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José Fanha

Júlio Pomar - Cegos de Madrid, 1957-59
Choro pelo destino daqueles que nasceram
sem destino:
os cegos de Madrid.
Choro pelos que arrastam uivos negros entre as sombras do passado
de Madrid. Pelos que dormem encostados aos portais metálicos do ódio. Pelos que vivem lambendo
a sinfónica memória da mutilação.
Choro pelos cegos de Madrid com a cor exacta da cegueira pendurada no pescoço por um fio.
Choro em Madrid pela saga esquelética dos gritos na húmida tortura
da grande escuridão.
Choro lágrimas escuras. Catadupas de lágrimas daquela castelhana escuridade que pingava das lâmpadas
na noite dos comboios da meseta.
Era um tempo de horários peganhentos. De bolor azedo. Era o terrível tempo das asas anavalhadas
nos ombros das crianças. O trágico tempo dos olhos arrancados
às óbitas das virgens. O arrastado tempo dos trajes bordados a lágrimas a pus e sangue coalhado. O miserável tempo das vísceras boiando em caixas de rímel e pó-de-arroz.
- Era o tempo dos cegos.
O tempo das lágrimas dos cegos.
O tempo dos cegos de Madrid.
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Sobre o quadro "Cegos de Madrid"
Júlio Pomar, 1957
Óleo sobre Tela Pomar, cruzando uma já digerida herança neo-realista com Goya e a paleta de Columbano, e sem abandonar o
referente, apropriava assim os expressionismos e gestualismos que dominavam nesta época a cena internacional no campo da pintura. Escolheu uma frase de James
Joyce como epígrafe para estes anos, 1959-66, «Fechemos os olhos para ver.»
O bloco piramidal negro amorfo, de onde surgem
enunciadas a branco as faces cadavéricas dos cegos e os recipientes para recolher esmola, impede qualquer individualização das figuras humanas. A impossível
orientação que procuram, apoiando-se na cegueira uns dos outros, torna-os uma massa que é, no entanto, a única forma reconhecível avançando no total informe que
constitui o fundo. Não se pode evitar recordar o quadro de Bruegel de 1568, Parábola dos Cegos, baseado no que Jesus diz aos Fariseus: «Quando um cego guia outro,
acabam por cair os dois no buraco» (Mateus 15:14). Em 'Os Cegos de Madrid' o espectador é, também ele, votado à cegueira face à queda iminente. in Centro de Arte Moderna Calouste Gulbenkian
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poema 'Os Cegos de Madrid'
in José Fanha, "Marinheiro
de outras luas"
Fonte: blog
Queridas
Bibliotecas [Jan. 2009]
16.Jan.2010
Publicado por
MJA
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