diabos faço essa descrição de registro civil. Nada existe de casual no mundo dos homens.

Há um sonho que se repetia muito em minha infância: via uma criança (e essa criança, facto curioso, era eu mesmo, e me via e observava como se fosse outro) que fazia em silêncio uma brincadeira que eu não chegava a entender. Eu a observava com cuidado, tentando captar o sentido de seus gestos, de seus olhares, de palavras que murmurava. E de repente, olhando-me gravemente, dizia-me: observo a sombra dessa parede no chão, e se essa sombra se move não sei o que poderá acontecer. Havia em suas palavras uma sóbria mas horrenda expectativa. E então eu também começava a controlar a sombra com pavor. Não se tratava, é inútil dize-lo, do deslocamento normal que a sombra pudesse ter com o simples movimento do sol: era OUTRA COISA. E, assim, eu também começava a observar com ansiedade. Até que notava que a sombra começava a mover-se, lenta mas perceptivelmente. Acordava suando e gritando. Que era aquilo? Que advertência? Que símbolo? Deitava-me toda noite com temor do sonho. E cada manhã, ao acordar, meu peito se enchia de alívio ao comprovar que mais uma vez havia escapado daquele perigo. Outras noites, no entanto, chegava o momento terrível: novamente via a criança, a parede e a sombra; novamente a criança me olhava com gravidade, novamente pronunciava suas estranhas palavras e novamente, enfim, depois de observar com ansiosa expectativa a sombra da parede, eu via que começava a mover-se e a deformar-se. Acordava então suando e aos gritos.

O sonho me atormentou durante anos, pois compreendia que, como quase todos os sonhos, devia ter um sentido oculto e que, nesse caso, era o anúncio de algo que alguma vez teria de acontecer-me. Pois bem: não sei se aquele sonho foi o anúncio do que mais tarde me aconteceu ou se foi seu começo simbólico. A primeira vez foi há muitos anos, quando eu tinha menos de vinte anos e chefiava uma quadrilha de assaltantes (talvez conte algo sobre essa experiência). Tive de repente a revelação de que a realidade podia começar a deformar-se se não concentrasse toda a minha vontade para mantê-la estável. Temia que o mundo que me rodeava pudesse começar a qualquer momento a mover-se, a deformar-se, primeiro lenta e logo bruscamente, a desagregar-se, a transformar-se, a perder todo o sentido. Como a criança do sonho concentrei toda a minha força olhando essa espécie de sombra que é a realidade que nos rodeia, sombra de alguma estrutura ou parede que não nos é dado contemplar. E de repente (estava em meu quarto de Avellaneda, felizmente só, espichado na cama) vi, com horror, que a sombra começava a mover-se e que o antigo sonho começava a ocorrer na realidade. Senti uma espécie de vertigem, perdi os sentidos e afundei num caos, mas ao final consegui voltar à tona com enorme esforço e comecei a juntar os pedaços de realidade que pareciam querer ir à deriva. Uma espécie de âncora. Isso: como se me visse obrigado a ancorar a realidade, mas como se o barco fosse composto de muitos pedaços separáveis e fosse necessário primeiro juntá-los todos e logo lançar uma âncora enorme para que o todo não fosse à deriva. Por infelicidade, o episódio voltou a repetir-se, e às vezes com força maior. De repente sentia que começava o deslizamento e a desagregação, mas, como eu já conhecia os sintomas, não me deixava apanhar, tal como me havia acontecido na primeira vez, e de imediato começava a trabalhar com toda a minha energia. As pessoas não compreendiam o que se passava comigo, viam-me concentrar-me, com meu olhar fixo e alheio, e pensavam que eu estava ficando louco, sem compreender que era o contrário, precisamente o contrário, pois graças àquele esforço conseguia manter a realidade em seu lugar e em sua forma. Mas às vezes, por mais intensos que fossem meus esforços, a realidade começava a desagregar-se pouco a pouco, a deformar-se, como se fosse de borracha e enormes tensões a solicitassem a partir das extremidades (de Sírio, do centro da Terra, de todas as partes): um rosto começava a inchar, de cada lado se inflava um balão, os olhos se juntavam pouco a pouco, a boca aumentava até rebentar, enquanto uma contorção horrível ia desfigurando o rosto.

Seja como for, aqueles momentos me assustavam, e me atormentava essa necessidade de manter minha mente desperta, atenta, vigilante e enérgica. Súbitas vezes, desejava que me encerrassem num manicómio para descansar, pois lá ninguém tem a obrigação de manter a realidade como se pretende que seja. Como se lá se pudesse dizer (e certamente dizem): agora, eles que se arranjem.

Mas o pior não acontecia ao meu redor, mas sim em meu interior, porque meu próprio eu começava de repente a deformar-se, a estirar-se, a metamorfosear-se. Meu nome é Fernando Vidal Olmos, e essas três palavras são como um selo, como uma garantia de que sou "algo", algo bem definido: não só pela cor de meus olhos, por minha estatura, por minha idade, por minha data de nascimento e meus pais (isto é, por esses dados que aparecem na carteira de identidade), mas também por algo mais profundo de índole espiritual: por um conjunto de lembranças, de sentimentos, de ideias que dentro da gente mantêm a estrutura desse "algo", que é Fernando Vidal e não o carteiro ou açougueiro. Mas o que impede que nesse corpo tabulado em meu certificado de reservista não possa de repente, em virtude de algum cataclismo, habitar a alma do porteiro ou o espírito de Sade? Há alguma relação inviolável, por acaso, entre meu corpo e minha alma? Sempre me pareceu fantástico que alguém possa crescer, ter ilusões, sofrer desastres, ir à guerra, deteriorar-se espiritualmente, mudar suas ideias, transformar seus sentimentos e no entanto continuar recebendo o mesmo nome: Fernando Vidal. Tem algum sentido? Ou é verdade que, apesar de tudo, existe algum fio, infinitamente extensível mas milagrosamente unitário, que através dessas mudanças e catástrofes mantenha a identidade do eu? Não sei o que acontecerá com os outros. Só posso dizer que em mim essa identidade se perde de repente e que essa deformação do eu logo alcança proporções imensas: grandes regiões de meu espírito começam a dilatar-se (às vezes chego a sentir a pressão física de meu corpo, em minha cabeça principalmente), avançam como silenciosos pseudópodes, cegos e sigilosos, até outras regiões da raça e finalmente até escuras e antigas regiões zoológicas; uma lembrança começa a crescer, pouco a pouco vai deixando de ser aquele rumor da Dança das libélulas que alguma noite em minha infância ouvi num piano, vai-se tornando logo uma música cada vez mais estranha e desorbitada, logo se converte em gritos e gemidos, finalmente em uivos atrozes, logo em badaladas que me atordoam os ouvidos e, coisa ainda mais estranha, começam a transformar-se em gostos ácidos e repugnantes em minha boca, como se do ouvido passassem à garganta, e o estômago se contrai em convulsões de vómito, enquanto outros ruídos, outras lembranças, outros sentimentos, vão sofrendo metamorfoses análogas. E pensando às vezes que talvez seja verdade a reencarnação e que nos rincões mais ocultos de nosso eu dormem lembranças daqueles seres que nos precederam, assim como conservamos restos de peixe ou réptil, dominados pelo novo eu e pelo novo corpo, mas prontos a despertar e sair quando as forças, as tensões, os arames e parafusos que mantêm o eu actual, por alguma causa que desconhecemos, se afrouxam e cedem, e as feras e animais pré-históricos que em nós habitam saem em liberdade. E isso que ocorre toda noite, enquanto dormimos, torna-se incontrolável e começa a dominar-nos também em pesadelos que se desenrolam à luz do dia.

Mas enquanto minha vontade me responde ainda sinto certa segurança, porque sei que graças a ela posso sair do caos e reorganizar meu mundo: minha vontade é poderosa, quando funciona. O pior é quando sinto que meu eu se desagrega também no que se refere à vontade. É como se a vontade ainda me pertencesse, mas partes do corpo ou do sistema que a transmitem, não. Ou como se o corpo fosse meu, mas "algo" se interpusesse entre meu corpo e minha vontade. Exemplo: quero mexer o braço, mas o braço não me obedece. Como se as linhas de comunicação entre meu cérebro e meu braço estivessem interrompidas. Muitas vezes me aconteceu isso, como se eu fosse um território devastado por um terramoto, com grandes brechas e com os fios telefónicos cortados. Nesses casos, tudo pode acontecer: não há polícia, não há exército. Qualquer calamidade pode se produzir, qualquer saque ou depredação. Como se meu corpo pertencesse a um outro homem e eu, impotente e mudo, observasse como começam a se produzir naquele território alheio movimentos suspeitos, estremecimentos que anunciam uma nova convulsão, até que pouco a pouco, crescentemente, a catástrofe volta a assenhorear-se de meu corpo e finalmente de meu espírito.

Conto tudo isso para que me compreendam.

E porque muitos dos episódios que relatarei, de outra forma seriam incompreensíveis e inacreditáveis. Mas aconteceram em boa medida graças a essa ruptura catastrófica de minha personalidade; não apesar dela, senão precisamente graças a ela.


VI.

Este relatório é destinado, depois de minha morte, que se aproxima, a um instituto que julgue ser interessante prosseguir as investigações sobre este mundo que até hoje permaneceu inexplorado. Como tal, limita-se aos FACTOS como me aconteceram. O mérito que tem, a meu ver, é o de sua absoluta objectividade: quero falar de minha experiência como um explorador pode falar de sua expedição ao Amazonas ou à África central. E ainda que, como é natural, a paixão e o rancor muitas vezes possam confundir-me, minha vontade pelo menos é de permanecer exacto e de não me deixar arrastar por essa espécie de sentimentos. Tive experiências espantosas, mas precisamente por isso mesmo desejo ater-me aos factos, embora esses factos projectem uma luz desagradável sobre minha vida. Dito isso, ninguém em perfeito juízo poderia sustentar que o objectivo destes papéis seja o de despertar simpatia em relação à minha pessoa.

Eis aqui, por exemplo, um dos factos desagradáveis que, como mostra minha sinceridade, vou confessar: não tenho nem nunca tive amigos. Senti paixões, naturalmente; mas jamais senti afecto por alguém, nem creio que alguém o tenha sentido por mim.

Mantive relações, no entanto, com muita gente. Tive "conhecidos", como se costuma dizer com essa palavra tão equívoca.

E um desses conhecidos, muito importante para o que se segue, foi um espanhol magro e taciturno chamado Celestino Iglesias.

Eu o vi pela primeira vez em 1929, num centro anarquista de Avellaneda chamado Amanecer; o mesmo centro onde conheci, pela mesma época, Severino di Giovanni, um ano antes de seu fuzilamento. Eu frequentava os locais acráticos porque já tinha o vago propósito de organizar, como efectivamente organizei, mais tarde, uma quadrilha de assaltantes; e, ainda que nem todos os anarquistas fossem pistoleiros, entre eles encontrava-se todo tipo de aventureiros, niilistas e, por fim, esse tipo de inimigo da sociedade que sempre me atraiu. Um desses indivíduos se chamava Osvaldo R. Podestá, que participou do assalto ao Banco San Martin e que durante a guerra espanhola foi metralhado pelos próprios vermelhos, perto do porto de Tarragona, quando se dispunha a fugir da Espanha com uma lancha carregada de dinheiro e jóias.

Conheci Iglesias por intermédio de Podestá: como se um lobo me apresentasse um cordeiro. Pois Iglesias era um desses anarquistas bonachões, incapaz de matar uma mosca: era pacifista, era vegetariano (por sua repugnância em viver da morte de um ser vivo) e tinha esse género de fantástica esperança de que o mundo iria ser algum dia uma carinhosa comunidade de livres e fraternais colaboradores. Esse Novo Mundo falaria uma só língua e essa língua seria o esperanto. Razão pela qual aprendeu penosamente essa espécie de aparato ortopédico, que não somente é horrível (o que para uma língua universal não seria o pior) mas tampouco é falada praticamente por ninguém (o que para uma língua universal é ruinoso). E assim, em cartas que escrevi laboriosamente conferindo a língua, comunicava-se com algumas das quinhentas pessoas que no resto do universo pensavam como ele.

Facto curioso, frequente entre os anarquistas: um ser angelical como Iglesias podia, no entanto, dedicar-se à falsificação de dinheiro. Eu o vi por uma segunda vez num sótão da Calle Boedo, onde Osvaldo R. Podestá tinha todos os elementos para esse tipo de operações e onde Iglesias fazia serviços de confiança.

Naquele tempo tinha uns trinta e cinco anos, era enxuto e muito moreno, baixinho, seco, como muitos espanhóis que parecem ter vivido sobre uma terra calcinada, quase sem se alimentar, ressequidos pelo sol implacável do verão e pelo frio desapiedado do Inverno. Era generosíssimo, jamais tinha um centavo nos bolsos (tudo o que ganhava e o dinheiro falsificado eram para o sindicato ou para as turvas actividades de Podestá), sempre abrigava em seu quartinho alguns desses valdevinos que se costuma encontrar nos meios anarquistas, e ainda que fosse incapaz de matar uma mosca havia passado a maior parte de sua existência nos cárceres da Espanha e da Argentina. Iglesias, um pouco como Norma Pugliese, imaginava que todos os males da humanidade iriam resolver-se com uma mescla de Ciência e Mútuo Conhecimento. Tinha de lutar contra Forças Obscuras que se opunham, há séculos, ao triunfo da Verdade. Mas o Progresso das Ideias era incessante e mais tarde ou mais cedo o Amanhecer era inevitável. Enquanto isso, tinha também de lutar contra as forças organizadas do Estado, tinha de denunciar a Impostura Clerical, tinha de visar o Exército e promover a Educação popular.

Fundavam-se bibliotecas nas quais não só se encontravam as obras de Bakunine ou Kropotkine, mas também os romances de Zola e volumes de Spencer e Darwin, já que até a teoria da evolução lhes parecia subversiva, e um estranho vínculo unia a história dos Peixes e Marsupiais com o Triunfo das Novas Ideias. Tampouco faltava a Energética, de Ostwald, essa espécie de bíblia termodinâmica em que Deus aparecia substituído por uma entidade leiga, mas também inexplicável, chamada Energia, que, como seu predecessor, tudo explicava e tudo podia, com a vantagem de estar relacionada com o Progresso e a Locomotiva. Homens e mulheres que se encontravam nessa biblioteca logo se uniam em livre matrimónio e engendravam filhos aos quais chamavam Luz, Liberdade, Nova Era ou Giordano Bruno. Filhos que, na maior parte das vezes, em virtude desse mecanismo que lança os filhos contra os pais, ou, em outras, simplesmente .devido à complicada e geralmente dialéctica Marcha do Tempo, convertiam-se em meros burgueses, em fura-greves e até mesmo em ferozes perseguidores do Movimento, como era o caso do renomado comissário Giordano Bruno Trenti.

Deixei de ver Iglesias quando começou a guerra da Espanha, pois, como muitos outros, foi lutar sob a bandeira da Federação Anarquista Ibérica. Em 1938 refugiou-se na França, onde certamente teve oportunidade de apreciar os sentimentos fraternais dos cidadãos desse país e as vantagens da Vizinhança e do Conhecimento sobre a Distância e a Ignorância Mútua. De lá, pôde finalmente voltar à Argentina. E aqui voltei a encontrá-lo, dois anos depois do episódio do metropolitano que já relatei. Eu estava vinculado a um grupo de falsificadores e, como necessitávamos de um homem de confiança que tivesse experiência, pensei em Iglesias. Procurei-o entre antigas relações, entre os grupos anarquistas de La Plata e Avellaneda, até que dei com ele: trabalhava como tipógrafo na Gráfica Kraft.

Achei-o bastante mudado, principalmente por seu defeito físico: haviam-lhe cortado a perna direita durante a guerra. Estava mais esquálido e reservado do que nunca.

Vacilou, mas finalmente aceitou, quando lhe disse que esse dinheiro seria empregado para ajudar um grupo anarquista na Suíça. Não era difícil convencê-lo de qualquer coisa que se referisse à causa, por utópico que parecesse à primeira vista e, principalmente, se fosse utópico. Sua ingenuidade era a toda a prova: não havia trabalhado para um cretino como Podestá? Vacilei um momento com respeito à nacionalidade dos anarquistas, mas decidi-me por fim pela Suíça em virtude da enormidade do disparate, já que para uma pessoa normalmente constituída crer em anarquistas suíços é como aceitar a existência de ratos numa caixa-forte. A primeira vez que passei por esse país tive a sensação de que era varrido todas as manhãs pelas donas-de-casa (jogando, é claro, a terra na Itália). E foi tão poderosa a impressão que repensei a mitologia nacional. As anedotas são essencialmente verdadeiras porque são inventadas, porque são inventadas pedaço por pedaço, para ajustá-las exactamente a um indivíduo. Algo semelhante sucede com os mitos nacionais, que são fabricados intencionalmente para descrever a alma de um país, e assim me ocorreu naquela circunstância que a lenda de Guilherme Tell descrevia com fidelidade a alma suíça: quando o arqueiro acertou a flecha na maçã, certamente bem no meio da maçã, perdeu-se a única oportunidade histórica de uma grande tragédia nacional. Que se pode esperar de tal país? Uma raça de relojoeiros, na melhor das hipóteses.


VII.

Poder-se-ia pensar na incrível quantidade de casualidades que me levaram a entrar, por fim, no universo dos cegos: se não tivesse estado em contacto com os anarquistas, se entre esses anarquistas não houvesse encontrado um homem como Iglesias, se Iglesias não tivesse sido falsificador de dinheiro, se, mesmo sendo-o, não tivesse sofrido aquele acidente na vista, etc. Para que continuar? Os acontecimentos são ou parecem casuais segundo o ângulo sob o qual se observa a realidade. De um ângulo oposto, por que não supor que tudo o que nos acontece obedece a causas finais? Os cegos me obcecaram desde pequeno e até onde chega minha memória recordo que sempre tive o impreciso mas pertinaz propósito de penetrar algum dia no universo em que habitam. Se não tivesse tido Iglesias à mão, teria imaginado algum outro meio, porque toda a força de meu espírito se dirigiu a esse objectivo. E quando nos propomos enérgica e sistematicamente um fim que está dentro das possibilidades do mundo determinado, quando se mobilizam não só as forças conscientes de nossa personalidade como também as mais poderosas de nosso subconsciente, acaba-se por criar um campo de forças telepáticas a nosso redor que impõe a outros seres nossa vontade, e até ocorrem episódios que na aparência são casuais, mas que a rigor são determinados pela invisível potência de nosso espírito. Em várias ocasiões, depois de meu fracasso com o cego do metropolitano, pensei em como seria útil uma espécie de indivíduo intermediário entre os dois reinos, alguém que, por ter perdido a vista num acidente, participasse no entanto, ainda que durante um tempo, de nosso universo de videntes e simultaneamente já tivesse um pé no outro território. E quem sabe se essa ideia, cada dia mais obcecante, não foi se apoderando de meu subconsciente até actuar por fim, como disse, em forma de invisível mas poderoso campo magnético, determinando em algum dos seres que nele entram o que eu mais desejava nesse momento de minha vida: o acidente da cegueira. Examinando as circunstâncias em que Iglesias manipulava aqueles ácidos, recordo que a explosão foi precedida pela minha entrada no laboratório e pela repentina, quase pela violenta ideia de que se Iglesias se aproximasse do bico de Bunsen ocorreria uma explosão. Facto premonitório? Não sei. Quem sabe se aquele acidente não foi forçado de alguma maneira por meu desejo, se aquele acontecimento que logo pareceu um típico fenómeno do indiferente universo material não foi, pelo contrário, um típico fenómeno do universo em que nascem e crescem nossas mais turvas obsessões. Eu mesmo não vejo claramente aquele episódio, porque atravessava um desses períodos em que viver me custava um grande esforço, em que me sentia como o capitão de um barco em meio a uma tempestade, varridas as pontes pelos furacões, rangendo o casco pelo torvelinho, tratando de manter-me lúcido para que tudo se mantivesse em seu lugar, toda a minha vontade e minha tensão aplicadas a manter a rota em meio às oscilações e às trevas. Logo caía prostrado em meu catre, sem vontade e com grandes vazios em minha memória, como se meu espírito houvesse sido devastado pelo temporal. Necessitava de dias para que tudo voltasse um pouco à normalidade, e os seres e os episódios de minha vida real apareciam ou reapareciam paulatinamente, desolados e tristes, desmantelados e cinzentos à medida que as águas se acalmavam.

Depois desses períodos, eu voltava à vida normal com vagas reminiscências de minha existência anterior. E assim, pouco a pouco, reapareceu Iglesias em minha memória, e custei a reconstruir os episódios que culminaram com a explosão.


VIII.

Desenvolveu-se um longo processo até que pude vislumbrar os resultados. Já que, como é fácil imaginar, essa região intermediária que separa os dois mundos está eivada de equívocos, de ensaios, de ambiguidades: dada a índole secreta e atroz do universo de cegos, é natural que ninguém possa aceder a ele sem uma série de subtis transformações.

Vigiei de perto esse processo e não me separei de Iglesias senão o indispensável: era minha oportunidade mais segura de infiltrar-me no mundo proibido e não pretendia fracassar em virtude de erros grosseiros. Tratei então de permanecer a seu lado na medida do possível, mas também na do insuspeitável. Eu cuidava dele, lia algum livro de Kropotkine, falava sobre o Apoio Mútuo, mas sobretudo observava e esperava. Em meu quarto coloquei um enorme cartaz visível da cabeceira de minha cama, que dizia:

OBSERVAR

ESPERAR

Dizia a mim mesmo: mais cedo ou mais tarde têm de aparecer, deve haver um instante na vida do novo cego em que ELES devem vir em sua busca. Porém esse instante (pensava, também, com inquietude), esse instante podia não estar muito determinado; pelo contrário, era muito provável que parecesse algo corriqueiro e mesmo rotineiro. Era necessário estar atento aos detalhes mais fúteis, vigiar qualquer pessoa que dele se aproximasse, por insuspeito que parecesse à primeira vista, e, principalmente nesse caso, era mister interceptar cartas e chamados telefónicos, etc. Como se vê, o programa era exaustivo e quase labiríntico. Basta pensar num só detalhe para se ter uma ideia da ansiedade que naqueles dias me consumia: outra pessoa da pensão podia ser o intermediário, inclusive de boa fé, da Seita; e esse indivíduo poderia ver Iglesias em momentos em que me era impossível controlá-lo, podia até mesmo esperá-lo no banheiro. Em longas noites de reflexão em meu quarto, elaborei planos tão detalhados de observação que para realizá-los teria sido necessária uma organização de espionagem tão grande como a que um país requer numa guerra; com o perigo, sempre existente, da contra-espionagem, já que é fartamente sabido que todo espião pode ser um duplo espião, e contra isso ninguém está a salvo. Por fim, ao cabo de longas análises, nas quais pensei que poderia enlouquecer, acabava por simplificar e me restringir ao que me era possível executar. Era necessário ser minucioso e paciente, ter coragem e luvas de pelica: minha frustrada experiência com o sujeito dos esticadores para os colarinhos me havia mostrado que nada conseguiria pelo caminho mais expeditivo e rápido de um ataque frontal.

Escrevi a palavra "coragem" e também poderia ter escrito "ansiedade". Pois me atormentava a dúvida de que a Seita tivesse desencadeado contra mim a mais estreita vigilância desde o episódio daquele sujeito. E considerei que todas as precauções eram poucas. Dou um exemplo: enquanto fingia ler o jornal no café da Calle Paso, bruscamente, com a velocidade do raio, levantava a vista e tentava surpreender uma expressão suspeita em Juanito, um brilho xis no olhar, um corar no rosto. Logo o chamava com a mão. "Juanito", dizia, supondo que não havia corado, "por que você ficou vermelho?" Ele negava, claro. Mas também era uma excelente prova: se negava sem ficar corado, isso era bastante probatório de sua inocência; se ficava vermelho, cuidado! Como é lógico, tampouco provava que nada tivesse a ver com a confabulação o facto de não corar ante minha pergunta (por isso escrevi "bastante probatório"), pois um bom espião tem de estar acima dessa espécie de falhas.

Tudo isso pode ser visto como uma mostra de delírio de perseguição, mas os acontecimentos posteriores DEMONSTRARAM que minha desconfiança e minhas dúvidas não eram, infelizmente, tão desatinadas como pode imaginar alguém desprevenido. Por que, mesmo assim, eu me atrevia a me aproximar tão perigosamente do abismo? É que contava com a inevitável imperfeição do mundo real, em que nem sequer o serviço de vigilância e espionagem dos cegos pode estar isento de falhas. Também contava com algo que era lógico presumir: os ódios e antipatias que deviam existir entre os cegos, como em qualquer outro grupo de mortais. Em suma, considerei que o tipo de dificuldades que um vidente podia esperar na exploração desse universo não seriam muito distintas das que um espião inglês podia encontrar durante a guerra no sistemático mas cheio de brechas e rancores regime hitlerista.

Não obstante, o problema era duplamente complicado, pois, como era de esperar, a mentalidade de Iglesias começou a transformar-se; embora mais que mentalidade (e menos) deveria dizer-se sua "raça" ou "condição zoológica". Como se, em virtude de uma experiência com genes, um ser humano começasse a se converter, lenta mas inexoravelmente, em morcego ou lagarto, e, o que é mais atroz, sem que quase nada de seu aspecto exterior revelasse transformação tão profunda. Estar só num quarto fechado e às escuras, de noite, sabendo-se que nele há também um morcego é sempre assustador, sobretudo quando sentimos voar essa espécie de rato alado e, de forma já intolerável, quando sentimos que uma de suas asas roçou nosso rosto com seu imundo voo silencioso. Mas quão mais horrenda pode ser tal sensação se o animal tem forma humana! Iglesias foi sofrendo essas transformações subtis que talvez para outro passassem despercebidas, mas que para mim, que vigiava astuta e sistematicamente, eram sensíveis.

Tornou-se cada dia mais desconfiado. Claro: não era ainda um autêntico cego, dotado desse poder de mover-se nas trevas e desse sentido da audição e do tacto; nem era já um homem capaz de ver com seus olhos. Tive a impressão de que se sentia perdido: não tinha uma exacta sensação das distâncias, cometia erros cinestésicos, tropeçava, derrubava desajeitadamente um copo com suas mãos que tacteavam. Irritava-se, embora tratasse de dissimulá-lo, por orgulho.

- Não é nada, Iglesias - dizia eu, em vez de ficar calado e fingir não ter percebido.

O que aumentava sua irritação e acentuava suas reacções, que era precisamente o que me propunha. De repente ficava calado e deixava, por assim dizer, que um silêncio total o rodeasse. Pois bem: para um cego, um silêncio total a seu redor é como para nós um abismo tenebroso que nos separa do resto do universo. Não sabe a que ater-se, todos os seus vínculos com o mundo exterior foram abolidos nessas trevas dos cegos que é o silêncio absoluto. Têm de estar atentos ao mínimo ruído, o perigo os acossa por todos os lados.

São solitários e impotentes nesses momentos. O simples tiquetaque de um relógio pode ser como uma luzinha na distância, essas luzinhas que nos contos infantis vê o herói aterrorizado quando se julgava perdido no meio da floresta.

Então eu dava uma batidinha com o dedo, como por descuido, na mesa ou na cadeira, e notava como, instantaneamente, com neurótica ansiedade, Iglesias dirigia toda a sua vida nessa direcção. Em meio a sua solidão, talvez se perguntasse: que quer Vidal? Onde está? Por que permaneceu em silêncio?

Tinha, com efeito, uma grande desconfiança em relação a mim. Essa desconfiança foi crescendo à medida que se passavam os dias e se tornou definitiva ao cabo de três semanas, quando sua metamorfose acabava. Existiria um indício que deveria marcar, se minhas teorias não eram infundadas, o ingresso definitivo de Iglesias no novo reino, sua transformação absoluta, e era o asco que em mim despertam os cegos autênticos. Tampouco esse asco ou apreensão ou fobia aparece de repente: minha experiência mostrou que também isso se produz pouco a pouco, até que um dia nos defrontamos com o facto consumado e arrepiante: já estamos diante do morcego ou do réptil. Recordo aquele dia: já ao aproximar-me do quarto da pensão em que estava morando Iglesias desde seu acidente, senti uma ambígua sensação de mal-estar, uma incerta apreensão que foi aumentando à medida que me aproximava de seu quarto. Tanto que vacilei um instante antes de chamar. Até que, quase tremendo, disse: "Iglesias", e ALGO me respondeu: "Entre". Abri a porta e em meio à escuridão (já que, naturalmente, não acendia a luz quando estava só) senti a respiração do novo monstro.


IX.

Mas, antes de chegar a esse instante capital, ocorreram outras coisas que devo relatar, porque foram as que me permitiram entrar no universo dos cegos, antes que a metamorfose de Iglesias chegasse a seu termo: como esses desesperados mensageiros de motocicleta, que durante a guerra conseguem atravessar uma ponte que sabem que voará em pedaços de um momento para outro. Porque eu via o momento fatal em que a metamorfose estaria concluída e devia apressar minha marcha. Por momentos pensei que não chegaria a tempo e que a ponte seria explodida pelo inimigo antes que eu, em minha absurda corrida, conseguisse atravessar o fosso.

Assistia com ansiedade crescente à passagem dos dias, calculava que o processo interior de Iglesias seguia seu curso inelutável e não via indício algum de que ELES aparecessem. Excluía, por absurda, a hipótese de que os cegos não se inteirassem de que alguém havia perdido a vista e que, por isso, deve ser encontrado e conectado à Seita. No entanto, o indiferente curso dos dias e minha crescente inquietude me fizeram pensar nessa hipótese e noutras mais disparatadas, como se minha emoção me obnubilasse a capacidade de raciocínio e me fizesse esquecer, ademais, tudo o que sabia sobre a Seita. É provável, com efeito, que a emoção seja propícia para criar um poema ou compor uma partitura, mas é desastrosa para as tarefas da razão pura.

Sinto vergonha de recordar as tolices quando comecei a temer que não chegaria a cruzar a ponte. Cheguei até a supor que um homem cego poderia sentir-se como uma ilhota em meio a um imenso oceano indiferente. Quero dizer: que aconteceria com um homem que, como Iglesias, se torna cego por acidente e que em virtude de seu jeito de ser não quer nem procura contacto com os outros cegos? Que dominado pela misantropia, pelo desalento ou pela timidez não deseja entrar em comunicação com essas sociedades que são as manifestações visíveis (e superficiais) do mundo vedado: a Biblioteca para Cegos, os Coros, etc.? O que poderia impedir, à primeira vista, que um homem como Iglesias se mantivesse isolado e não só não procurasse como também recusasse a proximidade de seus congéneres? Um estremecimento de vertigem me acometeu no instante em que imaginei essa idiotice (porque também as idiotices podem nos comover). Tratei logo de me acalmar. reflecti: Iglesias tem de trabalhar, é pobre, não pode permanecer inactivo. Como trabalha um cego? Tem de sair à rua e realizar algumas dessas actividades que lhe estão reservadas: vender pentes e bugigangas, retratos de Gardel e Leguisamo, as famosos esticadores para os colarinhos; algo, enfim, que o faz facilmente visível e, tarde ou cedo, digno de confiança para os homens da Seita. Tentei acelerar o processo, instando-o a entrar num desses negócios. Falei-lhe com entusiasmo dos esticadores para os colarinhos e do que podia ganhar num só metropolitano. Pintei-lhe o porvir róseo, mas Iglesias se mantinha silencioso e desconfiado.

- Tenho ainda alguns pesos. Mais adiante, veremos.

Mais adiante! Que desesperantes eram essas palavras!

Falei-lhe de uma banca de jornais, mas tampouco se entusiasmou.

Não me restava outro recurso senão esperar e continuar observando, até que a necessidade o obrigasse a sair.

Repito que agora sinto vergonha de ter chegado a esse grau de imbecilidade, sob o domínio do temor. Como, em meu juízo perfeito, podia supor que a Seita necessitasse de algo tão grosseiro como a instalação do tipógrafo numa banca de jornais para saber de sua existência? E a gente que presenciou a saída de Iglesias acidentado? E os enfermeiros e médicos no hospital? Isso sem contar com os poderes que a Seita tem, e o imenso e emaranhado sistema de informações e de espionagem que como uma formidável teia de aranha invisível envolve o mundo. Devo dizer, no entanto, que, depois de algumas noites de ridículo mal-estar, concluí que aquelas hipóteses eram disparatadas e que não existia a menor possibilidade de que Iglesias permanecesse abandonado. Meu único temor era de que o contacto se estabelecesse tarde demais para mim. Mas contra isso nada podia fazer.

Eu não podia estar todo o tempo a seu lado. De modo que procurei a forma de vigiá-lo sem estar em suas proximidades. As medidas que tomei foram as seguintes:

1. Dei uma importante soma em dinheiro à dona da pensão, uma tal de Senhora Etchepareborda, que me pareceu, felizmente, uma espécie de retardada mental. Roguei-lhe que cuidasse de Iglesias e que me avisasse sobre tudo o que tivesse algo a ver com o tipógrafo, com a piada, é claro, de sua invalidez.

2. Pedi ao tipógrafo que nada fizesse sem me avisar, pois eu queria ser-lhe útil em todos os sentidos. Não depositei muita confiança nessa variante, porque imaginei, com fundamento, que ele iria se afastar cada dia mais de mim e que a desconfiança em relação à minha pessoa só tenderia a aumentar.

3. Procurei estabelecer, dentro do possível, a mais estreita vigilância sobre seus movimentos, se é que lhe ocorria sair; ou sobre os movimentos das pessoas que presumivelmente podiam dele se aproximar. Sua pensão ficava na Calle Paso. Por sorte, a pouco mais de vinte metros havia um café onde eu podia, como tantos outros desocupados, permanecer horas e horas, fingindo ler o jornal e conversando com os garçons, com os quais tive de fazer amizade. Era verão, e sentado ao lado da janela aberta podia vigiar a entrada da pensão.

4. Utilizei Norma Gladys Pugliese, com o duplo intento de não despertar as suspeitas que desperta um homem só que vigia e de alternar um pouco o futebol e a política argentina com o pequeno prazer que encontrava em corromper a professora.


X.

Aqueles cinco dias que se seguiram me desesperaram. Que podia fazer senão matutar e conversar com o garçom e folhear jornais e revistas? Aproveitava para ler duas coisas que sempre me fascinaram: os anúncios e a seção policial. A única coisa que leio desde os vinte anos, a única que nos ilustra sobre a natureza humana e sobre os grandes problemas metafísicos. Lê-se na sexta edição: SUBITAMENTE ENLOUQUECIDO, MATA SUA MULHER E SEUS QUATRO FILHOS com UM MACHADO. Nada sabemos sobre esse homem, exceto que se chama Domingo Salerno, que era trabalhador e honesto, que tinha uma lojinha em Villa Lugano e que adorava sua mulher e seus filhos. E de repente os mata a machadadas. Profundo mistério! Além disso, que sensação de verdade sentimos lendo a página policial, depois de ler as declarações dos políticos! Todos estes parecem mascarados e falsificadores internacionais, gente que vende tónicos para o cabelo e charlatães de feira. Como se pode comparar um desses mistificadores com um ser puríssimo da estirpe dos Salerno? Também me excitam os anúncios: os VENCEDORES DO AMANHÃ ESTUDAM NAS ACADEMIAS PITMAN. Dois jovens rutilantes, um moço e uma moça abraçados, sorridentes e gloriosos, caminham para o PORVIR. Em outro anúncio aparece um escritório com dois telefones e um interfone; a poltrona vazia está pronta para ser ocupada e dos telefones saem como que raios luminosos; a legenda diz: ESTE CARGO ESPERA. Um que me atrai pela demagogia é o da Óptica Podestá: SEUS OLHOS MERECEM o MELHOR. Os de creme de barbear assumem a forma de historinhas com moral; no primeiro quadro, Pedro, visivelmente barbudo, tira Maria Cristina para dançar; no segundo quadro, em primeiro plano, vê-se o rosto desconcertado de Pedro e a expressão de profundo desagrado em Maria Cristina, que dança tentando afastar como pode o rosto; no terceiro quadro, ela comenta com uma amiga: "Como Pedro está repulsivo com essa barba!", respondendo-lhe a outra: "Por que não lhe dizes isso de uma vez?"; no quadro seguinte, Maria Cristina lhe responde que não se atreve mas quem sabe ela, sua amiga, poderia dizer a seu noivo para que por tua vez ele o recomende a Pedro; no penúltimo quadro, observa-se, com efeito, que o noivo da amiga diz algo em voz baixa a Pedro; no quadro final, aparecem em primeiro plano Pedro e Maria Cristina, dançando felizes e sorridentes, ele já perfeitamente barbeado com o famoso creme PALMOLIVE; a legenda diz: POR UM DESCUIDO LAMENTÁVEL PODERIA TER PERDIDO A NOIVA.

Variantes: numa, a personagem perde uma magnífica oportunidade de emprego; noutra, não ascende nunca: ao fundo de uma grande sala cheia de escrivaninhas e empregados, entre os quais é fácil perceber um Pedro barbudo, um chefe o olha, de longe, com expressão de repulsa e aborrecimento. Cremes desodorantes: noivados, posições em ótimas empresas, convites para festas, perdidos estupidamente por não se ter usado ODORONO.

Anúncios com senhores de rostos desportivos, muito bem penteados e muito sorridentes, mas ao mesmo tempo enérgicos e decididos, com grandes e quadradas mandíbulas como Superman, que batendo um punho na mesa, entre vários telefones, e avançando o torso até o invisível e vacilante interlocutor, exclamam: o SUCESSO ESTÁ AO ALCANCE DE SUAS MÃOS! Outras vezes, o Superman não bate na mesa, mas, com um gesto enérgico e desprovido da menor hesitação, aponta com seu indicador o leitor do jornal, sempre pusilânime e negligente, permanentemente dilapidando seu Tempo e suas Notáveis Possibilidades em ninharias e lhe diz: GANHE CINCO MIL PESOS MENSAIS EM SUAS HORAS VAGAS, instando-o em seguida a pôr seu nome e endereço nas linhas pontilhadas de um pequeno quadro.

De torso nu, mostrando seus poderosos músculos, Mister Atlas lança um chamado mundial aos fracotes: em sete dias você notará o Progresso e se decidirá a refazer e reparar seu corpo, chegando logo a uma constituição como a do próprio Mister Atlas. Diz: AS PESSOAS ADMIRAM A AMPLITUDE DE SEUS OMBROS. VOCÊ CONSEGUIRÁ A MOÇA MAIS LINDA E O MELHOR EMPREGO!

Mas nada como o Reader's Digest para promover o Optimismo e os Bons Sentimentos. Um artigo do Senhor Frank I. Andrews, intitulado "Quando se reúnem os hoteleiros", começava assim: "Conhecer os distintos hoteleiros que chegaram aos Estados Unidos como representantes de seus colegas dos países hispano-americanos foi para mim um dos momentos mais comoventes de minha vida". E mais centenas de artigos destinados a levantar o moral dos pobres, leprosos, aleijados, edípicos, surdos, cegos, mudos, surdos-mudos, epilépticos, tuberculosos, cancerosos, paralíticos, macrocéfalos, microcéfalos, neuróticos, filhos ou netos de loucos furiosos, pés chatos, asmáticos, retardados, tartamudos, indivíduos com mau hálito, infelizes no matrimónio, reumáticos, pintores que perderam a visão, escultores que sofreram a amputação das duas mãos, músicos que ficaram surdos (pense em Beethoven!), atletas que em virtude da guerra ficaram paralíticos, indivíduos que foram expostos aos gases da Primeira Guerra, mulheres feiíssimas, crianças leporinas, homens fanhosos, vendedores tímidos, pessoas altíssimas, pessoas baixíssimas (quase anões), homens que pesam mais de duzentos quilos, etc. Título: DO PRIMEIRO EMPREGO EXPULSARAM-ME A PONTAPÉS, NOSSO ROMANCE COMEÇOU NO LEPROSÁRIO, VIVO FELIZ com MEU CÂNCER, PERDI A VISTA MAS GANHEI UMA FORTUNA, SUA SURDEZ PODE SER UMA VANTAGEM, etc.

Ao sair do bar, e depois de fazer minha visita noturna à pensão, sobre a Plaza dei Once, contemplava ainda o grande cartaz que anuncia as massas Santa Catarina, e embora não recordasse quem fosse Santa Catarina não me pareceu inviável que houvesse sofrido o martírio, já que o martírio foi sempre o fim quase profissional dos santos; e então não pude deixar de meditar sobre essa característica da existência humana que consiste em que um crucificado ou um esfolado vivo com o tempo se converte numa marca de massas ou de conservas em lata.


XI.

Creio que, pelo ressentimento que Norma alimentava em relação a mim, apareceu-me um dia com um ser epiceno chamado Inés González Iturrat. Enorme e fortíssima, com visíveis bigodes, de cabelo encanecido, vestia terno e usava sapatos de homem. A não ser por seus seios eminentes, vista de súbito, poder-se-ia cometer o erro de chamá-la "senhor". Enérgica e eficaz, exercia um domínio completo sobre Norma.

- Eu a conheço - disse eu.

- A mim? - comentou com irritada surpresa, como se essa possibilidade fosse ofensiva; já que Norma, como é natural, lhe havia falado muito de mim.

A rigor, tinha ideia de tê-la visto em alguma parte, mas só ao final da incómoda entrevista (necessitava vigiar o número 57 atrás de seu corpanzil) esclareci aquele pequeno enigma.

Norma revelava nervosos desejos de que ocorresse algo assim como uma polêmica: suas reiteradas derrotas para mim faziam-na esperar com vingativa satisfação a ideia de uma desastrosa discussão com aquele sábio atómico. Mas eu, que tinha a cabeça em outra parte e que não podia nem devia afastar minha atenção do número 57, não mostrei o menor interesse em argumentar com aquele produto. Desgraçadamente, como em outra ocasião o teria feito, não me era possível levantar-me.

Os seios de Norma subiam e desciam como um fole.

- Inés foi minha professora de história, já te disse.

- Pois é - comentei cortesmente.

- Somos um grupo de moças muito unidas e ela é nosso mentor.

- Excelente - disse, no mesmo tom.

- Comentamos livros, vamos a exposições e conferências.

- Muito bem.

- Fazemos excursões com fins de estudos.

- Magnífico.

Sua irritação ia aumentando. Quase indignada já, acrescentou:

- Agora estamos fazendo visitas comentadas a galerias, com ela e o Professor Romero Brest.

Olhou-me com olhos que soltavam fogo, esperando meu comentário. com urbanidade, disse:

- Que bela ideia.

Quase gritando, acrescentou:

- Tu achas que as mulheres só devem ocupar-se de limpar o chão, lavar pratos e cuidar do lar?

Um indivíduo com uma escada pareceu querer entrar na porta do número 57, mas ao verificar o número seguiu até a porta seguinte. Acalmados meus nervos, roguei-lhe que, por favor, repetisse a última observação, que não tinha ouvido bem. Enfureceu-se mais ainda.

- Claro! - exclamou. - Nem estás ouvindo. É assim que te interessam minhas opiniões.

- Interessam-me muito.

- Farsante! Mil vezes me disseste que as mulheres são diferentes dos homens.

- Maior razão para que me interessem suas opiniões. Sempre nos interessa o que é diferente ou desconhecido.

- Ah! então admites que para ti uma mulher é algo completamente diferente de um homem!

- Não há por que se exaltar por um facto tão evidente, Norma.

A professora de história, que havia acompanhado a cena com gesto duramente irónico, advertida, como certamente estava, de que eu era um obscurantista, interveio:

- O senhor acha?

- Acha o quê? - perguntei com ingenuidade.

- Isso. Que seja evidente - sublinhou mordazmente a palavra - a diferença entre homem e mulher.

- Todo mundo está de acordo em que entre um homem e uma mulher há algumas apreciáveis diferenças -- expliquei-lhe com calma.

- Não nos referimos a isso - replicou com gélida fúria a educadora. - E o senhor sabe muito bem.

- A isso? Que é isso?

- Ao sexo, ao que o senhor sabe muito bem - acrescentou, cortante. Parecia uma faca afiadíssima e desinfetada.

- Acha pouco? - perguntei.

Estava ficando de bom humor e além disso elas amenizavam minha espera. Só continuava me incomodando essa vaga sensação de ter visto a professora alguma vez e de não lembrar onde.

- Não é o mais importante! Referimo-nos a outra coisa, aos valores espirituais. E as diferenças que vocês estabelecem entre a actividade de um homem e a de uma mulher são típicas de uma sociedade atrasada.

- Ah, entendo - comentei com muita serenidade. Para vocês a diferença entre o útero e o falo é um resquício dos Tempos Obscuros. Vai desaparecer junto com a iluminação a gás e o analfabetismo.

A educadora ficou vermelha: aquelas palavras não só a indignavam como também a envergonhavam, mas a enunciação de palavras como "útero" e "falo" (científicas como eram) não podia perturbá-la mais que "neutrino" ou "reacção em cadeia". Envergonhavam-na em virtude do mesmo mecanismo que poderia incomodar o Professor Einstein perguntar-lhe pelo funcionamento de seus intestinos.

- Isso é uma frase - pontificou. - O certo é que hoje a mulher compete com o homem em qualquer actividade. E isso é que faz com que vocês percam a linha. Veja a delegação de mulheres norte-americanas que acaba de chegar: há três directoras da indústria pesada.

Norma, tão feminina, olhou-me, triunfante: até que ponto chega o ressentimento. De alguma forma aqueles monstros a vingavam de seu servilismo na cama. O desenvolvimento da indústria metalúrgica dos Estados Unidos atenuava de certa forma os gritos que dava em momentos culminantes, o frenesi de sua entrega incondicional. Uma posição humilhante era compensada pela petroquímica ianque.

Certo; agora que me via obrigado a recorrer aos jornais, recordava ter visto a chegada daquela troupe.

- Também há mulheres que jogam o boxe - comentei.

- Agora, se essa monstruosidade estimula vocês. . .

- O senhor chama monstruosidade o facto de que uma mulher chegue a ser membro da direção de uma grande indústria?

Novamente vi-me obrigado a seguir, por cima dos atléticos ombros da Senhorita González Iturrat, um transeunte suspeito. Essa atitude, perfeitamente explicável, aumentou a fúria da incrível harpia.

- E também o senhor acha monstruoso - continuou, apertando insidiosamente os olhinhos - que se destaque na ciência um génio como Madame Curie?

Era inevitável.

- Um génio - expliquei-lhe com calma didática é alguém que descobre identidades entre factos contraditórios. Relações entre factos aparentemente remotos. Alguém que revela a identidade sob a diversidade, a realidade sob a aparência.

Alguém que descobre que a pedra que cai e a Lua que não cai são o mesmo fenómeno.

A educadora seguia meu raciocínio com olhos sarcásticos, como uma professora a uma criança mitómana.

- E Madame Curie? Acha pouco o que ela descobriu?

- Madame Curie, senhorita, não descobriu a lei da evolução das espécies. Saiu com um rifle à caça de tigres e deparou com um dinossauro. Com esse critério também seria génio o primeiro marinheiro que divisou o cabo Horn.

- O senhor pode dizer o que quiser, mas a descoberta de Madame Curie revolucionou a ciência.

- Se alguém sai para caçar tigres e depara com um centauro, também provocará uma revolução na zoologia. Mas não é esse tipo de revoluções que provoca os génios.

- Segundo sua opinião, a ciência é proibida para a mulher?

- Não. Quando disse isso? Além disso, a química se parece com a cozinha.

- E a filosofia? O senhor proibiria, certamente, que as moças ingressassem na faculdade de filosofia e letras.

- Não. Por quê? Não fazem mal a ninguém. Além disso lá encontram noivo e se casam.

- E a filosofia?

- Que estudem, se quiserem. Mal não lhes vai fazer. Muito menos bem, isso é certo. Não lhes faz nada. Além disso, não há nenhum perigo de que se convertam em filósofos.

A Senhorita González Iturrat berrou:

- O que acontece é que esta sociedade absurda não lhes dá as mesmas possibilidades que dá aos homens.

- Como? Se estamos dizendo que ninguém as impede de ir à faculdade de filosofia. Mais ainda: dizem que esse estabelecimento está cheio de mulheres. Ninguém lhes proíbe que façam filosofia. Nunca se lhes impediu que pensassem, nem em sua casa, nem fora de casa. Como se pode impedir que alguém pense? E a filosofia não requer mais que cabeça e vontade de pensar. Agora, na época dos gregos e no século XXX. Eventualmente uma sociedade poderia impedir que uma mulher publicasse um livro de filosofia: mediante a ironia, o boicote, enfim, algo do género. Mas impedir que pense? Como poderia alguma sociedade obstaculizar a ideia do universo platónico na cabeça de uma mulher?

A Senhorita González explodiu:

- com gente como o senhor o mundo jamais teria ido adiante!

- E de onde a senhora deduz que foi adiante? Sorriu com menosprezo.

- Claro. Chegar a Nova York em vinte horas não é um progresso.

- Não vejo vantagem em chegar rapidamente a Nova York. Quanto mais tempo se leva, melhor. Além disso, pensei que se referisse ao progresso espiritual.

- A tudo, senhor. O avião não é um acaso: é o símbolo do avanço geral. Inclusive os valores éticos. Não vai me dizer que a humanidade hoje não tem uma moral superior à da sociedade esclavagista.

- Ah, a senhora prefere os escravos com salário.

- É fácil ser cínico. Mas qualquer pessoa de boa fé sabe que o mundo conhece hoje valores morais que eram desconhecidos na Antiguidade.

- Sim, compreendo. Landru viajando de comboio é superior a Diógenes viajando em trirreme.

- O senhor escolhe de propósito exemplos grotescos. Mas é evidente.

- Um chefe de Buchenwald é superior a um chefe de galeras. É melhor matar os bichos humanos com bombas de napalm que com arcos e flechas. A bomba de Hiroxima é mais benéfica que a batalha de Poitiers. É mais progressista torturar com choques eléctricos que com ratos, na China.

- Tudo isso são sofismas, porque são factos isolados. A humanidade superará também essas barbaridades. E a ignorância terá de ceder em toda a linha, ao final, à ciência e ao conhecimento.

- Actualmente, o espírito religioso é mais forte que no século XIX - observei com tranquila perversidade.

- O obscurantismo de qualquer género cederá no final. Mas a marcha do progresso não pode avançar sem pequenos retrocessos e ziguezagues. A senhora mencionou há pouco a teoria da evolução: um exemplo do que pode a ciência contra toda espécie de mitos religiosos.

- Não vejo os efeitos devastadores dessa teoria. Não acabamos de admitir que o espírito religioso ressurgiu?

- Por outros motivos. Mas liquidou definitivamente muitas patacoadas, como essa da criação em seis dias.

- Senhorita: se Deus é onipotente, que lhe custa criar o mundo em seis dias e distribuir alguns esqueletos de megatérios por aí para pôr à prova a fé ou a estupidez dos homens?

- Ora! Não vá pretender me falar a sério sobre tal sofisma. Além disso, faz um instante, estava elogiando o génio que descobriu a teoria da evolução. E agora o ridiculariza.

- Não o ridicularizo. Digo, simplesmente, que não prova a inexistência de Deus nem refuta a criação do mundo em seis dias.

- Se dependesse do senhor, não haveria escolas. Se não me engano, o senhor deve ser partidário do analfabetismo.

- Em 1933, a Alemanha era um dos povos mais alfabetizados do mundo. Se as pessoas não soubessem ler, ao menos não poderiam ser estupidificadas dia a dia pelos jornais e revistas. Infelizmente, embora fossem analfabetos, ainda sobrariam outras maravilhas do progresso: o rádio, a televisão. Seria necessário extirpar os tímpanos das crianças e também os olhos. Mas esse seria um programa mais complicado.

- Apesar dos sofismas, a luz sempre prevalecerá sobre a escuridão, e o bem sobre o mal. O mal é ignorância.

- Até agora, senhorita, o mal sempre prevaleceu sobre o bem.

- Outro sofisma. De onde o senhor tira tais barbaridades?

- Eu não tiro nada, senhorita: é a tranquila comprovação da história. Abra a história de Oncken em qualquer página e não encontrará senão guerras, degolas, conspirações, torturas, golpes de Estado e inquisições. Além disso, se prevalece sempre o bem, por que seria necessário pregálo? Se por sua natureza o homem não estivesse inclinado a fazer o mal, por que ele é prescrito, por que ele é estigmatizado? Veja bem: as religiões mais altas pregam o bem. Mais ainda: ditam mandamentos, que exigem não fornicar, não matar, não roubar. É preciso mandar. E o poder do mal é tão grande e sinuoso que é utilizado até para recomendar o bem: se não fazemos isto ou aquilo nos ameaçam com o inferno.

- Então - gritou a Senhorita González Iturrat -, segundo o senhor é necessário pregar o mal.

- Eu não disse isso, senhorita. O que acontece é que se exaltou muito e já não me escuta. O mal, não é necessário pregá-lo: ele vem só.

- Mas. . . que quer provar?

- Não se exalte, senhorita. Não esqueça que está sustentando a superioridade do bem, e vejo que me cortaria em pedaços com muito gosto. Queria dizer-lhe, simplesmente, que não existe tal progresso espiritual. E seria inclusive bom examinar o famoso progresso material.

Um esgar irónico deformou os bigodes da educadora.

- Ah, vai me demonstrar agora que o homem de hoje vive menos bem que o romano.

- Depende. Não creio, por exemplo, que um pobrediabo que trabalha oito horas diárias numa fundição, sob controle eletrónico, seja mais feliz que um pastor grego. Nos Estados Unidos, paraíso da mecanização, dois terços da população são neuróticos.

- Gostaria de saber se o senhor viajaria de diligência em vez de comboio.

- Mas claro. A viagem em carruagem era mais linda e mais tranquila. E melhor ainda quando se andava a cavalo: tomava-se ar e sol, contemplava-se aprazivelmente a paisagem. Os apóstolos da máquina nos disseram que cada dia daria ao homem mais tempo para o ócio. A verdade é que o homem tem cada dia menos tempo, cada dia anda mais enlouquecido. Até a guerra era linda, era divertida e viril, era vistosa com aqueles uniformes coloridos. Era até mesmo sã. Veja, por exemplo, nossa guerra da independência e nossas lutas civis: se não nos lanceavam ou degolavam, podíamos viver cem anos, como meu tetravô Olmos. Claro: a vida ao ar livre, o exercício, as cavalgadas. Quando um menino era fraco mandavam-no para a guerra, para que se fortificasse.

A Senhorita González Iturrat levantou-se furiosa e disse à discípula:

- Eu já vou, Norminha. Tu sabes o que fazes. E foi embora.

Norma, com os olhos chamejantes, também se levantou. E, enquanto se afastava, disse:

- És um mal-educado e um cínico!

Dobrei meu jornal e me dispus a continuar vigiando o número 57, agora sem o inconveniente do volumoso corpo da educadora.

Aquela noite, enquanto estava sentado na privada, nessa condição que oscila entre a filosofia patológica e a metafísica, fazendo esforço e ao mesmo tempo meditando no sentido geral do mundo, tal como é frequente nessa única parte filosófica da casa, tomei consciência por fim daquela 265 paramnésia que me incomodara no começo da entrevista: não, eu não havia visto antes a Senhorita González Iturrat; mas era quase idêntica ao desagradável e violento ser humano que em Oito condenados lança panfletos sufragistas de um balão Montgolfier.


XII.

Essa noite, enquanto fazia o balanço e revista que fazia todas as noites dos acontecimentos, me alarmei: por que Norma havia trazido a Senhorita González Iturrat? Tampouco podia ser uma simples coincidência a discussão que me obrigaram a manter sobre a existência do mal. Pensando bem, pareceu-me que a professora tinha todas as características de uma sócia da Biblioteca para Cegos. E a suspeita se estendeu em seguida à própria Norma Pugliese, por quem me havia interessado, afinal de contas, por ser seu pai um socialista que destinava duas horas diárias a transcrever livros no sistema Braile.

Frequentemente dou uma ideia equivocada de minha maneira de ser, e é provável que os leitores deste relatório se surpreendam com esse tipo de utilidades. A verdade é que, apesar de meu afã sistemático, sou capaz dos actos mais inesperados e, portanto, perigosos, dada a índole da actividade em que me encontro. E os disparates mais inqualificáveis, eu os cometi por causa de mulheres. Tentarei explicar o que me acontece, já que tampouco é tão despropositado como poderia parecer à primeira vista, pois sempre considerei a mulher um subúrbio do mundo dos cegos; de modo que meu comércio com elas não é tão desatinado nem tão gratuito como um observador superficial poderia imaginar. Não é isso o que estou me reprovando neste momento, mas a quase inconcebível falta de precauções em que logo incorro, como nesse caso de Norma Pugliese; facto perfeitamente lógico do ponto de vista do destino, já que o destino cega a quem quer perder; mas absurdo e imperdoável do meu ponto de vista. Mas ocorre que a períodos de radiante lucidez sucedem-se em mim períodos em que meus actos parecem ordenados e feitos por outra pessoa, e logo me encontro em confusões perigosíssimas, como poderia acontecer a um navegante solitário que, em meio a regiões cheias de riscos, dominado pelo sono, fraquejasse e dormitasse por instantes.

Não é fácil. Gostaria de ver a qualquer de meus críticos numa situação como a minha, rodeado por um inimigo infinito e astutíssimo, em meio a uma rede invisível de espiões e observadores, devendo vigiar dia e noite cada uma das pessoas e acontecimentos que existem ou ocorrem a seu redor. Então se sentiria menos suficiente e compreenderia que erros dessa natureza não só são possíveis, senão praticamente inevitáveis.

Todo o tempo que precedeu o encontro com Celestino Iglesias, por exemplo, foi de extrema confusão em meu espírito; e nesses períodos é como se as trevas literalmente me sugassem mediante o álcool e as mulheres: assim nos internamos nos labirintos do Inferno, ou seja, no Universo dos Cegos. De modo que não é que nesses períodos tenebrosos eu esqueça meu grande objectivo, senão que à perseguição lúcida e científica se sucedia uma irrupção caótica, aos tombos, em que aparentemente dominava isso que as pessoas desprevenidas denominam acaso e que a rigor é a casualidade cega. E em meio à confusão, enjoado e tonto, ébrio e miserável, mesmo assim me via balbuciando: "Não importa, de qualquer forma este é o universo que devo explorar", e abandonava-me à insensata voluptuosidade da vertigem, essa voluptuosidade que sentem os heróis nos piores e mais perigosos momentos do combate, quando a razão já nada pode nos aconselhar e quando nossa vontade se move no turvo domínio do sangue e dos instintos. Até que de repente despertava desses longos períodos obscuros, e, assim como à luxúria se sucedia o ascetismo, minha mania organizativa se seguia ao caos; mania que me acomete não apesar de minha tendência ao caos, mas precisamente por isso. Então minha cabeça começa a trabalhar em marchas forçadas e com uma rapidez e claridade de assombrar. Tomo decisões precisas e limpas, tudo é luminoso e resplandecente como um teorema; nada faço em resposta a meus instintos, que nesse momento vigio e domino com perfeição. Mas, coisa estranha, resoluções ou pessoas que conheço nesse lapso de inteligência me conduzem logo e uma vez mais a um lapso incontrolável. Conheço, por exemplo, a mulher, digamos, do presidente da Comissão Cooperadora do Coro dos Invisuais; compreendo as valiosas informações que posso obter por seu intermédio, assédio a mulher e finalmente, com fins estritamente científicos, durmo com ela; mas logo acontece que a mulher me repugna, é luxuriosa ou uma endemoninhada, e todos os meus planos desmoronam ou são postergados, quando não são postos em sério perigo.

Não foi o caso de Norma Pugliese, é claro. Mas ainda nesse caso cometi erros que não deveria ter cometido.

O Senhor Américo Pugliese é um antigo membro do Partido Socialista, e educou suas filhas nas normas que Juan B. Justo [1] impôs desde o começo: a Verdade, a Ciência, o Cooperativismo, a Luta contra o Fumo, o Antialcoolismo. Uma pessoa das mais decentes que detestava Perón e era muito respeitado por seus adversários políticos. Como se compreenderá, essa plataforma excitou meus desejos de dormir com sua filha.

Estava noiva de um tenente da marinha. Facto perfeitamente compatível com a mentalidade antimuitarista do Senhor Pugliese, em virtude desse mecanismo psicológico que faz com que os antimilitaristas admirem os marinheiros: não são tão brutos, viajaram, parecem-se muito com civis. Como se esse defeito pudesse ser motivo de elogio. Já que, como expliquei a Norma (que se enfurecia), elogiar um militar porque não parece sê-lo, ou não o é tanto, é como encontrar méritos num submarino que tem dificuldades para submergir.

com argumentos desse género minei as bases da Marinha de Guerra e por fim pude ir para a cama com Norma, o que demonstra que o caminho da cama pode passar pelas instituições mais imprevistas. E que os únicos arrazoados que para a mulher têm importância são os que de alguma maneira se vinculam à posição horizontal. Ao contrário do que se passa com o homem. Motivo pelo qual é difícil pôr um homem e uma mulher na mesma posição geométrica em virtude de um arrazoado autêntico: é preciso recorrer a paralogismos ou ao manuseio.

Conseguida a horizontalidade, levei tempo para educá-la, acostumá-la a uma Nova Concepção do Mundo: do mestre Juan B. Justo ao Marquês de Sade. Não era nada fácil. Era necessário começar a partir da própria linguagem, pois, fanática pela ciência e leitora de obras como O matrimónio perfeito, usava palavras tão inadequadas para a cama como "lei de refracção somática" para a descrição de um crepúsculo.

Baseado nessa genuína verdade (e a verdade era para ela sagrada), fui conduzindo-a de degrau em degrau até as piores torpezas. Tantos anos de labor paciente de deputados e conferencistas socialistas aniquilados em poucas semanas; tantas bibliotecas de bairros, tantas edílicas obras sadias, tantas cooperativas, para que Norma acabasse fazendo esse tipo de coisas. E depois quem pode ter fé no cooperativismo!

Sim, perfeito, ríamos de Norma Pugliese como eu o fiz em muitos momentos de superioridade. O certo é que agora me acometia uma série de dúvidas e de repente tinha a impressão de que era um dos subtis espiões do inimigo. Facto, por outro lado, previsível, já que só um inimigo primitivo ou idiota recorreria à espionagem de pessoas suspeitas. O facto de ser Norma tão cândida, tão directa e tão inimiga da mentira e da mistificação não era o argumento mais decisivo para se ter cuidado com ela?

Comecei a angustiar-me, ao analisar detalhes de nossas relações.

Pensava ter Norma Pugliese bem classificada, e, dada sua formação socialista e sarmentiana, não me pareceu difícil chegar até seu fundo. Grave erro. Mais de uma vez surpreendeu-me com uma reacção inesperada. E mesmo sua corrupção final era quase irreconciliável com aquela formação tão sadia e asseada que lhe havia dado o pai. Mas se o homem tem tão pouco a ver com a lógica, que se pode esperar da mulher?

Aquela noite, pois, passei em branco recordando e analisando cada uma das reações que havia tido comigo. E tive muitos motivos para alarmar-me, mas ao menos um motivo de satisfação: o de haver advertido a tempo os perigos daquela proximidade.


XIII.

Ocorre-me que ao ler a história de Norma Pugliese alguns de vocês pensarão que sou um canalha. Desde já lhes digo que acertaram. Considero-me um canalha e não tenho o menor respeito por minha pessoa. Sou um indivíduo que se aprofundou em sua própria consciência, e quem é que, tendo se afundado nos vincos de sua consciência, poderá respeitar-se?

Ao menos considero-me honesto, pois não me engano sobre mim mesmo nem tento enganar os demais. Vocês talvez me perguntem, então, como enganei sem o menor escrúpulo tantos infelizes e mulheres que cruzaram meu caminho. Mas acontece que há enganos e enganos, senhores. Esses enganos são pequenos, não têm importância. Da mesma forma que não se pode qualificar de covarde um general que ordena uma retirada com vistas a um avanço definitivo. São e eram enganos tácticos, circunstanciais, transitórios, em favor de uma verdade maior, de uma desapiedada investigação. Sou um investigador do Mal, e como se poderia investigar o Mal sem afundar-se até o pescoço na sujeira? Vocês me dirão que ao que tudo indica eu encontro um vivo prazer em fazê-lo, em vez da indignação ou do asco que deveria sentir um autêntico investigador que se vê forçado a fazê-lo por desagradável obrigação. Também está correcto e eu o reconheço publicamente. Vêem como sou honrado? Não disse em momento algum que sou boa pessoa: disse que sou um investigador do Mal, o que é muito diferente. E além disso reconheci que sou um canalha. Que mais podem pretender de mim? Um canalha insigne, isso sim. E orgulhoso de não pertencer a essa espécie de fariseus que são tão ruins como eu mas que pretendem ser honoráveis indivíduos, pilares da sociedade, correctos cavalheiros, eminentes cidadãos a cujos enterros vai uma enorme quantidade de gente e cujas crónicas logo aparecem nos jornais sérios. Não: se sair alguma vez nesses jornais, será, sem dúvida, na secção policial. De modo que estou muito longe de sentir-me envergonhado.

Detesto essa universal comédia dos sentimentos honoráveis. Sistema de convenções que se manifesta já na linguagem: suprema falsificadora da Verdade com vê maiúsculo. Convenções que ao substantivo "velhinho" antepõem o adjetivo "pobre"; como se todos não soubéssemos que um mau-caráter que envelhece nem por isso deixa de ser mau-caráter, senão que, pelo contrário, agrava seus maus sentimentos com o egoísmo e o rancor que adquire ou incrementa com as cãs. Teria de se fazer um monstruoso auto-de-fé com todas essas palavras apócrifas, elaboradas pelo sentimentalismo popular, consagradas pelos hipócritas e defendidas pela escola e pela polícia: "veneráveis anciãos" (a maior parte já merece que se cuspa neles), "distintas matronas" (em sua quase totalidade movidas pela vaidade e pelo egoísmo mais cru), etcétera. Para não falar dos "pobres ceguinhos" que constituem o motivo deste relatório. E devo dizer que se esses pobres ceguinhos me temem é justamente porque sou um canalha, porque sabem que sou um deles, um sujeito sem piedade que não vai se deixar afugentar com besteiras e lugares-comuns. Como poderiam temer um desses infelizes que os ajudam a cruzar a rua em meio à lacrimosa simpatia estilo filme de Disney com passarinhos e fitinhas coloridas de Natal?

Se se perfilassem todos os canalhas que há no planeta, que formidável exército se veria, que amostragem inesperada! Desde criancinhas de brancos aventais ("a pura inocência da meninice") até corretos funcionários públicos, que, no entanto, levam papéis e lápis para suas casas. Ministros, governadores, médicos e advogados em sua quase totalidade, os já mencionados pobres velhinhos (em imensas quantidades), as também mencionadas matronas que agora dirigem sociedades que ajudam o leproso ou o cardíaco (depois de ter galopado em suas carreiras em camas alheias e de ter contribuído precisamente para o incremento das doenças do coração), gerentes de grandes empresas, jovenzinhas de aparência frágil e olhos de gazela (mas capazes de depenar qualquer idiota que creia no romantismo feminino ou na fragilidade e desamparo de seu sexo), inspetores municipais, funcionários coloniais, embaixadores condecorados, etcétera, etcétera. CANALHAS, MARCHEM! Que exército, meu Deus! Avancem, filhos da puta! Nada de parar, nem de choramingar, agora que os espera o que lhes tenho preparado!

CANALHAS, DIREITA!

Formoso e edificante espetáculo.

Cada um dos soldados ao chegar ao estábulo será alimentado com suas próprias canalhices, convertidas em excremento real (não metafórico). Sem consideração alguma nem arranjos. Que ao filhinho do senhor ministro não se lhe permita comer pão duro em vez de sua caça correspondente. Não, senhor! Ou se fazem as coisas como é devido ou não vale a pena fazer nada. Que coma sua merda. E mais ainda: que coma toda a sua merda. bom seria que admitíssemos que cada um coma uma quantidade simbólica. Nada de símbolos: cada um há de comer sua exacta e total canalhice. É justo, compreende-se: não se pode tratar um infeliz que simplesmente esperou com alegria a morte de seus progenitores para receber uns trocados da mesma forma que alguns desses anabatistas de Mineápolis que aspiram ao céu explorando negros na Guatemala.

Não, senhor! JUSTIÇA E MAIS JUSTIÇA! A cada um a merda que lhe corresponda, ou nada. Não contem comigo, ao menos para safadezas desse tipo.

E que conste que minha posição não só é inexpugnável senão desinteressada, já que, como reconheci, em minha condição de perfeito canalha, integrarei as filas do exército coprófago. Só reivindico o mérito de não enganar ninguém.

E isso me faz pensar na necessidade de inventar previamente algum sistema que permita detectar a canalhice em personagens respeitáveis e medi-la com exatidão para descontar de cada um a quantidade que merece que se lhe desconte. Uma espécie de canalhómetro que indique com uma agulha a quantidade de merda produzida pelo Senhor X em sua vida até este Juízo Final, a quantidade a deduzir em consideração à sinceridade ou boa disposição, e a quantidade líquida que deve tragar, uma vez feitas as contas.

E, depois de realizada a medição exacta em cada indivíduo, o imenso exército deverá se pôr em marcha até seus estábulos, onde cada um de seus integrantes consumirá sua própria e exacta sujeira. Operação infinita, como se vê (e aí residiria a piada), porque ao defecar, em virtude do princípio da conservação dos excrementos, expulsariam a mesma quantidade ingerida. Quantidade que volta a ser colocada diante de seus focinhos, mediante um movimento de inversão coletiva a uma voz de comando militar, devendo ser ingerida novamente.

E assim, ad infinitum.


XIV.

Tive de esperar no entanto mais dois dias. Nesse lapso recebi uma dessas cartas que se enviam em corrente e que normalmente são jogadas na rua. Em meu caso, aumentou minha inquietude, já que minha experiência me havia demonstrado que nada, mas NADA mesmo, podia ser desdenhado numa trama tão fantástica como a que me envolvia. De modo que a li com cuidado, tratando de encontrar vínculos entre aqueles remotos acontecimentos entre reservistas e generais e meu negócio com os cegos. Dizia:

"Esta corrente vem da Venezuela. Foi escrita pelo Senhor Baldomero Mendoza e tem de dar a volta ao mundo. Faça 24 cópias e distribua-as entre seus amigos mas de forma alguma entre os parentes, por distantes que sejam. Mesmo que não seja supersticioso os factos mostrarão sua efetividade. Exemplo: o Senhor Ezequiel Goiticoa fez as cópias, enviou-as a seus amigos e aos nove dias recebeu 150 mil bolívares. Um senhor chamado Barquilla não levou a sério esta corrente e sua casa sofreu um incêndio que destruiu parte de sua família e por esse motivo enlouqueceu. Em 1904, o General Joaquín Díaz, ao receber um forte golpe que o deixou gravemente enfermo, mais tarde localizou esta corrente e ordenou a sua secretária que fizesse as cópias e as enviasse. Sua cura foi rápida e agora sua situação é excelente. Um empregado de Garette fez as cópias mas se esqueceu de enviá-las, aos nove dias teve um desgosto e perdeu o emprego; depois fez outras cópias e as enviou, recuperando o emprego, e até recebeu indemnização. O reservista Alfonso Mejía Reyes, do México, DF, recebeu uma cópia desta corrente, descuidou-se, perdeu a cópia, e aos nove dias lhe caiu uma comija na cabeça e morreu tragicamente. O engenheiro Delgado rompeu a corrente e pouco depois o flagraram numa malversação de fundos. Não rompa de jeito nenhum esta corrente. Faça as cópias e distribua-as. Dezembro de 1954".


XV.

Até que um dia vi que um cego avançava lentamente pela Calle Paso, da Rivadavia para a Bartolomé Mitre. Meu coração começou a bater.

Meu instinto me disse que esse homem alto e ruivo teria algo a ver com o problema Iglesias, pois não avançava com essa atenção indiferençada com que alguém caminha por uma rua quando seu objectivo está distante.

Não se deteve frente ao número 57, mas passou lentamente frente à entrada, e com sua bengala branca parecia estar reconhecendo um território no qual mais tarde serão realizadas operações decisivas. Supus que era algo assim como uma patrulha de reconhecimento e a partir desse instante dupliquei minha atenção.

Nesse dia, no entanto, não voltou a acontecer nada que chamasse minha atenção. Alguns minutos antes das nove da noite subi ao sétimo andar, mas tampouco ali havia ocorrido algo que eu julgasse fora do comum: distribuidores de comestíveis, empregadas do armazém, enfim, a gente habitual. Essa noite não pude dormir: virava-me e revirava-me na cama. Levantei-me antes do amanhecer e corri até a Calle Paso, temendo que alguém importante pudesse subir ao apartamento no momento em que se abrisse a porta de baixo. Mas não entrou ninguém que me parecesse suspeito e naquele dia todo não notei nenhum indício interessante. Teria sido uma simples casualidade a aparição do cego alto e loiro?

Já disse que pouco creio nas casualidades e muito menos nas que se referem aos cegos. De forma que nessa mesma noite, ao terminar o que se podia chamar de minha vigilância diurna, decidi subir à pensão e submeter a um intenso interrogatório a Senhora Etchepareborda.

Em minha ansiedade havia descido à mais repelente demagogia. Detesto as mulheres gordas e a dona da pensão era imensa; metida num vestido que parecia feito para uma mulher normal, mostrando sua papada e seu peito enorme e branquíssimo, parecia um gigantesco e tremente pudim: mas um pudim com intestinos.

Elogiei sua cútis e disse-lhe que era incrível que tivesse quarenta e cinco anos. Também avaliei a saleta em que vivia, onde cada mesa, mesinha e em geral toda superfície horizontal estava coberta com uma toalhinha de macramê. Uma espécie de horror vacui lhe impedia de deixar algum espaço livre sem cobrir ou encher: pierrôs de porcelana, elefantes de bronze, cisnes de vidro, dom-quixotes cromados e um grande bâmbi de tamanho quase natural. Sobre um piano que não tocava, explicou, desde a morte de seu defunto marido, havia duas longas toalhas de macramê: uma sobre o teclado e outra na parte superior. Nesta, entre alguns gaúchos e camponesas de pano, via-se um retrato do Senhor Etchepareborda, de meio-corpo, com olhar sério e dirigido a um enorme elefante de bronze: parecia presidir a teratológica colecção.

Elogiei sua detestável moldura cromada e ela, contemplando com expressão triste e sonhadora o retrato, explicou-me que morrera havia dois anos, quando tinha apenas quarenta e oito, na flor da idade, e quando estava a ponto de ver cristalizados seus sonhos, disse, de uma semi-aposentadoria.

- Era subchefe de expedição ao interior na Los Gobelinos.

Eu, que em meu interior ardia de raiva e nervosismo, pois até esse momento me fora impossível iniciar meu interrogatório, comentei:

- Uma casa importante, sim, senhora.

- É, sim - confirmou ela com satisfação.

- Um posto de confiança - acrescentei.

- Também acho - disse. - Não é para desmerecer os demais, mas em meu defunto esposo depositavam uma confiança total.

- Fazia honra a seu nome - comentei.

- É mesmo, Senhor Vidal.

Honradez dos Bascos, Fleugma Britânica, Espírito de Medida dos Franceses, mitos que, como todos os mitos, são invulneráveis aos pobres factos. Que podem significar, com efeito, subomadores como o Ministro Etcheverry, energúmenos como o pirata Morgan ou fenómenos como Rabelais? Resignei-me a julgar as fotos que a gorda começava a mostrar-me num álbum familiar. Numa estavam os dois em Mar dei Plata, para as férias de 1948, metidos na água.

- Este farol - comentou, apontando para um farol construído com conchas que se divisava sobre um móvel ele me deu naquele verão.

Levantou-se, apanhou-o e mostrou-me a inscrição: "Recuerdo de Mar dei Plata", e mais abaixo, acrescentada a tinta, a data: 1948.

Logo voltou ao álbum, enquanto eu era devorado pela ansiedade.

Em outra fotografia o Senhor Etchepareborda aparecia ao lado de sua senhora nos jardins de Palermo. Em outra creio que estava rodeado por seus sobrinhos e por seu cunhado, um Senhor Rabufetti ou algo assim. Em outra, celebrando com o pessoal da Los Gobelinos uma data íntima, segundo as palavras da Senhora Etchepareborda, no Restaurante El Pescadito, da Boca. Etcétera.

Desfilaram crianças peladas e deitadas olhando a câmara, retratos de casamento, outras férias, cunhados, primos, amiguinhas (assim designava a dona da pensão edifícios tão consideráveis como ela).

Vi, feliz, como finalmente fechava o álbum e se dispunha a guardá-lo na gaveta de uma cómoda. Em cima desse móvel, entre várias estatuetas, estava pendurado um quadrinho provençal que dizia:

DÁ TUA CASA DE CORAÇÃO - Então, nenhuma novidade a respeito do pobre Iglesias? - perguntei.

- Não, Senhor Vidal. Ao menos até agora.

- Curioso, muito curioso - comentei, como para mim.

Eu lhe havia dito que entrara em contacto com as sociedades respectivas. com essa mentira conseguia dois resultados de inestimável valor: impedia qualquer iniciativa pessoal dela (iniciativa que, como se vê, oferecia o perigo de ser incontrolada); e podia averiguar, enquanto isso, qualquer episódio que ocorresse. Não se deve esquecer que eu não só me propunha servir-me de Iglesias para penetrar no círculo secreto, mas também previamente investigar e confirmar algumas de minhas hipóteses sobre a organização: se sem inteirar ninguém da situação do fotógrafo este era localizado, minha teoria se confirmava em seus piores extremos e eu devia multiplicar minhas precauções. Mas, por outro lado, essa espera tornava-se perigosa e aumentava minha ansiedade, pelo temor de não chegar a tempo.

Enquanto me mantinha nessa infeliz espera, verificava a marcha de sua transformação no exame de seus traços e maneiras. De noite, principalmente, depois que a porta de baixo era fechada e, consequentemente, não existia o perigo da chegada à pensão do temido e esperado mensageiro (por nada deste mundo a Seita deveria encontrar-me com o tipógrafo), eu entrava em seu quarto e tratava de manter uma conversação ou, ao menos, tentava fazer-lhe companhia, ouvindo rádio com ele: Iglesias, como disse, foi se tornando cada dia mais silencioso e era quase visível o aumento de sua desconfiança e a aparição desse rancor gelado que caracteriza os membros da casta. Também vigiava os sintomas puramente físicos, e ao dar-lhe a mão verificava se sua pele já havia começado a segregar esse quase imperceptível suor frio que é um dos atributos que revelam seu parentesco com os sapos e, em geral, com os sáurios e animais semelhantes.

Entrava, pois, logo após bater na porta e ouvir seu Entre, acendendo a luz no interruptor que estava à esquerda da porta. Iglesias, sentado num canto ao lado do rádio, cada dia mais sério e concentrado, olhava-me, tal como fazem os cegos, com expressão vazia e abstrata, traço que, segundo minha experiência, é o primeiro que adquirem em sua lenta metamorfose. Os óculos negros, destinados unicamente a ocultar suas órbitas queimadas, tornavam ainda mais impressionante sua expressão. Bem sabia eu que por trás daquelas lentes escuras não havia nada, mas era precisamente esse NADA o que definitivamente mais se impunha a mim. E sentia que outros olhos, olhos colocados atrás de sua fronte, olhos invisíveis mas cada vez mais implacáveis e astutos, fixavam-se em minha pessoa, perscrutando-me até o fundo.

Nunca pronunciou uma palavra desagradável: pelo contrário, havia acentuado essa cortesia que é frequente nos naturais de certa região da Espanha, essa cortesia distante que faz parecer fidalgos simples camponeses das ásperas mesetas de Castela. Mas à medida que foram transcorrendo os dias, naquela repetida e silenciosa cena em que nos contemplávamos como duas estátuas egípcias, sentadas e rígidas, eu sentia como o ressentimento de Iglesias ia se assenhoreando de cada canto de seu espírito.

Fumávamos em silêncio. E de repente, para quebrar o intolerável silêncio, eu dizia qualquer coisa que em outra época poderia ter tido interesse para o tipógrafo.

- Os estivadores declararam greve.

Iglesias murmurava um monossílabo, chupava profundamente seu cigarro e logo pensava consigo: Eu te conheço, canalha.

Quando a situação se tornava insustentável, eu me retirava. De qualquer forma, e com todo o desconforto que esses encontros tinham, eu atingia meu propósito de vigiar sua transformação.

E ao sair à rua realizava uma ronda noturna: um pouco como se estivesse tomando ar, como se caminhasse sem vontade, assobiando; mas, na realidade, observando qualquer indício da presença do inimigo.

Mas durante os dois dias que se seguiram à aparição do cego loiro e alto não notei nada que pudesse ter maior significado.


XVI.

No segundo dia, ao entrar na pensão para minha visita noturna, percebi um novo e inquietante sinal.

Antes de ir ao quarto de Iglesias fiz uma visita à Senhora Etchepareborda, para mexericar um pouco. Essa noite, como de costume, ela me convidou a sentar e a tomar o café que preparava para mim. Pensei na ocasião que a dona da pensão imaginava que na verdade eu ia à sua casa para vê-la, e que a cegueira de Iglesias era um pretexto. E, como se diz no devido jargão, eu alimentava suas ilusões: um dia comentava seu vestido, outro me extasiava ante algum novo objecto cromado, outro pedia que me falasse do pensamento vivo do Senhor Etchepareborda.

Aquela noite, enquanto ela preparava o famoso café, fiz minhas perguntas habituais. E ela, como de costume, me respondeu que ninguém havia se interessado pela sorte do tipógrafo.

- Parece mentira, Senhor Vidal. É de se perder a fé na humanidade.

- Não se deve perder nunca as esperanças - respondi, com uma das frases ilustres do Senhor Etchepareborda "É preciso ter Fé no País", "Assim é a Vida", "É preciso confiar nas Reservas da Nação". Frases que mostravam a hierarquia do extinto subchefe de expedição da Los Gobelinos e que, agora morto, comoviam sua esposa.

- Isso é o que sempre repetia meu defunto marido comentou, enquanto me passava o açucareiro.

Logo se referiu ao custo de vida. A culpa toda era do canalha do Perón. Jamais havia gostado desse homem, e sabia eu por quê? Pela forma de esfregar as mãos e sorrir: parecia um padre. E ela nunca havia gostado dos padres, embora respeitasse todas as religiões, isso sim (com seu defunto marido fazia parte das Escolas do Irmão Basílio (Conhecida organização espírita de Buenos Aires. (N. do T.)). Finalmente falou do escândalo que significava o novo aumento da eletricidade.

- Essa gente faz o que quer - disse. - Por exemplo, hoje não veio um homem da CADÊ e se pôs a revistar toda a casa para ver se os aparelhos, os ferros de passar, os fogareiros e tudo mais estavam funcionando? Eu me perguntei, Senhor Vidal, se alguém tem o direito de revistar nossa casa.

Da mesma forma que os cavalos se detêm bruscamente e se empinam ante um objecto suspeito que viram no solo, levantando a cabeça e tornando tesas e vibrantes as orelhas, assim fui sacudido por suas palavras.

- Um empregado da CADÊ? - perguntei quase saltando de minha cadeira.

- Sim, da CADÊ - respondeu com surpresa.

- A que horas? Forçou a memória e disse:

- Lá pelas três da tarde.

- Um homem gordo? Um sujeito de terno claro?

- Sim, era gordo. .. - respondeu, cada vez mais perplexa, olhando-me como se estivesse doente.

- Mas... estava de terno claro ou não? - insisti com aspereza.

- Sim... um terno claro. . . sim, deveria ser de popelina, desses que se usam agora, esses ternos leves.

Observava-me com tanto assombro que eu teria de dar alguma explicação razoável: de outro modo quem sabe se minha atitude não seria suspeita até mesmo para aquela coitada. Mas que explicação dar-lhe? Tratei de inventar algo aceitável: falei de uma dívida que aquele sujeito tinha comigo, formulei uma série de palavras apressadas, porque compreendi que não tinha possibilidade alguma de dizer algo que explicasse meu alarme. E meu alarme provinha do facto de que aquela tarde, às três, me havia chamado a atenção uma personagem gorda, vestida de popelina clara, com uma pasta na mão, que rondava o número 57 da Calle Paso. Que aquele indivíduo me parecesse suspeito e que agora, de acordo com as palavras da dona da pensão, confirmasse minha intuição ao contar-me que havia revistado a pensão era o suficiente para me deixar frenético.

Mais tarde, repassando os episódios vinculados à minha investigação, pensei que minha perturbação e minha atitude a respeito do homem da CADÊ e minhas palavras de suposta explicação à mulher da pensão foram temerárias.

Bastariam para despertar sua suspeita, se tivesse um mínimo de inteligência.

Mas não seria por aquela brecha que iria ruir o trabalhoso edifício. Nessa noite minha cabeça era um tumulto: sentia que o momento decisivo se aproximava. No outro dia, como de costume, mas agora com maior nervosismo, instalei-me desde cedo em meu observatório. Tomei meu café com leite e desdobrei o jornal, mas em verdade não tirava os olhos do 57. Tinha já uma habilidade notável para esse jogo duplo. E enquanto Juanito me dizia sei lá o quê sobre a greve dos metalúrgicos, observei, com emoção quase insuportável, que o homem da CADÊ reaparecia na Calle Paso, com a mesma pastinha e o mesmo terno claro do dia anterior; mas desta vez estava acompanhado por um senhor miúdo e baixinho de rosto muito semelhante ao de Pierre Fresnay (Conhecido ator francês dos anos 30. (N. do T.)). Vinham os dois conversando, e quando o gordo lhe sussurrava algo ao ouvido, para o que devia abaixar-se, o outro assentia com a cabeça. Ao chegar ao número 57, o baixinho entrou na pensão e o homem da CADÊ se afastou rumo à Calle Mitre e finalmente ficou esperando na esquina: apanhou um maço de cigarros e pôs-se a fumar.

Iglesias desceria com o outro?

Não me pareceu provável, pois não era homem de aceitar sem mais nem menos uma proposta ou convite.

Tentei imaginar a cena lá em cima: que diria o baixinho a Iglesias? Como se apresentaria? O mais provável era que o tipo se apresentasse como membro da Biblioteca ou do Coro ou de qualquer uma dessas instituições: havia se inteirado de sua desgraça, eles tinham organizado a ajuda, etcétera. Mas, como digo, pareceu-me difícil que Iglesias concordasse em segui-lo na primeira oportunidade: havia se tornado demasiadamente desconfiado e, além disso, havia acentuado seu orgulho; que já antes de sua cegueira era, como em tantos espanhóis, marcadíssimo.

Quando o emissário desceu só e foi reunir-se ao homem da CADÊ, senti com satisfação que minhas suposições haviam sido corretas, o que me revelava que tinha uma ideia exacta da marcha dos acontecimentos.

O homem da CADÊ pareceu escutar com muito interesse o relatório do baixote e logo saíram, conversando animadamente em direção à Avenida Pueyrredón.

Corri até lá: era imprescindível averiguar algo o quanto antes, sem, no entanto, despertar as suspeitas de Iglesias.

A viúva me recebeu com mostras de entusiasmo:

- Finalmente os homens daquela sociedade vieram!

- exclamou, pegando-me a mão direita entre as suas.

Tratei de acalmá-la.

- E sobretudo, minha senhora, nenhuma palavra a Iglesias.

Não vá deixar escapar que fui eu quem chamou essa gente.

Assegurou-me que se lembrava muito bem de minhas recomendações.

- Perfeito - comentei. - E que resolveu Iglesias?

- Ofereceram-lhe trabalho.

- Que tipo de trabalho?

- Não sei. Não me disse nada.

- E que respondeu ele?

- Que iria pensar.

- Até quando?

- Até esta tarde, porque hoje ainda vai voltar aquele senhor. Quer apresentá-lo.

- Apresentá-lo? Onde?

- Não sei, Senhor Vidal.

Declarei-me satisfeito com o interrogatório e me despedi. Ao sair, perguntei:

- Ia me esquecendo: a que horas voltará esse senhor?

- Às três.

- Perfeito.

As coisas começavam a entrar nos eixos.


XVII.

Como em outras ocasiões, o nervosismo provocou em mim uma urgente necessidade de ir ao banheiro. Entrei na Antigua Perla dei Once e me dirigi ao toalete. É curioso que neste país o único lugar onde se fala de Damas e Cavalheiros seja aquele onde invariavelmente deixam de sê-lo. Às vezes penso que esta é uma das tantas formas da irónica descrença argentina. Enquanto me acomodava no quartinho infecto, confirmando minha velha teoria que o banheiro é o único lugar filosófico que permanece em estado puro, comecei a decifrar as emaranhadas inscrições. Sobre o inevitável e básico VIVA PERÓN alguém havia apagado violentamente a palavra VIVA e a havia trocado por MORRA, palavra que por sua vez havia sido apagada e substituída por VIVA, neta da primeira, e assim alternadamente, em forma de pagode, ou melhor, de um trêmulo edifício em construção. À esquerda e à direita, acima e abaixo, com setas indicadoras e sinais de admiração ou desenhos alusivos, aquela expressão original parecia adornada, enriquecida e comentada (como por uma raça de violentos e pornográficos exegetas) com comentários diversos sobre a mãe de Perón, sobre as características sociais e anatómicas de Eva Duarte; sobre o que faria o comentarista desconhecido e defecante se tivesse a ventura de encontrar-se com ela numa cama, numa poltrona ou até mesmo no próprio banheiro da Antigua Perla del Once. Frases e expressões de desejos que por sua vez eram apagados parcial ou totalmente, obliterados, tergiversados ou enriquecidos pela inclusão de um advérbio perverso ou laudatório, incrementados ou atenuados pela intervenção de um adjetivo; com lápis e giz das mais diferentes cores; com desenhos ilustrativos que pareciam ter sido executados por um Professor Testut bêbado e baboso. E em diferentes espaços livres, abaixo ou ao lado, às vezes (como no caso dos anúncios importantes nos jornais) tarjados, com diversos tipos de letra (ansioso ou lânguido, esperançoso ou cínico, obstinado ou frívolo, caligráfico ou grotesco), pedidos e ofertas de telefones para homens que tenham tais ou tais atributos, que estejam dispostos a realizar tais ou tais combinações ou façanhas, artifícios ou fantasias, atrocidades masoquistas ou sádicas. Oferecimentos e pedidos que por sua vez eram modificados por comentários irónicos ou insultantes, agressivos ou humorísticos de terceiras pessoas que por algum motivo não estavam dispostas a intervir na combinação precisa, mas que, em algum sentido (e seus comentários assim o provavam), também desejavam participar, e participavam, daquela magia lasciva e alucinante. E em meio àquele caos, com setas indicadoras, a resposta anelada e esperançada de alguém que indicava como e quando esperaria o Príncipe Cacográfico e Anal, às vezes com uma anotação terna e aparentemente inadequada para aquele noticiário de toalete: ESTAREI com UMA FLOR NA MÃO.

"O reverso do mundo", pensei.

Como em todas as páginas policiais, ali parecia revelarse a verdade última da raça.

"O amor e os excrementos", pensei.

E, enquanto me abo toava, também pensei: "Damas e Cavalheiros".


XVIII.

Às duas da tarde já estava instalado no café, por via das dúvidas. Mas até as três não apareceu o homenzinho que se parecia com Pierre Fresnay. Caminhava agora sem nenhuma vacilação. Quando chegou perto da casa levantou o olhar para verificar a numeração (pois vinha caminhando com a cabeça baixa, como se ruminasse algo interiormente) e entrou no número 57.

Esperei sua saída com os nervos tensos: aproxima-se a parte mais arriscada de minha aventura, pois embora por um momento tenha pensado na possibilidade mais comum de que o levassem a alguma sociedade de beneficência, minha intuição me disse em seguida que não seria de forma alguma assim: fariam isso mais tarde. O primeiro passo deveria consistir em algo muito menos inocente, conduzindo-o ante algum cego de certa importância, talvez um dos vínculos com os hierarcas. Em que me baseava para inclinar-me a tal suposição? Pensava que antes de largar um novo cego em circulação, por assim dizer, os hierarcas quereriam conhecer a fundo suas características, suas condições e suas tarefas, seu grau de perspicácia ou sua imbecilidade: um bom chefe de espionagem não dá uma missão a seus agentes sem um prévio exame de suas virtudes e defeitos. E é óbvio que recorrer aos metropolitanos para recolher tributos não exige as mesmas condições que a missão de vigiar junto a um lugar tão importante como o Centro Naval (como esse cego alto de chapéu, de uns sessenta anos, que permanece eternamente silencioso com seu lápis na mão e que dá a impressão de ser um cavalheiro inglês decaído por um espantoso golpe do destino). Há, como já disse, cegos e cegos. E se bem que todos tenham um essencial atributo comum, que lhes confere esse mínimo de peculiaridades raciais, não devemos simplificar o problema a ponto de crer que todos são igualmente subtis e perspicazes. Há cegos que só servem para o trabalho de choque; há entre eles o equivalente dos estivadores ou policiais; e há os Kierkegaards e os Prousts. Ademais, não se pode saber no que se transformará um homem que entre na Seita sagrada por enfermidade ou acidente, pois, como na guerra, ocorrem incríveis surpresas, e, assim como ninguém poderia prever que daquele tímido empregadinho de um banco em Boston iria surgir um herói de Guadalcanal, tampouco se pode predizer de que surpreendente maneira pode a cegueira elevar a hierarquia de um porteiro ou de um tipógrafo: diz-se que um dos quatro hierarcas que governam mundialmente a seita (e que vivem em alguma parte dos Pirinéus, numa das grutas a enorme profundidade que, acabando num desastre mortal, um grupo de espeleólogos tentou explorar em 1950) não era um cego de nascença e que, e isso é o mais assombroso, em sua vida anterior havia sido um simples jóquei que corria no hipódromo de Milão, lugar onde perdeu a vista numa rodada. Essa é uma informação de enésima mão, como é de supor, e, embora eu creia ser muito pouco provável que um homem que não seja cego de nascença pertença à hierarquia, repito a história só para mostrar até que ponto se pode crer que uma pessoa é suscetível de se tornar grande por ter perdido a vista. O sistema de promoção é tão esotérico, que creio ser por demais duvidoso que alguém possa jamais conhecer a identidade dos Tetrarcas. O que acontece é que no mundo dos cegos se murmuram e se propalam informações que nem sempre são verdadeiras: em parte, talvez, porque conservam essa propensão à maledicência e ao chiste que é própria dos seres humanos, incrementada em sua raça em proporções patológicas; em parte, e essa é uma hipótese minha, porque os hierarcas utilizam as falsas informações como um dos meios para manter o mistério e o equívoco, duas armas poderosas em qualquer organização desse género. Mas, seja como for, para que uma notícia seja verossímil tem de ser ao menos possível em princípio, e isso basta para provar, como no suposto caso do ex-jóquei, até que ponto a cegueira pode multiplicar a personalidade de um indivíduo comum. Voltando a nosso problema, imaginei que Iglesias não seria conduzido naquela primeira saída a uma das sociedades esotéricas, essas instituições onde os cegos utilizam os pobres-diabos videntes ou as senhoras de bom coração e cérebro de mosca, lançando mão dos piores e mais baratos recursos da demagogia sentimental. Intuí, portanto, que aquela primeira saída de Iglesias poderia introduzir-me de repente num dos redutos secretos, com todos os perigos que isso implicava, é verdade, mas, mesmo assim, com todas as suas fantásticas possibilidades. De modo que nessa tarde, quando me sentei no café, já havia tomado todas as medidas que me pareceram inteligentes para o caso de uma viagem de tal natureza. Pode-se dizer que é fácil tomar determinações razoáveis para uma viagem às serras de Córdoba, mas não se vê como, a menos que se esteja louco, se podem tomar medidas razoáveis para uma exploração do universo dos cegos. bom: a verdade é que essas famosas medidas foram duas ou três relativamente lógicas: uma lanterna elétrica, algum alimento concentrado e duas ou três coisas similares. Decidi que, assim como fazem os nadadores de fundo, o melhor era levar, como alimento concentrado, chocolate.

Com minha lanterna no bolso, meu chocolate e uma bengala branca que me ocorreu no último minuto poderia ser útil (como o uniforme do inimigo para uma patrulha), esperei, com os nervos no último grau de tensão, a saída de Iglesias com o homenzinho. Restava, é claro, a possibilidade de que o tipógrafo, em sua qualidade de espanhol, se negasse a acompanhar o homenzinho e decidisse permanecer orgulhosamente solitário; nesse caso todo o edifício que eu havia erigido viria abaixo como um castelo de cartas; e meu equipamento de chocolate, lanterna e bengala branca ficaria automaticamente convertido num grotesco equipamento para louco.

Mas Iglesias desceu!

O senhor baixinho vinha conversando com entusiasmo, e o tipógrafo o escutava com sua dignidade de fidalgo miserável que nunca se rebaixou nem se rebaixaria jamais. Movia-se com embaraço e a bengala branca que o outro lhe havia trazido era manejada ainda com timidez, mantida no ar durante vários passos, como quem leva uma garrafa térmica.

Quanto lhe faltava ainda para completar seu aprendizado! Essa comprovação me reanimou e fui atrás deles com bastante circunspecção.

Em momento algum o senhor baixinho deu indícios de suspeitar de minha perseguição, e isso também aumentou minha segurança a ponto de despertar-me uma espécie de orgulho pelo facto de as coisas estarem saindo como eu havia calculado em tantos anos de espera e estudos preliminares. Porque, e não sei se o disse antes, desde minha frustrada tentativa com o cego do metropolitano em Palermo, dediquei quase todo o tempo de minha vida à observação sistemática e minuciosa da actividade visível de quanto cego encontrava nas ruas de Buenos Aires; nesse lapso de três anos comprei centenas de revistas inúteis; comprei e joguei fora dezenas de esticadores para os colarinhos; adquiri milhares de lápis e cadernetas de todo tamanho; assisti a concertos de cegos; aprendi o sistema Braile e permaneci dias intermináveis na biblioteca.

Como se vê, essa actividade oferecia perigos imensos, já que, se suspeitassem de mim, todos os meus planos viriam abaixo, além do que minha vida correria perigo; mas era inevitável e, até certo ponto, paradoxalmente, a única oportunidade de salvação frente a esses perigos: mais ou menos como o aprendizado que, com perigo de morte, fazem os soldados que são treinados para desarmar minas, que no momento culminante de seu treino devem enfrentar os mesmos perigos que precisamente estão destinados a evitar.

Não era tão irracional, no entanto, para enfrentar esses riscos sem precauções elementares: trocava minha roupa, usava bigodes ou barbas postiças, punha óculos escuros, mudava minha voz.

Assim investiguei muitas coisas nesses três anos. E graças a esse árido labor preliminar me foi possível penetrar no domínio secreto.

E assim terminei. . .

Porque nesses dias que precedem minha morte já não tenho dúvidas de que meu destino estava decidido, talvez desde o começo de minha investigação, desde aquele dia aziago em que vigiei o cego do metropolitano durante várias viagens entre Plaza Mayo e Palermo. E às vezes penso que, quanto mais astuto me julgava e quanto mais fatuamente celebrei o que imaginava ser minha suprema habilidade, mais era vigiado e mais me encaminhava rumo a minha própria perdição. Até o ponto em que cheguei a suspeitar da própria viúva de Etchepareborda. Quão tenebrosamente cómica me aparece agora a ideia de que toda aquela mise en scène com bibelots e bâmbis gigantescos, com fotos trucadas de casal pequeno-burguês em férias, com aprazíveis tabuletas provençais, que tudo aquilo, enfim, que em minha arrogância me fazia sorrir interiormente, não tenha sido mais que isto: uma peça barata, uma mise en scène tenebrosamente cómica.

Contudo, isso não são mais que suposições, ainda que sejam praticamente suposições. E me propus a falar de FACTOS. Voltemos, pois, aos acontecimentos tal como ocorreram.

Nos dias que precederam a saída de Iglesias eu havia estudado, como numa partida de xadrez, todas as variantes que poderia assumir essa saída, já que devia estar preparado para cada uma delas. Por exemplo, poderia muito bem ocorrer que essa gente viesse buscá-lo num táxi ou carro particular. Como eu não ia perder a mais brilhante oportunidade de minha vida por esquecimento de uma combinação tão grosseiramente previsível, mantive estacionada nas proximidades uma Rural que me emprestou R., um de meus sócios na falsificação de cédulas. Mas, quando vi naquele dia chegar a pé o emissário parecido com Pierre Fresnay, compreendi que minha precaução era inútil.

Restava, é claro, a variante de logo apanhar um táxi com Iglesias, e embora hoje em dia em Buenos Aires seja tão difícil conseguir um táxi como um mamute, estive atento a essa possibilidade quando o vi sair. Mas não permaneceram na porta em atitude de quem espera a passagem de alguém; pelo contrário, e sem sequer dar uma olhada à direita ou à esquerda, o homenzinho levou o tipógrafo pelo braço para o lado da Bartolomé Mitre: era evidente que, aonde quer que fossem, iriam pelos meios comuns de transporte.

Restava, é claro, a variante de que o outro, o gordo da CADÊ, os estivesse esperando em algum lugar com um carro, mas não me pareceu lógico, pois não via nenhum motivo para que não os esperasse ali mesmo na Calle Paso. Por outro lado, me parecia bastante adequado o transporte em ónibus ou metropolitano, pois, provavelmente, não iriam querer dar ao novo cego a sensação imediata de que eram uma seita todo-poderosa: a humildade de procedimentos, mesmo a pobreza de recursos, são uma arma eficaz em meio a uma sociedade atroz e egoísta mas propensa ao sentimentalismo. Embora o "mas" devesse ser substituído pela simples conjunção "e”.

Segui os dois a uma distância prudente.

Ao chegar à esquina dobraram para a esquerda e seguiram até a Pueyrredón. Ali se detiveram frente a um ponto de ónibus. Havia uma fila de várias pessoas, homens e mulheres; no entanto, por iniciativa de um senhor de pasta e óculos, de aspecto honrado, mas que intuí ser um implacável canalha, todos deram preferência ao "ceguinho".

E assim se refez a fila atrás de nossos dois homens.

No poste indicador estavam marcados três números, e eram para mim a chave inicial de um grande enigma: já não eram os números de ónibus que vão ao Retiro ou à Faculdade de Direito, ao Hospital das Clínicas ou a Belgrano, mas às portas do desconhecido.

Subiram no ónibus que vai a Belgrano e eu atrás deles, depois de fazer passar à minha frente algumas pessoas que deviam me servir de isoladores.

Quando o ónibus chegou a Cabildo, comecei a me perguntar em que parte de Belgrano desceriam. O ónibus seguiu sem que o homenzinho desse mostras de preocupação. Até que ao chegar a Virrey dei Pino começou a pedir passagem e se acomodaram ao lado da porta de saída. Desceram na Calle Sucre. Pela Sucre seguiram até a Obligado e por esta desceram rumo ao norte, até a Juramento, depois até a Cuba, pela Cuba novamente ao norte; ao chegar à Monroe voltaram à Obligado e, por esta rua, retornaram à pracinha pela qual haviam passado antes, essa pracinha que fica na esquina da Echeverría com a Obligado.

Era evidente que: tratava-se de despistar. Mas a quem? A mim? A qualquer suposto indivíduo que, como eu, estivesse na pista? Essa hipótese não era descartável, pois, como é natural, não fui o primeiro a tentar penetrar no mundo secreto. É provável que tenham sido muitos ao longo da história humana, e, de qualquer forma, suspeito de dois: um, Strindberg, que pagou com a loucura, e o outro, Rimbaud, ao qual se começou a perseguir já antes da viagem à África, tal como se entrevê numa carta que o poeta mandou à sua irmã e que Jacques Rivière interpreta erroneamente.

Também cabia a suposição de que se tratasse de despistar Iglesias, tendo-se presente o finíssimo sentido de orientação que adquire o homem desde o momento em que perde a vista. Mas para quê?

Seja como for, depois daquele percurso iterativo, voltaram à pracinha, onde está a Igreja da Imaculada Conceição. Por um instante pensei que entrariam nela, e vertiginosamente pensei em criptas e em algum pacto secreto entre as duas organizações. Mas não: dirigiram-se a esse curioso beco de Buenos Aires formado por uma fila de velhas casas de dois andares, tangentes ao círculo da igreja.

Entraram por uma das portas que dá aos andares superiores e começaram a subir a sórdida e antiga escada de madeira.


XIX.

Assim começava a etapa mais árdua e arriscada de minha investigação.

Detive-me na praça a reflectir sobre os próximos passos que poderia e deveria dar.

Era óbvio que não podia segui-los imediatamente, dadas as perigosas características da seita. Restavam duas possibilidades: ou esperar que eles saíssem e logo, uma vez afastados, subir para indagar o que fosse possível; ou subir após um prudente intervalo, sem esperar a saída deles.

Embora esta segunda variante fosse a mais arriscada, era também a que oferecia mais perspectivas, com a vantagem de que se não tirasse nada a limpo em minha inspeção sempre restaria de qualquer forma a segunda possibilidade de esperar sua saída, sentado num banco da praça. Esperei uns dez minutos e comecei a subir cautelosamente. Embora fosse imaginável que a gestão, ou apresentação, ou o que fosse, de Iglesias não seria uma questão de minutos, mas de horas; ou eu tinha uma ideia totalmente errónea do que era aquela organização. A escada era suja e gasta, pois pertencia a uma dessas antigas casas que em algum tempo tiveram pretensões mas que agora, descuidadas e sujas, são em geral casas de pensão: são grandes demais para uma única família pobre, e excessivamente infectas para uma família de certa posição. E fazia essa reflexão porque, se a casa era de pensão, o problema se complicava de forma quase labiríntica: a quem iriam ver e em qual dos apartamentos? Por outro lado me parecia verossímil que o hierarca, ou o informante do hierarca, vivesse de forma tão humilde e até miserável.

Enquanto subia a escada, esses pensamentos me enchiam de incerteza e me amarguravam, pois seria desalentador que depois de tantos anos de espera pudesse desembocar na entrada de um labirinto.

Felizmente tenho a propensão a imaginar sempre o pior. Digo "felizmente" porque dessa forma meus preparativos são mais fortes que os problemas que a realidade logo me apresenta; e, embora disposto ao pior, essa realidade torna-se menos difícil que o previsto.

Assim foi, pelo menos, no que se referia ao problema imediato daquela casa. Quanto ao outro, pela primeira vez em minha vida foi pior do que eu esperava.

Quando cheguei ao patamar do primeiro andar, verifiquei que havia uma só porta e que a escada morria ali mesmo; não havia, portanto, nenhum desvão nem existia entrada para dois apartamentos: contudo, o problema era o mais simples que podia apresentar-se.

Permaneci certo tempo frente àquela porta fechada, com os ouvidos atentos ao menor rumor de passos e com as pernas prontas para descer. Arriscando tudo, coloquei meu ouvido contra a abertura e tratei de captar qualquer indício, mas nada ouvi.

Tinha-se a impressão de que aquele apartamento estava desocupado.

Nada me restava senão esperar na praça.

Desci e, sentando-me num banco, decidi aproveitar o tempo para estudar tudo o que se relacionava àquele lugar.

Já disse que a construção é estranha, pois se estende ao longo de uma quadra e sobre uma reta tangente ao círculo da igreja. A parte central, a que fica em contacto com o corpo da igreja, pertence certamente a ela e suponho que abrigue a sacristia e algumas dependências eclesiásticas. Mas o resto da construção, à esquerda e à direita, é ocupado por famílias, como o demonstram vasos com flores nos balcões e roupas, canários, etcétera. No entanto, não podia passar despercebido a meu exame que as janelas correspondentes ao apartamento dos cegos mostravam algumas diferenças: não havia nenhum desses atributos que revelam a presença de gente e, além disso, estavam fechadas. Poder-se-ia arguir que os cegos não precisam de luz. Mas... e de ar? Por outro lado, esses indícios confirmavam os que havia recebido escutando atrás da porta, lá em cima. Enquanto vigiava a saída continuei especulando sobre o estranho facto, e depois de dar muitas voltas cheguei a uma conclusão que me pareceu surpreendente mas irrefutável: naquele apartamento não morava ninguém.

E digo surpreendente porque, se nele não morava ninguém, para que havia entrado Iglesias com o homenzinho parecido com Pierre Fresnay? A inferência era também irrefutável: o apartamento só servia de entrada para uma outra coisa. E disse "coisa" porque, embora pudesse ser outro apartamento, talvez o vizinho ao qual se podia ter acesso por uma porta interior, também era possível que fosse "algo" menos imaginável, tratando-se, como se tratava, dos cegos. Uma passagem interior e secreta até os porões? Não era improvável.

Enfim, raciocinei que era inútil nesse momento continuar espremendo o cérebro, já que tão logo saíssem os dois homens teria ocasião para efetuar um exame mais a fundo do problema.

E havia previsto que a apresentação de Iglesias seria algo complicado e portanto demorado: mas deve ter sido mais complicado do que supus porque só saíram às duas da madrugada. Até a meia-noite, depois de oito horas de espera atenta, quando a escuridão tornava ainda mais misterioso aquele estranho beco de Buenos Aires, meu coração foi se comprimindo como se começasse a suspeitar de alguma abjeta iniciação em recônditos subterrâneos, em úmidos hipogeus, a cargo de algum tenebroso e cego mistagogo; e como se essas tétricas cerimónias me trouxessem a premonição das jornadas que me esperavam.

Às duas da madrugada!

Pareceu-me que o andar de Iglesias era mais incerto na entrada, e tive a sensação de que algo enorme encurvava seu espírito. Mas talvez tudo isso tenha sido impressão de minha parte, provocada pelo lúgubre conjunto de circunstâncias: minhas ideias sobre a seita, a iluminação mortiça da praça, a imensa cúpula daquela igreja e, sobretudo, a luz equívoca projectada sobre a escada pela lâmpada suja pendurada no alto da entrada.

Esperei que se fossem, observei como se afastavam rumo a Cabildo e, quando tive certeza de que já não voltariam, corri até a casa.

No silêncio da madrugada, o ruído de meus passos parecia estrondoso e cada ranger daqueles degraus despregados me fazia dar uma olhada às minhas costas.

Quando cheguei ao patamar me esperava a maior surpresa que tinha tido até esse momento: a porta tinha cadeado! Por essa eu não esperava.

O desalento me prostrou e tive de sentar-me no primeiro degrau daquela maldita escada. Assim permaneci um bom tempo, aniquilado. Mas logo minha cabeça começou a funcionar e minha imaginação foi apresentando uma série de hipóteses:

Eles acabavam de sair e depois ninguém mais o fez, de modo que o cadeado foi tirado na entrada e posto na saída pelo homem parecido com Pierre Fresnay. Portanto, se naquela casa havia algum tipo de habitante, ou se dava, mediante uma passagem secreta, para "algo" habitado, de qualquer forma esses seres não saíam nem entravam pela porta que agora tinha diante de meus olhos. Esse "algo", pois, esse apartamento ou casa ou cova ou o que fosse, teria outra ou várias saídas, talvez dando para outras zonas do bairro ou da cidade. A porta com cadeado seria então reservada para o baixote mensageiro ou intermediário? Claro, sim: para ele ou para outros indivíduos que desempenhassem tarefas semelhantes, cada um dos quais provido supostamente de uma chave idêntica.

Essa primeira série de raciocínios confirmou a suposição que fiz ao observar a casa da pracinha: ali não vivia ninguém. Desde já podia dar como certa, pois, uma conclusão importante para minhas etapas seguintes: aquele apartamento era meramente uma passagem PARA OUTRA PARTE.

Que podia ser aquela "outra parte"? Isso eu não podia imaginar, e só me restava a audaz tentativa de violar aquele cadeado, entrar na casa misteriosa e ver, uma vez lá dentro, até onde poderia conduzir. Para isso era necessário uma gazua ou, simplesmente, quebrar aquilo com uma torquês ou qualquer outro meio violento.

Minha impaciência agora era tanta que não podia esperar outro dia. Descartei a ideia de rebentar o cadeado pelo ruído que produziria a operação, e pensei que o melhor seria recorrer à ajuda de um de meus conhecidos. Desci, fui até Cabildo e esperei um táxi, que a essa hora da madrugada não faltavam. A sorte parecia estar do meu lado: em poucos minutos tomei um e ordenei que me levasse até a Calle Paso. Ali peguei a Rural e fui até a casa de Floresta, onde vive F. Expliquei-lhe a gritos (é famoso por seu sono pesado) que necessitava abrir um cadeado naquela mesma noite. Quando desceu e soube de que tipo de fechadura se tratava, quase caiu de novo na cama, tão indignado estava; despertá-lo para abrir um cadeado era como consultar Stavisky para um golpe de mil francos. Levantei-o, ameacei-o e finalmente o arrastei até minha camioneta; correndo como se a organização fosse ruir naquela mesma noite, cheguei em pouco mais de meia hora à pracinha de Belgrano. Parei o carro na Echeverría e, depois de verificar que nenhuma pessoa se encontrava nos arredores, desci com F. e caminhamos até nossa casa.

A operação de abrir o cadeado lhe tomou cerca de meio minuto, depois do que lhe disse que teria de voltar só a Floresta, porque eu demoraria muito naquela casa. Ele ficou ainda mais furioso, mas consegui convencê-lo de que se tratava de algo de grande importância para mim e que, em todo caso, em Cabildo era fácil encontrar táxis. Recusou com dignidade o dinheiro que tentei dar-lhe para o táxi e se afastou sem se despedir.

Devo dizer que enquanto ia em meu carro até a Calle Paso me assaltou uma pergunta: por que quando subi pela primeira vez não havia cadeado? bom, era lógico que não tivesse, já que os dois homens haviam entrado e não podiam voltar a pôr um cadeado pelo lado de fora. Mas se aquela entrada era tão importante, como tudo fazia supor, como se explicava que a deixassem aberta a qualquer intruso? Pensei que tudo isso se explicaria se ao entrar o homenzinho tivesse corrido um ferrolho ou posto uma tranca.

Tal como era de esperar, no interior reinava a mais completa escuridão e um silêncio de morte. A porta se abriu com uma série de ruídos que me pareceram estrondosos. com minha lanterna iluminei a parte posterior da porta e vi, com satisfação, que tinha um trinco e que esse trinco, de bronze, não estava oxidado, o que revelava seu uso.

Minha suposição sobre a tranca interior se confirmava e com ela a hipótese (temível) de que aquela porta não podia ficar aberta em momento algum.

Muito tempo depois, meditando sobre estes factos, perguntei-me por que, se era tão importante, estava fechada com um cadeado que F. podia arrombar em pouco mais de meio minuto. O facto, bastante chamativo, tinha uma só explicação: fazê-la parecer uma casa qualquer, uma casa que por um motivo ou outro está desocupada.

Embora eu viesse com a convicção de que ali não havia espécie alguma de habitante, entrei com cuidado e comecei a alumiar as paredes do primeiro cómodo. Não sou covarde, mas qualquer um em minha situação teria sentido o mesmo temor que eu naqueles momentos, ao percorrer, lenta e cuidadosamente, aquele apartamento desmantelado e vazio, imerso nas trevas. E, facto significativo, batendo nas paredes com minha bengala branca, como um autêntico cego! Não havia reflectido até agora sobre esse inquietante signo, embora sempre tenha pensado que não se pode lutar durante anos contra um poderoso inimigo sem terminar por se parecer com ele; já que se o inimigo inventa a metralhadora, cedo ou tarde, se não queremos desaparecer, é preciso inventá-la e utilizá-la, e o que vale para um facto elementar e físico como uma arma de guerra vale, e por mais profundos e sutis motivos, para as armas psicológicas e espirituais: os esgares, os sorrisos, as maneiras de se mover e de trair, os torneios de linguagem e a forma de sentir e viver; razão pela qual é tão comum que marido e mulher acabem por se parecer um com o .outro.

Sim: pouco a pouco eu ia adquirindo muitos dos defeitos e virtudes da raça maldita. E, como sempre acontece, a exploração de seu universo havia sido, também começo a vislumbrar agora, a exploração de meu próprio e tenebroso mundo.

A luz de minha lanterna logo mostrou que naquele primeiro cómodo não havia nada: nem um móvel, nem mesmo um traste esquecido; tudo era pó, pisos esburacados e paredes com o reboco caindo, com restos velhos e pendurados de um antigo e elegante papel de parede. Esse exame me tranquilizou bastante porque me fazia supor o que havia previsto desde a pracinha: que a casa era desabitada. Percorri então com maior firmeza e rapidez o resto das dependências e fui pouco a pouco completando e confirmando essa primeira impressão. E então compreendi por que era desnecessário tomar medidas de excessiva precaução com a porta de entrada; já que, se por acaso algum ladrão arrombasse o cadeado, sairia logo decepcionado.

Para mim era diferente, porque sabia que essa casa fantasmagórica não era um fim, mas um meio.

De outra forma teria de supor que o homenzinho insignificante que tinha ido em busca de Iglesias era uma espécie de imbecil que havia trazido o espanhol até semelhante antro, onde, numa escuridão absoluta e sem ter sequer onde se sentar, lhe havia falado durante dez horas sobre algo que, por terrível que fosse, teria podido contar na própria casa do tipógrafo.

Impunha-se buscar as saídas em outra parte. O primeiro e mais simples seria pensar numa porta, visível ou secreta, que desse para a casa do lado; o segundo e menos simples (mas nem por isso menos provável, já que por que seria simples algo relacionado a seres tão monstruosos?), o segundo era supor que essa porta visível ou secreta desse para uma passagem que levasse a subsolos ou a lugares mais distantes e perigosos. Em qualquer caso minha tarefa consistia agora em procurar a porta secreta.

Verifiquei em primeiro lugar todas as portas visíveis: sem exceção, eram de comunicação entre os diferentes quartos e dependências. A porta, como por outro lado se podia supor, era invisível, ou, pelo menos, invisível à primeira vista.

Recordei situações que havia visto em filmes ou lido em livros de aventuras: qualquer moldura ou marca de um retrato podia ser a porta dissimulada. Como não havia nenhum retrato na casa abandonada não era necessário perder tempo com isso.

Examinei, cómodo por cómodo, as paredes sem reboco para ver se em algum canto ou comija ou rodapé não estariam ocultos interruptores elétricos ou mecanismos semelhantes. Com maior atenção examinei as duas dependências que, por sua natureza, oferecem mais particularidades: o banheiro e a cozinha. Embora totalmente bagunçados apresentavam, com efeito, ricas possibilidades que não existiam nos outros quartos. O vaso sanitário, sem tampa, não oferecia maiores perspectivas, mas mesmo assim tratei de girar os velhos gonzos da tampa inexistente; em seguida puxei a descarga, apertei ou virei todo tipo de torneiras, tentei levantar a velha banheira, etcétera. Fiz uma análise semelhante na cozinha, sem resultado.

O exame foi tão repetido e cuidadoso que se não soubesse que aqueles dois homens haviam estado ali naquela mesma noite teria abandonado minha empresa.

Sentei-me, desalentado, sobre o velho fogão a gás. Por experiências anteriores sabia que chegado a um ponto não vale a pena repetir os mesmos raciocínios porque se forma uma estrada mental que impede saídas laterais.

De repente, me vi comendo chocolates, o que teria sido extremamente cómico para qualquer espectador escondido por ali e invisível para mim. E estava quase rindo interiormente dessa cena imaginária quando quase morro ante a ideia de que quem me garantia realmente que ALGUÉM não estava me observando de um lugar invisível?

Havia tetos esburacados, paredes sem reboco que podiam ocultar orifícios pelos quais se podia espiar da casa vizinha. Novamente fui tomado pelo terror e por alguns minutos apaguei a lanterna, como se essa precaução tardia me pudesse ser de alguma utilidade. Em meio às trevas, tratando de adivinhar o sentido do menor roçar, tive no entanto a suficiente lucidez para compreender que minha precaução era não só idiota mas também quase contraproducente, já que sem luz ficava mais indefeso que com ela. Acendi, pois, de novo, minha previdente lanterna e, embora mais nervoso do que antes, tratei de pensar no segredo que deveria esclarecer.

Obcecado com a ideia dos buracos de vigilância, comecei a examinar com o facho de luz os tetos da casa abandonada: eram desses tetos de gesso, construídos sobre uma trama de madeira, e, com efeito, apresentavam grandes partes caídas, molduras danificadas. Evidentemente, era possível, através de tais brechas, vigiar uma ou mais pessoas, mas de qualquer forma tampouco nos tetos se notava algo que se parecesse a uma entrada ou acesso. Além disso, nesse caso seria necessário uma escada, e não havia nenhuma em todo o apartamento. A menos que a escada fosse retirada por cima uma vez cumprida sua missão: uma dessas escadinhas de corda.

E assim estava olhando os tetos e pensando nessa variante quando me ocorreu finalmente a solução: o piso! Era a coisa mais simples e, como muitas vezes acontece, a última que nos ocorre.


XX.

Com crescente tensão nervosa comecei a iluminar cada pedaço de chão até que achei o que era inevitável: uma imperceptível ranhura em forma quadrada marcava, sem dar margem a dúvidas, um desses alçapões que dão acesso a porões. Claro! A quem ocorreria que num apartamento de primeiro andar pudesse existir uma entrada de porão? De certo modo voltava a confirmar-se minha ideia primitiva de que a casa se comunicava com a vizinha por meio de uma porta invisível; mas quem iria imaginar que essa casa era a de baixo? Naquele momento, tanta era minha agitação, que não pensei em algo que talvez me fizesse fugir espavorido: o ruído de meus passos. Como poderiam ter passado inadvertidos para cegos que morassem no andar de baixo? Essa irreflexão minha, esse erro, me permitiu prosseguir na busca; pois nem sempre é a verdade que nos leva a realizar uma grande descoberta. E digo isso para que se veja um exemplo típico dos tantos equívocos e falhas que cometi na investigação, apesar de ter mantido minha cabeça em constante e febril funcionamento. Mas creio que nesse tipo de buscas há algo mais poderoso que nos guia, uma obscura mas infalível intuição tão inexplicável, mas tão segura, como essa que têm os sonâmbulos e que lhes permite caminhar directamente para seus objectivos. Para seus inexplicáveis objectivos.

A fechadura era tão hermética que não havia nem como pensar em levantar aquela tampa sem a ajuda de um instrumento afiado e forte; era evidente que se abria pelo lado de baixo e que deveriam abri-la a uma hora convencionada com o emissário. Fiquei desesperado ao pensar que a operação deveria ser feita naquela mesma noite, pois no dia seguinte alguém notaria a violação do cadeado e tudo seria mais difícil, se não impossível. Que fazer? Não tinha nada que me pudesse ajudar. Recorri mentalmente ao que tinha à mão: só na cozinha ou no banheiro poderia haver algo que servisse a meus fins. Voei até a cozinha e não achei nada útil. Fui em seguida ao banheiro e, finalmente, concluí que o braço da bóia seria um instrumento mais ou menos eficaz. Tirei a bóia, forcei o braço até soltá-lo e voltei correndo ao quarto onde havia encontrado a abertura. Trabalhando durante mais de uma hora consegui desgastar o suficiente um dos bordos, aproveitando irregulares saliências deixadas pelo resto da solda. Por ali meti finalmente o braço de ferro e, com cuidado, fiz uma alavanca. Após algumas tentativas falhas, que aumentaram meu desespero, consegui finalmente levantar a tampa o suficiente para enfiar os dedos e concluir a operação com as mãos. Tirei a tampa com o maior cuidado, coloquei-a de lado e com minha lanterna projectei um facho de luz até o interior: a abertura não dava, como havia pensado, para o apartamento de baixo, mas para uma longa escada descendente e tubular pela qual comecei a descer.

Assim cheguei a um antigo porão, situado sob o apartamento de baixo; porão que talvez tivesse pertencido, como era lógico, ao apartamento do térreo e que, por algum acordo entre os primeiros donos, passara a fazer parte do de cima, mediante aquela anormal e imprevisível escada.

O porão era característico de tantas casas de Buenos Aires, mas completamente vazio e tão abandonado como a casa a que pertencia. Eu teria me equivocado? Teria encontrado, depois de tanto trabalho, uma saída que não conduzia a parte alguma? Não obstante, era preciso que o revistasse com cuidado, com tanto cuidado como havia revistado a casa.

Não havia muito que revistar, no entanto: suas paredes de cimento eram lisas e não ofereciam muitas perspectivas interessantes. Havia uma grade que dava, como é frequente nesse tipo de construção, para a rua: por ela se divisava a luminosidade da pracinha. Portanto, o porão fazia uma esquina (tinha uma planta em forma de L), e, ao percorrer com minha lanterna aquele canto invisível à primeira vista, vi outra grade, mas esta maior, que dava. . . para onde podia dar? Para o porão da casa vizinha? Como não havia outra saída nem combinação possível, pensei que talvez essa grade fosse removível e que seria, finalmente, a famosa saída. Peguei com as duas mãos os barrotes das extremidades e vi que, com efeito, cedia com facilidade: meu coração começou de novo a bater com violência.

Deixei de lado a falsa grade e iluminei com minha lanterna: não havia porão algum na casa vizinha mas uma passagem que, até onde alcançava minha lanterna, não tinha fim. Mas, naturalmente, atribuí esse facto ao alcance limitado de sua luz.

A passagem virava para a direita depois de um trajecto que calculei ser de uns duzentos metros, e nesse cotovelo começava-se a subir por uma escada que tinha doze degraus (contei-os com a intenção de calcular quanto subia), e estava absorvido nessa operação quando, com surpresa, vi que o patamar em que terminava a escada dava para uma porta, ou melhor, uma portinha, pela qual se tinha de entrar agachado.

Não só experimentei surpresa como também contrariedade ao supor que aquela porta me fecharia naquela noite a entrada ao reduto-chave, e dizer naquela noite seria dizer talvez para sempre, já que, depois de tudo o que havia feito no falso apartamento, os cegos no outro dia tomariam medidas de segurança que tornariam impossível minha volta. Maldisse minha eterna impaciência e o facto de ter despachado F. antes do tempo, porque, se por um lado era certo que eu não poderia fazê-lo cúmplice de meu plano (que certamente ele teria considerado plano de um louco), por outro podia ter-lhe pedido que me acompanhasse até onde as circunstâncias mostrassem que não mais me era imprescindível. Agora, por exemplo, como iria abrir aquela porta?

Fiquei no patamar, meditando em silêncio: seria a entrada para a casa ou apartamento cuja existência previra na pracinha? Doze degraus, à razão de uns vinte centímetros cada, perfaziam um total aproximado de três metros. De modo que o apartamento estava situado ao mesmo nível da rua, e quase com certeza teria uma entrada normal por alguma das ruas próximas; era possível que fosse um ponto de comércio qualquer. Não sei por que me ocorreu ser a casa de uma costureira ou modista.

Quem suspeitaria, com efeito, que o atelier de uma modista pudesse ser a entrada para o grande labirinto? Que o homenzinho parecido com Pierre Fresnay não tivesse entrado pela entrada normal, como era lógico? Que podiam fazer dois homens, um dos quais era cego, na casa de uma modista? Talvez a visita pudesse ser feita uma vez sem chamar a atenção. Mas, ao repetir-se, o pessoal começaria a imaginar algo mais significativo, e não creio que a loja desdenhasse a possibilidade de que entre "as pessoas" se encontrasse alguém como eu. No entanto, a manutenção de uma casa abandonada que servisse como entrada era razoável.

Pensei em tudo isso enquanto esperava em frente à portinha misteriosa. E assim como quando um golpe de Estado fracassa os revolucionários são qualificados de bandoleiros e cobertos de ridículo, eu mesmo me via agora sob a mais irrisória luz: olhei minha bengala branca e pensei: "Que imenso e pitoresco idiota que sou!" Um homem adulto, uma pessoa que havia lido Hegel e participado do assalto a um banco, estava agora num porão de Buenos Aires, às quatro e meia da madrugada, em frente a uma portinha onde supunha que vivia uma pseudomodista a serviço de uma loja secreta. Não era um disparate? E a bengala branca, que voltava a contemplar focalizando-a com a luz de minha lanterna, com essa espécie de tortuoso prazer que nos proporciona o apertar certas regiões doloridas, dava um cariz mais extravagante ainda à minha situação.

"Bom", disse a mim mesmo, "fim de linha." E já ia refazer o incómodo caminho de volta quando me ocorreu pensar que talvez a porta não estivesse fechada a chave; ideia que me despertou uma nova e esperançosa agitação, pois não imaginei nesse instante a conclusão que se poderia tirar dessa circunstância aparentemente favorável: a conclusão, atroz, de que me esperavam.

Voltei até a portinha e, iluminando-a, fiquei por momentos em dúvida. "Não, não é possível", disse a mim mesmo. "Esta porta só deve ser aberta quando se espera um dos cegos com o emissário.”

No entanto, um pressentimento cheio de tremor conduziu minha mão até a maçaneta. Girei-a e empurrei. A porta estava sem chave!


XXI.

Curvei-me o suficiente para atravessar aquela portinha e penetrei no cómodo. Logo, erguendo-me, levantei a lanterna para ver onde me encontrava.

Uma gelada corrente eléctrica sacudiu meu corpo, um facho de luz se acendeu ante meu rosto.

Uma cega me observava. Era como uma aparição infernal, mas proveniente de um inferno gelado e negro.

Era evidente que não havia acudido ante aquela pequena porta secreta alarmada pelos pequenos ruídos que minha entrada poderia ter produzido. Não: estava vestida e era óbvio que estava me ESPERANDO.

--

Ignoro o tempo que, antes de desmaiar, permaneci petrificado pelo olhar pavoroso e gélido daquela medusa.

Jamais havia sofrido um desmaio, e mais tarde me perguntei se aquilo teria sido provocado pelo pavor ou pelos poderes mágicos da cega, já que, como agora me parece evidente, aquele hierofanta tinha a faculdade de desencadear ou convocar forças demoníacas.

A rigor, não foi desmaio total, no qual eu perdesse a consciência, senão que, ao cair no chão (embora fosse mais apropriado dizer "ao desmoronar"), começou a apoderar-se de mim um torpor, um cansaço que dominou rapidamente meus músculos da mesma forma e com as mesmas características que o acesso de um violento ataque de gripe.

Recordo o latejar crescentemente intenso de minha fronte, até o momento em que tive a sensação de que minha cabeça poderia estourar como uma caldeira carregada a milhares de atmosferas. Uma espécie de febre ia subindo em meu corpo como um líquido fervente numa vasilha, ao mesmo tempo em que um resplendor fosforescente ia tornando a Cega cada vez mais visível em meio às trevas.

Até que um estalo pareceu romper meus tímpanos e caí ou, como já disse, desmoronei sem sentidos no chão daquele cómodo.


XXII.

Nada mais vi, mas foi como se despertasse numa realidade que me pareceu, ou agora me parece, mais intensa que a outra, uma realidade que tinha essa força um pouco angustiada das alucinações que se produzem durante a febre.

Eu estava num barco e o barco deslizava num imenso lago de águas paradas, negras e insondáveis. O silêncio era pesado e ao mesmo tempo inquietante, pois suspeitava que naquela penumbra (não havia luz solar senão a equívoca e fantasmagórica luminosidade que provinha do sol nocturno) eu não estava só, mas era vigiado e contemplado por seres que não podia divisar, mas que certamente habitavam além do alcance de minha ambígua visão. Que esperavam de mim e, sobretudo, que me esperava naquela desolada extensão de águas estancadas e lúgubres?

Mas não conseguia pensar, embora mantivesse uma espécie de vaga consciência e de pesada memória de minha infância. Pássaros aos quais eu havia arrancado os olhos naqueles anos sangrentos pareciam voar nas alturas, planando sobre mim como se vigiassem minha viagem; porque, sem pensá-lo, já que estava como que desprovido de pensamento, eu remava numa direcção que parecia ser a direcção na qual aquele sol nocturno se poria horas ou séculos depois. Parecia-me ouvir o ruflar pesado de suas grandes asas, como se aqueles pássaros de minha infância se tivessem agora convertido em enormes pterodáctilos ou em morcegos gigantescos. Acima e às minhas costas, isto é, ao que seria o Este daquele imenso pélago negro, pressentia um ancião, que, cheio de ressentimento, também vigiava minha marcha: tinha um só e enorme olho na frente, como um ciclope, e suas dimensões eram tais que sua cabeça estava mais ou menos no zénite enquanto seu corpo descia até o horizonte. Sua presença, que eu sentia de forma quase insuportável, a ponto de poder descrever a expressão horrível de seu rosto, impedia-me de virar para trás e mantinha não só meu corpo mas também meu rosto voltados para a direcção oposta.

"Preciso alcançar a margem antes do pôr-do-sol", encontrei-me pensando ou dizendo. Remei para lá, mas meu avanço era tão lento como os pesadelos. Os remos afundavam naquelas águas negras e lamacentas e eu sentia seu pesado chafurdar.

Grandes folhas flutuantes e flores semelhantes a vitórias-régias, mas lúgubres e podres, se afastavam a cada batida de remo. Eu tratava de concentrar-me em minha dura tarefa, não querendo sequer imaginar a forma e o horror dos monstros que, tinha certeza, povoavam aquelas águas infectas e abissais: com o olhar posto no poente, ou no que supunha ser o poente, com medo e obstinação me limitava a remar naquela direcção, tratando de chegar antes que o sol se pusesse.

A navegação era angustiosamente difícil e lenta. O sol descia com a mesma lentidão rumo ao Oeste e o furor com que eu movia os pesados e lentíssimos remos era dirigido por um só e anelante pensamento: chegar antes do ocaso. Já estava aquele astro próximo do horizonte quando senti que meu barco tocava o fundo. Abandonei os remos e me precipitei até a proa. Joguei-me fora do barco e, com a água lamacenta me chegando até os joelhos, caminhei rumo à costa, que já distinguia em meio àquela semi-obscuridade. Logo senti que estava no que poderia chamar-se de terra firme, mas que em realidade era um pântano, no qual andar era tão difícil como a navegação no barco: tinha de fazer um imenso esforço para levantar cada pé e poder avançar. Mesmo assim, tal era meu desespero, fui avançando, lenta mas progressivamente. E, assim como antes minha ideia era que devia chegar a terra firme, agora me animava a ideia de que devia chegar a uma montanha que mal se vislumbrava, sempre rumo ao Oeste. "Ali está a gruta", lembro que pensei. Que gruta? E por que teria eu de chegar até ela? Não fiz nenhuma dessas perguntas naquele momento, e a nenhuma delas poderia agora responder. Só sabia que deveria chegar e que, custasse o que custasse, devia penetrar nela. Devo dizer que às minhas costas continuava a presença colossal do desconhecido. com seu único olho, aberto sem descanso, fulgurante de ódio, parecia vigiar e mesmo dirigir, como um pérfido patrulheiro rodoviário, minha marcha rumo ao Oeste. Seus braços, abertos, abarcavam todo o céu às minhas costas e pareciam apoiar-se com suas mãos para o Norte e para o Sul, ocupando assim toda a metade posterior daquela abóbada. Minha situação era tal que não tinha outra saída senão marchar rumo ao poente, e dentro daquela realidade demencial eu via isso como uma lógica e razoável conclusão. A ideia era: fugir de seu olhar, enfiar-me na gruta onde eu sabia que seu olhar por fim teria de ser impotente. Assim caminhei durante o tempo que me pareceu de um ano.

O astro continuava baixando e, se bem que a montanha estivesse mais próxima, a distância era ainda aterradora. Fiz o último trajecto lutando contra o cansaço, o medo e a desesperança. Às minhas costas sentia o sorriso sinistro do Homem. Sobre mim sentia o voo pesado dos pterodáctilos, que planavam e às vezes me roçavam com suas asas. Meu temor provinha não só de seu contacto gelatinoso e frio mas da possibilidade de que com seus bicos denteados se precipitassem sobre mim e me arrancassem os olhos. Suspeitava que me deixavam esgotar-me num esforço inútil, durante anos de estúpida e exaustiva marcha, para, quando eu acreditasse que o fim estava ao meu alcance, arrancar-me com os olhos a desatinada esperança.

Essa sensação comecei a tê-la no trecho final de minha caminhada, como se tudo tivesse sido planejado para me fazer o maior mal possível. "Porque", pensava eu com razoável lucidez, "se tivessem me arrancado os olhos no começo eu não teria tido nenhuma esperança e não teria intentado esta penosíssima marcha através de mares ignotos e pântanos imundos.”

Senti que o rosto do Ancião irradiava uma espécie de feroz alegria ao fazer-me essas reflexões. Compreendi que tudo era verdade e que agora me esperava a pior das calamidades daquela marcha. Não quis, no entanto, olhar para cima, mas tampouco era necessário: meus ouvidos me revelavam que os pássaros, com bicos enormes e afiados, começavam a planar cada vez mais perto de minha cabeça; percebia o adejar pesado de suas asas, asas que deviam ter mais de um metro, e sentia uma e outra vez seu leve mas asqueroso contacto fugacíssimo sobre minhas faces e meus cabelos.

Faltava pouco, muito pouco, para chegar à gruta que já entrevia na penumbra fosforescente. Meu corpo estava coberto por aquele lodo pegajoso e me arrastava sobre minhas quatro extremidades. Minhas mãos tocavam e afastavam com repugnância cobras que se agitavam em grande quantidade no vasto pântano, mas era tanto meu pavor pelo que sabia agora estar à minha espera, que aquilo era quase desdenhável.

Meu cansaço por fim sobrepôs-se ao meu desespero, e caí.

Tentei manter minha cabeça fora da lama, levantando meu tronco ante a gruta, enquanto o resto de meu corpo se afundava naquelas águas nauseabundas.

"Preciso respirar", pensei.

Mas também pensei: "Assim vou expor meus olhos a seu alcance".

E pensei-o como se tivesse sido amaldiçoado e condenado à horrível operação, como se eu mesmo me prestasse àquele rito atroz e, ao que tudo indica, inelutável.

Afundado na lama, com o coração batendo agitadamente em meio à imundície que me envolvia, com meus olhos para a frente e para cima, vi como os grandes pássaros planavam lentamente sobre minha cabeça. Notei um deles que descia por trás, vi que se recortava, gigantesco e próximo, sobre o ocaso, voltando-se logo para mim e posando com surdo chapinhar na lama, frente à minha cabeça. O bico era afilado como um estilete, sua expressão tinha esse olhar abstracto que têm os cegos, pois não tinha olhos: eu podia distinguir suas órbitas vazias. Parecia uma antiga divindade no momento que precede o sacrifício.

Senti que aquele bico entrava em meu olho esquerdo, e por um instante percebi a resistência elástica de minha pupila e, logo, como o bico entrava áspera e dolorosamente, enquanto eu sentia como começava a escorrer o líquido por minha face. Em virtude de um mecanismo que ainda não consigo compreender por sua falta de lógica, eu mantinha a cabeça sempre na mesma posição, como se quisesse facilitar a perversa tarefa, do mesmo modo como, embora sofrendo, mantemos a boca e a cabeça imóveis no dentista.

E, enquanto sentia que a água de meu olho e o sangue escorriam pela face esquerda, pensava: "Agora terei de suportar o mesmo no outro olho". com calma, creio que sem ódio, o que recordo me assombrou, o grande pássaro terminou seu trabalho com o olho esquerdo e logo, retrocedendo um pouco, seu bico repetiu a mesma operação com o direito. E voltei a perceber aquela leve e fugacíssima resistência elástica de meu olho e logo a penetração áspera e dolorosa e, mais uma vez, o escorrer pela face do líquido cristalino e do sangue: líquidos que diferenciava perfeitamente por ser o cristalino ténue e gelado e o outro, o sangue, quente e viscoso.

Logo o grande pássaro levantou voo e seus companheiros seguiram atrás, pois ouvi como seus pesados adejos recomeçavam e logo se afastavam de mim. "O pior passou", pensei.

Não via nada agora, mas, com a imensa dor e a curiosa repugnância que sentia agora por mim mesmo, não renunciei a meu propósito de arrastar-me até a gruta.

Assim o fiz, penosamente.

Pouco a pouco meu esforço foi premiado: o pântano ia desaparecendo sob meus pés e mãos e de repente essa espécie de estranho silêncio, essa sensação de bruma e também de segurança, indicou-me que por fim havia entrado na grande gruta. E caí no sono.


XXIII.

Quando voltei à consciência, um enorme cansaço dominava meu corpo, como se em sonhos tivesse realizado trabalhos colossais.

Jazia no soalho e não conseguia compreender onde estava. com a cabeça pesada, olhava o chão a meu redor, tentando lembrar-me: supus que, como em outras ocasiões, teria chegado bêbado a meu quarto e caído inconsciente. Uma débil luminosidade de amanhecer entrava no aposento por alguma parte. Tentei levantar minha cabeça e percorri então, lenta e pesadamente, o espaço que me rodeava.

Quase salto apesar de meu cansaço: a Cega!

Vertiginosamente tomei consciência dos episódios: Iglesias, o tipo parecido com Pierre Fresnay, a pracinha de Belgrano, a passagem secreta. Soerguido, fazendo esforços incomparáveis para levantar-me de todo, analisava com fantástica velocidade minha situação e a forma de sair dela. Consegui pôr-me em pé.

A Cega permanecia na mesma atitude hierática em que a havia visto pela primeira vez, ao levantar a luz de minha lanterna na escuridão. Teria sofrido uma pura e instantânea ilusão? Meu pesadelo teria começado ao cair desmaiado?

Na luminosidade do amanhecer tratei de esboçar um rápido croqui do que me rodeava: era um cómodo comum, com uma cama, uma mesa (de trabalho?), algumas cadeiras, um sofá, uma radiovitrola. Notei que não havia quadros nem fotografias, o que confirmava a cegueira de seus habitantes. A porta pela qual entrava a luz da madrugada certamente dava para uma dependência externa, que podia ser o que em minhas elucubrações prévias supus ser um atelier de costura. Havia outra porta lateral, que talvez desse para um banheiro. Olhei para trás: sim, lá estava a portinha.

Quase desejei que não existisse, tanto pavor me produzia aquela entrada absurda e minúscula.

A Cega permanecia em silêncio, diante de mim. Dois factos contribuíram para acentuar minha ansiedade: o facto, que agora recordava com aterradora lucidez, de que ela estivesse me esperando frente à portinha fechada por onde entrei; e este outro e inconcebível facto de sua imobilidade, enigmática e ameaçadora.

Perguntei a mim mesmo o que poderia fazer e que palavras poderia pronunciar, as menos disparatadas, as mais convincentes.

- Perdoe-me - balbuciei -, entrei para roubar, desmaiei ao vê-la...

Enquanto falava compreendia até que ponto eram absurdas aquelas palavras. Talvez pudessem convencer um habitante normal de uma casa normal, mas poderia persuadir a Cega de um tal disparate? A uma cega que, evidentemente, tinha estado ME ESPERANDO?

Pareceu-me notar em seu rosto uma expressão de ironia. Logo se foi, desaparecendo pela porta que estava aberta. Fechou-a atrás de si, e ouvi o ruído da chave.

Fiquei às escuras. Aos tropeções, desesperado, corri até a porta e girei inutilmente a maçaneta. Em seguida, tacteando pelas paredes, cheguei até a outra porta, que estava à direita, também inutilmente, pois, como era fácil presumir, também estava fechada a chave.

Permaneci apoiado contra a parede, abatido e dominado pelo medo e pela incerteza. Um caos de ideias agitava minha mente:

Havia caído numa armadilha da qual não poderia escapar.

A Cega tinha saído em busca dos Outros: agora decidiriam meu destino.

A Cega tinha estado me esperando; portanto sabiam de minha chegada. Desde quando?

Sabiam-no desde o dia anterior: um controle eléctrico lhes permitia vigiar à distância o movimento da porta com cadeado.

Sabiam-no desde o momento em que Iglesias adquiriu os poderes sobrenaturais da loja e, consequentemente, desde o momento em que pôde penetrar em meus desígnios secretos.

Sabiam-no desde antes: só agora notava uma enorme brecha em minhas especulações anteriores, pois por um inexplicável esquecimento (esquecimento?) não considerara que, no momento em que deu baixa no hospital, Iglesias foi levado a uma pensão indicada por um enfermeiro espanhol, onde, segundo disse, cuidariam dele muito bem.

Foi nesse momento de lucidez que tive a certeza ao mesmo tempo atroz e grotesca de que, quando mais fatuamente celebrava minha astúcia, mais de perto era vigiado pela seita e nada menos que pela cómica Senhora Etchepareborda! Quão burlesca me pareceu então a ideia de que aqueles bibelots baratos, aquelas tabuletas provençais e as fotomontagens do casal Etchepareborda não haviam sido nada mais que uma portentosa encenação! com vergonha, pensei que nem sequer consideraram enganar-me com algo mais subtil; ou, talvez, além de enganar-me quiseram de passagem ferir meu orgulho, enganando-me com algo que mais tarde suscitaria minha própria ironia.


XXIV.

Não sei quantas horas permaneci naquela prisão, às escuras, em meio à incerteza. Para cúmulo pareceu que me faltava ar, como por outro lado seria natural, já que aquele quarto maldito não tinha mais ventilação que a que podiam proporcionar as rachaduras: podia-se notar que alguma fraquíssima corrente de ar entrava ao menos na porta que dava para o primeiro cómodo. Bastaria para renovar o oxigénio do ambiente? Não parecia, pois a sensação que eu tinha era de crescente sufocação. Embora pudesse muito bem dever-se, pensei, a causas psicológicas.

Mas e se fosse ideia da seita enterrar-me vivo naquele quarto fechado?

Lembrei de imediato uma das histórias que havia descoberto em minha longa investigação. Na casa de Echague na Calle Guido, quando ainda vivia o velho, uma criada era explorada por um cego que nos dias livres a fazia trabalhar no Parque Retiro. No ano de 1935, começou a trabalhar como porteiro um espanhol jovem e violento que se enamorou da moça e conseguiu, finalmente, que se afastasse do proxeneta. A moça viveu alguns meses em meio ao terror, até que pouco a pouco, e tal como o porteiro tentava dar a entender, viu que os castigos que poderia infligir-lhe o explorador eram puramente teóricos. Passaram-se dois anos. A 1 de Janeiro de 37, a família Echague levantava acampamento para ir à estância onde passariam os meses de verão. Todos já haviam saído da casa menos o porteiro e a criada, que viviam no andar de cima; mas o velho criado Juan, que fazia as vezes de mordomo, pensando que haviam saído, desligou a força e saiu, fechando a chave a grande porta da entrada. Pois bem: no momento em que Juan desligava a força, o porteiro e sua mulher vinham descendo pelo elevador. Quando, três meses depois, a família Echague voltou, encontraram no elevador os esqueletos do porteiro e da criada, que tinham combinado ficar em Buenos Aires durante as férias.

No momento em que Echague me contou a história, eu estava ainda longe de imaginar que um dia iria começar essa investigação sobre cegos. Anos depois, fazendo um exame retrospectivo de todas as informações que de uma forma ou de outra tinham a ver com a seita, lembrei-me do cego e tive a convicção de que aquele episódio, aparentemente devido a um acaso, era obra consciente e planejada da seita. Como se poderia no entanto um dia investigar o assunto? Falei com Echague e participei-lhe minhas suspeitas. Olhou-me com assombro e, creio ter notado, com certa ironia em seus olhinhos mongólicos. Não obstante, aparentemente, admitiu a possibilidade, e disse:

- E como achas que poderíamos investigar algo?

- Sabes onde mora Juan?

- Podemos perguntar a González. Creio que se mantém em contacto com ele.

- bom, e lembra o que te disse: esse homem tem muito a ver com a coisa.

Ele sabia que os dois estavam lá em cima. E mais: atentou para o momento em que puseram em funcionamento o elevador e, quando calculou que estavam entre dois andares (tudo havia sido previsto, relógio na mão, em experiências anteriores), desligou a força, ou deu ordem com um grito ou sinal ao outro que certamente estava com a mão na chave.

- E o outro? Que outro?

- Como vou saber? Ao outro, a qualquer outro membro da quadrilha, não necessariamente a um criado de tua casa. Talvez fosse esse González.

- Quer dizer que achas que Juan fazia parte de uma quadrilha, de uma quadrilha vinculada, ou controlada por cegos?

- Não tenho a menor dúvida. Investiga algo sobre ele e vais ver.

Voltou a olhar-me com recôndita ironia, mas não disse mais nada; excepto que iria fazer as devidas investigações.

Algum tempo depois chamei-o por telefone e lhe perguntei se teria alguma novidade. Disse que queria me ver e nos encontramos num bar. Quando cheguei, sua expressão não era mais a de antes: olhava-me com estupor.

- E o famoso Juan? - perguntei.

- González continuava em contacto com ele. Expliquei-lhe que queria encontrar Juan. De um jeito que me pareceu suspeito, disse que há muito tempo não o via, mas que procuraria encontrá-lo num endereço que, não estava certo, parece que ia abandonar. Perguntou-me se era algo importante ou urgente. Tive a impressão de que me perguntava com certa inquietação. Isso não notei no momento, mas depois, ao relembrar a cena. Fui bastante desprevenido, porque lhe disse que sempre tivera vontade de esclarecer as circunstâncias em que havia acontecido aquilo no elevador e pensava que talvez Juan pudesse completar de algum modo a informação. González me ouviu com uma cara impenetrável, como diria?. . . uma cara de jogador de póquer. Isto é, pareceu-me que sua fisionomia era excessivamente impassível. Isso também pensei depois. Infelizmente. Porque, se o pensasse nesse momento, eu o levaria até um lugar tranquilo, pegava-o pela lapela e com dois ou três safanões lhe arrancava tudo. Enfim, é inútil te contar o final.

- Qual é o final?

Echague mexeu o resto do café e acrescentou:

- Nada, senão que jamais voltei a ver González. Desapareceu da confeitaria onde trabalhava. Claro que, se tens interesse, podemos começar uma investigação com a polícia, localizá-lo e tentar encontrá-lo.

- Nem penses nisso. Isso é tudo o que queria saber. O resto já imagino.

Voltava agora a me lembrar daquilo. E, por essa tendência que tenho de imaginar coisas horríveis, pensava nos detalhes do episódio. Primeiro, uma pequena surpresa do porteiro, ao ver que o elevador parava.

Aperta o botão várias vezes, abre e fecha a porta sanfonada. Logo grita para baixo, para que Juan feche a porta de baixo, se é que abriu. Ninguém lhe responde. Grita mais alto (sabe que Juan está lá em baixo, esperando que saiam todos) e ninguém lhe responde. Grita várias vezes mais, com maior energia e finalmente com medo. Passa-se um momento, olham-se como que perguntando o que está acontecendo. Logo volta a gritar, ela também, os dois juntos. Esperam algum tempo, depois de consultar-se: "Foi ao banheiro, está lá fora conversando com Doloroso (o porteiro polaco da casa ao lado), foi revistar a casa para ver se não deixou nada, etc." Passam-se quinze minutos e voltam a gritar: nada. Gritam durante cinco ou dez minutos: nada. Esperam, agora mais inquietos, durante longo lapso, enquanto se olham com ansiedade e medo crescentes. Nenhum quer dizer algo desesperador, mas já começam a pensar que talvez todos tenham ido embora e tenham desligado a força. Então começam a gritar um, outro e os dois juntos: primeiro com toda a força, logo dando berros de terror, depois emitindo uivos de animais enlouquecidos e encurralados pelas feras. Esses uivos se prolongam durante horas, até que, pouco a pouco, começam a debilitar-se: estão roucos, estão esgotados pelo esforço físico e pelo horror: agora emitem gemidos cada vez mais débeis, choram e golpeiam com debilidade crescente o bloco maciço entre os andares. Podem-se imaginar várias cenas posteriores: talvez tenha ocorrido um lapso de estupor, em que ambos, na escuridão, tenham ficado calados e abobados. Talvez em seguida tenham falado, trocado ideias e até mesmo pequenas esperanças: Juan voltará, foi à esquina tomar um trago; Juan deve ter esquecido algo na casa e logo volta: ao chamar o elevador para subir encontra-se com eles, que o recebem chorando e dizem: "Se soubesses, Juan, que susto levamos". E logo os três, comentando o pesadelo, saem e riem por qualquer bobagem que acontece na rua, tanta é sua felicidade. Mas Juan não volta, não foi nem ao bar da esquina nem se demorou com o porteiro polaco do lado: o certo é que se passam horas e nada acontece naquela silenciosa mansão abandonada. Enquanto isso recuperaram certa energia e começam os gritos, e novamente os berros, seguidos por uivos, para terminar, como é de se supor, em gemidos Cada vez mais insignificantes. É provável que então estejam caídos no piso do elevador e que meditem na impossibilidade de que semelhante horror possa acontecer: isso é muito típico dos seres humanos, quando lhes acontece algo espantoso.

Dizem: "Mas não é possível, não é possível!" Mas está sendo e o horror começa de novo a devorá-los. É provável que então comece um novo turno de gritos e uivos.

Mas de que adiantaria? Juan está agora viajando para a estância, pois vai com os patrões, o comboio sai às dez da noite. De nada servem os gritos, mas sempre há nos homens certa confiança desatinada nos gritos e uivos, está provado em muitas catástrofes; de forma que, dentro das escassas energias que lhes restam, voltam a gritar e grunhir, para terminar em gemidos, como sempre. Isso, é claro, não pode continuar: chega um momento em que toda esperança é abandonada e então, embora isso pareça grotesco, se pensa em comer. Comer para quê? Para prolongar o suplício? Naquela pocilga, nas trevas, atirados no chão (se sentem, se tocam), ambos pensam na mesma e horrível coisa: que comerão quando a fome ficar insuportável? O tempo passa e também pensam na morte, que em poucos dias terá de chegar. Como será? Como é a morte pela fome? Pensam em coisas passadas, vêm-lhes à memória lembranças de tempos felizes. A ela parece agora lindo aquele tempo em que fazia ponto no Parque Retiro: havia sol, os marinheiros e recrutas eram às vezes bons e ternos; enfim, essas coisas da vida que sempre parecem tão maravilhosas no momento de morrer, embora tenham sido sórdidas. Ele deve recordar coisas de sua infância, em alguma enseada da Galiza, recordará canções, bailes de sua aldeia. Que longe ficou tudo! Novamente ele ou ela ou os dois juntos voltam a pensar: "Mas não é possível!" Essas coisas, com efeito, não acontecem. Como poderia acontecer? É provável que assim se inicie uma nova série de gritos, mas que são menos enérgicos e duram menos que as séries anteriores. Logo voltam a seus pensamentos e lembranças, à Galiza e à feliz época da prostituição. bom, enfim, para que continuar com a descrição minuciosa? Qualquer um pode reconstruí-la, desde que tenha alguma imaginação: fome crescente, suspeitas mútuas, brigas, recriminações por coisas passadas. Talvez ele quisesse comer a criada e para ter a consciência tranquila comece a recriminar-lhe a época de prostituição: não tinha vergonha? Não lhe ocorria que aquilo era imundo?, etc.

Enquanto pensa (isso depois de um dia ou dois de fome) que pelo menos podia comer, sem matá-la de todo, uma parte de seu corpo: podia arrancar-lhe um par de dedos, ou comer-lhe uma orelha. Não deve esquecer quem queira reconstruir o episódio que, além disso, esses dois seres humanos devem fazer ali suas necessidades, de modo que a cena se torna cada vez mais suja, mais sórdida e abominável. Mas a fome e a sede aumentam. A sede pode ser saciada com a urina, que será recolhida na mão para logo ser bebida, como também está comprovado. Mas e a fome? Também está comprovado que ninguém come seus próprios membros, se está próximo de outro ser humano. Quem não lembra o encarceramento do Conde Ugolino com seus próprios filhos? Enfim, é provável, digo, é certo, que ao cabo de quatro dias, talvez menos, de cativeiro hediondo e selvagem, com rancores mútuos e crescentes, o mais forte coma o mais fraco. Nesse caso, o porteiro come a criada, talvez primeiro de forma parcial, começando por seus dedos, depois de dar-lhe algum golpe na cabeça, ou de batê-la contra as paredes do elevador, até que a come inteira.

Dois detalhes confirmam minha reconstrução: a roupa dela, arrancada aos pedaços, estava espalhada pelo chão, entre as imundícies; muitos de seus ossos também, como se tivessem sido jogados um depois do outro pelo criado canibal. Ao passo que o corpo apodrecido e parcialmente esquelético deste estava num lado, mas inteiro.

Já no auge de meu desespero, fui mais longe e imaginei que minha sorte talvez estivesse decidida desde a aventura com o cego dos esticadores para os colarinhos; e que durante mais de três anos eu havia acreditado estar seguindo os cegos, quando em realidade haviam sido eles que estavam me perseguindo. Imaginei que a busca que eu havia levado a cabo não tinha sido deliberada, mas fatal, e que eu estava destinado a ir atrás dos homens da seita para assim ir em busca de minha morte, ou de algo pior que minha morte. Que sabia, com efeito, o que me esperava? Não seria o pesadelo que acabava de sofrer uma premonição? Não me arrancariam os olhos? Não seriam os grandes pássaros símbolos da feroz e efectiva operação que me aguardava?

E, finalmente, não havia lembrado no pesadelo aquelas extracções de olhos que em minha infância eu havia perpetrado em gatos e pássaros? Não estaria eu condenado desde minha infância?


XXV.

Essas imagens ocuparam, junto às outras recordações referentes a minhas pesquisas sobre os cegos, aquela jornada. Em determinados momentos voltava a pensar na Cega, em sua desaparição e no encarceramento consequente. Meditando sobre o drama do elevador, em certo momento cheguei a pensar que meu castigo poderia consistir na morte pela fome naquele quarto desconhecido; mas logo percebi que esse castigo seria ostensivamente benévolo ao lado do castigo imposto àqueles dois infelizes. Morrer de fome na escuridão? Vá lá! Eu quase morria de esperança.

Num momento de meditação, em meio ao silêncio, pareceu-me ouvir vozes abafadas através de uma das portas. Levantei-me em silêncio, e caminhando sem sapatos, aproximei-me daquela porta, que presumivelmente dava para o cómodo anterior. Delicadamente, pus o ouvido sobre a fresta: nada. Logo, tacteando nas paredes, cheguei até a outra porta e repeti a operação: pareceu-me que, com efeito, os que estavam falando se calavam no exacto momento em que colei meu ouvido. Sem dúvida tinham percebido meus movimentos, apesar de meus cuidados. Não obstante, permaneci longo tempo com o ouvido atento sobre a ranhura. Mas foi impossível ouvir o mínimo rumor de vozes ou movimentos. Supus que do outro lado o Conselho dos Cegos estava reunido e paralisado, esperando que eu desistisse de meu ingénuo propósito. Compreendendo que nada ganharia com minha espionagem, senão irritar ainda mais aquela gente, voltei sobre meus passos, dessa vez com menos cuidado, já que de qualquer forma supus que me haviam reconhecido. Atirei-me na cama e resolvi fumar. Que mais poderia fazer? De qualquer forma, estava certo de que aquele conciliábulo anunciaria logo alguma decisão a meu respeito.

Até então havia resistido a meu desejo, para não consumir os recursos de oxigénio que, segundo meus cálculos, me proporcionava a fraca corrente de ar através das rachaduras. Mas, pensei, que coisa melhor poderia me acontecer, nessa altura dos acontecimentos, do que morrer asfixiado pela fumaça do cigarro? Nesse instante, comecei a fumar como uma chaminé, com o resultado de que o ambiente foi se rarefazendo cada vez mais e mais.

Pensava, recordava. Sobretudo em vinganças da Seita. E voltei então a analisar o caso Castel, caso que não só foi dos mais notórios entre a gente implicada, mas que ainda fez chegar o assassino do manicómio a uma editora. Interessou-me poderosamente por dois motivos: eu tinha conhecido Maria Iribarne e sabia que seu marido era cego. É fácil imaginar o interesse que tive em conhecer Castel, mas também é fácil presumir o temor que me impediu de fazê-lo, pois equivalia a entrar na boca do lobo. Que outro recurso me restava senão o de ler, o de estudar minuciosamente sua crónica? "Sempre tive prevenções contra os cegos", confessa. Quando li pela primeira vez aquele documento, literalmente me assustei, pois falava da pele fria, das mãos húmidas e de outras características da raça que eu também havia observado e que me obcecavam, como a tendência a viver em covas ou lugares escuros. Até mesmo o título da crónica me fez estremecer por seu significado: "O túnel".

Meu primeiro impulso foi o de correr ao manicómio e ver o pintor para averiguar até que ponto havia chegado em suas investigações. Mas em seguida compreendi que minha ideia era tão perigosa como a de investigar um polvorinho às escuras acendendo um fósforo.

Sem nenhuma espécie de dúvidas, o crime de Castel era o resultado inexorável de uma vingança da Seita. Mas qual teria sido exactamente o mecanismo empregado? Durante anos tentei desmontá-lo e analisá-lo, mas nunca pude superar essa ambiguidade que predomina tipicamente em qualquer ação planejada pelos cegos. Exponho aqui minhas conclusões, conclusões que de imediato se ramificam como os corredores de um labirinto:

Castel era um homem bastante conhecido no ambiente intelectual de Buenos Aires, e portanto suas opiniões sobre qualquer coisa deveriam ser notórias. É quase impossível que uma obsessão tão profunda como a que tinha em relação aos cegos não fosse manifestada. A Seita, através de Allende, marido de Maria Iribarne, devia castigá-lo.

Allende ordena a sua própria mulher ir à galeria onde Castel expõe seus últimos quadros, demonstra grande interesse por um deles, permanece diante do mesmo, em atitude extática, o tempo suficiente para que Castel anote e estude, e logo desaparece. Desaparece... É um modo de dizer. Como sempre ocorre com a Seita, o perseguidor se faz em realidade perseguir, mas procedendo de tal maneira que mais cedo ou mais tarde a vítima cai em suas mãos.

Castel reencontra finalmente Maria, enamora-se dela perdidamente, como louco (e besta) a "persegue" por céus e terras 314 e até mesmo vai a sua casa, onde o próprio marido entrega uma de suas cartas amorosas a Maria. Esse facto é chave: como explicar semelhante atitude no marido senão pelo fim sinistro a que a Seita se propunha? Lembrem-se de que Castel se atormentava com esse facto inexplicável. O que se segue não vale a pena repeti-lo aqui: basta recordar que Castel enlouquece de ciúmes, acaba matando Maria e por fim é encerrado num manicómio, o lugar mais adequado para que o plano da Seita permaneça enclausurado de forma impecável e para sempre fora de todo perigo de esclarecimento. Quem iria crer nos argumentos de um louco?

Tudo isso é claríssimo. A ambiguidade e o labirinto começam agora, pois se abrem as seguintes combinações possíveis:

1 A morte de Maria estava decidida, como forma de condenar Castel ao encarceramento, mas era um plano ignorado por Allende, que realmente queria e tinha necessidade de sua mulher. Daí a palavra "insensato" e o desespero desse homem na cena final.

2 A morte de Maria estava decidida e Allende conhecia essa decisão. Aqui se abrem duas subpossibilidades:

A) Era aceita com resignação, porque mesmo gostando de sua mulher devia pagar alguma culpa anterior à sua cegueira, culpa que ignoramos e que parcialmente havia pago ao ser cegado pela Seita.
B) Era recebida com satisfação por Allende, que não só não gostava de sua mulher, mas a odiava, e assim esperava vingar-se de suas numerosas traições. Como conciliar essa variante com o desespero final de Allende? Muito simples: teatro para a galeria, e inclusive teatro imposto pela Seita para apagar os rastros da sinuosa vingança.

Há ainda algumas variantes das variantes, que não vale a pena que eu descreva, pois cada um de vocês pode facilmente ensaiar como exercício; exercício por outro lado inútil, pois nunca se sabe quando e como se pode cair em algum dos ambíguos mecanismos da Seita.

No que se refere a mim, aquele episódio, que aconteceu logo após a aventura com o homem dos esticadores para os colarinhos, acabou por assustar-me. Fiquei aterrado e decidi despistar, pondo não só tempo como também espaço de permeio: saí do país. Medida que para muitos dos que leiam estas memórias poderá parecer exagerada. Sempre me fez rir a falta de imaginação desses senhores que crêem que para alcançar a verdade é necessário dar aos factos "as devidas proporções”.

Esses anões imaginam (eles também têm imaginação, é claro, mas uma imaginação anã) que a realidade não ultrapassa sua estatura, nem tem mais complexidade que seu cérebro de mosca. Esses indivíduos que classificam a si mesmos de "realistas", porque não são capazes de ver além de seus narizes, confundindo a Realidade com um Círculo-de-Dois-Metros-de-Diâmetro com centro em sua modesta cabeça. Provincianos que riem do que não podem compreender e descrêem do que está fora de seu famoso círculo. com a típica astúcia dos camponeses, rechaçam invariavelmente os loucos que vêm com planos para descobrir a América, mas caem no conto do pacote mal botam os pés na cidade. E tendem a considerar lógico (outra palavrinha que lhes agrada!) o que é simplesmente psicológico. O familiar assim se converte em razoável, mecanismo mediante o qual ao lapão parece razoável oferecer sua mulher ao visitante, enquanto ao europeu parece mais uma loucura. Essa espécie de pícaros sucessivamente rechaçou a existência dos antípodas, a metralhadora, os micróbios, as ondas hertzianas. Realistas que se peculiarizaram por negar (geralmente com risos, com energia, até com o cárcere e o manicómio) futuras realidades.

Isso sem falar no outro aforismo supremo: "as devidas proporções". Como se tivesse havido algo importante na história da humanidade que não tenha sido exagerado: desde o Império Romano até Dostoiévski.

Enfim, deixemos de bobagens e voltemos ao único tema que deveria interessar à humanidade.

Decidi abandonar o país, e, embora tenha pensado primeiro em fazê-lo pelo Delta, em algumas das lanchas de contrabandistas das relações de F., depois reflecti que dessa forma seria impossível afastar-me além do Uruguai. Não havia outro recurso, pois, senão conseguir um passaporte falso. Localizei o chamado Turquito Nassif e obtive um passaporte com o nome de Frederico Ferrari Hardoy, passaporte que, entre muitos outros roubados pela quadrilha de Turquito, esperava destino definitivo. Escolhi esse porque certa vez tive um mal-entendido com Ferrari Hardoy e surgia agora a oportunidade de cometer algumas patifarias em seu nome.

Não obstante ter o documento, preferi ir primeiro a Montevidéu pelo Delta, em alguma lancha de contrabandista. Fui até Carmelo e daí, de autocarro, até Colónia. Em outro autocarro, finalmente, cheguei a Montevidéu.

Visei meu passaporte no consulado argentino e consegui uma passagem pela Air France para dois dias depois. Que fazer nesses dois dias de espera? Estava nervoso, inquieto. Caminhei pela 18 de Júlio, entrei numa livraria, tomei vários cafés e vários conhaques para combater o intenso frio. Mas o dia transcorria com uma lentidão desesperante: não via o momento de pôr um oceano entre mim e o homem dos esticadores para os colarinhos.

Não queria ver ninguém conhecido, é lógico. Mas, por desgraça (não por acaso, mas por desgraça, por descuido, já que devia ter passado aqueles dias em alguma parte de Montevidéu em que não houvesse a menor possibilidade de ver gente conhecida), no Café Tupi Nambá fui visto por Bayce e por uma moça loira, pintora, que também havia conhecido em Montevidéu em outra época. Uma terceira pessoa os acompanhava, em blue jeans e com grandes sapatos muito estranhos: era um homem jovem e magro de ar intelectual, que eu julgava conhecer de algum lugar.

Era inevitável: Bayce se aproximou e me levou até sua mesa, onde saudei Lily e entabulei conversa com o homem dos sapatos grandes. Disse-lhe que me parecia conhecê-lo. Não havia estado alguma vez em Valparaíso? Não era arquitecto? Sim, era arquitecto, mas jamais havia estado em Valparaíso.

Fiquei intrigado. Como se vê, era um facto suspeito, parecia demasiada casualidade: não só me parecia conhecido, mas ainda havia acertado sua profissão. Negaria a história de Valparaíso para evitar conclusões perigosas de minha parte?

Era tanta minha preocupação e inquietude (leve-se em conta que o episódio dos esticadores para os colarinhos havia ocorrido apenas uns dias antes) que me foi impossível seguir com coerência a conversação daquela gente. Falaram de Perón, de arquitectura, de não sei que teoria e de arte moderna. O arquitecto tinha consigo um exemplar de Domus. Elogiaram uma espécie de galo de cerâmica que, em meio a minha ansiedade, fui obrigado a ver: era de um italiano chamado Durelli ou Fratelli (que importância tem?), que por sua vez certamente o havia plagiado de um alemão chamado Staudt, que por sua vez o havia plagiado de Picasso, que por sua vez o havia plagiado de algum negrinho africano, que era o único que não havia ganho dólares com o galo.

Eu continuava atormentado com o arquitecto: eu olhava para ele e mais confirmava minha ideia de tê-lo conhecido.

Chamava-se Capurro. Mas seria seu verdadeiro nome? Enfim, claro, que disparate: era de Montevidéu, Bayce e Lily eram seus amigos; como podia ter-me dado um nome falso? bom, isso não tinha importância: seu nome podia, e certamente devia ser correcto, mas seria mentira que nunca tivesse estado em Valparaíso? Que ocultava, em tal caso? Tratei de lembrar vertiginosamente se naquele grupo de Valparaíso havia alguém que de maneira directa ou indirecta tivesse mencionado algo referente a cegos. Era significativo, por exemplo, que esse homem se fixasse particularmente em galos, já que o inevitável dos galos de luta é a cegueira. Não, não lembrava nada. E logo me ocorreu que talvez não fosse em Valparaíso que o havia visto mas em Tucumán.

- O senhor nunca esteve em Tucumán? - perguntei à queima-roupa.

- Em Tucumán? Não, também não. Estive muitas vezes em Buenos Aires, claro, mas nunca em Tucumán. Por quê?

- Nada, por nada. É que o senhor me parece conhecido e estou tentando lembrar de onde o conheço.

- O mais provável é que o tenhas visto aqui em Montevidéu, em outra ocasião! - disse Bayce, rindo de meu esforço.

Fiz um gesto negativo e voltei a mergulhar em minhas reflexões enquanto eles continuavam falando do galo.

Afastei-me com um pretexto qualquer e fui a outro café enquanto em minha cabeça continuava dando voltas a história do arquitecto.

Tratei de reconstruir meu contacto com a gente de Tucumán, gente que, como sempre, utilizava para despistar minhas verdadeiras actividades. É natural: não iria frequentar falsificadores autóctones ou ser visto em companhia de assaltantes da província. Chamei por telefone uma moça da arquitectura com quem havia dormido há algum tempo.

Fui vê-la. Havia progredido, leccionava na faculdade e colaborava com um grupo de arquitectos jovens que estavam fazendo em Tucumán algo que me mostrou depois: uma fábrica, ou escola, ou sanatório. Não sei, já que tudo é igual, como se sabe: nesses edifícios tanto se pode instalar amanhã um torno como uma maternidade. É o que chamam de funcionalismo.

Como dizia, minha amiga tinha prosperado. Já não morava, como em Buenos Aires, num quartinho de estudante. Morava agora num apartamento moderno e adequado à sua personalidade.

No momento em que a empregada abriu a porta, quase fui embora, pois pensei que ali não vivia ninguém. Só ao baixar a vista é que tropecei com o mobiliário: tudo ao rés-do-chão, como para crocodilos. Acima dos cinquenta centímetros o apartamento era totalmente inabitado. No entanto, quando entrei, vi que numa imensa parede havia um quadro, um só quadro de algum amigo de Gabriela: sobre um fundo liso e de um cinza-aço havia, traçada com tira-linhas, uma recta azul vertical e, uns cinquenta centímetros à direita, um pequeno círculo ocre.

Atiramo-nos ao chão, com extremo desconforto; Gabriela se arrastou até uma mesinha de vinte centímetros de altura para servir um café numas xicarazinhas de cerâmica sem asas. Enquanto queimava os dedos pensei que sem meia dúzia de uísques me seria impossível alcançar naquela geladeira a temperatura adequada para voltar a dormir com Gabriela. Já estava resignado com minha sorte quando apareceram seus amigos. Ao se aproximarem, notei que um deles era mulher, embora também vestisse blue jeans. Os outros dois eram arquitectos: um, o marido da mulher de calças e o outro, ao que parece, amigo ou amante de Gabriela. Todos vestidos com aquele uniforme de blue jeans e com uns sapatões esquisitos tipo militar, desses que antes eram usados por nossos recrutas, mas que agora devem certamente ser feitos para abastecer a faculdade de arquitectura.

Conversaram um bom tempo em seu jargão, jargão que por momentos se misturava com o psicanalítico, de modo que pareciam igualmente extasiar-se ante uma espiral logarítmica como ante o sadismo anobucal de um amigo que nesse momento se analisava. Também se falou de um projecto de Clorindo Testa para realizar prisões-modelos no território de Misiones, com aguilhões electrónicos?

Então, naquela reconstrução, recebi a luz. Não, certamente minha obsessão me havia levado a pensar que havia visto Capurro antes, em Valparaíso ou Tucumán. O que acontecia é que toda aquela gente se parecia, e era muito difícil ver as diferenças principalmente de longe, ou na penumbra ou, como ocorria comigo, em momentos de emoção violenta.

Tranquilizado no que se referia a Capurro, permaneci com mais satisfação o tempo que me restava: entrei num cinema, fui a um bar de subúrbio e finalmente me encerrei no hotel. E no outro dia, quando o avião da Air France descolou de Carrasco, comecei a respirar em paz.

Cheguei a Orly com um calor opressivo (estávamos em Agosto). Suava, resfolegava. Um dos funcionários que examinava meu passaporte, um desses franceses que gesticulam com essa exuberância que eles atribuem aos latino-americanos, me disse, com uma mescla de ironia e condescendência:

- Mas vocês lá devem estar acostumados a coisas piores, não?

Já sabemos: os franceses são muito lógicos e o mecanismo mental daquele Descartes da Alfândega era imbatível: Marselha está ao sul e é quente; Buenos Aires está muito mais ao sul e, portanto, lá deve fazer um calor infernal. O que demonstra o tipo de demência favorecido pela lógica: um bom raciocínio pode abolir o pólo sul.

Tranquilizei-o (elogiei-o) confirmando sua sabedoria. Disse-lhe que em Buenos Aires andávamos permanentemente com tangas e que ao nos vestirmos sofremos com o menor excesso de temperatura. com o quê, o sujeito me pôs o carimbo de bom grado e me entregou o passaporte com um sorriso: Allez-y! para civilizar-se um pouco.

Não tinha planos precisos para Paris, mas me pareceu prudente tomar duas determinações: primeiro, pôr-me em contacto com os amigos de F., para o caso de que me escasseasse o dinheiro; segundo, despistar, como sempre, frequentando meus amigos (?) de Montparnasse e do Quartier: esse conjunto de catalães, italianos, judeus polacos e judeus romenos que constituem a Escola de Paris.

Fui viver numa maison meublée na Rue du Sommerard, onde havia estado antes da guerra. Mas Madame Pinard não mais era a dona. Alguma outra gorda se encarregaria de vigiar em seu lugar, da conciergerie, a entrada e saída de estudantes, artistas fracassados e proxenetas que constituem não só a população naquela casa como ainda o material eterno das Fofocas e Filosofia Existencial da porteira.

Aluguei um quartinho no terceiro andar. E logo saí em busca de meus conhecidos.

Dirigi-me ao Dome. Não vi ninguém. Disseram-me que o pessoal havia emigrado para outros cafés. Deram-me as coordenadas de Domínguez. Fui buscá-lo em seu atelier, situado agora na Grande Chaumière.

Mas é claro que nada posso fazer que não me leve ao Domínio Proibido; mais, ainda: parece que um olfacto infalível me conduz inelutavelmente até ele. "Este", disse Domínguez, mostrando-me uma tela, "é o retrato de uma cega que é modelo." Riu. Gostava de certas perversidades. Tive de me sentar.

- Que é que tens? - disse. - Ficaste branco. Trouxe-me um conhaque.

- Ando mal do estômago - expliquei.

Saí disposto a não voltar ao atelier. Mas no outro dia compreendi que era o pior que podia fazer, tal como o demonstra o seguinte encadeamento:

1. Domínguez se surpreenderia com minha desaparição.
2. Procuraria em sua memória algum facto que pudesse explicá-la. O único: meu quase desmaio ao mostrar-me a tela da cega.
3. Era algo tão chamativo que acabaria por comentá-lo, inclusive, e principalmente, com a cega. Passo bastante possível. Espantosamente possível, pois dele derivariam os dois seguintes:
4. Pergunta da cega a meu respeito.
5. Investigação de meu nome, sobrenome, origem, etc.
6. Imediata comunicação à Seita.

O resto é óbvio: minha vida voltaria a correr perigo e eu teria de fugir de Paris, talvez até a África ou Groenlândia.

Minha decisão foi a que vocês todos já terão imaginado, a que qualquer pessoa inteligente poderia supor: não existia outra forma de dissimular senão voltar ao atelier de Domínguez como se nada tivesse acontecido e arriscar a possibilidade de defrontar-me com a cega.

Depois de uma longa e custosa viagem, voltava a encontrar-me com meu Destino.


XXVI.

Assombrosa lucidez a que tenho nestes momentos que precedem minha morte.

Anoto rapidamente pontos que gostaria de analisar, se me dão tempo:

Cegos leprosos.

Assuntos Clichy, espionagem na livraria.

Túnel entre a cripta de Saint-Julien Le Pauvre e o Cemitério de Père Lachaise, Jean-Pierre, cuidado.


XXVII.

Delírio de perseguição! Sempre os realistas, os famosos senhores das "devidas proporções". Quando por fim me queimarem, só então se convencerão; como se se tivesse de medir com um metro o diâmetro do sol, para se acreditar no que afirmam os astrofísicos.

Estes papéis servirão de testemunho.

Vaidade post-mortem? Talvez: a vaidade é tão fantástica, tão pouco "realista" que até nos induz a preocuparmo-nos com o que pensarão os outros uma vez que estejamos mortos e enterrados.

Uma espécie de prova da imortalidade da alma?


XXVIII.

Que corja de canalhas! Para crer, precisam nos ver queimados.


XXIX.

Voltei, pois, ao atelier. Agora que me havia decidido, era impelido por uma espécie de desaforada ansiedade. Mal cheguei, pedi-lhe que me falasse da cega. Mas Domínguez estava bêbado e começou a insultar-me, como era peculiar quando perdia o controle. Encurvado, raivoso, enorme, com o álcool se convertia num terrível monstro.

No outro dia pintava aprazivelmente, com aquele ar bovino.

Perguntei-lhe sobre a cega, disse-lhe que tinha curiosidade em observá-la, mas sem que ela soubesse. Voltava, pois, à investigação, mas muito antes do previsto, já que, de qualquer maneira, uma distância de quinze mil quilómetros equivalia a um par de anos. Isso foi o que estupidamente pensei naqueles momentos. Inútil esclarecer que nada disse a Domínguez sobre essas reflexões secretas. Aleguei simplesmente curiosidade, mórbida curiosidade.

Disse-me que eu podia me instalar em cima e escutar e olhar tudo o que me estivesse ante os olhos. Suponho que conhecem a estrutura desses ateliers de pintor: uma espécie de galpão, bastante alto, em cuja parte inferior o artista tem o cavalete, os armários de pintura, algum catre para o modelo, mesas e cadeiras para sentar ou comer, etc; e a um lado, a uns dois metros de altura, um tablado com a cama para dormir. Aquele seria meu observatório: nem construído de propósito poderia ser tão adequado para minha tarefa.

Entusiasmado com a perspectiva, conversei com Domínguez sobre velhos amigos, à espera da cega. Recordamos Matta, que estava em Nova York, Esteban Francês, Breton, Tristan Tzara, Péret. Que fazia Marcelle Ferry? (Lembro perfeitamente que não lhe perguntei então por Victor Brauner: o Destino nos cega! (N. do A.)) Até que finalmente anunciaram a chegada do modelo. Corri ao tablado, onde Domínguez tinha sua cama, revolta e suja como sempre. De meu posto, em silêncio, me dispus a presenciar coisas estranhas, pois Domínguez já me havia prevenido que às vezes "não tinha outro remédio" senão fazer amor com ela, tão libidinosa era a cega.

Um estremecimento gelado eriçou minha pele mal vi a mulher no vão da porta. Deus meu, jamais consegui ver sem um estremecimento a aparição de um cego!

Era de estatura média, mais para miúda, mas em seus movimentos se revelava uma espécie de gata no cio. Dirigiu-se sem ajuda até aquele catre e se despiu. Seu corpo era atraente, delicado, mas eram sobretudo seus movimentos felinos o que atraía.

Domínguez pintava e ela dizia cobras e lagartos de seu marido, o que não me pareceu de particular interesse até o momento em que compreendi que seu marido também era cego: uma das brechas que eu procurava! Uma nação inimiga, vista de longe, oferece um aspecto duro e sem fissuras, um bloco compacto onde nos parece que jamais poderemos penetrar.

Mas lá dentro há ódios, há ressentimentos, há desejos de vingança; de outra forma a espionagem seria quase impossível e o colaboracionismo nos países ocupados quase impraticável.

Naturalmente, não me precipitei com alegria sobre aquela brecha. Antes era preciso averiguar:

a) se realmente aquela mulher ignorava minha existência ou presença;
b) se realmente odiava seu marido (poderia ser uma armadilha para caçar espiões);
c) se realmente seu marido também era cego.

O tumulto que se produziu em minha cabeça com a revelação daquele ódio misturou-se ao que nos meus sentidos se desencadeou com a cena ocorrida mais tarde. Perverso e sádico como era, Domínguez fazia mil sujeiras com a mulher, aproveitando-se de sua cegueira; de modo que ela o procurava, tacteando. Domínguez até mesmo me fez gestos para que colaborasse, mas, como eu precisava cuidar daquela oportunidade como um tesouro, não iria desperdiçá-la por uma mera satisfação sexual. Seguiu-se a comédia que logo foi degenerando em sombria e quase aterradora luta sexual entre dois endemoninhados que gritavam, mordiam e arranhavam.

Não, não me restavam dúvidas de que ela era autêntica. Facto importante para a investigação posterior. E, embora saiba que uma mulher é capaz de mentir friamente até nos momentos mais apaixonados, sentia-me inclinado a pensar que também era autêntica em suas referências ao cego. Mas tinha de conter-me.

Quando aquela gente foi se acalmando, em meio ao caos do atelier (pois não só gritavam e uivavam: Domínguez também se fazia perseguir pela cega, aos tombos, incitando-a com insultos, com referências descomunais), ficaram longo tempo sem falar. Em seguida ela se vestiu e disse "até amanhã", como um funcionário que larga o trabalho. Domínguez nem sequer respondeu, permanecendo nu e modorrento no catre. Eu, um pouco grotescamente, continuava em meu observatório. Por fim me decidi a descer.

Perguntei-lhe se era verdade que o marido também era cego, se ele o havia visto alguma vez. E se também era verdade que ela o odiava da maneira como parecia odiá-lo.

Domínguez, como resposta, me explicou que uma das torturas que aquela mulher havia ideado era levar seus amantes até o quarto onde morava com o indivíduo e fazer amor diante dele. Como eu não entendia a possibilidade, explicou-me que a combinação era possível porque o marido não só era cego como paralítico. Da cadeira de rodas assistia à tortura organizada por ela.

- Mas como? - interroguei. - Nem ao menos se move com a cadeira? Não os persegue pelo quarto?

Domínguez, bocejando com sua boca de rinoceronte, fez um gesto negativo. Não: o cego era totalmente paralítico, e todas as suas possibilidades se reduziam a mover um pouco uns dedos da mão direita e a balbuciar lamúrias. Quando a cena chegava a seus momentos culminantes, o cego, enlouquecido, conseguia mover algumas falanges e revolver uma língua pastosa para emitir alguns sons.

Por que o odiava tanto? Domínguez não o sabia.


XXX.

Mas voltemos ao modelo. Até agora estremeço ao recordar aquela fugaz relação com a cega, pois nunca estive tão perto do abismo como naquele momento. Quanta reserva de imprevisão e de estupidez havia ainda em meu espírito! Pensar que eu me considerava um lince, que pensava não dar um passo sem antes ter examinado previamente o terreno, que me considerava um raciocinador poderoso e quase infalível. Pobre de mim.

Não me foi difícil entrar em relações com a cega. (Como quem dissesse, pedaço de idiota, "não me foi difícil conseguir que me passassem a perna".) Encontrei-a no atelier de Domínguez, saímos juntos, conversamos sobre o tempo, sobre a Argentina, sobre Domínguez. Ela ignorava, é claro, que do observatório eu havia presenciado a cena, no dia anterior. Disse-me:

- É um grande sujeito. Gosto dele como de um irmão.

O que me provou duas coisas: primeira, que ignorava minha presença no observatório; e, segunda, que era uma mentirosa. Conclusão essa que me alertava sobre suas futuras confissões: tudo devia ser examinado e expurgado. Teria de se passar um certo tempo, curto em dimensão mas considerável em qualidade, para começar a suspeitar que a primeira conclusão era duvidosa. Por intuição dela, por esse sexto sentido que lhes permite adivinhar a presença de alguém? Por cumplicidade com Domínguez? Já o direi. Deixem-me agora continuar com a história dos factos.

Sou tão desapiedado comigo mesmo como com o resto da humanidade. No entanto hoje me pergunto se foi unicamente minha obsessão pela Seita que me levou àquela aventura com Louise. Pergunto-me, por exemplo, se teria chegado a dormir com uma cega horrível. Isso teria sido autêntico espírito científico! Como o desses astrónomos que, tiritando de frio sob as cúpulas, passam longas noites de Inverno tomando nota das posições estelares, deitados em suas camas de madeira. Já que dormiriam se fossem confortáveis, e o objecto que eles perseguem não é o sono mas a verdade. Enquanto eu, imperfeito e lúbrico, me deixei arrastar a situações onde o perigo me rondava a cada instante, desleixando os grandes e transcendentes objectivos que durante anos havia determinado.

É-me impossível, no entanto, discernir o que houve então de genuíno espírito de investigação e de complacência mórbida. Porque também concordo em que aquela complacência era igualmente útil para afundar no mistério da Seita. Já que, se ela domina o mundo mediante as forças das trevas, que mais poderia desejar senão afundar-me nas atrocidades da carne e do espírito para estudar os limites, os contornos, os alcances dessas forças? Não estou afirmando algo de que neste momento esteja absolutamente certo, estou apenas reflectindo comigo mesmo e tentando saber, sem complacência com minhas debilidades, até que ponto cedi naqueles dias a essas debilidades, e até que ponto tive a intrepidez e a coragem de me aproximar e mesmo afundar na fossa da verdade.

Não vale a pena dar detalhes do asqueroso comércio que mantive com a cega, já que não acrescentam nada importante ao relatório que quero deixar aos futuros investigadores. Informe que espero tenha com esse género de descrições a mesma relação que uma geografia sociológica da África central tem com a descrição de um acto de canibalismo. Apenas direi que, mesmo que ainda viva cinco mil anos, me seria impossível esquecer até minha morte aquelas sestas de verão; com aquela fêmea anónima, múltipla como um polvo, lenta e minuciosa como uma lesma, flexível e perversa como uma grande víbora, eléctrica e delirante como uma gata nocturna. Enquanto o outro, em sua cadeira de paralítico, imponente e patético, agitava aqueles dois dedos da mão direita e com sua língua imunda balbuciava sabe-se lá que blasfémias, que turvas (e inúteis) ameaças. Até que aquele vampiro, depois de chupar todo o meu sangue, me abandonava convertido num molusco asqueroso e amorfo.

Deixemos, pois, esse aspecto da questão e examinemos os factos que interessam para o relatório, as conjecturas a que pude chegar sobre o universo proibido.

Minha primeira tarefa era, evidentemente, averiguar a natureza e a profundidade do aborrecimento da cega em relação a seu marido, já que essa brecha, como disse, era uma das possibilidades que sempre havia procurado. Seria supérfluo esclarecer que não realizei essa indagação interrogando directamente Louise, já que tal interrogatório teria suscitado atenção e suspeita; foi o produto de longas conversações sobre a vida em geral, e a análise posterior, no silêncio de meu quarto, de suas respostas, de seus comentários e de seus silêncios e reticências. Desse modo inferi, com bases que julguei sólidas, que aquele indivíduo era realmente seu marido e que o rancor era tão profundo como verdadeiramente o manifestava aquela perversa ideia de copular em sua presença.

E eu disse "como verdadeiramente o manifestava" porque, evidentemente, a primeira suspeita que me assaltou foi a de uma comédia para apanhar-me, segundo o esquema:

a) ódio ao marido
b) ódio aos cegos em geral
c) abertura de meu coração!

Minha experiência me prevenia contra uma armadilha tão engenhosa, e a única forma de me certificar era investigando a autenticidade daquele ressentimento. O elemento que considerei mais convincente foi seu tipo de cegueira o homem havia perdido a vista quando adulto, enquanto Louise era cega de nascença: e já expliquei que há uma implacável execração dos cegos pelos noviços.

A coisa tinha acontecido assim: conheceram-se na Biblioteca para Cegos, enamoraram-se, foram viver juntos; logo começou uma série de discussões por ciúmes dele que culminaram em insultos e brigas.

Segundo Louise, esses ciúmes eram infundados, pois ela estava enamorada de Gastón: homem muito honesto e capaz. Mas seus ciúmes chegaram a ser tão descabelados que um dia decidiu vingar-se amarrando a cega na cama, trazendo uma mulher e fazendo amor em sua presença. Louise, em meio ao tormento, jurou vingar-se e alguns dias depois, no momento em que saíam juntos do quarto (viviam num quarto andar, e sabemos que nesses hotéizinhos de Paris o elevador é usado somente para subir), ao chegar às escadarias ela o empurrou. Gastón caiu aos tombos até o andar inferior, e como consequência daquela queda ficou paralítico. Quando se recuperou, a única coisa que conservava intacta era seu extraordinário sentido de audição.

Incomunicável com o mundo exterior, não podendo falar nem escrever, ninguém jamais pôde inteirar-se da verdade e todos acreditaram na versão de Louise da queda, tão possível num cego. Devorado pela impotência de transmitir a verdade e pela tortura daquelas cenas que Louise executava como vingança, Gastón parecia emparedado dentro de uma carapaça rígida, enquanto um exército de formigas carnívoras devoravam suas carnes vivas cada vez que a cega uivava na cama com seus amantes.

Confirmada a autenticidade do ódio, quis averiguar algo mais sobre Gastón, pois uma noite, enquanto meditava sobre os factos do dia, me ocorreu de súbito uma suspeita; e se aquele homem, antes de ficar cego, tivesse sido um dos indivíduos que há milhares de anos, anónimos e audazes, lúcidos e implacáveis, tentam penetrar no mundo proibido? Não seria possível que, tornado cego pela Seita, como primeiro passo do castigo, fosse entregue logo à atroz e perpétua vingança daquela cega, logo após tê-lo feito enamorar-se?

Imaginei-me, por um instante, emparedado vivo naquela carapaça, minha inteligência intacta, meus desejos talvez exacerbados, meus ouvidos apuradíssimos, ouvindo a mulher que em outro tempo me enlouqueceu gemer e uivar com sucessivos amantes. Só essa gente podia inventar uma tortura semelhante.

Levantei-me, agitado. Essa noite já não consegui dormir, e durante horas dei voltas em meu quarto, fumando e pensando. Era preciso de algum modo indagar essa possibilidade. Mas essa investigação era a mais perigosa que até então havia empreendido em relação à Seita. Tratava-se de ver até que ponto aquele mártir era minha própria representação!

Quando amanheceu, minha cabeça dava voltas. Tomei banho para dar um pouco mais de nitidez a minhas imaginações. Disse a mim mesmo, mais tranquilo: se aquele indivíduo estava sendo castigado pela Seita, por que razão a cega me havia dado aquele tipo de informações que podiam despertar em mim, precisamente, esse género de suspeitas? Por que me havia explicado que ela o castigava? Podia e deveria ter ocultado esse facto, caso quisesse me fazer cair numa armadilha. Eu, de minha parte, jamais poderia averiguar isso sem sua ajuda, pois somente graças à sua informação sabia que aquele coitado ouvia e sofria. Mais ainda: se o propósito da Seita era apanhar-me na armadilha da cega, que necessidade tinha de mostrar-me ao cego naquela situação equívoca e de qualquer forma suspeita para mim? Além disso, pensei, Domínguez também dormia com aquela mulher nas mesmas condições, e isso revelava algo alheio às minhas investigações. Tranquilizei-me, mas decidi redobrar minha cautela.

Nesse mesmo dia pus em prática um recurso no qual já havia pensado mas que até o momento não havia utilizado: escutar através da porta. Se aquele rancor era autêntico, era provável que em momentos de solidão ela lhe gritasse também insultos.

Subi até o quinto andar com o elevador e logo desci com cuidado até o quarto, deixando passar cinco minutos a cada degrau. Assim consegui aproximar-me do quarto e pôr meu ouvido contra a porta. Ouvi vozes de conversa entre Louise e um homem. Aquilo me chamou a atenção porque, ainda que fosse uma hora mais tarde, ela me esperava.

Seria capaz de ter um outro homem até quase o momento exacto de minha chegada? Restava o recurso de esperar.

Caminhei suavemente pelo corredor e esperei num canto, pensando: se alguém vem ou passa por aqui, caminharei até mais em baixo e ninguém poderá suspeitar de nada.

Por sorte, naquela hora o movimento era nulo e assim pude esperar até a hora combinada com Louise sem que aquele indivíduo saísse do quarto. Pensei então que qualquer outro amigo ou conhecido havia estado conversando com a cega à espera de minha chegada. Seja como for, era a hora combinada. Assim me aproximei e bati. Ela abriu e entrei no quarto.

Quase desmaio!

No quarto não havia ninguém. Fora, é claro, a cega e o paralítico em sua cadeira.

Vertiginosamente imaginei a sinistra comédia: um cego supostamente paralítico e mudo, colocado pela Seita como marido da outra canalha, para que eu caísse na armadilha do famoso ódio, da famosa brecha e da inevitável confissão.

Saí correndo, pois minha mente, lúcida e exacta como raras vezes, me recordava que, astutamente, não havia dado meu endereço a ninguém, nem o próprio Domínguez o conhecia; e que, paralítico ou não, a cegueira daquele bufão o impediria de seguir-me escada abaixo.

Atravessei como um raio o boulevard e entrei no Jardim do Luxembourg, e sempre correndo saí pelo outro extremo. Ali tomei um táxi e sem perda de tempo pensei em ir até meu hotel apanhar minha mala para fugir de Paris. Mas enquanto pensava aos trancos, durante a viagem, me ocorreu que, embora não tivesse confiado a ninguém meu domicílio, era muito provável (ou melhor, certo) que a Seita tivesse me seguido até lá, prevendo precisamente qualquer fuga precipitada. Que diabos importava minha mala? Meu passaporte e meu dinheiro, eu os levava sempre comigo. Mais ainda: sem saber o que poderia me acontecer exactamente, minha longa experiência naquela investigação me fizera tomar uma medida que agora julgava genial: ter o passaporte visado para dois ou três países. Porque, leve-se em conta que, mal ocorrido o episódio da Rue Gay-Lussac, a Seita destacaria no acto uma guarda no consulado argentino para seguir minha pista. Mais uma vez fui possuído, em meio à minha agitação, de uma notável sensação de força proveniente de minha previsão e de meu talento.

Fui até os Grands Boulevards e pedi ao chofer que me levasse a uma agência de viagens qualquer. Comprei passagem para o primeiro avião. Também pensei na vigilância até o aeroporto; mas me pareceu que a Seita perderia minha pista esperando-me primeiro no consulado.

Assim fui para Roma.


XXXI.

Quanta estupidez cometemos com ares de raciocínios rigorosos! Claro, raciocinamos bem, raciocinamos magnificamente sobre as premissas A, B e C. Só que não tínhamos levado em conta a premissa D. E a E, e a F. E todo o abecedário latino mais o russo. Mecanismo em virtude do qual esses astutos inquisidores da psicanálise ficam muito tranquilos depois de terem tirado conclusões correctíssimas de bases esqueléticas.

Quantas amargas reflexões fiz naquela viagem a Roma! Procurei ordenar minhas ideias, minhas teorias, os factos que tinha vivido. Já que só é possível acertar o futuro se procuramos descobrir as leis do passado.

Quantas falhas nesse passado! Quantas inadvertências! Quantas ingenuidades ainda! Naquele momento percebi o papel equívoco de Domínguez, recordando o caso de Victor Brauner. Agora, anos depois, confirmo minha hipótese: Domínguez empurrado ao manicómio e ao suicídio.

Sim, durante a viagem lembrei o estranho caso de Victor Brauner e também lembrei que ao encontrar-me com Domínguez perguntei por todos: por Breton, por Péret, por Esteban Francês, por Matta, por Marcelle Ferry. Menos por Victor Brauner. Significativo "esquecimento"!

Relato, caso não o conheçam, o episódio. Esse pintor tinha a obsessão da cegueira e em vários quadros pintou retratos de homens com um olho furado ou saltado. E inclusive um auto-retrato em que um de seus olhos aparecia vazado. Pois bem: um pouco antes da guerra, numa orgia no atelier de um dos pintores do grupo surrealista, Domínguez, bêbado, atira um copo contra alguém; este se afasta e o copo arranca um olho de Victor Brauner.

Vejam os senhores se se pode falar de casualidade, se a casualidade tem algum sentido entre os seres humanos. Os homens, pelo contrário, se movem como sonâmbulos, até fins que muitas vezes intuem obscuramente; mas aos quais são atraídos como a mariposa à chama. Assim Brauner foi até o copo de Domínguez e sua cegueira; e assim eu fui até Domínguez em 1953, sem saber que novamente ia em busca de meu destino. De todas as pessoas que teria podido ver naquele verão de 1953, só me ocorreu procurar o homem que de certa forma estava a serviço da Seita. O resto é óbvio: o quadro que chamou minha atenção e meu medo, a cega modelo (modelo para essa única ocasião), a farsa daquela cópula com Domínguez, minha estúpida vigilância do observatório, meu contacto com a cega, a comédia do paralítico, etc.

Aviso aos ingénuos: NÃO HÁ CASUALIDADES!

E, sobretudo, aviso para os que depois de mim e lendo este relatório decidam empreender a busca e chegar um pouco mais longe que eu. Tão desgraçado precursor como Maupassant (que pagou com a loucura), como Rimbaud (que, não obstante sua fuga para a África, acabou também em meio ao delírio e à gangrena) e como tantos outros anónimos heróis que não conhecemos e que devem ter terminado seus dias, sem que ninguém o saiba, entre as paredes do manicómio, sob a tortura das polícias políticas asfixiados em fossas negras, tragados por pântanos, comidos pelas formigas carnívoras na África, devorados pelos tubarões, castrados e vendidos a sultões no Oriente ou, como eu mesmo, destinados à morte pelo fogo.

De Roma fugi para o Egipto, dali viajei de barco até a índia. Como se o Destino me precedesse e esperasse, em Bombaim me encontrei de repente num prostíbulo de cegos. Aterrado, fui até a China e dali passei a San Francisco.

Permaneci quieto vários meses na pensão de uma italiana chamada Giovanna. Até que decidi voltar à Argentina, quando me pareceu que nada mais ocorria de suspeito.

Uma vez aqui, já escolado, mantive-me na expectativa, esperando encarapitar em algum chegado ou conhecido que se tornasse cego por acidente.

Já sabem o que aconteceu depois: o tipógrafo Celestino Iglesias, a espera, o acidente, novamente a espera, o apartamento de Belgrano e finalmente o quarto hermético onde pensei que encontraria meu destino definitivo.


XXXII.

Não sei, no entanto, se foi por causa de minhas batidas e gritos que abriram a porta e apareceu a Cega.

Ainda a vejo, recortada sob o vão da porta, em meio a uma luminosidade que me pareceu algo fosforescente: hierática. Havia nela majestade, e emanava de sua atitude e sobretudo de seu rosto uma invencível fascinação. Como se no vão da porta houvesse, erecta e silenciosa, uma serpente com seus olhos cravados em mim.

Fiz um esforço para quebrar o feitiço que me paralisava: tinha o propósito (certamente desatinado, mas quase lógico se se leva em conta minha falta de esperança em qualquer coisa) de lançar-me contra ela, derrubá-la se necessário e correr procurando uma saída para a rua. Mas o facto é que mal podia me manter em pé: um torpor, um grande cansaço foi se apoderando de meus músculos, um cansaço doentio como o que se sente nos grandes acessos de febre. E, com efeito, minha fronte latejava com crescente intensidade, até que em dado momento pareceu que minha cabeça iria estourar como um gasómetro.

Um resto de consciência me dizia, não obstante, que, se não aproveitasse essa oportunidade para salvar-me, nunca mais poderia fazê-lo.

Juntei com tensa vontade todas as forças que tinha e me precipitei sobre a Cega. Afastei-a com violência e me precipitei no outro aposento.


XXXIII.

Não sei se como consequência do cansaço, a tensão da espera durante tantas horas ou o ar impuro, o certo é que começou a dominar-me uma modorra crescente e por fim caí, ou agora me parece ter caído, numa vigília turva e agitada: pesadelos que jamais acabam de configurar-se, mesclados ou alimentados por recordações semelhantes à história do elevador, ou de Louise.

Recordo que em certo momento cri que me asfixiava e, desesperado, me levantei, corri até as portas e me pus a golpeá-las com fúria. Logo tirei o casaco e mais tarde a camisa, pois tudo me pesava e me afogava.

Até aqui recordo tudo com nitidez.

Tropeçando naquela penumbra, procurei uma saída qualquer. Abri uma porta e me encontrei em outro quarto rnais escuro que o anterior, onde novamente empurrei, em meu desespero, mesas e cadeiras. Tacteando pelas paredes, procurei outra porta, abri-a e uma nova escuridão, ainda mais intensa que a anterior, me recebeu.

Recordo que em meio ao meu caos pensei: "Estou perdido". E como se tivesse gasto o resto de minhas energias, deixei-me cair, sem esperanças: certamente estava preso numa labiríntica construção de onde jamais sairia. Assim devo ter permanecido alguns minutos, ofegando e suando. "Não devo perder minha lucidez", pensei. Procurei aclarar minhas ideias e só então lembrei que trazia um isqueiro. Acendi-o e verifiquei que aquele quarto estava vazio e que havia outra porta, fui até ela e a abri: dava para um corredor cujo fim não se conseguia distinguir. Mas que poderia fazer senão lançar-me por aquela única possibilidade que me restava? Ademais, um pouco de reflexão me bastou para compreender que minha ideia anterior de estar perdido num labirinto tinha de ser errónea, já que a Seita de qualquer forma jamais me condenaria a uma morte tão confortável.

Fui avançando, pois, pelo corredor. com ansiedade, mas com lentidão, pois a luz de meu isqueiro era precária e além disso eu só a usava de vez em quando para não acabar prematuramente o combustível.

Ao fim de uns trinta passos, o corredor desembocava numa escada descendente, parecida com aquela que me havia conduzido do primeiro apartamento ao porão, isto é, tubular. Certamente passava através dos apartamentos ou casas até os subterrâneos de Buenos Aires. Depois de uns dez metros, a escada deixava de ser tubular e passava por grandes espaços abertos mas completamente às escuras, que podiam ser porões ou depósitos, embora com a fraca luz de meu isqueiro fosse impossível ver muito longe.


XXXIV.

À medida que ia descendo, ouvia o ruído peculiar de água que corre, e isso me induziu a crer que me aproximava de algum dos canais subterrâneos que em Buenos Aires formam uma imensa e labiríntica rede cloacal, de milhares e milhares de quilómetros. com efeito, desemboquei num daqueles fétidos túneis, ao fundo do qual corria um arroio impetuoso de águas malcheirosas. Uma longínqua luminosidade indicava que para o lado onde corriam as águas haveria uma boca-de-lobo, ou uma abertura qualquer que daria para a rua ou talvez a desembocadura de um dos canais principais. Decidi encaminhar-me para lá. Tinha de andar com cuidado sobre a estreita senda que existe à margem desses túneis, pois resvalar ali pode ser não só fatal, mas indizivelmente asqueroso.

Tudo era hediondo e pegajoso. As paredes ou muros daquele túnel eram também númidas e por elas corriam filetes de água, certamente infiltrações das camadas superiores do terreno.

Mais de uma vez em minha vida havia meditado na existência daquela rede subterrânea, sem dúvida por minha tendência a matutar sobre porões, túneis, covas, cavernas e tudo o que de uma maneira ou de outra é vinculado a essa realidade subterrânea e enigmática: lagartos, serpentes, ratos, baratas, furões e cegos.

Abomináveis cloacas de Buenos Aires! Mundo inferior e horrendo, pátria da imundície! Imaginava em cima, em salões brilhantes, mulheres lindas e delicadíssimas, gerentes de bancos correctos e ponderados, professores dizendo que não se deve escrever palavras feias nas paredes; imaginava guarda-pós brancos e engomados, vestidos de noite em tule ou em gazes vaporosas, frases poéticas à amada, discursos comovedores sobre as virtudes pátrias. Enquanto ali em baixo, em obsceno e pestilento tumulto, corriam misturados os mênstruos daquelas amadas românticas, os excrementos das vaporosas jovens vestidas de gaze, os preservativos usados pelos correctos gerentes, os destroçados fetos de milhares de abortos, os restos de comida de milhões de casas e restaurantes, o imenso, o incomensurável Lixo de Buenos Aires.

E tudo caminhava para o Nada do oceano mediante condutos subterrâneos e secretos, como se Aqueles lá de Cima quisessem esquecer, como se tentassem fazer-se de desentendidos sobre essa parte de sua verdade. E como se heróis às avessas, como eu, estivessem destinados ao trabalho infernal e maldito de dar conta dessa realidade.

Exploradores da Imundície, testemunhas do Lixo e dos Maus Pensamentos!

Sim, de repente me senti uma espécie de herói, de herói às avessas, herói negro e repugnante, mas herói. Uma espécie de Siegfried das trevas, avançando na escuridão e na fetidez com meu negro pavilhão drapejante, agitado por furacões infernais. Mas avançando rumo a quê? Isso é o que não conseguia discernir e que mesmo agora, nesses momentos que precedem minha morte, tampouco chego a compreender.

Cheguei por fim ao que imaginei ser uma boca-de-lobo, pois dali vinha aquela fraca luminosidade que me havia ajudado a caminhar pelo canal. Era, com efeito, a desembocadura de meu canal em outro maior e quase rugiente.

Lá, bem ao alto, havia uma pequena abertura lateral, que calculei teria quase um metro de comprimento por uns vinte centímetros de altura. Era impossível sequer pensar em sair por ali, dada sua estreiteza e, sobretudo, sua inacessibilidade. Desalentado, tomei pois a direita para seguir o curso do novo e mais vasto canal, imaginando que desse modo, cedo ou tarde, teria de dar na desembocadura geral, se é que antes a atmosfera pesada e mefítica não me fizesse desmaiar e cair na imunda correnteza.

Mas não havia dado nem mesmo cem passos quando, com imensa alegria, vi que de minha estreita senda saía para cima uma escadinha de pedra ou cimento. Era, sem dúvida, uma das saídas ou entradas que utilizam os operários que de quando em quando se vêem obrigados a penetrar nesses antros.

Animado pela perspectiva, subi pela escadinha. Depois de uns seis ou sete degraus dobrava para a direita. Continuei a subir por um trecho mais ou menos igual ao primeiro e assim cheguei a um patamar por onde se passava a um novo corredor. Comecei a caminhar por ele, chegando por fim a outra escadinha semelhante às anteriores, mas, para minha grande surpresa, descendente.

Vacilei alguns instantes, perplexo. Que deveria fazer? Voltar atrás, ao canal grande, e continuar minha caminhada até encontrar uma escada ascendente? Achava estranho ter de descer novamente, quando o lógico seria subir. Imaginei, no entanto, que a escadinha anterior, o corredor que acabara de percorrer e essa nova escadinha descendente constituíam algo assim como uma ponte sobre um canal transversal; tal como acontece nas estações de metropolitano onde há conexões para outras linhas. Pensei que, de qualquer forma, seguindo na mesma direcção, só poderia finalmente sair à superfície de uma ou de outra maneira. Assim, reiniciei a caminhada: desci pela nova escada e continuei por outra passagem que se abria a seu final.


XXXV.

À medida que fui me internando, aquele corredor ia se convertendo numa galeria semelhante às de uma mina de carvão.

Comecei a sentir um frio túmido e então notei que desde algum tempo estava caminhando sobre um chão molhado, em virtude, certamente, dos filetes de água que silenciosamente desciam pelos muros cada vez mais irregulares e esburacados; pois já não eram as paredes de cimento de um corredor construído por engenheiros, mas, ao que tudo indicava, os muros de uma galeria escavada na própria terra, por baixo da cidade de Buenos Aires.

O ar se tornava mais e mais rarefeito, ou talvez fosse uma impressão subjectiva devida à escuridão e ao fechamento naquele túnel, que parecia interminável.

Notei, mesmo assim, que o piso já não era horizontal, mas ia descendo paulatinamente, ainda que sem nenhuma regularidade, como se a galeria houvesse sido escavada conforme as facilidades do terreno. Em outras palavras, já não era algo planejado e construído por engenheiros com a ajuda de máquinas adequadas; tinha-se mais a impressão de se estar numa imunda galeria subterrânea cavada por homens ou animais pré-históricos, aproveitando ou talvez alargando brechas naturais e leitos de rios subterrâneos. E assim o confirmava a água cada vez mais abundante e incómoda. Por momentos chapinhava na lama até que saía para partes mais duras e rochosas. Pelos muros a água se filtrava com maior intensidade. A galeria aumentava, até que de repente observei que desembocava numa cavidade que devia ser imensa, pois meus passos ressoavam como se eu estivesse sob uma abóbada gigantesca. Lamentavelmente, não me era possível nem mesmo vislumbrar seus limites, devido à escassa luz produzida por meu isqueiro. Também notei uma bruma formada não pelo vapor da água, mas talvez, como me pareceu revelar um intenso odor, produzida pela combustão espontânea e lenta de alguma lenha ou madeira podre.

Já me havia detido, creio que intimidado pela indistinta e monstruosa gruta ou abóbada. Sob meus pés sentia o piso coberto de água, mas essa água não estava parada, e sim corria numa direcção que imaginei conduzisse a algum desses lagos subterrâneos explorados pelos espeleólogos.

A solidão absoluta, a impossibilidade de distinguir os limites da caverna em que me achava e a extensão daquelas águas que me parecia imensa, o vapor ou fumaça que me tonteava, tudo aquilo aumentava minha ansiedade até um limite intolerável. Achei-me só no mundo e atravessou meu espírito, como um relâmpago, a ideia de que havia descido até suas origens. Senti-me grandioso e insignificante.

Temi que aqueles vapores terminassem por me embriagar e me fazer cair na água, morrendo afogado no exacto instante em que estava a ponto de descobrir o mistério central da existência.

A partir desse instante já não sei discernir entre o que me aconteceu e o que sonhei ou me fizeram sonhar, a ponto de não estar mais certo de nada; nem mesmo do que creio que se passou nos anos e até nos dias precedentes. E hoje até mesmo duvidaria do episódio Iglesias se não me constasse que perdeu a vista num acidente ao qual assisti. Mas todo o resto, desde esse acidente, eu recordo com lucidez febril, como se se tratasse de um longo e horrendo pesadelo: a pensão na Calle Paso, a Senhora Etchepareborda, o homem da CADÊ, o emissário parecido com Pierre Fresnay, a entrada na casa de Belgrano, a Cega, o encarceramento no quarto à espera do veredicto.

Minha cabeça começava a turvar-se e ante a certeza de que mais cedo ou mais tarde cairia sem sentidos tive, no entanto, o juízo de retroceder até um lugar em que o nível da água era menos alto, e ali, já sem forças, desmoronei.

Ouvi então, suponho que em sonhos, o rumor do arroio índio Muerto ao bater contra as pedras, na desembocadura do rio Arrecifes, na estância de Capitán Olmos. Eu estava de costas sobre a grama, num entardecer de verão, enquanto ouvia ao longe, como se estivesse a uma distância remotíssima, a voz de minha mãe que, como era seu hábito, cantarolava algo enquanto se banhava no arroio. Esse canto que agora ouvia parecia ser alegre, no começo, mas logo foi se tornando cada vez mais angustiante para mim: desejava entendê-lo e apesar de meus esforços não o conseguia, e assim minha angústia se tornava mais insuportável ante a ideia de que as palavras eram decisivas: coisa de vida ou morte. Acordei gritando: 'Não posso entender! Não posso entender!”

Como sói acontecer-nos ao despertar de um pesadelo, tentei tomar consciência do lugar em que estava e de minha real situação. Muitas vezes, já crescido, me aconteceu que parecia despertar no quarto de minha infância, lá em Capitán Olmos, e levava longos e espantosos minutos reconstruindo a realidade, o verdadeiro quarto em que estava, a verdadeira época: a bordoadas, como alguém que se afoga, como alguém que teme ser de novo arrastado pelo rio violento e tenebroso do qual a duras penas havia começado a salvar-se agarrando-se às margens da realidade.

E naquele instante, quando a aflição daquele canto ou gemido havia chegado a seu ponto mais angustiante, voltava a sentir essa estranha sensação e tentei agarrar-me desesperadamente aos bordos da verdadeira circunstância em que despertava. Só que agora a realidade era ainda pior, como se estivesse despertando de um pesadelo às avessas. E meus gritos, devolvidos em apagados ecos na gigantesca abóbada da gruta, me chamaram à verdade. Em meio ao silêncio oco e tenebroso (meu isqueiro havia desaparecido na água, quando caí) as palavras de meu despertar repetiam-se até extinguir-se na lonjura e na escuridão.

Quando o último eco de meus gritos morreu no silêncio, fiquei aniquilado por longo tempo: até bem pouco parecia ter plena consciência de minha solidão e das poderosas trevas que me rodeavam. Até esse momento, ou, melhor dito, até o momento que precedeu o sonho da infância, eu havia estado vivendo na vertigem de minha investigação e sentia como se tivesse sido arrastado em meio a uma louca inconsciência; e os temores e mesmo o espanto sentidos até esse instante não haviam sido capazes de dominar-me; todo o meu ser parecia lançado numa louca corrida rumo ao abismo, que nada podia deter.

Só nesse momento, sentado na lama, no centro de uma cavidade subterrânea cujos limites nem sequer podia suspeitar, submerso na treva comecei a ter uma consciência clara de minha absoluta e cruel solidão.

Como se aquilo pertencesse a uma ilusão, recordava agora o tumulto lá de cima, do outro mundo, a Buenos Aires caótica de frenéticos bonecos de corda: tudo me parecia uma infantil fantasmagoria, sem peso nem realidade. A realidade era esta outra. E só, naquele vértice do universo, como já expliquei, sentia-me grandioso e insignificante. Ignoro o tempo que transcorreu durante aquela espécie de estupor.

Mas o silêncio não era um silêncio liso e abstracto, mas antes pouco a pouco foi adquirindo essa complexidade que adquire quando o vivemos por um tempo longo e anelante. E então notamos que está povoado de pequenas irregularidades, de sons a princípio imperceptíveis, de apagados rumores, de misteriosos roçares. E como olhando pacientemente as manchas de uma parede númida começa-se a vislumbrar os contornos de rostos, de animais, de monstros mitológicos; assim, no grande silêncio daquela caverna, o ouvido atento ia descobrindo estruturas e desenhando figuras que adquiriam pouco a pouco um sentido: o característico rumor de uma cascata longínqua; as apagadas vozes de homens cautelosos; o murmúrio de seres talvez próximos; enigmáticas e entrecortadas rezas; chiados de aves nocturnas. Infinidade de rumores e indícios, enfim, que engendravam novos pavores ou desatinadas esperanças. Porque, assim como nas manchas de humidade Leonardo não inventava rostos e seres monstruosos mas os descobria nesses labirínticos redutos, assim tampouco se deve crer que minha imaginação ansiosa e meu pavor me faziam ouvir rumores significativos de apagadas vozes, de preces, de adejar ou chiado de grandes pássaros. Não, minha ansiedade, minha imaginação, um longo e pavoroso aprendizado sobre a Seita, o refinamento de meus sentidos e minha inteligência durante longos anos de busca me permitiam descobrir vozes e estruturas malignas que para um homem comum teriam passado despercebidas. Já na primeira infância tive as primeiras prefigurações daquele mundo perverso em meus pesadelos e alucinações. Tudo o que depois fiz ou vi em minha vida estava de uma forma ou outra vinculado àquela trama secreta, e factos que para as pessoas comuns não significavam nada saltavam à minha vista com seus contornos exactos, da mesma forma que nesses desenhos infantis onde se deve encontrar um dragão dissimulado entre árvores e riachos. E assim, enquanto outros meninos passavam ao largo, aborrecidos, obrigados por professores, pelas páginas de Homero, eu, que havia furado olhos de pássaros, senti meu primeiro estremecimento quando aquele homem descreve, com aterradora força e precisão quase mecânica, com perversidade de conhecedor e vingativo sadismo, o momento em que Ulisses e seus companheiros fendem e fazem ferver o grande olho do Ciclope com um pau ardente. Não era Homero cego? E outro dia, abrindo ao acaso o grande livro de mitologia de minha mãe, li: "E eu, Tirésias, como castigo por ter visto e desejado Atena quando se banhava, fui tornado cego; mas a piedosa deusa me concedeu o dom de compreender a linguagem dos pássaros proféticos; e por isso digo que tu, Édipo, embora não o saibas, és o homem que matou o pai e desposou a mãe, e por isso hás de ser castigado". E como nunca acreditei na casualidade, nem mesmo quando criança, aquele jogo, aquilo que acreditei fazer por brincadeira, pareceu-me um presságio. E já não mais pude afastar de minha mente o fim de Édipo, furando os próprios olhos com um alfinete depois de ouvir aquelas palavras de Tirésias e de assistir ao enforcamento de sua mãe.

Como tampouco já não mais pude afastar de meu espírito a convicção, cada vez mais forte e fundada, de que os cegos manobravam o mundo: mediante os pesadelos e as alucinações, as pestes e as bruxas, os adivinhos e os pássaros, as serpentes e, em geral, todos os monstros das trevas e das cavernas. Assim fui observando atrás das aparências o mundo abominável. E assim fui preparando meus sentidos, exacerbando-os pela paixão e a ansiedade, pela espera e o temor, para ver finalmente as grandes forças das trevas como os místicos chegam a ver o deus da luz e da bondade. E eu, místico do Lixo e do Inferno, posso e devo dizer: CREDE EM MIM!

Assim, pois, naquela vasta caverna, entrevia por fim os subúrbios do mundo proibido, mundo ao qual, fora dos cegos, poucos mortais devem ter tido acesso, e cujo descobrimento se paga com terríveis castigos e cujo testemunho jamais chegou até hoje de forma inequívoca às mãos dos homens que lá em cima continuam vivendo seu candoroso sonho; desdenhando-o ou encolhendo os ombros ante os signos que deveriam despertá-los: algum sonho, alguma fugaz visão, o relato de alguma criança ou louco. E lendo como simples passatempo os relatos trancados de alguns dos que talvez tenham penetrado no mundo proibido, escritores que também terminaram como loucos ou suicidas (como Artaud, como Lautréamont, como Rimbaud) e que, por isso, só mereceram a condescendente mescla de admiração e desdém que os adultos sentem pelas crianças.

Sentia, pois, esses seres invisíveis que se moviam nas trevas, manadas de grandes répteis, serpentes amontoadas na lama como vermes no corpo podre de um imenso animal morto; enormes morcegos, espécie de pterodáctilos, cujas grandes asas ouvia agora bater surdamente e que, por vezes, me roçavam com asquerosa leveza o corpo e mesmo o rosto; e homens que haviam deixado de ser propriamente humanos, seja por esse contacto perpétuo com aqueles monstros subterrâneos, seja pela necessidade de mover-se sobre terrenos pantanosos; de modo que mais se arrastavam que outra coisa em meio à lama e à imundície que naqueles antros se acumulam. Detalhes que, embora não possa afirmar que os tenha verificado com meus olhos (dada a escuridão dominante), pressenti por mil indícios que nunca nos enganam: uma respiração ofegante, uma maneira de grunhir, uma forma de chafurdar.

Durante muito tempo permaneci quieto, pressentindo aquela existência asquerosa e apagada.

Quando me levantei, senti como se as circunvoluções de meu cérebro estivessem plenas de terra e enredadas em teias de aranha.

Durante um longo tempo permaneci de pé, cambaleante, sem saber que decisão tomar. Até que por fim compreendi que devia rumar para a região onde parecia notar certa ténue luminosidade. Então compreendi até que ponto as palavras luz e esperança devem estar vinculadas à linguagem do homem primitivo.

O solo em que realizei aquela caminhada era irregular: por momentos a água me chegava até os joelhos e em outros apenas empapava o solo, que me parecia idêntico ao fundo das lagunas pampianas de minha infância: limoso e elástico. Quando o nível de água aumentava, desviava minha caminhada para o lado em que diminuía, para voltar a seguir a direcção que me conduzia até aquela remota luminescência.


XXXVI.

À medida que fui avançando aquela claridade aumentava, até que compreendi que a caverna em que pensei ter estado era em verdade um formidável anfiteatro que se abria sobre uma imensa planície iluminada mortiçamente por uma luz entre avermelhada e violácea.

Quando saí do anfiteatro o suficiente para abarcar com o olhar aquele céu desconhecido, vi que a luminescência provinha de um astro talvez cem vezes maior que nosso sol, mas cujo brilho desfalecente indicava ser um desses astros já próximos à morte e que, com os últimos restos de sua energia, banham os frígidos e abandonados planetas de seu universo com uma luminosidade semelhante à que, na escuridão de um grande aposento silencioso, produz uma lareira cuja lenha já foi consumida e apenas perduram as brasas finais, rodeadas e quase apagadas pelas cinzas; misterioso resplendor rubro que, no silêncio da noite, nos afunda sempre em pensamentos nostálgicos e enigmáticos: voltados para o mais profundo de nosso ser, meditamos sobre o passado, sobre lendas e países remotos, sobre o sentido da vida e da morte até que, já quase totalmente adormecidos, parecemos flutuar sobre um lago de imprecisas ilusões, numa balsa que à deriva nos leva sobre um profundo e crepuscular oceano de águas quase mortas. Território de melancolia!

Agoniado pela desolação e o silêncio, fiquei longo tempo imóvel, contemplando aquele vasto território.

Até a região que parecia ser o poente sobre o violáceo crepúsculo de um céu tormentoso mas paralisado, como se uma enorme tempestade houvesse sido cristalizada por um sinal, contra um céu de nuvens que pareciam soltos e desfiados algodões empapados de sangue, recortavam-se estranhas torres de altura colossal, derruídas por milénios e talvez também pela mesma catástrofe que havia desolado aquele fúnebre território. Esqueletos de altas faias, cujas espectrais silhuetas cinzentas contrastavam contra o rubro sangue daquelas nuvens, pareciam indicar que um incêndio planetário havia sido o começo ou o fim daquela catástrofe. Entre as torres erguia-se uma estátua tão alta quanto elas. E em seu centro umbilical brilhava um farol fosforescente, que eu juraria que piscava, se a morte que reinava naquelas paragens não indicasse que esse piscar não era mais que uma ilusão de meus sentidos.

Tive a certeza de que ali teria fim minha longa peregrinação e que, talvez, naquele reduto poderoso, encontraria por fim o sentido de minha existência.

Ao setentrião, o melancólico páramo terminava numa cordilheira lunar, que certamente chegava a elevar-se a vinte ou trinta mil metros de altura. A cordilheira parecia a espinha dorsal de um monstruoso dragão petrificado.

Para os bordos meridionais da planície, no entanto, sobressaíam crateras que também recordavam os circos lunares. Apagadas e aparentemente frígidas, perdiam-se sobre a pampa mineral até os ignotos territórios do sul. Seriam aqueles vulcões apagados os que em outros tempos haviam arrasado e calcinado aquelas paragens com suas torrentes de lava?

De onde eu estava, alucinado e estático, não conseguia ver se aquelas torres colossais se levantavam isoladas na planície (torres talvez sagradas de ritos desconhecidos) ou se, pelo contrário, se erigiam em meio a baixas cidades mortas que, dali, pareciam inexistentes.

O Olho Fosforescente parecia chamar-me e pensei ser fatal caminhar até a grande estátua em cujo ventre estava.

Mas meu coração parecia ter entrado numa existência latente, como a dos répteis nos longos meses de Inverno: mal batia. E eu tinha a penosa e surda sensação de que ele havia encolhido e endurecido ante a visão daquela aziaga paisagem. Nenhum som, nenhuma voz, nenhum rumor ou rangido se ouvia naquele império fúnebre, e uma indizível melancolia se levantava como uma bruma daquele território de mistério e desolação.

Seriam realmente solitárias aquelas altíssimas torres? Por um instante imaginei que em tempos passados poderiam ter sido o reduto de gigantes ferozes e misantropos.

Mas o Olho Fosforescente continuava me atraindo e pouco a pouco aquela atracção foi vencendo meu aniquilamento, até que comecei a caminhar rumo à região das torres.

Durante um tempo que me é impossível calcular, pois o astro declinante permanecia fixo no tormentoso firmamento, andei pela grande planície prateada.

E, à medida que avançava, via que nada era vivo, que tudo havia sido calcinado pela lava ou petrificado pelas ardentes cinzas que aquele cataclismo cósmico havia lançado em idades pretéritas.

E, quanto mais próximo estava das torres, maior era sua majestade e seu mistério. Eram vinte e uma, dispostas sobre um polígono que devia ter um perímetro tão grande como o de Buenos Aires. A pedra de que estavam construídas era preta, talvez de basalto, e desse modo se destacavam com solenidade sobre aquela planície cinzenta e contra aquele violáceo lançado pelas esfiapadas nuvens de cor púrpura. E, embora derruídas pelos milénios e a catástrofe, sua altura era imponente.

No centro distinguia agora com nitidez a estátua de uma deidade nua em cujo ventre brilhava o Olho Fosforescente.

As vinte e uma torres pareciam formar guarda em torno dela.

A deidade era feita de pedra ocre. Seu corpo era de mulher, mas tinha asas e cabeça de vampiro, em negro e brilhante basalto. Suas mãos e seus pés terminavam em poderosas garras. A deidade não tinha rosto, mas no lugar do umbigo refulgia o gigantesco olho que me havia guiado e atraído: esse olho podia ser uma enorme pedra preciosa, talvez um rubi, mas também me ocorria o reflexo cambiante de um fogo interior e perpétuo, pois seu brilho parecia ter vida; o que em meio àquela lúgubre desolação produzia um calafrio de pavor e fascinação.

Era uma deidade terrível e nocturna, um demónio espectral que deveria ter o poder supremo sobre a vida e a morte.

A planície mineral ia se povoando de restos mortais à medida que me aproximava do grande recinto da deusa: um calcinado e estático museu de horror. Vi hidras que em algum tempo haviam sido vivas e que agora estavam petrificadas, ídolos de olhos amarelos em silenciosas mansões abandonadas, deusas de pele listrada como as cobras, imagens de uma taciturna idolatria com indecifráveis inscrições.

Era um território onde parecia celebrar-se uma só e petrificada Cerimónia da Morte. Senti-me de repente tão horrendamente só que gritei. E meu grito, naquele silêncio mineral e fora da história, ressoou e pareceu atravessar centúrias e gerações desaparecidas.

Logo voltou a imperar o silêncio.

As vinte e uma torres eram o vértice de uma muralha poligonal, da qual me aproximei após exaustivas jornadas. E à medida que a distância diminuía sua altura mais causava pasmo. Quando cheguei a seus pés e dirigi o olhar até o alto, calculei que aquela muralha, aparentemente impenetrável, tinha a altura de uma catedral gótica. Mas as torres eram provavelmente cem vezes mais altas.

Eu SABIA que no gigantesco perímetro devia existir uma entrada para que eu pudesse penetrar no recinto, E TALVEZ SOMENTE PARA isso. Meu espírito estava agora como que alucinado pela absoluta certeza de que tudo aquilo (as torres, o desolado território, o recinto da deidade, o astro declinante) estava esperando minha chegada e que só por essa espera não havia desmoronado rumo ao nada. De forma que uma vez que eu conseguisse penetrar no Olho tudo se desvaneceria como um simulacro milenar.

Essa convicção me dava forças para consumar a longa peregrinação em busca da porta.

E assim, depois de andar durante exaustivas jornadas por aquele perímetro colossal, finalmente dei com ela.

Na porta se iniciava uma escadaria de pedra que conduzia até o Olho Fosforescente. Tinha de subir milhares de degraus. Temi que a vertigem e o cansaço me pudessem vencer. Mas o fanatismo e o desespero me possuíam selvaticamente e comecei a ascensão.

Durante um tempo que tampouco pude precisar (pois o astro permanecia no mesmo lugar, iluminando aquele território sem tempo), subi a inumerável escadaria, e meus pés destroçados e meu coração oprimido mediram, por sua vez, aquele esforço inumano, em meio ao silêncio da planície calcinada da paisagem de ídolos e árvores petrificados, tendo às minhas costas a grande cordilheira do Norte.

Ninguém, ninguém mesmo, me ajudava com suas preces. Nem mesmo com seu ódio.

Era uma luta titânica que só EU devia travar, em meio à indiferença pétrea do nada.

O Olho Fosforescente aumentava seu tamanho à medida que eu escalava a escadaria imortal. E, quando por fim cheguei diante Dele, o cansaço e o pavor me fizeram cair de joelhos.

Assim permaneci algum tempo.

Então, uma Voz que parecia sair daquele Olho, cavernoso e imperial, disse:

- AGORA ENTRA, ESTE É TEU COMEÇO E TEU FIM.

Levantei-me e, já ofuscado pelo rubro resplendor, entrei.

Um fulgor intenso mas equívoco, como é característico da luz fosforescente, que dilui e faz vibrar os contornos, banhava um longo e estreitíssimo túnel ascendente, em que só pude trepar rastejando sobre meu ventre. E aquele fulgor provinha da boca terminal como de uma misteriosa gruta submarina. Fulgor talvez produzido por algas, luminosidade fantasmagórica mas poderosa, semelhante à que nas noites dos trópicos, navegando sobre o mar de Sargaços, eu havia entrevisto olhando com afinco para as profundidades oceânicas. Combustão fluorescente de algas que no silêncio das fossas submarinas iluminam regiões povoadas de monstros; monstros que não saem à superfície senão em insólitas e temíveis ocasiões, propagando a consternação entre os tripulantes dos navios que têm a fatalidade de passar em suas proximidades; acontecendo então que essas tripulações enlouquecem e se lançam à água, de modo que as naves, abandonadas à sua sorte, como mudos testemunhos da calamidade, navegam à deriva durante anos ou décadas, fantasmagóricas e ambíguas, levadas e trazidas ao acaso pelas correntes marítimas e pelos ventos; até que as chuvas, os tufões dos mares orientais, o poderoso sol dos trópicos, as monções do oceano Índico e o tempo (simplesmente o Tempo) apodrecem e rompem seus cascos e mastros, até que tudo acaba carcomido pelo sal e pelo iodo, pelos fungos e pelos peixes; e seus restos finais desaparecem nas profundezas oceânicas, muitas vezes perto do mesmo monstro que iniciou a catástrofe e que, atenta e perversamente, vigiou durante anos e anos a vazia e absurda peregrinação daquela nave condenada.

Que podia existir naquela gruta que me recordava os distantes anos de busca naquele escuro navio de carga, navegando sob as estrelas do Caribe?

Algo atroz me ocorreu à medida que subia por aquele resvaladiço, crescentemente cálido e sufocante túnel: meu corpo ia se convertendo no corpo de um peixe. Minhas extremidades se transformavam repugnantemente em aletas e senti que minha pele se cobria de duras escamas.

O resplendor que havia ao fim do corredor se tornava mais intenso: me atraía e ao mesmo tempo me aterrorizava. E, no silêncio intimidante, parecia-me novamente perceber aquela longínqua queixa ou chamado, algo que me recordava, mas como em sonho, factos remotíssimos que não podia precisar.

Meu corpo-peixe mal podia deslizar por aquele buraco e já não subia por meu próprio esforço, pois era impossível mover minhas aletas: poderosas contracções daquele angustiante túnel que agora era como de borracha me apertavam mas também me levavam, com incontida força de sucção, até o extremo alucinante. Até que, de repente, perdi a consciência-peixe. Vastas regiões planetárias e imensas quantidades de tempo foram com fúria absorvidas. Mas, nos poucos segundos que durou a ascensão àquele Centro, passou ante minha consciência uma vertiginosa multidão de rostos, catástrofes e países. Vi seres que pareciam contemplar-se aterrorizados, nitidamente vi cenas de minha infância, montanhas da Ásia e África de minha errabunda existência, pássaros e animais vingativos e irónicos, entardeceres nos trópicos, ratos num paiol de Capitán Olmos, sombrios prostíbulos, loucos que gritavam palavras decisivas mas infelizmente incompreensíveis, mulheres que mostravam lubricamente seu sexo aberto, abutres rondando sobre inchados cadáveres na pampa, moinhos de vento na estância de meus pais, bêbados que furungavam numa lata de lixo e grandes pássaros negros que se lançavam com seus bicos afiados sobre meus olhos aterrados.

Tudo aquilo, suponho, aconteceu em segundos. Logo perdi a consciência e senti que me asfixiava. Mas então minha consciência pareceu ser substituída por uma poderosa, embora obscura, sensação: a sensação de ter entrado por fim na grande caverna e de ter-me afundado em suas águas cálidas, gelatinosas e fosforescentes.


XXXVII.

Ignoro o tempo que permaneci sem sentidos. Só sei que, quando os recobrei, tive a impressão de ter atravessado eras zoológicas e ter descido até os abismos de algum oceano profundíssimo, arcaico e desconhecido.

No começo não entendi onde estava, nem tampouco recordava a longa peregrinação até a Deidade, nem os episódios que a haviam precedido. De costas numa cama, minha cabeça pesava como se estivesse recheada de ferro e meus olhos turvos mal podiam ver: só conseguia notar uma rara fosforescência que, pouco a pouco, fui compreendendo ser a mesma que havia no quarto da Cega antes de minha fuga. Mas um invencível peso em todos os meus músculos me impedia de mover-me e até mesmo de mover minha cabeça para os lados para reconhecer o lugar em que estava. Paulatinamente minha memória parecia reorganizar-se, como uma central de comunicações depois de um terramoto, e começaram a reaparecer fragmentos de minha peripécia: Celestino Iglesias, a entrada no apartamento de Belgrano, os corredores, a aparição da Cega, o encerramento no quarto, a fuga e, finalmente, a descida até a Deidade. Só então notei que a fosforescência que parecia banhar aquele aposento em que agora estava era a mesma da gruta ou ventre da grande estátua e a mesma que parecia ter-se produzido no quarto da Cega quando de sua reaparição.

Então essa lembrança, como o que pouco a pouco meus olhos iam vislumbrando naquele teto e naquelas paredes, me fizeram suspeitar que de novo me encontrava no mesmo quarto da Cega do qual havia ou cria ter escapado. Meus sentidos pareceram voltar a recobrar sua intensidade e, embora não me atrevesse a voltar minha cabeça para a porta, tinha agora a sensação de que no vão daquela porta estava novamente a Cega. Sem me atrever a voltar minha cabeça, tentei verificar com o canto dos olhos aquela sensação e, ainda que sem poder verificar detalhes, entrevi a figura hierática de uma mulher.

Estava novamente no quarto da Cega. E toda a minha peregrinação pelos subterrâneos e cloacas, minha caminhada pela grande caverna e minha ascensão final até a Deidade tinham sido, então, uma fantasmagoria produzida pelas artes mágicas da Cega ou da Seita inteira. E, no entanto, eu me recusava a admiti-lo, pois, embora a grande planície devastada e aquelas torres milenares e aquela imensa estátua parecessem mais um pesadelo, em compensação, minha descida às cloacas de Buenos Aires e minha caminhada pelos lamacentos subterrâneos habitados por monstros tinham a força e a precisão carnal de algo que eu sem dúvida alguma tinha vivido: razão que me fazia pensar que também o outro, a viagem até a Deidade, não tinha sido um sonho mas um facto realmente vivido. Naquele momento não tinha nem a lucidez suficiente nem a necessária calma para analisar o facto, mas agora penso que em verdade vivi tudo aquilo e que, mesmo no caso de nunca ter saído do quarto da Cega, seus poderes me fizeram realizá-lo mesmo sem me mover, tal como é usual em todas as culturas primitivas: o corpo dorme ou parece dormir, enquanto a alma viaja por territórios remotos. Não era a alma concebida como um pássaro que pode voar até regiões longínquas? Foragida de seu cárcere feito de carne e tempo, pude então sair ao céu intemporal, onde não há antes nem depois e onde os factos que logo acontecerão, ou parecerão acontecer a seu próprio corpo, estão ali, eternizados como estátuas da Calamidade ou do Infortúnio. De modo que, se todo sonho é um vagar da alma por esses territórios da eternidade, todo sonho, para quem saiba interpretá-lo, é um vaticínio ou um relatório sobre o que virá. E assim soube naquela viagem, como Édipo o soube dos lábios de Tirésias, qual era o fatal fim que me estava reservado.

Senti que aquela mulher se aproximava de minha cama. Mais que seus passos, que mal se ouviam naquele silêncio, como se estivesse descalça, eram meus sentidos exacerbados que o anunciavam. Imóvel, quase petrificado, olhando para o teto, mesmo assim percebia sua perversa aproximação. E fechando os olhos, como se quisesse assim evitar o acto que teria de se produzir, dizia a mim mesmo: "Já está a três passos de minha cama", "Já está a dois", "Já está ao meu lado". Senti então a presença daquele ser aos pés de minha cama. Não queria abrir os olhos, mas sabia que estava ali, observando-me, numa espera que se fez intolerável.

Facto curioso: tinha a sensação de que aquela mulher havia chegado até mim em virtude de um obscuro mas tenaz chamamento de meu próprio ser. No entanto agora não sei como explicá-lo: era certo que eu parecia prisioneiro da Seita e que aquela mulher que agora estava ao meu lado e com a qual eu teria a mais tenebrosa das cópulas parecia ser parte ou o começo do Castigo que a Seita me havia destinado; mas também era certo que fora o final de uma longa perseguição que eu, por minha própria vontade, havia longa, paciente e deliberadamente levado a cabo ao longo de muitos anos.

Parecia-me um duplo e curioso acto de magnetismo: eu havia sido levado como um sonâmbulo àqueles domínios secretos da Seita, mas também me parecia que durante anos e anos houvesse projectado minhas forças mais obscuras e profundas para convocar, finalmente, naquele quarto de Belgrano, a mulher que de certo modo mais havia desejado em minha vida.

Uma complexa sensação, pois, me paralisava e ao mesmo tempo me embriagava: uma mescla de medo e ansiedade, de náusea e de sensualidade. E quando por fim pude abrir meus olhos vi que estava nua diante de mim, e de seu corpo parecia irradiar um fluido eléctrico que chegava até meu corpo e despertava minha luxúria.

E como e mediante quais meios aquela mulher poderia ser o Castigo que desde épocas imemoriais a Seita Sagrada havia imaginado, sadicamente preparado, e agora lançava contra mim? com pavor, e ao mesmo tempo com uma esperança que devia chamar negra (a esperança que há de existir no Inferno), vi como aquela serpente se dispunha a deitar-se comigo. Na escuridão das noites tropicais eu havia visto desprender-se da ponta dos mastros aquela espectral electricidade dos fogos-de-santelmo; assim via agora como aquela fluorescência magnética que irradiava o quarto se desprendia da ponta de seus dedos, de seus cabelos, de suas pestanas, das vibrantes pontas de seus seios: desejosos como bússolas de cálida carne ante a proximidade do poderoso ímã que os havia atraído através de territórios escuros e delirantes.

Serpente Negra possuída pelos demónios e no entanto dotada de alguma sagrada sabedoria.

Imóvel, quieto como o pássaro sob o olhar paralisante, via como se aproximava lenta e voluptuosamente. E quando por fim seus dedos tocaram minha pele foi como a descarga eléctrica da Grande Arraia Negra que habita nas profundezas submarinas.

Um poderoso relâmpago ofuscou-me e por um instante tive a vertiginosa e agora inequívoca revelação: ERA ELA! Naquele instante fugaz minha mente era um torvelinho, mas agora, enquanto espero a morte, medito sobre o mistério daquela encarnação, talvez semelhante à que, convocada por um desejo imperioso, se apodera do corpo de uma médium; com a diferença de que não só o espírito senão o próprio corpo adquiria os caracteres invocados. E também penso se não teria sido minha obscura e indeliberada vontade a que pacientemente havia suscitado aquela encarnação que a Cega perversamente me facilitava ou se a Cega e todo aquele Universo de Cegos ao qual ela pertencia eram, ao contrário, uma enorme organização a meu serviço, para minha voluptuosidade, minha paixão e finalmente meu castigo.

Mas aquele instante de lucidez foi apenas um relâmpago que iluminou os abismos. Logo perdi o sentido do quotidiano, a lembrança precisa de minha existência real e a consciência que estabelece as grandes e decisivas divisões em que o homem deve viver: o céu e o inferno, o bem e o mal, a carne e o espírito. E também o tempo e a eternidade: porque o ignoro, e nunca o saberei, quanto durou aquele diabólico congresso, pois naquele antro não havia noite nem dia e tudo foi uma única e infernal jornada.

Não duvido agora de que aquele ser tinha a faculdade de controlar os poderes inferiores; que, se é que não criam a realidade, são de qualquer forma capazes de construir terríveis simulacros fora do tempo e do espaço, ou, dentro deles, transformando-os, invertendo-os ou deformando-os. Assisti a catástrofes e a torturas, vi meu passado e meu futuro (minha morte), senti que meu tempo se detinha conferindo-me a visão da eternidade, tive idades geológicas e percorri as espécies: fui homem e peixe, fui batráquio, fui um grande pássaro pré-histórico. Mas agora tudo é confuso e me é impossível rememorar exactamente minhas metamorfoses. Tampouco é necessário: sempre voltava, obsessiva, monstruosa, fascinadora e lúbrica, a mesma e reiterada união.

Creio recordar uma turbulenta e quente paisagem dessas que imaginamos em períodos arcaicos de nosso planeta, entre gigantescas coníferas: uma lua turva e radioactiva iluminava um mar de sangue que lambia praias amarelentas. E além da praia se estendiam imensos pântanos nos quais flutuavam aquelas mesmas vitórias-régias que havia visto em meu outro sonho.

Como um centauro no cio corri por aquelas areias ardentes, até uma mulher de pele negra e olhos violeta que me esperava uivando para a lua. Sobre seu corpo enegrecido e suado vejo ainda sua boca e seu sexo, abertos e sanguinolentamente vermelhos. Entrei furiosamente naquele ídolo e então tive a sensação de que era um vulcão de carne, cujas fauces me devoravam e cujas entranhas chamejantes chegavam ao centro da terra.

Suas fauces ainda jorravam meu sangue quando esperava um novo ataque. Como um unicórnio lúbrico corri pelos arcais ardentes até a mulher negra, que me esperava uivando para a lua. Atravessei lagunas e pântanos fétidos, corvos negros se levantaram crocitando à minha passagem e entrei finalmente na deidade. Novamente senti que era um vulcão de carne que me devorava, e suas fauces continuavam jorrando sangue quando esperavam, uivando, o novo ataque.

Fui então uma serpente que atravessava as areias sibilantes e eléctricas. De novo espantei feras e pássaros, e entrei com selvagem fúria em sua cavidade. Mais uma vez senti o vulcão de carne, que se afundava até o centro da terra. Depois fui peixe-espada.

Depois, polvo, com oito tentáculos que entraram sucessivamente na deidade, e sucessivamente foram devorados pelo vulcão de carne.

A deidade voltava a uivar e voltava a esperar meus ataques.

Fui então vampiro. Sedento de vingança e sangue, lancei-me com fúria sobre a mulher de pele negra e olhos violeta. Sinto o vulcão de carne que abre suas fauces para devorar-me e sinto que suas entranhas chegam ao centro da terra. E suas fauces ainda jorravam sangue quando já me precipitava novamente sobre ela.

Fui então sátiro gigante, a seguir uma tarântula enlouquecida, depois uma luxuriosa salamandra. E sempre fui tragado pelo furioso vulcão de carne fervente. Até que se desencadeou uma espantosa tormenta. Entre relâmpagos, em meio a uma chuva de sangue, a deidade de pele negra e olhos violeta foi prostituta sagrada, caverna e poço, pitonisa e virgem propiciatória. O ar electrizado e varrido pelo furacão se encheu de alaridos. Sobre os arcais quentes, em meio a uma tempestade de sangue, tive de satisfazer sua luxúria como mago, como cachorro faminto, como minotauro. E sempre para ser devorado. Logo fui também pássaro de fogo, homem-serpente, rato fálico. E mais ainda, tive de converter-me em nave com mastros de carne, em lúbrico campanário. E sempre para ser devorado. A tempestade então se fez imensa e confusa: bestas e deuses coabitavam com a deidade, junto comigo. O vulcão de carne foi então disperso a chifradas por minotauros, cavado avidamente por gigantescos ratos, sangrentamente devorado por dragões.

Sacudido pelos raios, tremia todo aquele território arcaico, iluminado pelos relâmpagos, varrido pelo furacão de sangue. Até que a funesta lua radioactiva explodiu como um fogo de artifício: pedaços, como chispas cósmicas, precipitaram-se através do espaço negro, incendiando os bosques; um grande incêndio se desencadeou, e propagando-se com fúria .iniciou a destruição total e a morte. Entre obscuros clamores, sangrentos fiapos de carne crepitavam ou eram arrojados às alturas. Territórios inteiros se abriram ou se converteram em caranguejos, no qual afundavam ou eram devorados vivos homens e bestas. Seres mutilados comam entre as ruínas. Mãos soltas, olhos que rodavam e saltavam como bolas, cabeças sem olhos que buscavam às cegas, pernas que corriam separadas de seus troncos, intestinos que se enredavam como lianas de carne e imundície, úteros gemebundos, fetos abandonados e pisoteados pela multidão de monstros e podridão. O Universo inteiro desmoronou sobre mim.


XXXVIII.

Nada posso saber agora sobre o tempo que durou aquela jornada. No momento em que despertei (por assim dizer) senti que abismos infranqueáveis me separavam para sempre daquele universo nocturno: abismos de espaço e de tempo. Cego e surdo, como um homem que emerge das profundezas do mar, fui voltando novamente à realidade de todos os dias. Realidade que acabo me perguntando se será por fim a verdadeira. Porque quando minha consciência diurna foi recobrando sua força e meus olhos puderam ir delineando os contornos do mundo que me rodeava, notando assim que me encontrava em meu quarto de Villa Devoto, em meu único e conhecido cómodo de Villa Devoto, pensei, com pavor, que talvez um novo e mais incompreensível pesadelo começava para mim.

Um pesadelo que findará com minha morte, pois recordo o porvir de sangue e fogo que me foi dado contemplar naquela furiosa magia. Coisa estranha: ninguém parece agora perseguir-me. Terminou o pesadelo do apartamento de Belgrano. Não sei como estou livre, estou em meu próprio quarto, ninguém (aparentemente) me vigia. A Seita deve estar a uma distância incomensurável.

Como cheguei novamente até minha casa? Como me deixaram os cegos sair daquele quarto rodeado por um labirinto? Não sei. Mas sei que tudo aquilo aconteceu, ponto por ponto. Inclusive, e sobretudo, a tenebrosa jornada final.

Também sei que meu tempo é limitado e que minha morte me espera. E, coisa estranha e para mim mesmo incompreensível, que essa morte me espera de certo modo por minha própria vontade, porque ninguém virá buscar-me aqui e serei eu mesmo quem irá, quem deve ir, até o lugar onde terá de cumprir-se o vaticínio.

A astúcia, o desejo de viver, o desespero, me fizeram imaginar mil fugas, mil formas de escapar à fatalidade. Mas como pode alguém escapar à sua própria fatalidade?

Aqui concluo, pois, o meu relatório, que guardo num lugar em que a Seita não o consiga encontrar.

É meia-noite. Vou até lá.

Sei que ela está à minha espera.


FIM

 


vídeo: O início de "Sobre Héroes y Tumbas" dito por Ernesto Sábato
 

"¿Cuándo empezó esto que ahora va a terminar con mi asesinato?"
 
Con esta inquietante pregunta comienza uno de los capítulos finales de "Sobre héroes y tumbas", precisamente el 'Informe sobre ciegos' del escritor argentino Ernesto Sabato. Si bien el Informe sobre ciegos forma parte de la conocida novela del escritor argentino citada más arriba, también lo es que, dada su particular estructura, puede leerse por separado sin detrimento de su sentido en particular ni de la proyección abarcadora de la obra en general. Es, para muchos críticos, el capítulo más profundo, oscuro y significativo de la novela. En primer término, quien nos narra ahora es Fernando Vidal Olmos, uno de los personajes centrales de la obra, reemplázandose la tercera persona que Sabato utilizaba hasta el momento por la potencia subjetiva de la primera; y, para colmo, cedida nada menos que a este ser extraño, paranoico y sugestivo que, hasta el momento, venía sobrevolando el argumento de la novela como un cuervo que espera la muerte de su víctima.
Fernando, quien es el padre de Alejandra Vidal y participa de varios vínculos familiares con ciertos personajes fundamentales, en el caso de la confección del Informe, no obstante, se sitúa fuera de toda relación afectiva con éstos, omitiendo cualquier vínculo y acción que no se relacione con la particular obsesión que lo desvela: relatar el informe sobre un extraño complot demoníaco y milenario, regido desde la Secta Sagrada de los Ciegos, desde la cual, según él, se tejen los hilos que gobiernan el sentido del mundo y de los hombres.
Muchas fueron las interpretaciones que se le han querido dar al Informe, en virtud, seguramente, del carácter, del temor esencialmente onírico y alucinante que posee. Es, en todo caso, todo él una gran metáfora de otra cosa, acaso más profunda y misteriosa, anidada en nuestros propios temores subterráneos inherentes a la humanidad de la que somos partícipes. El subterráneo de Buenos Aires; los túneles secretos que, en teoría, unen el Colegio Nacional Buenos Aires con la antigua Aduana de la ciudad; los otros pasadizos que nacen en los flancos de la Iglesia de la Sagrada Concepción del barrio de Belgrano, ensanchándose luego hasta conformar inconmensurables cavernas y que conducen al protagonista hasta su propia perdición, son todos íconos subjetivos pero persistentes de esta metáfora ontológica del hombre y su soledad ante la muerte, el misterio de la existencia y el problema del bien y del mal.
El Informe sobre ciegos es peculiar porque Fernando Vidal Olmos también lo es: un ser de una hibridez espiritual, a mitad de camino entre la belleza y el horror, el amor y el odio, la tolerancia y el racismo. Parece un espectador que puede contemplar dos espectáculos simultáneos: el cielo de los dioses y las profundidades del infierno. Es, por eso, en esta dualidad donde se debate y desde la cual nos arroja, arrebatado por la locura aunque con método y rigor científicos, su informe pesadillesco. Enlaces Exernos:(enlaces sobre vida personal) Fueron, sin duda, muchísimas las críticas y objeciones que recibió Ernesto Sabato por parte de ciertos organismos e instituciones sociales al momento de publicar esta novela, en relación al Informe. Se lo llegó a tildar de racista. No obstante, apenas una segunda lectura de su obra nos revela un universo vasto y extraordinario en donde las dimensiones históricas, metafísicas y existenciales del hombre se apoderan de nuestra reflexión y ejercen, de alguna manera, una acción trasformadora que opera en nosotros positivamente.
"Hay una cierta belleza en el horror" nos decía Ernesto Sabato en alguno de los tantos reportajes que le efectuaron en televisión. Quizá porque del horror se aprende y desde las tragedias ajenas podamos extraer esa belleza que nos ayuda a vernos y comprendernos como personas humanas y condenadas, tarde o temprano, a la catástrofe de nuestra propia muerte.
Fonte: WIKIPEDIA

 

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'Relatório Sobre Cegos'
cap. III de "Heróis e Túmulos"
Ernesto Sábato, 1961

Fonte: Digital Source / Publicações Europa América

 


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24.Out.2010
Publicado por MJA