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Isabel Maia Jácome

Walter Heckmann, 1991
Desceu as escadas no aparente e necessário vagar dos cegos…
Estacionada vi-a passar em linha recta tacteando o espaço do caminho, chocando devagar os carros, procurando o espaço entreaberto por onde passar…
Confesso que quase saí carro fora, quando a vi atravessar…
…mentalmente, linha recta…
De encontro aos contentores, contornou-os lateralmente, tacteando, tacteando
sempre o espaço, e de novo, rectilineamente em frente.
Mais uma vez, contive o impulso visceral de sair do carro, auxílio imediatista
que, ponderado, me pareceu vão…. e mantive-me no assento, quieta, numa observação irresistível, atenta.
Linha recta depois da estrada e contentores, o ponto médio da parede do edifício
central do largo.
Iria contorná-lo. Pela direita? Pela esquerda?
Optou pela direita…
….a contornar o edifício seguiria pela parte mais estreita do passeio, ao invés
do espaço pedonal do largo, amplo e mais seguro…. para um cego, claro…. porque inconscientemente traçara-lhe um rumo, indefinido, mas um rumo para lá do
edifício. O outro extremo do largo?
Tacteando a parede, prosseguiu na sua calma de percepção de tacto…. e, contida no
meu assento, perdi-a num simples virar de esquina.
Impressionada com a visão, da medida de cada passo necessária a um cego, cogitava a concentração a que a imagem me levara.
Todo o meu aceleramento do dia, parara… a acompanhar cada passo como se fora
meu.
Tacteei com ela o caminho… quase consegui a atenção devida ao agora, tacteando…
…quase… porque enquanto via… expectava, pensava e divagava, para além da
concentração necessária à direcção.
Perdida nestes rumores de pensamento, passou tempo sem tempo e só me reacendi acordada, quando voltei a vê-la de regresso, com uma criança pela mão.
Pequenina, enfrentava com naturalidade o caminho… lento, no tamanho dos seus
passos e do necessário tacto da mãe que lhe permitia parar a cada degrau que precisasse, ou a cada curiosidade que o caminho lhe despertasse… próprio da
criança, não cega, atenta ao mundo e ao que a cerca a cada momento de agora… e próprio da cega, atenta ao tacto, e à percepção do mundo que lhe julgamos
vedado.
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'Necessário vagar dos cegos…'
blog 'Escrever por dentro'
publicado por Isabel Maia Jácome
01/12/2015
4.Mai.2016
Publicado por
MJA
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