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 Sobre a Deficiência Visual


João, o Rei Cego da Boémia

Maria José Alegre
 

Jean de Luxembourg et de Bohême dit Jean l'Aveugle - par Jacques Le Boucq
João, o Cego - por Jacques Le Boucq


«Os homens contiveram os corcéis e voltaram-se desajeitadamente nas suas selas para espreitarem pelas fendas da viseira e saberem a razão dos toques. Viram então que o último dos cavaleiros franceses, o rei e os guerreiros da sua casa, bem como o rei cego da Boémia e os seus companheiros, avançavam a trote, juntando à matança o seu peso e as suas armas. O rei de França cavalgava sob o seu pendão azul, salpicado de flores-de-lis douradas, enquanto a bandeira do rei da Boémia mostrava três plumas brancas num campo vermelho-escuro. Todos os cavaleiros de França estavam agora envolvidos. Os tambores transpiravam, os padres rezavam e os trombeteiros reais tocavam uma grande fanfarra como presságio de morte para o exército inglês. [...]
 

Morte de João da Boémia durante a batalha de Crecy - gravura de C. Delori, sec.19
Morte de João da Boémia durante a batalha de Crecy
gravura de C. Delori, sec.19


O próprio rei, com o seu amigo rei da Boémia entrara na refrega. Embora João da Boémia fosse cego insistira em combater e assim a sua guarda pessoal atara as rédeas dos seus cavalos, metendo o corcel do rei no centro de modo a não o perderem.

- Praga! - era o seu grito de guerra. - Praga! - O filho do rei, o príncipe Charles, estava também unido ao grupo. - Praga! - gritava enquanto os cavaleiros da Boémia conduziam a última carga. Porém, tratou-se apenas de um avanço às cegas, por entre um emaranhado de cadáveres, corpos feridos e cavalos aterrorizados. [...]

O rei de Maiorca, o conde de Saint Pol, o duque da Lorena e o conde da Flandres tinham morrido. A bandeira da Boémia, com as suas três plumas brancas, caíra por terra e o rei cego fora arrastado, atingido por machados, clavas e espadas. O resgate real morrera com ele e o filho sangrou até à morte sobre o corpo do pai. Os homens da sua guarda pessoal, arrastados pelos cavalos mortos ainda ligados aos vivos foram dizimados, uns a seguir aos outros pelos ingleses. Já não soltavam o seu grito de guerra, mas sim um uivo próprio de almas perdidas. Estavam cobertos de sangue, manchados, salpicados, encharcados nele, mas o sangue era francês.» "Harlequin" - Bernard Cornwell  [excertos]


Vida e feitos

João I da Boémia nasceu em 1296 e morreu em França a 26 de Agosto de 1346. Filho de Margarida de Brabant e do Imperador Henrique VII, conde do Luxemburgo, torna-se rei da Boémia en 1310 graças ao seu casamento com Elisabeth des Přemyslides, irmã de Venceslau da Boémia. Foi Conde do Luxemburgo a partir de 1313 e rei titular da Polónia, de 1310 a 1335. Mais interessado nos campos de batalha da Europa do que na governação da Boémia, deixa à mulher os cuidados da coroa, enquanto contribui para a vitória de Luís V da Baviera em Mühldorf (1322), na do rei da França contra os Flamengos (1328) ou quando vai em ajuda dos cavaleiros teutónicos (1329).
 

Le mariage de Jean de Luxembourg avec Elisabeth des Přemyslides
Casamento de João do Luxemburgo com Elisabeth des Přemyslides [1310]


Desde 1329 que João da Boémia só consegue ver de um olho. A partir de 1339 sobrevém a cegueira total.

A sua primeira reacção a esta tragédia é fazer o testamento - a 9 de Setembro de 1340 - altura em que ainda não está completamente adaptado à cegueira, pelo menos no plano psicológico, e adopta uma existência mais sedentária. Mas logo a partir desse ano ajuda à libertação de Tournai e não tarde a voltar a pegar em armas. Procura, em todas as circunstâncias, dissimular a falta de visão e participa nos torneios com a viseira sempre baixada. Nenhum escritor francês descreve como, na prática, ele mantém a sua actividade, mas não podemos esquecer que a sua longa experiência em torneios constitui para João uma enorme vantagem.
 

1328: Jean l'Aveugle, Comte du Luxembourg, roi de Bohême, confère à la ville d'Esch-sur-Alzette (Luxembourg) le statut de «ville libre».
João o Cego confere à cidade Esch-sur-Alzette (Luxemburgo) o estatuto de «cidade livre» [1328]


Aliado de Filipe VI da França no início da Guerra dos Cem Anos [1339-1453], é combatendo os ingleses em Crécy (1346) que João o Cego,  heroicamente, encontra a morte. E não esqueçamos que nesta altura, para além de cego há quase uma década, atingira os 50 anos, idade bastante avançada para a época.


João, o Cego é o arquétipo do Rei-Cavaleiro
João, o Cego é o arquétipo do Rei-Cavaleiro


Tanto a sua existência como as circunstâncias da sua morte foram muito idealizadas e romantizadas pelos cronistas latinos e franceses dos séculos XIV e XV.  Jean Froissart não deixa de exaltar os seus feitos, fazendo de João o Cego uma personagem maior da História luxemburguesa:

«O príncipe é corajoso, hábil lutador de torneios, devotado à paz entre os cristãos, leal e pronto a morrer pela honra.»

O cronista Jean le Bel coloca-o no topo da lista dos mortos de Crécy:

«Se tivesse de começar pelo mais nobre e mais gentil, escolheria o valente rei da Boémia».


A vida de João de Luxemburgo foi marcada pelos ideais de cavalaria e pela busca da glória nos torneios em que participava, mas também, por vezes, por uma agenda política utópica. Para pôr em prática os seus ideais, o rei cavaleiro acumula feitos físicos extraordinários, tais como percorrer a cavalo, em duas semanas, os mil quilómetros que separam Praga de Paris. O seu esqueleto, recentemente estudado, revela um corpo desgastado por exercícios equestres de longo fôlego.

A cegueira contribui ainda mais para a idealização do monarca. João da Boémia era bastante ouvido por Filipe VI, a quem aconselhou no desenrolar do plano da batalha de Crécy, contando com a superioridade numérica da França em homens e armamento. A sua morte heróica no campo de batalha, combatendo pessoalmente os ingleses, apesar da cegueira, é devidamente celebrada por Petrarca e Froissart. 
 

Jean de Luxembourg, roi de Boheme, mort à la bataille de Crécy
João de Luxemburgo, rei da Boémia, na batalha de Crécy


De facto, a meio do combate, faz-se amarrar a dois dos seus cavaleiros, por meio das rédeas dos cavalos, e ordena que um terceiro o guie para o coração da refrega. Matando à sua passagem, tanto amigos quanto inimigos, recebe inúmeros golpes fatais, que o condenam a morrer no campo de batalha. Campo de batalha de onde o rei de França acaba por fugir.

O seu cadáver só é encontrado no dia seguinte, ainda amarrado aos cavalos e cavaleiros que o escoltavam. Na sua Crónica, relata Froissart:

«Os seus companheiros foram encontrados no dia seguinte, à volta do seu senhor, com os cavalos amarrados uns aos outros».

A sua popularidade cresce no século XIX, quando serve de âncora a uma nascente consciência nacional no Luxemburgo. O seu combate idealista, mas desesperado, foi fiel à divisa "Ich dien" (eu sirvo), usada, após Crécy, pelos príncipes de Gales. Ocupa na mitologia luxemburguesa o lugar que Joana d'Arc tem em França.
 

Jean Ier de Luxembourg l'Aveugle - Miniature extraite des Anciennes Chroniques d'Angleterre de Jean de Wavrin, manuscrit du XVe siècle. (Bibliothèque Nationale de France, Paris.)
João I do Luxemburgo, o Cego em Crécy - manuscrito do séc. XV -
 

A batalha de Crécy ocorreu em 26 de agosto de 1346, no norte da França, e foi uma das mais importantes e decisivas da Guerra dos Cem Anos. As tropas inglesas de Eduardo III derrotaram as do Rei francês Filipe VI, apesar de serem numericamente muito inferiores. Empregaram novas armas e tácticas (os arqueiros ingleses atiravam mais depressa e mais longe do que os besteiros franceses), pondo de parte as normas e ideais e marcando o princípio do fim da era da cavalaria. Nesse dia, o rei da Boémia e conde de Luxemburgo, João I o Cego, apresentou-se como nobre cavaleiro, a favor do rei Filipe VI de Valois.
 

A Cruz da Boémia no local da batalha (s.XIV)
A Cruz da Boémia no local da batalha, em Crécy (séc. XIV)


Com o rei da Boémia, morreram em Crécy onze príncipes e mais de 1.200 homens de armas pertencentes à nobreza, incluindo Carlos II, conde de Alençon, irmão do rei Filipe, assim como Luís I, conde de Flandres e Rudolfo, duque da Lorena.


A cegueira

Segundo algumas fontes, João terá cegado, em resultado de uma inflamação ocular, decorrente de um acidente com uma lança, quando - juntamente com os Cavaleiros da Ordem Teutónica - participou numa cruzada para converter a Lituânia ao catolicismo. Segundo outros, a perda progressiva de visão seria devida a cataratas. Em qualquer dos casos, a visão foi-se deteriorando até à cegueira total em 1339.

Decidiu, então, consultar os médicos mais famosos da época. O primeiro veio de França, e como declarou não poder fazer nada para aliviar a condição do rei, João da Boémia mandou que o amarrassem e metessem dentro de um saco para ser atirado ao rio.

Outro médico chamado foi um médico árabe que, sabendo o que acontecera ao seu colega francês, exigiu a assinatura de um documento que o autorizasse a regressar ao seu país, fosse qual fosse o resultado da consulta. Também ele nada pôde fazer para melhorar a visão do rei, mas, pelo menos, conservou a própria vida.

Em 1336, durante uma viagem a Avignon com o rei da França, deslocou-se a Montpellier para consultar Guy de Chauliac [1300-1368], que foi médico pessoal de 3 Papas. Este era um grande cirurgião, o mais eminente da Idade Média. A sua obra mais importante foi o Tractatus Chirurgicae Septem, cum Chirurgicalis Antidotario ou Collectorium Artis Medicinae [1363]. Mais conhecido como Chirurgia Magna, foi o tratado de referência para a cirurgia até pelo menos ao séc. XVII. Nessa obra, em que descreve inúmeros procedimentos cirúrgicos, assim como o narcótico - que por inalação - usava como soporífero durante as cirurgias, dedicou uma extensa secção à oftalmologia e descreveu a catarata da seguinte maneira:

«Trata-se de uma imperfeição cuticular no olho, à frente da pupila, que prejudica a visão. É um humor estranho intraocular que desce gradualmente e endurece devido à frieza do próprio olho. Que este humor se acumule entre a córnea e a íris (como o demonstrou Jesus), ou entre o humor aquoso e o cristalino (como o defendeu Galeno no seu décimo livro "Sobre o uso das partes do corpo do homem") não é algo que me interesse agora. O primeiro estádio denomina-se Ilusão da Visão, o segundo Queda de água ou, às vezes Gutta, o terceiro e último estádio, Catarata, porque cria um obstáculo à visão, tal como a represa de um moinho e como uma catarata que caia do céu, esconde o sol.»

Guy de Chauliac, talvez aplicando a si mesmo as advertências que prescrevera sobre o modo de proceder de todo o cirurgião:

«Será erudito, experiente, habilidoso e cuidadoso. Será audaz nas coisas seguras e cauteloso nas perigosas. Evitará tratamentos e práticas deficientes. Deverá ser amável com o enfermo, respeitoso com os seus colegas, cauteloso nos seus prognósticos. Que seja modesto, digno, gentil, compadecido e misericordioso; que não cobice dinheiro nem seja venal; que a sua recompensa seja adequada ao seu esforço, às possibilidades do paciente, ao tipo de problema e à sua própria dignidade.»


decidiu não operar as cataratas do rei da Boémia – operava-as por abaixamento. Escreveu um opúsculo com uma série de conselhos destinados aos pacientes com cataratas e ofereceu-o ao monarca, que não ficou satisfeito nem com o conteúdo nem com a atenção recebida do médico francês.



João de Luxemburgo


Para alguns, a morte de João o Cego em Crécy, foi um acto heróico. Para muitos outros terá sido uma morte intencionalmente buscada, de modo a pôr um fim ao insuportável sofrimento causado pela cegueira.

Sucedeu-lhe o filho Venceslau - que tomou o nome Carlos IV, Imperador do Sacro Império Romano-Germânico.

 

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Referências:

 


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[18.Nov.2013]
Publicado por MJA