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Homero: Tentativas de (Re)construção Biográfica na Antiguidade

Ana Elias Pinheiro

Busto de Homero - II sec AC
Busto de Homero - II sec a.C.

 

Aproximava-se agora do lugar onde o Cantor podia geralmente ser encontrado, onde havia uma saliência de rocha que oferecia abrigo contra o vento, no espaço abertoentre os arraiais dos Cretenses, dos Lócrios e dos Acaios.
O facto de ele escolher este local com tanta regularidade levara as três nacionalidades a reinvindicá-lo como seu compatriota; mas havia quem dissesse que ele era da Lídia, ou de Éfeso na Jónia, ou da ilha de Quios. Não era possível encontrar-lhe prova certa no sotaque; e quando lhe perguntavam de onde era, ele limitava-se a acenar, por vezes em direcção às montanhas, outras em direcção ao mar.
B. Unsworth, 'Os Cantos dos Reis' (2003)
 

Usando a sua poesia como testemunho directo da experiência divina que o tornara poeta e do litígio com o irmão, Perses, pelo que restava da herança paterna, Hesíodo inaugura, no alvorecer da Grécia arcaica, um novo modelo de poesia, onde o ‘eu poético’ se fundia e confundia com o do autor do texto. A partir de então, a poesia grega passaria a reflectir um pouco da vida de quem a compunha… e mesmo que corramos o risco de estar a ler o que de facto os autores não disseram, ou não quiseram dizer, é com base no que nos chegou dos seus textos que tentamos reconstituir as opções sentimentais de poetas como Safo ou Álcman, o programa político de Sólon ou a ideologia de Píndaro.

Não é de estranhar, pois, que desde cedo os Gregos possam ter notado que faltava a biografia a um dos seus poetas, porventura o mais célebre e, de repente, o mais anónimo: Homero. Esta ausência de informações aliada ao indiscutível fascínio suscitado pelas suas obras parece ter despertado a curiosidade sobre o autor que as compusera.
 

Homer and his Guide Glaucus - William-Adolphe Bouguereau, 1854
Homero e o seu guia Glauco - William-Adolphe Bouguereau, 1854
 

As dúvidas que, sobre a existência de Homero, se colocam aos círculos da crítica literária contemporânea não tinham lugar no espaço da Grécia Antiga. Até, talvez, começar a tarefa dos Bibliotecários de Alexandria, ninguém duvidara da existência de Homero, autor da Ilíada e da Odisseia, mas também de outros textos, que não conhecemos nós, mas conheciam os Gregos, e que a tradição transmitira sob o nome do mesmo autor.

Vamos verificar, então, que, talvez desde cedo, e fazendo notar as dificuldades que essa tarefa pressupunha, os Gregos se empenharam em construir uma biografia para Homero, nada pacífica, cheia de lacunas e pressupostos, recorrendo a lendas, a tradições, e por vezes também, seguindo o modelo que os autores da época arcaica possibilitaram, indo «ler» nos Poemas Homéricos pormenores que, porventura, se lhes afiguravam biográficos.

As chamadas Vitae Homeri, as pretensas biografias de Homero, embora de redacção aparentemente tardia, como adiante se verá, parecem ter por base sobretudo antigas tradições regionalistas das várias cidades ― Esmirna, Rodes, Cólofon, Salamina, Quios, Argos e até mesmo Atenas ― que reclamavam com orgulho ser a terra pátria do mais divino dos poetas. O autor do texto atribuído a Heródoto, por exemplo, tentará conciliar estas várias tradições dizendo que o poeta fora concebido em Cime (1); nascera em Esmirna; se tornara cego em Cólofon; voltara depois a Cime, onde lhe deram a alcunha de Homero; compusera a maior parte dos seus poemas em Quios e morrera em Ios.

Também não era consensual a época em que vivera o poeta e, na panóplia possível de cronologias, Homero poderia ter sido espectador da própria guerra de Tróia ou o último depositário de séculos de transmissão das lendas aqueias.

Iguais dúvidas surgiam quanto aos seus progenitores. O nome do pai oscilava, consoante as fontes, entre o divino do rio Meles e o humano de nomes como Méon, Cálicles, Daímon, Tamiras ou um escriba egípcio, chamado Menémaco. Por mãe poderia ter tido a Musa Calíope ou jovens mortais, geralmente seduzidas e depois abandonadas: Métis, Creteida, Temista, Eugneto ou, até, uma Itacense, vendida por Fenícios.

Uma outra versão, porém, colhida na tradição da autobiografia da época arcaica, pretendia ver retratados nos heróis dos seus versos a ascendência do poeta: assim, Homero teria sido filho de Telémaco, o filho de Ulisses e Penélope, e de Poliscasta (ou Epicasta), a jovem filha de Nestor na Odisseia. Uma tal ascendência justificaria o tratamento dado a estas figuras pelo aedo que assim honrara os seus pais e avós.
 

Homero - Pier Francesco Mola - séc. 17
Homero - Pier Francesco Mola - séc. 17

Influenciada por esta mesma tradição estaria a lenda de que Homero além de aedo tivera como profissão o ensino, tendo herdado a escola de um suposto padrasto, Fémio, cuja arte homenageara na Odisseia, na figura do Cantor do palácio de Ítaca, tal como a da mãe que fora fiandeira estava retratada em Penélope.

De igual modo, a figura tutelar de Mentor (ou Mentes) na Odisseia teria sido imputada ao navegador que acompanhava o poeta nas suas incursões pelos mais diferentes pontos da Hélade.

Outros aspectos da vida do poeta, porém, parecem ter colhido mais unanimidade entre os biógrafos da Antiguidade.

Para todos eles, Homero fora cego e dessa situação resulta o nome pelo qual ficou conhecido: Homero, o ‘Cego’, designação eólica para aqueles que, tendo perdido a visão, necessitavam de alguém que os guiasse.

Contudo, tempos houvera em que Homero tinha podido ver e antes de perder a vista chamara-se, ocasionalmente, Altes ou, quase sempre, Melesígenes, assim nomeado pela mãe, geralmente seduzida e depois abandonada, ou por descender de Meles, o rio de Esmirna, ou ― e esta era a versão mais comum ― por ter nascido junto às margens do rio em cujos tanques a mãe costumava lavar roupa.

Sendo este um aspecto tão consensual, foi quase sempre cego que a iconografia o retratou, da Antiguidade aos nossos dias (vide, as Imagens de Homero, da Antiguidade aos nossos dias), e só ocasionalmente alguns artistas podem ter esquecido esse pormenor (cf. Homero, pormenor do fresco do Parnasso dos Palácios Pontifícios do Vaticano, Rafael, 1509-1510).

Contudo, provavelmente, a cegueira de Homero resultou de um equívoco de transmissão que atribuía ao autor da Ilíada e da Odisseia os chamados Hinos Homéricos, considerados apócrifos pela crítica actual.
 

A Apoteose de Homero - Ingres, 1827
A Apoteose de Homero - Ingres, 1827
 

Diz o poeta do chamado Hino Homérico a Apolo, nos 166-173, que é cego e que habita em Quios:
 

............................... Lembrai-vos de mim,
no futuro, sempre que algum dos homens mortais
aqui vier como estrangeiro e perguntar:
«Jovens donzelas, qual é o melhor dos nossos poetas
que aqui vos vista e qual o que mais vos agrada?»
Então, em coro, todas vós respondereis:
«É um homem cego que habita na rochosa Quios
e cujos cantos conhecerão o mérito para sempre»

A Antiguidade imaginou neste poeta o divino Homero (cf. Tucídides, 3.104.5) (2) e poderá ter sido esta confusão que o ‘cegou’, retratando-o como o aedo sem vista, que os biógrafos julgaram talvez alter-ego do Demódoco do palácio de Alcínoo, na Esquéria dos cantos 7 e 8 da Odisseia.

De um modo geral também, os autores antigos aceitaram que Homero fora contemporâneo de Hesíodo, nalguns casos até seu familiar. Assim o referira Heródoto (3), ao tentar posicionar a sua geração em relação à dos primeiros poetas e assim o consagrava a tradição que dizia, ainda, que foram aparentados, se tornaram famosos ao mesmo tempo e um dia coincidiram ao responder ao convite de Panedes, príncipe da Eubeia, para participar nos Jogos fúnebres em honra do seu irmão, o rei Anfidamante, morto na batalha de Lelanto, algures por 700 a.C. ― e este é um dado histórico.

O rumor deste encontro deve ter sido antigo e tivera por origem o próprio testemunho de Hesíodo, quando em Trabalhos e Dias, 650-660, diz que, certa vez, se deslocou por mar de Áulide para a Eubeia, para participar nos jogos fúnebres do referido rei, competição essa em que venceu com um hino em honra das Musas, que poderá ser o ‘Proémio’ da Teogonia (4).

Hesíodo nada diz sobre os outros concorrentes, mas para os antigos Gregos parece ter sido óbvio que o seu oponente fora Homero.

Não eram estranhas, de resto, à tradição literária grega a notícia de competições entre adivinhos ou poetas (Calcas vs Mopso: Melampodeia, Hesíodo, frg. 278 M-W; Leques vs Arctino: Fânias, frg. 299 = frg. 18 FHG; Ésquilo vs Eurípides: Aristófanes, Rãs), de que esta, entre Homero e Hesíodo, seria apenas um exemplo mais.

O episódio circularia já, porventura, na época da constituição do chamado Ciclo Épico, os textos que conservaram a tradição das sagas troianas e a queda das cidades aqueias. Se for certa a referência lida num dos manuscritos da Vita Homeri de pseudo-Plutarco (M. KIVILO, 2000: 5), o episódio poderia remontar a uma Vita Homeri composta, no século VII a.C., em addenda à Pequena Ilíada, obra atribuída a Lesques de Lesbos. Conhecido na Atenas do século V a.C., faz alusão a este acontecimento a Paz (1282-83 e 1286-87) de Aristófanes e uma versão escrita da história poderá ter integrado a obra do sofista Alcidamante, discípulo de Górgias e contemporâneo de Isócrates, que compusera um Mouseion onde abordava provavelmente a tradição sobre Homero (5).

Nesse texto se terá inspirado precisamente uma das mais interessantes obras pseudo-biográficas sobre Homero, o chamado Certamen Homeri et Hesiodi, ‘O Certame entre Homero e Hesíodo’.

O texto tem algumas características que o podem incluir na pré-história da literatura biográfica: interesse pelas genealogias, recursos retóricos, oráculos, epigramas, citações poéticas; antilogias: poesia guerreira e heróica vs poesia popular e de carácter rural; as anfibologias propostas por Hesíodo e solucionadas por Homero, comuns ao género das demonstrações sofísticas.
 

Homer Reciting his Poems - Sir Thomas Lawrence, 1790
Homero recitando os seus poemas - Sir Thomas Lawrence, 1790


Dando mostras de uma excepcional habilidade retórica, muito ao gosto da sofística dos séculos V e IV a.C., Homero consegue vencer todos os desafios de um desesperado Hesíodo, irado pelas constantes derrotas e claramente preterido pelo público que ovaciona o poeta épico. Panedes, contudo, propõe uma última prova solicitando a ambos os poetas a recitação de um trecho das suas obras. Hesíodo escolhe o passo de Trabalhos e Dias (383-392) onde explica qual o melhor momento para cada um dos trabalhos agrícolas:
 

Quando surgirem as Plêiades, filhas de Atlas,
começai a ceifar; e a lavrar quando elas se esconderem.
Durante quarenta noites e quarenta dias,
estão ocultas, até que se completa mais um ano,
e reaparecem quando de novo se afiam as foices.
Assim o estabelece a lei das planícies, para os que junto ao mar
têm as suas moradas e para os que nos vales frondosos,
longe do alto mar coberto de ondas, sobre ricas paragens
habitam. Nu semeia e nu ara
e nu ceifa, quando para cada uma delas for hora.

Homero, por sua vez, descreve o confronto entre o exército troiano, comandado por Heitor, e os dois Ajantes:

Então, à volta dos dois Ajantes, se colocaram as falanges
poderosas, que nem Ares teria desprezado, de ter estado aí,
nem Atena, a que conduz os exércitos. Porque eram os melhores
os que aguardavam os Troianos e o divino Heitor,
cerrando lança com lança e escudo com sólido escudo.
O escudo pressionava o escudo, o elmo o elmo, o homem o homem;
os penachos de crina de cavalo, quando se inclinavam, batiam
com as cristas brilhantes. Tão próximos estavam uns dos outros.
Tornou-se feroz o combate, dizimador de mortais, com as lanças
enormes que exibiam a carne cortada. Cegava os olhos
o brilho brônzeo dos elmos reluzentes,
das couraças recém polidas e dos escudos brilhantes,
quando chocavam uns contra os outros. Muito duro teria de ser o coração
que, ao ver uma tal desgraça, se alegrasse em vez de se entristecer.
 

E eis que o grande poeta, que superara antes todos os desafios retóricos, se via derrotado agora porque em vez da paz exaltara a guerra.

O resultado, contudo, não parece ter constituído qualquer estranheza: no novo contexto político da época arcaica, a poesia intervencionista e didáctica que Hesíodo inaugurava destronava naturalmente os antigos recontos das sagas aqueias.

Vencido nesta competição, Homero ter-se-ia tornado depois um rapsodo errante (nas cortes de Midas, em Corinto, em Argos ou em Delos), obtendo inúmeras honras com as suas composições. Além da Ilíada e da Odisseia, os pseudo-biógrafos de Homero e a Antiguidade em geral atribuíram-lhe um considerável acervo de textos, tidos hoje como apócrifos: o célebre texto cómico Margites, a que Aristóteles atribuía a origem da comédia; uma Focaida; a Tebaida e os Epígonos, que recolhiam a triste história da casa de Édipo e da guerra entre os seus descendentes; trinta e três hinos, entre os quais, o já referido Hino Homérico a Apolo, que fizera de Homero um poeta cego; a Batraquiomiomachia, um texto humorístico sobre guerra onde os oponentes eram, como o nome indica, batrachoi, ‘rãs’, e myoi, ‘ratos’.

Outros (O Rapto de Brisieida, A Glória de Diomedes, O Resgate de Heitor, Os Jogos Fúnebres em honra de Pátroclo) poderiam mais não ser do que variantes das obras maiores.

É bem provável que Homero tenha morrido de doença (como se diz no texto de pseudo-Heródoto), ou sucumbido ao peso dos anos, mas a maior parte das biografias conta a morte do poeta de modo tão fabuloso como tudo o resto na sua vida.

A idade de Homero avançava, é certo, e, talvez por essa mesma razão, o poeta acabara por esquecer que, em tempos, numa das suas muitas viagens, um oráculo lhe adivinhara uma morte causada pela incapacidade de descortinar o sentido de um enigma formulado por garotos.

A ilha de Ios era a pátria da tua mãe e na morte te há-de
acolher. Toma atenção ao enigma das crianças.

De facto, numa tarde em que se sentara junto às margens de um rio, sentiu passar um grupo de rapazitos a caminho da pesca. No regresso, Homero, que lá continuava, interrogou-os sobre o que pescaram. Responderam-lhe as crianças: O que pescámos deixámo-lo ficar, o que não pescámos trazemo-lo connosco.

Não tendo ele entendido esta resposta e tendo inquirido sobre o seu sentido, os rapazes explicaram-lhe que não tinham conseguido pesca alguma mas que tinham estado a catar os piolhos, deixando os que tinham encontrado e trazendo nos mantos os que não tinham conseguido apanhar.

A memória trouxe a Homero a voz profética da Pítia. Abalado, dispunha-se a abandonar o local, quando escorregou na margem lodacenta do rio, batendo com a cabeça numa pedra. Três dias passados, morreu, o seu corpo foi descoberto, sepultado com honras e sobre o seu túmulo os homens de Ios mandaram gravar:
 

Neste lugar, a terra cobre a cabeça sagrada
que fez dos guerreiros heróis, o divino Homero.
 

Homer mordu par les_chiens - Claude Michel ou Clodion, 1809 (Louvre)
Homero é mordido pelos cães - Claude Michel, 1809
 

São dez os textos, todos eles aparentemente já da nossa era, que recolhem esta tradição biográfica de Homero, a transmitem e a discutem:

1. O chamado Certame entre Homero e Hesíodo, já antes referido, um texto anónimo que chegou até nós através de um manuscrito florentino do século XIV d.C. (Laur. 56.1), cuja última versão, baseada talvez na obra do sofista Alcidamante, deve ter sido, sem qualquer dúvida, posterior a meados do século II d.C., uma vez que alude a uma visita realizada pelo Imperador romano Adriano ao santuário de Delfos e historicamente datada de 120 / 125 d.C.

Aí se leêm as várias hipóteses de genealogia homérica; o parentesco entre Homero e Hesíodo e o relato, atrás reproduzido, da morte do poeta.

Sobre quem eram os seus pais, há também entre as várias informações grandes divergências. Helânico e Cleantes referem Méon; Eugéon, Meles; Cálicles, Dmaságoras; Demócrito de Trezena, o comerciante Daímon; outros, Tamiras; os Egípcios, Menémaco, um escriba sagrado, e outros, ainda, Telémaco, o filho de Ulisses. Quanto à mãe, uns referem Métis; outros, Creteida; outros, Temista; outros, Hirneto; outros ainda, uma Itacense, vendida por Fenícios; outros, a musa Calíope, e alguns Policasta, a filha de Nestor.
Chamar-se-ia Meles, embora outros digam que era Melesígenes e outros, ainda, Altes. Alguns afirmam que recebeu o nome de ‘Homero’ porque o seu pai foi entregue pelos Cipriotas aos Persas como refém, outros devido à cegueira dos seus olhos, pois entre os Eólios chamavam assim aos cegos.
[…] de Apolo e de Toosa, filha de Poséidon, nasceu Lino; de Lino, Píero; de Píero e da ninfa Metona, Eágro; de Eágro e Calíope, Orfeu; de Orfeu, Ortes; <dele, Eucles>; dele, Harmónides; dele, Filoterpes; dele, Eufemo; dele, Epífrades; dele, Melanopo; deste, Dío e Apeles; de Dío e Picimeda, a filha de Apolo, Hesíodo e Perses. De Apeles, nascera Méon, e de uma filha de Méon e do rio Meles, Homero.


2. Sobre as origens de Homero, Cronologia e Vida. É a mais detalhada e racional destas biografias, atribuída a Heródoto, mas redigida provavelmente entre 50 e 150 d.C. pelo médico Hermógenes de Esmirna ou pelo historiador Cefálion de Gérgito. Nela se lê que:

No tempo em que fora fundada a antiga colónia eólica de Cime […]entre aqueles que aí se estabeleceram estava Melanopo, cidadão de Magnésia, filho de Itágenes, filho de Créton […] Este Melanopo casou em Cime com uma filha de Omires, e dessa união nasceu uma crainça a quem deram o nome de Creteida. Melanopo e a mulher morreram e a filha ficou entregue ao cuidado de um amigo, Cleanax, um Argivo.
Tempos depois, a rapariga ficou grávida de alguém cujo nome não sabemos […] era a altura em que os homens de Cime tinham acabado de se estabelecer na zona mais alta do monte Hermeio, na cidade a que chamaram Esmirna […] Cleanax entregou Creteida a Isménias, um Beócio, que se encontrava entre os colonos.
[…] Tempos depois, Creteida participava com outras mulheres em festas junto ao rio chamado Meles quando chegou a sua hora e deu à luz Homero, que não era uma criança cega e sim saudável. Chamou-lhe Melesígenes, por causa do rio junto ao qual nascera. […]
Em Ermirna vivia um homem chamado Fémio que ensinava às crianças letras e música, que tomou Creteida por esposa e lhe adoptou o filho.
[…] Quando chegou à idade adulta não era inferior em saber a Fémio e quando este morreu deixou-lhe todos os seus bens. Pouco depois, Creteida morreu também e Melesígenes estabeleceu-se como professor.


3 e 4. Duas obras, na realidade independentes, atribuídas a Plutarco, sob o título Da Vida e Poesia de Homero. A primeira é um pequeno opúsculo cuja intenção seria prefaciar a Ilíada, apresentando algumas notas biográficas com base na História da Minha Pátria do historiógrafo Éforo de Cumas:

Viviam em Cime três irmãos, Apeles, Méon e Dío. Este partiu um dia para se estabelecer em Ascra, uma aldeia da Beócia, onde casou com Picímede e foi o pai de Hesíodo.
Apeles morreu na sua Cime natal, deixando uma filha de nome Creteida sob a tutela do outro irmão, Méon; mas este seduziu-a e temendo ser punido pelos seus concidadãos, casou-a com Fémio, o mestre da escola de Esmirna.
Ela costumava ir lavar roupa aos tanques junto do rio Meles e aí deu à luz Homero, no rio, e por essa razão lhe chamou Melesígenes.
O seu nome mudou para ‘Homero’ no dia em que perdeu a vista, porque é esse o nome que os habitantes de Cime e os outros Iónios dão aos cegos, porque precisam de alguém que os conduza. Assim contou Éforo.

O segundo texto, entendido inicialmente como uma segunda parte do primeiro, constitui na realidade um exaustivo estudo estilístico, temático e literário dos Poemas Homéricos, recorrendo, a título de exemplificação, a citações da Ilíada e da Odisseia.

Não sendo de facto de Plutarco, poder-se-á ter inspirado num seu texto perdido, os Estudos Homéricos, e poderá ter sido composto em finais do século II d.C.

5. A Vida de Homero na Crestomatia de Próclo: embora não conste do sumário da obra, redigido por Fócio, aparece numa dezena de manuscritos da Ilíada. É o único texto que nega que Homero fosse cego e que tivesse algum dia competido com Hesíodo.

6. O verbete da enciclopédia bizantina do século X d.C., a Suda, redigido, contudo, a partir do Índice de Autores Ilustres do escritor do século VI d.C., Hesíquio de Mileto.

Homero, o poeta: filho de Meles, o rio de Esmirna, e da ninfa Creteida, segundo Castrício de Niceia ou, segundo outros, de Apolo e da Musa Calíope, ou como diz o historiador Cárax, de Méon e de Eumetis, ou ainda, segundo outros, de Telémaco, o filho de Ulisses, e da filha de Nestor, Policasta.
[…] O seu nome era na realidade Melesígenes, porque nascera junto ao rio Meles, o que lhe daria origem esmírnea; depois chamaram-lhe ‘Homero’ por ter sido entregue como penhor, enquanto os habitantes de Esmirna negociavam com os de Cólofon.
[…] Em Quios casou com Arsífone, filha de Gnotor, de Cumas, e teve dois filhos e uma filha, que veio a casar com Estásino, o chefe de Chipre.
[…] São de facto obra sua a Ilíada e a Odisseia.
[…] Morreu já velho e foi entrerrado na ilha de Ios.


7-10. Os restantes textos são informações, biográficas ou não, sobre Homero ou dos escólios a Homero e dos comentadores anónimos, nas chamadas Vita Romana (o material introdutório ao códice 6 da Biblioteca Nacional de Roma) e Vitae Scorialenses (do códice W.1.12 do Escorial, do século XI). Veja-se, e.g.:

VITAE HOMERI: Anónimo, VITA SCORIALENSIS I
A ORIGEM DE HOMERO

Homero, o poeta, era filho, segundo uns, de Méon e de Hirneto e, segundo outros, do rio Meles e da ninfa Creteida. Alguns faziam recuar a sua origem até à Musa Calíope.
Diziam que se chamara Melesígenes ou Melesíanax, e que, depois de ter ficado cego, lhe chamaram ‘Homero’. Com efeito, os Eólios chamam ‘Homeros’ aos cegos. Diziam uns que a sua pátria fora Esmirna, outros Quios, outros Cólofon, outros Atenas. Andava de cidade em cidade cantado os seus poemas.
[…] Dizem que morreu na ilha de Ios por ter desencadeado a sua própria desgraça, ao não ter resolvido o problema que lhe foi colocado pelos pescadores.
 

E afinal… existiu este Homero da tradição?

E aí estão, ainda, as canções de Homero. Homero morreu há já duzentos anos, ou mais, e ainda falamos dele como se estivesse vivo. Dizemos que Homero regista — não que registou — este e aquele acontecimento. Na realidade, vive muito mais que Agamémnon e Aquiles, Ájax e Cassandra, Helena e Clitemnestra, e todos os outros acerca dos quais escreveu na sua epopeia sobre a Guerra de Tróia. Eles são simples sombras, investidas de substância pelas suas canções, as únicas que conservam a força da vida, o poder de tranquilizar, comover ou arrancar lágrimas. Homero existe agora e existirá quando todos os meus contemporâneos estiverem mortos e esquecidos. Já ouvi até profetizar, de modo ímpio, que sobreviverá ao próprio Zeus pai, embora não aos Fados. R. GRAVES, Homer’s Daugther (1955)

A observação desta epígrafe, colocada, há meio século atrás, pelo escritor inglês na voz de uma personagem que imaginava no século VII a.C., mantem hoje igual actualidade.

Por mais que se esforce o estudioso, dificilmente estará ao seu alcance comprovar quanto de histórico poderá ter influído na construção destes textos pseudo-biográficos. Contudo, é inegável o gosto que os Poemas Homéricos (e as histórias que neles se conservaram) continuam a despertar nas gerações actuais (6), e consequentemente a mesma curiosidade sobre quem os compôs, esse ‘Homero’ (ou ‘Homeros’) imortalmente anónimo sob valor das suas obras.
 

BIBLIOGRAFIA (7)

  • B. GRAZIOSI (2002), Inventing Homer. The Early Reception of Epic. Cambridge.
  • P. CARLIER (1999), Homère. Paris, Fayard.
  • Maarit KIVILO (2000), «Certamen», Studia Humaniora Tartuensia 1.4.
  • Maarit KIVILO (2001), «The Archaic Biography of Homer», Studia Humaniora Tartuensia 2.1.
  • N. O’SULLIVAN (1992), Alcidamas, Aristophanes and the Beginning of Greek Stylistic Theory. Stuttgart.
  • N. RICHARDSON (1981), «The Contest of Homer and Hesiod and Alcidamas’ Mouseion», CQ 31, 1-10.
  • M. L. WEST (1967), «The Contest of Homer and Hesiod», CQ 17, 443-450.
  • M. L. WEST (1995), «The Date of the ‘Iliad’», MH 52, 203-219.
  • M. L. West (1999), «The Invention of Homer», CQ 49, 364-382.
  • M. L. WEST (2003), Homeric Hymns. Homeric Apocrypha. Lives of Homer. Harvard, Loeb.


NOTAS

Este texto é uma versão reformulada da comunicação apresentada nas XV Jornadas de Formação de Professores, que, em 29 e 30 de Abril de 2004, homenagearam o Professor Doutor Manuel de Oliveira Pulquério, Director da Faculdade de Letras da Universidade Católica, desde a sua fundação. Nas aulas do Professor Doutor Pulquério, meu professor de Literatura e Língua Grega no ano de 1988/89, conheci o texto grego de Homero; mais tarde, confiou em mim, como Assistente, para dar continuidade à sua tarefa. É, pois, com Homero, quem quer que, de facto, ele tenha sido, que presto a minha homenagem ao Mestre e ao Director.

Na Antiguidade, muitos Gregos consideraram que o autor da Ilíada, da Odisseia e de outros tantos textos congéneres fora um poeta cego, oriundo talvez de Quios e chamado Homero. Dele não sabemos nada hoje, mas a Antiguidade pensou saber bastante; assim, no seguimento de uma tradição antiga, nascida talvez de um equívoco, mas que contava também com uma forte componente nacionalista (das recém nascidas cidades da época arcaica, que reclamavam, com orgulho, ser a terra pátria do mais divino dos poetas) construiu-se uma(s) biografia(s) para Homero. Essa(s) suposta(s) biografia(s) conhecêmo-la(s) por um conjunto de textos de redacção aprentemente tardia, as chamadas Vitae Homeri, cujas informações principais apresentamos aqui. Quanto dessas informações poderá encerrar algo de histórico, não podemos confirmá-lo.
ANA ELIAS PINHEIRO
 

1 Esta Cime (em grego, Kuvmh), na Eólia, pátria também da família de Hesíodo (Op. 633-640), parece ter sido na Antiguidade a metrópole da Cumas (Cumae) itálica; ocasionalmente, a cidade italiana terá sido designada também como Cyme, sendo obscura a razão que terá levado à variação de número entre o nome da cidade primitiva e o da sua colónia.

2. Embora já autores como Píndaro (Nemeias, 2.1) tivessem atribuído o texto a Cineto de Quios.

3. Xenófanes (a referência mais antiga) considera Homero mais velho, mas tornara-se comum, no século V a.C., aceitar que foram contemporâneos: Helânico, fr. 6; Damastes FHG 2.66; Ferécides FHG 4.639; Próclo, Chrestomatia; Heródoto; talvez Íbico, fr. 151 Page.

4. Vide West, Hesiod. Theogony (Oxford, 1966; repr.1988).

5. Contudo, à mesma história se referem composições antigas (Teógnis 1.425, 427; Ar. Pax, 1282-1283) e Tucídides (3.96) alude à morte de Hesíodo tal como ela é descrita no Certamen. Aparece referenciado ainda no Papiro Flinders Petrie XXV (Dublin, 1891), datado do século III a.C., e também no Michigan 2754, que refere a existência de um texto de Alcidamante sobre Homero; este papiro, contudo, datará dos sécs. II-III d.C.

6. Exemplo claro deste revivalismo homérico são as recentes publicações de romances como Presságio de Fogo, de Marion Zimmler Bradley (Lisboa, Difel, 1997); A Canção de Tróia, de Collen McCullough (Lisboa, Difel, 1999); Os Cantos dos Reis de Barry Unsworth (Lisboa, Caminho, 2004), e A Guerra de Tróia de Lindsay CLARKE (Lisboa, Bertrand Editora, 2004), e as inúmeras adaptações cinematográficas das várias histórias ligadas ao Ciclo Troiano (vd. Ana E. PINHEIRO e L. FERNANDES, «O mundo greco-romano no cinema e na televisão – filmografia», in Catálogo de Filmes e Obras Musicais de Tema Clássico (Coimbra, FLUC, 2001), 5-53) coroadas, já no nosso século, e pese embora a fraca adaptação do argumento, pelo estrondoso sucesso de bilheteira obtido pelo filme Troy de Wolfgang Petersen (EUA, 2004).

7. São referidas apenas obras citadas no corpo do texto; todas as traduções apresentadas (à excepção da da primeira epígrafe) são minhas.

 

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Homero: Tentativas de (Re)construção Biográfica na Antiguidade
Ana Elias Pinheiro, 2004-2005
publicado in MÁTHESIS 14 - 2005, pp 111 a 128

Fonte do texto: Universidade Católica Portuguesa


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11.Out.2013
Publicado por MJA