|
|
Vassilissa

Luzia vai para escola.
― Olha só o Carlos
engatinhando na calçada!
Será que está procurando
a bola?
― Oi, Carlos ― diz
Luzia.
― Au, au! ― respondeu
Carlos.
Não é Carlos nem nada. É
um cachorro.
Luzia se esforçava ao
máximo na aula. Mesmo
assim, a professora não
está satisfeita:
― Preste mais atenção,
Luzia! Veja bem no quadro-negro:
Estamos falando de bolas
e não de botas! E aqui
não é um 3 é um 5,
cabecinha de vento! Além
disso, não se debruce
tanto, não é com o nariz
que se escreve!
Todo mundo ri, menos
Luzia.
De volta para casa,
Luzia vê sua avó ao
longe.
Vovó mora numa cidade
distante, no interior, e
quase nunca aparece.
― Que bom! Vovó
chegou... Vovó!
E Luzia corre para se
atirar nos braços de sua
avó. Coitada! Não é vovó,
é uma desconhecida que
se parece com ela.
Quando Luzia percebe, já
está nos braços da
espantada senhora!
Marcelo, como todo o
irmão maior, zomba de
sua irmãzinha:
― Como é, Luzia, a
cabeça tá pensando
muito?
Quando fechar o livro,
não vá esquecer o nariz
dentro!
Mas o pai diz muito
sério:
― Não resta dúvida que
Luzia
se debruça demais sobre
os livros.
Será que ela enxerga
direito? Acho bom
levá-la ao oculista.
O consultório do
oculista é cheio de
aparelhos estranhos. A
menina fica
impressionada, mas até
que é bom sentir-se
importante... O oculista
examina os olhos de
Luzia, com muito
cuidado. Não dói de
jeito nenhum.
Luzia tapa primeiro o
olho esquerdo, depois o
olho direito, enquanto
soletra grandes letras
que ficam cada vez
menores.
― Muito bem, Luzia, já
acabou. Você é um pouco
míope, ou melhor, você
só vê direito de muito
perto... Não chega a ser
como seu pai, mais vai
ter que usar óculos. O
oculista rabisca alguma
coisa numa folha de
papel: é a receita.
Na rua, Luzia pergunta:
― Por que ele não me
deu os óculos?
― Porque ele é médico e
não fabrica óculos,
explica seu pai.
Vamos agora a uma ótica.
O balconista lê a
receita.
― Pois não. Vou
encomendar as lentes,
mas antes é melhor
escolher a armação.
Que tipo você gosta
mais? Temos vários para
escolher.
Luzia queria uma bem
redondinha. Sobretudo
bem resistente ― diz o
pai.
Luzia escolhe, afinal,
um par de óculos não
muito redondos.
O importante ― pensa
ela ― é usar óculos.
― Vão ficar prontos na
sexta-feira ― promete o
vendedor.
"Puxa! É bem complicado
usar óculos!" ― pensa
Luzia que contava sair
com eles em cima do
nariz.
Chega sexta-feira. Luzia
recebe os óculos e os
experimenta
compenetrada. Dão uma
coceirinha no nariz.
Apertam um pouco nas
orelhas. Ofuscam um
pouco a vista.
― Está tudo tão
engraçado! ― diz ela. E
pisca os olhos que nem
coruja à luz do dia.
Como ficou claro de
repente!
Lá fora, então, parece
que as coisas mudaram.
Tudo brilha como se
alguém tivesse encerado
a rua inteira.
― Que bom, mãe! Estou
vendo todas as folhas
das árvores, até as que
ficam no alto dos
galhos. E vejo também os
pardais bebendo água na
fonte. E as pessoas do
tamanho de uma formiga,
lá longe, no fim da rua.
Luzia vai de descoberta
em descoberta. Ela se
diverte lendo tudo o que
está escrito na rua:
letreiros, cartazes,
placas.
― Taí, não sabia que a
rua do padeiro se
chamava "Bola de Ouro"! E
eu que passo por ela
todo o dia!
Luzia está orgulhosa
porque anda de óculos
como seu pai.
Mal se reconhece no
espelho da entrada da
casa. Quer ficar séria,
mas não consegue deixar
de rir. Mesmo assim,
acha que se tornou muito
sisuda. Está doida que
chegue amanhã para
estrear os óculos na
escola.
É noite. As luzes se
acendem.
― Viu, pai, quando
estou sem óculos vejo as
luzes como manchas que se
misturam. E quando ponho
os óculos...
As luzes ficam pequenas
e brilhantes... como
cabeças de alfinete. É
assim também com você,
pai?
― É. Acontece o mesmo
comigo.
A gente descobre coisas
quando põe óculos pela
primeira vez.
― Luzia, agora está na
hora de ir para cama.
Amanhã você recomeça a
descobrir o mundo...
A menina faz que não
ouve:
― Da próxima vez que vovó vier aqui, vou
reconhecê-la de longe...
Ela é que não vai me
reconhecer com esses
óculos!
Luzia fecha as cortinas
de má vontade,
murmurando com ar
sonhador:
― Nunca pensei que o
céu tivesse tantas
estrelas...
FIM
ϟ
![DES LUNETTES POUR GUILLEMETTE - VASSILISSA [Amazon]](http://ecx.images-amazon.com/images/I/51oE63tsxfL._SL500_AA300_.jpg)
Óculos para Luzia
título original: Des
Lunettes pour
Guillemette - Flammarion
1975
autores: Vassilissa & Albertine
Deletaille (ilustradora)
tradução: Lúcia
Machado de Almeida
editora: Ática
7.ª edição
ano: 2004
15.Dez.2011
Publicado por
MJA
|