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Della Scoltura Si, Della Pittura No - School of Guercino -  Louvre Museum
«Della Scoltura Si, Della Pittura No»
 

MAL DE UNS...

A senhora Estefânia Fargés era uma velha dama cuidadosa, esperta, curiosa como uma gata, e que segundo as palavras dos que a conheciam, “tinha tido seus desgostos.”

Casada cedo, tratara sucessivamente do marido, morto tuberculoso, depois de uma filha, morta aos vinte anos. Um dos filhos, mal sucedido nos negócios, expatriara-se, e fora assassinado na Califórnia, numa rixa entre pesquisadores de ouro. Enfim, o neto, que a ajudava a manter-se com o seu trabalho, desaparecera na Champagne e, aos sessenta anos, achava-se D. Estefânia sozinha, e com rendimentos muito escassos.

Vivia como reclusa nos seus aposentos de três peças, situado em um quarteirão populoso de Nice, e foi lá que João bateu.

Abriu ela e gritou alegre ao vê-lo:

— Tu! E tua mulher?

Mas imediatamente, ao ar acabrunhado do moço, àquele aspecto “mutilado”, diríeis, a tal ponto a provação lhe amputara todo o ardor, ela adivinhou um drama e introduziu-o na humilde sala de jantar, onde falsas faianças decoravam ingenuamente paredes indecoráveis...

Participou-lhe João sua desgraça muito sucintamente. Da senhorita Deléris disse apenas:”Restituí-lhe a palavra” e desconversou claramente quando a velha dama lhe fez perguntas sobre “o que dissera ela ao saber disso”.

Escutava-o, as mãozinhas enrugadas descansando nos joelhos, e enchiam-lhe os olhos de lágrimas sinceras e pouco abundantes, como as têm os velhos. Procurava, sem as achar, palavras de consolação, e nem ousava, diante daquele grande desastre, tirar do bufete o licor de tangerina, reservado às visitas, e que usava com parcimônia.

Entretanto, era da desgraça de João que ia brotar a sua prosperidade.

De volta à vila, sentira Fargés que não teria coragem de viver ali sozinho com uma criada, que não o poderia guiar. Assustou-o a espantosa solidão, o desespero sem alívio que viria cotidianamente visitá-lo na vila deserta. No meio da perturbação que o assaltara, pensara na velha parenta.

Assim, quando o moço lhe perguntou se consentia em deixar o pequeno aposento sombrio para ir dirigir a Vila Azul, onde Devota, a jovem criada, mantinha cuidadosamente a desordem, D. Estefânia empalideceu, corou, sorriu, e, finalmente, aceitou, exultante!

A Vila Azul, herança dos pais de João, representava para a pobre mulher, o equivalente de principesco domínio.

Nada tinha a vila, no entanto, de magnificente. Sita na falda do Monte Boron, que domina a Baía dos Anjos, tinha o teto de telhas envernizadas de azul, o que lhe justificava o nome; toda branca, meio mascarada, do lado da estrada, por plantas trepadeiras, não se revelava, clara, nua, duma graça italiana, senão do lado do jardim, que descia em um caos de verdura e de rochedos até ao mar.

D. Estefânia entrou na vila tomada de respeito. Durante três dias, sob pretexto de se orientar, viu-a João a aforar por todas as peças, abrindo armários, soltando cacarejos de admiração, comovida, encantada, deslumbrada!

João mobiliara-a com amor, aquela Vila Azul, onde ele e Dinisa deviam passar tão ternos dias!

Foi com reverência que Estefânia pisou o mosaico negro e branco da sala de jantar, severa nos móveis de velho carvalho maciço; apreciou menos, o salão Diretório, onde errava uma espécie de negligência feliz que a fez sacudir a cabeça, reprovando: almofadas demais naquela sala!

No primeiro andar, hesitou na escolha entre um quarto amarelo, mobiliado de acaju, e outro, pequenino, vizinho daquele, forrado de pano de Jouy, cujo assunto simbólico era adornado de cartelas explicativas: “O Amor faz passar o Tempo”, com a réplica: “O Tempo faz passar o Amor”.

Achou Estefânia que estes ternos conselhos eram inúteis talvez para ela, e escolheu o virtuoso acaju.

Teve enfim a alegria de comunicar a suas amigas “que teria muita satisfação em recebê-las”. E foi na vila um desfile de gente velha: soltavam exclamações de “conhecedores” diante da profundeza dos armários, do asseio da cozinha; sopesavam o tecido das cortinas e embasbacavam ante os quadros que tinham... tão belas molduras.

A João não inquietavam essas visitas. Estefânia mal o via. Vivia encerrado no quarto, muito vasto, luminoso, mais iluminado ainda por um imenso tapete branco, macio como pele de urso polar. Ou refugiava-se no atelier, contíguo à vila, e cuja janela, rasgada um pouco acima do comum, emoldurava apenas o azul do mar. Dentro em pouco, não veria mais nada daquilo! Dentro em pouco, aquele atelier de nudez grega, que o sol enchia ao meio dia de um raio de âmbar, seria para ele como um subterrâneo! E, desesperado, saía, estudava o jardim, o panorama, os jogos do céu e das águas, a fim de nada esquecer.

Descia muita vez à praia por um trilho tortuoso, áspero e delicioso, todo florido de gerânios róseos. De espaço a espaço, um estreito terraço, onde se erguia uma grande árvore, ou se ocultava um banco, um canto encantador, onde sonhara outrora. Revia a infância feliz, entre o pai e a mãe, ternamente unidos. Uma tarde trouxera seu pai uma cópia muito bela da "Ronda da Noite" de Rembrandt, e dificilmente obtivera a criança o direito de olhá-la. “Vê-la-ás quando estiver encaixilhada”, dissera o pai, que pretendia colocar o quadro na sala de jantar.

Ora, nessa noite, João não pôde dormir. Conservava estranha recordação do quadro, entrevisto à mesa à luz do ilustre. Levantou-se muito cedo e, introduzindo-se furtivamente no gabinete do pai, apoderou-se do rolo e correu ao jardim, para estar só.

Era no inverno e a aurora subia rósea, tépida, polvilhada de orvalho. Sem ruído ganhou o estreito trilho, alcançou o terraço onde três palmeiras abrigavam um banco sob a trama das enormes palmas entreveradas, e ali, tranqüilo, seguro de não ser perturbado, desfez o rolo.

E a sombra genial espalhada sobre o grupo de Rembrandt, o brilho admirável da túnica amarela, aquela vida ardente e contida, entusiasmaram-no. Foi nessa manhã que ele soube que era pintor. Nascera naquela hora a sua vida de artista, enquanto subia ao céu, translúcida, a aurora de inverno.

Acompanhava-o D. Estefânia algumas vezes até aos rochedos da praia. Quando o mar era forte, era perigoso aventurar-se ali. Um homem teria sido facilmente arrebatado pelas vagas; sentada um pouco mais acima, tecendo mantas para o primo João, tentava pregar-lhe moral. Interrompia-a, porém, ele, pedindo-lhe somente: “Fale-me de seus desgostos”.

Nesse assunto, era a pobre mulher inesgotável. Decerto, na vida corrente, testemunhava ela lamentável mesquinharia e talvez João, nesse ponto, houvesse adquirido não uma governante, mas uma despótica soberana. Mas não esquecia ele jamais suas provações, e achava justo que ao menos aproveitasse a alguém a catástrofe que o separava do resto dos humanos...

A Estefânia a aproveitava, certamente. A boa dama engordava, caíam-lhe as espáduas para trás agora; trazia garbosamente um vestido de interior novo; dia a dia sentia ela que se tornava proprietária.

Contudo, perguntava muitas vezes consigo como consolar seu jovem primo. Depois sacudia a cabeça, achando que o moço parecia, em suma, aceitar muito bem o desastre. Inclinava-se a pensar que talvez nem amasse a noiva, e que não tinha saudades dela...

Quanto à sua arte, nem um segundo imaginava Estefânia que o moço pudesse ter saudades dela como de um filho morto. Um talento?  É tão pouca coisa, para o comum dos mortais! Não vemos todos os dias, afinal, gente que muda de profissão?  Porque não faria o artista o mesmo?

Ai! Uma arte é um ser que vive sua vida própria e febril em outro ser; que quer agir, dominar; que lhe impregnou tão bem a medula, o sangue, com a sua sedução terrível, que, para arrancar de si, seria preciso arrancar o próprio coração com todas as raízes!

Para que dizer isto a Estefânia?  Sentia na prima uma incompreensão tão profunda e tão ingênua, que diante dela fingia uma calma inerte; essa placidez enganava a velha dama. Mas, quando estava só no atelier, apoderavam-se dele acessos de dor desesperada, revoltas contra o destino, surdos desejos de correr a Londres. Agonizava no gênio e no coração mutilados; constringia-o a derrota da sua mocidade, roída nas asas. Tinha esperado tanto da vida, sentindo-se com força para domar a sorte! Lá, em Roma, censuravam-no por ter, diziam, a alma de autócrata, instintos de grande senhor, que chamava a felicidade com um assobio, como aos seus cães. Ah! Sacara letras sobre a vida... e elas tinham sido protestadas!

Então soluçava, sem lágrimas, sucumbindo ao assalto de recordações corrosivas e Estefânia não reconheceria naquele homem desorientado, o grande rapaz melancólico, que todos os dias se sentava em frente dela na sala de jantar, dando costas àquela “Ronda da noite”, de Rembrandt, que ela quisera lavar um dia, porque os quadros negros “parecem sujos”, dizia.

Dia a dia obscurecia-se a vista de João. Padecia, às vezes, longas horas, já afogado em uma sombra sem luz. A leitura, o desenho, tornavam-se impossíveis, a paisagem radiosa ora enlutava-se sem razão, ora se deformava de maneira grotesca e trágica. Chegava às vezes a fechar os olhos, a tornar-se cego... antes do tempo.

Num dia em que se achava assim, estremeceu.

No salão, alguém tocava piano.

Não gostava quase de música. Outrora seu espírito — sempre fremente de projetos maravilhosos, cheio de visões de arte — não se interessava pelas graças delicadas da harmonia. Naquele dia, porém, pareceu-lhe a música a linguagem dos deuses... Palpitavam e soluçava na melodia pungente a saudade desesperada de felicidades impossíveis, o lirismo exasperado do sofrimento: aquele scherzo de Chopin lhe fez subirem lágrimas aos olhos, e essas lágrimas caíram sobre o coração árido como chuva benfazeja.

A música distendeu-lhe o espírito. Ah! Quem tocava assim?  Era possível que as mãos de Estefânia, tão hábeis em lustrar e tecer soubesse encadear notas com aquela virtuosidade?  Intrigado, entrou no salão.

Lá estava uma moça, trajando simples vestido cinzento, e era quem tocava diante de D. Estefânia. Voltou a cabeça ouvindo entrar o moço, que lhe estendeu as mãos, dizendo vivamente:

— Maria Chaslier, não é?

Eram os Chaslier amigos da família. Maria brincara com ele outrora, no jardim da Vila Azul, e em sua casa, em Monte Cario. Tinha vinte e dois anos, aparência de coragem e de boa saúde. Grande, forte, pesada, mesmo; os longos cabelos lisos e negros enrolavam-se na cabeça em voltas sem elegância: Luzia o rosto franco, colorido, ignorante do pó de arroz; notou-lhe Fargés os dentes largos e sãos.

— Como você toca bem, Maria! Eu, um profano, eu, que fazia profissão de desdenhar “o mais custoso dos ruídos”, estou encantado. Quer continuar este trecho?

Acedeu ela de boa vontade, enquanto D. Estefânia lhe contava que Maria possuía todas as qualidades, e, atualmente, se devotava a cuidar da avó enferma, paralítica há muitos anos.

Era simpática, afinal, porque se adivinhava que era boa. Não lhe pedissem à execução, correta até à secura, o colorido apaixonado que comove as multidões, mas a nitidez absoluta parecia triunfar facilmente de todos os obstáculos do compasso e da dedilhação, e, durante uma hora, escutou-a João com prazer.

Observava-o D. Estefânia.

Quando Maria falou em retirar-se, ofereceu-se para acompanhá-la; tão ocupada estava em conversar com a moça, que nem viu o carteiro trazer correspondência à Vila Azul.

De pé junto ao portão, onde acabava de se despedir de Maria, tomou João as cartas das mãos do pai Sariguet, e empalideceu terrivelmente ao reconhecer a letra de Deléris num grande sobrescrito cor de marfim.

— Então, senhor João, que há?  Interrogou o pai Sariguet repondo sobre os ombros a correia que suportava a caixa.

— Nada, nada, respondeu o moço, que sentia o carteiro devorado de curiosidade, e não queria dizer coisa alguma.

Deixando-o plantado diante da porta, Fargés deu de calcanhares e subiu rapidamente ao seu quarto.

Cada batimento do coração parecia repetir: “Dinisa! Dinisa!” e compreendia agora que a arte morta, e mesmo a cegueira, eram menos dolorosas que a perda da moça de rosto branco, alvejando a sombra dos bandos ondulados. Que lhe diriam naquela carta?  Que palavras de esperança encerraria ela?  Contra toda a esperança, esperava boas notícias. Talvez Dinisa soubesse e quisesse vir. Mas teria, escrito ela mesma nesse caso!

De pé diante da janela, abria a carta e lia avidamente:

“Londres, junho de 19...
“Caro Sr. Fargés.
“Que o não surpreenda o receber carta minha.
“Sinto que lhe devo notícias e quero reiterar-lhe minha sincera admiração pelo modo heróico por que procedeu.”

João deixou cair a missiva. Era então apenas isso?  Não queria louvores daquele homem. Mas não, devia haver ali outra coisa, para justificar quatro páginas cerradas. Tornou a pegar na carta, saltou por cima das afirmações de estima, das escusas previstas: “Você não pode compreender, eu sou pai, etc. e caiu enfim sobre estas palavras:

“O bilhete que escreveu à minha filha era necessário, em sua concisão brutal, para cortar todos os liames, mas compreendi que seria iníquo que Dinisa, por esse fato, deixasse de estimá-lo. Expliquei-lhe, pois que você tinha, desde o princípio, agido com perfeita honestidade, pensando verdadeiramente que era livre para se comprometer. E tantas vezes lhe tenho repetido: “Estimo João Fargés muito mais agora que dantes, ele deu prova de heroísmo aceitando o cumprimento do dever sem atração, em lugar do casamento de dinheiro e de amor que podia realizar”; tanto tenho dito à minha filha que devia lamentá-lo e não o condenar, que, posso afirmar-lhe, ela não experimenta a seu respeito nenhum sentimento de desestima.
“Devia a mim mesmo, devia-lho ao senhor, igualmente, a obrigação de criar nela este estado de espírito.”

João ocultara o rosto nas mãos. Parecia-lhe que lhe haviam tirado de repente de cima dos ombros uma parte da sua dor. A idéia do desprezo de Dinisa torturava-o mais que todas as outras considerações; e, cedendo ao excesso de desespero que lhe causava esse pensamento, mais de uma vez escrevera à moça, revelando-lhe tudo, mas a carta jamais fora enviada: era ainda pensando nesse desprezo, vindo da pessoa querida, que ele descia às vezes até à beira do mar, quando as vagas eram muito fortes, com a secreta esperança de ser arrebatado...

Envergonhava-se depois dessa fraqueza, voltava à vila, retomava o fardo cruel de miséria e tratava de subjugar a dor, pensando em Estefânia, sempre atarefada e esperta, corajosa, apesar de tantos lutos e lágrimas.

Agora já não teria aquele ferro candente sobre o coração; durante um segundo teve a ilusão de que tudo o mais se apagaria facilmente, pois que estava certo de não ser desprezado por ela. Mas, não era senão uma ilusão! Parece que todas as mágoas são como as ervas daninhas: quando se arranca uma, crescem as outras mais livres e mais ardentes!

E, pela primeira vez, desde que chegara à Vila Azul, conheceu João alguns instantes de trégua.

Enquanto isso, D. Estefânia, passando o braço sob o de Maria, conversava com a moça.

Contava-lhe miudamente a vida do primo. Pouco sabia sobre a noiva misteriosa, “uma peça” que não teria insistido muito para casar com ele. Guiou depois a conversa para assuntos gerais, e disse enfim como por demais, piscando os olhinhos maliciosos:

— E você, Maria, sempre com suas idéias de religião?

Porque não era mistério para ninguém que ela falava muitas vezes em professar.

— Já fez os votos?  Perguntou a velha caçoando. Sem sequer parecer que notara o ar de chacota da velha dama, respondeu a moça com tranqüila gravidade:

— Não.

— Ora, replicou Estefânia, você vive quase como uma religiosa, tratando de sua avó como trata!

— Disse muitas vezes o padre Anselmo, meu confessor, e eu o creio, disse Maria com doçura.

— E não gostaria depois de se tornar o modelo das esposas cristãs?

— São tão frívolos os moços de hoje! Respondeu Maria com mais vivacidade. A vida de minhas amigas casadas parece-me tão vã, tão vazia... Aspirava maiores deveres... Acha-me talvez vaidosa?

— Não, Maria, mas penso que nem todos os moços se assemelham... Há criaturas que pediriam à vida conjugai excepcional devotamento...

D. Estefânia sentiu estremecer levemente o braço da moça. Compreendera a alusão velada da velha senhora, e batiam-lhe as pálpebras. Achando que já dissera que chegasse, encadeou sem interrupção:

— Asseguro-lhe que minha vida foi muito mais triste que a das religiosas. Mas aí está o bonde, Maria; e posso pedir-lhe um favor?

— Fale, disse vivamente Maria.

-— Não se esqueça de vir muitas vezes distrair a tristeza de um pobre rapaz cego, abandonado pela noiva.

— Não o esquecerei, disse a moça, lentamente, baixando os olhos.

Chegava o bonde, rangendo horrivelmente. Pesada e ágil, bem equilibrada sobre os vastos pés protegidos por calçado sem salto, subiu Maria, e D. Estefânia voltou à vila, tendo mil pensamentos na cabeça:

— É tão devotada... exatamente o que ele necessita... e depois... já está habituada a tratar de velhos... conhece-me... não sairei da Vila Azul...

E, erguendo a cabeça, olhou de longe a vila meio oculta entre as cortinas de folhagem, envolvendo-a num olhar pacífico e altivo de proprietária antecipada.

Passaram os meses, não passou a infelicidade de João, mas parecia que lhe tomara o sombrio e amargo hábito. Contudo, um dia lá lhe entrava em casa, com duas cartas registradas, todo aquele passado que ele se esforçava por sepultar. Uma das cartas vinha do governo, que lhe propunha a venda, para o museu do Luxemburgo, do quadro da "Moça da charpa", exposto no último Salão. Era a outra enviada por um americano que oferecia considerável soma pelo retrato da senhorita Deléris.

Vender o retrato de Dinisa! Mas, que podia fazer dele?  Não no queria Deléris, esquivando-se de pôr sob os olhos da filha uma recordação constante de João. Guardá-lo? Em breves dias, nem o veria mais!

Pois bem, dava preferência ao governo. Perdida para ele iria Dinisa para o Luxemburgo; prosseguiria, sob os baldaquins oficiais, o sonho extasiado que lhe iluminava o pálido rosto. Não o teria o americano.

Mas, ao enviar a resposta, teve a impressão de que se erguia outra muralha entre ele e a moça; entregando aquele retrato à multidão, parecia-lhe que repudiava o passado! E, contudo, doce lhe era pensar que em falta do seu amor, dava a Dinisa a imortalidade!

E quando refloriram as mimosas, no ano seguinte, não as viu o moço. Estava acabado. Para aquele homem, inebriado de cor e de luz, não havia mais de ora em diante nem aurora nem crepúsculo, mar azul nem rosas ardentes. Não havia mais que a noite.

E Dinisa?  Que fazia em Londres?  Desposara já aquele lord Ferling a quem tinha preferido a João?  Nem queria mais perguntá-lo sequer consigo. Cingira o coração mutilado de uma armadura de frieza, de impossibilidade, de ascetismo, mas por vezes, voltavam os versos do poeta árabe a murmurar-lhe na alma heróica:

“Sonho ou realidade?  Eu vi, na noite azul,
“Uma deusa passar, toda de luz vestida...”

E, pálido como um supliciado sobre a roda, fechando os olhos, que se conservavam puros e transparentes, João sonhava: “Lembra-se ela ao menos de que nos amamos? ”

 

FACE A FACE

Curta escala em Marselha. O Mistral varria a cidade com uma potência glacial que desanimava. Já no dia seguinte resolveram prosseguir a viagem e fugir para Ajaccio. Todo mundo ficava a bordo do iate; só Dinisa e Dolly, sua criada, desceram a terra, para ir à Nossa Senhora da Guarda, prometendo voltar depois do almoço, pelas três horas.

Dinisa foi ao célebre santuário, que parece palpitar sob tantas invocações ardentes inscritas nos mármores de seus ex-votos. As doze e meia foi a um restaurante, instalando-se, com a criada, no interior, se bem que o terraço ensolarado oferecesse abrigo suficiente.

Estudava Dolly, o cardápio, e era homérico o debate entre seu conhecimento limitado do francês e o nome dos pratos. Nunca pôde pronunciar bouillabaisse, e a idéia de um perdigoto deitado num canapé a fez rebentar de riso. Dinisa ria também, e, afastando a cortina que mascarava a vista do mar, lançou um olhar sobre o terraço.

Pouca gente, com aquele tempo hostil. Maquinalmente errava o olhar de Dinisa de mesa em mesa; de repente ficou ela muito pálida, os olhos fixos, estupefata.

Não longe dela, João almoçava. Não sozinho, mas com duas senhoras, uma das quais era a senhora Bremont, sua tia. Paralisada pela surpresa, Dinisa deixou cair a cortina.

Depois que chegara a Marselha quase nem pensara em João, muito absorvida pelas excursões e por seus companheiros de viagem.

Tornar a vê-lo causava-lhe um abalo tanto mais violento, quanto era inesperado. E, gelada, sentia aquela presença a sufocá-la numa emoção crescente. Por instinto, prudentemente, levantou a seda da cortina e olhou de novo. Mas, imediatamente, bateu-lhe forte o coração, verificando que um maciço de loendros lhe mascarava uma parte da mesa, e, pensou imediatamente, que ali, invisível para ela, devia estar à mulher de João...

Sentiu apaixonado desejo de conhecê-la antes de fugir daquele restaurante. Mas o criado, aproximando-se de João e de suas parentas, pôs ostensivamente um prato no lugar onde devia achar-se a senhora Fargés, o que indicava peremptoriamente que estava desocupado. Ele não estava com a mulher. Além disso, nenhuma aliança brilhava na mão esquerda, fina, longa, um pouco nervosa, como outrora.

Como outrora!

Sim, devia partir imediatamente, não se arriscar a um encontro. Que diria ela?  Que vergonha e que angústia não padeceria! Que postura adotaria?  Olhá-lo desdenhosamente?  A menos que súbitas lágrimas lhe não arrasassem os olhos, porque bem o sentia ela, mau grado a aversão declarada... Amava-o sempre...

Amava-o, amava nele aquela bela expressão altiva e terna, aquela mistura de ardor e de melancolia que lhe tornavam o olhar tão cativante. Amava-o e odiava-o ao mesmo tempo, pela amável alegria que mostrava naquele instante, curvado para as duas velhas damas, rindo ao contar alguma coisa.

Então, era descuidoso e feliz! Mas, enquanto vaga amargura afogava-lhe o coração, viu o moço endireitar-se, e alhear-se da conversação das parentas; então lhe desapareceu do rosto a alegria, extinguiu-se-lhe nos lábios o sorriso, e um ar de desconsolo e de padecimento espalhou-se-lhe sobre os traços. Não seria aquela sua expressão costumeira?  Parecia que certas pregas de angústia lhe estavam marcadas na fronte e no canto da boca. A afabilidade precedente era apenas fugitivo esforço para mascarar o desencantamento da alma?

Talvez tivesse sido na verdade, como o dizia a carta, constrangido pelos acontecimentos. Talvez não tivesse mais conhecido a felicidade, desde que se arrancara de Dinisa. Havia coisas que ela ainda não podia compreender, dizia Deléris, que sempre a impelira, na verdade, a perdoar sem se aprofundar... Mas não tinha ela, aí! Na fraqueza do coração amante, perdoado desde a primeira hora?

A mão crispada sobre a cortina meio erguida, pensava Dinisa todas estas coisas, e estremeceu estupefata, ao ver a senhora Bremond tomar, deliberadamente, o prato do moço, e... Cortar-lhe a carne.

A surpresa, a incompreensão, arrancou-lhe uma exclamação e Dolly, deixando o estudo do cardápio, teve curiosidade de ver o que assim surpreendia sua ama. Erguendo por sua vez a cortina, lançou um olhar para a mesa de Fargés, observou um instante os gestos incertos do moço que começava a comer e disse, positiva:

— He is blind. (É cego).

— Cego?  Repetiu Dinisa como um eco.

— Sim, replicou Dolly com segurança, veja como ele hesita para pegar no copo; tateia antes de se apoderar dele. Agora lhe erram os dedos pela mesa à procura do pão. Olhe, o criado fala-lhe, e ao responder-lhe ele olha para o seu lado, mas não diretamente para os olhos, como se costuma fazer...

Depois, examinando a ama, disse:

— Miss Dinisa, não se abale assim. Parece que vai desmaiar. Levante-se, vamos embora.

— Deixe-me, deixe-me, disse. Dinisa, com uma espécie de vontade selvagem, que surpreendeu a criada. Calou-se esta, não ousando insistir.

Então, repelindo o prato, ficou Dinisa imóvel, olhos fixos nos movimentos de João, perguntando a si mesma, numa ansiedade terrível o que se teria passado, e tremendo de medo de adivinhar a verdade. Oh! Não, não, seu pai não teria feito isso!

Turbilhonavam-lhe no cérebro os pensamentos. Esquecia-se de si mesma, a contemplar o moço, depois, por instantes, impunha-se-lhe uma certeza: Está casado, isso veio-lhe depois. Mas, então, onde está sua mulher? Ah! Não podia ficar naquela incerteza.

Levantar-se?  Ir falar-lhe?  E se se houvesse casado com outra?  Como a acolheria?  Era possível que ela fizesse isso?

Mas, era possível também que ela o deixasse sair sem saber... Sem lhe dizer que o lamentava, sem lhe dizer — mesmo casado — que lhe perdoava e que lhe oferecia seu auxílio?

Porque, ah! Se estava cego, era uma vez o seu talento, a sua arte. De que vivia ele?  Suas rendas eram modestas. A menos que a mulher...

Enquanto divagava assim, terminava o repasto de Fargés. Apresentara-lhe a tia uma fruta cuidadosamente descascada, e ele quase virara o copo em um movimento de infantil desaso, cruel de ver naquele grande rapaz elegante e grave.

Opressa, sem ouvir as reflexões de Dolly, fechou Dinisa os olhos um instante. Quando os reabriu, sobressaltou-se. João, de pé, dava o braço à velha dama, que o guiava, ainda que ele parecesse conduzi-la; e afastaram-se da mesa.

Deixá-lo-ia partir?

Lívida, sacudida de horror e de piedade, Dinisa ergueu-se bruscamente. Deu um passo para a saída, justamente no momento em que a senhora Bremond voltava à sala para pôr o chapéu diante de um espelho. Explodiu dupla exclamação:

— Você! Você! Balbuciou a senhora Bremond. Depois, vendo a perturbação de Dinisa, acrescentou muito depressa, ofegante:

— Você viu? Você sabe?

— Sim... Eu adivinho... Ele está cego, não é?

— Ai! Sim... Mas você, seu pai...

— Meu pai morreu, estou só aqui, e diga-me... Ah! Quero saber tudo, fale.

— Pois bem! Sim, é preciso que você saiba tudo, exclamou a senhora Bremond, tomando-lhe o braço. João e a prima vão tomar o trem que os reconduzirá a Nice, mas eu só partirei à noite, e vou dizer-lhe tudo, tudo. Se João mo censurar, eu lhe responderei... Não, na verdade, é você quem lhe vai responder por mim!

 

AÇÃO TEMERÁRIA

À emoção causada pela narrativa minuciosa da senhora Bremond, sucedera uma vontade firme, inquebrantável, de ir até João, de lhe votar sua fervente vida. Imediatamente, acompanhara a Nice a senhora Bremond, e, no dia seguinte ao da chegada, já cedo, escrevia aquela carta, que selava o passado. Antes do meio dia, estaria na Vila Azul, perto do seu noivo.

Seu noivo... Dinisa fechava os olhos, ao pronunciar estas palavras, abrindo de novo o coração a deliciosas emoções de um amor enobrecido por apaixonada admiração. Ela podia então ainda amar, conhecer a doçura de ser amada, de consolar, de proteger. O ser querido que tinha padecido sem ela, não estaria mais só, talvez tornasse a achar no seu coração uma pouca da felicidade de outrora. Amava-o agora com diverso amor, amor múltiplo, como uma esposa, uma mãe, uma irmã, e quase tinha medo da alegria muito violenta da sua reunião... Sim, era preferível, como lho oferecera a senhora Bremond, que ela deixasse a boa senhora revelar devagarinho ao sobrinho, que a noiva perdida tornava a ele para sempre.

Uma hora depois, a senhora Bremond e Dinisa dirigiam-se, pois, para a Vila Azul. Vista de longe, o teto de telhas envernizadas de azul confundia-se com o azul do céu; envolvia-a a serenidade do firmamento matinal, que parecia insulá-la em uma quietação, uma doçura sem limites. Enfim, alcançaram a grade. Bateram. Veio Devota abrir, e a uma palavra da senhora Bremond, conduziu-as ao terraço.

— Quem está aí?  Perguntou do interior da casa a voz de João.

— A senhora Bremond, respondeu a criada, sem mencionar a presença de Dinisa.

— Um minuto e sou seu! Respondeu João, e o acento denunciava-lhe uma espécie de leve alegria. Imagine, acrescentou ele sem se mostrar ainda, que Estefânia está no mercado das flores; estou só aqui.

Muito pálida, o coração aos trancos, sentou-se Dinisa à parte e viu aparecer João no alto da escada que levava a casa. Apoiando-se ao corrimão, desceu os degraus sem muito embaraço, e trazia o rosto claro, ardente, quase alegre. Surpreendida daquela aparência, disse a senhora Bremond um tanto constrangida:

— Tens o ar iluminado! Que te aconteceu?

— Uma coisa deliciosa, uma coisa que me entusiasma, me transforma, torna a me dar a vida do espírito — a única verdadeiramente invejável. Minha querida tia acabou, beijando as mãos da senhora Bremond, a senhora vê diante de si um homem feliz!

Alongou-se comicamente o rosto da senhora Bremond. Não, verdadeiramente, a “felicidade” do sobrinho não lhe trazia prazer algum. Primeiro qual era a causa daquela mudança? Acaso Maria...

Mas o moço repisou volúvel, afastando, num gesto habitual, a mecha castanha que lhe caía sobre a fronte:

— Eu modelo, compreende?  Sim. Oh! Serei eternamente reconhecido à boa Estefânia, par ter tido esta genial inspiração. Esta manhã ela um bloco de argila diante de mim dizendo-me: Pois que tu acaricias Mistral todo o tempo, deve conhecer de cor a anatomia desse gato. Experimenta modelar, talvez isso te divirta. A idéia, confesso, seduziu-me pouco. Mas tanto que senti o barro sob os dedos, enchi-me de intensa alegria, a alegria de criador, ao dar-lhe forma determinada, e, desde manhã, invadido por um fogo sagrado que não reconhecia mais desde... desde, palavra! aquela manhã de meus doze anos, em que compreendi que seria pintor, eu trabalho, trabalho... Estou cansado, cansado e encantado, porque me parece que vou, talvez, tornar a achar uma razão de viver...

Falava com extraordinário ardor, como um homem que cai de um prolongado coma, no delírio. A faculdade criadora, até agora sem objeto, e que o minava, tornava a achar, nesta nova arte, um meio de reviver. E na verdade, recordava-lhe isso seu desatinado entusiasmo diante da Ronda da Noite de Rembrandt, aquele quadro que despertara nele a vocação de pintor...

O rosto da senhora Bremond era curioso misto de contentamento e consternação. Não, na verdade.

Dizer que se vai levar a um homem inesperada alegria, arrancá-lo ao desespero, transformar-lhe, com uma palavra, a desanimação em júbilo, e achá-lo radiante, possuído da arte... Isso transtornava todos os seus projetos, e as frases tão habilmente e tão longamente preparadas, não tinham mais razão de ser. Desanimada, disse num tom lamentoso:

— Eis-te, então... Bem feliz?  Não lamentas o que sucedeu?... Enfim... Sim, esqueces o que padeceste?...

Devia João ter percebido o tom esquisito, quase vexado da tia, mas estava muito absorto pela nova revelação de uma obra a empreender, a levar a bom termo, para que o notasse. Com voluntário gesto, que parecia repelir a dor desalentadora, em uma necessidade de reviver, de voltar a ser homem, capaz de outra coisa mais que lamentações e saudades estéreis, replicou decisivo:

— Minha tia não esqueci nada, mas (e ela apoiou gravemente nestas palavras) não lamento mais nada, absolutamente nada!

— Tu me admiras... Porque enfim tinhas direito a outra felicidade, além da arte pura... Tu amavas...

— Sei o que a senhora quer dizer, mas sou sincero ao responder: pois que eu não podia escapar à cegueira, a ruptura de... Meu casamento era o maior benefício que se podia produzir!

— João!

— Sim, um benefício! Amargo, pungente como o golpe de bisturi que arranca um grito, e, contudo preserva o futuro de cruéis padecimentos. Eu o sei, sinto-o, Dinisa Deléris não era a mulher que convinha a um artista decaído...

— Oh! Exclamou inquieta, a senhora Bremond, que não ousava olhar para o lado de Dinisa.

Tomava a conversa rumo tão imprevisto, que ela na verdade não mais conseguia encadear as idéias. Animando-se um pouco, prosseguiu João:

— Não duvido nem da sua bondade, nem do seu devotamento. É bem o sei, uma alma encantadora e delicada. Mas foi educada no luxo, na esperança de uma vida mundana, ou, ao menos, de uma existência artística, que lhe teria preenchido as aspirações de beleza e de requinte do espírito. Justamente porque ela tinha essas qualidades raras, eu a reconhecera entre tantas outras como uma alma irmã. Mas ai! Minha existência obscura e mesquinha, a amargura de ser consoladora e não inspiradora, tê-la-iam ferido, magoado, e mesmo que nunca — em sua abnegação — ela se queixasse, eu sentiria que padecia, e isso me seria uma tortura!

— Exageras João. Estou persuadida de que Dinisa teria achado na sua ternura, na alegria de te consolar, uma felicidade profunda e comovida, que a impediria de se lamentar.

— Talvez, é possível, se bem que não passe de hipótese. Veja minha cara tia, em casos deste gênero, seria preciso positivamente poder fazer um ensaio. Se após um ano de vida comum, a pessoa não se tivesse cansado, a gente podia esperar entender-se para o resto de seus dias. Mas como pode uma moça afirmar que não será penoso um estado de coisas, cuja experiência não fez?  Seria preciso, para se comprometer sem receio, tratar com uma pessoa um pouco especial, de aspirações particulares... Sem o que jamais, jamais eu teria confiança!

— Pensas em Maria?  Perguntou à senhora Bremond, ofegante.

— Não falo por mim. É evidente que uma pessoa como Maria, desejando fazer-se religiosa, tendo-se votado, pequenina ainda, à uma vida de sacrifício e de devotamento sem recompensa, representa bem melhor a enfermeira necessária a um homem mutilado que uma adolescente ardente, que formou há anos a alma para uma felicidade brilhante. Não, eu não lamento a ruptura do meu casamento e por outras razões ainda, razões profundas... Que eu não digo.

— Mesmo à tua boa velha tia?  Já não tens então confiança em mim?  Interrogou ela, partilhada entre o desejo de conhecer a fundo a alma do sobrinho e a angústia de ouvir palavras que podiam magoar Dinisa, silenciosa e pálida a dez passos deles.

— Oh! Retrucou João, numa decisão repentina e volúvel, como quem procura persuadir-se a si mesmo; essas razões nada têm de misterioso, mas têm me ajudado poderosamente a dominar minha desorientação. Casado com Dinisa padeceria lento, cotidiano suplício.

E como a senhora Bremond lhe pousava a mão no braço, quiçá para impedi-lo de continuar:

— Admira-se?  Disse mais volúvel ainda. Seria um suplício de gênero especial, o de um artista que sente ao pé de si uma criatura ideal, a aguçar-lhe perpetuamente a inspiração a recordar-lhe que tem um modelo adorável, a entretê-lo em estéril e trágica febre, sem lhe deixar — involuntariamente — nenhuma trégua!

Animara-se, passando a mão nos cabelos. Depois, mais sereno:

— E a outra tortura: ter sob seu teto uma pessoa muito linda, a atrair inconscientemente os adoradores. Sentir que a cortejam, que olhares, sorrisos furtivos são talvez trocados, ali diante dele, que nada pode para defender seu bem! Oh! Não! Uma pobre criatura como eu não deve ter ao pé de si uma mulher que seja ao mesmo tempo uma inspiradora inútil e uma inquietação dolorosa. Eu sou. Eu seria loucamente ciumento!

Deteve-se, sufocado, o rosto torturado. Depois, esboçando pálido sorriso, acrescentou com grave doçura:

— Minha tia, tenho conhecido horas tão atrozes que, se se pudesse morrer de dor, estaria morto agora. Um dia estive a ponto de me suicidar. Foi, creio o dia mais negro de minha vida... Resisti, e jurei comigo mesmo ser homem, ser forte a todo o preço! Consegui-o. Agora estou sereno, tranqüilo, pacificado, e, não somente Dinisa não me aparece mais como um bem perdido, mas ela me parece um perigo que me devastaria a vida — sem o querer, a pobre criança! — e que Deus me poupou!

A senhora Bremond baixou a cabeça.

Certo, poderia objetar triunfantemente ao sobrinho que Dinisa nada lamentaria que se sentiria feliz ao pé dele; mas como persuadi-lo de que não seria a inspiradora estéril, recordando-lhe sem cessar a sua decadência de artista?  Podia afirmar-lhe que ela não seria cortejada, que ele não conheceria o tormento do ciúme, decuplicado pela cegueira?

Se ele temia esses dois padecimentos, era possível negá-los?  Só ele sabia o que poderia sentir. Se se recusa a uma criatura desesperada o direito de se matar, cumpre tudo envidar para ajudá-la a domar seu desgosto, a curar sua dor. Enfim, dizia ele a verdade, ao afirmar que, desposando-o outrora, Dinisa comprometia-se antes de saber se, verdadeiramente, aquela vida lhe poderia convir.

Impôs-se então ao espírito da senhora Bremond a lembrança de lord Ferling. Não padeceria um dia Dinisa, por ter perdido àquela vida luxuosa, honorífica, aristocrática?  Aqueles castelos e tapadas, aquele iate e aquela coroa, que deslumbravam um tanto a boa senhora?

Olhou para João, que enrolava entre os dedos uma folha de laranjeira. Parecia verdadeiramente pacificado, como dizia; renunciara, a ferida começava a cicatrizar. Maria representava a esposa ascética que lhe convinha. E teve medo de repente de trazer não a felicidade, mas a dor ao sobrinho. E olhando para Dinisa, suspirou com ar impotente.

Não a viu Dinisa, que meditava de cabeça pendida, e então prosseguiu de repente:

— Então, minha tia, está tão silenciosa... Tem alguns instantes a me conceder?  Se sim, peço-lhe um grande serviço: Leia-me um capítulo dos discursos de Cícero, cuja coleção achará lá, na mesa de ferro, sob a palmeira.

— Veja, continuou com uma alegria evidente de mais para ser sincera, minha pobre Estefânia tem má vista, e tenho sempre remorsos, quando lhe peço que leia para mim. É, no entanto, um dos mais seguros passatempos. Quando tiver adquirido a riqueza com a escultura, acabou rindo, pagar-me-ei o luxo de uma leitora...

— Sim, Estefânia falou-me nisso. Pena é que Maria more tão longe; ela não passou seis meses nas montanhas?

— Sim, além disso, tem muito que fazer em casa e não pode perder tanto tempo. Quanto a uma leitora, minha pobre Estefânia vê as coisas em grande. Hoje em dia isso sai muito dispendioso...

— Meu caro João, disse num impulso a senhora Bremond, se é a questão financeira que te detém, deixa-me oferecer-te isso!

— Não pense em tal coisa, minha tia!

— Sim. Sentir-me-ia feliz se pudesse fazer qualquer coisa por ti. Estefânia está longe de ser, ela também, a mulher que te seria preciso! E lê como uma cozinheira. Perfeitamente, eu a ouvi! Ah! Se meus negócios não me chamassem a Paris, eu te instalaria em minha casa, tratar-te-ia, te faria a leitura!

— Eu sei minha boa tia, que a senhora seria maternal!

— Pois bem, deixa-me dar-te esse prazer. Procura uma leitora e ficará por minha conta. Negócio entendido, sim?

— Não me tente, eu teria á covardia de aceitar!

— Está bem, não te peço mais parecer. Imponho-te uma leitora à tua escolha. Se, daqui a um mês não tiveres achado uma, deserdo-te. Mas que tiro de canhão é este?

— Já não se lembra, minha tia?  É isso que anuncia todos os dias à boa cidade de Nice que é meio dia. A senhora fica para almoçar connosco.

— Não, não, disse ela vivamente, pois não tinha empenho em esperar a volta de Estefânia, que teria traído a presença de Dinisa. Lembro-me agora de que espero algumas amigas à uma hora, e é urgente que me vá.

— E Estefânia que não voltou! Antes de partir, minha tia, deixe-me agradecer-lhe e, também, mostrar-lhe minha nova obra: esse pobre Mistral de barro que não vejo e que é talvez informe! Mas não, minhas mãos não me enganam. Que seja cheio de erros, é certo, mas basta para que descubra em mim alguma aptidão...

Levantando-se, arrastava-a para o atelier, ela seguia-o, quando viu erguer-se Dinisa de um salto, deslizar sem ruído sobre a grama de um tabuleiro e aproximar-se dela, fazendo-lhe sinal de escutar.

João entrara no atelier; a senhora Bremond parou e Dinisa sussurrou-lhe ao ouvido, num sopro:

— Eu quero ser sua leitora.

— Então, minha tia, não vem?  Onde se escondeu? Não a ouço mais.

— Sim, sim, eu vou, respondeu à senhora Bremond, toda aturdida com as palavras de Dinisa.

Chegou ao atelier e soltou grandes exclamações admirativas, enquanto João, canhestro e precavido, erguia o linho molhado posto sobre o barro. Mas em realidade ela nada via, pensando: Ela, leitora aqui?  Como?  Ele a reconhecerá, certamente. Não enxerga, é verdade, e Estefânia não a conhece. O nome?  Pode mudá-lo. Mas a voz?  Aí está o que não engana. Só nos romances não se reconhecem as vozes, ou são modificadas. Que fazer?

— Vejamos minha tia, diga-me sinceramente o que pensa disto. É semelhante, ao menos?

— Muito, muito, acho-o perfeito, eu... Ah!

— Que foi? Bateu nalguma coisa?

— Não, não, é que, vê tu, tenho de te falar justamente a propósito de uma leitora. Sabes que Estefânia me dissera que desejavas uma e eu — sem te prevenir — me pusera logo à cata de uma pérola rara.

— Foi então por isso que me propôs logo uma?  Disse o moço rindo, deslembrado de que fora ele o primeiro a falar nisso há pouco. Tinha uma protegida a colocar?

— Mas sim, acertaste, replicou a senhora Bremond, rindo para ocultar a perturbação; e se te falei tanto de Dinisa, se quis saber se ainda tinhas saudades dela, era por causa disso...

— Não compreendo! Disse João, franzindo os supercílios.

— É muito simples. Conheço uma moça necessitada... E queria ajudá-la.

— Uma parisiense?

—... Sim... Uma de minhas empregadas... Sua saúde exige o clima do sul. Compreendes?  Respondeu ela, inventando ao passo que falava, e perturbada como uma menina diante do examinador. É uma criança encantadora, seria excelente leitora; tens a intenção de alojá-la aqui?

— Sim, se for necessário...

— Tem apenas um defeito... Ou antes, uma estranha particularidade, que me fazia hesitar em propor: Solange, é o seu nome, tem na voz muitas entonações de Dinisa, e eu temia que isso... Despertassem em ti recordações penosas.

— Era então por isso que... Interrogava-me assim?  Disse o moço, sem a menor desconfiança. Pois bem, fique tranqüila. Essa semelhança não me perturbará. Estou curado, completamente curado, e essa moça pode aparecer; ela tem necessidade do sul, diz a senhora, e sou feliz de lhe facilitar a estada aqui. É preciso que os infelizes se ajudem mutuamente... Quando a mandará vir?  Perguntou após um momento de silêncio.

— Já está em Nice. Se não a tivesse querido, tê-la-ia colocado em casa de uma colega como vendedora, mas prefiro que esteja em tua casa, assim descansará melhor.

Adquiria mais firmeza ao passo que falava, admirada ela própria de ter tão habilmente improvisado uma fábula. João respondeu maquinalmente, de novo absorto na sua argila, que manejava com inquieta vigilância:

— Pois bem, mande-a quando quiser, está entendido.

— Deixo-te, então, vejo que mal me escutas e que Mitral te interessa mais que tua velha tia.

— Querida, boa tia, não diga isso!

— Mas não to censuro. Sinto-me bem feliz por ver que te apegas de novo à vida, à arte. João, meu querido, acabou ela, pegando na cabeça do sobrinho, estou certa, de que a felicidade ainda voltará para ti.

— Ser feliz?  Nunca mais! Replicou o moço vivamente. Mas quero ser corajoso e hei de sê-lo!

Acompanhou a senhora Bremond ao portão, e Dinisa seguiu-os na ponta dos pés. Quando ele abriu a porta, a senhora Bremond recuou para deixá-la passar e, como corria no momento um automóvel barulhento na estrada, ele não percebeu o leve ruído dos passos. Agora, tinha a senhora Bremond pressa de se afastar, receando encontrar Estefânia, que teria descoberto o segredo, e traído a presença da moça. Enfim, entrou João em casa, e a senhora Bremond voltou-se para Dinisa:

— Você será sua leitora, está entendido, Dinisa.

— Não desconfiou de nada?  Interrogou a adolescente, voltando a cabeça.

— Não. Apresentei-a como uma das minhas vendedoras de Paris, que necessita do ar do sul. Você habitará em casa dele.

— Perto dele, murmurou Dinisa.

— Você chora?  Exclamou a senhora Bremond. É verdade, deve ter padecido muito!

Passava um carro, tomaram-no e Dinisa, ocultando o rosto nas mãos, desatou a soluçar.

— Oh! Todas as suas palavras eram justas! Como provar-lhe que encontrarei a felicidade junto dele, sem que me objete que me comprometo antes de saber?  Não posso esquecer esta frase: Jamais, jamais terei confiança...

Para lhe inspirar essa confiança, é preciso que possa dizer-lhe: “sei que existência levaria ao pé de você, eu a vivi, e ela me agrada.” Queria persuadi-lo de que não teria de padecer de ciúmes, e se, a meu pesar, eu o inspirar na sua arte, pois bem, será o meu rosto que ele modelará.

— Eis uma idéia. Diga-lhe isso logo, sugeriu à senhora Bremond, a quem o embuste inquietava um pouco.

— Dizer-lho, replicou amargamente Dinisa. Eu o faria se ele ainda tivesse saudades de mim, se estivesse certa do seu amor e... É desse amor mesmo que duvido. Se ele cessou de padecer pelo passado, não é porque lentamente... Outra o encantou?  Oh! Como é ela?  Interrogou ardente, pensando em Maria.

— Uma boa menina, mas menos que bonita: mãos grandes, porte pesado!

— Posso torná-lo mais feliz do que ela poderia fazê-lo e quero reconquistar este bem que as circunstâncias me arrancaram. Não estou agindo unicamente pela sua felicidade, ai de mim! Mas também pela minha!... Amo-o, e compreendi ao ouvi-lo que farei tudo para ganhar aquele coração que foi meu e, quando a senhora falou de uma leitora, veio-me imediatamente a idéia de ir eu para esse lugar. Oh! Minha senhora, viver perto dele, guiá-lo nos seus passeios, senti-lo apoiar-se confiante no meu braço e poder dizer-lhe um dia: Se tem ainda um pouco de amor por mim, deixe-me participar da sua vida!

Exaltava-se. A senhora Bremond sacudiu a cabeça, pensando que João estava certamente enamorado de Dinisa e que muito depressa se desfaria o enredo. Podia, sem receio, deixar seguirem os acontecimentos, e Dinisa continuava a falar febril, fazendo projetos, enquanto a boa dama, serenada, pensava:

— Não lhes dou quinze dias para caírem nos braços um do outro!

Enganava-se a senhora Bremond em suas previsões.

Desde o primeiro momento teve Dinisa, ou antes, Solange Parny, como a chamara à senhora Bremond, uma inimiga na Vila Azul, inimiga que não tardou em apresentá-lo sob uma luz desfavorável. Era D. Estefânia.

Ficara ela profundamente magoada de saber — ao voltar do mercado de Flores — que haviam decidido, na sua ausência, admitir uma estranha em casa! Esquecia positivamente que João estava em sua casa, e, como administrava o interior, julgava-se a senhora e achava que o moço não devia ter aceitado nada sem a sua aprovação.

Além disso, não podia ela sofrer a senhora Bremond, e tudo o que vinha da tia de João era-lhe antipático, e quando no dia seguinte à tarde viu chegar Dinisa, quando lhe viu o grande ar a despeito da sua simplicidade, ficou sufocada.

Queriam que aquela bela adolescente fizesse a conquista de João! Não era aquilo uma artimanha da senhora Bremond, que desejava entravar a influência de Maria?  Ora, era Maria a noiva escolhida por Estefânia, que viu na chegada daquela Solange Parny uma manobra para lhe baldar os planos, e expulsá-la da casa.

Era isso mais do que suficiente para gerar nela violenta antipatia. Mas como João não podia ver a moça, ficava-lhe a melhor parte do lance, e quando, negligentemente, ele perguntou:

— Que tal é ela?

Replicou logo em tom decisivo:

— Uma espécie de mulherona desajeitada, negra como um corvo.

Os cabelos sombrios de Dinisa justificavam assaz a comparação com um corvo, mas a construção da frase parecia implicar que a pele era do mesmo tom sedutor, e imediatamente se precisou no pensamento de João uma silhueta magra, de espinhaço ósseo, de rosto seco e trigueiro.

Enquanto D. Estefânia assim descrevia a esbelta figura de Dinisa e sua tez de marfim rosado, a moça dispunha seus vestidos no armário e na cômoda que mobiliava o quarto forrado de pano de Jouy de assunto simbólico: O Amor faz passar o Tempo... O Tempo faz passar o Amor...

O mobiliário era simples, mas envernizado à laca cinzenta Trianon, com leves toques cor de turquesa que bastavam, com duas belas gravuras antigas suspensas por cordões do mesmo tom, para dar à peça  a graça amável dos interiores Luis XVI. Sobre a chaminé, dois castiçais de prata maciça, de puro e sóbrio estilo, e, recostada ao mármore branco, mirou-se Dinisa no grande espelho, com a surpresa de se ver como subalterna naquela casa onde deveria entrar como senhora...

Ao chegar, uma hora antes, não vira João, ocupado no atelier, absorvido pela paixão da modelagem. Daí a pouco lhe seria apresentada; sem dúvida ele lhe apertaria a mão em sinal de boas vindas e, a este pensamento, sobreveio-lhe singular impressão de constrangimento e de angústia, como se, ao simples toque de seus dedos, ele lhe fosse traspassar o incógnito.

Abriu a janela. Deitava, não para o mar, mas para o jardim que, talhado na rocha viva da montanha, pululava de plantas carnudas, de hastes purpurinas. Um gerânio subia, no meio das rosas, até ao peitoril, mas havia, sobretudo ipoméas de largas corolas de um azul de rei e plúmbagos cujos cachos leves e azulados recordam a hortênsia. O quarto de João devia dar diretamente para o mar. Lembrava-se de algumas palavras do moço, pronunciadas há dezoito meses, no princípio do seu noivado: O mais belo quadro da casa está no meu quarto e não foi pintado por mim, dizia ele. Está emoldurado pela janela e representa o panorama inteiro, o golfo dos Anjos, o Esterel erguido como uma muralha de sombra no fundo do horizonte. Esse quadro era a própria paisagem.

Dinisa não o via.

Anoitecia. Às sete horas, alisou o cabelo castanho passou um pouco de pó de arroz pelas faces acetinadas, e, o coração batendo, terrivelmente comovida, desceu ao salão.

Lá estava D. Estefânia, fazendo malha com furioso ardor. Vendo chegar à moça, disse algumas palavras a meia voz, e, surgindo de uma poltrona, ergueu-se o vulto de João.

— Meu primo João Fargés, a senhorita Parny, leitora.

Dinisa inclinou-se levemente, e apertou-se-lhe o coração ao ver como o olhar de João, sem que ele o imaginasse, errava acima dela, supondo-a mais alta, provavelmente. Nada há mais doloroso do que estes erros quase ridículos, estes hábitos que parecem infantis, esta confissão de fraqueza e de impotência num homem que conhecêramos ágil, desenvolto. Mas seu coração apertou-se mais ainda, ouvindo-o dizer muito friamente:

— Espero que se agrade aqui, senhorita.

Era curta a frase, e o tom sem calor agravava o laconismo do acolhimento. Ela balbuciou:

— Estou persuadida disso, senhor.

Ele, porém, nem pareceu ouvi-la, e, saudando em sinal de vaga aquiescência, voltou-se para a prima:

— Vamos para a mesa, Estefânia?  Estou fatigado de esperar.

— Fui eu quem o retardou?  Perguntou Dinisa Solange, com real timidez.

— Não, senhorita, foi nossa criada, Devota, que deixou queimar a sopa, respondeu Estefânia.

Foram para a mesa. Dinisa examinava às furtadelas aquela sala de jantar cujos velhos móveis provincianos, de carvalho já quase enegrecido pelo tempo, lembravam os interiores holandeses. Não o mobiliário claro e entalhado que pulula em todos os armazéns, mas os antigos baús sombrios, onde brilham discretos e severos, estanhos cobertos de patina, o cobre de um prato lavorado, a brancura azulada dos vasos de Delft. Adornava o lustre de metal um tufo de agárico e o solo, de quadrados brancos e negros, luzia na sombra como lajedo de mármore.

Dinisa não ousava falar. Positivamente, sentia que se tornara completamente leitora, pobre rapariga que temia desagradar aos patrões... João não a animava, na verdade; imóvel, voltando as costas à vasta cópia da Ronda da Noite de Rembrandt, mostrava um rosto impenetrável e cansado, que a desorientava. No entanto, era ele assim mesmo no instituto Monfermeil, quando lá ia, altivo e desdenhoso, dar lições às pensionistas. Era assim que ele lhe tinha agradado. Mas então, adivinhava nele outras expressões, uma dupla vida que despertava o interesse, e que a tinha entusiasmado por seu ardor juvenil. Evidentemente, não poderia ele falar de arte ou de idéias gerais com D. Estefânia, mas em Marselha vira-o ela esforçar-se por parecer amável.

Apenas Mistral lhe fazia bom acolhimento, saltando-lhe aos joelhos e rosnando. Encerrada em suas cismas, nem ouvira D. Estefânia perguntar-lhe se sabia fazer malha. Àquele mutismo, a velha dama encolheu os ombros, tocando no cotovelo do primo:

— Senhorita Solange?

Desta vez ouviu-a Dinisa muito bem, mas o nome de Solange não lhe recordou nada e D. Estefânia teve de lhe tocar no braço. Isso a assustou:

— Estava nas nuvens, senhorita Solange?  Perguntou ela, agridoce.

— A senhora chamou-me?

— Duas vezes, pelo seu nome!

— Meu nome?  Ah! Sim, Solange... Eu... Que deseja a senhora?

Diante desta resposta quase incoerente, ergueu D. Estefânia os olhos para o lustre como quem invocava o tufo de agárico por testemunha de tão aparente fraqueza mental. Nisto, veio Devota dispor as frutas sobre a mesa, e Dinisa arriscou-se a dizer:

— Quer que eu lhe leia alguma coisa esta noite... Senhor?

— Obrigado, senhorita. Deve descansar, respondeu João num tom neutro. Depois, voltando-se para a prima:

— Vou modelar.

— À luz artificial?  Isso não o perturba?  Perguntou estouvadamente Dinisa.

— É sempre noite para mim, senhorita, replicou João secamente.

Lançou-lhe D. Estefânia um olhar encolerizado e ela mordeu os lábios.

Sem dúvida lhe desagradara com aquela reflexão inconsiderada. Procurava uma palavra para lhe dizer. Era horroroso que, desde a primeira noite, houvesse entre eles um mal entendido. Ah! Outrora, falava-lhe ele com uma doçura de adoração, beijando-lhe as mãos, cerrando-a nos braços, beijando-lhe às vezes os tépidos cabelos. Vê-lo sem nem sequer ousar falar-lhe, era intolerável. Quisera lançar-se-lhe sobre o coração, dizer-lhe: Sou eu, deixe-me querer-lhe. Horrível opressão a detinha. Tentou, ainda assim, atrair-lhe a atenção:

— Poderia eu ajudá-lo nos seus trabalhos de modelagem?  Conservaria a humidade do barro... Disse ela.

Erguia-se ele da mesa, e, com as mãos um pouco estendidas para evitar qualquer obstáculo, dirigia-se para o atelier. Às palavras de Dinisa, percebeu-lhe ela um levíssimo movimento de impaciência; ele esperou um minuto antes de responder, como se quisesse dar tempo de adoçar a voz:

— A senhora é muito amável, mas não se ocupe comigo. Quando eu tiver necessidade de seus serviços, chamá-la-ei. Boa noite, senhorita.

Era uma maneira disfarçada de aconselhá-la a calar-se, a esperar que a interrogassem antes de falar... Sublinhou-a Estefânia, dizendo:

— Visto que a senhora Bremond deseja que a senhora descanse, pode ficar no seu quarto o tempo que quiser. Eu lhe direi quando for para descer.

— Volto então para lá, replicou Dinisa magoada. E quando João mergulhava no atelier, consternada, entrava ela no quarto.

Fizera mal em agastar-se?  Parecia-lhe perceber nos modos de João certa hostilidade surda... Ser-lhe-ia desagradável ter ao pé de si outra adolescente que não fosse aquela Maria desconhecida?  Escondendo a cabeça nos travesseiros, sob a musselina azulada do mosquiteiro, chorou Dinisa muito tempo, antes de adormecer.

Por seu lado, também João não conseguia conciliar o sono.

Chegando à oficina para modelar, sentira imediatamente que os dedos, sem animação do cérebro absorto, não comunicariam vida alguma à argila inerte, fria, viscosa. Foi então para o quarto e lançou-se sobre o divã.

Pela janela aberta, penetrava a quente doçura do outono. Sentia-a passar-lhe sobre a fronte, em eflúvios perfumados pelos últimos alcendros; o mar modulava sobre os rochedos, e Nice parecia cingida de uma vivente coroa de estrelas. Lembrava-se o moço de outras noites semelhantes, cuja tepidez distendia os nervos mais crispados.

Mas hoje, que febre o agitava?  À mesa, não pudera comer. A modelagem que na véspera o apaixonara, deixava-o de repente indiferente; alguma coisa amarga, sombria, ofegava nele como outro ser soluçante. Que tinha então?

Pois bem, sim! Devia confessá-lo: padecia. Sua conversa com a tia, a espera daquela leitora que, diziam, tinha a voz de Dinisa, sua chegada, os primeiros acentos ouvidos, tudo isso transtornara-lhe a quietação — fictícia, infelizmente! — e, brutalmente, ressuscitava o passado, aquele passado que ele com tanta coragem se esforçava por anular.

Além disso, desde as primeiras palavras da senhora Bremond revelando-lhe a semelhança de voz entre a senhorita Parny e Dinisa, compreendera que o som daquela voz lhe devastaria a alma, e estivera a ponto de gritar: Sobretudo, que eu não a ouça! Mas, como voltar tão depressa atrás, se acabara de afirmar com segurança sua cura completa?  Dominara-se, ao contrário, para declarar com desenvoltura, que “esse pormenor não o poderia impressionar.

Na verdade, não se mesclara nele à angústia de tornar a ouvir aquela voz querida, o desejo insensato, apaixonado, de ouvi-la ainda, mesmo com risco de renovar sua mágoa, de perder em algumas horas o benefício de tantos meses de esforço, de coragem, de admoestações!

Sim, fora fraco. E vinha-lhe agora a punição. Já há duas horas, mergulhado na poltrona, esperava Solange Parny, sentindo-se alternativamente gelado e febril, como na expectativa de um prodígio, de ilusão enganadora, mas apaixonadamente desejada. Espreitara o ruído da porta do salão ao abrir-se e tivera de conter-se para falar serenamente à moça.

Contudo — pronunciara Dinisa algumas palavras com acento deformado pela comoção — não lhe achara na voz tanta semelhança com a da sua ex-noiva! Enquanto durara o jantar, aplicara-se a descobrir nas raras palavras ditas por Solange, dissonâncias que não existiam, pensava ele, no órgão da senhorita Deléris. Porque, no fundo, parecia-lhe uma espécie de inconveniência, de espoliação, de usurpação, que aquela mulherona trigueira tivesse o mesmo tom de voz que a bela adolescente! Odiava-a por isso, como se fosse acção má.

Odiava-a, sobretudo — sem que o confessasse a si próprio — recordar-lhe a acabada felicidade; ser tão diferente e tão igual! Não, sentia-o ele, não conheceria mais trégua ao seu mal, e, febricitante, atormentado pelo passado, sentindo crescer-lhe no peito verdadeira aversão por Solange Parny, e jurando consigo mesmo recobrar a paz a qualquer preço, sonhava:

Não é ao meu serviço que ela vai cansar a voz... A leitora de minha tia.

 

A RIVAL

— Mestre, diga-me sua verdadeira impressão. Repito-lhe: não penso em ser escultor para tirar proveito de minhas obras. Queria que a modelagem fosse para mim um passatempo de encanto mais vivo, mais ardente que a leitura dos livros Braille. Não lhe pergunto, pois se tenho talento, mas apenas se mostro alguma aptidão...

Falava a um velho de sobrecasaca, magro, pequeno, bem tratado com um notário. Óculos de ouro aumentavam o olhar fino dos olhos azuis. Parecia inofensivo e meigo.

Era Valiet, um selvagem, um escultor potente e duro, que talhava em plena massa, preferindo a pedra rude e bruta. Na oficina, entre seus mendigos e atletas, apenas esboçados e frementes de vida, parecia um humilde sacristão.

No entanto, era seu polegar que tirava da matéria aquela plenitude de energia e de força. Mas era humanista, tanto como escultor, talvez, e divertia-se em acentuar o contraste entre sua miúda e correta pessoa e a evidente incorreção das criaturas que tirava da pedra.

Vinha muitas vezes ver João e o moço mostrara-lhe seu Mistral na tocaia, que secava sobre um escabelo, enquanto o verdadeiro Mistral empoleirado noutro banco, com a linguinha raspadeira, escovava, com um nojo que lhe causava náuseas inócuas, os traços de barro aderentes à pelagem espinhenta. A voz do amo ergueu para ele os olhos verdes, cheios de sentida reprovação e continuou a limpeza do seu colete branco.

— Este pequeno tem uma alma de artista, disse João designando seu modelo. Apesar do horror que lhe inspiram minhas mãos húmidas, compreende que o quero imortalizar e me sofre as manipulações.

— Onde se foi aninhar a vaidade! Disse Valiet, enquanto Mistral, vendo que se ocupavam dele, erguia-se, dorso arqueado como uma ponte albanesa, e a cauda direita, levemente enroscada, em ponto de interrogação.

Examinava agora Valiet o barro e dizia:

— Meu caro filho, tem você todos os defeitos dos estreantes. Sua obra não tem base, certas partes são muito pesadas, outras muito mesquinhas. Há coisas ingênuas, mas você é um verdadeiro artista, e o movimento da pata esquerda, estendida, rija como uma mola, pronta a dar impulso ao corpo todo, tem um acento de verdade, de energia, uma espécie de pulsação selvagem que muitos escultores, que não cometem um só de seus erros, não poderiam atingir.

É o principal. Com os anos, poderá você vir a ser sem dúvida um excelente animalista.

Sorria João. Sabia que, em obra de estréia, pouco contam os defeitos, que desaparecem com o estudo; só as qualidades importam. Escultores que, desde o princípio, cometem poucos erros, não apresentam muitas vezes, em toda a sua carreira, nenhuma particularidade brilhante. São os monótonos da escultura; enchem os salões com suas obras corretas, onde nada há a maldizer, e das quais não se acha nada a dizer também...

Cerrou as mãos de Valiet dizendo — e seus olhos sempre claros pareciam “ver” de novo:

— Mestre, o senhor me faz tão feliz! Essa pesquisa da vida foi sempre o meu fim.

— E atingiu-o na sua “Colhedora de laranjas”, mais ainda talvez no meio sono vibrante da “Moça da charpa”.

— Ah! o senhor acha-o?

— Sim, é uma bela obra, e fiquei contente de saber que o governo lha comprou para o Luxemburgo... Enquanto espera o Louvre, acabou o velho sorrindo.

Ignorava Valiet que James tinham ligado Fargés à moça de cabelos escuros, delicadamente rosada, mas João empalideceu um pouco a esta recordação. O Louvre?  Acolheria ele um dia a imagem daquela criatura adorada e perdida?

Não podia já seguir a conversa de Valiet e o velho, finalmente, despediu-se. Enquanto ele continuava a tagarelar à porta da oficina, espiava D. Estefânia ansiosamente a janela do quarto da senhorita Parny. Via-a de costas, ocupada em alguns arranjos, e receava que ela se voltasse ou descesse. Se a visse o escultor, revelaria a João, em exclamações de admiração, a beleza da moça, tão cuidadosamente denegrida por ela.

De pé no alto da escada, abarcou Valiet com o olhar o panorama de ouro e azul, a curva das margens, a linha das montanhas, toda aquela natureza brilhante e acabada como uma jóia de preço e disse:

— Não maldiga a sorte, João, você que pode, pelo pensamento, rever este jardim, esta baía, este mar divino. Não tenho razão, senhora Fargés?

Hipnotizada pela janela de Solange, esqueceu-se ela de responder.

Mas Valiet saiu sem ter visto a moça e como vinha raramente, era pouco provável um encontro. Estefânia suspirou, aliviada. Ao entrar no atelier, João cantarolava possuído dessa alegria espiritual e ardente que dá a arte.

Depois, a lembrança da moça da charpa passou-lhe de novo no espírito... Não, não queria marear a felicidade intelectual que o invadia. Que diria ela, contudo, se soubesse... E, imediatamente, sentiu desejo imperioso de lhe ouvir a voz por intermédio de... Solange.

Vamos, era desarrazoado! Desde que a moça vivia em casa, privava-se do prazer da leitura. À senhora Bremond, que viera vê-lo antes de voltar a Paris, afirmara que queria primeiro deixar a sua protegida descansar, e como Dinisa nada lhe dissera de suas secretas angústias, partira descansada a boa dama. João acabava por ter meio esquecido a presença de Solange; ia agora perder o benefício de sua corajosa vigilância?  Embriagar-se ao perigoso encantamento da voz que evocava o passado?

Hesitava ainda. D. Estefânia, que deixara o atelier, voltava de repente, exclamando:

— Decididamente, pergunto a mim mesma se temos alguma razão para conservar aqui essa moça! Pediu-me para sair...

— Pois bem, onde o mal?  Perguntou Fargés, a quem a estreiteza de vistas da prima irritava.

— Oh! Consenti nisso. Meu filho, ela usa véus bordados, que custam perto de cem francos na cidade! E sapatos de camurça negra! E meias de seda! Há dias, comprou um par de luvas de mais de trinta francos na Galeria Lafayette! Pôr tudo às costas, quando tem de ganhar a vida. Eu contento-me com luvas de retroz, e a senhorita não quer senão pele de Suécia!

— Porque ela está de luto, objetou João, encolhendo os ombros.

— Pela mãe... Parece-me, respondeu Estefânia. É mesmo, ela não é interessante, e pergunto a mim mesma se devo deixá-la sair...

— Pois bem, disse João, com repentina determinação, pergunte-lhe se não pode deixar a saída para um pouco mais tarde; ela me lerá a revista que chegou agora.

— Ah! Tu queres?  Perguntou Estefânia, interdita por aquele desenlace, que ela mesma provocara.

Chamou Dinisa e a moça apareceu simples, mas com a elegância refinada, permitida a uma pessoa que tem mais rendimentos do que dispende.

— Senhorita, disse apressadamente a velha dama, meu primo queria que a senhora lhe fizesse um pouco de leitura.

— Oh! Senhora, com prazer! Respondeu Dinisa, corando enquanto tirava rapidamente as luvas de trinta e seis francos que sublevavam o coração virtuoso de D. Estefânia.

Furioso contra si mesmo, mas impaciente por ouvi-la, disse-lhe João:

— Vê a senhora uma revista de capa verde?  Sim, sobre a mesa. Quer abri-la e ler-me? 

— Certamente, senhor.

Tirou o chapéu e instalou-se na poltrona — o que revoltou D. Estefânia (podia bem ter tomado uma cadeira!) — e começou a ler depois de cortar algumas folhas.

Era a primeira vez que João lhe pedia esse serviço... Iria doravante tomar-lhe o hábito?  Lendo maquinalmente, pensava com ardor. Sim, sua estada na Vila Azul manifestava-se triste, gelada, exatamente o oposto do que esperara. Mantinham-na aparte, sentia-o ela. Era então agora Dinisa Deléris de tal modo antipática ao moço, cansado de padecer, que nem sequer podia suportar a recordação da sua voz?  E supusera que, preso ao encanto do antigo amor, ele se curvaria, confiante, para ela... Muito depressa, pensara, nasceria uma terna amizade, e, um dia em que se achasse mais cansado, mais meigo que de costume, prometera a si mesma dizer-lhe: Eu sou a felicidade que voltou, toma-me por mulher.

Mas muito outra era a situação. Estouvadamente, sem refletir, arrebatada num impulso de louca ternura, quisera entrar naquela casa sob um nome de empréstimo, sem temer a posição falsa em que se iria encontrar, persuadida da iminência do desfecho. Mas o desfecho não aparecia, e a moça começava a padecer com a estranheza da situação.

Desde o primeiro instante, e pela primeira vez na vida, era-lhe preciso mentir, e, cada vez que o fazia corava, arriscando-se a contradizer-se. Muitas vezes resolvera-se a ter franca explicação, a escapar ao equívoco, pôr fim àquela existência de dissimulações. Mas; no último momento, recuava...

No estado de espírito em que se achava não se ofenderia João de vê-la assim introduzir-se-lhe em casa?  Julgamos com rigor numa outra aquilo mesmo que perdoamos à mulher querida, e, enganada pelos modos distantes de João, acabava por acreditar que deixara de amá-la. Devia, então, desaparecer simplesmente?

Faltava-lhe a coragem para isso. Amava e apegava-se ao seu amor. Ele não lhe falava, tratava-a com desanimadora frieza, mas enfim, ela via-o, tomava as refeições em frente dele, muitas vezes mesmo tocava-lhe nas mãos. Via na sua dolorosa intimidade, testemunha comovida de seus gestos desajeitados, mas altiva também de vê-lo inclinar-se para uma nova forma de arte e sair-se bem nela indubitavelmente. Basta tão pouca coisa para encher-nos de alegria quando amamos. .. Vivia desses curtos momentos de felicidade, e, corando da própria covardia, ia ficando.

Mas ia João talvez mudar de procedimento para com ela. Pedia-lhe, pela primeira vez, que lesse, e Dinisa lia, punha agora toda a atenção em tornar a leitura clara, colorida, compreensiva...

Entre as almofadas do divã, Fargés, sentado, sonhava também. Desde as primeiras linhas, cessara inconscientemente de escutar o sentido das palavras, para perceber-lhes apenas o som, e invadia-o agora a embriaguês perigosa que temia, e que provocara. Fechava as pálpebras, como se quisesse dobrar a cegueira, encerrar-se no mundo radioso dos sonhos. Evocava Dinisa, luminosa e flexível como uma sereia naquela charpa tunisiana, de que a revestira. Porque não lhe dissera a verdade no momento do seu casamento?  Aquele heroísmo não era imbecilidade?  Ela tê-lo-ia certamente desposado, talvez mesmo sem nada lamentar, na perpétua adoração de que a cercaria. E, agora, seria ela quem ali estaria lendo, ela, cuja harmoniosa silhueta ele adivinhava sobre o divã, a quem beijaria a cada passo as mãos, delicadas e doces como as mãos das chinesas, que parecem nem ter ossos, e são leves como um pássaro recém emplumado...

Entorpecia-se naquela visão, sabendo que padeceria terrivelmente depois, mas já não aplicava sua teoria do golpe de bisturi que fere o presente; para proteger o futuro. Tanto pior, deixava-se ir...

— Ora essa! Que teorias imbecis! Disse de repente D. Estefânia que, presente à leitura, tecia suas malhas com raivosa velocidade.

Reabriu João os olhos, voltando para ela o olhar ausente:

— Teorias?  Que teorias?

— Tudo o que eles contam sobre o cubismo na revista.

— Trata-se de cubismo?  Perguntou Fargés.

— Mas...

— Desculpa-me, minha prima, mas eu não escutava...

A estas palavras, empalideceu Dinisa. Ele não a escutava! Pareceu-lhe isso prova inegável do pouco interesse que tomava na leitura feita por ela. Desalentada, sentindo que as lágrimas a ganhavam, deixou cair a revista, dizendo:

— Então... Não o quero fatigar por mais tempo...

Percebeu ele na voz um tremor doloroso e compreendeu que acabava de magoar involuntariamente sua leitora. Aborreceu-se por ter feito padecer alguém, por ter humilhado uma criatura, ele que tão bem conhecia o padecimento e a humilhação; verdadeiramente comovido, disse com uma doçura cheia de bondade:

— Perdoe-me, sou facilmente distraído, mas a senhora lê muito bem, de maneira muito inteligente mesmo...

Jamais, desde que ela chegara à Vila Azul, ele se exprimira com aquela cortesia benevolente e terna. Saltou-lhe o coração. Tudo o que padecera desde que chegara a Nice, tudo foi anulado por aquela simples resposta. Tornava a achar o João delicado e encantador. Respondeu muito depressa, desejando apaixonadamente entrar em conversa verdadeira:

— Amo de tal modo todas as coisas de arte! O senhor pintava outrora, senhor Fargés?

— Meu Deus, sim... Tenho ainda ali, pendurados à parede, a menos que Estefânia, no seu furor de arrumação, não os tenha metido nalguma gaveta, alguns estudos...

— Sim, apressou-se a dizer Estefânia, enquanto Dinisa olhava em vão ao redor de si, para as paredes completamente nuas; eu guardei-os, podiam estragar-se.

O moço encolheu os ombros e suspirou ao responder:

— Quer você dizer à senhorita Solange onde estão eles?  Será para mim uma distração folheá-los, comentá-los.

Brilharam os olhos de Dinisa. Enfim, surgia subitamente entre eles um liame, um traço de união. Consternada, teve D. Estefânia que indicar o baú medieval onde arrecadara as grandes caixas que Dinisa tirou. João, todo feliz, estava perto dela.

Havia naquelas caixas estudos à maneira de Besnard (obras de um amigo de Fargés) representando paisagens indús; cidades rosadas, abandonadas, e que se diria feridas de encantamento no fundo de florestas milenárias; templos esculpidos de dragões, oceano Índico de um azul de centúria. Batia o coração de Dinisa descompassado, ao reconhecer aquelas vistas. Mostrara-lhas ele com calorosos comentários, em Paris, no atelier, no luminoso tempo da sua felicidade!

D. Estefânia, que afuroava em outras caixas, disse de repente:

— Ora, aqui está uma bela moldura! Não me dá, João?  O senhor cura ofereceu-me um Sagrado Coração, colorido, uma maravilha! Queria colocá-lo aqui dentro.

— Mas é um retrato, disse Dinisa, assustada com vandalismo da boa velha.

Era, com efeito, o retrato de uma adolescente, de boca infantil, olhos eloqüentes, água sombria e fogo, olhos de cigana. Tinha a fronte bela das estátuas antigas, feita para suportar o peso de altaneiro destino, e, na graça elegante, parecia brotar da tela.

João, com os dedos, reconheceu o quadro e disse:

— Ah! É Dzinn... (romance de Yvonne Schultz)

— Quem é Dzinn?  Perguntou Dinisa, tomada já de secreto ciúme.

— Uma moça cujo retrato fiz durante umas férias de convalescença.

— Pousou ela muitas vezes?

— Nunca. Morreu tragicamente alguns dias antes da declaração de guerra e servi-me de uma fotografia que o conde Guy de Lusigrére — seu noivo, creio — me emprestara...

— Então como lhe deixou ele este retrato?  Perguntou D. Estefânia admirada.

— Ele morreu em Verdum, respondeu gravemente o moço, e tinha-me recomendado que, em caso de acidente, destruísse este quadro, que eu queimarei pois, qualquer dia...

— Não fará isso... Disse vivamente Dinisa.

— Eu o farei senhorita. Um drama misterioso compreendi-o, quebrou o amor desses dois jovens e devo respeitar a vontade de um morto...

Calou-se, manejando com fraternal doçura o retrato sombrio e claro votado ao aniquilamento, como Dzinn e Guy já se tinham aniquilado para sempre. Mas... Não eram mais felizes que ele?

A tudo isso, D. Estefânia agitava-se. Não pelo quadro, porque prometia a si própria salvar sua moldura na ocasião do auto de fé e apenas isso a interessava. Outra coisa irritava-a: ia seu primo contrair o hábito de contar histórias à leitora?  Não sabia como interromper a palestra, e não pôde ocultar a alegria ao dizer de repente:

— Batem! É hoje quinta-feira, deve ser Maria, que já está de volta!

— Ah! Maria! Disse João com interesse, aprumando-se. Ela me vai fazer música.

Ele adorava a música desde que cegara. Dinisa, que ignorava essa nova disposição de espírito, jamais se oferecera para tocar, e nem Estefânia nem ele, supunham que a vendedora da senhora Bremond pudesse ser boa pianista.

Ora, Maria era cada vez mais hábil. Não lhe pedissem calor, nem compreensão original das obras primas, mas tocava com muita correção. Ouviam-na já entrar em casa. Um minuto e Dinisa, gelada, via-a aparecer e João levantar-se para ir-lhe ao encontro.

Sua rival. Acabava de passar seis meses na montanha e João acolhia-a hoje com mais boa vontade ainda, porque, bem o compreendia ele, vinha arrancá-lo de um perigoso encantamento. Sentia-se feliz por vir alguém ajudá-lo a se recuperar e, volúvel, tratando de se aturdir, de se desembaraçar completamente da deliciosa embriaguez em que quase se sepultara de repente, dizia a Maria ao tomar-lhe das mãos um rolo de músicas:

— Você não esqueceu o desgraçado que tem sede de harmonia?  Ah! Deixe-me apresentar-lhe a senhorita Solange Parny, leitora. Você vê Maria, tive finalmente pena dos olhos da minha pobre Estefânia!

Maria! Ele chamava-a Maria! E falava-lhe alegremente. A senhorita Chaslier envolveu num olhar frio a “leitora”, que se inclinou levemente, enquanto D. Estefânia dizia:

— A senhora pode ir dar um passeio, senhorita Solange.

— Sim, sim, não a retenho mais tempo. Vá aproveitar o sol, disse vivamente João.

Sentia o desejo de vê-la afastar-se, cessando de misturar o passado ao presente; queria também que ela pudesse passear à vontade. Dinisa não viu nas suas palavras senão uma despedida disfarçada e, desanimada, aterrada, humilhada, saiu...

Tinha sido a eleita, era jovem, bonita, rica e cedia o passo a uma recém-vinda, sem graça e sem bens da fortuna e por certo menos apaixonadamente enamorada que ela por João Fargés.

 

O AMOR FAZ PASSAR O TEMPO...

Era a queda das folhas...

Quem não conhece a melancolia dessa lenta chuva de ouro e de ferrugem pelos caminhos arborizados?  As chuvas do outono deixaram visguenta a terra negra, e o pálido rosto do inverno parece surgir por toda a parte entre os ramos despojados. É a época em que as casas atraem como refúgios, em que a natureza fustiga o viandante com o vento pejado de ameaças de neve.

Mas, no Sul, quando os belos plátanos perdem as folhas ambreadas, nenhuma tristeza se exala das coisas, porque parece que eles se despem apenas para que melhor reine o tépido sol de inverno. Além disso, todas as outras árvores conservam o seu tosão vegetal; agulhas dos pinheiros inumeráveis, palmas das fênix, folhagem leve das pimenteiras, das mimosas, dos verdes carvalhos, e o sorriso pródigo das flores multicores, predizendo para novembro uma nova primavera.

Dinisa era quase feliz.

Pouco via João, mas, ao menos, nenhuma outra pessoa lhe fazia companhia, e Maria fazia apenas raras aparições. Dinisa compreendia agora que quando ele a obrigava a passear, não era unicamente para afastá-la, mas por cuidado também de sua saúde. Talvez, até, esperava-o ela ao menos, ele se privasse assim de sua companhia.

Por seu lado, D. Estefânia, para não a deixar nunca só em casa com o sobrinho, levava-a em todas as suas excursões. Não era transcendente a conversação da boa dama, e mostrava às vezes pontos de vista mesquinhos, mas esses passeios faziam-na conhecer a cidade. Iam ao cemitério de Cimiez onde estavam enterrados os pais de Fargés, num túmulo muito cuidado, ou à casa dos fornecedores da Sra. Estefânia.

Porque, muito maníaca, ela não comprava manteiga senão em “tal” casa, bem no extremo da cidade, em um vale encantador pela selvageria, das rosas silvestres e da verdura lustrosa. Quanto ao sabão, não havia outro igual ao de certo negociante da cidade velha, numa lojinha medieval perdida num dédalo de ruas estreitas e íngremes.

Em suma, passava o tempo e Dinisa enchia-se de paciência. Não tinha de provar a João que amava e conhecia sua vida, tendo-a vivido algum tempo perto dele?

Na verdade, o que ela chamava sua “paciência” não era o atavismo herdado de seus antepassados orientais?  Não era — sem que ela o suspeitasse — aquele fatalismo muçulmano que deixa agir o tempo e não mete o dedo na engrenagem dos acontecimentos senão quando lho aconselha o instinto?  Nós outros, ocidentais, tomamos sempre a vida pela gorja para domar... O fatalismo oriental não é muita vez a suprema sabedoria?  Há às vezes perigo em apressar um desenlace e têm menos sabor os frutos cuja maturação foi forçada.

Vinda para cumprir uma obra de persuasão, Dinisa era soberanamente sábia deixando agir o tempo, e era a alma das sultanas dóceis e dos sheiks — tão resolutos e tão pacientes — que revivia nela...

Entretanto, à medida que corriam os dias, admirava-se a moça da frieza persistente de Fargés, não achando explicação para que lhe testemunhasse tão gelada polidez. Não via a tortura que infligia ao moço, tortura que ele previra, e que cometera a imprudente loucura de desejar!

Positivamente, desde a chegada, arrastava-o Dinisa sobre brasas, supliciava-o, recordando-lhe o impossível. A ferida, tão mal cicatrizada, reabrira, para não mais sarar. Embriagava-se com a própria dor, saboreava-a como peçonha mortal e deliciosa, envenenava-se com ela, como certos mendigos entretêm as chagas com ervas.

Não sabia se devia odiar Solange ou amá-la, e ora aborrecia-a por não ser a outra, ora considerava-a uma usurpadora; ora, enfim, enternecia-se, pronto a cerrá-la fraternalmente sobre o coração, para ressuscitar os dias de outrora, os dias daquela primavera desaparecida, em que tinha nos braços Dinisa, perfumada e flexível como uma braçada de flores...

Estas alternativas esgotavam-lhe os nervos, que a contínua irritação tornara hiper-sensíveis. Muitas vezes, censurava consigo mesmo esses saltos de humor, sem que os pudesse reprimir. Já não era o homem sombrio e resignado do estio precedente, mas um desgraçado que lutava para não ser enganado por uma miragem, e que ocultava sob a altiva máscara o desatino do coração ulcerado.

Como poderia Dinisa adivinhar, na sua ignorância do coração masculino, a complexidade daquele qui pro quo, e saber que, quanto mais meiga e semelhante a Dinisa era ela, mais se revoltava o moço contra seu encanto, censurando, enfim, a si próprio, como uma infidelidade para com o seu único amor, suas veleidades de enternecimento pela leitora!

Uma tarde pensou a moça que, visto que o Sr. Fargés gostava de música, devia oferecer-se para tocar.

Era perigoso porque, geralmente, João preferia aos trechos lentos e graves que ela podia tocar, os presto brilhantes que sacodem como uma risada e exigem velocidade que já não possuía, e estudos diários, cuja monotonia não podia impor ao moço. Contudo, aproveitando a ausência dele, agora à beira mar com a prima, arriscou-se. Com efeito, D. Estefânia instalou o moço sob os pinheiros da praia e ia assentar-se quando se lembrou de uma barrela que tinha de mandar Devota fazer.

Deixando lá Fargés, tornou a subir a toda a pressa para a vila; ao aproximar-se ouviu o piano e finalmente viu Dinisa a tocar. Teve um abalo!

Nada conhecia de música, mas teve mesmo assim a intuição de que a execução tão expressiva da moça seduzia como um canto sem palavras; contrariou-a aquilo.

Pois que! A leitora ousava ter o mesmo encanto que Maria! Era preciso, a todo o preço, deter aquela onda intempestiva de harmonia!

Mas, seria prudente mostrar-se rabugenta?  Magoada, talvez a moça procurasse obter o parecer direto de João.

Reclamava a conjuntura alguma diplomacia, e ela não falava a D. Estefânia. Refletiu depois se iluminou a carinha de doninha asseada, e, toda sorridente, entrou na sala.

— Como a senhora toca bem, D. Solange, disse alegremente.

Suspendeu-se Dinisa, admirada da amabilidade da velha dama. Acrescentou esta, em encantadora confissão:

— Gosto muito de música, e será preciso que a senhora toque para mim de vez em quando...

— Decerto, senhora, disse Dinisa, surpresa e encantada.

—... Quando estivermos sozinhas, acabou D. Estefânia baixando confidencialmente a voz, porque, a senhora sabe meu primo não gosta muito de música, e Maria Chaslier, apesar do seu grande talento, basta-lhe amplamente... Diz ele.

Sentiu Dinisa que empalidecia e voltou a cabeça.

— Eu, que adoro o piano, desde que a ouvi do jardim, isso me deu prazer; mas João... Ele não é como eu... E encarregou-me de lhe pedir... Não é...

Aquilo se tornava difícil de dizer. Ora, pensou Dinisa que, na verdade, manifestara João o desejo de que ela se calasse, e, muito fria, replicou:

— Mas, eu me absterei de boa vontade, minha senhora!

— É isso, durante algum tempo ao menos... Ele está tão nervoso, tão estranho...

E continuava a envolver a mortificação que impusera em mil gentilezas verbais que Dinisa nem escutava, dizendo consigo aterrada: Não gostará ele verdadeiramente senão da música de Maria por causa de Maria mesma?

E, desde esse dia, nunca mais pôs as mãos no piano..

Vinha Dinisa só, por uma tarde, de volta da costureira, à Rua do Paraíso, e flanava pela avenida de Verdum.

Anoitecia. Era a hora deslumbrante das vitrinas.

É Nice ainda mais elegante que Paris, por causa da sua tepidez, que permite passear a pé, pelas alamedas, os grandes mantos de zibelina abertos sobre vestidos de rendas e colores de pérolas. E os armazéns, sucursais dos da capital, deles recebem a flor de suas jóias, bordados e riquezas. Numa extensão de duzentos metros, é uma acumulação de tesouros, como se um marajá da Índia ou um sátrapa da Pérsia antiga ostentassem subitamente, para alegria dos olhos, todas as gemas de seus cofres.

Menos sensível era Dinisa às jóias que aos trabalhos delicados dos esmaltes e avelórios expostos na casa Macquet ou na vitrina de Mappin e Webb. Esquecia as mágoas, na contemplação daquelas leves obras-primas.

Detiveram-na, porém, as flores de Calisté...

Jóias, elas também, jóias viventes, esmaltes que respiram, luminosos, coloridos, cheios de graça divina. Evoca o armazém, com seus mosaicos azuis e bancos de mármore, um átrio da Grécia de Phídias.

Dinisa entrou.

Certamente D. Estefânia, sempre à espia de suas compras, ficaria escandalizada por comprar rosas daquele preço, e, com toda a justiça, não podia a moça levar a mal, porque a boa dama ignorava a verdadeira situação da “leitora”.

Tanto pior; ela tinha necessidade de pôr em seu quartinho aquelas rosas brilhantes, dum tom ardente de vida, e cujo aroma mesclava a finura do chá ao perfume quente do incenso.

E, uma vez dentro, soltou Dinisa uma exclamação, a que respondeu um “hulow” sonoro e alegre de Daffodil Craig; acompanhava-a a mãe, arrebicada e cheia de pérolas como uma rainha no dia da coroação.

— Querida darling, como vai você?  Há muito tempo aqui?  Sozinha?  Oh! Fique assim. Toda esbelta e negra como um cipreste você faz ressaltar todas as rosas!

Era bem aquela a fantasia Daffodil. Sentindo-se levar na mesma alegria comunicativa, respondeu-lhe Dinisa:

— Obrigada, você é encantadora, eu sou o contraste delas!

— Ah! Darling, você compreende o que quero dizer. Há coisa mais elegante do mundo, mais distinto, que um cipreste como se vêem nas colinas toscanas?

— Você vai lá, sem dúvida?

— Venho de lá. Eu e a mamãe, que você conhece, passamos cinco dias em um palácio de ratos e de frescos, darling, um palácio sem sala de banhos, mas coroado de vinha rústica. E você, vem comprar rosas, sem dúvida?  Como eu, veja, tenho também violetas!

Ela e a senhora Craig levavam ao cinto enormes ramalhetes. Esta disse:

— Anda sozinha?

— Sim, respondeu Dinisa, certa de que isso não assustaria americanas. Habito Nice... Em casa de amigos.

— Pois bem, venha tomar chá connosco no Ruhl, onde nos hospedamos, convidou Daffodil. Venha querida, tenho tantas coisas a dizer-lhe... Agora que Dinisa cipreste está florida de rosas, saiamos, o auto espera à porta.

O automóvel dos Craig era longo, macio, aquecido qual mole alcova. Em poucos minutos estavam no Ruhl.

Dinisa não vira ainda nenhum dos lugares elegantes de Nice. Gostou imediatamente da sumptuosidade amortecida do hotel, onde nenhum esplendor berrante deslumbrava o olhar. O estuque, as cornijas, os frisos de gesso, os doirados que abundam nos palácios, cediam o lugar no vasto vestíbulo a colunas geminadas de mármore cor de flor de pessegueiro. Muito pouco ouro e o reflexo disperso de altos espelhos, divididos como os da época de Luís XIV. Belos tapetes cor de coral, o zum-zum discreto de multidão bem educada, o serviço silencioso, formavam um conjunto de gosto severo e requintado que agradou à donzela.

Daffodil alcançou uma mesa meio cercada por um paravento, e as três mulheres sentaram-se.

— Sinto-me tão feliz por tornar a vê-la, darling... Porque você não escreve quase nunca para o colégio... Deixei o instituto há três semanas, e tenho muitas notícias para lhe dar.

— Eu escuto, confesso nada saber...

— O ilustre senhor Lépervier pediu, no mês passado, Odeta Grafeuil em casamento.

— Isso estava previsto! Não foi em vão que ela tomou a sua maneira. Realiza ele um belo sonho, e ela deve exultar...

— Nada disso, minha querida, Odeta Grafeuil recusou, altivamente, casar com um professor sem talento. São suas próprias palavras. E o senhor Lépervier deixou o instituto, para não mais voltar.

Depois, receando que esta narração fizesse alusão às metamorfoses de Dinisa, acrescentou às pressas:

— Em troca, a senhora de Monfermeil, nossa venerável diretora, em pessoa, torna a casar.

— Oh! Mas... Com quem?  Não com o senhor Lépervier, creio...

— Não, com um conhecido oculista, o doutor Thiet... Parece que se encontraram pela primeira vez no hotel Meurice, nos aposentos de seu pai...

Dinisa estremeceu. Lembrava-se da noite da chegada do pai, da presença do doutor Thiet, da sua desastrada intervenção, que destruira, talvez para sempre, a felicidade de Fargés e a sua. Tremeram-lhe as pálpebras, e Daffodil, perturbada, percebeu que acabava de dar nova cinca. Muito triste, resolveu lançar-se em uma digressão sobre modas, e passou a tratar de fazendas.

Escutava-a Dinisa com prazer. Sentada entre Daffodil e a mãe, naquele quadro luminoso, embalada pela orquestra, esquecia de repente a angustiada tristeza de sua vida.

Em frente dela, entre duas colunas, um cartaz florido anunciava a festa das rosa. Não viria ela jamais a uma dessas festas com Fargés, seu marido, arrancado por ela à vida morna que lhe impunha D. Estefânia?

Doía-lhe ver a velha senhora tratar o moço como um octogenário, passeando-o ao sol a passinhos prudentes, andar lento que o enfraquecia; não lutava contra a anemia que, à falta de exercício, espreita os cegos. E esse exercício com algum engenho, se lhe podia ministrar. Quisera Dinisa fazê-lo caminhar todos os dias, a passo de ginástica, sobre uma superfície perfeitamente plana e bem conhecida dele. Isso fustigar-lhe-ia o sangue vivificando-o. Voltaria à casa alegre, animado. Os cegos devem ser tratados como cegos o menos possível.

Veio arrancá-la bruscamente às suas reflexões um rufar de tambor, e extinguiu-se a luz elétrica; afogou-se na sombra o grande vestíbulo de mármore, célebre em toda a região.

— Que aconteceu?  Perguntou ela admirada. Um desarranjo na eletricidade?

Sacudindo a cabeça emplumada de penachos, que lhe davam um ar de linda selvagem, respondeu Daffodil rindo:

— Minha querida, vai-se executar a dança das pérolas luminosas.

— Luminosas? Não compreendo...

— Você vai ver.

Acorria ao palácio toda Nice, a ver este número, e a espera eletrizava as curiosidades. Já muitos, para melhor verem, subiam às cadeiras, sem respeito pelo brocado... Um refletor projetou sobre o lajedo de mármore branco um jato resplandecente, e apareceu a dançarina.

Grande, pernas longas e finas, rosto infantil de olhos vivos de japonesa, estava toda vestida de uma rede de pérolas róseas que lhe acompanhavam os passos dum murmúrio muito doce, perceptível, apesar da música. Mas não era essa a atração prometida.

De repente, extinguiu-se o projetor, toda a sala ficou escura, e brotaram as aclamações, porque, naquela treva, só as pérolas luziam, com um fogo sem raios, verde cor de absinto, sulcos de luz saltitante na obscuridade, como se revestissem um espírito demoníaco e invisível, ou, talvez, a sombra da Sulamita do Cântico dos Cânticos, dançando, banhada de luar, diante do rei Salomão... Era a dança do Rádium.

A multidão palpitava.

Súbito, reapareceram as luzes, foi-se a dançarina; recomeçou a tagarelice, e, no espírito de Dinisa, uma pergunta surgiu: que dizer às Craig?  Agora, que pessoas razoáveis podiam julgar sua escapada, parecia-lhe esta absurda, insensata, incrível. Não, jamais ousaria confessar a que situação falsa a arrastara sua ternura repelida. De todo coração desejava que Daffodil, arrebatada pela própria loquacidade, pela narração de seus namoros, se esquecesse de lhe perguntar em casa de quem se hospedava, e, sobretudo, não se oferecesse para ir vê-la à casa de seus pretensos amigos...

Corria o tempo. Afinal parou a orquestra, deixaram os músicos seus instrumentos, terminara a hora do chá. Dinisa levantou-se.

— Daffodil tenho que ir, tenho que dar ainda algumas voltas...

— Oh! darling, acompanho-a.

— Mas não, Daff... Balbuciou Dinisa desnorteada.

Felizmente, a própria senhora Craig veio tirá-la do embaraço:

— Daff jantamos hoje em Cannes, você bem sabe como os Scott são pontuais: ainda temos de nos vestir... Na verdade, é preciso ficar.

— Mas tornarei a vê-la, Dinisa?  Interrogou a americana.

— Sim, eu voltarei sem demora aqui, replicou rapidamente Dinisa.

— E tome o auto, que vai levá-la à casa de seus amigos. Onde está?

Ia Dinisa responder vagamente, mas aproximaram-se dois moços de Daffodil e da mãe, dois namorados: a americana, confiscada, não esperou a resposta da amiga. Recomendou-lhe somente que tomasse o auto, acompanhou-a a carruagem, depôs-lhe nos joelhos seu ramalhete de rosas e a moça partiu.

— Ao vértice do monte Boron! Disse ela ao chofer pelo tubo acústico.

Reaquecida, embriagada pelo odor das rosas, pensando nas narrativas variadas de Daffodil, achou o trajeto curto. Mas um instinto determinou-lhe que fizesse o chofer parar antes da Vila Azul. Chegando diante da estrada transversal, pediu-lhe que parasse e desceu.

Projetavam os faróis do auto uma luz tão cegante, que, fora da zona esclarecida, à sombra parecia duplamente densa. Ao descer, não viu, pois Dinisa, parada para lhe dar passagem, D. Estefânia em pessoa. D. Estefânia que, de boca aberta, a reconhecia e verificava que ela punha na mão do chofer uma cédula azul!

O auto desapareceu, e Dinisa ganhou a vila, seguida de perto por D. Estefânia.

Subiu imediatamente ao seu quarto e pôs na água as rosas adoráveis; os painéis cinzentos, as gravuras graciosas, a elegância discreta do mobiliário, tudo foi iluminado pelo reflexo das flores resplandecentes.

Desceu depois ao salão, e, do vestíbulo, ouviu a voz sufocada de D. Estefânia dizer:

— Sim, meu filho, uma limousine principesca! Ela tem na verdade relações importantes, a nossa leitora!

João, que, à fé de sua prima, julgava Solange feia, não fez mau juízo desse fato, e replicou, erguendo um pouco a voz:

— Isso prova que ela conhece aqui gente rica.

— Enfim, confessarás que é excessivo!

Dinisa estremeceu. Dada num tom médio e amortecido, a resposta de João não lhe podia chegar, mas o timbre agudo de D. Estefânia atravessou de novo a leve parede:

— Mostras na verdade muita paciência! Pois quem tem amigos em tão boa posição, que vá procurá-los!

— Tua tia?  Ela não nô-la confiou, em suma; a senhorita Parny está colocada aqui como estaria noutra qualquer parte. Fica tranqüilo, é bastante esperta para se tirar de apuros!

— Dizes que ela não te incomoda! Mas tu não te vês desde que ela está aqui. Não és o mesmo. Tornaste-te nervoso, irritável. Cada vez que ela aparece, passa-te uma contração pelo rosto. Há nela alguma coisa soberanamente antipática, que te não escapa, e não podes dominar a impressão desagradável que ela te causa!

— Não te é antipática?  Porque, então, ficas muitas vezes tão pálido quando ela fala?  Porque crispas os punhos?  Perguntou D. Estefânia, longe de imaginar evidentemente a causa verdadeira daquelas manifestações de padecimento. Porque, enfim, lhe foges tão visivelmente?

— Não devemos, por causa de tua tia?  Seria falta de educação, para com ela, dizes. Um lindo presente, o que ela nos fez! Podia ter escolhido melhor, em todo caso! Então, por escrúpulo de cortesia, tu te infliges a presença dela?  Primeiro, pois que D. Solange tem amigos tão graúdos, poderia retirar-se para casa deles. Mas não, não falo em pô-la à porta deles! Como está suspeitoso, Senhor! Vou simplesmente interrogá-la, ver se ela não preferiria estar noutra parte a ficar aqui...

— Mas deixa-me, pois fazer sou mais esperta do que pensas. A senhora Bremond e Solange não desconfiarão de nada, e tu recuperarás a paz moral quando ela tiver ido embora.

A passos rápidos ganhou o vestíbulo e viu Dinisa, acabrunhada sobre uma banqueta.

— Ah! A senhora estava aí... Há muito tempo?  Perguntou ela num misto de alegria e constrangimento.

O orgulho reanimou a moça. Tranqüila, um tanto breve, respondeu:

— Acabo de chegar, e queria dizer-lhe que encontrei em Nice duas amigas, que me desejam ter consigo. Gostaria de ir esta noite...

— Mas certamente, respondeu D. Estefânia, um pouco vexada no fundo, por ter sido Solange a primeira a falar em partida. Estava persuadida de que a moça tudo ouvira, mas, apesar de tudo, sua vitória não era completa. Procurou uma frase irônica para ridicularizar a “generosidade” de uma moça que trabalha para viver, e dá “cédulas de dez francos” a um chofer! Mas, não tendo achado essa frase lapidaria e genial, afastou-se resmungando, enquanto Dinisa subia rápida ao seu quarto.

Na exaltação da sua dor, meditava. Fosse embora Solange Parny e não Dinisa Deléris a que tinham despedido nada mudava isso ao fato real. Tendo vindo para consolar, tinha, infelizmente, desagradado tão profundamente ao moço, que, não podendo vencer sua repugnância, despedia-a ele, como se despede uma empregada infiel!

Isso provava, acima de tudo, que Dinisa se tornara tão antipática a Fargés, que a que lha recordava, por pouco que fosse, tornava-se-lhe imediatamente odiosa... Acreditava-o ela.

Sufocada, opressa, sublevavam-lhe o peito soluços ruidosos, desesperados. Sentia desejo de gritar, de morrer; acusava o pai, causa de tudo, depois acusava João, que revelava fria crueldade, esquecido do amor, odiando a moça culpada... De não ter adivinhado a verdade outrora, no momento da ruptura.

Soluçava alto, como uma criança, abismada no desastre de seu sonho de bondade e de ternura, e, através das lágrimas, contemplava, posto sobre a comodazinha cinzenta de ornatos de turquesa, abaixo do quadro de Fragonard, o ramo de rosas, cuja beleza alegre parecia insultar-lhe a tristeza, a humilhação do pobre coração.

Esteve a ponto de soltar um grito, vendo de repente João diante dela.

Entrara sem rumor, e percebendo-lhe o sobressalto de espanto, disse:

— Bati... Pareceu-me ouvi-la dizer que entrasse... E, acrescentou, escutando assim sua intrusão, cego, isso me dá o direito de aparecer mesmo aqui.

Depois, como ela se calava, perguntando consigo mesma que novo padecimento ia ele ajuntar, continuou:

— Ouvi-a chorar ao passar no patamar, e venho pedir-lhe perdão da minha dureza. Sim, sim, fui injusto, mau, eu o sei, e, contudo, menos que qualquer outro eu tinha o direito de sê-lo! Perdoe-me, senhorita Solange, e acredite, sobretudo que não é à senhora, — pobre e boa menina — que eu quero mal. Sinto que minhas palavras devem parecer-lhe extravagantes... a senhora não pode compreender... Mas, sem o querer, traz-me tão cruéis recordações... Ainda uma vez, perdoe-me.

— Perdoo-lhe, murmurou ela num sopro.

Apoiava ele a mão ao mármore da cômoda, perto das rosas, a dois dedos da pasta de couro onde repousava sua própria fotografia! Continuou espalhada nos traços comovente bondade:

— Se me perdoa verdadeiramente, faça-me a graça de ficar!

— Oh! Não, isso jamais! Padeci demais aqui! Confessou ela num soluço.

— Está acabado, está acabado, disse ele, estendendo a mão, atraindo-a um pouco pelo braço. Tenho vergonha de mim mesmo, vergonha de ter feito padecer outro ente, só e sem defesa. Tenho remorsos que me não deixarão nenhum descanso se a senhora me não perdoa completamente, ficando.

Estava muito perto dele, sentia através do tecido da manga a mão do moço, e apoderava-se dela uma inebriante doçura, um desejo de deter o tempo, de ficar assim toda fraca e toda consolada, junto dele. Ah! Falar, dizer a verdade!

Veio-lhe a idéia num relâmpago. Mas a piedade do moço, sua humanidade, não se ia toda para Solange Parny somente?  Não lhe falava assim por considerá-la a outra?  Que lhe provava que a aversão dele por Dinisa diminuira em nada?  Não iria, falando cedo demais, quebrar por suas próprias mãos o frágil liame de piedade, de compaixão, de remorso, que a ligaria a ele?  Não queria ele, de agora em diante, resgatar a passada dureza com alguma benevolência?  Não ia ela tocar o fim?  Desmascarando sua verdadeira personalidade, arriscava-se a vê-lo se retrair, repelir em um movimento irrevogável — embora o lamentasse mais tarde — a felicidade que lhe vinha trazer?

Sabia-o nervoso, mais impulsivo que dantes, depois da provação, e cresceu nela o desejo de deixar àquela hora toda a sua tocante doçura, de não falar ainda...

— Não me responde?  Perguntou João com uma grande melancolia, enquanto os dedos se lhe fechavam um pouco sobre o braço da moça.

Ela estremeceu e disse, envergonhada da própria covardia, desesperada e feliz a um tempo:

— Ficarei!

Já ele a soltara, mas alcançando a porta a tatear, envolvia-a num olhar cego e benevolente. Não, nunca mais ela estaria exposta à sua frieza hostil, e, como se quisesse persuadi-la melhor, disse, num tom hesitante, de quem teme a recusa:

— Hoje... Quer a senhora me começar a leitura da Cartuxa de Parma?  É leitura para muitos serões...

Queria, com isso, sublinhar bem que ia começar uma vida nova: Não era a ocasião de conversar um pouco? Dinisa murmurou:

— Não gostaria também que lhe lesse o teatro moderno? Não ia dantes ao teatro?

— Mas sim, freqüentemente. A última peça que vi foi no Casino. O Novo Ídolo, de Curei. Conhece-a?

— Sim, e tornarei a lê-la com alegria. Mas confesso que não é a ciência para mim, pessoalmente, meu novo ídolo! Gostaria de viver no tempo da Renascença, quando a arte era o deus novo.

— Oh! A Renascença, disse João animando-se, foi a idade de ouro. A meu ver, foi Rafael o mais feliz dos mortais; morreu jovem, como aqueles a quem amam os deuses!

— Sempre tenho sonhado com Fomarina, disse Dinisa. Como Rafael a amava, e quão bela deve ter sido!

— Quando estava em Roma, ia muitas vezes à beira do Tibre, esperando sempre encontrar lá alguma das irmãs longínquas dessa Fomarina; estive até a ponto de apanhar a febre, porque o rio é palustre e pérfido...

— E encontrou enfim essa irmã ideal?

— Sim, creio-o; não foi no Trastevero, mas em plena campanha romana. Voltando um dia de Frascati, parei em um albergue. Havia ali uma mulher muito nova, descarnada, tremendo com a malária, quatro filhos ao redor da saia, outro ao seio, e, apesar da miséria e da febre, um perfil tão belo, que não podia despregar dele os olhos. Ela percebeu-o, e foi buscar um retrato, um estudo que lhe deixara há três anos um aluno da Escola Médicis.

Que perfeição! Julguei ver Juno aos dezasseis anos! Vivera naquele rosto, agora devastado todo o esplendor olímpico, e, a senhora vai rir de mim, D. Solange, senti lágrimas nos olhos, como diante de um sacrilégio, uma profanação ímpia. A Vénus de Milo, despojada dos braços, deve ter aparecido menos mutilada aos olhos dos que a descobriram do que aquela mulher augusta e miserável!

— Oh! Disse Dinisa comovida, ao tornar a encontrar naquelas palavras toda a requintada sensibilidade do João que tinha amado; que disse ela, vendo-o chorar?

— Tirou-me vivamente o retrato das mãos e disse-me num tom selvagem e apaixonado, que jamais esquecerei:

— Giulio, meu marido, ama-me e eu o amo! Havia naquele grito toda a felicidade do amor fiel. De nada se lamentava ela, pois que seu bem amado a amava... Ah! Onipotência adorável do amor!...

Iluminara-se-lhe o rosto. Assustada e trêmula, disse Dinisa baixinho:

— Como se sente que o senhor sabe amar, e como deve ter sido querido!

— João estremeceu. Desapareceu-lhe do rosto a luz, e disse muito depressa:

— Peço-lhe, senhorita, se me quer ser agradável, não faça jamais alusões ao passado.

No mesmo instante, a voz super-aguda de D. Estefânia se fez ouvir no rés-do-chão:

— João, gritava, o jantar está servido, tu não desces?

— Sim, sim, respondeu o moço com impaciência. Depois, voltando para Dinisa:

— Assim, está entendido, a senhora me fará a leitura, isso me arrancará um pouco a meus pensamentos. Faço mal em me comprazer na minha solidão. A gente acaba por amar mortalmente a própria dor!

— Está tão insulado aqui, ninguém o compreende, eu gostaria de ajudá-lo a sair desta monotonia moral, em que se deixa sepultar...

— Obrigado, a senhora é, eu o sinto, benfazeja e caridosa, recomendo-lhe somente que jamais me fale no que está acabado...

— E, contudo, começou Dinisa, fremente e resoluta, eu dizia-lhe...

— Então! João, não jantas hoje?  Disse uma voz perto deles.

Seca e crispada, aparecia D. Estefânia à porta, que ficara aberta, e o moço respondeu:

— Mas sim, eu vou, nós vamos. Depois, a Dinisa:

— Depois do jantar, senhorita Solange, recomeçaremos nossa conversa.

Apurou D. Estefânia o ouvido: depois do jantar?  E prometeu consigo estar lá!

João afastou-se, a porta tornou a fechar-se, o acaso tinha ainda uma vez selado os lábios de Dinisa. Ela, porém, já não estava triste. Enfim, quebrara-se o gelo entre eles, e, através dos cílios ainda molhados, via, reproduzido cem vezes sobre o pano de louy, o terno axioma: O amor faz passar o tempo.

 

FAZ O TEMPO PASSAR O AMOR?

Ainda, Maria, ainda o adágio, sim?  Pediu João curvando-se, instintivamente, para a pianista, que sorriu. Não pode imaginar quanto gosto deste doce e cruel adágio da sonata do Luar... Parece-me ouvir chorar uma alma dolente, que de tão desesperada não se pode lamentar ruidosamente...

— Vou recomeçar, disse Maria, tocando outra vez aquela primeira parte da célebre sonata, em que velada tristeza chora com grandiosa doçura.

Estirado numa poltrona, abandonava-se João ao encantamento pungente da música, e a harmonia trágica formava vivo contraste com o deslumbrante esplendor do dia, que entrava como um oceano de luz no vasto salão.

Dezembro tinha naquele ano brandos calores de primavera. As grandes janelas estavam abertas ao sol, que avivava as paredes, onde finas pinturas Diretórias espalhavam em profusão guirlandas, camafeus, umbelíferas, as minúcias encantadoras dum estilo inspirado nas decorações pompeianas.

O salão fora decorado pelo pai de Fargés, de volta de sua viagem de núpcias a Nápoles. Lembrando-se de uma excursão a Pompéia, a dos adoráveis frisos do triclínio da casa dos Vettii, aonde se vêem amores a vindimar, quisera reproduzir na sua própria morada os frescos arcaicos e, naquela decoração não destoava muito o piano de cauda, graças à sua capa de seda clara, e a um vaso de bronze esverdeado, cheio de ramos de mimosa.

Enfim, pelas janelas avistava-se o Mediterrâneo...

Inesgotável encanto das palavras! Desde séculos, as sílabas de “laranjeiras”, “primavera”, “vergéis”, derramam nas almas ondas de frescura! e aquele mar pareceria menos belo talvez, se não se soubesse que banha aqueles jardins da antigüidade de doces nomes: Egito de Cleópatra, Mitilene de Sapho, Itália, museu do mundo, para onde se voltam nossos sonhos. Aquele Mediterrâneo, tão carregado de passado, será para sempre adolescente, porque embalou a juventude do mundo, e, todas as manhãs, as ondas parecem trazer às praias mediterrâneas a mensagem de Afrodite, a abrasada anunciação do amor...

Tudo isso, dizia-o João de si para consigo, e comprazia-se, na sua noite sem fim, no encanto da música.

Seguindo a cadência, repetiu de novo, quando acabou o adágio:

— Quem se queixa assim no pensamento de Beethoven?

Dinisa, que bordava um quadro de filé sentada ao pé de D. Estefânia, disse docemente:

— Ouvi dizer que o que inspirou esta sonata a Beethoven foi a vista de uma jovem cega, e é o doloroso estupor que sentiu meditando na cegueira da moça que descreve nesta primeira parte.

— Ah! Disse João voltando-se para ela com animação, é então por isso que sinto tão estreita relação entre minha alma e esta música?  Sabia esta particularidade, Maria?

Sacudiu a moça a cabeça, coroada de pesada massa de cabelos lisos, luzentes de brilhantina, exalando cheiro forte e vulgar de rosa e almíscar. Ignorava a minúcia referida por Dinisa, e, imediatamente, sem deixar a João o tempo de falar mais com sua leitora, atacou o alegreto, que é vivo, arrebatado, como súbita reação contra a dor sombria.

Dinisa escutava-a. Sim, Maria Chaslier tocava bem, destacando cada nota, corretamente. Contudo, Dinisa não se sentia encantada. Parecia-lhe ouvir uma pianola. Também ela, outrora, aprendera aquela sonata do Luar; certamente não possuía o brio de Maria para as partes brilhantes, mas parecia-lhe que, ao apelo de seus dedos, o adágio tinha um acento mais cruel, bem mais humano.

Afinal, como poderia Maria ter muito sentimento?  Sentia-a a gente profundamente plácida, nervos serenos, incapazes de sobressaltos. Religiosa beatitude impregnava-lhe a alma, muito desprendida da terra para se inflamar com imaginações artísticas. Dinisa não amava Maria, sentia-a muito diferente de si própria, enfim, temia-lhe a influência sobre João. Mas não podia deixar de apreciar profundamente. Sabia-a devotada, heróica, se fosse preciso, acima do comum. Mas, justamente, Maria não poderia ser a companheira ideal de um artista, de um ente impressionável, de cujos súbitos entusiasmos ela não poderia participar, e, como ele, delirar de alegria porque uma forma de arte pura fora alcançada. Não a via ele, é certo, mas agradar-lhe-ia ao tato a seca rugosidade dos vestidos de sarja e aqueles grossos pulsos feitos para erguer um ferido sem fraquejar, aquelas fortes mãos, tão ágeis sobre o teclado, mas cujas unhas, cortadas rente, mais lhes acentuavam a forma quadrada, vigorosa, varonil?

Enfim, a não ser a música, Maria desinteressava-se por todas as artes em geral, e fazia esforços tocantes e inúteis para parecer que apreciava os gatos de argila de João.

Evidentemente, não via ela nenhuma utilidade em haver quadros nas paredes, estátuas nos socos, e quando queria dar mais sonoridade à sua execução, pegava no vaso de bronze coroado de flores encantadoras e o pousava prosaicamente, não sobre uma mesa, onde resplandeceria, mas no chão, a um canto, como faria a uma caixa de carvão. Sem a intervenção de Dinisa, é verdade, não haveria jamais flores na casa. Pretendia D. Estefânia que isso sujava, e Dinisa tinha, às escondidas, feito contrato com uma florista, que as trazia duas vezes por semana, por preço tão irrisório, — a pagava a diferença — pois João ordenara que sempre lhas comprassem.

Ele sim era sensível ao perfume de um ramo de laranjeira, redondo e cândido, em um vasinho de Delft, ou ao aroma dos cravos multicores. Descobrira, com o tempo, que era a leitora quem cuidava destas minúcias, e recompensava-lha com um sorriso amigável, que reaquecia o coração da moça.

Ademais, depois da grande cena, modificara-se a situação entre eles. Regularmente, depois do jantar, enquanto o moço repousava na sua longa estação de pé diante do barro, ela fazia-lhe a leitura. Depois de Stendhal, tinham começado as Lendas dos Séculos, e ambos se entusiasmavam nas mesmas passagens, repetindo à saciedade certas obras que os comoviam mais profundamente. Sabiam de cor Oceano Nox, trágico e selvagem como o mar bretão; de cor, aquela Ruth e Booz, pura, bíblica, imortal como um templo de mármore, e amava com o mesmo amor enternecido a pequena Infanta, de pé perto da fonte triste, uma rosa na mão...

Tinha, afinal, chegado ao teatro, que por virtude do diálogo, parece imiscuir diretamente o leitor na conversação dos heróis. Trocavam impressões. Encontrava João grande paridade entre seu espírito e o da jovem. Não tinha ela sempre opinião formada, e, nesse caso, escutava-o docemente, impregnando-se do seu espírito, atenta e fervente discípula.

Sim, havia nesses momentos uma distensão, comunhão deliciosa, que inebriava Dinisa para todo o dia seguinte, porque, da manhã à noite, ficava ele na ofici