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 Sobre a Deficiência Visual


Jane Eyre

Charlotte Brontë

excerto

Edward rochester e Jane Eyre
Michael Fassbender como Edward Rochester cego (Jane Eyre, 2011)


Enterrada no fundo de um bosque, a casa de Ferndean era uma construção bastante antiga, mas sem pretensões arquitectónicas. Eu já sabia que ela existia. o Sr. Rochester falava nela muitas vezes, e como era grande caçador ia lá muito. O pai tinha comprado essa propriedade por causa do belo terreno de caça que aí havia. Como nunca acharam arrendatário para a casa por causa da sua situação doentia, Ferndean ficou sempre por mobilar; havia apenas dois ou três quartos preparados para as estadas dos donos no tempo da caça.

Aí arribei eu numa noite que guardo bem marcada na lembrança. Estava um céu triste, um vento frio e uma chuvinha contínua e penetrante. Andei a última milha do caminho a pé, depois de ter mandado embora o carro e o cocheiro, e de lhe ter pago a dobrar, como prometera. As faias eram tão grossas e tão escuras como pilares de granito; uma grade de ferro indicava-me a entrada; vi-me num túnel de espessa folhagem. Havia um carreiro que se enfronhava pela floresta, por entre troncos nodosos e sob ramos arqueados. Segui-o, esperando chegar assim à casa; mas o carreiro perdia-se cada vez mais na mata sem que qualquer sinal me mostrasse a proximidade da habitação.

Julguei ter-me enganado no caminho. A obscuridade natural juntava-se à profundidade da mata que me rodeava. Olhei em volta, mas não via caminho algum. Tudo eram troncos, ramos entrelaçados e uma luxuriante folhagem de Verão: nem uma clareira.

Prossegui; por fim o caminho tornou-se mais claro, as árvores foram rareando e deixaram-me ver uma cancela, pois a casa mal se descobria naquela luz vaga, por entre as árvores, tão verdes eram as paredes cheias de musgo e humidade. Transpus a cancela, apenas fechada com um trinco, e achei-me numa clareira, de que o bosque se afastava em semicírculo. Não havia flores nem canteiros; apenas um largo caminho de saibro rodeando um relvado que a floresta encaixilhava numa moldura severa. A casa tinha umas torres pontiagudas sobre a fachada, as janelas estreitas e gradeadas, e a porta, estreita também, só tinha um degrau. Ouvi mexer atrás da porta; alguém que iria sair de casa. A porta abriu-se lentamente e uma forma humana apareceu no limiar iluminada pelo crepúsculo.

Era um homem sem chapéu. Estendeu a mão para ver se chovia e à luz vaga reconheci-o. Era o meu patrão: Edward Fairfax Rochester.

Parei, contendo a respiração, para melhor o observar, escondida ai de mim! invisível aos seus olhos! Era um encontro inesperado em que a dor mantinha a alegria em respeito. Não me foi difícil reter as minhas exclamações nem os passos que me levavam a ele.

A figura tinha o mesmo aspecto vigoroso de outrora; direito, os cabelos negros como asas de corvos; as feições também não se lhe tinham alterado. Demais, seria um ano de sofrimento bastante para abater esta força atlética ou desanimar este vigor da maturidade? Mas qualquer coisa mudara nele. Tinha um ar de desespero, feroz e sombrio, que me fazia lembrar essas grandes aves selvagens de que é perigoso aproximarmo-nos quando presas, tão feroz é o seu desespero e a sua obstinada dor. A águia enjaulada, com os seus cruéis olhos de ouro extintos, devia parecer-se com este cego Sansão.

E, leitor, pensas que eu temia a sua ferocidade de cego? Se assim pensas, conheces-me mal. Uma doce esperança se misturava à minha dor. Dentro de pouco tempo, talvez eu ousasse depor um beijo naquela testa de mármore e naqueles lábios severamente fechados... Por agora, não. Não queria ir já ao encontro dele.

Desceu o degrau e caminhou lentamente, tacteando, para a relva. Que era feito do seu andar desembaraçado? Parou, como se não soubesse para que lado se devia voltar. Ergueu a mão e abriu as pálpebras, num esforço desesperado, ante o céu e o anfiteatro das árvores.

Percebia-se que tudo para ele eram trevas. Estendeu mais longe a mão direita (o braço esquerdo, o mutilado, estava escondido no peito); percebia-se que queria fazer uma ideia do que o rodeava. Mas encontrou o vazio, porque as árvores estavam a alguns metros dele. Abandonou então a empresa, e, cruzando os braços, ficou imóvel e calado sob a chuva que lhe caía na cabeça descoberta. Nesse instante, John aproximou-se dele.

Quer o meu braço, Sir? disse ele. Vem lá uma grande bátega de água. Faria melhor em vir para casa.

Deixe-me em paz! foi a resposta.

John retirou-se sem ter dado por mim. O Sr. Rochester tentou andar, mas debalde: todas as tentativas eram incertas. Retomou o caminho de casa tacteando, entrou e fechou a porta.

Aproximei-me e bati. A mulher de John veio abrir-me a porta.

Mary! disse-lhe. Como está?

Ela sobressaltou-se, como se tivesse visto uma alma do outro mundo. Pareci-lhe um fantasma; acalmei-a.

É na verdade a Menina Eyre? Como é que aparece aqui a esta hora? Respondi, pegando-lhe na mão. Depois segui-a até à cozinha, onde John já estava sentado junto de um bom lume. Em poucas palavras contei-lhes que ouvira dizer tudo quanto acontecera depois da minha partida de Thornfield e que viera ver o Sr. Rochester. Depois pedi ao John que fosse à casa do guarda para onde mandara o carro e que me trouxesse a mala que lá devia estar. Tirei o chapéu e o xaile, e perguntei a Mary se ali poderia dormir uma noite; disse-me que era difícil, mas não impossível; informei-a de que ficaria. Nesse momento, ouviu-se uma campainha.

Vá, disse-lhe eu e previna o seu patrão de que está aqui uma pessoa que lhe quer falar, mas não lhe diga quem é.

Não espere que a receba respondeu ela. Manda toda a gente embora.

Quando voltou, informei-me sobre o que ele dissera.

Quer saber o seu nome e o que deseja replicou ela. Depois começou a encher um copo com água e colocou-o numa bandeja com uma vela.

Isso é para ele?

É; quer que lhe levem uma luz, mal escurece, embora não veja nada.

Dê-me a bandeja, que eu levo-a.

Peguei nela e informei-me de qual era a porta da sala. Mas as mãos tremiam-me tanto que parte da água se entornou; o coração batia-me com toda a força. Mary abriu-me a porta e fechou-a quando entrei.

A sala era lúgubre. Um lume pobre ardia no fogão e o triste cego estava diante dele com a testa apoiada na chaminé. O seu velho cão, Piloto, estava deitado mais longe, com receio, parecia, de que o magoassem sem querer. Quando entrei, arrebitou as orelhas e atirou-se a mim ganindo de alegria. A bandeja quase me caiu das mãos. Poisei-a em cima da mesa, dizendo devagarinho: "Vá, deita-te!", o Sr. Rochester voltou-se maquinalmente para ver o que provocara aquele barulho, mas, não vendo nada, voltou as costas, suspirando.

Dê-me água, Mary disse.

Aproximei-me com o copo meio de água. O Piloto seguiu-me muito excitado.

Que tem ele? perguntou.

Deita-te, Piloto! disse eu. Ele deteve o gesto que fazia e pareceu escutar, depois bebeu e poisou o copo.

É você, Mary?

A Mary está na cozinha — respondi.

Estendeu rapidamente a mão, mas, não vendo onde eu estava, não me tocou.

Quem é? Quem é? perguntou, tentando, ao que parecia, ver com os apagados olhos; tentativa inútil. Responda-me, fale outra vez! ordenou, imperiosamente.

Quer mais água? Entornei quase metade... disse.

Quem é? Quem fala?

O Piloto conheceu-me, e o John e a Mary sabem quem eu sou. Cheguei esta noite respondi.

Deus do céu!, que ilusão é esta? Que doce loucura!
 

Jane Eyre e Mr. Rochester
Jane Eyre e Edward Rochester


Não é uma ilusão, senhor, nem é loucura. O seu espírito é superior de mais para se poder iludir e a sua saúde muito boa para enlouquecer.

Ele tacteou. Peguei-lhe na mão errante e aprisionei-a entre as minhas.

Os seus dedos! exclamou ele. Os seus dedos tão pequenos e tão finos! Nesse caso, deve haver mais alguma coisa.

A mão musculosa fugiu da sua prisão, agarrou-me o braço, depois o ombro, o pescoço, enlaçou-me e apertou-me contra si.

É a Jane? Quem é? É a sua figura, o seu corpo...

E a sua voz acrescentei. Está aqui inteirinha. Encontrei-o, vim ter consigo.

Realmente? De carne e osso? A minha Jane em pessoa?

Está a tocar-me, tem-me agarrada. Estarei fria como um cadáver? Ou impalpável como o ar, diga-me?

A minha queridinha! São com certeza estes os membros dela, as suas feições, mas não me é dada a felicidade de os ver depois das minhas desgraças. Deve ser um sonho, um desses sonhos que tenho durante a noite, e em que a estreito nos braços, como agora, e sinto que me ama e me não quer deixar.

Aí está o que eu nunca mais farei desde hoje.

Nunca mais! disse a visão. Mas eu acordo sempre e acabo por reconhecer que se trata de um fantasma, de uma ilusão mentirosa, e fico desolado e só sentindo a vida ainda mais sombria do que nunca e mais sem esperança, a alma sequiosa e condenada a não matar a sede, o coração esfomeado e condenado a não se alimentar. Sonho delicioso, que te enroscas nos meus braços, dissipar-te-ás como todos os outros que te precederam. Antes de me deixares, porém, dá-me ao menos um beijo. Beija-me, Jane.

Aqui me tem, senhor, aqui me tem.

Colei-lhe os lábios aos olhos, antigamente tão brilhantes, agora apagados. Afastei-lhe os cabelos da testa, que beijei também. Ele pareceu despertar e acreditar, por fim, na realidade.

É a Jane? Voltou então para ao pé de mim?

Voltei.

E não ficou para aí morta em qualquer fosso, em qualquer ribeiro? Não está a ganhar a vida penosamente em casas estranhas?

Não, agora sou uma mulher independente.

Independente? Que quer dizer, Jane?

O meu tio da Madeira morreu e deixou-me cinco mil libras.

Ah! Eis aí uma coisa prática e real! exclamou ele. Com isso nunca eu sonhei. E, demais, é bem a sua voz pessoal, tão viva, tão graciosa e doce. Quê, Jane? Uma mulher independente, uma mulher rica?

Muito rica. E se não quiser que fique a viver consigo, posso mandar construir uma casa perto da sua, para que venha sentar-se na minha sala quando precisar de companhia.

Mas visto que está rica deve ter, com certeza, amigos que a procurem e lhe não permitam que consagre a vida a um miserável cego misantropo como eu.

Disse-lhe que era independente e rica. Sou senhora de mim mesma.

E quer ficar comigo?

Quero, a não ser que ponha alguma objecção a isso. Serei sua vizinha, sua enfermeira, sua governanta. Acho-o sozinho; serei a sua dama de companhia, ler-lhe-ei, passearei consigo, servi-lo-ei, serei para si os seus olhos e as suas mãos. Deixe esse ar melancólico, meu bem amado! Não ficará mais ao abandono enquanto eu for viva.

Ele não respondeu. Parecia absorto. Suspirava. Abria os lábios como se fosse falar e fechava-os. Sentia-me embaraçada. Talvez eu tivesse dado um pontapé nas conveniências: como Saint-John, julgaria ele ousado o que eu dissera? Fizera-lhe a minha proposta com a esperança de o ouvir pedir-me para casar com ele, na esperança de que o desejasse! Uma esperança, não menos real que inexprimível, me encorajava; esperava que ele me reclamasse como sua propriedade. Mas a isso nenhuma alusão ele fizera ainda e as suas maneiras iam-se tornando cada vez mais sombrias; disse de mim para mim que decerto me enganara e me mostrara ridícula involuntariamente. Achei por bem escapar-me vagarosamente dos braços dele, mas ele apertou-me com mais força.

Não, Jane, não, não se vá embora. Não; toquei-a, ouvi-a, senti o conforto da sua presença, a doçura das suas consolações, não poderia renunciar a tais alegrias. Pouco mais me resta... quero-a... O mundo pode rir-se, pode achar-me absurdo, egoísta... Isso nada significa para mim. A minha alma tem sede de si: é preciso satisfazê-la, ou então ela acabará por vingar-se mortalmente na sua parte carnal.

Está bem, já lhe disse que ficaria consigo.

Sim, mas ficar comigo, para si é uma coisa, para mim é outra. Talvez se contente em ficar junto da minha cadeira, em cuidar de mim como uma boa enfermeira (tem um coração afectuoso e um espírito generoso que a leva a sacrificar-se por aqueles que lhe inspiram compaixão), e isso dever-me-ia bastar, realmente. Bem sei que não deveria alimentar a seu respeito senão sentimentos paternais... Que pensa disto? Vamos, diga.

Penso o que quiser: ficaria contente só de ser sua enfermeira, se acha que assim deve ser.

Mas não pode ficar toda a vida minha enfermeira, Jane: é nova; pode casar-se um dia.

Não faço tenção de me casar.

Tem de pensar nisso. Se eu fosse o que era dantes, procuraria obrigá-la a pensar... mas... cego!

Recaiu na sua melancolia; eu, pelo contrário, sentia-me mais alegre, de novo retomava coragem: as suas últimas palavras mostravam-me qual era o obstáculo; como esse obstáculo não existia para mim, sentia-me aliviada do meu embaraço. Fiz, por isso, com que a conversa assumisse um torn mais alegre.

Já vai sendo tempo de eu tratar de o reumanizar... disse, apontando-lhe as espessas madeixas mal tratadas. Vejo que está metamorfoseado em leão ou em qualquer coisa parecida. Tem um "faux air" ["falso aspecto" em francês no texto inglês. (N. do T.)] de Nabucodonosor rústico, realmente: os seus cabelos lembram-me as penas das águias, mas ainda não vi se as unhas lhe cresceram como garras de aves de rapina.

Neste braço não há mão nem unhas... disse, tirando do peito, para mo mostrar, o braço mutilado. Que triste espectáculo! Não lhe parece, Jane?

É uma dor de alma vê-lo; é uma dor de alma ver-lhe os olhos e essa cicatriz que o fogo lhe deixou na testa. O pior de tudo é o perigo que se corre de o amarmos de mais por tudo isto; fazemo-lo vaidoso...

Pensei que a revoltaria, Jane, ver-me o braço e a cara desfigurados.

Sério? Não diga isso, ou então you julgar mal o seu raciocínio. E, agora, largue-me por um instante para eu poder arranjar o lume. Pode perceber quando há um bom lume?

Sim, com o olho direito posso ver uma claridade, uma espécie de nevoeiro luminoso.

E as velas?

Muito confusamente, como uma nuvem doirada.

E pode ver-me?

Não, minha fada; mas sinto-me muito feliz por ouvi-la e poder tocar-lhe.

A que horas ceia?

Nunca ceio.

Mas ceará esta noite; tenho fome e também deve ter apetite, com certeza; não dá por isso?

Chamei a Mary e em breve a sala estava em ordem; depois preparei uma refeição agradável. Estava como que inspirada; falei com prazer e facilidade durante a refeição e depois dela. Junto dele não sentia receio nem embaraço pela minha vivacidade e alegria; estava perfeitamente à vontade, pois sabia que lhe agradava assim e que tudo quanto eu fazia parecia consolá-lo ou reanimá-lo. Deliciosa sensação! Trazia-me à superfície o que de melhor havia em mim. Diante dele vivia realmente, e ele também. Embora cego, os sorrisos brincavam-lhe nos lábios e as feições adoçavam-se-lhe e aqueciam. Depois da ceia, começou a fazer mil perguntas:

Com quem estava, Jane?

Não me vai obrigar a contar tudo esta noite; tem de esperar para amanhã; se deixo a minha história em meio, compreende que é uma prova de que me terá amanhã à sua mesa para a acabar. A propósito: não quero aparecer-lhe amanhã no quarto com um simples copo de água; terei de levar um ovo, pelo menos, ou um bocadinho de presunto!

Ah!, fada trocista! E também humana e celeste! Faz de mim outro homem. Se Saul a tivesse tido por seu David, o mau espírito teria sido esconjurado sem a ajuda da harpa.

Basta, agora deixo-o; há três dias que venho de viagem e creio que me sinto cansada. Boa noite.

Uma palavra mais, Jane. Só havia senhoras na casa onde vivia?

Fugi, rindo.

"Boa ideia!", pensava com alegria. "Aqui está a maneira de o arrancar à melancolia por algum tempo."

No dia seguinte de manhã muito cedo ouvi-o levantar-se e errar pela casa, de quarto em quarto. Assim que Mary desceu, perguntou:

A Menina Eyre está cá? Depois: Que quarto lhe deu? Não é húmido? A Menina Eyre já se levantou? Vá perguntar-lhe se não precisa de nada e quando vem para baixo.

Desci quando deviam ser horas do almoço. Entrei devagarinho no quarto e pude contemplá-lo antes de ele dar pela minha presença. Que tristeza, na verdade, sentir o peso da enfermidade naquele espírito vigoroso! Estava sentado na poltrona, não imóvel, em repouso, mas numa atitude de quem espera. Tinha no rosto os estigmas da sua habitual tristeza; fez lembrar-me uma lâmpada apagada que espera que a venham acender. Mas, ah, não era ele quem poderia agora reacender a lâmpada; dependia dos outros fazê-lo. Tivera a intenção de me mostrar alegre e despreocupada, mas aquela impotência de um homem robusto chocou-me terrivelmente. Foi, no entanto, num grande à-vontade que o abordei.

Está uma linda manhã, cheia de sol, disse-lhe. Acabou a chuva e a luz parece mais doce. Vamos dar um passeio?

Tinha reanimado o lume. As feições iluminaram-se-lhe.

Oh!, já aqui está, minha toutinegra. Venha cá. Não se foi embora? Não se evaporou? Ouvi uma sua irmã há uma hora; cantava na mata, mas a canção dela não tinha harmonia para mim, tal como o Sol não tem luz. Toda a melodia da terra está na voz da minha Jane. Todo o sol está em si.

Vieram-me as lágrimas aos olhos ao ouvir esta confissão de dependência: era como se uma águia, presa num poleiro, se visse obrigada a pedir protecção a um pardal. Mas eu não queria estar lacrimosa; enxugando as gotas salgadas, pus-me activamente a preparar o almoço.

Passámos a maior parte da manhã ao ar livre. Levei-o para além do bosque bravio e húmido, até aos campos plácidos e alegres; descrevi-lhe o brilho da verdura, as flores das sebes, o deslumbramento do céu. Procurei-lhe um assento num lugar escondido e delicioso, onde um tronco velho, cortado, fora abandonado, e não me esquivei, logo que ele se sentou, a sentar-me nos joelhos dele. Por que havia eu de me furtar a isso quando nós nos sentíamos muito mais felizes juntos que separados? O Piloto estendia-se no chão ao pé de nós; tudo estava sereno e tranquilo. De súbito, o Sr. Rochester exclamou, apertando-me nos braços:

Cruel, cruel fugitiva! Oh, Jane, sabe lá o que eu sofri quando soube que tinha fugido de Thornfield e me foi impossível saber do seu paradeiro. Ao revistar o seu quarto, verifiquei que não tinha levado dinheiro nem nada que pudesse servir-lhe para o arranjar. Um colar de pérolas que eu lhe dera estava no estojo, as suas malas amarradas e fechadas tal como estavam preparadas para a nossa viagem de núpcias. Que iria fazer a minha querida, privada de tudo?, perguntei-me a mim próprio. E que fez?, pergunto-lhe eu agora.

Perante esta súplica, comecei a contar-lhe tudo que se tinha passado no ano anterior. Adocei consideravelmente o que dizia respeito aos três dias de privações e de vagabundagem, pois, de contrário, iria fazê-lo sofrer inutilmente; o pouco que lhe contei trespassou-lhe o coração. Fi-lo mais profundamente do que eu queria.

Em suma, por mais que eu tenha sofrido, sofri por pouco tempo, respondi. Depois, julguei-me no dever de lhe contar como tinha sido recolhida em Moor House, como conseguira o lugar de mestra, etc. A minha súbita fortuna, a descoberta dos meus parentes, vieram, naturalmente. E, está claro, o nome de Saint-John Rivers apareceu frequentemente no decurso da narração. Quando acabei, tal nome voltou logo à baila.

É então seu primo esse Saint-John?

É.

Tem falado bastante dele. Simpatizava com ele?

É um excelente homem a quem não podemos deixar de estimar.

Um excelente homem? Quer dizer que é um homem respeitável, dos seus cinquenta anos? Ou quê?

Saint-John tinha apenas vinte e nove anos.

Jeune encore (N do T: "Ainda jovem" em francês no texto inglês), como dizem os franceses. Um homenzinho fleumático e feio? Um desses seres cuja bondade consiste mais numa ausência de vícios do que na existência de reais virtudes?

É de uma actividade infatigável. Não vive senão para realizar grandes coisas e nobres missões.

Mas de cabeça? Mais fraco do que forte, não? De boas intenções, mas encolhemos os ombros ao ouvi-lo falar.

Fala pouco, mas o que diz é sempre justo. Tem um cérebro de primeira ordem, parece-me; talvez não seja muito sensível, mas é extremamente vigoroso.

É então uma pessoa capaz?

Extremamente capaz.

Com uma instrução superior?

Saint-John é um universitário perfeito.

As suas maneiras, disse, suponho que não eram muito do seu agrado. É uma pessoa fechada, formalista?

Nunca me referi às suas maneiras, mas seria preciso ter muito mau gosto para dizer isso. São polidas, serenas, corteses.

O seu aspecto (esqueci-me da descrição que me fez dele) é pouco favorável: uma espécie de padre mal polido, quase estrangulado pela gravata branca e empoleirado nas solas grossas, hem?

Saint-John veste bem. É bonito, grande, loiro, com uns olhos azuis e um perfil grego.

(Aparte) Diabos o levem! (Para mim): Agrada-lhe, Jane?

Agrada, Sr. Rochester; mas já há pouco me perguntou isso.

Eu estava a ver, claro, onde o meu interlocutor queria chegar. Era o ciúme; sentia-se ferido, mas a ferida era salutar, afastava-lhe, por momentos, a melancolia que o devorava. Eis porque eu não queria encantar muito depressa a serpente.

Talvez prefira não estar assentada nos meus joelhos, Menina Eyre... foi a sua mais próxima observação, aliás inesperada.

Porquê, Sr. Rochester?

A imagem que acaba de me descrever oferece um contraste tão surpreendente... As suas palavras fizeram-me lembrar um belo Apolo; tem-no presente na imaginação: grande, loiro, com os olhos azuis e um perfil grego. E os seus olhos, Jane, estão poisados num Vulcano, num verdadeiro ferreiro, torrado, de ombros largos; e cego e aleijado além de tudo.

Ainda não tinha pensado nisso, mas a verdade é que o senhor se deve parecer com Vulcano.

Bom, pode deixar-me quando quiser, minha senhora, mas, antes, (apertou-me mais do que nunca), espero que queira ter a bondade de responder a uma ou duas perguntas. Calou-se.

Que perguntas?

Então, seguiu-se o interrogatório inevitável.

Saint-John nomeou-a mestra da escola de Morton antes de saber que eram primos?

Nomeou.

Tinha uma casinha ao pé da escola, disse. E ele não costumava ir vê-la ali?

Donde em onde.

Quanto tempo viveu com ele e com as irmãs, depois da descoberta do parentesco?

Cinco meses.

Rivers passava muito tempo com as senhoras da família?

Passava.

Não lhe ensinava nada?

Um pouco de hindu.

Rivers ensinava-lhe hindu?

É verdade.

E às irmãs também?

Não.

Só a si?

Só a mim.

Foi a menina que pediu para aprender?

Não.

Era ele que queria ensiná-la?

Era.

Uma segunda pausa.

Mas para quê? Para que lhe podia servir o hindu?

Ele queria que eu fosse com ele para a Índia.

Ah, estou a tocar no ponto importante. Queria casar consigo?

Tinha-me pedido que casasse com ele.

É uma história, uma impudente invenção para me enfadar.

Perdão, é a verdade pura; pediu-me mais de uma vez e com tanta insistência como aquela que o senhor seria capaz de empregar.

Menina Eyre, repito-lhe, pode ir-se embora quando quiser. Quantas vezes hei-de eu repetir isto! Para que é que continua insolentemente alcandorada nos meus joelhos, depois de eu a ter mandado embora?

Porque me sinto aqui muito confortavelmente.

Não, Jane, não pode estar bem, visto que o seu coração não está consigo, mas com esse primo, com esse Saint-John. Oh, até há pouco julgava que a minha pequena Jane me pertencia. Parecia-me que, mesmo quando se foi embora, gostava de mim, e isso era uma gota de ambrósia no amargo da minha taça. Apesar de tudo, apesar das lágrimas que eu chorei aquando da nossa separação, apesar da eternidade desta separação, nunca supus que enquanto eu chorava, amasse outro. Mas todas as lamentações são inúteis. Deixe-me, vá casar com Rivers.

Então, mande-me embora, empurre-me; não o deixarei por minha própria iniciativa.

Jane, sempre gostei do som da sua voz; fez-me renascer a esperança: soa tão verdadeira! Quando a oiço sinto-me transportado a um ano antes e esqueço-me dos seus novos laços. Mas estou doido. Vá!

Para onde irei eu?

Siga o seu caminho com o marido que escolheu.

Quem é ele?

Bem o sabe... esse Saint-John Rivers.

Não é meu marido, nem nunca o será. Não me ama e eu não o amo a ele. Ele ama, tanto pelo menos quanto é capaz de amar (não é assim que o senhor ama?), uma linda rapariga chamada Rosamond. Se queria casar comigo era apenas por estar convencido de que eu seria uma recomendável mulher de missionário, o que não era o caso da outra. É bom e grande, mas severo, e para mim frio como um icebergue. Não é como o senhor, não me sinto feliz ao pé dele. Não tem qualquer espécie de indulgência para comigo: nem indulgência nem ternura. Não há nada em mim que o atraia, nem sequer a mocidade; apenas certos aspectos da minha inteligência. Parece-lhe que o deva deixar a si e ir para ele?

Estremeci involuntariamente e agarrei-me ao meu querido cego.

O quê, Jane? É assim que estão as coisas entre si e Rivers?

Absolutamente assim, senhor. Oh, é inútil ter ciúmes! Queria arreliá-lo, para lhe fazer esquecer a tristeza. Mas, se quer que o ame a si, é preciso que veja quanto eu realmente o amo: terá ao mesmo tempo, tenho a certeza, orgulho e contentamento. Todo o meu coração lhe pertence e é consigo que sempre estará, ainda que o destino me afaste da sua presença.

De novo, enquanto me beijava, sombrios pensamentos lhe entenebreceram a fronte.

Oh, a minha vista perdida, as minhas forças diminuídas! murmurou num torn de dó pungente.

Para o serenar, prodigalizei-lhe as minhas carícias. Sabia em que ele estava a pensar e gostaria de lhe falar nisso, mas não me atrevia. Como voltei a cara, vi-lhe uma lágrima deslizar da pálpebra fechada e descer-lhe pelo rosto viril. O coração apertou-se-me.

Não valho mais do que o velho castanheiro derrubado do pomar de Thornfield! disse por fim. Que direito me assistirá para pedir a uma madressilva exuberante que cubra as minhas ruínas com a sua frescura?

Não é uma ruína, nem uma árvore derrubada; está forte e vigoroso. As plantas nasceram-lhe junto às raízes, quer o queira quer não, e comprazem-se à sua sombra generosa. À medida que crescerem, apoiar-se-ão em si; a sua força é para elas um apoio. Ele sorriu, isto consolava-o.

Fala da amizade, Jane? perguntou.

Sim, de amizade repeti, não sem exaltação, pois queria dizer mais do que amizade, mas não achava outra palavra.

Ele veio em meu auxílio.

Ah! Jane, mas é uma esposa que eu quero.

Com certeza?

Sim; é uma novidade para si?

Decerto: ainda não me dissera nada a esse respeito.

É uma má novidade?

Depende das circunstâncias, da sua escolha...

Escolha por mim, Jane, submeter-me-ei à sua escolha.

Escolha então aquela que mais o amar.

Escolherei ao menos aquela que eu mais ame. Jane, quer ser minha mulher?

Quero.

Quer casar-se com um pobre cego a quem terá de conduzir pela mão?

Sim, senhor.

Um estropiado, vinte anos mais velho do que a Jane, e a quem terá de servir?

Sim, senhor.

Sério, Jane?

Sério.

Oh, minha querida! Que Deus a abençoe e a recompense!

Sr. Rochester, se alguma vez na minha vida pratiquei uma boa acção, se alguma vez tive um pensamento puro, se alguma oração foi por mim dita com sinceridade e sem censura, se alguma vez fiz um voto justo e recto, sinto-me recompensada neste instante. Ser sua mulher é para mim a maior felicidade que se pode ter na terra.

Quer que nos casemos daqui a três dias, Jane? Pouco importam os fatos ricos e as jóias; tudo isso não vale um único pensamento.

O Sol bebeu a chuva; foi-se o vento, está quente, quente.

Sabe, Jane, que trago neste momento debaixo da minha gravata o colar de pérolas que lhe dei. Trago-o sempre como lembrança desde o dia em que perdi o meu tesouro.

Voltaremos para casa pela mata; estará mais fresco.

Ele continuou, sem dar atenção às minhas palavras:

Jane! Imagina-me um ser incrédulo, mas o meu coração está grato ao Deus misericordioso da terra! Deus não vê pelos olhos do homem e não julga da mesma maneira que nós. Procedi mal. Quis conspurcar uma flor inocente, soltar um bafo do mal sobre a pureza: o omnipotente arrancou-ma! Na minha rebeldia quase o amaldiçoei; em lugar de me vergar ao seu julgamento, desafiei-o. A justiça divina prosseguiu na sua trajectória, os desastres caíram sobre mim. Fui forçado a passar através do vale das sombras e da morte. Os seus castigos são grandes; um deles fez-me humilde para sempre. Bem sabe como eu era vaidoso da minha força; mas hoje é-me preciso aceitar uma ajuda estranha, como uma criança fraca: só hoje, Jane, começo a reconhecer finalmente a mão de Deus no meu destino. Senti remorso, arrependimento e desejo de me reconciliar com o autor da minha vida. Comecei a rezar. Breves orações, mas muito sinceras.

Há dias... posso contá-los: há quatro dias, segunda-feira à noite, uma disposição singular passou por mim: a dor substituía o frenesim, a tristeza, a obstinação. Havia tempos que tinha a impressão de que nunca mais a encontraria; pensava que estivesse morta. Ora, muito tarde, nessa noite, entre as onze e a meia-noite, antes de me recolher para o meu triste descanso, pedi a Deus que, se isso lhe aprouvesse, me tirasse breve desta vida e me recebesse nesse mundo de esperança onde me seria permitido esperar tornar a ver a minha Jane.

Estava no quarto sentado ao pé da janela aberta: apaziguava-me sentir o ar embalsamado da noite, apesar de só um halo luminoso me revelar a presença da Lua. Desejava-te, Jane, Jane, oh!, desejava-te com a minha alma e com a minha carne! Perguntei a Deus, com uma angústia misturada de humildade, se eu não fora já bastante amargurado, afligido, atormentado, se não poderia achar, por fim, a felicidade e a paz. Que eu merecera tudo quanto me acontecera, reconhecia-o, mas suplicava-lhe que não me fossem impostas mais provações e o alfa e ómega dos votos do meu coração fugiram-me involuntariamente dos lábios: Jane, Jane, Jane!

Disse essas palavras em voz alta?

Disse, Jane. Se alguém me ouvisse, havia de dizer que eu estava louco, tal era a energia com que as pronunciei.

E foi segunda-feira, cerca da meia-noite?

Foi, mas a hora pouca importância tem. O que se segue é que é estranho e surpreendente. Vai julgar-me supersticioso (tenho qualquer coisa de supersticioso no sangue), no entanto, isto é a pura verdade, tão verdade, pelo menos, quanto é certo eu tê-lo ouvido. Quando gritei "Jane! Jane! Jane!", uma voz (é-me impossível dizer donde ela vinha, mas eu sabia bem que voz era) replicou: "Eu vou, espera-me!"; e, pouco depois, as seguintes palavras me vieram trazidas pelo vento: "Onde estás?"

Se pudesse, dir-lhe-ia a ideia, a imagem que estas palavras despertaram em mim: mas é difícil dizer-lhe o que quero exprimir. Ferndean está enterrada, como sabe, numa mata profunda, onde o som é abafado e morre sem eco. Estas palavras: "Onde estás?" pareciam pronunciadas no meio das montanhas, pois ouvi o eco das colinas repeti-lo. Naquele momento a brisa que me passou pela testa pareceu-me mais fresca: ter-me-ia sido possível acreditar que Jane e eu nos encontrávamos numa paisagem solitária, e era certo que em espírito nos encontrámos realmente. A Jane estava nesse momento com certeza mergulhada num sono sem consciência: mas o seu espírito deve ter-se-lhe escapado para visitar o meu, pois era a sua voz que falava, estou absolutamente certo disso.

Leitor, fora segunda-feira, cerca da meia-noite, que eu própria recebera a mensagem misteriosa; aquelas eram as palavras com que eu respondera. Ouvi a narração do Sr. Rochester sem comentário. Esta coincidência parecia-me grave e inexplicável de mais para que a discutíssemos. Se eu dissesse qualquer, coisa, as minhas palavras não podiam deixar de causar uma profunda impressão no espírito do meu interlocutor, e esse espírito, já predisposto para a melancolia por virtude do sofrimento, não tinha necessidade das cores mais sombrias ainda do sobrenatural. Guardei para comigo tudo isto e tudo repassei no meu coração.

Não se admirará, pois, continuou o meu amo, de que, quando chegou tão inesperadamente a outra noite, eu tivesse uma certa dificuldade em reconhecer em si alguma coisa mais do que uma voz ou uma visão, o quer que fosse que se podia desvanecer como um murmúrio da noite; o eco das montanhas já se desvanecera. Mas, agora, agradeço a Deus: sei que me enganava. Sim, agradeço a Deus!

Afastou-me dos joelhos, levantou-se, tirou o chapéu respeitosamente e, baixando os olhos vazios ao chão, ficou imóvel, perdido numa muda prece. Só as últimas palavras da sua oração me chegaram aos ouvidos.

Agradeço a Deus que no meio do seu julgamento se lembrasse de ser misericordioso. Imploro humildemente ao meu Redentor que me dê forças para que de hoje em diante a minha vida seja mais pura do que até agora.

Depois estendeu-me a mão, para que eu o conduzisse. Peguei nessa querida mão e retive-a um momento nos lábios, antes de a deixar rodear-me os ombros; pequenina como eu era ao pé dele servia-lhe ao mesmo tempo de guia e de amparo. Entrámos na mata a caminho de casa.


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Casámo-nos, leitor. Foi um casamento sereno a que não assistiram senão ele, eu, o pastor e o ajudante. Quando voltámos da igreja, fui à cozinha, onde Mary preparava o jantar, enquanto John areava os talheres, e disse:

Mary, o meu casamento com o Sr. Rochester foi celebrado esta manhã.

A cozinheira e o marido pertenciam à categoria daquela gente fleumática a quem podemos dar não importa que novidade sem corrermos o risco de que se nos rompam os tímpanos com qualquer exclamação aguda e subsequentes torrentes de exclamações formuladas pelo verbo. Mary ergueu os olhos e fixou-me: a colher com que regava um par de frangos que estavam a tostar no forno ficou suspensa durante uns três minutos; nesse lapso de tempo, as faces de John detiveram-se; mas a cozinheira, inclinando-se sobre o assado, disse apenas:

É verdade, minha senhora? bom, por certo! Um instante depois continuou:

Tinha-a visto sair com o Sr. Rochester, mas não sabia que iam à igreja casar-se. E continuou a regar os frangos, como se nada se tivesse passado. John, quando me voltei para ele, fendeu-se-lhe a boca duma orelha a outra.

Já tinha dito à Mary disse ele: "Sei muito bem o que fará o Sr. Edward" (John era um velho criado e, como conhecera o patrão ainda menino da casa, dava-lhe muitas vezes o nome de baptismo); na minha opinião fez muito bem; assim o creio, pelo menos! Desejo-lhe felicidades, minha senhora. E tirou delicadamente uma madeixa da testa.

Obrigada, John. 0 Sr. Rochester disse-me para lhes dar isto, a si e a Mary.

Meti-lhe na mão uma nota de cinco libras e saí da cozinha. Quando, pouco depois, passei em frente, surpreendi estas palavras: "Ela vai ser de certo muito melhor para ele do que qualquer senhora da alta."

E depois: "Se não é muito bonita, tem bom coração, e aos olhos dele vê-se bem que não há ninguém mais lindo."

Escrevi imediatamente para Moor House e para Cambridge a comunicar o que fizera, explicando pormenorizadamente por que procedera assim. Diana e Mary responderam-me sem reservas. Diana anunciou-me que logo que acabasse a minha lua-de-mel me viria visitar.

É bem melhor que não esperes por isso, Jane, disse o Sr. Rochester quando lhe li a carta. Se assim for, não virá tão depressa; a nossa lua-de-mel vai brilhar toda a vida; os seus raios só se apagarão sobre o teu túmulo ou sobre o meu.

Como é que Saint-John encarou o caso, ignoro-o; nunca respondeu à minha carta. Escreveu-me, porém, seis meses depois, sem mencionar o nome do Sr. Rochester e sem aludir ao nosso casamento. A carta era serena e cheia de bondade, conquanto muito séria. Depois manteve comigo uma correspondência, senão frequente, pelo menos regular, esperando, dizia ele, que eu fosse feliz e não fizesse parte do número daqueles que vivem sem Deus e não pensam senão nas coisas deste mundo.

Leitor, de certo não esqueceste a Adèle. Eu pensava muito nela. Em breve consegui licença do Sr. Rochester para ir vê-la ao colégio onde ela estava. A alegria quase frenética que ela mostrou ao ver-me, comoveu-me profundamente. Achei-a pálida e magra e não me pareceu feliz. Afigurando-se-me que a educação do colégio era severa de mais e os estudos excessivos para uma criança da idade dela, trouxe-a comigo, resolvida a fazer-me sua professora; mas em breve reconheci que era impossível; outra pessoa reclamava agora o meu tempo e os meus cuidados: devia-os ambos a meu marido.

Procurei, então, uma escola baseada num sistema mais indulgente e suficientemente perto para que eu a pudesse ver muitas vezes e trazê-la frequentemente para casa. À medida que foi crescendo, os seus defeitos franceses foram-se corrigindo, em grande parte, com uma sólida educação inglesa; quando deixou a escola, encontrei nela uma companheira agradável e obsequiosa, dócil, de bom carácter, séria. As suas atenções para comigo muito me compensaram de tudo que fiz por ela.

A minha história está a acabar: uma palavra ainda sobre a minha experiência conjugal e um rápido olhar àqueles cujos nomes apareceram mais vezes nesta narração, e terminarei.

Há dez anos que estou casada. Sei o que é viver inteiramente para aquele a quem mais amamos neste mundo. Sinto-me feliz, mais feliz do que é possível dizer por palavras, pois sinto tão completamente a vida de meu marido como ele a minha. Nenhuma mulher está tão próxima de seu marido como eu do meu, nenhuma é mais carne da sua carne, osso dos seus ossos. No convívio de Edward não sei o que é enfado; e ele também não sabe o que isso é no meu convívio; nunca nos cansamos de sentir os nossos corações bater-nos no peito. Eis porque estamos sempre juntos. Estarmos juntos é, para cada um de nós, estarmos tão livres como se estivéssemos sós e tão alegres como se rodeados de gente. Conversamos todo o dia. Falar é para nós uma forma mais animada de pensar. Tem toda a minha confiança: eu, tenho toda a confiança dele: os nossos caracteres harmonizam-se matematicamente; o resultado é um acordo perfeito.

O Sr. Rochester esteve ainda cego os dois primeiros anos do nosso casamento. Foi talvez isso que mais nos aproximou ainda; eu era então os olhos dele e ainda sou o seu braço direito. Eu era, literalmente, como ele dizia, as meninas dos seus olhos. Via a natureza e os livros através de mim e nunca me cansava de ver por ele, de traduzir em palavras o que via no campo, nas árvores, na cidade, nos rios, nas nuvens e nos raios do Sol, na paisagem e no tempo, e de lhe imprimir assim nos ouvidos pelo som o que a luz não podia fazer pela retina. Nunca me cansava de lhe ler, de o conduzir onde ele queria, ou de lhe fazer o que ele desejava. E este serviço era-me mais doce, apesar de triste, porque meu marido o pedia sem vergonha, nem humilhação. Amava-me tanto que não hesitava beneficiar do meu auxílio, e sentia que eu o amava com tanta ternura que para mim ajudá-lo era, no fundo, o meu maior desejo.

Uma manhã, ao cabo de dois anos, enquanto eu escrevia uma carta que ele me ditava, veio debruçar-se sobre mim e disse:

Jane, tem um enfeite brilhante em volta do pescoço? Tinha uma cadeia de ouro. Respondi:

Tenho.

E traz um vestido azul?

Era verdade. Disse-me então que já há algum tempo lhe parecia que as trevas de um dos olhos pareciam diminuir. Agora tinha a certeza.

Fomos a Londres. Consultou um especialista e recuperou por fim a vista desse olho. Não pode ver muito nitidamente, e é-lhe impossível ler ou escrever durante muito tempo, mas anda sem precisar que o levem pela mão: o céu já não é vazio, nem a terra escura para ele. Quando lhe puseram o primeiro filho nos braços pôde ver que a criança lhe herdara os olhos de outros tempos: negros, grandes e brilhantes. Nesse momento, com o coração a transbordar, reconheceu como era bem certo Deus temperar o seu castigo com a misericórdia.

Somos felizes, Edward e eu, e tanto mais quanto é certo aqueles que amamos o serem também. Diana e Mary Rivers estão ambas casadas; alternadamente, uma vez por ano, vêm ver-nos e nós vamos a casa delas. O marido de Diana é capitão de Marinha: um brilhante oficial e um excelente homem. O de Mary é pastor: é um amigo de colégio do irmão e pelos seus princípios e talentos é em tudo digno dela. O capitão Fitzjames e o Sr. Wharton estimam as suas mulheres e são estimados por elas.

Quanto a Saint-John, deixou a Inglaterra: foi para a índia. Entrou na carreira que ele próprio escolheu e onde continua ainda. Nunca pioneiro mais infatigável combateu por entre as rochas do perigo. Firme, fiel e dedicado, cheio de energia, de zelo e de sinceridade, trabalha pela raça humana e limpa os caminhos das ervas daninhas que os seculares preconceitos de casta e crença amontoaram. Talvez seja exigente e ambicioso. Tem a existência de apóstolo que não fala senão por Cristo, quando diz: "Que aquele que quer vir atrás de mim pegue na sua cruz e me siga." Se é ambicioso, é porque a sua grande alma quer ter um lugar entre os escolhidos da terra que vão puros de todo o pecado para junto do trono de Deus partilhar as últimas vitórias do Cordeiro: os que são chamados a escolher os fiéis.

Saint-John não se casou. Não se casará nunca. Até hoje, bastou-lhe a sua tarefa, mas a sua tarefa aproxima-se do fim, a sua gloriosa estrela aproxima-se do horizonte. A última carta que recebi dele arrancou-me lágrimas humanas, enquanto o meu coração se inundava de alegria divina, pois pode contar com a sua recompensa certa, com a sua coroa incorruptível. Sei que a sua próxima carta me será enviada por um estranho e me trará a notícia de que o bom e fiel servo foi enfim chamado à presença do Salvador. Porquê chorar? Nenhum medo da morte obscurecerá a última hora de Saint-John: o seu espírito permanecerá lúcido, o seu coração sereno, a sua esperança certa, a sua fé inabalável. As suas próprias palavras o testemunham:

O meu Senhor avisou-me. Cada dia mo faz saber mais claramente: "Virei em breve!" E de hora a hora eu respondo com maior ardor: Ámen, vinde, Senhor Jesus!"

FIM

Jane Eyre
 

Jane Eyre apaixonou e ao mesmo tempo chocou os seus contemporâneos É que fervia nas suas paginas uma audácia na pintura dos sentimentos e das paixões que desconcertava os leitores habituados a uma literatura romanesca alambicada em que a verdade da vida era sacrificada a uma pintura idealizada que tudo falsificava. Essa audácia não nos pode chocar hoje como aos contemporâneos de Charlotte Brontë; não será isso que há-de impor à nossa admiração a obra da grande romancista inglesa, mas a verdade e a profunda riqueza das figuras, que ergueu assim como a violência que as agita, a humanidade de que vibram e o cachoar das paixões que, de página em página, não cessa de nos manter suspensos e ansiosos. O que caracteriza a arte de Charlotte Bronte é, essencialmente, ter sabido descer ao mais profundo dos seres, mostrando-os na sua verdade integral, com o mau e o bom, a força e a fraqueza, superiores e miseráveis, na complexidade posta a nu que os domina.

Charlotte Bronte deixou-nos, pela boca de Jane, esta confissão sobre si própria, no meio de tantas outras: "Nunca, em contacto com almas fortes, discretas, superiores, dum ou doutro sexo, pude deixar de transpor o limiar convencional da sua reserva, de lhes forçar os limites convencionais da confiança, instalando-me no mais íntimo do seu coração." Era assim na sua vida, foi assim na sua obra, e foram essa exigência e essa intrepidez que deram a imortalidade à romancista. O EDITOR

 

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excerto: capítulos 37 e 38

A Paixão de JANE EYRE
Charlotte Brontë, 1847
Tradução: Mécia e João Gaspar 
Publicações Europa-América
Colecção: Clássicos


 


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7.Mar.2011
Publicado por MJA