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 Sobre a Deficiência Visual


Óculos para Luzia

Vassilissa

imagem: meninadeoculos.blogspot.com

 

Luzia vai para escola.

― Olha só o Carlos engatinhando na calçada! Será que está procurando a bola?

― Oi, Carlos ― diz Luzia.

― Au, au! ― respondeu Carlos.

Não é Carlos nem nada. É um cachorro.

Luzia se esforçava ao máximo na aula. Mesmo assim, a professora não está satisfeita:

― Preste mais atenção, Luzia! Veja bem no quadro-negro:

Estamos falando de bolas e não de botas! E aqui não é um 3 é um 5, cabecinha de vento! Além disso, não se debruce tanto, não é com o nariz que se escreve!

Todo mundo ri, menos Luzia.

De volta para casa, Luzia vê sua avó ao longe.

Vovó mora numa cidade distante, no interior, e quase nunca aparece.

― Que bom! Vovó chegou... Vovó!

E Luzia corre para se atirar nos braços de sua avó. Coitada! Não é vovó, é uma desconhecida que se parece com ela.

Quando Luzia percebe, já está nos braços da espantada senhora!

Marcelo, como todo o irmão maior, zomba de sua irmãzinha:

― Como é, Luzia, a cabeça tá pensando muito?

Quando fechar o livro, não vá esquecer o nariz dentro!

Mas o pai diz muito sério:

― Não resta dúvida que Luzia se debruça demais sobre os livros.

Será que ela enxerga direito? Acho bom levá-la ao oculista.

O consultório do oculista é cheio de aparelhos estranhos. A menina fica impressionada, mas até que é bom sentir-se importante... O oculista examina os olhos de Luzia, com muito cuidado. Não dói de jeito nenhum.

Luzia tapa primeiro o olho esquerdo, depois o olho direito, enquanto soletra grandes letras que ficam cada vez menores.

― Muito bem, Luzia, já acabou. Você é um pouco míope, ou melhor, você só vê direito de muito perto... Não chega a ser como seu pai, mais vai ter que usar óculos. O oculista rabisca alguma coisa numa folha de papel: é a receita.

Na rua, Luzia pergunta:

― Por que ele não me deu os óculos?

― Porque ele é médico e não fabrica óculos, explica seu pai.

Vamos agora a uma ótica. O balconista lê a receita.

― Pois não. Vou encomendar as lentes, mas antes é melhor escolher a armação.

Que tipo você gosta mais? Temos vários para escolher.

Luzia queria uma bem redondinha. Sobretudo bem resistente ― diz o pai.

Luzia escolhe, afinal, um par de óculos não muito redondos.

O importante ― pensa ela ― é usar óculos.

― Vão ficar prontos na sexta-feira ― promete o vendedor.

"Puxa! É bem complicado usar óculos!" ― pensa Luzia que contava sair com eles em cima do nariz.

Chega sexta-feira. Luzia recebe os óculos e os experimenta compenetrada. Dão uma coceirinha no nariz. Apertam um pouco nas orelhas. Ofuscam um pouco a vista.

― Está tudo tão engraçado! ― diz ela. E pisca os olhos que nem coruja à luz do dia. Como ficou claro de repente!

Lá fora, então, parece que as coisas mudaram. Tudo brilha como se alguém tivesse encerado a rua inteira.

― Que bom, mãe! Estou vendo todas as folhas das árvores, até as que ficam no alto dos galhos. E vejo também os pardais bebendo água na fonte. E as pessoas do tamanho de uma formiga, lá longe, no fim da rua.

Luzia vai de descoberta em descoberta. Ela se diverte lendo tudo o que está escrito na rua: letreiros, cartazes, placas.

― Taí, não sabia que a rua do padeiro se chamava "Bola de Ouro"! E eu que passo por ela todo o dia!

Luzia está orgulhosa porque anda de óculos como seu pai.

Mal se reconhece no espelho da entrada da casa. Quer ficar séria, mas não consegue deixar de rir. Mesmo assim, acha que se tornou muito sisuda. Está doida que chegue amanhã para estrear os óculos na escola.

É noite. As luzes se acendem.

― Viu, pai, quando estou sem óculos vejo as luzes como manchas que se misturam. E quando ponho os óculos...

As luzes ficam pequenas e brilhantes... como cabeças de alfinete. É assim também com você, pai?

― É. Acontece o mesmo comigo.

A gente descobre coisas quando põe óculos pela primeira vez.

― Luzia, agora está na hora de ir para cama. Amanhã você recomeça a descobrir o mundo...

A menina faz que não ouve:

― Da próxima vez que vovó vier aqui, vou reconhecê-la de longe...

Ela é que não vai me reconhecer com esses óculos!

Luzia fecha as cortinas de má vontade, murmurando com ar sonhador:

― Nunca pensei que o céu tivesse tantas estrelas...


FIM

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DES LUNETTES POUR GUILLEMETTE - VASSILISSA [Amazon]

título: Óculos para Luzia
título original: Des Lunettes pour Guillemette - Flammarion 1975
autores: Vassilissa & Albertine Deletaille (ilustradora)
tradução: Lúcia Machado de Almeida
editora: Ática
7.ª edição
ano: 2004
 


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15.Dez.2011
Publicado por MJA