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 Sobre a Deficiência Visual


A Nau de Quixibá

Alexandre Pinheiro Torres

-excerto-

Blind Kristian Outside His House - Michael Ancher, 1864-1920
Michael Ancher, 1864-1920
 

«Naufrágios, naufrágios e mais naufrágios, dir-se-ia. E é nessa paragem das rotas do Passado que o Filho tem a revelação duma pátria mentida. Pertence a uma juventude tatuada com o S de Salazar em ferro hitleriano, traz dentro dele sebastianismos, flâmulas ópios da História, porcarias. Contudo, é sobre o padrão e as ruínas que a sua crise de identidade se declara - ali, onde o esperavam a paternidade e o amor. Já sei -penso- é nau de Quixibá.»  José Cardoso Pires


Esticou o braço para o seu lado esquerdo donde o pobre do sol, moribundo, ainda fulgurava nas suas barbatanas rápidas.

"Vou-te contar uma história. Havia aqui um homem quase cego desde nascença. Tanto lhe minguava a luz que, para ele, quem lhe falasse surgia-lhe como uma mancha equilibrada no alto de um varapau de palavras. Antes de o conhecer não acreditava que um cego pudesse ter confiança fosse no que fosse. Sempre dissera a mim próprio: "os cegos são as pessoas mais inseguras do mundo". com os anos descobri que me enganava. O cego de que te falo nunca tivera qualquer receio em atravessar as ruas de S. Tomé. Caramba!, sempre há algum tráfego! Mas se fosse forçado a cruzar uma das ruas da Baixa de Lisboa, caso estivesse a elas afeito, não seria por se lhe deparar mais movimento que se mostraria mais aflito. Possuía, desde o mais fundo de si, uma confiança absoluta no poder da bengala às listas brancas e negras. Um dia perguntei-lhe: "Você não tem medo dos perigos?" Voltou para mim os olhos parados (eu seria apenas mais uma mancha, apenas com voz diferente), e contestou-me: "Que perigos?" O homenzinho mostrava-se surpreendidíssimo. "Ser cego", disse-me, "também tem as suas vantagens. Não posso ter medo daquilo que não vejo." Era tão óbvia a minha incompreensão do mundo do cego que insisti: "Você não tem, por exemplo, medo das alturas?" Ele riu-se: "Oh!, meu bom senhor!, então vossemecê julga que eu vejo as alturas?" Olha, meu filho, fiquei com cara de parvo, mas, como ele não podia ver-me a cara de parvo, aguentei firme."

Aqui foi acometido por um prolongado ataque de tosse: "mas que grande chatice!". Entrelaçou os dedos das mãos (notei que a aliança lhe estava larguíssima), e deteve-se à tona de um sorriso que realmente era só água:

"E depois?", perguntei-lhe.

Queria animá-lo a mudar de assunto: ressuscitar o sol.

"Bom. Um dia soube-se que vinha de Luanda um oftalmologista de fama passar aqui umas férias a casa de um irmão, aliás primo do Governador. Houve gente aí que aproveitou logo para consultá-lo, até eu, mas alguém falou-lhe do cego, porque o oftalmologista examinou-o e desde logo afirmou que aquele era um dos casos de fácil cura. O espanto é que o cego andava como doido. Perguntava a toda a gente: "Que vai ser de mim quando deixar de ser cego?" Um dia, encontrava-me eu na cidade, vejo-o parado à beira de um passeio. Não vinha qualquer automóvel, mas havia uma curva perto. Eu atravessei e ele ficou parado a olhar para todos os lados. Houve um momento em que pôs o pé direito na rua mas retirou-o logo: "Então você agora é que tem medo de atravessar?" Ele olhou-me e disse-me: "Reconheço-o pela voz. Já sabia que o senhor era pequeno, mas não julguei que o fosse tanto!" O cego, aliás o ex-cego, estava de boca aberta, e, nisto, diz-me uma coisa espantosa: "Oh!, meu senhor, afinal os cegos têm medo de ver. Pode surgir um carro dali da curva e eu não ter tempo de ir para o outro lado.""

"Um cego ter medo de ver", pus-me a rir. "Essa realmente é muito boa."

O meu Pai é que não ria.

"A história que te contei é uma anedota?", perguntou-me.

"Que é então?"

Olhava-o em desafio. "Então na história que te contei, aliás verdadeira, não há nada de terrível?"

"Terrível?"

Nem tentei procurar uma justificação para o adjectivo. Terrível, porquê? Mais valia considerá-la uma história de fadas. Imagine-se!, um cego com tanta sorte que lhe aparece um oftalmologista, como que caído do céu, e que torna a ver, quando há muito já perdeu as esperanças. Então enchia-se de medo de ver. "Medo de ver?" Era de escachar a rir.

"E que tal um paralítico com medo de andar?", ripostei, folgazão. "E um surdo com medo de ouvir? E um mudo com medo de falar? E um morto com medo de viver?"

Ria, claro, para me vingar. Também precisava de o ferir. Ele não achava piada nenhuma. Só murmurou, quase inaudível: "E um cérebro com medo de pensar?" Voltou-se para mim:

"Então tu não percebes que ninguém tinha ensinado o cego a ver? Puseram-lhe uma bengala nas mãos. A bengala tornou-se-lhe artigo de fé. Mas quem cuidou de ensinar-lhe como atravessar uma rua por si só, de olhos abertos, ele que sempre atravessara todas as estradas, pontes, picadas e vaus da ilha de olhos fechados, defendido pela bengala? Ele viera de um universo que conhecia. Do seu planeta de cego. Esse era o mundo que tinha aprendido, que lhe tinham ensinado, o mundo em que acreditava, em que depositava confiança, a que sabia responder."

Suspendeu-se. Eu também parei de rir com a certeza agora confirmada de que a história prolongava a conversa acintosa de há momentos. Meu Pai realmente era habilidoso. Não dispunha de uma mentalidade apenas meramente óbvia. Diagnóstico que se me impôs no mesmo segundo que ouvi, do cofre das lembranças, esta frase de minha Mãe: "Teu Pai foi sempre uma luz debaixo de um alqueire. Quando nós namorávamos escrevia-me as cartas mais bonitas que até hoje se escreveram. Ainda hoje sei algumas de cor." Logo se fechara arrependida do desabafo.

Ora eis o que me desagradava no meu Pai: a urgência de contestar, de convencer, de refutar, e, por certo, a de justificar-se como falhado. Isto num tom a roçar o ostentoso, ou o teatral. Como para demonstrar a exactidão do meu diagnóstico, fez outro longo gesto para o alto. Para o sol que morria? Alçando a cabeça e olhando-me como se fosse agora dois ou três palmos mais alto do que eu, intimou-me com a espingarda apontada do dedo:

"Então vem-nos, de súbito, uma luz de uma fonte inesperada, vemos o que nunca vimos antes, ficamos a saber que há todo um mundo para aprender e obstinámo-nos com a bengala? Então descobrimos que a luz de que antes dispúnhamos até nos encerrava no conforto da cegueira, e não nos assustamos? O problema do ex-cego é que ele tinha, além do mais, todo o seu mundo-de-cego para desaprender."

No seu inesperado entusiasmo quase se ergueu do cadeirão, de tal forma que me roubava por completo o resto do sol. E eu a gozar aquele tão minguadíssimo calor com a avareza de Diógenes. Disse-lhe:

"Oh!, meu Pai, estás-me a tirar o sol!" Reclinando-se novamente na cátedra de palha, respondeu-me com estranhíssima calma:

"Não gostaria que me tivesses vindo ver, e de tão longe, para eu, como prémio, nem sequer te proporcionar um pouco de luz."

Houve, de novo, um longo silêncio. A ala esquerda das nuvens forçava as barbacãs do cume do Calvário. A luta parecia desigual. A bruma venceria a pedra. Mais próximo do mar, mas muito mais enterrado no algodão negro do firmamento, o pico de S. Tomé já desaparecera do campo da batalha.

Que significaria a história do cego? Que meu Pai não se encontrava de acordo com a maneira como a juventude do país era conduzida? Ora a novidade! Se não errava na moral da parábola, esta constituía mesmo um insulto disfarçado ao Portugal contemporâneo. Que poderia querer significar senão que eu, como os meus iguais, vogávamos encantados num mundo que era imperativo desaprender? Teria meu Pai acabado de se me propor como o oftalmologista de que eu, na aparência, tanto carecia?

"O cego só começou a ter dúvidas depois de lhe restituírem a vista..."

FIM


 

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Alexandre Pinheiro Torres nasceu em 1923 em Amarante, numa família da alta burguesia conservadora e faleceu em Cardiff no ano 2000. Estudou matemática e engenharia, mas acabou por se voltar inteiramente para as letras, acabando por se doutorar em Literatura portuguesa e exercer o ensino, como professor catedrático, na Universidade de Cardiff, em Inglaterra.
Aos 27 anos publicou o seu primeiro livro, Nouo Génesis (1956) que Oscar Lopes define como "lírica do ódio", e no mesmo ano Quarteto para Instrumentos de Dor. Incorporando na sua obra poética processos e atitudes do surrealismo e do neo-realismo, foi de facto sempre um rebelde, com humor ora sarcástico ora jocoso e seco e por vezes pungente, umas vezes epigramático outras discursivo. Empenhado na luta antifascista e no projecto de uma sociedade sem classes, deixou uma vasta obra ensaística e crítica. [...] Além de outros livros de poesia - A Voz Recuperada (1950), Ilha do Desterro (1968) e o acerbo A Terra de Meu Pai (1972), O Ressentimento dum Ocidental (1980), A Flor Evaporada (1984) -, Alexandre Pinheiro Torres veio a afirmar-se, depois da Revolução dos Cravos, um romancista interessantíssimo pela ironia contundente e pelo sentido do cómico, entre nós raro no grau a que ele soube elevá-lo, praticando a caricatura, a paródia, o pastiche, a intertextualidade, em ficções onde a irreverência e a facúndia atingem notável qualidade de escrita, nesse filão literário que poucos grandes cultores tem em Portugal.
Tendo-se estreado na ficção com um romance iniciático e quase autobiográfico, A Nau de Quixibá (1977), ao que parece redigida pela primeira vez trinta anos antes (1977), acumula em seguida uma série de obras picarescas ou folhetinescas e sabiamente articuladas com a História, distante ou próxima, e com o presente.
Propugnando o neo-realismo nos seus escritos teóricos, Pinheiro Torres não foi, como escritor de ficção, um neo-realista, mas sim um desmesurado e talentoso mestre do riso, da polémica, da fábula política e social, de provocações literárias que questionam o imaginário português.
Deu ainda à estampa Tubarões e Peixe Miúdo (1988), Espingardas e Música Clássica (1987), que glosa burlescamente O Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco; O Adeus às Virgens: Sou Toda Sua Meu Guapo Cavaleiro; A Quarta Invasão Francesa e Vai Alta a Noite (1997).

 

capa de A Nau de Quixibá - Alexandre Pinheiro Torres

excerto (pp 67-71) de:

A Nau de Quixibá
Alexandre Pinheiro Torres, 1989
Romance.
Edição: Planeta de Agostini
Lisboa, 2001.
 


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29.Jan.2013
Publicado por MJA