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 Sobre a Deficiência Visual


As Duas Órfãs

Adolf D'Ennery

capa de 'As Duas Órfãs'
 

I

DURANTE o reinado de Luís XV, que governou a França de 1715 a 1774, o povo francês passou muitas vicissitudes, não se preocupando a corte em procurar resolver os problemas que o afectavam. O aumento de carestia de vida e a miséria faziam-se sentir cada vez mais em muitos sectores, até que no final do reinado do referido monarca a situação se tornou praticamente insustentável.

Verificou-se naquela época um dos Invernos mais rigorosos de que havia memória, o que levaria o desespero a muitas famílias, porque os moinhos, invadidos pelos gelos, não podiam moer a farinha necessária para o consumo e nos celeiros se esgotavam rapidamente as reservas de cereais, fazendo prever o maior dos desastres.

Em todos os lugares reinava a inquietação, e até mesmo Paris tomava um aspecto lamentável. As fábricas e oficinas haviam suspendido o trabalho e muitos estabelecimentos encerraram as portas por falta de compradores, pelo que o número de pessoas sem trabalho aumentava de forma assustadora.

E, entre tanta desolação, não faltava quem, favorecido pela fortuna, se risse inconscientemente dos seus semelhantes, vangloriando-se da sua boa mesa e dizendo para os convidados

― Claro, o que se está passando não é agradável à vista; Porém, sempre fica a consolação de que, se não se pode comer pão, pode-se, pelo menos, comer torta.

Os seus ouvintes riam-se da piada, pensando apenas na Própria existência e não se preocupando com a desdita dos que sofriam.

Entre estes vamo-nos ocupar de um jovem casal que vivia numa velha casa da Rua de Mortellerie, que então era uma das mais obscuras e antigas da velha Paris.

Este casal, constituído por Miguel Gerard, nascido em Evreux, e sua esposa Teresa, habitava no sexto andar de um prédio, numa pequeníssima água-furtada miseravelmente mobilada, pois que os haveres do jovem par eram constituídos por uma cama de madeira com um enxergão de palha e um mau colchão, uma mesita, duas cadeiras desmontáveis, uma espécie de armário, que servia também de aparador, e quatro ou cinco pregos cravados nas paredes para suprir a falta de cabides. Um fogareiro, uma marmita grande para fazer a comida e algumas roupas completavam o que as economias dos dois jovens haviam permitido comprar. As rendas eram muito elevadas e os vencimentos de Miguel não davam para mais.

No entanto, amavam-se, e maior se tornou esse amor quando um ano depois o céu abençoou a sua união enviando-lhes uma linda menina, que baptizaram com o nome de Henriqueta.

Contudo, como tantos outros lares, a miséria atingiu implacavelmente os Gerard. Miguel ficou sem trabalho e os escassos haveres iam desaparecendo pouco a pouco, enquanto esperavam melhores dias.

O jovem marido sentia-se desolado, mas a esposa animava-o dizendo-lhe que tinham de lutar pela sua Henriqueta.

Certo dia bateram à porta. Era o notário Vermillon, que, acompanhado de um oficial de diligências, reclamava o pagamento das rendas atrasadas; o pobre Miguel, órfão de pai e mãe, tal como sua esposa, não tinha ninguém a quem pudesse recorrer para sair de tão terrível situação.

O notário fez um inventário dos haveres do jovem casal e comunicou-lhes que no dia seguinte voltaria de novo para os desalojar da casa, se até lá não pagassem as rendas em débito.

O desespero de Miguel não se pode descrever, e o desgosto de sua esposa foi tão grande, ante a calamidade que se avizinhava, que adoeceu, recolhendo à cama.

Henriqueta chorava, perto dela, mas Teresa, prostrada como estava, não podia acudir a sua filha, cujo choro era causado pela falta de alimento.

Gerard mirava uma e outra, desesperado, não lhe saindo do pensamento a triste situação em que se encontrariam no dia seguinte. Seriam atirados à rua sem remédio.

Eram já oito horas da noite quando pelo cérebro de Miguel passou a mais disparatada das ideias, ideia que naquele momento considerou como solução, ainda que se lhe dilacerasse a alma.

― Que Deus me perdoe ― disse Miguel para si, enquanto tomava a sua filhinha nos braços e a agasalhava o melhor que podia. Olhou em volta e os seus olhos encheram-se de lágrimas. O fogareiro estava apagado e a marmita vazia. Vinte e quatro horas antes Miguel e Teresa haviam repartido o último bocado de pão. Ele podia esperar, pois era forte e resistiria, mas sua mulher, que tinha de prodigalizar todos os cuidados a uma filha pequena e que havia sofrido já tantas privações, que faria? Ela não poderia alimentar a criança, que morreria de inanição.

Miguel, com a filha nos braços, permanecia com os olhos espantosamente abertos.

― Não. Hei-de salvar as duas, não posso permitir que morram.

O desesperado Miguel, enchendo de beijos a face da filhinha, hesitava, ante o enorme sacrifício que impunha ao seu coração, ao mesmo tempo que se animava pensando que a pequenita não sofreria mais no futuro e que Teresa se salvaria. Por fim, avançou para a porta sem fazer o menor ruído, ao mesmo tempo que dizia, elevando os olhos ao céu:

― Deus meu! Se não foste Tu que me inspiraste este pensamento que me tortura o cérebro, perdoa-me.

Gerard desceu as escadas e encontrou-se na rua. O frio era intensíssimo e a neve e o gelo cobriam por completo o pavimento. Miguel avançou lentamente na escuridão, evitando escorregar. Atravessou a ponte que conduz à Cite e internou-se por uma ruela escura.

O desgraçado pai tivera a trágica ideia de abandonar a sua pequena Henriqueta à caridade pública. Pensou abandoná-la, na esperança de que alguma alma caridosa a recolheria e lhe daria o conforto que ele não podia proporcionar-lhe, ao mesmo tempo que evitaria esforços inúteis a sua esposa.

As lágrimas corriam continuamente pelas faces de Miguel, que por fim chegou em frente da igreja, cujas grades estavam cobertas de neve, amontoando-se esta por baixo do pórtico, que um vento glacial fustigava.

Naquele momento percebeu que lhe faltava coragem para realizar o seu propósito. Não obstante, continuou a avançar como um autómato até às grades do templo.

Ia inclinar-se para depositar a sua pobre Henriqueta no umbral das portas laterais, quando ouviu a pequena distância um gemido angustioso.

Voltou a cabeça e deparou-se-lhe a dois passos uma criança semicoberta por uma pequena manta escura e da qual saíam os gemidos. Aproximando-se, viu que ela estava meio coberta pela neve. Um pequeno ente abandonado, como ia ser a sua filha. A cara da pobrezinha estava enregelada.

Miguel sentiu dentro de si uma grande responsabilidade. Aquela criança estava condenada a morrer, como estaria a sua própria filha se a abandonasse naquele sítio. O desgraçado sentiu a cabeça andar à roda. Os ofícios sagrados haviam terminado e todos os que costumavam ir rezar à casa do Senhor tinham já saído. Não estava nenhuma pessoa por aquelas paragens e era impossível acreditar que aqueles dois delicados seres pudessem resistir ao frio até o dia seguinte.

― Não, não posso abandonar aqui a minha filha; não devo abandoná-la nem tão-pouco deixar esta criancinha à mercê da sorte. Seria um crime ― e o coração de Miguel, cheio de ternura, ditou-lhe, como um raio de luz chegado das Alturas, o que devia fazer.

Pegou na pequena abandonada e, sem pensar mais, regressou a casa com duas crianças, quando momentos antes havia pensado abandonar uma.

Teresa, vencida pela fadiga e pelas emoções, adormecera e por isso não notara a ausência de Miguel; aquele sono reparador, em que sonhou constantemente com sua filha, teve a virtude de a recompor, e o marido, ao regressar, encontrou-a quase restabelecida.

A sua surpresa foi grande quando viu Miguel inclinado sobre o leito, a sorrir e com uma criança em cada braço. ― Sim, Teresa, temos agora dois filhinhos. A jovem esposa abriu os olhos desmesuradamente, não compreendendo o que se estava passando.

Miguel contou-lhe o que acontecera, pedindo-lhe perdão do seu pensamento. Teresa ficou tão contente naquele momento, que tão dramático poderia ter sido, e tão grande foi a sua alegria que se levantou animadíssima, tomando nos braços as duas crianças.

― Teresa ― exclamou Miguel com a voz trémula ―,  como vamos alimentar dois seres tão pequenos?

A esposa sorriu e, falando calmamente, respondeu a seu marido que Deus não os poderia abandonar naquele transe.

Os dois esposos beijaram-se com lágrimas nos olhos.

Momentos depois a pequena Henriqueta dormia tranquilamente, enquanto a outra criança choramingava sem cessar.

― Talvez tenha as roupas demasiado apertadas. Teresa começou a aligeirar as mantas, mas, mal ainda

começara, caiu qualquer coisa no chão.

― Que terá sido? ― perguntou Teresa, admirada. Miguel inclinou-se e o seu rosto deixou transparecer a

maior das surpresas. Nas mãos segurava duas bolsas com autênticos luíses de ouro. Uma fortuna.

Teresa não sabia o que pensar ao contemplar aquelas moedas, que brilhavam à luz ténue de uma vela.

― Há mais, balbuciou Miguel emocionado. ― Uma carta.

Miguel leu: "À caritativa pessoa que me recolher. Chamo-me Luísa. Amai-me."

― É uma menina ― comentou Teresa ― uma menina que será a irmã querida de Henriqueta, que será a nossa segunda filha.

― Sim, Teresa, desde este momento temos duas filhas. E, olhando as moedas de ouro, acrescentou: ― Somos ricos e podemos tratar delas bem.

― E poderemos pagar as rendas atrasadas.

― E comprar provisões em abundância.

― Sim, querido marido ― exclamou Teresa beijando as filhas. ― Vai buscá-las agora mesmo.

― Não te preocupes, mulher; eu sei o que tenho a fazer. Amanhã...

Sua mulher interrompeu-o para dizer:

― Amanhã deixaremos Paris, onde reina a miséria e a desolação.

― Sim; partiremos os quatro para Evreux. Momentos depois, Miguel Gerard voltou com os mantimentos que havia adquirido. Vinha alegre, mas depressa se deteve ao verificar o rosto entristecido de Teresa. ― Que aconteceu? ― perguntou preocupado.

― Pensava na mãe desta criança, porque não há dúvida que este abandono oculta um drama terrível.

― Sim, é certo - balbuciou Miguel. ― O motivo desta acção não foi a miséria que a mim me fez perder a cabeça. Quando se põem bolsas com moedas de ouro entre as mantas de uma criança que se abandona, é porque se é rico.

― Seja quem for a pequena Luísa ― interveio de novo Teresa  ―,  nós saberemos cuidar dela, porque temos de acreditar que foi Deus quem a pôs no nosso caminho para nos salvar e livrar da morte a pobre criança.

Quando Miguel se encaminhava para casa com a pequena Luísa, não reparou que uma mulher o seguia, no intuito de saber para onde ele se dirigia. Esta era a mulher que abandonara a criança à porta da igreja e que depois quis averiguar onde morava a alma caridosa que a recolhera. Assim, tomou nota da morada de Miguel e regressou seguidamente a uma residência situada num dos bairros mais aristocráticos de Paris, onde se celebrava uma festa a que assistiam muitos convidados e que transbordava de luxo. Era o palácio do marquês de Vaudrey.

Marieta, assim se chamava aquela que havia espiado os movimentos de Miguel, penetrou no rico palacete por uma porta de serviço e dirigiu-se, em passo ligeiro, para uma das salas do piso superior, onde a esperava ―,  excitadíssima, uma jovem de grande beleza, que ao ver chegar a sua fiel servidora se lhe lançou nos braços chorando.

― Por sorte, minha querida patroa ― exclamou a recém ― chegada acariciando os cabelos da desconsolada mulher ―,  não tive de esperar muito. Um homem muito novo tomou conta da pequena.

― Minha filha! ― balbuciou a aflita mulher com a voz entrecortada pelo pranto.

― Tomei nota da morada desse homem e amanhã informar-me-ei de quem é, para, deste modo, não perder a pista da nossa pequenita.

― Sim, Marieta, mesmo separada dela quero velar por minha filha, porque essa é a minha obrigação.

― Malditos brasões ― resmungou Marieta. ― Ah! Se o vosso pai, o marquês, não tivesse um coração tão duro.

Não digas isso, Marieta ― lamentou-se Diana, que assim se chamava a mãe de Luísa ―,  o marquês é meu pai e tenho de o respeitar, seja qual for a atitude que adopte.

Mas que poderosos motivos existiriam, para obrigar Diana de Vaudrey a proceder daquela maneira?

O marquês de Vaudrey era uma figura importante da época. Era o protótipo dos grandes senhores, cuja raça hoje se encontra quase extinta. Para ele só existiam a nobreza e o apelido, que se tinham de respeitar a todo o preço.

E sua filha Diana havia cometido o grande pecado de casar secretamente com um humilde oficial do exército, que, por muito honrado que fosse, não passava de um deserdado da fortuna.

Matilde, a irmã mais velha de Diana, fora, de certo modo, cúmplice deste casamento de amor, o que o marquês, que tinha os seus pergaminhos em elevada estima, consideraria ser uma nódoa a manchar o seu nobre apelido.

Matilde e Diana eram as únicas descendentes do marquês de Vaudrey, que, não tendo um filho varão, temia que o ilustre nome da sua casa se extinguisse devido ao casamento de suas filhas com alguém que não pertencesse à sua estirpe. Por isso obrigou Matilde a casar com um primo, e, portanto, sobrinho do marquês, com o fim de assegurar a sucessão de um nome que representava tudo para ele.

O sobrinho era um homem rico e possuía um velho castelo no vale de Chevreuse, lugar onde o casal se instalou e onde Diana ia passar longas temporadas.

Foi ali que esta conheceu o garboso militar que mais tarde havia de ser seu esposo e de cujo casamento nascera a pequena Luísa.

Estes factos tinham podido ser escondidos ao marquês de Vaudrey porque ele se ausentava frequentemente, no intuito de levar uma vida distractiva e agradável; no Inverno ia às festas e bailes em Versalhes, no Verão estava presente nas estações balneares da moda e no Outono não perdia as mais importantes caçadas.

Diana, apesar da inquietação em que sempre vivia para ocultar o seu casamento, era completamente feliz e mais ainda quando o céu quis mitigar os seus sofrimentos mandando-lhe aquela bonequita que baptizou com o nome de Luísa. No entanto, um grave acontecimento devia levar Diana à maior das angústias.

Quando a pequenita tinha dois meses, e encontrando-se Diana no palácio de seu pai, veio parar-lhe às mãos um jornal que inseria a lista dos mortos e feridos de uma tremenda batalha sustentada pelas tropas nacionais perto de Verdun. O nome do esposo figurava nela.

Diana, não podendo resistir à comoção que aquela notícia lhe causava, desfaleceu e teve de ser assistida pelo seu médico.

Entretanto, o marquês de Vaudrey, que ignorava completamente o drama de sua filha, projectara casá-la com o conde de Linières, homem de uns trinta anos, com futuro risonho na política e que estava sinceramente enamorado da jovem.

As duas irmãs tiveram sucessivas entrevistas com o fim de descobrir uma maneira discreta para explicar a verdadeira situação a seu pai, mas a energia deste e as suas violentas reacções constituíram sempre um travão para que os bons propósitos de Diana e de Matilde fossem avante.

A situação tornou-se cada vez mais insustentável e, perante algumas desconfianças que o marquês demonstrou, Diana entregou a filha ao cuidado duns camponeses aparentados com a sua fiel servidora Marieta.

Momentaneamente o problema parecia resolvido, mas de novo se obscureceu o céu de ilusões de Diana quando ela se viu obrigada a aceitar por esposo aquele que o pai lhe propunha.

E foi precisamente nas vésperas da sua segunda boda que a camponesa que cuidava de Luísa morreu quase repentinamente, o que obrigou o marido da falecida a chamar Marieta, a fim de que esta levasse a pequena.

A angústia de Diana ante aquela nova complicação não se pode descrever. A pequenita não podia permanecer no palácio sem que o marquês o viesse a saber. Aquele homem, ante o que ele considerava uma desonra, não teria dúvidas, passando por cima de todos os sentimentos humanos, em ordenar as mais repugnantes acções, para salvaguardar o que, como dissemos, tinha na mais alta estima: o prestígio do seu apelido.

De nada valeriam as explicações que sua filha Diana lhe desse, pois ele jamais compreenderia que aquela pequenita tinha sido o fruto de um santo matrimónio bendito por Deus e que resultara de um amor puro. Era certo que, além de depreciar a filha e de a afastar para sempre de seu lado, teria também ordenado a separação da pequena Luísa, da qual Diana jamais saberia notícias.

Foram estas as razões que levaram a angustiosa mãe a praticar aquele acto, que, embora repugnando-lhe até ao fundo da alma e dilacerando-lhe o coração, havia sido realizado pouco antes pela fiel Marieta, que se encontrava agora na sua frente ao regressar da missão de que se incumbira.

Pelo que ela lhe comunicou, a infeliz Diana convenceu-se de que poderia seguir a pista da filha, a quem no anonimato poderia ir socorrendo, de forma que nunca lhe faltasse nada. Diana não podia adivinhar, porém, que o destino lhe reservava o mais adverso dos acontecimentos e que Deus iria pôr à prova a força de vontade daquela filha do marquês de Vaudrey, cuja única falta tinha sido enamorar-se duma pessoa humilde.
 

II

DIANA DE VAUDREY já se convertera em condessa de Linières. Havia, por fim, aceitado aquele matrimónio que lhe fora imposto pelo pai, o marquês, levado apenas pela grande ambição ao considerar a linhagem dos nobres apelidos.

Diana não era feliz; não podia sê-lo porque no seu coração trazia cravado um tremendo espinho de dor.

Quando a sua fiel servidora foi à casa de Miguel, dois dias depois de abandonar Luísa, sofreu uma enorme decepção.

A criada efectuava aquela visita às honradas pessoas que haviam recolhido a criança com o fim de fazê-las compreender que os cuidados que prestassem à pequena seriam prodigamente recompensados. Calaria a sua nobre origem e estava certa ― assim dissera a Diana ― de que, visto que a tinham recolhido, era porque nos seus corações existiam os melhores impulsos e verdadeira bondade.

Marieta bateu várias vezes à porta dos Gerard e, como não obtivesse resposta, pensou que o inquilino ou inquilinos tivessem saído; nesse momento, porém, reparou que a chave se encontrava na fechadura e, cedendo a uma irreprimível inquietação, abriu a porta e entrou.

A casa estava completamente vazia, pois só se podiam contemplar as quatro velhas paredes.

Pensou que talvez se tivesse enganado na casa, mas, orientando-se novamente, viu que aquele era o lugar exacto onde vira entrar, dois dias antes, o homem que recolhera a Pequena Luísa.

Não se deu por vencida e começou a interrogar os vizinhos e os comerciantes do bairro. A resposta era sempre a mesma: os Gerard haviam desaparecido no dia anterior sem deixar rasto. Ninguém sabia para onde se tinham dirigido.

Marieta ficou amedrontada, pensando que aquele golpe Podia ser mortal para a sua querida ama, a condessa de Linières.

A fiel servidora regressou ao ponto de partida com lágrimas nos olhos.

― Pobre Diana ― ia murmurando.

Quando ao cabo de vários dias de ausência, motivados pela sua viagem de núpcias, Diana regressou ao palácio, recebeu com espanto a notícia da desaparição da filha. Marieta consolava-a, mas as duas não podiam conter as lágrimas.

― Não pode ser. Não posso acreditar - repetia sem cessar a infeliz Diana, com a voz entrecortada pelos soluços.

― Procurá-la-emos. Procurá-la-emos e Deus nos ajudará a encontrá-la ― argumentou Marieta, não menos atormentada do que a sua ama.

― Sim, Marieta, procurá-la-emos por toda a parte até a encontrarmos.

Diana não queria crer que a filha lhe tivesse sido arrebatada para sempre, desaparecida talvez na mais espantosa das misérias, enquanto ela se via rodeada de luxos, de riquezas e de todos os bens da vida.

E, desde aquele momento, Diana empreendeu uma constante peregrinação, quando podia deixar o palácio sob qualquer pretexto. Durante semanas, meses e anos explorou todos os bairros pobres de Paris, esperando sempre com o coração cheio de esperança a saída dos operários das fábricas e interrogando todas as mães que levavam filhos nos braços. Mas tinha de se resignar e regressar com os olhos rasos de lágrimas e o coração cheio de dor, porque ia compreendendo que as pesquisas eram inúteis e que as esperanças se iam esfumando por completo. Além disso, era necessário esconder esses sofrimentos a seu esposo que, como seu pai, baseava toda a dignidade e todo o futuro no nome que ostentava. O conde de Linières caminhava a passo seguro pelos caminhos da política e muitas vezes ajudado pelo sogro, o marquês de Vaudrey, ia subindo os degraus da popularidade.

A desaparição da pequena Luísa era motivada, como sabemos, por uma circunstância totalmente normal. Os esposos Gerard, ao encontrarem nas roupitas da pequena aquelas moedas, que para eles representavam uma autêntica fortuna, tinham projectado pagar imediatamente as pequenas dívidas e deixar em seguida a capital, onde Miguel não conseguia encontrar trabalho, e dirigir-se a Evreux, onde os jovens esposos pensavam ter melhores possibilidades de subsistir.

E conseguiram-no.

Henriqueta e Luísa iam crescendo num ambiente religioso e de bondade, o que fazia que os seus corações se abrissem aos mais puros sentimentos.

Toda a gente admirava aquelas pequenitas que supunham irmãs, pois elas distinguiam-se entre as outras na escola e acorriam às cerimónias religiosas com verdadeira devoção. A educação que as freiras de Santa Infância davam às duas irmãzitas enchiam de orgulho seus pais.

No entanto, aquela felicidade não ia continuar, infelizmente, por muitos anos, porque, quando os horizontes daquela família se viam banhados da mais pura luz, Miguel faleceu, vitimado por uma cruel e rápida doença.

Sua esposa não teria sobrevivido ao ser amado, que de forma tão inesperada lhe fora arrebatado, se o instinto da maternidade não lhe impusesse, como lei suprema, a necessidade e a vontade de viver.

Durante os primeiros anos de viuvez não teve Teresa um só momento de fraqueza. Para ela, nenhum trabalho era demasiado rude, contanto que às filhas nada faltasse. Esforçou-se por lhes ensinar um ofício que lhes permitisse ganhar a vida honradamente, infundindo-lhes o amor pelo trabalho.

Os resultados foram benéficos, porque as duas pequenitas, compreendendo que tinham de ajudar a mãe, trabalhavam com ela no tear de rendas.

Em dez anos, Teresa envelhecera como se tivesse vivido vinte, enquanto Henriqueta e Luísa os tinham visto correr querendo-se como duas autênticas irmãs e sentindo pela mãe um arreigado e profundo amor.

No entanto, ao chegarem aos catorze anos facilmente se podia notar que eram irmãs apenas de nome. Henriqueta tinha a força e o corpo esbelto da mãe, cabelos negros como esta, olhos iguais, ao mesmo tempo que mostrava um carácter resoluto e firme, mas muito doce e reflexivo como Teresa.

Luísa era três ou quatro meses mais nova que a irmã e distinguia-se desta não só um pouco nas suas inclinações como também pelos cabelos de tom dourado, pequenos dentes, olhos de deliciosa simetria e gracioso sorriso. A sua figura era ágil e delgada, e na frescura da tez podia-se apreciar um delicado tom rosado que lhe fazia sobressair mais a brancura. Parecia que a nobreza de nascimento se revelava em todos os seus movimentos. Era de carácter expansivo e na maioria dos casos entregava-se às ocupações diárias cantando com doce e clara voz as mais conhecidas canções do país, que eram escutadas com deleite por quantos a ouviam porque Luísa lhes dava uma entoação impecável.

Luísa tinha-se convertido numa habilíssima bordadora, pelo que os comerciantes da cidade a sobrecarregavam com encomendas.

As suas brancas mãozitas deslizavam com agilidade surpreendente pelo tear e o trabalho era tão perfeito que quase se tornava incompreensível como, fazendo-o com tanta rapidez, pudesse ficar tão regular e delicado.

Henriqueta e Luísa tinham-se transformado em duas graciosas e belas jovens.

Contudo, aquela maravilhosa compreensão de Teresa e de suas filhas, que fazia que os dias se sucedessem com uma maravilhosa tranquilidade, não devia durar muito. Teresa, aquela mulher que tanto se sacrificara por elas, havia de sofrer uma terrível adversidade.

Tinha chegado o Outono e num desses dias de sol esplêndido e quente levou as filhas a dar um passeio pelo campo.

As duas jovens colhiam flores para formar um ramalhete. De repente, Luísa deixou a sua tarefa, visivelmente preocupada, e voltou para o lado de sua mãe, junto da qual continuou o passeio.

Henriqueta regressou também alguns minutos depois e ofereceu à irmã metade de algumas margaridas que colhera.

― Estas margaridas são para ti, Luísa ― disse, entregando-lhe as flores.

Luísa fechou os olhos por momentos e depois, com a voz trémula e a face muito pálida, exclamou:

― Não as vejo! Não as vejo!

― Que aconteceu? ― perguntou Teresa, alarmada.

Luísa tranquilizou-a dizendo que o sol a tinha ofuscado e que tudo se limitara a um susto, mas um pouco mais adiante a jovem soltou um grito ao bater com a cara num ramo que não vira.

A pancada que deu produziu-lhe uma ferida na testa e, em consequência, teve de acusar forçosamente aquela dor física que, porém, se desvanecia ante a dor espiritual que a linda jovem experimentava e que era muito mais profunda pois no seu coração acumulavam-se os mais negros pressentimentos. Não obstante, tranquilizou novamente a mãe e a irmã, tratando de se acalmar e de recobrar a jovialidade habitual.

Desde aquele dia a rapariga não teve outra ideia senão a de ocultar as sombras que iam invadindo os seus olhos, com o fim de evitar preocupações aos entes queridos.

No seu carácter operou-se em poucos dias uma estranha mudança: os olhos, tão vivos e tão doces, tinham-se tornado turvos e tristes e o sorriso fugira-lhe dos lábios.

As suas mãos não cessavam de trabalhar, percorrendo o tear com aquela velocidade que lhe era peculiar, mas o pensamento estava noutra parte, e quando a mãe ou a irmã lhe dirigiam a palavra, inquietas e ansiosas por saber a causa daquela mudança, um calafrio percorria-lhe todo o corpo ante a fatal realidade.

Tentava, sem o conseguir completamente, ser a mesma Luísa e, no entanto, não conseguia disfarçar o que lhe dilacerava o coração.

E a terrível verdade teve de ser revelada forçosamente por Luísa numa noite em que Teresa, para impedir que a filha continuasse a trabalhar, apagou a luz.

Luísa, ao aperceber-se do que sua mãe fizera, suspendeu a tarefa e pediu-lhe que a deixasse terminar uma fina renda, mesmo que fosse às escuras.

― Às escuras? ― perguntou Teresa.

― Sim, mamã - respondeu Luísa com toda a tranquilidade. ― Sem vocês repararem e para não cansar a minha vista, que vai enfraquecendo, aprendi a trabalhar na escuridão. ― E levantando o sereno olhar para a mãe acrescentou: ― Repara, mamã.

E os seus ágeis dedos continuaram o trabalho sem a menor hesitação.

Teresa pôde comprovar o que lhe dizia a filha com o auxílio da débil luz que saía do quarto de Henriqueta; esta, ao ouvir aquelas estranhas palavras, colocou-se também ao lado da irmã.

Teresa, sem dizer nada, acariciou a loura cabeleira de Luísa e retirou-se para descansar, pensando que tinha de levar a filha ao médico sem perda de tempo.

― Sim, Henriqueta ― balbuciou Luísa, em resposta a uma trágica pergunta de sua irmã ―,  estou a ficar cega já não o posso esconder. Desculpa-me se por minha culpa sofrem as duas. Tentei por todos os meios ocultar a minha angústia para não vos causar o mínimo pesar.

Henriqueta abraçou a irmã sem poder articular uma palavra, devido à grande comoção que sentia, e as lágrimas de ambas deslizavam sem cessar pelas suas faces.

No dia seguinte, Teresa levou Luísa, para ser examinada, a um médico muito famoso, que lhe observou detidamente os olhos. Ao cabo de alguns momentos, a mãe da enferma notou um gesto quase imperceptível que o médico fez com a cabeça, sentindo uma dolorosa comoção.

Os olhos de Teresa interrogaram o doutor.

― Esta pequena ― disse o médico pesando bem as palavras― não está completamente cega, mas é meu dever dizer-lhe que não podemos perder tempo para tentar curá-la.

― Será possível devolver-lhe a vista? ― perguntou emocionada a mãe de Luísa.

― Só posso dizer que existem algumas possibilidades, o que vamos tentar com toda a rapidez.

O médico, como tinha dito, pôs toda a sua experiência ao serviço de Luísa, mas, desgraçadamente, todos os esforços resultaram inúteis. Algumas semanas depois teve de se render à evidência. A jovem estava completamente cega!

Luísa mais uma vez deu provas de admirável abnegação ao conformar-se com a sua desgraça e ainda teve forças para consolar a mãe e a irmãzita.

E continuou a trabalhar com a mesma habilidade, como se nada tivesse mudado, e até a sua admirável voz soou de novo a interpretar as antigas melodias.

Mas se Luísa deu mais uma vez provas da sua força de ânimo, o mesmo não sucedeu com Teresa, pois aquele acontecimento abalou-lhe profundamente a alma e o corpo. O coração que tinha sofrido em silêncio ia falhando cada vez mais, até que um dia foi preciso chamar um médico a toda a pressa.

O homem de ciência viu que a vida se escapava daquele corpo que tanto tinha trabalhado e que tanto havia sofrido para dar uma sólida educação às duas pequenitas.

― Salvar-se-á, não é verdade? ― perguntou Henriqueta, pálida de susto.

O médico fez um significativo movimento com a cabeça, enquanto prodigalizava os seus cuidados à enferma.

Teresa, que adivinhava o trágico fim que se aproximava, pousou a mão sobre a cabeça de Luísa e envolvendo com a outra Henriqueta disse num esforço supremo:

― Henriqueta, confio-ta!

Fez-se um prolongado e angustioso silêncio, que só era perturbado pelo soluçar das duas irmãs e pela profunda respiração da moribunda.

Ergueu os olhos para o céu e dos lábios escapou-se-lhe um nome como num suspiro:

― Miguel! Miguel!

A sua cabeça caiu para o lado e ficou imóvel.

Henriqueta e Luísa acabavam de perder o ser mais precioso e querido, esse tesouro inesgotável de afecto, de amor e de abnegação, que é uma mãe.

A partir daquele momento, as duas irmãzitas passaram a ser conhecidas pelas duas órfãs.


III

A morte de Teresa deixava as duas filhas abandonadas a todas as eventualidades da vida; no entanto, outra pessoa sofria havia alguns anos um profundo abatimento: a condessa de Linières, que, apesar de rodeada pelo mais refinado luxo, não tinha podido apagar a marca de uma pena moral que se lhe revelava no seu rosto sereno.

Seu esposo seguia a rota ascendente, que o ia situando em lugares cada vez mais evidenciados da vida social e política.

Isto fazia com que a ilustre dama, a gentil Diana, passasse muitas horas só, no seu gabinete, entregue à leitura e à meditação.

Certo dia, para ela inesquecível, um dos seus criados veio entregar-lhe uma carta que o marido tinha deixado para ela.

Diana abriu-a e leu estas palavras, escritas apressadamente:

"Decerto regressarei bastante tarde. El-Rei mandou-me chamar. Não te aflijas."

Diana deixou cair a carta sobre a mesita e dirigiu-se para a janela, pela qual entrava um raio de sol.

Os seus olhos perderam-se no imenso horizonte, quando o relógio de São Sulpício deixou ouvir umas badaladas.

A condessa levou uma das mãos ao coração como para impedir fortes palpitações.

― Duas horas! ― balbuciou. ― Faz hoje dezassete anos que a esta mesma hora nasceu minha filha, que não voltei a ver.

Um profundo suspiro se lhe escapou do peito e os seus olhos inundaram-se de lágrimas.

Deixou-se cair abatida num fofo cadeirão e permaneceu assim muito tempo, pensando na filha a quem tanto queria.

Umas pancadas discretas dadas na porta arrancaram-na à meditação. Levantou-se rapidamente no momento em que o marido entrava, lendo-se no rosto radiante satisfação. Diana sorriu e ao mesmo tempo perguntou: ― Trazeis boas notícias?

― Sim, queridíssima Diana, estás diante do subdirector-geral da Polícia. El-Rei, que veio passar umas horas no castelo de Muta, dignou-se anunciar-me pessoalmente a minha nomeação, o que indica o alto conceito em que Sua Majestade me tem.

― Ef ectivamente, é uma grande honra e faz-me supor que a vossa carreira está em ascensão e que talvez em breve sejais embaixador ou ministro.

― El-Rei deu-me essa esperança.

Nesse momento, um lacaio de libré anunciou a chegada do senhor cavaleiro de Vaudrey.

Um relâmpago de alegria cruzou os olhos da condessa ao ver entrar o seu sobrinho Rogério, a quem queria como a um filho e ao qual tinha prodigalizado todo o amor maternal ao ver-se privada de o proporcionar à própria filha. Rogério, por sua vez, sentia uma profunda devoção pela tia, a quem amava como se fora uma segunda mãe.

Era um jovem que aparentava ter vinte e quatro anos, alto, de fronte larga, olhos penetrantes e ar desenvolto e resoluto. Tudo nele revelava um carácter nobre e excelente coração.

― Não podeis chegar em melhor ocasião - afirmou o conde ―,  pois temos uma agradável surpresa para vós.

― Já a sei, senhor conde, por isso vim apresentar as minhas felicitações ao senhor subdirector-geral da Polícia. Estava no Café Procópio quando um oficial da guarda, que acaba de chegar de Muta, me deu a grande notícia, que a estas horas já deve ser conhecida em todo o Paris.

― Não há dúvida de que estou incluído no número dos altos funcionários do Estado - explicou o conde de Línières ― e parece-me que a tarefa que me cabe desempenhar não é das mais fáceis, porque El-Rei deu-me ordens formais e muito severas para que se não repitam os escândalos do reinado anterior. Não perderei de vista certas liberdades que tomam alguns aristocratas, como o marquês de Presles, por exemplo, que compromete um dos nomes da melhor linhagem de França.

― Sim, de facto-exclamou Rogério-já gastou praticamente a sua fortuna e é de esperar que arruíne também a irmã, que ele mandou chamar a Paris. Creio que chega brevemente.

― Faria melhor em se casar ― assegurou o conde ― e pôr fim à sua vida dissoluta.

― Sim, sou da mesma opinião ― comentou o cavaleiro de Vaudrey. O conde de Linières parecia esperar aquelas palavras porque imediatamente disse:

― Também tu deverias pensar nisso, e digo-to diante de tua tia, porque estou convencido de que a condessa também é do mesmo parecer. Ama-te como teria amado um nosso filho se o céu nos tivesse concedido essa alegria.

Diana lançou um olhar maternal a Rogério, que se ria alegremente.

― Essa é que é uma surpresa, querido tio! Eu casar-me! E com quem, santo Deus?

― Indiscutivelmente, há-de ser com uma nobre e rica herdeira, que nós procuraremos descobrir.

― E que seguramente quereis que conheça no mesmo instante de firmar o nosso contrato nupcial. Não, querido tio, o vosso sobrinho morrerá velho e solteiro.

― Veremos... ― exclamou o conde com um sorriso irónico.

O lacaio entrou de novo trazendo uma salva de prata que apresentou ao conde.

― Todas estas visitas ― disse o criado mostrando o grande monte de cartões que estavam na salva ― perguntam se o senhor subdirector-geral se digna recebê-los.

― Conduze as visitas ao salão de gala ― ordenou o conde ―,  e tu, Rogério, oferece o braço à condessa e aparecei quanto antes.

― Porque quererá casar-me meu tio? ― inquiriu o jovem em voz baixa a sua tia.

― Estás enamorado? ― perguntou Diana sorrindo.

― Por enquanto, nem sombra. E não é que o matrimónio me assuste, mas não hei-de casar-me com um nome nem com um dote. Casar-me-ei com a mulher a quem ame, seja pobre ou rica, tendo, porém, a certeza de ser amado.

― Bem sei que tens um nobre coração, Rogério ― respondeu Diana estreitando a mão de seu sobrinho.

Poucos momentos depois, o par entrou no salão de gala onde o senhor subdirector-geral da Polícia recebia as felicitações dos visitantes.

Quase ao mesmo tempo que se desenrolavam estes acontecimentos, uma berlinda puxada por dois magníficos cavalos de tiro saía de Rambouillet, dirigindo-se a galope para Paris.

O postilhão fazia estalar o chicote, como quem presssente uma esplêndida gorjeta.

No interior da carruagem ia uma elegante senhora: a irmã do marquês de Presles, que, comodamente instalada sobre os almofadões, parecia bastante aborrecida.

― Que péssima carruagem! ― ia dizendo de si para si. Quando menos esperava, ouviu um ruído e a seguir a

voz do postilhão, que fazia deter os cavalos. O coche parou e ao mesmo tempo descaiu para o lado esquerdo.

― Que aconteceu? ― perguntou a irmã do marquês de Presles.

O cocheiro, que tinha saltado em terra, explicou:

― Por pouco não perdíamos uma roda. Partiu-se um eixo e por isso não podemos ir mais adiante.

A dama não pôde reprimir um gesto de contrariedade, mas não havia outra alternativa senão arranjarem a roda ou aguardar que outra carruagem que seguisse na mesma direcção a levasse.

O postilhão começou a tarefa, que forçosamente teria de durar muito tempo.

A irmã do marquês começava a inquietar-se quando uma nuvem de pó a fez compreender que uma carruagem se aproximava.

Dentro de momentos apareceu a diligência que de Evreux se dirigia a Paris.

O postilhão da berlinda, por indicação da dama, fez parar a diligência a fim de saber se havia lugar para mais um passageiro.

Momentos depois a irmã do marquês de Presles, apesar de um pouco decepcionada com a incómoda carruagem sentou-se no seu interior e prosseguiu a viagem.

Defronte dela iam duas jovens viajantes, uma das quais lhe chamou a atenção porque levava um vestido quase igual ao seu e da mesma cor, apesar de ela ser uma grande dama e a outra aparentava ser uma humilde trabalhadora. No entanto, o caso não era para estranhar porque se a primeira, para fazer a viagem, tinha escolhido entre as suas roupas um vestido simples, a segunda, para a sua primeira viagem, escolhera um dos melhores que possuía.

Ambas se olharam e, levadas pelo mesmo impulso de observação que a casualidade lhes proporcionava, não tardaram a entabular conversa, derivada quase exclusivamente daquela coincidência na maneira de vestir.

― Também temos as duas o cabelo preto ― exclamou a marquesa. E para reatar a conversa perguntou: ― São irmãs?

― Sim ― exclamou a jovem ―,  eu chamo-me Henriqueta e ela Luísa.

Seguidamente, a órfã continuou a falar da sua vida e do motivo por que se dirigia a Paris.

Henriqueta levava escrita num papel a direcção de um antigo amigo de seu pai, a casa de quem pensava dirigir-se ao chegar à capital, porque sabia que seriam muito bem recebidas. Além disso, pensava trabalhar para não sobrecarregar o velho casal.

Entretanto, o senhor de Presles tinha indicado a um criado, chamado Lafleur, que fosse esperar sua irmã, que terminaria a viagem no mesmo sítio onde ficava a oficina da diligência, isto é, do mesmo lado da Ponte Nova, lugar onde naquela época se faziam quase todas as entradas e saídas da capital. Além disso, era o ponto de reunião dos que jogavam na Bolsa, dos charlatães, dos adivinhos, dos tosquiadores de cães, dos vendedores de pássaros e dos mendigos. Era, enfim, em volta da estátua de Henrique IV, o lugar onde se vendiam e cantavam as canções da moda que se espalhavam pelas oficinas, pousadas e quartéis.

Lafleur recebeu a ordem do amo com grande alegria, pensando que, enquanto esperava a marquesa, teria ocasião de se dedicar à sua mais querida actividade: a bebida. fleur era um bêbado desalmado, e o marquês tolerava-o porque em muitas ocasiões lhe tinha prestado grandes serviços.

Atrelou os cavalos ao coche do marquês e dirigiu-se à Ponte Nova para entrar de seguida numa pousada, onde pediu um jarro de bom Borgonha.

O vinho fez rapidamente os seus efeitos e Lafleur adormeceu profundamente, enquanto a animação na Ponte ia aumentando com a próxima chegada da diligência de Evreux.

Os mendigos procuravam ocupar as posições mais estratégicas para estender a mão aos que passeavam e aos viajantes que não tardariam a chegar.

Entre eles era muito conhecida uma velha bruxa, assim alcunhada porque a sua aparência se lhe assemelhava muito. Uma face achatada e estreita, meio coberta por um emaranhado de cabelos acinzentados que nunca tinham sido penteados, rosto seco e enrugado, olhos pequenos e maldosos, nariz adunco com as narinas enegrecidas pelo tabaco e lábios caídos que deixavam ver a falta de cinco ou seis dentes. Ia curvada e vestida de farrapos cheios de remendos, sujos e repugnantes. Era na verdade a representação genuína do mendigo.

Esta desprezível criatura chamava-se Frochard e ela mesma dizia que era quem melhor sabia estimular a piedade da canalha burguesa.

― Meu bom senhor! ― dizia sempre. ― Tende piedade duma pobre velha com sete filhos sem pão.

Mas, quer a ajudassem ou não, mandava todos para o diabo com as mais espantosas imprecações, que lhe morriam na garganta, enquanto nos seus lábios aparecia o mais fantástico sorriso fingindo uma gratidão que não sentia.

Esta mulher tinha dois filhos. O mais velho, chamado Jacobo, um desalmado que nunca trabalhava, e Pedro, um pobre rapaz coxo que ia apregoando pelas ruas de Paris o seu ofício de amolador e a quem Deus tinha dado um grande coração, mas que sofria e chorava ao ver quão desprezíveis se tornavam a mãe e o irmão, que esperavam o seu regresso Para lhe tirar todo o dinheiro ganho honradamente e que o gastavam embriagando-se.

Pedro não tinha força de vontade suficiente para se desligar da família, que o tinha completamente acorrentado. Era uma vítima do ódio, pois frequentemente tinha de sentir o desprezo da mãe, que não podia compreender nem a honradez nem o trabalho, e as pancadas do irmão quando ao fim do dia não trazia o dinheiro que ele pensava.

O negócio não corria muito bem à Frochard, porque os transeuntes se afastavam diante da sua figura repugnante.

― Se fosse mais nova e levasse um miúdo nos braços ― dizia muitas vezes ― as esmolas seriam mais pródigas. Ah! Se tivesse uma filha. Se esse imbecil do Pedro tivesse sido uma rapariga ou se não se lhe encasquetasse na cabeça a ideia de ser honrado. Honrado, que estupidez!

E, meditando, a Frochard continuava a estender a mão enquanto pronunciava as invariáveis palavras:

― Meu bom senhor. Tende piedade duma pobre velha com sete filhos sem pão.

Eram cerca de oito horas da noite quando um movimento geral deu a entender que a diligência de Evreux estava chegando ao termo da viagem.

Os moços da oficina aproximavam-se do lugar onde a carruagem devia parar e os mendigos fizeram o mesmo.

A irmã do marquês de Presles foi a primeira a apear-se; ignorando que o irmão lhe tinha mandado o seu coche, alugou um e desapareceu em direcção ao palácio-.

Por sua vez, Henriqueta ajudou a irmã a descer, enquanto dizia:

― Já estamos em Paris, Luísa. Só nos falta perguntar onde fica esta rua.

A jovem havia tirado da bolsa o apontamento do nome e morada daquele grande amigo de seu pai, que tantas vezes as tinha convidado a passar uma temporada com eles em Paris.

Olhou em redor e pareceu-lhe que o melhor que podia fazer era ir à oficina da diligência para que a informassem.

― Vamos ― disse a Luísa, pegando-lhe na mão e dirigindo-se para o lugar indicado.

Perguntou a um dos empregados, que respondeu sorrindo:

― Menina, essa rua fica do outro lado de Paris. Não lhes aconselho que vão andando a estas horas por essas ruas. Será melhor que tomem uma carruagem.

Henriqueta agradeceu a informação e disse à irmã que esperasse ali enquanto ia buscar uma carruagem.

Entretanto, Lafleur tinha acordado, mas o vinho continuava a toldar os sentidos do criado do marquês de Presles. Esfregou os olhos com ambas as mãos e saiu da taberna a correr, murmurando:

― com todos os diabos do inferno. vou ser despedido se não encontro a irmã de meu amo.

Olhou em todas as direcções e por fim decidiu-se a dobrar a esquina da rua onde tinha deixado o coche.

O seu peito inchou e nos lábios apareceu-lhe um sorriso de satisfação. Junto do coche viu uma jovem dama, cujos sinais e modos de vestir coincidiam com os que lhe havia dado o marquês.

Dirigiu-se a ela sem reflectir e, fazendo uma grande reverência, perguntou:

― Há muito que esperais?

― Não ― respondeu Henriqueta ―,  acabo de chegar agora mesmo. Desejava...

― Tendes-me às vossas ordens ― interrompeu Lafleur abrindo a portinhola do coche. ― Podeis subir.

Henriqueta abriu o bilhete que tinha na mão e replicou:

― Obrigado, senhor, esta é a direcção; mas antes temos de ir buscar minha irmã e a bagagem, a qual ficou à espera na oficina da diligência.

Lafleur, contente por ter encontrado a que ele julgava ser irmã do marquês, e perdida a exacta noção das coisas por causa dos vapores do vinho, quase não se apercebeu do que a dama lhe dizia.

― Ah! Sim, sim, sim ― balbuciou inconscientemente. ― Subi, subi, por favor ― e ia dizendo com os seus botões: A direcção... como se eu não soubesse onde tenho de a levar.

Saltou para a boleia e fustigou os cavalos, que partiram velozmente.

Quando Henriqueta notou que tomavam uma direcção contrária à da Ponte Nova, tratou de avisar o cocheiro, mas este, que ia cantando distraidamente, com o ruído do galopar dos cavalos e o barulho do coche nada ouviu e seguiu velozmente o caminho em direcção ao palácio de seu amo.

A jovem, debruçada numa das janelas, não deixava de gritar para chamar a atenção de Lafleur, conseguindo apenas que os poucos transeuntes contemplassem aquela cena com curiosidade.

Entretanto, um homem notou que algo de anormal acontecia quando o coche do marquês de Presles ultrapassou a

carruagem, que seguia na mesma direcção, tendo para mais em conta que Lafleur não lhe era estranho. O desconhecido ordenou ao seu cocheiro que seguisse o veículo que ia à frente e o alcançasse.

Em poucos momentos, aquele conseguiu ultrapassá-lo e, saltando da boleia, refreou os cavalos do coche guiado por Lafleur.

Que sucede? Porque paraste os meus cavalos? ― perguntou Lafleur ao outro cocheiro.

― Porque eu assim lho ordenei ― disse o homem ao apear-se da sua carruagem.

― O cavaleiro de Vaudrey! ― exclamou Lafleur.

― Sim, o próprio ― respondeu este abrindo a portinhola do coche do marquês de Presles.

― Esta dama ― explicou Lafleur-é a irmã do meu senhor.

Quando Rogério se ia a inclinar, sem compreender a causa dos gritos da jovem, esta, pálida de angústia, exclamou:

― Oh, senhor, deve haver confusão. Eu não sou irmã de nenhum marquês. Chamo-me simplesmente Henriqueta Gerar d.

Lafleur abriu os olhos desmesuradamente, tentando explicar aquele engano, que seguramente lhe custaria um castigo severo, e por sua vez Henriqueta contou ao cavaleiro de Vaudrey o seu erro ao pensar que o coche era de aluguer.

Rogério, ao ver que o criado do marquês não estava completamente calmo, compreendeu que toda a culpa lhe pertencia e por isso não o poupou a uma descompostura.

― Não posso perder tempo-exclamou Henriqueta angustiada ―,  dizei-me por onde hei-de voltar à oficina da diligencia, porque minha irmã está à espera e a pobre é cega.

― Se mo permite ― replicou o cavaleiro de Vaudrey ―,  eu posso levar-vos na minha carruagem. Embora não pareça, estamos um pouco longe da Ponte Nova e será uma grande satisfação para mim ajudar-vos.

As palavras de Rogério eram sinceras, e Henriqueta, ao ler nos olhos do seu interlocutor uma inconfundível bondade, aceitou o oferecimento, não sem antes lhe agradecer efusivamente.

Já no interior da carruagem, a jovem contou a Rogério um POUCO da sua vida e o motivo por que se encontrava em Paris, e fê-lo com tanta ternura que o cavaleiro de Vaudrey ficou deveras impressionado com a linda rapariga. Ao fim de alguns minutos, que a Henriqueta pareceram intermináveis, a carruagem de Rogério parava em frente da porta da oficina da diligência.

Um grito de terror escapou-se da garganta de Henriqueta. A oficina estava fechada e não se via Luísa em parte alguma.

O cavaleiro de Vaudrey procurou tranquilizar a jovem que estava presa da mais terrível angústia.

― Não se preocupe, menina, nós a encontraremos.

E ambos começaram a percorrer os arredores sem o menor resultado positivo.

Henriqueta estava inconsolável, mas dava graças a Deus pelo apoio que lhe prestava Rogério, que se comportara como o melhor e o mais delicado dos homens.

― Não deve desconsolar-se dessa maneira ― dizia o cavaleiro de Vaudrey ―,  uma pessoa não pode desaparecer assim.

― É que Luísa está cega. Está cega - gemeu Henriqueta.

― Desgraçadamente é um pormenor que nos ajudará a encontrá-la. Creio que devia ir agora para casa desses velhos amigos e se o deseja posso levá-la na minha carruagem.

― Oh! Meu Deus-balbuciou a jovem aflitivamente ―,  entreguei o bilhete ao que eu julguei ser cocheiro de praça e agora me lembro perfeitamente que, depois de o ler, ele o atirou fora e não consigo lembrar-me da direcção. Só conheço o nome: Martin, Martin Bouche.

Levantou os olhos para o seu companheiro numa interrogação.

― É muito pouco, eu sei ― comentou Henriqueta.

― Efectivamente. Deve haver muitas pessoas com esse nome em Paris e esta capital é muito grande.

Houve um curto silêncio, que Rogério rompeu para dizer com a sua voz cálida:

― Se mo permite, menina, posso acompanhá-la a casa de uma dama minha conhecida, de lisura a toda a prova, onde poderá passar a noite. Agora, já vê, pouco podemos fazer. Amanhã irei buscá-la para continuarmos as pesquisas.

Henriqueta aceitou aquele convite tão-sincero e, subindo para a carruagem do cavaleiro de Vaudrey, deixou-se conduzir.

Henriqueta tinha perdido muito tempo no incidente que a afastara da Ponte Nova e, entretanto, chegou a hora de fechar a oficina. Por isso um empregado desta, muito amavelmente, tinha convidado a cega a abandonar o local. A jovem foi levada para a rua pelo empregado, que a guiou até um banco de pedra e onde Luísa se dispôs a esperar. Mas os minutos passavam e o seu nervosismo ia aumentando de tal forma que, embora sem nada poder remediar, se levantou e deu uns passos, ignorando que se colocava no meio da rua, por onde avançava uma carruagem a grande velocidade. Hesitou uns instantes sem saber que direcção tomar, desorientada com o barulho da carruagem que se aproximava, quando de repente sentiu que a puxavam por um braço, obrigando-a a recuar, e que uma voz carinhosa lhe dizia:

― Cuidado, menina!

Naquele momento Luísa ouviu bem perto dela o relinchar de um cavalo e o ruído da carruagem, que roçara pelo seu vestido.

Luísa, aterrorizada, não encontrou palavras para agradecer à pessoa que acabava de socorrê-la, justamente no instante em que ia ser atropelada.

A pessoa que a havia salvo estava em frente da jovem, como que admirada por ter tido força suficiente para a livrar da morte. E ao mesmo tempo que nela se operava uma reacção aquele homem ficava extraordinariamente comovido.

Os dois protagonistas deste acontecimento mantiveram-se calados. A comoção não os deixava falar.

― Já se foi embora? ― perguntou Luísa ao recuperar o sangue-frio.

Era tão doloroso o acento da sua voz, que aquele que permanecera até então silencioso disse:

― Não, menina, continuo aqui. Mas não mereço nenhum agradecimento. Qualquer outro em meu lugar teria feito o mesmo.

Mas, vendo que a rapariga tremia, aproximou-se dela e argumentou:

― Nada tem a temer. Não tenha medo, já tudo passou. Luísa, tranquilizada quanto ao perigo que acabava de correr, recordou-se da triste situação em que se encontrava. Secou as lágrimas que lhe corriam pelas faces e, com voz entrecortada pelos soluços, exclamou:

― Que hei-de fazer agora? Que será de mim? Meu Deus! Pedro Frochard, porque não era outro senão o filho mais

novo da mendiga quem havia salvo Luísa, perguntou carinhosamente:

― Porque se lamenta dessa maneira?

― Porque tenho medo que haja sucedido alguma coisa a minha irmã ― respondeu Luísa. ― Combinou passar por aqui para me levar e não encontro razão para a sua demora. Que horas são?

― Creio que devem ser cerca de nove horas, mas não sei exactamente. Não tenho relógio-explicou Pedro. ― Mas a esta hora e neste lugar, seria melhor que voltasse para sua casa.

― Para minha casa! ― balbuciou a cega.

Pedro ficou intranquilo ante aquela vaga exclamação, temendo ter ofendido involuntariamente a sua interlocutora, e ao ver que o silêncio se prolongava insistiu.

Luísa deixou então ouvir novamente a sua enternecedora voz:

― Acabamos de chegar a Paris e não temos casa. Minha irmã levou a direcção de um amigo de nosso pai, onde nos íamos alojar. ― Suspirou profundamente e continuou: ― Ela não volta e eu não sei onde me hei-de dirigir. Além de que não poderia ir só por estas ruas. Sou cega.

― Perdoe-me menina-balbuciou Pedro ―,  não queria ofendê-la. Sinto imenso pesar por si e se tem necessidade de que alguém a acompanhe, pode contar comigo.

As palavras de Pedro foram pronunciadas de maneira tão comovida que Luísa teve confiança naquele estranho que a Providência tinha enviado em seu auxílio. Parecia-lhe estar segura junto daquele homem a quem não via, e com o qual apenas trocara meia dúzia de palavras, mas que adivinhava bondoso.

― Tenho confiança em si, senhor ― respondeu Luísaporque uma voz interior me assegura que sois uma pessoa boa e honrada.

O amolador não sabia como responder. Sem dar por isso, ficara sob a influência daquela voz tão persuasiva e tão terna. Era a primeira vez na sua vida que lhe falavam com tanta doçura e isto fazia com que ficasse envaidecido.

Pedro estava disposto a pôr toda a sua bondade ao serviço daquela jovem que lhe pedia auxílio. Mas, que podia ele fazer?

O Destino quisera que ele a salvasse de uma morte certa e isto dava-lhe ânimo.

Pedro estava naquele sítio, não por casualidade, mas porque sabia que sua mãe, a mendiga Frochard, e seu irmão Jacobo estariam àquela hora na taberna próxima bebendo vinho em excesso. E ele, vítima voluntária da família, acorria ali para entregar o dinheiro que durante o dia ganhara tão honradamente.

Tinha-se lançado, seguindo os nobres impulsos do seu coração, em socorro de uma desconhecida a quem desejava ser útil; mas agora arrependia-se de o ter feito.

Pensando que a mãe não tardaria a aparecer, o amolador tremia dos pés à cabeça. Envergonhava-se da mãe; parecia-lhe doloroso que se soubesse que ele, trabalhador constante e honrado, era filho de uma mendiga.

E, por outro lado, um secreto pressentimento o aconselhava a evitar o encontro da rapariga com sua mãe. Pensou que o melhor que podia fazer era conduzir a jovem a alguma pousada que ficasse perto.

Sim. Isto pareceu-lhe o melhor, e pegando suavemente na mão de Luísa pediu-lhe que se lhe segurasse ao braço.

Luísa não opôs a mínima resistência quando o seu companheiro começou a andar. Porém, momentos depois, perguntou-lhe:

― Porque me auxilia? Aonde me leva?

Pedro ia a responder, mas experimentou tal comoção que as palavras gelaram-se-lhe nos lábios. Fez um movimento brusco para desprender do braço a mão que a rapariga lhe abandonara sem a menor desconfiança e afastou-se um pouco sem dizer palavra.

Luísa parou absorta, ante aquele estranho procedimento.

― Que sucedeu? Porque se afasta de mim?

Não obteve resposta, mas no mesmo instante ouviu uma voz estridente e desagradável que a sobressaltou.

― Eh, monstro. Anda cá. Amanhã haverá aqui muitas facas para afiar. Nós enchemo-las de bocas a rigor para que tenhas trabalho.

Aquela era a voz da velha Frochard, que saía da taberna em estado de quase completa embriaguez.

No entanto, a pedinte tinha a cabeça firme e podia ainda competir com qualquer bebedor. Avançou uns passos até se aproximar de Pedro.

― Estúpido trabalhador, como te correu o dia hoje? Se não fosses tão tímido e reservado já terias entrada na taberna para beber uns copos, em vez de estares aqui fora à espera, como um idiota.

O amolador fez sinal a sua mãe para que se calasse, envergonhado de que o tratasse daquela maneira na presença da rapariga.

A Frochard preparava-se para lançar os mais terríveis impropérios contra seu filho, quando notou Luísa.

Pouco faltou para que soltasse uma imprecação, mas o filho tinha um aspecto tão suplicante que a mendiga compreendeu num instante que devia mudar de linguagem.

Adoptou um tom carinhoso e perguntou:

― Porque treme dessa maneira, menina?

― Tem motivos suficientes ― respondeu Pedro. ― Esteve a ponto de ser atropelada por uma carruagem.

― É verdade ― confirmou Luísa. ― Este senhor é que me salvou.

― O mons... ― A velha suspendeu a palavra e acrescentou: ― Como, meu filho? Foste tu que tiveste a sorte de salvar esta jovem tão bonita?

Naquele momento a velha pensava numa possível recompensa. Acercou-se da jovem e afirmou-lhe:

― Já não há perigo. Deve acalmar-se, menina. O amolador não afastava os olhos de Luísa.

A Frochard não o notava porque estava demasiado ocupada pensando noutras coisas. Pegou na mão da rapariga e disse-lhe no melhor dos tons:

― Que sorte o meu filho tê-la salvo. Mas, como é que você não reparou na carruagem?

Luísa, ainda trémula, aproximou-se da pessoa que lhe falava com um acento tão compassivo.

― Suplico-lhe que me não abandone, senhora.

― Oh! Nada tem a temer enquanto estiver a meu lado.

A cabeça da Frochard ia-se desanuviando dos vapores do álcool e havia alguns segundos que não afastava o olhar do rosto da rapariga. Em que pensaria ela? Que ideias se estariam acumulando no cérebro daquela mulher― desprezível?

A Frochard sorria ao pensar que teria nas suas mãos uma jovem provinciana ingénua que provavelmente possuía algumas economias.

― Minha filha ― disse  ―,  não se preocupe com o que acaba de lhe suceder. Agora, o que deve pensar é que não é prudente estar tão tarde na rua. Paris torna-se perigosa, sobretudo se se traz algum dinheiro connosco. Você não deve ficar aqui sozinha.

― Eu não estava só, senhora ― explicou Luísa. ― Vim com minha irmã. Não consigo perceber o que lhe possa ter acontecido.

Luísa ocultou o rosto com as mãos.

― Bem, bem ― acrescentou a vagabunda. ― Não tem que se preocupar tanto, pois suponho que sua irmã não é uma miúda.

― Tem dezoito anos como eu-replicou a cega.

Pedro estava profundamente comovido. Temia as ideias da mãe e permanecia mudo para que ela não descobrisse a verdadeira situação da jovem. Mas a Frochard, com uma linguagem carinhosa, não teve de perguntar muito para saber que a rapariga era órfã e que não sabia aonde dirigir-se. E a sua alegria não teve limites quando soube que ela era cega.

As enrugadas faces da repugnante velha coloriram-se, como se se deleitasse com um odioso projecto.

Pensava:

― Órfã e sem alguém conhecido em Paris. Isto é um achado que me vem parar às mãos. Além disso é jovem, bonita e tem uma excelente qualidade: é cega.

Luísa, timidamente, perguntou:

― É verdade, senhora, que me não abandonais aqui? ― Como pode pensar nisso, menina? ― disse a Frochard.

― Tenho filhos e um excelente coração. Não tenha medo. Venha, eu vou a seu lado.

Pedro continuava a contemplar Luísa, achando-a cada vez mais bonita; mas que lhe podia isso interessar, tão insignificante e tão desgraçado como era?...

A velha Frochard estava radiante e continuava a fazer as mais desprezíveis cogitações.

"Eu já sou demasiado velha ― pensava ― para que as pessoas me dêem moedas com abundância. Às velhas não se dão esmolas, enquanto que a esta... É tão formosa. Olhando-a nos olhos ninguém dirá que é cega e, claro, as mendigas jovens e bonitas agradam mais. Pois bem, meus senhores, eu lhes mostrarei uma verdadeira preciosidade."

Tomou a mão de Luísa e colocou-a rapidamente em torno do seu braço como se temesse que a rapariga lhe fugisse.

― Vamos - repetiu a Frochard ― não deve desconsolar-se. Eu a ajudarei a encontrar sua irmã.

― Deus recompensará o bem que faça a uma pobre abandonada― replicou a infeliz menina.

A recompensa que Luísa tinha mencionado fez a velha sorrir. No entanto, disse:

― De acordo, filha. Encontrou uma boa mulher que está disposta a dar-lhe asilo até encontrar sua irmã.

― Sim, estou certa de que com a vossa ajuda a encontraremos.

No rosto da pedinte desenhou-se uma careta expressiva, que a ser vista por Luísa a teria enchido de terror.

Seguidamente acrescentou:

― Agora já está mais tranquila, não é verdade? Venha, pois, comigo. E dirigindo-se ao filho ordenou: ― Vamos, Pedro, segue-nos.

A cega, sem a menor desconfiança, começou a andar ao lado da Frochard; esta, apressando o passo, quase arrastava Luísa, que a seguia em silêncio. Pedro, que se encontrava sob uma fascinação da qual se não podia livrar, caminhava atrás delas levando às costas a sua ferramenta de amolador.

Luísa, que ia absorta em tristes pensamentos, notou que a companheira parava ao fim de um bocado e que parecia indecisa sobre a direcção que havia de tomar. Por fim, voltou atrás, virou à direita e entrou numa estreita viela.

― Aconteceu alguma coisa? ― perguntou Luísa, a quem aquela atitude causou certa desconfiança.

― Não, filha ― balbuciou a velha ―,  decidi tomar o caminho mais curto para nossa casa, e digo nossa porque desde este momento te considero como mais uma filha.

― Muito obrigada, senhora.

No entanto, Pedro sabia que a mãe mentia descaradamente e se tomara outra direcção fora porque avistara a ronda no extremo da rua e temia encontrar-se com ela, pois fugia sempre, como da peste, quando a via.

A mendiga apressava cada vez mais o passo e por isso Luísa quase tinha de correr para a acompanhar. Não obstante, nada disse e deixou-se conduzir, apesar de ter notado um estranho tremor que lhe sacudia o corpo, como se fosse presságio de maiores fatalidades.

O cubículo da Frochard fazia parte de uma das mais velhas casas da rua Lourcine, se é que se pode dar categoria de rua a um conjunto de miseráveis casitas sem alinhamento, levantadas nos arredores de Biévre, onde mesmo em pleno dia era perigoso arriscar-se porque ali fazia a sua vida uma população de vagabundos de toda a laia, e cujos distúrbios davam sempre trabalho à polícia.

A força armada empreendera desde o final do reinado de Luís XV a perseguição aos malfeitores que infestavam Paris, que se viram obrigados a abandonar a cidade para se instalarem nos arredores, onde podiam iludir facilmente os perseguidores. Ali tinha a Frochard instalado o seu esconderijo, ficando de certo modo a coberto da curiosidade da polícia.

O cubículo habitado pela mendiga há muito tempo já que ameaçava ruína e era constituído por uma só divisão, com piso de terra e um sótão, tudo de aspecto miserável. A porta da entrada abria-se no meio da lama e somente fazendo grandes esforços para manter o equilíbrio é que se consegguia penetrar naquela miserável habitação, pois era necessário subir dois degraus gastos e escorregadios. A mobília era digna daquela choça, pois a enxerga que nela se via era composta por um colchão destroçado em que através dum rasgão se podia ver lã suja e quase apodrecida.

Num aparador, completamente carcomido, a Frochard guardava alguns pratos, meio partidos, algumas vasilhas de estanho e vários copos do mesmo metal.


IV

NO centro da casa havia uma mesa que se mantinha equilibrada devido a umas cunhas que Pedro tinha preparado, porque, como sabemos, era ele o único que trabalhava, vendo-se obrigado a solucionar todos os problemas, mesmo sabendo que como recompensa teria de dormir todas as noites num canto, ao lado do aparador, sobre um pouco de palha que lhe servia de cama e mal protegido do frio.

À direita, uma escada de madeira carunchosa comunicava com o sótão, no qual a vagabunda acumulava montões de farrapos para vender, e cujo produto entregava ao filho mais velho, Jacobo, (a quem ela tratava por "Querubim"), a fim de que ele pudesse viver à sua vontade. E finalmente um fogareiro negro e gordurento e uma poltrona completamente destroçada completavam aquela habitação em que a pobre Luísa se via obrigada a receber hospitalidade.

Quando a cega chegou defronte da casa, estava fatigadíssima pela caminhada. Pedro ofereceu-lhe a mão para entrar. Quase inconsciente e sem poder ver o lugar onde se encontrava nem o olhar que Pedro lançou à sua mãe, a infeliz não pôde avaliar a gravidade da sua desventura.

Convencida de que a sua presa já não podia escapar-se, a Frochard deixou de dissimular e, apresentando-se tal como era, disse a Luísa com voz áspera e pastosa:

― Já estamos em casa, mas como não esperava a sua Visita terá de conformar-se com o que lhe puder oferecer. O mais importante é que possa dormir à vontade e para isso vou preparar uma enxerga digna de si. ― E, voltando-se Para o amolador, acrescentou com um sorriso infame: ― Vá, monstro. Ajuda-me a bater este colchão para que fique bem mole.

Luísa, ante aquelas palavras, atreveu-se então a dizer:

― Senhora, não dormirei, não estou cansada. Posso pássar a noite numa cadeira.

O riso sarcástico da Frochard cravou-se como um dardo nos ouvidos da pobre cega.

― Não, filha, não ― exclamou a mendiga. ― É preciso que durma, pois amanhã temos de andar muito.

Luísa, ante aquela voz metálica, experimentou um doloroso sobressalto e começou a chorar.

A Frochard, sem nenhuma contemplação, quis empurrá-la, escada acima, para o sótão, mas Pedro, conhecedor da terrível violência de que sua mãe era capaz, aproximou-se de Luísa e disse-lhe em voz baixa:

― Será melhor obedecer, menina. Além disso, é conveniente que descanse. Ficará sozinha naquele compartimento e fecharemos a porta.

A cega tranquilizou-se.

― Então ― disse suspirando ― guie-me se faz favor, senhora.

Os olhos da Frochard, entretanto, tinham-se cravado na sua vítima.

Uma fita de veludo negro chamara-lhe a atenção.

― Que é isto? ― perguntou, passando a sua repugnante mão pelo busto de Luísa.

Esta, sobressaltada, levou a mão ao colo.

― É um medalhão de ouro ― explicou ―,  deu-mo a senhora Gerard, que era para mim como uma mãe.

― Então ― exclamou a Frochard ―,  entregue-mo para que lho possa guardar. Não é coisa para se perder.

― Mas eu não o tiro nem quando me deito-respondeu Luísa com voz trémula. ― Nunca me separei desta recordação.

― Pois hoje começa a fazê-lo ― rugiu a vagabunda tirando com violência a fita de veludo e apoderando-se do medalhão.

A infeliz rapariga, perplexa ante aquele acto, teve de se resignar e deixar a velha apoderar-se também dos brincos que levava.

Pedro voltou a cabeça, envergonhado da acção de sua mãe.

Seguidamente, a Frochard arrastou a cega para o sótão.

O amolador, ao ver aqueles actos que repugnavam à sua consciência, sentiu uma violenta indignação contra si mesmo considerando-se desprezível por ter deixado despojar a infeliz rapariga que confiara na sua mãe. Estava consciente da sua cumplicidade moral e acusava-se de vileza. Mas aquela efémera rebelião num caracter tão fraco como o seu, subjugado sempre pela brutalidade dos familiares, converteu-se num rio de lágrimas de impotência ― que prontamente acalmaram a raiva que lhe consumia o coração.

Pouco depois apareceu a velha no alto da escada, trazendo todas as roupas da cega, as quais mostrou a Pedro como se fossem um troféu.

O amolador não conseguia desviar a vista daqueles objectos que as mãos da Frochard haviam arrancado à sua vítima. ― Os seus olhos contemplavam o traje que Luísa tinha usado, o lenço e os sapatos.

― Que pretende fazer com isso, minha mãe? ― perguntou Pedro. ― Você prometeu ajudar esta rapariga.

― Pensas que eu a vou manter sem nenhuma paga? perguntou a Frochard com uma estridente gargalhada. ― Não me vou privar de um meio de subsistência que com tanta sorte me veio parar às mãos e que me vai ajudar a fazer os meus trabalhos. Tenho em meu poder uma estreante que posso colocar nos melhores lugares e não. vou ser tão estúpida que não aproveite a ocasião.

Pedro voltou os olhos para a porta do sótão, temendo que a cega tivesse ouvido o que sua mãe dissera.

― E como esses desprezíveis ricos ― continuou a vagabunda― não dão com tanta largueza às velhas, apresentar-lhe-emos uma jovem que tem um bom defeito para o caso: uma cega. É uma bênção que vem do céu.

Pedro sacudiu tristemente a cabeça enquanto os seus punhos se fechavam de indignação.

Mas que podia ele fazer? Tinha sonhado ser o protector da jovem mas via-se incapaz de levantar a voz diante da mãe e do irmão, que inventariam as maiores crueldades contra aquela desventurada que, como acabara de ouvir, ia ser obrigada a mendigar na via pública.

A Frochard olhava com deleite os vestidos tirados a Luísa.

― Estas roupas servir-me-ão de agasalho este Inverno e os sapatos de polimento com fivelas de prata serão um bom presente que Jacobo poderá dar à sua noiva.

Pedro encostara a cabeça à mesa e, fazendo de almofada com os braços, fingiu dormir.

Sua mãe lançou-lhe um olhar de desprezo e, dirigindo-se ao aparador, disse:

― Está na hora de cear.

E pegando num copo de estanho encheu-o completamente de aguardente, bebendo-o de um só trago.

― A partir de amanhã é preciso que ela trabalhe ― murmurou olhando para o sótão. ― Agora vou-lhe preparar o uniforme, porque ao amanhecer terá de sair para a rua. Então, aquela desalmada entregou-se ao trabalho de compor um traje com os mais sórdidos farrapos, com o propósito de que a pobre cega causasse compaixão.


V

TAL como se tinha proposto fazer, a Frochard pensou utilizar no dia seguinte o seu novo instrumento de lucro. Ao levantar-se, resoluta, a primeira coisa que fez foi increpar Pedro.

― Vamos, senhor honrado. Pega na tua velha ferramenta e procura ganhar muito dinheiro, porque somos agora mais um.

O amolador inclinou a cabeça e obedeceu docemente, como era costume.

― Agora seremos dois a sofrer ― murmurou. E ao sair para a rua, com a ferramenta às costas, exclamou: ― Sou um vil. Um vil.

A Frochard subiu as escadas e entrou no sótão. Luísa, lavada em lágrimas, rezava ajoelhada sobre a enxerga.

― Que fazes, boneca? ― perguntou a velha com fingido carinho, pois pensava que assim a convencia facilmente.

― Estou rogando a Deus para que me dê forças para caminhar até encontrar minha irmã.

― Ah, sim! ― exclamou a velha com um sorriso maldoso.

― Podes contar com isso.

― Que boa é a senhora. É muito caridosa.

― Quando se é mãe, sabe-se compreender as desgraças alheias. E como eu compreendo perfeitamente as tuas, deves secar essas lágrimas que me esfrangalham os nervos.

― Sim, minha senhora, sim. Não chorarei mais. Andaremos o que seja necessário e por todos os bairros. Por toda a parte chamarei em voz alta por minha irmã. Estou certa de que me ouvirá.

― Sim, faremos como tu desejas ― grunhiu a hipócrita-; mas agora deves vestir-te. Eu te ajudarei.

Luísa, ao tocar nos andrajos que a Frochard estava a vestir-lhe, exclamou, surpreendida: ― Este não é o meu vestido

― É que o teu... ― disse a velha hesitante, certamente à procura da justificação ― tem um rasgão muito grande, que provavelmente, fizeste com uma lasca. Já o arranjaremos. Além disso, este deixar-te-á caminhar mais facilmente.

E, com um rapidíssimo movimento, a Frochard envergou-lhe uma veste imunda.

Em seguida, calçando-lhe umas meias rotas e uns sapatos destroçados, adiantou: ― com isto também andarás melhor. Agora dá-me a tua mão que eu te guiarei.

Luísa, com a pressa de sair, tomou a mão que se lhe estendia e obedeceu.

Ao chegar ao cubículo, a Frochard tirou um pedaço de pão do armário, dividiu-o em duas partes e deu um deles a Luísa.

― Não tenho fome-afirmou esta num sussurro.

― O ar da rua vai-te abrir o apetite.

E, sem dar tempo a que Luísa protestasse, puxou-a para a rua e começou a andar.

A cega pediu à sua companheira que a levasse ao lugar onde se tinha separado da irmã, isto é, à administração da diligência da Normandia. Mas a pedinte não era decerto da mesma opinião, porque seguiu um caminho muito diferente daquele que as devia levar à Ponte Nova. A Frochard não queria arriscar-se a levar Luísa àquele lugar, onde certamente também Henriqueta apareceria.

Guiava-a para os bairros de Marais, onde esperava chegar precisamente à hora em que os comerciantes abriam as portas. O momento era propício para realizar uma boa colecta.

― Estamos perto, senhora? ― perguntou Luísa timidamente, compreendendo que estava a percorrer uma distância muito maior do que no dia anterior ao fazer o mesmo caminho.

― Sim, sim, já estamos a chegar.

― É que me parece...

A Frochard não deixou a cega terminar a frase.

― Suponho que não tens razão de queixa de mim-disse com raiva.

― Pelo contrário ― exclamou timidamente a desventurada jovem ―,  devo é agradecer a sua bondade.

― Não peço agradecimentos ― murmurou a mendiga. ― O principal é que tenhas ânimo e... que obedeças.

Luísa sentiu um forte calafrio ao escutar aquelas palavras pronunciadas com estranha entoação. No entanto, com o coração cheio de esperança, resignou-se a caminhar até aonde quisesse a sua guia.

À medida que andavam, a cega ia-se sentindo sobressaltada e inquieta ao pensar que já caminhava há mais de duas horas sem chegar à administração da diligência. A Frochard detinha-se de vez em quando, como se chocasse com transeuntes; mas Luísa não fazia caso, pensando que seria para evitar algum obstáculo. Mas depois detiveram-se com mais frequência, e também por maior espaço de tempo, em determinados sítios. A cega ouvia a sua companheira murmurar algumas palavras que não podia compreender.

― Disse-me alguma coisa? ― perguntou a jovem numa daquelas paragens. ― Pareceu-me...

― Vejo-me obrigada a dizer a estes preguiçosos que não sabem andar sem obstruir o caminho. Tenho de chamar-lhes a atenção advertindo-os de que és cega, para que não choquem contigo. Seria conveniente que levantasses a cabeça para mostrar bem os olhos. Assim talvez tomassem mais cuidado.

De repente, a velha postou-se diante da cega, pegou-lhe num braço e obrigou-a a estender a mão aberta, na posição dos desgraçados que pedem esmola.

― Deves permanecer nessa posição ― ordenou-para que todos vejam que és cega e que necessitas que não te emPurrem.

A jovem opôs uma ligeira resistência aos desejos da Frochard, ao mesmo tempo que dizia:

― Mas até agora ninguém me empurrou e asseguro-lhe...

― Eu é que te asseguro-cortou a pedinte-que tens de me obedecer.

A cega sobressaltou-se, porque aquelas palavras da sua companheira foram ditas num tom de ira reprimida.

Sentiu que lhe faltavam as forças, apesar de ir com a alma cheia de esperança.

De repente, a vagabunda deteve-se. Tinham chegado à Praça Real, onde obrigou Luísa a sentar-se num banco.

― Este é o mesmo banco em que eu esperava pela minha irmã? ― inquiriu a cega sem poder reprimir a alegria QUe isso lhe causava.

― Adivinhaste, rapariga ― mentiu a Frochard. ― Agora descansa.

Mas Luísa, levada por uma agitação irreprimível, pôs-se a gritar:

― Henriqueta! Sou eu, a tua irmã! Ouves-me, Henriqueta? Estou aqui.

― Cala-te ― ordenou a mendiga. ― Não compreendes que se gritas dessa maneira as pessoas vão tomar-te por louca? Os polícias prender-te-iam por perturbadora. Proíbo-te que grites. Eu vou à administração perguntar pela tua irmã. Não te mexas daqui.

― Permita-me que a acompanhe...

― Estás demasiado agitada e não te saberias dominar. É melhor que esperes aqui.

A cega resignou-se a esperar e a vagabunda afastou-se um pouco. Ela teria preferido levar consigo a cega, pois comoveria mais facilmente as pessoas caridosas, mas pensou que a jovem se alarmaria ao ouvir as palavras que tinha de recitar pedindo esmola.

Por outro lado, não queria precipitar os acontecimentos, porque existia o perigo de que Luísa se revoltasse e tentasse libertar-se da sua autoridade.

Por isso, a Frochard foi mendigar sozinha.

― Oh, bom senhor. Tenha compaixão de uma mãe de família que tem uma filha cega. Olhe-a. Está ali sentada a descansar um pouco da fadiga. Passámos toda a manhã a andar e não comemos desde ontem... Tenha compaixão, que Deus lhe pagará.

Mas, apesar daquelas súplicas tão dolorosas, a pedinte fez uma colheita muito pequena e resolveu regressar para junto da cega, enquanto murmurava entre dentes:

― Não posso perder assim o tempo. Tenho de utilizar o meio que encontrei de ganhar dinheiro. Devo mudar de sistema; não posso ter contemplações.

Luísa, ao ficar só, sentiu-se presa das mais dolorosas emoções, sem chegar a compreender o que lhe estava a acontecer e sem conseguir dar uma explicação lógica para o procedimento da Frochard, que tanto insistira em lhe trocar a roupa. Estranhas idéias relacionadas com a mulher de quet aceitara hospitalidade acudiam-lhe à mente. Temia que a desaparição de Henriqueta fosse o resultado duma maquinação, o que a deixava numa terrível dúvida Por isso, esquecendo-se das recomendações, começou de novo a gritar chamando pela irmã.

― Porque estás a gritar desse modo? ― exclamou a Frochard colocando-se de um salto ao lado da cega. ― A tua irmã não apareceu por aqui.

― Mas é possível? ― perguntou a jovem com grande surpresa.

― Digo-te o que sei ― respondeu brutalmente a vagabunda, e concluiu: ― Se essa tua jovem irmã estivesse impaciente por te encontrar...

― Mas duvida?

― Então, porque não se veio informar? ― disse, fazendo uma pausa. ― A não ser que se encontre impossibilitada de vir. Suspeito que a tua irmã está presa.

Luísa não pôde ocultar o sobressalto que lhe causavam aquelas palavras.

― Presa? Porquê?

-Ai, minha filha. Em Paris acontecem coisas muito estranhas. Inclusivamente, podem tê-la raptado. Isso pode acontecer a qualquer pessoa; se é assim, teremos muito trabalho para a encontrar.

A jovem começou a chorar amargamente. Aquelas lágrimas alegraram a vagabunda, que se afastou alguns passos para se aproximar das pessoas que passavam e a quem dizia:

― Tenha piedade duma pobre cega que não tem comido desde ontem. Vejam como chora a pobrezinha.

No entanto, as esmolas eram escassas e a vagabunda não podia reprimir a contrariedade que o facto lhe causava.

― Isto não pode continuar por muito tempo-murmurou a velha de si para si. ― Já regressamos a casa e, então, juro-te que trabalharás como deve ser. ― Abriu a mão para contar o dinheiro recolhido e exclamou: ― Que miséria, Doze soldos. Não se pagam muito caras, digamos, umas lágrimas de tão excelente qualidade. Revoltada contra a falta de caridade, obrigou Luísa a levantar-se.

― Aonde vamos, senhora? ― perguntou esta com ansiedade ― Não seria melhor esperarmos ainda? Não posso acreditar que tenha sucedido algum mal a Henriqueta.

― Pois eu não sou da mesma opinião-grunhiu a pedinte. ― A tua irmã não está livre e eu não quero perder o meu tempo.

Agarrou-lhe no braço e obrigou-a a atravessar a rua.

Luísa continuou a chorar em silêncio e seguiu a mendiga por ruas, praças e vielas. Aquela interminável caminhada era interrompida por frequentes paragens, em que a jovem ouvia de novo umas frases da Frochard que pareciam uma súplica.

A luz do dia ia-se apagando e uma névoa húmida e penetrante fazia Luísa tiritar de frio sob os farrapos com que ia coberta. O pavimento começava a tornar-se escorregadio e a cega teve necessidade de se apoiar no braço da sua guia.

Havia já uns momentos que a velha não se ocupava dela senão para a arrastar com precipitação. Parecia estar impaciente por chegar a determinado sítio.

De repente, a Frochard exclamou secamente:

― Espera-me sem te mexeres.

Soltou o braço de Luísa e separou-se uns passos dela. Depois, a jovem ouviu-a dizer:

― Que fazes por aqui, meu "Querubim"? ― Fez boa recolha? ― perguntou Jacobo. ― Não muito boa, querido filho.

― Então para que te serve essa rapariga?

Em poucos momentos, Luísa sentiu-se outra vez segura Por um braço que a fez mudar de direcção.

A Frochard estava muito agitada, pelo que ia murmurando:

― É preciso mudar de sistema.

À jovem tornava-se difícil seguir a mendiga, que caminhava rapidamente.

― Aonde vamos, senhora?

― Regressamos a casa ― respondeu esta secamente. ― Se não te agrada, pior para ti, porque há-de ser como eu quiser.

Luísa sobressaltou-se dolorosamente, enquanto a Frochard, como se quisesse confirmar as suspeitas daquela infe liz, concluía num tom carregado de ameaças:

― Dentro em pouco falaremos, menina. Prepara-te para escutar docemente o que tenho a dizer-te.

Sem esperar pela resposta da cega, a pedinte exclamou:

― Vamos. Vai ali o monstro. Eh, Pedro! Trazes o bolso cheio? Vamos, homem honrado. Dá-me tudo o que ganhaste.

O amolador entregou, em silêncio, um punhado de moedas à sua mãe e que Luísa ouviu esta contar.

Tinham chegado ao cubículo, e o rapaz, a um sinal da mãe, tomou com mão trémula a da cega a fim de a ajudar a entrar.

― A menina está extenuada ― disse com doçura. ― Deve descansar um pouco antes de cear.

O coração da rapariga experimentou um grande alívio ao ouvir o que Pedro lhe dizia. Durante todo aquele dia, cheio de desolações, a cega conservara na memória a recordação do homem que, além de a ter salvo, a comovera com doces e consoladoras palavras.

Não obstante, a infeliz jovem não chegara ainda ao máximo dos seus sofrimentos, pois que às dores físicas e às torturas morais haviam de juntar-se também novas e terríveis provas.

A Frochard, disposta a desmascarar-se e para trabalhar mais convenientemente, abriu o armário, pegou numa garrafa e levou-a à boca.

― Bah! Acabou-se o vinho ― exclamou a velha. ― Terei de ir eu mesma buscá-lo, porque sei fazer com que o meçam bem. Por ti ― e voltou-se para Pedro ― não têm consideração.

Luísa levantou-se ao ouvir sair a mendiga e perguntou:

― Está aqui, senhor Pedro?

― Sim, menina ― balbuciou o amolador.

― Pois bem, senhor Pedro, diga-me porque me vestiram deste modo. Sei que estas roupas são farrapos. Porque não me deixaram levar o vestido que trazia? Porque não me responde? ― inquiriu a cega não ouvindo resposta. ― Suplico-lhe que me responda. Peço-o a si, que me salvou.

O amolador permaneceu mudo.

― Se me ameaça algum perigo ― prosseguiu Luísa com a voz entrecortada pelos soluços ―,  leve-me daqui. Tenho medo. Leve-me à rua. Tenho toda a confiança em si!

Ao ver aquela desventurada que implorava o seu auxílio Pedro não podia dominar a comoção. Tremendo, tornou a levar a jovem para o banco donde se tinha levantado.

― Não se atormente, menina. É melhor que ela não note que chorou e, sobretudo, que não saiba que nós conversamos.

― Estou a notar-comentou Luísa ― que você teme por mim. Compreendo, pela falta de segurança na sua voz, que tem medo que me aconteça alguma desgraça. Porque não me diz a verdade de uma vez?

As doces palavras de Luísa produziram no amolador uma perturbação que ele não conseguia vencer.

― Menina ― disse ―,  é melhor recolher-se na sua alcova para descansar. Se mo permite eu a conduzirei.

Tomou-lhe suavemente a mão, guiando-a até à escada.

― Obedeço-lhe ― murmurou Luísa ― com esperança de que lá em cima continuaremos a conversa. Tenho confiança em si, sei que é bom e terá compaixão de mim.

O bondoso rapaz comoveu-se com aquelas palavras, tão novas para os seus ouvidos. Sentiu uma sensação desconhecida ao ouvir aquela voz tão doce e ao contacto daquela mão que lhe tremia sobre o braço.

Abriu a porta do sótão e conduziu a cega até ao montão de palha que constituía o seu leito.

― Não se vá embora ― pediu Luísa. ― Eu não poderei dormir.

A voz da Frochard ressoou na casa.

― Coragem, menina ― disse Pedro à cega, sobressaltado. A pedinte apareceu junto da porta do sótão com os olhos brilhantes e contorcendo a boca numa horrível careta.

― Onde está a marquesa?

― Estava exausta de tanto andar e foi-se deitar ― respondeu o coxo.

A Frochard lançou um olhar irritado ao filho.

― Exausta. Eu vou vê-la agora.

E, afastando o amolador com um empurrão, ordenou:

― Vai-te. Não preciso de ti para nada.

Pedro obedeceu, dirigindo-se para a porta do cubículo com o coração despedaçado pela dor.

― Que é isso de se deitar sem me dar as boas-noites? rugiu a vagabunda encarando Luísa. ― O seu filho ― respondeu num sussurro ― aconselhou-me a... ― Aqui ― cortou a velha ― só há um homem com direito a dar ordens, e esse é o meu "Querubim", o meu Jacobo, que é quem manda em tudo.

E, sem dar tempo à sua vítima para se desculpar e defender o seu protector, agarrou-a por um braço e exclamou furiosa:

―Julgas que se tem direito a descansar num leito de plumas quando se não ganhou o pão quotidiano? Nesta casa não queremos ociosos. E fica sabendo, duma vez para sempre, que isto não vai continuar assim.

― Quando tiver a sorte de encontrar a minha irmã... ― atreveu-se a comentar Luísa.

― Não é preciso esperar por isso para recompensar os meus serviços ― atalhou a pedinte. ― Podias tornar-te mole e isso não me agrada. Hoje ganhámos uma miséria e é preciso que isto não se repita. O meu "Querubim" não gostaria e é preciso que ele não se zangue, senão...

― A senhora não espera encontrar minha irmã? ― perguntou Luísa tremendo de comoção.

― O que eu sei é que é preciso pôr os pontos nos is e inteirar-te, antes de mais nada, de que não podemos manter uma estranha que nada faz.

― Por agora, senhora, não posso. Sabe bem que presentemente não tenho dinheiro. Henriqueta é que o guardava.

― Não tens dinheiro? De acordo, mas podes ganhá-lo. E ganhá-lo-ás porque eu já encontrei um meio de o fazeres. Não podes negar a tua ajuda, visto que me compadeci de ti levada pelo meu bom coração, que não pode ver as misérias Alheias sem se decidir a dar-lhes ajuda.

― A única maneira por que posso fazê-lo é encontrando minha irmã. Alguma coisa no meu coração me diz que a encontraremos. Eu segui-la-ei por todo o lado sem me queixar da fadiga.

A Frochard explodiu:

― Basta de súplicas. Repugnam-me os lamentos e as lágrimas. Estou habituada a falar claro e repito que aqui temos necessidade de dinheiro. Tu podes arranjá-lo, é a tua obrigação depois de eu te ter dado alojamento e comida. A partir de amanhã vais perder esse ar de senhora e os modos de boas famílias. Não quero que continues por mais tempo ociosa. Não quero que possam dizer que te roubei.

Luísa estava espantada, sem conseguir articular palavra ao ouvir aquele repugnante discurso.

― É necessário que toda a gente acredite que és minha filha ― gritou a mendiga.

― Sua filha?

― Será uma desonra?

― Mas... isso é necessário para encontrar minha irmã? perguntou timidamente a cega.

― É necessário para o meu objectivo-exclamou asperamente a mendiga. ― Passarás por minha filha, por uma rapariga a quem Deus privou da vista, pelo que a sua infeliz mãe é digna de compaixão.

― Não compreendo-balbuciou a jovem.

― Farás o que eu te mandar ― interrompeu com violência a Frochard ―,  e no que respeita à maneira de ganhar dinheiro, vou-te ensinar agora mesmo.

Agarrou violentamente Luísa pelo braço e obrigou-a a executar a pantomina dos mendigos, que já tinha tentado que ela fizesse na rua sem lho dizer.

― Estendes as mãos deste modo, fazendo-as tremer como se estivesses doente ou como se estivesses cheia de fome e de frio.

― Você quer que eu peça esmola? ― perguntou Luísa com terror.

― Vejo que compreendeste finalmente ― replicou a mendiga friamente.

A cega, não podendo dominar por mais tempo a dor que lhe afogava o coração, começou a chorar.

― Esse dilúvio ― grunhiu a pedinte com um riso feroz deves guardá-lo para melhor ocasião. Se deixares correr essas lágrimas amanhã, podes ter a certeza de que não serei eu quem te diga para enxugar os olhos. O choro vale ouro nas portas das igrejas e asseguro-te que, quando cantares, as moedas choverão como uma bênção.

― Eu a cantar? A cantar pela rua?

Luísa, como se por fim tivesse compreendido tudo o que exigiam dela, levantou-se excitada, lançou um grito estridente e tentou fugir, mas a repugnante velha segurou-a brutalmente e atirou-a para a miserável cama.

― Eu digo-te que cantarás! ― gritou a velha com uma voz terrível e iracunda. ― Por todos os demónios do inferno hás-de cantar! E quanto mais lastimosa sair a voz da tua garganta, mais se comoverão os burgueses. Eu vou servir-te de guia, serei o teu cão de cego, mas pedirás. Só assim te ajudarei a encontrar a tua irmã.

― Não! Nunca! Não me pode obrigar a pedir esmola. Suplico-lhe! Não me obrigue a semelhante infâmia. Tenha piedade das minhas lágrimas e não me condene a essa degradação!

― Será uma desonra ser pobre? Será que desprezas o meu ofício? A mim não me dão grandes esmolas porque sou velha, mas a ti darão, porque és jovem e formosa. E se não as derem a mim quando imploro, certamente as darão a ti quando cantares.

― Não, não! Nunca!

― Veremos! ― gritou a Frochard. E nos seus lábios desenhou-se um sorriso mau.

Luísa sentiu desânimo depois daquele esforço para protestar contra os propósitos da pedinte. Não pôde dizer mais nada e só então no seu cérebro se começou a fazer luz.

Compreendeu que tinha caído nas garras de uma mulher malvada e viu a sua situação com toda a nitidez, uma situação que nem as súplicas nem as lágrimas seriam capazes de fazer mudar. Encontrava-se nas garras daquela fera que havia de ser o seu verdugo.

Ergueu a cabeça com dignidade e ante a Frochard apareceram uns olhos sem luz que suplicavam ainda e que eram ao mesmo tempo a mais fantástica das acusações contra aquela mulher desprezível.

Esta, colérica, levantou os punhos sobre a cabeça de Luísa e sibilou como uma serpente ante o mudo mas enérgico protesto da cega.

― Eu trituro-te! Eu esmago-te, se não vens à razão, e procura que Jacobo não tenha de intervir, porque ele te fará conhecer como se tratam na nossa família os que não querem obedecer.

Agarrou Luisa por um braço, abanou-a, lançando-a pela segunda vez sobre a enxerga e, ardendo em cólera, gritou a sua última ameaça:

― Compreende bem que desde este momento não comerás outro pão além daquele que consigas ganhar.

Luísa escondeu o rosto entre as mãos, enquanto as lágrimas lhe brotavam dos olhos.

E ainda pôde ouvir as espantosas blasfémias que a vagabunda pronunciava ao descer a escada com passo vacilante, depois de ter fechado à chave a porta do sótão.
 

VI

PEDRO, que adivinhava o suplício a que estava condenada a sua protegida, sentia o coração destroçado ao pensar que teria de assistir à tortura de uma infeliz que tinha confiança nele, por a ter salvo da morte, o que era a seus olhos uma cumplicidade moral de que não podia subtrair-se facilmente.

Sabia como a mãe procederia quando começasse a tratar do que ela chamava a educação do seu instrumento de subsistência.

O amolador sentia um nervosismo indescritível e o cérebro debatia-se-lhe num mar de confusões. No entanto, via-se incapaz de protestar perante a família e isso enchia-o de vergonha e de raiva contra si próprio.

Durante parte da noite, Pedro não se afastou demasiado das imediações da rua de Lourcine, até que por fim, e pensando que sua mãe estaria a dormir, entrou no covil.

Ao vê-lo entrar, a Frochard, que estava acordada, acolheu-o com uma explosão de raiva, o que o amolador suportou agachado num canto, deixando que aquela mulher, sem o menor assomo de humanidade, vomitasse todo o fel do seu ruim coração.

O coxo não conseguiu dormir o resto da noite.

― Não a posso deixar morrer de fome. Seria uma infâmia

― murmurou Pedro.

E, à falta de força, o bom rapaz ia utilizar a astúcia.

Pensou durante muito tempo, até que acreditou ter encontrado um estratagema que lhe pareceu excelente, o que o aliviou bastante. Então, sentiu-se quase reabilitado. De seguida, porém, teve um sobressalto.

A Frochard despertara e, como dominada por uma idéia repentina, dispôs-se a subir os degraus da escada.

― Mãe ― disse Pedro, inquieto com as intenções que lhe adivinhava ―,  Luísa está com certeza a dormir. É melhor que a deixe descansar.

A desprezível velha voltou-se para o filho, furiosa, e lançou-lhe um olhar colérico.

― Que estás para aí a dizer, monstruoso vadio? Já que não quer trabalhar não precisa de descanso.

Pedro, que se tinha aproximado, sentiu-se fortemente sacudido por um tremendo empurrão que a mãe lhe deu.

Esta seguiu o seu caminho até chegar à porta do sótão que abriu imediatamente.

A porta rangeu duma maneira tal, que Luísa, se não estivesse desmaiada, ter-se-ia sobressaltado.

A velha, pensando que ela dormia, não ligou grande importância à cega, e dirigindo-se para a janelita, cujos vidros estavam embaciados, abriu-a.

― Se há pouco tinhas demasiado calor, agora refrescarás e veremos se te tornas mais razoável ― disse a Frochard com um sorriso feroz.

No entanto, ao ver a imobilidade daquele corpo que o ar gelado devia ter feito estremecer, fez um gesto de espanto, ao pensar que Luísa talvez estivesse morta.

Aproximou-se dela e pôde escutar-lhe a débil respiração, o que lhe fez lançar um grito de alegria.

― Vive! ― e vibrou de contentamento pensando na sensação que Luísa havia de sentir quando despertasse. Mas vendo que o tempo passava e esta não se movia, abanou-a com força.

Apesar disso o corpo de Luísa permaneceu inerte.

A Frochard notou então que a cega estava desfalecida. Fez uma careta de desprezo e chamou Pedro, que subiu com uma bucha na mão.

Ao compreender que a infeliz estava inconsciente, sentiu uma angústia terrível no coração, ao mesmo tempo que o sangue lhe subia ao rosto e lhe dava forças para dizer:

― A mãe quer que ela morra de frio?

Uma terrível gargalhada retumbou no silêncio da noite.

― Não, monstro, não! O que quero é que desperte.

E a Frochard ordenou a seu filho que lhe trouxesse a garrafa de aguardente.

Pedro obedeceu e, pouco depois, a velha, aproveitando o facto de a infeliz ter os lábios entreabertos, introduziu-lhe na boca o gargalo da garrafa e verteu, lentamente, o álcool.

O líquido despertou violentamente a cega, que lançou um grito estridente. Quis levantar-se, mas as mãos de ferro da pedinte obrigaram-na a permanecer de joelhos sobre a enxerga. Henriqueta! Henriqueta! ― gemeu Luísa. ― Vem em meu auxílio! Não me deixes morrer aqui! Meu Deus!

As palavras da desgraçada jovem foram cortadas por uma estentórea e cínica gargalhada da pedinte.

― Como queres que tua irmã te oiça? ― perguntou a Frochard. E acrescentou: ― Para que te ouvisse seria conveniente que te não negasses a pedir esmola.

― Nunca! ― exclamou Luísa com exaltação. ― Não conseguirá que desça até esse ponto. Suceda o que suceder, não farei o que pretende.

Naquele momento a horrível velha teve uma feroz inspiração. Ao ver que Luísa tremia de frio, agarrou na roupa da cama com os dedos, que mais pareciam garras, e começou a destapar o miserável leito da sua vítima.

― Tiro-te os cobertores-disse sem o menor assomo de consideração ―,  porque creio que apesar de ter aberto a janela ainda tens demasiado calor.

Pedro não pôde evitar um gesto de espanto que, tendo sido visto pela odiosa velha, a levou a fazê-lo sair aos empurrões do sótão, precipitando-o pelas escadas abaixo.

Luísa sentiu um frio intenso, que imediatamente a fez estremecer.

― Desta maneira estarás melhor, marquesinha ― disse a vagabunda levando com ela a roupa da cama. ― Se te decidires a pedir esmola e a cantar na rua, chama-me. Boa noite.

A cega ouviu correr a fechadura da porta e os passos da Frochard a descer a escada.

― Desamparada, naquele mísero sótão, numa noite glacial, não pôde fazer outra coisa além de se encolher na enxerga e tentar esquecer aqueles actos desumanos do seu verdugo.

Ao amanhecer do dia seguinte, a desgraçada cega, exausta e sem a noção dos acontecimentos, ouviu a voz da vagabunda que increpava Pedro. Seguidamente, sentiu que ela subia as escadas e acto contínuo se abria a porta do míSero quarto.

― Suponho que, depois de passar uma noite com tanta comodidade, a marquesinha terá pensado que é preferível gorjear durante todo o dia em vez de permanecer em perpétuo jejum e a descansar em tão acolhedor palácio.

A cega, ao ouvir aquelas malditas ironias, preparou-se para se entregar definitivamente ao seu algoz, mas a consciência dizia-lhe que era preciso resistir agora e sempre aos desejos daquela mulher. E manteve-se silenciosa.

A Frochard, compreendendo a atitude da sua vítima grunhiu:

― Enfim, tu tens a palavra. O jejum e este ar frio do céu creio que te farão muito bem. No entanto, voltarei daqui a pouco para saber se queres mudar a ementa do almoço.

A porta fechou-se de novo e os degraus da escada rangeram sob os fortes passos da velha.

Momentos mais tarde ouviu também fechar-se a porta do andar térreo com grande estrépito. A cega ficara só naquele covil.

Ao longe ouvia-se o clássico pregão de Pedro, que se afastava.

― Afiam-se facas, navalhas e tesouras! Afiam-se facas!

Luísa deixou-se cair de joelhos e uniu as mãos.

― É o meu único protector que se afasta ― murmurou a desgraçada, tentando conter as lágrimas que lhe molhavam as faces.

A Frochard dirigira-se para a Ponte Nova com o fim de pedir esmola e também para ver o seu filho Jacobo, que tinha o costume de aí ir comer a uma pousada.

Os dois seres desumanos trocaram impressões sobre o que se devia fazer para que Luísa fosse razoável.

― É indispensável que trabalhe! ― asseverou a pedinte. ― E, no entanto, faz-me ter medo porque se se pusesse a gritar era capaz de chamar a atenção dos curiosos polícias; por isso deixei-a em casa, mas não te preocupes que brevemente ela abrandará. Não lhe dei absolutamente nada para se alimentar durante todo o dia.

E para provar aquilo que dizia, a Frochard mostrou a chave da porta do sótão.

Jacobo pediu a chave a sua mãe, dizendo que seria bom ele próprio informar-se do que se passava.

― Talvez-comentou Jacobo ― umas palavras minhas convençam.

Os dois miseráveis separaram-se, seguindo Jacobo pela rua Delfina, enquanto a Frochard se pôs a pedir esmola.

Por seu lado, Pedro tinha trabalhado muito aquela manhã, reunindo uma quantia regular que destinou à compra de víveres para Luísa.

Ao chegar à porta do sótão, ouviu o soluçar da prisioneira, que lhe oprimiu o coração.

― Menina ― exclamou o amolador ―,  sou eu que venho ajudá-la. Se me é impossível devolver-lhe a liberdade, quero ao menos atenuar-lhe as penas e poupar-lhe o suplício da fome. Trago algumas provisões para si.

― Poderá abrir a porta da minha prisão? ― perguntou Luísa, mais tranquila com a proximidade do seu bom amigo.

― Não, mas subindo ao telhado chegarei à clarabóia do sótão e por ela farei chegar à sua mão os alimentos. ― Não se exponha a um perigo, senhor Pedro.

― Não tem que temer, menina. Não é meu dever reparar como puder os males que minha mãe lhe causa? vou subir ao telhado e dentro de momentos...

O amolador não pôde terminar a frase.

Acabava de notar que o seu temido irmão se encontrava no meio do cubículo, de braços cruzados, os olhos chamejantes e o rosto contraído pela ira.

Jacobo tinha ouvido tudo.

Subiu os degraus da escada sem dizer uma palavra agarrando Pedro, que tremia dos pés à cabeça, elevou-o com os seus poderosos braços e lançou-o violentamente ao chão.

Um tremendo grito de dor saiu da garganta do pobre aleijado, ao mesmo tempo que um surdo gemido partia do interior do sótão, como que respondendo ao lamento de Pedro.

A cega tinha compreendido que uma desgraça havia atingido o seu único protector. Esperou mergulhada na mais terrível angústia.

Jacobo, com a chave que lhe dera a mãe, abriu a porta do sótão e, dirigindo-se à pobre cega, disse com voz imperiosa:

― Sei que se negou a obedecer à minha mãe e eu exijo-lhe que não mantenha essa atitude, pois com isso só consegue piorar a sua situaÇão. ― Não! Não! Nunca!

― Então, voltaremos a falar no assunto dentro de dois dias. Creio que neste espaço de tempo ― a voz de Jacobo era rouca ― poderá reflectir tranquilamente. E fique sabendo que durante esse tempo não receberá nada de nós nem de ninguém.

Fechou novamente a porta e dirigiu-se a Pedro, que jazia deitado no pavimento, obrigando-o a levantar-se e a segui-lo.

Alguns momentos mais tarde Luísa notou que estava novamente sozinha e que Pedro não lhe podia acudir nem ajudar.

Passou o resto do dia naquela solidão, até que, já noite cerrada, a Frochard regressou acompanhada pelo amolador, que, como de costume, a tinha encontrado no seu regresso.

Certamente o dia tinha sido pouco proveitoso, porque a mendiga não cessava de lançar os costumados impropérios contra os ricos.

― E pensar que essa preguiçosa!... ― grunhiu a velha. Pedro tentou acalmar a mãe, mas esta lançou-se escadas acima, com a ira reflectida no rosto.

O amolador seguiu-a, mas aquela mulher furiosa atirou-o para trás com um formidável soco no estômago.

― Já reflectiste, marquesinha? ― perguntou a Frochard abrindo a porta da prisão de Luísa.

― Piedade! ― gemia Luísa sem cessar. ― Sofro tanto! Morro! Estou disposta a fazer o sacrifício.

― Quer dizer que aceitas?

Depois de uma breve pausa, confirmou:

― Obedecerei! Farei o que me disser.

― Iremos as duas mendigar juntas? ― perguntou a Frochard sorrindo satisfeita.

Luísa exalou um gemido surdo.

― Eu... obedecer-lhe-ei.

Então a velha puxou Luísa para si, ajudou-a a descer a escada e conduziu-a ao andar térreo, fazendo-a sentar. Pedro sentia que o coração lhe batia com uma força que não era habitual ao contemplar aquela jovem, totalmente desfigurada e presa de espasmos devido aos dois dias de comPleta abstinência.

― Mãe! ― exclamou o coxo. ― Não vê? Tem fome. Muita fome! E visto que consentiu em tudo...

― Sim, disse que consentia, mas eu não me fio muito, Não aconteça que ao sair comigo tente fugir ou trate de chamar a atenção da polícia com os seus gritos. Quero ter garantias. Não vou dar de comer a quem depois vá contar a sua história em público.

― Prometi-lhe obedecer ― disse Luísa ― e manterei a minha promessa. Não deve duvidar de mim.

A Frochard não se conformava com uma promessa da sua vítima e, compreendendo que a rapariga era uma fervorosa devota, fê-la ajoelhar diante dela e pôr Deus, em quem ela não cria, por testemunha da sua sinceridade.

Luísa, ajoelhada no chão, balbuciou o juramento que lhe pediam.

E aquela mulher, que não acreditava nem no divino nem no humano, acreditou no juramento da cega.

― Agora ― assentiu-já poderemos dar-lhe de comer.

Pedro foi a correr buscar um prato e um garfo, mas com um acento de pena exclamou:

― Não há nada, mãe!

A velha olhou Luísa de soslaio e com todo o cinismo disse:

― Vou comprar-te alguma coisa, vou gastar dinheiro que a partir de amanhã me devolverás centuplicado.

Pegou na garrafa da aguardente, que escondeu debaixo do roto avental, como era seu costume, e saiu para a rua, sem se esquecer de fechar à chave a porta do cubículo.

Quando Luísa notou que estava só com Pedro, lançou um profundo suspiro de alívio.

― Porque não me fala, Pedro, visto que estamos sós?

― É melhor que não se canse a falar, menina-respondeu o amolador com voz trémula. ― É necessário que tome alguma coisa, mesmo receando que o que minha mãe lh traga não condiga. Eu já tinha pensado em si e atrevi-me a trazer-lhe isto. É uma garrafa de leite. Suplico-lhe que o beba antes que ela volte.

Luísa pegou na garrafa e ante as súplicas de Pedro bebeu um pouco do reconfortante líquido. No seu rosto, voltado para o bondoso rapaz, reflectia-se uma profunda gratidão. ― É melhor que tenha acedido às exigências de minha mãe. ― comentou Pedro.

Luísa empalideceu intensamente.

― Sim! Acedi a pedir esmola ― murmurou. ― Pensei que a percorrer a cidade cantando uma canção que minha irmã conhece, ela reconhecê-la-á, assim como à minha voz e então correrá para mim e voltaremos a ficar juntas para sempre.

A cega, excitadíssima, pôs-se de pé.

― Sim, Henriqueta ouvir-me-á, mas eu pergunto a mim mesma se não morrerei de vergonha e de dor quando tiver de comover as pessoas.

― Tenha coragem, menina ― disse Pedro profundamente emocionado. ― Temos de confiar que encontrará a sua irmã ― e com maior entusiasmo concluiu: ― Creio que a encontraremos.

― Cá estou eu ― gritou a Frochard ao mesmo tempo que abria a porta do seu covil.

― Não tenho fome-murmurou Luísa.

― Não tens fome? Pois é preciso comer. E tu, preguiçoso, estica bem a toalha e trata de servir à mesa com a nossa travessa de "prata".

Luísa sentiu-se fortemente agarrada por um braço que a obrigou a aproximar-se da mesa, sobre a qual estavam umas postas de bacalhau, pão negro e vinho.

― Quando se trata de dar vigor às pernas, para que no dia seguinte se possam manter fortes, não gosto de economizar― exclamou a desalmada. ― Vamos, coma!

E cortando uma fatia de pão pô-la brutalmente na mão da cega, obrigando-a a levá-lo à boca.

― Exactamente! ― exclamou a Frochard, sorvendo de seguida, pela garrafa, uns tragos de aguardente.
 

VII

O cavaleiro de Vaudrey, enquanto o seu coche deslizava por várias ruas, respeitou durante muito tempo o silêncio de Henriqueta, que, dominada por intensa dor, não conseguia compreender o que podia ter acontecido à sua irmã.

A intenção de Rogério era que Henriqueta fosse hóspeda duma honrada viúva que, por morte do seu marido, tinha sido obrigada a procurar no comércio de roupa branca os meios de subsistência.

A senhora de Ervigny, pois era este o seu nome, não aceitava senão pessoas de moral segura ou garantida por outra pessoa.

O cavaleiro rompeu o silêncio para dizer:

― Menina, dou graças a Deus por lhe ter inspirado confiança em mim e por ter aceitado o meu oferecimento. Mas deve também aceitar os meus conselhos e a minha boa vontade para a ajudar a encontrar a sua irmã. Na casa para onde nos dirigimos encontrará o maior dos afectos e poderá Permanecer ali enquanto não tivermos a sorte de encontrar Luísa.

Parecia que Henriqueta ia protestar, mas Rogério, com um gesto calmo, impôs-lhe silêncio.

― Há pouco disse-me que sabia fazer rendas com perfeição.

A jovem assentiu com um movimento de cabeça.

― Pois bem ― prosseguiu o cavaleiro. ― Peço-lhe que me dê a liberdade de continuar eu mesmo as pesquisas que iniciamos e assim terá tempo para trabalhar, pagando desta forma a hospitalidade que a honrada senhora lhe vai dar.

Henriqueta levantou vivamente a cabeça sem poder ocultar a satisfação que as palavras de Rogério lhe produziram.

― Oh, sim! ― disse ―,  só assim conseguirei ter a coragem suficiente para esperar por alguns dias o meu reencontro com Luísa.

O coche tinha parado e alguns momentos depois Rogério e a sua companheira encontravam-se diante da senhora de Ervigny.

― Tenho a honra ― disse o cavaleiro de Vaudrey gravemente ― de lhe apresentar a menina Gerard, para quem peço hospedagem e trabalho.

― Eu trabalho muito bem, senhora ― acrescentou Henriqueta.

Rogério explicou então a situação da rapariga e a forma como a tinha conhecido, para dissipar qualquer dúvida que pudesse ter suscitado à senhora de Ervigny, que se compadeceu com o que tinha acontecido à pobre cega, perdida em Paris. Por último, prometeu a Henriqueta não só alugar-lhe um quarto, mas também dar-lhe trabalho.

Henriqueta agradeceu as atenções que estava recebendo ao mesmo tempo que levantava um olhar reconhecido para o cavaleiro de Vaudrey, que se despediu imediatamente, para evitar as palavras que assomavam aos lábios da rapariga.

Então, a senhora de Ervigny conduziu Henriqueta ao seu quarto.

― Não é muito bom-disse-lhe sorridente ―,  mas aqui ficará completamente só e não terá de temer os aborrecimentos que os vizinhos lhe pudessem dar.

E, uma vez instalada a nova inquilina, a senhora de Ervigny retirou-se.

No dia seguinte, o cavaleiro resolveu procurar a cega, pensando que não seria difícil encontrá-la, mas podemos desde já dizer que as suas diligências e fadigas não foram coroadas de êxito.

Entretanto, a senhora de Ervigny preparou um pequeno trabalho que entregou à sua nova empregada, com quem esteve mais de uma hora a conversar, sob o pretexto de a guiar na sua execução. No entanto, a senhora de Ervigny ocupava-se principalmente de saber um certo número de coisas que a interessavam.

Henriqueta respondia com a maior ingenuidade às perguntas que ela fazia, contando a vida que tinha feito em Evreux desde a morte dos Gerard.

Por fim, a senhora de Ervigny retirou-se e Henriqueta dedicou-se ao trabalho com actividade febril, mas pensando sempre no cavaleiro de Vaudrey, a quem esperava ver entrar de um momento para o outro acompanhado da sua querida irmã.

No entanto, as horas passavam sem que a angustiada rapariga recebesse qualquer notícia. Desesperava-se ao pensar que também tinha de ficar aquela noite sem saber onde se encontrava Luísa.

E isto não era mais do que o princípio de uma grande série de contrariedades.

Assim decorreu um mês, sem que se verificasse qualquer mudança na situação, um mês durante o qual Rogério teve de animar Henriqueta, a fim de evitar que esta caísse no desalento.

O cavaleiro de Vaudrey adquirira o costume de ir todos os dias contar a Henriqueta os seus esforços e as suas espeluncas.

De dia para dia maior era o espaço de tempo em que se entretinha a tagarelar com ela, e era com grande pena que a deixava.

Aquelas repetidas visitas, que em algumas ocasiões chegavam a ser em número de três por dia, intrigavam alguns vizinhos, que começavam a murmurar. A modista estava de certo modo preocupada, mas, por respeito pelo cavaleiro, encerrou-se numa prudente reserva. Bastou, porém, que de entre o que se dizia chegasse aos ouvidos de Rogério a palavra casamento, para que o seu amor transbordasse com toda a sua força, um amor que até então não confessara àquela que lho inspirava e que cuidadosamente guardava em segredo. Por sua parte, Henriqueta compreendera que algo de estranho se passava com Rogério, até que chegou o dia em que teve a súbita noção do sentimento que o cavaleiro alimentava e assustou-se com a confissão que a si mesma fez no fundo do seu coração.

No entanto, o cavaleiro de Vaudrey pensando nas palavras de seu tio, ao falar-lhe num casamento ordenado pelo próprio rei, mesmo contra os seus sentimentos, calava aquele amor tão puro. Isto fazia com que Rogério se dirigisse a casa da rapariga com uma agitação febril e foi por este motivo que um dia o cavaleiro despedira com voz irada uma mendiga que o Importunava, pedindo-lhe esmola com um lamurioso palavreado. Na sua precipitação de chegar quanto antes a casa da senhora de Ervigny, Rogério deu rapidamente a volta à esquina da rua e não pôde assim ouvir o final da frase da mendiga.

― Tenha piedade duma pobre cega ― dissera aquela.

O cavaleiro, sem sequer olhar, passara roçando no esfarrapado vestido de Luísa. Tinha escutado os seus suspiros e os seus soluços, mas apressara o passo, afastando-se, sem o saber, daquela que com tanto afã tentara encontrar e que o acaso lhe pusera no caminho.

Henriqueta travara conhecimento com uma jovem chamada Mariana, que trabalhava numa alfaiataria e que à noite aceitava trabalho da senhora de Ervigny, para melhor fazer face às suas necessidades.

Mariana sabia a história das duas órfãs e admirava aquele coração bondoso, e isso, por outro lado, parecia entristecê-la. A irmã da cega percebia que a sua amiga não era completamente feliz e, levada pela sua bondade, tentava consolá-la. Por fim, um dia, esta explicou o motivo da sua tristeza.

Dera todo o carinho a um homem que dizia amá-la com toda a força do seu coração, um homem que soubera captar-lhe a confiança e que prometia casar com ela quando os dois tivessem junto o dinheiro suficiente. Esse homem chamava-se Jacobo Frochard. Sim, era o filho mais velho da vagagunda, o malandro que já conhecemos e que com as suas bonitas palavras captara a confiança da honrada trabalhadora. E a tal ponto o soube fazer, que esta lhe entregava a maior parte do dinheiro que ganhava para que o guardasse junto do seu, ignorando que o malvado o ia gastar nas tabernas, convidando uma série de amigos da Pior espécie.

O pior é que Jacobo ia exigindo cada vez mais de Mariana.

― Se apenas me dás estas moedas ― dizia com a sua voz agradável, mas cínica ―,  demoraremos ainda muito a casarmo-nos. Eu tenho de manter a minha mãe e o meu irmão ais novo e não posso fazer mais do que faço. E Mariana, só no mundo, fazia os máximos esforços para não perder o carinho daquele homem que dizia amá-la.

Havia já vários anos que mantinham relações. Apesar de a jovem ter muitos motivos para duvidar de Jacobo, procurava fechar os olhos à realidade, pensando que uma vez casados e querendo-se como se queriam, ele se modificaria e que poderiam vir a ser felizes.

Henriqueta, ante aquelas explicações, tratou de aconselhar a jovem costureira, a qual respondia sempre― com as mesmas frases:

― Sim, Henriqueta. Sei que tens razão, mas há alguma coisa mais forte do que eu que me leva a proceder assim. Quando me encontro longe dele, recobro, o conhecimento e vejo as coisas com toda a claridade. O meu coração revolta-se e até chego a sentir ódio. Mas, apenas o vejo diante de mim, o ódio esfuma-se e as suas palavras tocam-me. Olha-me e volto a ser a mesma de antes. Quero-o, Henriqueta Amo-o com toda a força da minha alma e creio que até seria capaz de roubar se ele mo ordenasse.

Henriqueta abanou tristemente a cabeça e acariciou os cabelos da sua amiga.

― Compreendo até certo ponto a tua angústia ― disse ―,  porque eu também amo um homem em silêncio, mas, quando o amor é puro e desinteressado de ambas as partes, não creio que alguém tenha de chegar ao extremo que tu dizes. Não, Mariana, isso não seria um sacrifício, mas uma má acção que nem mesmo o amor pode justificar.

A costureira escondeu a cara entre as mãos e chorou amargamente.

Henriqueta alarmou-se ao adivinhar que alguma coisa de muito grave sucedia à sua amiga. Olhou-a com compaixão e proferiu:

― Não deves desesperar, Mariana ― disse, atraindo-a para si. ― O arrependimento acalmará as tuas angústias. Abre-me o teu coração e eu tentarei ajudar-te.

Henriqueta não se enganara nas suposições que fizera com respeito á Mariana, visto que esta confessou que se encontrava numa situação delicada.

Na alfaiataria onde trabalhava, tinha também prestado os seus serviços uma mulher nova, viúva, doente e mãe de uma criança de poucos meses.

Trabalhava denodadamente para que nada faltasse ao pequeno, até que, não podendo resistir ao sacrifício que Se impusera e esgotadas as forças, faleceu no hospital.

Então, as empregadas da alfaiataria, de acordo com o dono da mesma, adoptaram o órfão, impondo-se o dever de contribuírem todas economicamente para a manutenção do pequeno e para lhe proporcionar um dote para o futuro.

As operárias deixavam todas as semanas algumas moedas para tal efeito, nomeando Mariana tesoureira daquela magnânima instituição.

E o inevitável aconteceu quando Jacobo Frochard soube que a sua noiva era depositária de uma quantia razoável. Mariana tivera a fraqueza de contar ao noivo aquele rasgo humanitário das operárias, o que, como é de supor, encheu de alegria o patife, que ia exigindo periodicamente a Mariana entregas que esta não sabia negar, apesar de perceber claramente que o que fazia não era honesto.

― Eu roubei, Henriqueta Roubei! e não há remédio para mim! Que posso fazer? Sou uma ladra!

― Este teu arrependimento ― comentou Henriqueta ― diz muito em teu favor e acho que, se estás disposta a apagar essa mancha que te pesa na consciência, deverias entregar-te à justiça, porque assim o castigo será muito menor. É muito? Se eu te pudesse ajudar...

Mariana, perante as consoladoras palavras da amiga, não pôde resistir a beijá-la, emocionada. Puxou duma agenda onde tinha anotado as dádivas das operárias e o dinheiro que ainda tinha em seu poder.

― São estas as contas, Henriqueta ― explicou Mariana. ― Já vês que falta muito e não posso permitir que tenhas de ser tu a pagar a minha falta. Estou disposta a confessar o meu delito.

― Deus ajudar-te-á e não te largará a mão ― disse carinhosamente a irmã da cega. ― E, depois de tudo ter passado, sentirás o teu espírito tranquilo e a paz renascerá em ti. As palavras de Henriqueta fizeram correr pelo rosto de Mariana lágrimas de gratidão.

Mas, quando parecia estar tudo decidido, bateram à porta e poucos momentos depois aparecia perante as duas jovens a figura de um homem hercúleo e de olhar sinistro.

Era Jacobo Frochard.

Ao mesmo tempo que se passavam os acontecimentos que acabamos de narrar, o conde de Linières encontrava-se à sua mesa de trabalho, folheando nervosamente alguns documentos.

As coisas em Paris não iam muito melhor do que antigamente. Os ladrões mantinham a tradição dos seus antecessores, os duelos entre os fidalgos eram cada vez mais frequentes e os raptos repetiam-se sem cessar.

Por este motivo, o senhor de Linières pensou em apresentar a sua demissão ao rei, mas, quando tinha vencido todas as hesitações, Sua Majestade falara-lhe da carreira política do sobrinho, o cavaleiro de Vaudrey, e de um bom casamento para este.

O subdirector-geral da Polícia resolvera, pois, obrigar Rogério a submeter-se a tão elevado desejo e por isso lhe escrevera marcando-lhe entrevista para aquele mesmo dia no seu palácio.

No entanto, o conde esperou até grande parte da noite sem que o sobrinho se apresentasse.

As preocupações políticas do senhor Linières em breve cederam lugar às preocupações de esposo.

Dezasseis anos de vida conjugal, correctíssima por parte de ambos, não tinham conseguido dissipar as dúvidas que profundamente inquietavam o conde de Linières, acerca da verdadeira causa da tristeza que sua esposa procurava nitidamente ocultar.

Passaram alguns momentos, ao fim dos quais o conde tocou fortemente a campainha.

O oficial de diligências abriu a porta e esperou ordens.

― Que Marest se apresente ― disse o senhor de Linières.

Pouco tempo depois, um homenzinho com cara de furão apresentava-se ao subdirector-geral da Polícia.

O senhor de Linières dirigiu-se ao funcionário da polícia, com palavras duras, culpando-o dos poucos serviços prestados pelos agentes a bem da sociedade.

Marest não sabia o que redarguir em resposta às acusações do seu superior.

― Que me podeis dizer acerca do cavaleiro de Vaudrey? ― perguntou por fim o subdirector-geral da polícia.

Marest parecia hesitar em responder.

― Falai!

O subalterno obedeceu, inclinando-se.

― O senhor cavaleiro de Vaudrey-disse ― visita frequentemente uma certa rapariga de quem parece estar enamorado.

Ao ouvir esta revelação, o conde ficou agitadíssimo, mas procurou dominar-se. E, fingindo não dar importância às palavras do seu subordinado, deu por terminada a entrevista.

Quando ia a sair, Marest chocou com Picart, o criado de quarto do cavaleiro de Vaudrey, que tinha entreaberto a porta com a liberdade de um antigo servidor e esperava que lhe dessem licença para entrar.

O criado, um tipo estranho, tomara uma resolução incrível e por isso viera falar ao conde de Linières.

― És tu, Picart ― exclamou o conde de Linières com satisfação. ― Chegaste em boa altura porque tenho de te falar do teu amo. O senhor Rogério conduz-se bem?

― Regularmente, senhor.

O criado, que supunha ter perdido a confiança do cavaleiro de Vaudrey, queria despedir-se e disse-o ao conde de Linières.

― Nesse caso-asseverou o subdirector da Polícia ― voltarás para o meu serviço, mas ficas junto de meu sobrinho até nova ordem e entretanto informas-me dos seus passos. É preciso que me contes tudo. Compreendes?

― Podeis ter confiança em mim, senhor.

Naquele momento a porta que dava para o corredor abriu-se sem ruído.

― A condessa! ― exclamou em voz baixa o conde de Linières. ― Vai-te e não te esqueças do que te recomendei.

― Sempre às vossas ordens, senhor-respondeu Picart, desaparecendo.

Quando o conde ficou a sós com sua mulher, disse:

― Fizeste bem em vir, pois queria falar-te de Rogério. É conveniente que te unas a mim para lhe fazer compreender que o casamento que El-Rei...

― Quer impor-lhe ― cortou tristemente a condessa.

O conde não pôde reprimir um gesto de mau humor.

― Creio ― replicou ― que será melhor que o consideremos como uma grande graça que Sua Majestade nos dispensa.

Diana suspirou profundamente.

― Mandei chamar Rogério e suponho que dentro em pouco receberemos a sua visita ― continuou o magistrado. E concluiu com certa ironia: ― A menos que o cavaleiro de Vaudrey não se digne aceitar o meu convite.

Naquele instante, um criado anunciou a chegada de Rogério, que ao entrar se apressou a beijar a mão que sua tia lhe estendia. Em seguida, inclinando-se para o senhor de Linières:

― Apressei-me, querido tio, a obedecer-lhe logo que recebi a sua carta.

― Ontem ― explicou o subdirector da Polícia ― estive em Versalhes para apresentar a Sua Majestade o testemunho do nosso reconhecimento. El-Rei dignou-se falar-me de ti. Sua Majestade quer nomear-te para um importante cargo... e dar-te uma esposa.

Os olhares da condessa e de Rogério cruzaram-se.

― Compreendo que esta notícia te surpreenda ― exclamou a senhora de Linières dando o braço a Rogério-e inclusivamente que te assustes um pouco, porque em questões matrimoniais é demasiado frequente não consultar o coração. Mas neste caso, por sorte, não terá de ser violento. Juventude, beleza e riqueza não faltam à mulher que El-Rei te elegeu.

― Ah, minha querida tia! ― balbuciou Rogério.

O conde de Linières agradeceu a sua esposa com um sorriso e acrescentou:

― Para te dar uma prova, não é preciso senão dizer que é a menina de...

― Por favor ― cortou com vivacidade o cavaleiro ―,  não é meu desejo que pronuncieis esse nome. Compreendo que seria para mim uma grande honra, mas terei de dizer que não é essa a pessoa com quem me casarei. Recuso essa proposta.

― Recusas? ― repetiu o conde. ― Antes de te pronunciares com tanta energia é preciso que reflictas. É uma honra que El-Rei se digna conceder-te e quando ele fala...

― Irei agradecer a Sua Majestade ― afirmou o cavaleiro de Vaudrey erguendo a cabeça. ― Irei pôr ao seu serviço os meus servidores, a minha pessoa e a minha vida se precisar dela, mas, repito, senhor conde, quero permanecer livre.

O conde de Linières não se pôde conter por mais tempo.

Com os olhos chamejantes, cruzou os braços e exclamou:

Queres permanecer livre para levares uma vida que

nem sempre será possível ocultar.

Na minha vida ― interrompeu Rogério com energianão tenho nada para ocultar, nada de que tenha de me envergonhar.

― Tens a certeza? ― exclamou o conde olhando o sobrinho severamente.

Rogério recebeu as palavras do tio como uma chicotada.

― Senhor! ― e deu um passo para o subdirector-geral da Polícia.

A condessa, sobressaltada, colocou-se entre os dois homens, cujos olhares se cruzavam.

O conde de Linières, ante a angústia que via reflectida no rosto da esposa, pareceu acalmar-se um pouco.

― De acordo ― disse ―,  no entanto, não espero de ti senão sensatez e obediência. É meu dever recordar-te que sou o chefe da família e que a tua honra está sob a minha guarda. Deixo-te só com a condessa porque creio que os seus conselhos te farão entrar dentro da razão. Até à vista.

O senhor de Linières abandonou precipitadamente a sala, deixando sós a esposa e o cavaleiro de Vaudrey.

― A quem amas realmente, Rogério? ― perguntou Diana, inquieta. ― Que obstáculo te separa dela e o que te impediu de solicitar a sua mão antes de El-Rei se ter lembrado de te casar?

Rogério abriu o seu coração àquela santa mulher, a quem tanto queria.

― É certo, querida tia ― explicou com veemência. ― Amo a mais gentil, a mais pura e a mais honrada das jovens. Amo-a e, no entanto, não me atrevi a dizer-lho. É uma rapariga do povo, uma órfã que vive do seu trabalho e que não Podereis julgar sem a conhecer. Se consentísseis em vê-la, estou certo que então me diríeis...

― Dir-te-ei ― interrompeu Diana ― que semelhante amor não poderá ser para ambos mais do que um manancial de dores e lágrimas e que deveríeis, forçosamente, renunciar a ele.

― Vós, que sofrestes tanto, dizeis-me isso? ― exclamou Rogério. ― Vós, a vítima dessa obediência, quereis transformar num dever aquilo que vos destruiu o corpo e a alma?

― Quem to disse? ― perguntou, trémula de emoção, a condessa de Linières. ― Quem te contou o meu segredo? Quem te revelou essa dor que me tortura há tanto tempo?

A condessa, não podendo resistir à comoção de que estava tomada, começou a chorar.

Rogério estreitou carinhosamente as mãos de sua tia.

― Houve no mundo apenas uma alma suficientemente amorosa e nobre que apreciaria com justiça e avaliaria devidamente a vossa: a alma da vossa amantíssima irmã, de minha querida mãe, que, na terrível hora de se separar de nós para sempre, exigiu de mim o juramento de me consagrar a vós de corpo e alma e de vos proteger. E eu jurei.

A condessa puxou o sobrinho contra o coração e perguntou vagarosamente:

― E confiou-te as minhas penas e desesperos? O cavaleiro assentiu com um movimento de cabeça.

― Disseste antes ― continuou Diana ― que o dever e a obediência me destroçaram a vida, mas o que talvez a tua mãe não te tivesse contado nas suas confidências eu to direi. Escuta.

E a condessa de Linières contou a Rogério toda a sua vida.

― Já vês ― concluiu a condessa de Linières ―,  como tive de proceder para ocultar o meu primeiro matrimónio, para salvar o que muitos interpretam como a honra de uma família. Como vês, abandonei a minha filhinha, pensando que o céu teria piedade dela e os anos passaram sem que as minhas pesquisas tenham dado o menor resultado.

Rogério escutara em silêncio.

― Foram muito cruéis consigo! ― disse o cavaleiro com amargura.

― Que terá acontecido à minha filha? Em que abismo terá caído por culpa desses preconceitos que me fizeram abandoná-la!

 ― E vós que sofrestes e chorastes tanto ― exclamou Rogério ―,  ainda me dizeis que obedeça? Aconselhais-me a unir a minha vida à de uma mulher, quando a imagem de outra enche por completo o meu coração?

― Não, não! ― exclamou a condessa com febril energia.

Vendo que sua tia tomava resolutamente o seu partido o cavaleiro de Vaudrey, continuou num tom suplicante:

― Não muito longe daqui vive uma rapariga que sofre e chora, uma jovem que pôs a sua honra à minha salvaguarda de fidalgo. Não acedeis em vê-la?

― Vê-la-ei, Rogério.

Naquele momento a porta abriu-se e apareceu o conde de Linières.

Diana dirigiu-se resolutamente ao seu encontro e exclamou, profundamente angustiada:

― Meu esposo, tem compaixão dele. Não o amarres, desprezando o grito da sua consciência e a rebeldia do seu coração. Não imites esses pais que condenam os filhos à mentira e à desgraça. Não tenhas um orgulho inflexível.

― De que desgraça, de que mentira e de que orgulho estais a falar? ― disse com voz grave e imponente o conde de Linières, que ficou assombrado com aquela linguagem veemente e rara na sua esposa. ― Fala! Sinistros pensamentos invadiam naquele momento o subdirector-geral da Polícia.

― Tenho o direito de exigir uma resposta à pergunta que vos dirigi ― exclamou novamente o conde.

― Vossa esposa ― interveio o senhor de Vaudrey-repetiu tudo o que tinha saído dos meus lábios. Referiu-se exactamente à rebeldia da minha alma contra o casamento que me querem impor.

O conde fingiu aceitar esta explicação.

― É certo o que Rogério diz?

Diana fez um supremo esforço para responder.

― Sim, é certo.

O conde, vendo que a sua esposa estava muito pálida, cortou aquela embaraçosa conversa.

― Conduze a condessa aos seus aposentos-disse ― e depois regressa: Tenho necessidade de te falar.
 

VIII

QUANDO o cavaleiro de Vaudrey regressou, depois de obedecer à ordem do seu tio, o conde de Linières, notou imediatamente que o subdirector-geral da Polícia estava muitíssimo nervoso.

― Acedendo aos vossos desejos ― disse Rogério gravemente ―,  aqui me tendes.

― Creio que viste ― começou o conde ― que não me posso conformar com a explicação que a condessa me deu. Que segredo te estava a contar? Quero saber tudo! Exijo-te que fales!

― Não sei nada do que me perguntais ― respondeu o cavaleiro com voz firme ― e nada tenho para vos dizer.

― Recusas-te a contar-me o segredo de que estou plenamente convencido que és depositário?

― Ignoro a que segredo vos referis.

― Pois bem ― exclamou o conde ―,  assim vais conhecê-lo ao mesmo tempo que eu.

Aquelas resolutas palavras semearam o pânico no coração de Rogério.

O conde apoiou a mão num livro que estava em cima da mesa.

― Nestes arquivos da polícia ― explicou ― estão todos os Segredos, tanto das famílias mais humildes como das mais nobres, e, portanto, aqui também deve estar o segredo de Diana de Vaudrey, condessa de Linières, esse segredo que me preocupa há tantos anos e que faz com que ela não tenha a menor alegria.

Rogério fez um gesto de espanto.

― E visto que tu ― continuou o conde ―,  dizes ignorar qual seja esse segredo, vou desvendá-lo.

― O senhor de Linières começou a folhear as páginas, enquanto Rogério seguia atentamente todos os movimentos de seu tio.

A certa altura, o conde fez uma paragem ao encontrar a folha que procurava e exclamou:

― Caso dos Vaudrey.

Percorreu com o dedo algumas linhas e leu: "Diana, filha do conde Francisco de Vaudrey..."

Rogério, sem poder resistir aos seus impulsos, avançou impetuosamente e pondo a mão sobre aquela informação que se referia à família Vaudrey, exclamou:

― Não a leias, senhor!

― Que queres dizer? ― exclamou o magistrado com voz rouca.

― Que o que pretendeis fazer é indigno de vós. É violar o segredo dum coração e vós não o fareis.

― Quem mo vai impedir?

― A honra, mas se a voz da honra vos não falar suficientemente alto, estou eu aqui para o fazer.

O senhor de Línières esboçou um sorriso sarcástico que depressa lhe desapareceu dos lábios.

Rogério, num gesto rápido, tinha-se apoderado da página do arquivo que seu tio começara a ler.

― Desgraçado! ― exclamou o conde com os punhos cerrados.

Rogério não se alterou e, cruzando os braços no peito onde tinha posto em segurança o segredo do primeiro casamento de Diana de Vaudrey, disse resolutamente:

― Senhor conde, advirto-o de que para me arrebatar este papel será preciso matar-me. Compreendei que não é apenas o segredo de vossa esposa, mas também o vosso decoro e a vossa própria honra, o que eu agora defendo contra vós.

O conde pareceu hesitar um momento, mas por fim, sílabando bem cada palavra e enquanto indicava a porta, disse asperamente:

― Não serei esquecido nem ingrato e por meu turno convido-te a que cumpras igualmente o teu dever.

Rogério inclinou-se e saiu sem proferir uma palavra.

O conde de Linières deu um passo para a porta, de punhos erguidos, como sinal dos mais obscuros pensamentos que naquele momento lhe enchiam o cérebro, e vociferou:

― Eu saberei dar-te a lição que mereces.

Henriqueta e Mariana tinham ficado perplexas ante a presença de Jacobo no compartimento em que trabalhavam precisamente no momento em que a costureira sentia a sua alma tranquila com as convincentes palavras da amiga.

― Bem ― começou Jacobo cinicamente ―,  parece que a minha pombinha há alguns dias que não se porta muito bem comigo. É uma pena eu ter-te seguido para saber onde te metias. ― Deitou um olhar depreciativo a Henriqueta e continuou: ― Ainda bem que não te encontrei com um rival.

Mariana cravara o olhar no seu interlocutor, a quem respondeu com voz firme:

― Fujo de ti!

― Que é isso? Fugir do teu Jacobo? ― perguntou este com toda a tranquilidade. ― Tem muita graça!

― Sim, fujo de ti porque não te quero ver nunca mais ― respondeu Mariana aguentando o olhar do infame. ― Envergonho-me do que fiz por tua culpa! És um miserável!

Henriqueta encostou-se a um canto da casa.

― Basta de recriminações e impropérios ― exclamou Jacobo apertando com força o braço de Mariana. ― Nem mais uma palavra e segue-me.

Mariana, como se uma força invisível a incitasse, ergueu a cabeça com dignidade e exclamou:

― Digo-te que não! Não te seguirei!

Jacobo estava espantado. Não compreendia como se operara naquela mulher, que ele julgava ter dominado, a mudança radical que estava a presenciar. Por isso, insistiu irritado:

― Segue-me porque preciso de ti! Compreendes?

― Sim, compreendo muito bem, queres que continue a roubar.

Jacobo apertou o braço de Mariana até esta se queixar. Naquele momento, porém, o miserável podia matá-la, mas não obteria a submissão que desejava.

Henriqueta seguira atentamente a cena e via que Mariana para ela dirigia os seus olhares, como para fortalecer a alma vacilante e pedir-lhe alento para sair vitoriosa da tremenda prova a que estava a ser submetida.

Mariana devia ter sentido aquela força renascer, porque disse com energia:

― Acabou-se para sempre, Jacobo! Não quero ser por mais tempo nem tua vítima nem tua cúmplice! Nunca mais te obedecerei!

― Como o conseguirás?

A jovem dirigiu-se para a janela e o seu rosto reflectiu uma grande satisfação. Alguns soldados da ronda apareciam na rua e então Mariana começou a gritar por socorro.

― Estás louca? ― gritou Jacobo irado, afastando a mulher com um empurrão.

Mas era demasiado tarde. O chefe da patrulha tinha ordenado já aos subalternos que subissem a escada.

Jacobo, ao compreender que perdera a partida, passou o olhar por todos os recantos da casa e ao ver que sobre a mesa estava o dinheiro que Mariana mostrara momentos antes à sua amiga apanhou-o e gritou:

― Cuidado com o que fazes, Mariana, e você também. Eu vou-me esconder lá dentro e se alguma de vocês faz notar a minha presença à polícia, não fiquem com a menor dúvida de que se hão-de arrepender.

Jacobo escondeu-se na altura em que o chefe da patrulha irrompia na sala.

― Que sucede? ― perguntou o agente da autoridade.

Mariana levantou serenamente os olhos, cravou-os por um momento nos de Henriqueta e depois respondeu calmamente:

― Senhores, detenham-me. Sou uma ladra!

― O seu nome? ― perguntou o chefe da patrulha. ― Mariana Vauthier.

― Como você mesma confessa ser culpada e se entrega, Siga-nos à esquadra da polícia.

Mariana aproximou-se rapidamente de Henriqueta, que ficara muda de espanto, e disse-lhe tranquilamente ao ouvido:

― A expiação começa agora; espero ter forças para a cumprir.

E foi colocar-se no meio dos soldados que, a uma ordem do chefe, se puseram a caminho.

Momentos depois apareceu Jacobo, que, encarando a irmã de Luísa, lhe disse em tom sarcástico:

― Compreendo que você deve ser o seu anjo protector ou talvez sua cúmplice. Mas já viu que ela foi incapaz de me denunciar porque me conhece bem. Siga-lhe o exemplo. proceda como se não me conhecesse.

Deu uns passos em direcção à janela para se certificar de que a ronda já se afastara e, abrindo tranquilamente a porta, exclamou, na altura de se ir embora:

― Para a prisão! Que estupidez!

Momentos depois, a cínica personagem saía para a rua, onde vários grupos de pessoas comentavam à sua maneira o que acabava de acontecer. E como sempre, inventando as mais absurdas fantasias, a maioria das quais comprometiam de uma maneira absoluta a honradez da inocente Henriqueta.

Quando a senhora de Ervigny regressou a casa, ignorando o que se passara no seu próprio domicílio, ficou espantada com aqueles comentários que tanto a prejudicavam, mas levada pelo bom coração dirigiu-se a Henriqueta para saber pela sua própria boca o que tinha acontecido.

― Pobre rapariga! ― comentou a modista referindo-se à resolução tomada por Mariana, que apesar de tudo ela sabia que era boa.

― Que lhe acontecerá ― perguntou Henriqueta inquieta.

― Nestes casos ― explicou a senhora de Ervigny ― a polícia é muito severa. O novo subdirector-geral da Polícia persegue sem descanso toda a espécie de delitos e o roubo é um dos mais graves ― e suspirando profundamente concluiu: ― Deus queira que você não se veja envolvida neste assunto.

Henriqueta abriu desmesuradamente os olhos ao ouvir as palavras da sua interlocutora, mas ao cérebro acudiu-lhe a idéia de que o cavaleiro de Vaudrey, que era sobrinho do magistrado, poderia prestar auxílio não só a si, que nada tinha feito, como também à pobre Mariana, vítima do desprezível Jacobo.

No entanto, que longe estava a jovem de supor que sobre a sua cabeça pairavam os mais negros presságios!

A praça de São Sulpício tinha o aspecto dum lençol imaculado, produzido pela neve que caíra durante toda a noite. Fazia um frio intenso e as pessoas que passavam caminhavam rapidamente, cobertas até aos olhos pelos agasalhos.

Na igreja celebravam-se importantes cerimónias religiosas e por esse motivo viam-se à porta muitos mendigos.

Davam as doze horas quando Pedro chegou à praça, no mesmo momento em que aparecia Jacobo, que perguntou:

― As mulheres ainda não chegaram?

― A nossa mãe e a menina Luísa devem estar ocupadas em qualquer outro sítio ― respondeu de má vontade o amolador, a quem a frase "as mulheres" não tinha soado bem aos ouvidos.

― Estás de mau humor, monstro? ― perguntou Jacobo soltando uma estentórea gargalhada.

Pedro aproximou-se timidamente do irmão e pediu-lhe que não o chamasse monstro diante de Luísa.

― Bate-me, ofende-me quando ela não está presente, mas não me chames assim quando Luísa o puder ouvir.

― Olha! Será que te enamoraste da nossa cega?

― Eu? Eu? Que pensamento! ― balbuciou Pedro ao mesmo tempo que sentia uma espécie de vertigem. ― Não é isso, Jacobo, é porque me daria grande prazer poder pensar que existe pelo menos uma pessoa na Terra para quem eu não sou um ser repulsivo. Talvez pensando que eu sou como os outros, me tenha um pouco de amizade.

A eloquência de Pedro sobressaltou o irmão.

― Está bem. Não te preocupes, não te chamarei monstro. A partir de agora vou-te chamar belo cupido.

O amolador levantou a cabeça para protestar, mas ante o olhar de desprezo do irmão inclinou-a resignado.

Naquele momento a atenção dos dois irmãos foi atraída pela presença da Frochard e da cega, que apareceram à entrada da praça.

A velha, observando que havia certa animação, beliscou Luísa, enquanto dizia a meia voz:

― Vamos, preguiçosa, canta a tua canção porque há público que te ouve.

A cega obedeceu e com voz lamuriosa começou a cantar.

Um grupo de curiosos acorreu para ouvir a desgraçada e alguns deles puseram nas mãos da jovem algumas moedas de cobre.

Pedro não se moveu donde estava, mas o irmão, convencido de que a colecta fora boa, aproximou-se da mãe.

Mirou Luísa de soslaio e disse de si para si:

― De facto, é bonita, e além disso a sua voz não é má!

A Frochard obrigou a cega a continuar a cantar.

As torturas que aquela infeliz passava teriam comovido qualquer alma que não fosse a da velha Frochard, que há três meses arrastava a cega por todos os bairros de Paris para que entoasse as suas canções. Luísa obedecia com a esperança de que algum dia o acaso a pusesse na presença de Henriqueta.

No entanto, os dias passavam sem que se registasse qualquer mudança na situação da jovem, a não ser que a infeliz ia perdendo dia a dia a saúde.

Esta circunstância causava a maior alegria à Frochard, porque o rosto descarnado da cega fazia com que as pessoas se compadecessem mais dela e as esmolas fossem mais abundantes.

A velha ia dizendo sem cessar, encarando todos os presentes:

― Tenham piedade duma pobre cega!

Pedro, do lugar onde se encontrava, assistia com o coraÇão oprimido àquelas cenas que diariamente se repetiam e que aumentavam a sua infelicidade.

As esmolas não tinham sido muito pródigas e a pedinte demonstrava-o bem pelos impropérios que lançava contra todos. Agarrou Luísa por um braço e obrigou-a a segui-la, Passeando-a dum lado para o outro enquanto ia repetindo as mesmas palavras:

― Tenha piedade duma pobre cega!

Naquele momento entrava na praça uma cadeirinha de mão que se dirigia para a igreja, enquanto pelo lado oposto aParecia um homem de certa idade, coberto com um sobretudo com grandes bandas de pele.

Ao ver a cadeirinha e reconhecendo a libré dos servidores, esperou uns momentos para apresentar cumprimentos à condessa de Linières, pois não era outra a que chegava.

― Oh, doutor! Como me agrada ver-vos! ― exclamou a dama ao reconhecer aquele que respeitosamente lhe tinha oferecido o braço para a ajudar a sair da liteira.

O acaso dera ensejo a que o médico da família Linières se encontrasse no sítio aonde ela se dirigia, não só para assistir aos ofícios de São Sulpício mas também para se dirigir ao lugar onde o seu afecto pelo cavaleiro de Vaudrey, a quem amava como a um filho, a levava.

O médico olhou detidamente Diana e disse sorrindo:

― Não me agrada o aspecto da senhora condessa.

O bom homem, além de médico, era um excelente amigo de Diana. Por isso se atrevera a pronunciar aquelas palavras, às quais a dama respondeu movendo negativamente a cabeça:

― Sim, já sei que é a sua alma que me falta curar ― acrescentou afàvelmente o doutor.

A senhora de Linières apertou afectuosamente a mão daquele homem que, não encontrando nos recursos da sua ciência um remédio eficaz, tentava usar as frases consoladoras que o coração lhe ditava.

Diana de Linières, depois de se ter despedido do médico, dirigiu-se lentamente para a porta principal da igreja de São Sulpício. O médico saudou-a com uma reverência, retomando o seu caminho.

Uma velha mendiga aproximou-se soltando a sua eterna lengalenga.

― Tenha piedade de uma pobre cega!

O médico teve primeiro o impulso de mandar a pedinte para o diabo, mas ao ouvir a palavra cega estacou.

― Uma cega? É esta rapariguinha?

A Frochard, pensando que a esmola seria maior, acrescentou:

― Ah, meu Deus Sim, senhor! É uma grande desgraça e um grande desgosto para mim!

Mas, com grande surpresa da velha, parecia-lhe que o bom senhor a não escutava. Toda a sua atenção se concentrava na rapariga, de cujo rosto não tirava o olhar.

― Deixe-me observar-lhe a vista.

A Frochard tentou impedi-lo, mas o médico afastou-a para o lado enquanto dizia a Luísa:

― Venha, minha filha. Ponha-se aqui por um instante.

A vagabunda, furiosa, rodopiava junto do médico, ao ver o seu trabalho interrompido daquela maneira.

― E não tem cura! ― exclamou a Frochard.

― Quem lhe disse isso?

A pedinte não sabia o que responder.

― É o que todos dizem ― balbuciou.

O médico encolheu os ombros e decidiu-se a interrogar a rapariga.

― Não é cega de nascença, não é verdade?

― Não, senhor ― respondeu Luísa juntando as mãos sobre o peito, como se estivesse fazendo do fundo do coração uma oração de agradecimento. ― Foi uma desgraça que me sobreveio aos catorze anos.

O médico moveu a cabeça significativamente.

― E desde então ― disse ―,  não se submeteu a nenhum tratamento?

― Desde então... ― começou Luísa.

Mas a Frochard, não podendo resistir mais, colocou-se entre a cega e o doutor e adoptando o seu aspecto humilde e hipócrita disse:

― Somos tão pobres que nos faltam os meios para o tentar.

A angustia que se reflectiu no rosto de Luísa é impossível de descrever. Uma esperança tinha entrado no seu coração, mas agora via-a desvanecer-se, ao ouvir a voz da venenosa velha. No entanto, atreveu-se a dizer, suplicante:

― Oh, cavalheiro! Crê que posso ter esperança? A Frochard desesperou-se.

― Acalme-se, acalme-se, minha filha ― exclamou o médico tocando familiarmente na mão da cega. E voltando-se para a pedinte, continuou:

― Aproxime-se.

A Frochard obedeceu.

― Escute ― disse o médico em voz baixa ―,  É preciso preparar a rapariga com cuidado, porque uma alegria súbita pode prejudicá-la. Estou convencido de que, se eu operasse esta rapariga, ela recuperaria a vista.

A vagabunda soltou uma exclamação que ninguém seria capaz de traduzir exactamente com palavras.

― Ah! sim! ― respondeu simplesmente, mas nestas duas sílabas encerrava-se o espanto, a ira e a ameaça.

Luísa não pôde ouvir as palavras pronunciadas pelo médico.

― Leve-a ao hospital de São Luís ― revelou o médico.

― Sim, já o conheço ― gaguejou a velha. ― Estive lá muitas vezes.

― Efectivamente― exclamou o homem de ciência olhando-a atentamente. ― Você é a viúva Frochard, não é verdade?

A vagabunda assentiu murmurando.

― Mas tenho uma dúvida ― explicou o médico. ― Não sabia que você tinha uma filha.

― Não é minha filha ― respondeu rapidamente a pedinte. ― Recolhi-a na província, onde passava fome. Aqui tento arranjar-lhe uma posição.

O médico encolheu os ombros e concluiu:

― Enfim, seja como for, o caso é que quando ela estiver mais calma pode informá-la com um certo cuidado das minhas esperanças. Mas como já disse não é conveniente emocioná-la demasiado.

E, depois de ter dado algumas moedas a Luísa, afastou-se.

Ansiosa por saber o que não tinha ouvido, Luísa perguntou à pedinte:

― Que dizia o médico em voz tão baixa quando lhe falava?

― Dizia que não valia a pena ir consultá-lo ― respondeu cinicamente a odiosa mulher. ― Não há nenhuma esperança!

Ante tal desengano, Luísa cambaleou, enquanto a Frochard guardava rapidamente as moedas que o doutor dera à cega.

Jacobo, logo que o cientista se afastou, aproximou-se de sua mãe e apoderou-se por sua vez do dinheiro que ela tirara das mãos de Luísa.

― Uma moeda de seis francos! ― exclamou com alegria. Olhou em redor dizendo:

― Há que celebrar o acontecimento. Vamos, mãe, convido-a a beber um copo de aguardente.

A velha aceitou contentíssima, mas, antes de se ir embora com Jacobo, voltou-se para Luísa, dizendo-lhe autoritàriamente:

― Quando saírem da missa procura cantar como deve Ser. Lembra-te que tenho bom ouvido e que estou aqui perto.

Sim, senhora ― respondeu a desgraçada Luísa.


IX

PEDRO aproximou-se da cega para a conduzir até às escadas da igreja. Tinham começado a cair grandes flocos de neve. Luísa tiritava.

― Tenho frio! Tenho muito frio!

Pedro despiu o seu capote, expondo-se aos rigores do frio, e pô-lo cuidadosamente nos ombros de Luísa. ― Porque faz isso? Não é o seu casaco?

― Ah, sim! mas eu tenho a minha jaqueta e além disso não sinto muito frio-respondeu o jovem, mentindo generosamente.

Estas palavras tranquilizaram Luísa.

― Se não fosse você há muito tempo que tinha sucumbido ― suspirou ela. ― Não teria forças para suportar a vida que levo. Nem sabe como lhe agradeço o seu procedimento para comigo.

Luísa estendeu a mão a Pedro, a qual o bondoso rapaz estreitou com carinho.

― Oiça, Luísa. A missa terminou e os fiéis começaram a sair do templo. Se não fosse por causa da minha mãe, nada lhe diria; mas ela está a espiar do lugar onde se encontra.

A cega levou a mão ao peito com angustia. Ante o pensamento de que tinha de cantar, estender a mão e implorar caridade, sentia o coração oprimir-se-lhe.

Pedro teve de insistir.

― Sim ― exclamou Luísa ―,  estou na nave e não me ouvem cantar.

O amolador sentiu um nó na garganta ao ver que a cega se ajoelhava na escadaria e, levantando os olhos para o céu, começava a cantar, sem se preocupar com a neve que caía sobre ela.

Na taberna, Jacobo e a mãe ocupavam-se duma garrafa de aguardente.

Quando o "Querubim" notou que os fiéis começavam a sair, tentou convencer a mãe a beber o álcool de um trago Mas a velha queria saboreá-lo com calma e não se moveu.

― Não te preocupes ― disse a velha. ― Daqui estou a ver o meu "pintassilgo" que canta como deve ser e parece-me que recolherá bastante. Além disso, Pedro está a vigiar a colecta e já sabes que nesse aspecto podemos confiar nele.

Naquele momento três homens sentaram-se numa mesa próxima. A velha fez um gesto de desagrado e aproximando-se de Jacobo disse-lhe em voz baixa:

― São espiões!

― Efectivamente ― murmurou o filho da vagabunda. ― Dos três, conheço dois. O que está à direita é uma velha raposa chamado Marest e será interessante ouvir o que eles dizem. Quando se vêem espiões é melhor estar alerta.

E Jacobo disfarçadamente escutou o que diziam os três homens.

― De modo que, Sr. Picart ― falava Marest ―,  o trabalho é muito, especialmente desde que fomos encarregados de encontrar uma rapariga jovem e bela.

Marest referia-se a Henriqueta, que Picart, trabalhando por conta do senhor de Linières, também tentava descobrir. Ele dissera ao magistrado que podia confiar no seu esforço e, por isso, estava agora reunido com os agentes da polícia do conde. Sabia que todos os dias às doze horas Marest tinha o hábito de dar instruções aos seus homens na taberna da Praça de São Sulpício e Picart esperara a hora indicada para se lhes reunir.

Logo que entabulou conversa com os polícias, Picart teve de confessar a inutilidade dos seus esforços para cumprir a ordem que lhe tinham dado.

― Se quiser-disse o agente ― eu posso ajudá-lo, Sr. Picart.

― Sabe onde se recolhe o meu amo?

― Há muito que o sei.

― Então, se não houver inconveniente, dê-me a direcção.

― Ah! Isso não posso, Sr. Picart, enquanto não descobrir que interesse pode ter o cavaleiro de Vaudrey em correr todo o Paris, dia e noite, inquirindo pormenores e interessando-se por alguém.

Por quem? ― perguntou Picart sobressaltado.

É uma história interessante, não é verdade? Trata-se

de uma rapariga que, segundo parece, tem certa relação com a outra.

Vá ter com o cavaleiro de Vaudrey! ― comentou Picart, rindo estrepitosamente.

― Um momento, caro amigo ― interrompeu Marest. ― Segundo parece, essa rapariga por quem o cavaleiro se interessa é cega.

A Frochard pousou rapidamente na mesa o copo que tinha levado aos lábios, para apurar o ouvido, enquanto Jacobo cerrava os punhos com raiva.

― Procuram o "pintassilgo" ― disse este trocando um olhar de inteligência com a sua mãe.

― Será necessário mudá-la de gaiola ― comentou a velha. ― Que seria de nós sem ela?

A vagabunda fez sinal ao filho para que continuasse a escutar, mas nada mais puderam averiguar, porque os três homens se levantaram, ao mesmo tempo que Marest dizia:

― Se quer informar-se bem sobre o que tanto lhe interessa, Sr. Picart, basta-lhe seguir-me.

Este não se fez rogado e os três homens saíram da taberna.

Jacobo teve de reter a mãe, que se tinha erguido para se dirigir à praça.

― Não é conveniente cometer imprudências ― disse. ― Deixemos que eles se afastem. Teremos muito tempo para proceder como se impõe.

Naquele momento a condessa de Linières saiu da igreja.

O lacaio aproximou a cadeira de mão, mas Diana detivera-se junto do gradeamento e olhava compassiva para a Pobre cega. Sentiu-se comovida ante aquela desventurada e com a mão trémula deixou cair uma esmola, que Luísa agradeceu.

― Obrigada, senhora!

A condessa de Linières acabava de socorrer, sem o saber, a Sua própria filha.

A cega, lembrando-se então da recomendação de Pedro, entoou a romanza que a Frochard a obrigava a repetir.

A condessa, sob a influência duma sensação que não podia explicar, escutou a canção. Uma estranha fascinação a conservava imóvel no sítio onde cantava a rapariga, cuja voz tremida, por causa do frio, tinha entoações dolorosas que atingiam a alma.

Diana não conseguia afastar os olhos dos de Luísa. Aproximou-se dela.

― Você vê-me, minha filha? ― perguntou com doçura a condessa.

Luísa voltou vivamente a cabeça para o sítio onde se encontrava a senhora de Linières e respondeu:

― Não, senhora; não a vejo.

Um ligeiro rubor tingiu o seu rosto ao continuar:

― Não a vejo, nem nunca a verei.

― Que desgraçada!

― Compadece-se de mim, senhora? ― interrogou Luísa, emocionada por aquelas palavras que lhe tinham penetrado até ao fundo do coração.

― Sim! ― respondeu Diana docemente.

Luísa aproximou-se instintivamente daquela dama que experimentava tão estranha compaixão por ela, com a intenção de lhe falar; mas, com medo da velha Frochard, as palavras não lhe saíam da garganta.

― Renovei-lhe o desgosto ao falar-lhe da sua desgraça? com a voz estrangulada pela comoção, a cega disse:

― Não é esta a maior infelicidade que me feriu.

― Será que ainda há mais, minha filha? Conte-me! EU sou rica e talvez a possa ajudar.

Luísa estava transfigurada, e, ganhando coragem para as confidências que lhe pediam com tanto interesse, murmurou:

― Se eu me atrevesse!

― A quê? ― ressoou então a voz rouca que a cega conhecia demasiado bem.

A velha pedinte, ao notar, quando na taberna, que o seu instrumento de trabalho deixara de cantar, cruzou rapidamente a praça para saber o que acontecia.

No entanto, a condessa, sem atentar na desprezível velha, continuou no mesmo tom de simpática compaixão:

― Não tem família? Não tem mãe?

Luísa sentiu o coração bater com força. Ia a responder, mas de novo se ouviu a voz da Frochard, com o seu acento hipócrita.

― Oh, senhora! A rapariguinha tem uma família e uma mãe, uma mãe que sou eu. ― Suspirou profundamente e acrescentou: ― Esta é a mais nova das sete filhas que criei à força de privações e fadigas, e isto era o que a minha querida filhinha lhe ia a dizer.

Aquelas palavras infames fizeram tremer de ira os lábios de Luísa, mas a pedinte apertou com tal força o pulso da infeliz, que esta teve de sufocar o grito que, como uma libertação, se ia a escapar-lhe da garganta.

Diana, ao ver que a cega empalidecera, comentou:

― Parece doente a rapariga.

― Há muito poucas almas caridosas-respondeu rapidamente a Frochard. ― São raros os que se compadecem dela e dão-lhe tão pouco dinheiro que não chega para a tratar devidamente. Ao menos, todos lá em casa gostamos muito dela e carinho não lhe falta. Não é verdade, minha filhinha?

Luísa sentiu que a velha lhe tornava a apertar com força o pulso, para a obrigar a responder.

― Sim, senhora, é verdade ― respondeu com voz sumida. A senhora de Linières aproximou-se da jovem e pôs-lhe uma moeda na mão.

― Tome, minha filha, dê-a à sua mãe-e juntou com tristeza ― e reze a Deus por mim!

Quando Luísa compreendeu que a dama se afastava, pareceu-lhe que um profundo abismo se abria a seus pés. Todas as suas efémeras ilusões tinham desaparecido e viu que para ela já não podia existir outra coisa além da eterna escravidão. Se não fosse a recordação de Henriqueta, que se mantinha viva no coração da cega, Luísa ter-se-ia atrevido a pedir a Deus que lhe fizesse a graça de a deixar morrer.

A condessa de Linières ficou bastante impressionada com aquele encontro, o que a fez recordar a promessa que fizera ao cavaleiro de Vaudrey, de ir ver a jovem operária que tão profundamente tinha afectado o coração de seu sobrinho.

Acomodou-se na liteira e ordenou ao lacaio que a conduzisse à direcção que lhe indicou.

Pedro seguira com interesse toda a cena anterior, com a esperança de que em alguma ocasião Luísa encontraria a mão compassiva e carinhosa que a tiraria daquele inferno. Estava absorto nas suas meditações quando se sentiu agarrado pelo irmão.

Que fazes aqui olhando lânguidamente para o "rouxinol" ― perguntou Jacobo.

― E tu por que me agarras? ― perguntou por sua vez o amolador.

― Porque te proíbo que fales com Luísa, que a sigas e que a ames. Compreendes?

Pedro, engrandecido pela vileza do irmão, respondeu com acento firme:

― Podes matar-me se quiseres, Jacobo, mas nunca poderás impedir que eu a ame.

Jacobo lançou uma gargalhada estridente e, abandonando o irmão, correu atrás da mãe, que arrastava a sua inocente vítima por uma viela. Henriqueta esperava com o coração cheio de melancolia a chegada do cavaleiro de Vaudrey, com a esperança de que este trouxesse notícias de Luísa. Mas Rogério, como ― em tantas outras ocasiões, revelou que tudo ia na mesma.

― No entanto ― continuou o cavaleiro ―,  espero que em breve sejamos mais afortunados.

Henriqueta ficou pensativa e sentou-se numa modesta cadeira. Rogério olhava-a embevecido.

― Henriqueta ― exclamou ele  ―,  queria falar-lhe de você... e de mim.

A jovem levantou a cabeça e os seus olhos cravaram-se Por momentos nos de Rogério.

― Henriqueta, não compreende o que me abrasa o coração! Amo-a! Amo-a, não com o amor vulgar, que a poderia ofender, mas com um sentimento sincero e leal.

Henriqueta, terrivelmente emocionada, levou uma das mãos ao coração como se tivesse recebido um golpe inesPerado.

― Rogério-pôde ela dizer com a voz entrecortada ―,  não creio que seja oportuno o que me acaba de dizer. Deve comPreender que nestes momentos não me posso abandonar à alegria de ser amada, porque há uma missão que tenho de cumprir e de que não me posso escusar. Tenho o sagrado dever de encontrar Luísa, que tanto necessita da minha protecção e dos meus cuidados. ― Olhou carinhosamente o cavaleiro e, depois de uma curta pausa, continuou: ― Depois de a encontrar não o proibirei de me falar de amor nem o mandarei calar.

― Oh, Henriqueta! Querida Henriqueta ― disse Rogério com paixão enquanto, levado por um ímpeto de ternura, beijava devotadamente as mãos da jovem. ― As suas palavras enchem-me de esperança e felicidade e isso há-de dar-me maiores forças para continuar com novo ardor as minhas pesquisas, para que possa trazer para os seus braços a sua queridíssima irmã. Mas para resistir na luta que ainda tenho de manter, tenho necessidade de obter de si uma promessa. A promessa de que um dia me dará a honra de aceitar o meu nome.

A jovem ruborizou-se, inclinando a cabeça.

― Antes de me decidir a falar-lhe, confiei o segredo do meu amor à única pessoa que, juntamente consigo, tem o direito de conhecer os mais íntimos sentimentos da minha alma. A essa pessoa você poderá chamar mãe, porque ela recebeu da minha a recomendação de me amar como a um filho seu.

Rogério fez uma pausa para ver o efeito que as suas palavras causavam em Henriqueta.

― Essa pessoa-prosseguiu o cavaleiro-é a senhora condessa de Linières, que dentro em pouco estará aqui.

― Como, essa senhora vem aqui? ― perguntou Henriqueta surpreendida.

Quando Rogério ia a confirmar, bateram ligeiramente à porta. Henriqueta permaneceu imóvel, sem se atrever a dar um passo. Rogério precipitou-se para abrir.

Mas quando o fez, uma exclamação de desapontamento escapou-se-lhe dos lábios. A pessoa que tinha aparecido no vão da porta era Picart, que, ao ver a cara de espanto do cavaleiro, exclamou com ar jovial:

― Não se incomode, senhor.

― Picart! Que vens aqui fazer? ― perguntou o cavaleiro, furioso.

Henriqueta tinha-se retirado para o extremo do quarto,

enquanto o velho criado, que parecia não temer a fúria do amo, respondeu com calma e sorrindo:

― Senhor cavaleiro, sou eu, o seu fiel criado.

Como se pode compreender, Marest tinha ajudado as pesquisas do velho servidor.

Rogério perguntou de novo:

― Que vens aqui fazer? ― E voltando-se para Henriqueta, explicou: ― É o meu criado de quarto.

― Sim, menina, sou Picart, o fiel e reservado Picart que vem dar ao senhor cavaleiro uma notícia de grande interesse.

O ar misterioso de Picart levou Henriqueta a sair do quarto, sob o pretexto de ter de ir levar um trabalho.

― Até já, querida Henriqueta ― exclamou Rogério inclinando-se.

Seguidamente voltou a encarar o criado.

― Pois bem, já estamos sós. Queres explicar-me agora porque te permitiste vir a este lugar e com que fim? Que pretendes esconder? Queres dizer-me duma vez o que significa isto?

Picart, sem se perturbar, disse:

― Significa que o senhor conde, desejando conhecer as "vossas" escapatórias, encarregou-me de me informar.

― Estavas a espiar-me, malandro?

― Sim, segui o senhor cavaleiro e deste modo cheguei ao refúgio desta linda menina ― replicou ironicamente Picart.

― Cuidado com as tuas palavras, Picart! E ouve bem: Volta a casa do senhor de Linières e diz-lhe, se quiseres, que depois de me seguires me encontraste em casa da mulher a quem amo. E podes acrescentar que jamais terei outra mulher, outra esposa, além desta jovem.

― Ah, mas... ― gaguejou o criado. ― É esta a menina?

― Que queres dizer?

Picart não pôde responder porque naquele momento a jovem regressava chorando amargamente.

Rogério aproximou-se carinhosamente dela.

― Que vergonha! ― gemia Henriqueta. ― Não mereço semelhante ofensa!

― Que aconteceu? ― perguntou Rogério, alarmado.

― Despediram-me desta casa!

O cavaleiro ficou atónito com aquela notícia. Despediram-na? E porquê?

― As pessoas do bairro não compreendem que eu defenda â pobre Mariana, porque dizem que é uma ladra e que, por isso, eu também o devo ser.

― Atreveram-se a suspeitar de si? ― replicou Rogério, indignado. ― De você, que é a melhor e a mais pura das raparigas. Pois bem, vou destruir agora mesmo tão infame calúnia.

Picart ficou confuso com o que estava a presenciar e naquele momento Henriqueta apareceu a seus olhos tal como era na realidade: uma boa e digna rapariga a quem o cavaleiro respeitava e de quem, por consequência, não se podia duvidar.

Henriqueta, cada vez mais aflita, explicou que a dona da casa lhe dissera que não a podia ter como empregada por mais tempo, nem permitir que estivesse em sua casa. Era um mau exemplo para as suas filhas e além disso tinha perdido a confiança nela.

Rogério contemplava a angustiada jovem.

― Levante a cabeça, Henriqueta ― exclamou o cavaleiro.

― Não pense nessa pobre e equivocada gente a quem as aparências enganam. Deixará esta casa, mas será para ir para a minha, para viver no meu palácio, quer dizer, no seu, Henriqueta, porque entrará nele pelo braço do seu marido.

Picart, ao ouvir aquelas palavras, ficou como que imbecilizado e de boca aberta.

― Eu, sua esposa! ― interrompeu Henriqueta. ― Como Pode pensar nisso? É impossível!

Rogério envolveu-a num olhar amoroso e estreitou-lhe as nãos.

Picart atreveu-se a intervir.

― Por todos os infernos! Também creio que o que o senhor diz é impossível. Os seus antepassados... ― Sei quanto há de nobre e generoso na sua oferta ― disse Henriqueta, comovida ― e agradeço-lhe por isso. Mas também compreendo que uma grande distância nos separa e faz com que não perca a noção do meu dever.

― Recusa? ― perguntou Rogério com a angústia estanpada no rosto. ― Recusa, Henriqueta E não vê que não é a única sacrificada, não pensa que eu tinha posto em si todas as minhas esperanças?

O velho criado admirava-se de que aquela pobre rapariga recusasse a riqueza e o nome que se lhe oferecia. A jovem, com uma emoção que não podia dominar, disse:

― Posso entrar na sua família contra a vontade dela? Devo converter-me num objecto de ódio, num motivo de inimizades e talvez de perseguição para si? ― Levantou os olhos e continuou: ― É preciso que não nos voltemos a ver.

― Jamais me poderá obrigar a tal sacrifício! Se a minha família me nega o consentimento, saberei passar sem ela. Pense bem, Henriqueta.

O cavaleiro de Vaudrey dirigiu-se então ao criado.

― Picart, o meu chapéu. Vamo-nos! E dirigindo-se a Henriqueta, concluiu: ― vou assegurar a nossa felicidade.

― Adeus ― murmurou a jovem com a voz trémula.

Picart abriu imediatamente a porta, completamente rendido de corpo e alma ao amo e à rapariga que com tanta sinceridade o tinha conquistado.

Uma vez na rua, Rogério ordenou ao criado que procurasse um coche.

― Aonde vamos, senhor? ― perguntou o servidor. ― Ao palácio do subdirector da Polícia. Picart estacou como que pregado ao chão.

― Vamos, sobe-ordenou o cavaleiro. ― Tenho de te falar.

Já no interior do coche, Rogério interrogou o criado, que novamente lhe disse que era por ordem do conde de Linières que tentava descobrir onde ele ia tão frequentemente.

― O senhor conde parece ter muito interesse no senhor. também em conhecer o lugar onde se esconde esta adorável rapariga. Mas não serei eu com certeza quem lhe vai dizer onde a pode encontrar. Juro-o!

― Obrigado, Picart.

― Mas... ― o criado hesitou. ― Marest pode dizê-lo, poiS foi ele quem me informou.

― Então-exclamou furioso Rogério ―,  os agentes do subdirector da Polícia conhecem o meu segredo?

A carruagem deteve-se junto do palácio e poucos momentos depois o cavaleiro perguntava por Diana.

― A senhora condessa ausentou-se-asseverou a criada.

― Muito bem ― disse Rogério. ― Voltarei para a saudar quando eu sair do gabinete do senhor de Linières.


X

HeNRIQUETA resolvera nunca mais voltar a ver Rogério, mas antes de partir queria pedir-lhe desculpa por corresponder tão mal à bondade com que a tinha tratado. E pensou que a melhor maneira de o fazer era deixar-lhe uma carta.

Acabava de a escrever quando duas leves pancadas dadas na porta a sobressaltaram.

Correu a abri-la com mão trémula e encontrou-se em frente de uma dama vestida elegantemente.

― A menina Henriqueta? ― perguntou a recém-chegada com doçura.

― Sou eu, senhora ― respondeu a rapariga.

Os olhares delas cruzaram-se cheios de bondade. O rosto da grande dama reflectia simpatia e ternura.

A senhora de Linières tinha-se sentado.

Henriqueta aproximou uma cadeira daquela em que se encontrava a condessa.

― Você foi-me cordialmente recomendada, menina.

Henriqueta perturbou-se ao ouvir aquela voz, que lhe pareceu exactamente igual à de Luísa.

― Recomendada?

― Sim, minha filha. Faço parte de uma sociedade constituída por pessoas caridosas, e, se o que me disseram de si é Justificado, poderei ser-lhe útil e ajudá-la.

Henriqueta pensou que lhe ofereciam uma esmola.

― Não sou pobre de orgulho. Ganho a vida trabalhando.

― Assim, não posso fazer nada por si?

A jovem negou vivamente, mas a simpatia daquela desconhecida levou-a a confiar-se a ela e a revelar-lhe as penas ? do seu coração. Tinha lido uma grande bondade no rosto da dama e não hesitou em expor-lhe a imensa dor que a torturava.

― Não é dinheiro, senhora, o que lhe devo solicitar, mas um abrigo onde possa viver ignorada de todos e longe da mentira. Senhora, o que eu lhe peço, se é que está ao Seu alcance, é que me proporcione viver longe da calúnia e sobretudo, longe... longe dele!

― Esse ele-fingiu espantar-se a condessa-é com certeza algum jovem que a ama. E você corresponde a esse amor?

― Assim é ― murmurou Henriqueta.

― E quer fugir dele?

― Sim, quero fugir dele para poder conservar a minha energia e evitar ser sua esposa. Foi isso que ele me ofereceu ainda há poucos minutos.

― E você recusou! Pobre rapariga! A condessa teve um gesto de espanto.

― Já que me fez essa confidência ― disse ―,  creio que também é meu dever falar-lhe com a maior franqueza. Menina, eu sou quase mãe do cavaleiro de Vaudrey e já sabia o amor que vos une. A decisão que tomou, minha filha, é a única que eu própria lhe podia aconselhar, pois não é apenas a nossa família que se opõe a tal casamento, mas inclusivamente a vontade do rei.

― Antes de a ter visto-replicou Henriqueta ―,  já tinha traçada a minha linha de conduta.

― Eu sei ― disse a condessa ―,  e se algum dia eu puder corresponder ao seu sacrifício...

― Pode fazê-lo já, senhora. Dividi o meu coração em duas partes, uma das quais pertence a Rogério e por ela me imponho o sacrifício de cumprir um dever muito doloroso, mas a outra entreguei-a a uma pobre e querida rapariga que separaram cruelmente de mim. Uma jovem que anda só, errando pelas ruas de Paris.

Diana interessou-se vivamente.

― A senhora deu-me a entender que a sua família é muito poderosa, e, portanto, pode fazer com que procurem esta minha amiga, que considero como uma irmã, para que ma devolvam. Eu farei calar para sempre o meu coração. Peço demasiado?

― Conte com a minha ajuda e o meu apoio ― respondeu Diana, pressurosa. ― Dê-me o nome e os sinais particulares dessa rapariga.

― Os sinais particulares, disse? Desgraçadamente há muitos fácil de reter. cega e tem apenas dezasseis anos. Chama-se Luísa.

A condessa de Linières teve um sobressalto.

― Luísa! ― balbuciou. ― Esteja tranquila. Procuraremos a sua irmã.

― Luísa não é minha irmã, mas eu devo-lhe o carinho e o reconhecimento de toda uma família.

― Que quer dizer? ― perguntou a dama com espanto. Então Henriqueta contou emocionada a história que tinha por protagonista ela e Luísa.

― De modo que ela é... uma infeliz abandonada?

― Meu pai encontrou Luísa nos degraus duma igreja. A infeliz trazia no meio da sua roupa várias moedas de ouro que salvaram os meus pais da miséria. Como não hei-de amar a minha Luísa!

A condessa atraiu a si a jovem e estreitou-a contra o coração.

― Ajudá-la-ei! ― assegurou Diana, que naquele momento se lembrou da triste cena a que tinha assistido à saída da missa.

Henriqueta, de repente, levantou-se levando a mão ao coração. Pareceu-lhe que ao longe ouvira uma canção muito sua conhecida.

Precipitou-se para a janela com os olhos chamejantes.

― É ela, senhora! É ela! ― gritou Henriqueta alvoroçada ao reconhecer perfeitamente a voz de Luísa.

― Você diz que é ela ― exclamou Diana, comovida até ao fundo da sua alma. ― Ela, a infeliz pedinte que eu encontrei. Ela era minha... minha...

Henriqueta não a deixou terminar a frase, porque levada pela alegria que lhe invadia o coração, tomara a condessa por um braço e arrastava-a, suplicando:

― Corramos, senhora!

Diana parecia ter os pés colados ao chão.

― Por favor, senhora! ― rogava Henriqueta emocionada. Diana de Linières saiu da sua concentração e olhando

Com ternura infinita a rapariga disse:

― Sim, vamos, minha filha.

Mas no momento em que estavam prestes a chegar à porta, as duas mulheres estacaram, surpreendidas e confusas.

A porta abrira-se violentamente.

― Meu marido! ― exclamou Diana.

A jovem, sem dar conta de nada e levada apenas pelo que o seu coração lhe ditava, tentou sair para a rua. O conde de Linières cortou-lhe o passo. Henriqueta, não podendo compreender o que lhe acontecia, dirigiu-se com voz suplicante a Diana, para que intercedesse em seu favor; mas a dama permaneceu silenciosa e com os olhos baixos.

― Por favor, senhor ― suplicou de novo a jovem, arrojando-se aos pés do senhor de Linières. ― Por piedade deixe-me sair! Deixe-me sair, antes que perca de novo a minha irmã!

O subdirector-geral da Polícia olhou-a friamente. A presença de Diana convenceu-o do que ele já pensava. Aquela jovem era a causa da desobediência de Rogério, na qual também Di2ana estava implicada.

E, fechando-se hermèticamente a qualquer sentimento de piedade, o conde de Linières voltou-se para o oficial que o acompanhava e pronunciou estas inexoráveis palavras:

― Levem esta rapariga para a prisão de Saladero. Henriqueta, sem ouvir aquela terrível ordem, suplicou ainda; mas aquele homem, impassível a tudo o que acontecia em seu redor, ordenou friamente:

― Obedeçam!

A jovem correu a refugiar-se junto da condessa que, afogada pela emoção, não se moveu. Também ela sentia sobre Si o olhar irritado do conde, e, no entanto, levada pelos instintos do seu coração, tentou seguir os passos de sua filha.

― Que significa isto? ― perguntou o conde, irado.

― Deixa-me sair, tenho de alcançá-la ― gritou Diana. O conde agarrou-a por um braço.

― De quem estás a falar? Responde-me. Diana perdeu a serenidade por momentos.

― De quem? ― balbuciou tremendo de emoção. ― Pois bem, de...

― Acaba com isto imediatamente ― exigiu o conde, cravando em Diana os seus olhos coléricos, que foram para ela uma terrível ameaça.

Compreendeu claramente que o coração do marido estava a ser devorado pelos receios do passado e teve medo, teve medo, e, cambaleando, deixou-se cair numa cadeira. O conde ordenou de novo que levassem Henriqueta. Os polícias obedeceram. Quando Diana recuperou os sentidos ouviu o murmúrio provocado pelo populacho que comentava os acontecimentos. Quanto tempo tinha permanecido desfalecida? Porque era que o marido a tinha abandonado assim, deixando-a só e sem auxílio? Teria deixado escapar o nome de Luísa ao desmaiar? Cambaleando, desceu a escada até chegar à rua, onde os criados, ao verem-na, se aproximaram com a liteira.

Quando se instalava, ouviu uma voz dizer:

― Era uma ladra. Fazem muito bem em limpar a nossa rua de semelhante gentalha.

Ao ouvir isto, Diana sentiu o coração partir-se, pensando no enorme sofrimento daquela infeliz. No entanto, um raio de luz iluminou-lhe os olhos, porque sabia que a sua filha vivia e porque daí em diante faria todos os esforços para a encontrar.

O cavaleiro de Vaudrey não podia ocultar a impaciência ante a grande espera a que era obrigado, aguardando o regresso do subdirector da Polícia.

Picart, que estava disposto a lutar pelo seu jovem senhor e pela rapariga, observava o amo pelos cantos dos olhos.

Por fim a porta do gabinete abriu-se e o conde apareceu no umbral.

― Foi seu desejo que eu esperasse ― disse Rogério indo ao encontro de seu tio.

― Não foi um desejo, mas uma ordem ― replicou o magistrado friamente.

― Uma ordem? ― repetiu Rogério. ― Eu vim aqui, senhor conde, com o firme propósito de ter convosco uma última explicação.

O conde olhou-o de alto a baixo.

― Fiz-te esperar ― explicou ― para te ordenar pela última vez que te submetas à vontade de El-Rei, nosso senhor absoluto.

-Nunca aceitarei que disponham do meu coração― exclamou Rogério energicamente.

― Esqueces-te explicou o conde ― que, se quisesse, teria direito a dispor da tua vida.

― Pode fazê-lo se lhe agrada ― respondeu Rogério com veemência ―,  mas jamais me poderá obrigar a sacrificar o meu amor nem a cometer o que considero uma vilania.

― Não se dirá nunca que um Vaudrey perdeu a cabeça por uma ladra. Tens direito a estar louco, mas eu também tenho o direito de velar pelo teu futuro, e a este respeito fiz tudo quanto era necessário. Essa mulher está no Saladero.

Rogério esboçou o gesto de se lançar a seu tio, sem poder conter-se e sem poder articular palavra, porque as idéias embrulhavam-se-lhe no cérebro.

A partir daquele momento a conversa foi tão violenta que ambos chegaram a perder a calma.

― No Saladero! ― rugiu o cavaleiro de Vaudrey. ― Eu tirá-la-ei desse infame lugar, salvá-la-ei a despeito de todos, inclusivamente do próprio rei.

― Insensato! ― gritou o senhor de Linières.

Mas Rogério já não ouviu aquela palavra, pois tinha saído precipitadamente do gabinete do tio.

Picart ficou estupefacto ao ver a agitação do seu amo.

Naquele momento soaram toques precipitados e violentos de campainhas e pela porta que comunicava com a sala reservada aos agentes de serviço apareceram um oficial e dois ajudantes, que se colocaram estrategicamente para que o cavaleiro de Vaudrey não pudesse fugir.

O oficial avançou de chapéu na mão e, mostrando uma ordem do rei, procedeu respeitosamente à prisão de Rogério, em nome do soberano, para o levar à Bastilha.

Rogério dirigiu um olhar de desprezo para a porta do gabinete do senhor de Linières. Recompôs-se e disse com dignidade:

― Já o sigo, senhor oficial; mas antes permita-me que dê algumas ordens ao meu criado de quarto.

Em poucas palavras, Rogério pôs Picart ao corrente do que se passava, comunicando-lhe a prisão de Henriqueta, e pediu-lhe que a ajudasse, sem se preocupar com ele e foi-lhe dizendo que o seu amor por ela o levava aos calabouços da Bastilha.

― Podeis confiar cegamente em mim-assegurou Picart emocionado.

No reinado de Luís XIII havia-se construído um edifício que foi baptizado com o nome de Saladero e que inicialmente se destinara a servir de hospital para cuidar das mulheres afectadas de enfermidades incuráveis.

Mais tarde a polícia tinha-se apoderado do edifício e naquela época ele servia de prisão de mulheres.

Ali fora encarcerada Mariana, que aceitou o castigo resignada, pensando assim redimir-se do seu erro. E parecia tão sincero o seu arrependimento, que as irmãs de caridade, e especialmente a Superiora, Madre Genoveva, a distinguiam com atenções. Sabiam a verdade sobre a sua vida e isto fazia com que as freiras tentassem ajudar Mariana.

Naquela prisão-hospital prestava serviços o mesmo médico que um dia se compadecera da vítima da Frochard. O mesmo médico que, como sabemos, cuidava também da família Linières, e que Deus quis que cuidasse da saúde de Mariana.

― Esta jovem ― disse o doutor à Madre Genoveva ― merece melhor sorte.

― Deus seja louvado! ― exclamou a freira. ― Estou decidida a fazer o que puder para lhe obter a comutação da Pena.

― E eu ― disse o doutor-hei-de mover algumas poderosas influências para que os seus desejos se tornem realidade.

E assim foi, porque quando Mariana menos o esperava a Madre Genoveva mandou-a chamar para lhe dizer alegremente:

― Venha, minha filha, venha! Aqui tem o nosso bom Doutor. Quero que saiba o que ele fez em seu favor.

― Em meu favor? ― balbuciou Mariana.

― Sim, em seu favor; mas deve agradecer é à Madre Genoveva, visto que foi ela quem pensou em pedir graças Para a sua culpa.

Ao dizer estas palavras, o doutor tirou do bolso um documento selado, que entregou ostensivamente à Superiora de maneira que todas pudessem vê-lo.

Mariana ajoelhou-se diante da Madre Genoveva, enquanto as prisioneiras se aproximavam formando roda.

― O perdão! ― diziam umas às outras.

Naquele momento ouviu-se um grande rumor que partia da enfermaria. Dilacerantes gritos femininos sucediam-se sem interrupção.

― É a rapariga que trouxeram ontem à tarde-asseverou tristemente a Madre Genoveva. ― A que o senhor mesmo atendeu, doutor.

O médico deu um passo em direcção à enfermaria, mas, de repente, apareceu a rapariga correndo desesperadamente, apesar dos esforços que as enfermeiras faziam para a sujeitar.

As reclusas ficaram atónitas ante aquele espectáculo, mas uma delas lançou um grito dilacerante:

― Henriqueta!

Fora Mariana, que tinha reconhecido a sua amiga e que não podia explicar a si mesma a presença dela em semelhante lugar.

― Quero sair! Quero sair! ― gritava a jovem desesperadamente.

Levou as mãos à cabeça e um instante depois refugiava-se junto da Madre Genoveva.

Mariana não se enganara. Era, efectivamente, Henriqueta, que por ordem do conde de Linières fora levada para o Saladero. Henriqueta tivera de ser mudada para a enfermaria, devido à sua espantosa excitação.

O doutor receitara-lhe calmantes e recomendara que não a deixassem só.

A Madre Genoveva tentou acalmar a jovem.

― Minha filha-disse ―,  está doente. Fez mal em sair da enfermaria.

― Asseguro-lhe que já estou boa ― suplicou Henriqueta.

― Afirmo-lhe. Deixe-me sair deste hospital.

― Isso não depende de mim ― replicou o médico. ― Para dar essa ordem há uma vontade superior à minha, porque fique sabendo, querida menina, que isto não é apenas um hospital. É também uma prisão.

Perdendo a energia, Henriqueta deixou-se cair num banco e chorou. E foi então que na sua mente apareceram com toda a nitidez os acontecimentos desenrolados no dia anterior em sua casa.

Ante aquela dor tão sincera, a Madre Genoveva e o médico sentiram-se comovidos e o homem de ciência expressou o seu pensamento.

― Esta é uma cura que só você ― dirigia-se a Madre Genoveva― pode levar a cabo.

― Vi muitas condenadas-comentou então a Superiora ―,  mas esta...

Mariana ergueu corajosamente a cabeça.

― Condenada não, madre. Afirmo! Juro!

― Conhece-a? ― perguntou a Madre Genoveva.

― Sim, conheço-a, e a ela devo o meu arrependimento. Ela foi o anjo que a Providência me enviou para que se cruzasse no meu caminho. Esta jovem é uma santa. ― E as lágrimas brotaram dos olhos de Mariana.

A Madre Genoveva juntou as mãos em cruz sobre o peito.

― E é aqui que vocês se encontram!

― Sem a menor dúvida, é vítima dum equívoco. Nenhum pensamento menos nobre pode ter feito empalidecer a pureza da sua alma.

Henriqueta, desorientada como estava, não ouvira aquela conversa.

Mariana teve de se aproximar dela para ser reconhecida. As duas amigas abraçaram-se.

― Estou inocente! ― exclamou Henriqueta. ― Ponho Deus como testemunha!

― Por que motivo e por ordem de quem foste conduzida aqui? ― perguntou Mariana, inquieta.

― Por ordem do senhor conde de Linières ― respondeu a voz de um homem que se apresentou diante delas.

― Quem é você? ― perguntou a Superiora, atónita, por um estranho se ter atrevido a introduzir-se naquele lugar.

O interpelado tomou um ar importante e disse, simplesmente:

― Sou o primeiro criado de quarto de Sua Excelência o subdirector da Polícia.

Henriqueta reconheceu-o e estranhou aquelas palavras, porque aquele homem era Picart e sabia que ele era criado do cavaleiro de Vaudrey. No entanto, nós sabemos que o estranho criado tinha encontrado maneira de servir dois amos e ganhar a confiança de ambos. E Picart, a partir do momento em que Rogério fora conduzido para a Bastilha, estabelecera um plano que lhe permitiria favorecer os interesses do seu jovem amo.

Por isso, apresentou-se ao conde de Linières e entre o irado senhor e o criado hipócrita travou-se um diálogo pelo qual Picart tomou conhecimento de certos pormenores que ele considerava imprescindíveis para poder agir como projectara. Assim, soube que o conde ordenara a partida de Henriqueta na próxima expedição que devia sair de Paris dentro de poucos dias, para a Luisiana, e, entretanto, Rogério permaneceria na Bastilha, onde disporia duma cela melhor que as outras, como o conde recomendara ao governador da fortaleza.

Picart saiu muito contente do escritório do senhor de Linières e dirigiu-se ao seu quarto para examinar atentamente o plano de evasão que planeara e que permitiria ao cavaleiro de Vaudrey recuperar a liberdade com a antecipação suficiente para poder, por sua vez, libertar Henriqueta.

E como pensou que o mais urgente era tranquilizar Henriqueta, apresentou-se no dia seguinte no Saladero como portador duma ordem do próprio conde de Linières, a fim de poder falar com a jovem.

Chamou-se a si próprio primeiro criado de quarto do subdirector-geral da Polícia e foi assim que as portas daquela prisão lhe foram abertas.

A irmã Genoveva olhou o recém-chegado com curiosidade.

― E é por ordem do seu senhor, do senhor subdirector da Polícia, que esta jovem se encontra aqui?

Picart inclinou-se e disse:

― Oh! As altas esferas sociais impõem muitas vezes cruéis determinações, que quase sempre têm por fim evitar que um jovem duma casa nobre jogue a sua honra por um simples amor com uma operária, muito digna e honesta, certamente, mas que...

A Madre Genoveva interrompeu-o com um sinal. compreendera porque tinha sido presa Henriqueta.

― Porque não diz também, já que assistiu à cena, que eu recusei ser esposa do cavaleiro de Vaudrey? ― interveio Henriqueta.

Estas palavras foram a reabilitação da jovem.

― E atiraram-na para aqui ― exclamou a Madre Genoveva― como se fosse uma ladra.

― Que lhe dizia eu? ― exclamou Mariana, aproximando-se da freira.

O momento era favorável para que Picart pedisse para falar a sós com a noiva de Rogério, e, assim, alegando ter de lhe transmitir uma ordem do senhor subdirector da Polícia, pediu licença à Madre Genoveva.

― Pode fazê-lo-respondeu a religiosa.

De seguida, Henriqueta encontrava-se a sós com Picart.

― Antes de mais nada ― explicou o enigmático criado quero que saiba que estou a atraiçoar o senhor subdirector da Polícia, abusando da confiança que ele tem em mim. Mas de quem eu gosto, e a quem realmente sirvo, é ao senhor cavaleiro de Vaudrey, que teve a coragem de se revoltar contra o tio, que lhe fez pagar bem cara a ousadia. O senhor cavaleiro, não lhe quero ocultar a verdade, está na Bastilha; mas, no momento de ser preso, recebi instruções dele e por isso estou aqui. Quero que saiba que sofrerá toda a classe de perseguições antes de renunciar ao seu amor. E se acontecer que decidam a sua partida para a Luisiana, nós seremos informados com tempo desta determinação e poderemos agir de modo a impedi-lo.

Henriqueta dificilmente pôde sufocar um grito ao ouvir nomear Luisiana. Sabia que aquilo significava desterro e talvez a morte.

Picart disse então que era preciso ter confiança e que os seus planos para libertar Rogério da Bastilha não podiam falhar.

― Pobre Luísa!

― Não se lamente, menina. Eu também faço parte da polícia e hei-de pôr a minha sagacidade ao seu serviço.

Naquele momento Henriqueta notou que alguns polícias se encontravam no portão do pátio.

Picart reconheceu Marest, o agente de confiança do senhor de Linières.

A Madre Genoveva permitiu-lhes a entrada e falou durante uns momentos com o chefe. Depois dirigiu-se tristemente para a enfermaria.

― Ah, doutor! Vêm buscar mais algumas destas infelizes.

Marest, uns momentos depois, dizia à Madre Genoveva:

― Senhora Superiora, tenho aqui a ordem e a lista das prisioneiras.

A freira pegou, tremendo, no documento, e, depois de passar por ele os olhos, escapou-se-lhe um grito dos lábios. Todos correram para ela. Henriqueta perguntou aterrorizada:

― Por que me olha dessa maneira? Estou condenada? Picart perguntou em voz baixa à Superiora:

― É certo que?...

A Madre Genoveva não respondeu, mas, desdobrando a folha diante dos olhos do criado, indicou-lhe um dos nomes escritos na lista.

Henriqueta, que vira tudo, teve uma vertigem e, cambaleando, foi cair nos braços de Mariana.

A Superiora tinha de fazer grandes esforços para não chorar ante aquela enorme injustiça.

De repente, Picart levantou energicamente a cabeça e, furioso com o subdirector da Polícia, causador de todo aquele dano, começou a andar, gesticulando e batendo fortemente com os tacões no chão.

Enfurecido, alcançou a porta e saiu.


XI

O velho criado do senhor de Vaudrey, impotente para prestar auxílio imediato à infeliz Henriqueta, pensou que era preciso libertar Rogério a todo o custo, visto que dentro de cinco dias a jovem já estaria a bordo do navio que devia transportá-la para o desterro. Estes cinco dias eram o tempo que demoraria o carro para transportar as mulheres condenadas desde Paris até ao porto de embarque.

Picart dirigiu-se à Bastilha sem nenhum plano concreto, mas o acaso veio em seu auxílio no momento em que menos esperava.

Era a hora do render da guarda e uma companhia ia substituir a outra que fizera as suas vinte e quatro horas de serviço.

Muitos ociosos do bairro de Santo António presenciavam aquele espectáculo militar e reuniam-se para verem os soldados passar sobre a ponte levadiça.

Picart, devorado pela impaciência, olhava para todos os lados. De repente o seu rosto iluminou-se.

Rumignac, um carcereiro que ele conhecia, tinha entreaberto o pesado portão forrado de chapas de ferro e cheio de ferrolhos que constituía um dos postigos à direita da fortaleza.

O servidor de Rogério dirigiu-se instintivamente para ele.

― Olha! ― exclamou Picart com calma. ― Você é um afortunado por poder chegar aqui para respirar um pouco do ar da rua, porque os que estão aí dentro...

― Mal estão ― asseverou o carcereiro ―,  à excepção do número 215. Esse sim, está como no seu palácio.

― E quem é esse 215?

O carcereiro, tirando ironicamente o gorro que tinha na cabeça, e inclinando-se, replicou:

― O número 215 é o nome por que é conhecido actualmente o senhor cavaleiro de Vaudrey.

― Pouco incómodo dará ― disse Picard, esforçando-se por manter a calma.

― Se não fosse ele não querer comer, estaríamos tranquilos. Mas esse homem parece que não quer nada com os manjares, apesar de que eu próprio lhe servi hoje comida de primeira.

E Rumignac, fechando a porta de ferro, indicou: ― Vou num instante a minha casa, porque ao anoitecer tenho de voltar ao serviço.

― Que pena ― pareceu lamentar-se o criado ―,  porque lhe ia propor que fôssemos beber uns copos.

― Mas não na pousada ― respondeu o carcereiro-; isso podia comprometer-nos.

― E pode dizê-lo ― asseverou Picart. ― Não só pela sua condição de empregado do Governo, mas também pela minha de primeiro criado de quarto e servidor de confiança do poderosíssimo subdirector da Polícia.

Aquelas palavras produziram o efeito que o criado esperava. Rumignac, visivelmente admirado, replicou:

― Nesse caso atrevo-me a rogar-lhe que se digne aceitar a hospitalidade de um homem humilde, mas honrado.

― Com mil agradecimentos-: exclamou Picart satisfeito. Os dois homens atravessaram a porta do cinturão de defesa que rodeava a Bastilha e seguiram pela Rua de Santo António até chegar diante duma casita, cuja porta o carcereiro abriu. A senhora Rumignac recebeu afàvelmente o convidado e uns instantes depois os dois homens encontravam-se sentados frente a frente, despejando um jarro de vinho. A conversa depressa se animou e o carcereiro ia respondendo às hábeis perguntas de Picart, que deste modo ia tomando conhecimento de alguns pormenores bastante interessantes. Mas o mais curioso foi quando o carcereiro contou como se evadira duma fortaleza inglesa, e fê-lo tão detalhadamente que Picart viu assim notavelmente aumentados os seus conhecimentos.

No fim da narrativa brindaram de novo, ocasião que Picart aproveitou para voltar a falar do prisioneiro.

― É pena que o nobre se recuse a comer-exclamou o criado ―,  porque um bom pastel de codorniz regado com este vinho creio que não lhe cairia mal.

― Ah! Um pastel de codorniz!

― Sim, foi isso que eu disse. Conheço os seus gostos, porque, como não deve ignorar, o cavaleiro de Vaudrey é sobrinho do subdirector-geral da Polícia, meu amo, a quem presto os meus serviços há quase trinta anos.

― Você crê que ele comeria isso?

― Tenho a certeza ― respondeu Picart ―,  mas tem de ser feito duma maneira especial que eu conheço perfeitamente. ― O criado atacou a fundo: ― Se me deixasse trazer-lhe essa comida, creio que você, amigo Rumignac, ganharia o favor e inclusivamente a protecção do senhor subdirector da Polícia. ― Deu-lhe umas pancadinhas no ombro e continuou: ― Eu posso fazer de embaixador em seu favor, meu amigo.

Rumignac não viu nenhuma malícia no caso e os dois homens combinaram ver-se de novo às oito e meia.

Picart saiu mais do que contente de casa do carcereiro e com o cérebro como um vulcão pôs-se a examinar detidamente o plano de evasão que tinha imaginado.

Ao chegar ao palácio do conde, tirou seis garrafas da prateleira dum armário, pensando que à vista daqueles elementos o coração de Rumignac se abrandaria completamente.

Depois pensou que era preciso escrever uma carta, que o próprio carcereiro entregaria a Rogério sem sequer o imaginar.

Picart traçou as seguintes linhas:

Senhor cavaleiro:
Não se deve deixar abater pelo desespero. Aproxima-se a hora da libertação. Ao cair da tarde do próximo domingo, acompanharei até à sua cela o carcereiro encarregado de o guardar e ele deve ficar encerrado no seu lugar. Depois, quando estiver em liberdade, encontraremos um meio de libertar a menina Henriqueta.

Picart fechou cuidadosamente esta carta, pô-la no bolso e foi à pastelaria mais próxima, onde o criado era seu conhecido.

Com a desculpa de que tinha de dar um presente de casamento, pediu que lhe confeccionassem rapidamente um pastel especial, no interior do qual era preciso colocar um papel de felicitações para os noivos.

À hora combinada, Picart apresentou-se em casa do seu amigo, o carcereiro, com o famoso pastel e várias garrafas de bom vinho.

Os dois amigos beberam com gosto, e, chegada a hora de se dirigirem à Bastilha, Picart entregou o pastel ao carcereiro.

O engenhoso servo dissera a Rumignac, com o fim de afastar qualquer suspeita, que o cavaleiro não sentia por ele senão um pouco de simpatia e que, portanto, não era conveniente dizer-lhe que era ele quem enviava o pastel, mas sim uma sobrinha sua, irmã de leite do prisioneiro, chamada Henriqueta Gerard.

Rumignac esboçou um sorriso irónico e disse:

― Entendido, Sr. Picart. vou agora mesmo apresentar-me ao prisioneiro. E depois lhe conto o que lhe pareceu o pastel.

O velho criado afastou-se com o coração cheio de alegria, porque estava certo de que Rogério leria forçosamente a carta que escrevera.

Também Rumignac estava contentíssimo por ter encontrado aquele criado de quem o seu poderoso amo tanto gostava.

Uma hora mais tarde, o carcereiro abria a cela ocupada pelo cavaleiro de Vaudrey.

― Quer o senhor cavaleiro fazer o favor de me receber?

― perguntou Rumignac a meia voz.

O prisioneiro levantou a cabeça um pouco surpreendido Por aquele homem lhe falar com tanto respeito.

― Eu sei ― disse o carcereiro ― que não é muito agradável a vida na prisão. Por isso me atrevo...

― E quem lhe mandou que se ocupasse de mim? ― interrompeu Rogério. ― Estou decidido a viver como todos os outros prisioneiros.

― Perdoe-me, senhor ― disse Rumignac, confuso ―,  mas eu prometi que vos entregaria este pastel às escondidas. O senhor achá-lo-á excelente.

― E a mim que me importa?

― Que dirá a pobre rapariga?

― A que rapariga é que se refere?

― À menina Henriqueta.

Rogério levantou vivamente a cabeça.

― Disse Henriqueta?

― Sim, senhor cavaleiro, Henriqueta Gerard. Se não me engano, é aquela menina que é sobrinha do senhor Picart e que também é irmã de leite do senhor cavaleiro...

Rogério começou a compreender a astúcia empregada pelo seu fiel criado e presumiu que algum mistério se encerrava no pastel.

― De modo que é a minha irmã de leite quem me envia esta guloseima? ― exclamou o jovem, sem poder esconder a sua alegria.

― E também a mesma que lhe suplica que o coma por amor a ela. Não se deixa comover, senhor cavaleiro?

― Sim, meu bom amigo, a sua eloquência comoveu-me. Aceito o pastel e prometo comê-lo. Como se chama?

― Rumignac, para o servir ― respondeu este, que depois duma leve inclinação de cabeça desapareceu.

Quando o cavaleiro se encontrou só, pegou no pastel, e, certo de que no seu interior existia um bilhete, levantou rapidamente a parte superior.

Rogério não se tinha enganado. Dentro em pouco lia aquela carta, que o encheu de alegria.

Mas enquanto o cavaleiro de Vaudrey deixava a sua fantasia vaguear em torno de Henriqueta, esta, no Saladero, sofria a mais dura prova que lhe poderiam ter imposto.

Quando a infeliz desmaiou, todas as pessoas que estavam perto a rodearam tentando socorrê-la.

O doutor prodigalizava-lhe os seus cuidados, enquanto Mariana, profundamente comovida, não conseguia dominar a dor.

Dentro em pouco, Henriqueta moveu os lábios como que para falar. Mariana pôs-se de joelhos diante dela.

A desgraçada jovem foi recuperando pouco a pouco a força suficiente para levantar a cabeça.

Voltou os olhos para Mariana e disse num tom cheio de resignação:

― Não é a minha desgraça que me faz desesperar. Nem o meu desterro que me aflige.

Ante os olhares de assombro dos que ali estavam reunidos, Mariana julgou ser seu dever intervir.

― Tem uma irmã de quem era o único amparo! Sim, uma cega! ― informou.

Henriqueta sobressaltou-se ao recordar com terror a cena passada entre ela e o subdirector da Polícia, quando este a deteve sob o pretexto de que era uma ladra.

A jovem pôs-se de pé e, dirigindo-se ao médico, disse:

― Senhor, tinha-a encontrado. No momento em que me prenderam ouvi a sua voz. Cheguei a vê-la coberta de andrajos e exausta, obrigada a cantar e a solicitar a caridade pública. E impediram-me de correr para ela! Agora nunca mais a verei!

― Um momento, minha filha ― disse o médico. ― Parece-me que já encontrei a jovem de quem fala. Não é verdade que tem uns belos cabelos loiros e os olhos azuis?

Henriqueta assentiu com a cabeça, porque os soluços não a deixavam articular palavra.

― E a velha que a acompanhava ― continuou o doutor ― chamou-lhe Luísa.

Henriqueta, apoiando febrilmente as mãos no braço do doutor, exclamou:

― Sim, sim! É ela! É a minha irmã!

― E também conheço a mulher que a conduzia ― asseverou o médico. ― Foi muitas vezes ao meu hospital.

E, com um tom de repugnância, acrescentou:

― É uma vagabunda chamada Frochard!

Mariana sentiu que um calafrio lhe percorria o corpo. Levantou rapidamente a cabeça e declarou:

― A velha Frochard! Também a conheço. Depois, dirigindo-se a Henriqueta, acrescentou:

― É a mãe do... de Jacobo.

― Então ― afirmou o médico ―,  a sua irmã está em casa da Frochard. É um cubículo na Rua de Lourcine, na ribeira Biebre.

Mariana confirmou as palavras do doutor. Henriqueta escutara cheia de atenção.

― Então encontrarei a minha Luísa! Poderei fazê-lo em breve.

Mas interrompeu-se, lançando um grito de angústia.

― Meu Deus! ― gemeu retorcendo as mãos. ― Tenho de partir! Obrigam-me a ir embora!

― Não! ― exclamou Mariana com voz segura. ― Não será preciso que te vás embora.

― Esqueces que fui condenada?

O doutor escutava atónito aquela conversa.

O ruído de um coche fez Mariana voltar a cabeça, assim como ao doutor. Um veículo arrastado por robustos cavalos detivera-se diante da porta de entrada.

― Vejam este carro! ― disse Henriqueta com voz trémula. ― Nele me levarão! Luísa, minha pobre Luísa!

Mariana aproximou-se do médico e disse-lhe ao ouvido:

― Tenha piedade dela!

O médico olhou Mariana espantado.

― E que posso eu fazer, pobre de mim? Você falou antes em impedir de a levarem! Mas isso é impossível! Impossível! Que posso eu fazer?

― Consentir em ajudá-la.

― Mas, por que meios?

A jovem fez um gesto significativo ao seu interlocutor para lhe impor silêncio. A patrulha de polícia entrara no edifício e Marest, como chefe das forças, consultava os registos e assinava ao lado de cada um dos nomes que faziam parte da lista.

Entre as prisioneiras reinava um lúgubre silêncio.

A Madre Genoveva reunira-se ao agente da polícia, que lhe perguntou:

― Estão presentes todas as reclusas que tenho de levar? ― A Superiora olhou em redor.

― Permita-me-disse Marest ― que ponha em fila as prisioneiras que me devem seguir.

A Madre Genoveva não conseguia afastar o olhar daquelas infelizes que se lamentavam e rezavam em voz baixa. Os seus olhos haviam-se cravado em Henriqueta, que, sentada num banco com Mariana e com o doutor, tremia e parecia que ia cair de novo em delírio.

Mariana estava intensamente pálida e com os olhos cravados no infinito.

Que sentia a jovem no coração naquele momento? Que luta se dava no seu interior? A desventurada que obtivera o perdão parecia presa da mais terrível das angustias. Um pensamento sublime brotara da mente da ladra arrependida, da antiga vítima de Jacobo Frochard. Mariana dissera à sua amiga que não era preciso ela partir? Pensaria no meio de impedir que Henriqueta fosse arrastada pelo seu destino?

Os minutos sucediam-se velozmente. Mais uns momentos e tudo estaria terminado. E, naquele minuto, Mariana procurou no rosto desesperado de Henriqueta a coragem necessária para cumprir o que o coração lhe ordenava. Um minuto no qual recordou que devia a reabilitação àquela pobre criatura, submetida a tão ― dura prova.

As reclusas que partiam tinham-se posto em fila. Marest contou-as e disse:

― Segundo a lista que tenho falta uma prisioneira: Henriqueta Gerard!

Uma jovem levantou-se, colocando-se diante do polícia.

― Sou eu!

A Madre Genoveva sobressaltou-se. Quem respondera fora Mariana.

Henriqueta afogou um grito e quis protestar contra o acto de sublime abnegação de que ela não se queria aproveitar, mas o médico reteve-a por um braço, murmurando-lhe ao ouvido:

― Não se mova! Não se perca imprudentemente!

Mariana, temendo que a amiga cometesse uma imprudência, pediu licença a Marest para dar um último adeus aos que ficavam.

Henriqueta, que se recusava a aceitar o sacrifício de Mariana, foi ao seu encontro para lhe dizer:

― O que tu pretendes é impossível. Não o posso consentir!

― Não é a ti quem salvo ― replicou Mariana com voz calma ―,  é a mim própria, porque se fico em França, à saída desta casa voltarei a encontrar-me com Jacobo e então perder-me-ia sem remissão. Tu, pelo contrário, voltarás a ver a tua irmã e salvar-vos-eis as duas.

O nome de Luísa, pronunciado naquele momento, produziu o efeito que Mariana esperava.

― Toma isto-disse, aproveitando-se da emoção de henriqueta.

E colocou-lhe nas mãos o decreto do perdão que o doutor lhe dera pouco antes.

― É a ordem de liberdade para ti ― continuou Mariana ― e a salvação de Luísa.

As duas jovens abraçaram-se efusivamente com lágrimas nos olhos.

A Madre Genoveva dirigiu-se para as reclusas que estavam quase a partir, faltando apenas cumprir uma formalidade.

A Superiora devia confrontar a lista que Marest levava, para confirmar que as prisioneiras designadas para o desterro eram as que se encontravam presentes.

"Tudo está perdido, pensou o doutor olhando as duas jovens.

A Superiora colocou-se ao lado do agente, que começou a fazer a chamada.

― Yvone Meraut! Gisèle Deaume!

A freira ia assentindo.

― Henriqueta Gerard!

Sem vacilar um momento, Mariana avançou um passo e, levantando os olhos suplicantes para a Superiora, respondeu com voz trémula:

― Aqui estou, minha madre!

A Madre Genoveva queria protestar, mas naquele momento o doutor levantou-se e, mostrando-lhe Henriqueta, implorou com os olhos.

A freira, perturbada e comovida, dirigiu por sua vez os olhos para Mariana, que com a angustia reflectida no rosto esperava o veredicto que se pronunciaria.

Marest esperava impaciente pela resposta.

― Abençoe-me, madre, já que a minha partida purifica um erro ― exclamou Mariana num último esforço. E juntou:

― E salve uma inocente.

A santa mulher, que jamais tinha faltado à verdade, elevou os olhos para o céu e, estendendo as mãos para a testa de Mariana, disse:

― Sim, esta é Henriqueta Gerard!

Um duplo grito se escapou do peito das duas reclusas, uma das quais tomava o lugar da outra para ir desterrada.

Pouco depois abria-se a porta da cela e as deportadas saíram duas a duas.

A Madre Genoveva olhou então para o médico, que segurava Henriqueta, e. com os olhos inundados de lágrimas exclamou:

― Esta foi a minha primeira mentira!

― Deus terá em conta a mais sublime das obras de caridade. Salvou uma inocente. Agora cabe-me a mim salvar uma pobre vítima. Espero que o céu também me ajudará nessa obra.


XII

MAREST deslocou-se ao gabinete de trabalho do subdirector da Polícia para dizer ao senhor conde que as suas ordens tinham sido cumpridas. À saída encontrou-se com Picart.

― Boas notícias ― perguntou o velho criado aparentando indiferença. ― Suponho que o meu amo deve estar menos irritado, porque tem agora motivos para estar satisfeito.

― Efectivamente, desembaraçámo-lo de uma pessoa que era um tormento para ele, uma rapariga que hoje foi colocada no carro das mulheres que vão desterradas para a Luisiana.

― Uma rapariga ― comentou Picart.

― Sim, uma tal Henriqueta Gerard.

Picart não quis saber mais nada, e, deixando Marest na antecâmara, saiu com a intenção de se encontrar com o conde de Linières.

O criado pensava no pretexto que arranjaria para se introduzir no gabinete do magistrado, quando este apareceu.

― Tu aqui? ― perguntou.

― Prevendo que Vossa Senhoria tivesse necessidade dos meus serviços, aguardo.

O senhor de Linières ficou uns momentos pensativo e depois ordenou ao criado que o seguisse.

― Recebi informações desfavoráveis a respeito do cavaleiro de Vaudrey. Abandona-se à dor de tal maneira que inclusivamente se recusa a comer. Esta atitude não me agrada. Tu que foste seu criado talvez possas fazer alguma coisa por ele.

― Não me posso permitir dar conselhos ao meu senhor.― Eu dou-te licença.

O velho criado parecia estar impaciente.

― Se Vossa Senhoria escrevesse... ― balbuciou.

― Eu escrever ao cavaleiro? Rebaixar-me dessa maneira" Seria indigno!

― Perdoe-me, senhor conde, mas eu não penso assim! Deste modo Vossa Senhoria dar-lhe-ia a última prova da sua grandeza de alma, apesar de em meu entender achar que o senhor cavaleiro merece estar encerrado; mas ― hesitou um momento ― talvez esta acção de Vossa Senhoria fosse muito bem vista pela senhora condessa, que se encontra doente. Essa carta teria para esse louco jovem uma eficácia definitiva.

O senhor de Linières não pôde evitar um ligeiro tremor nos lábios.

― De acordo ― disse ―,  escreverei essa carta. Tu próprio a entregarás, pois talvez possas acrescentar algumas coisas ao que eu disser para que o cavaleiro se decida a fazer tudo o que se lhe exige para sair da prisão.

Picart sentiu uma grande alegria, que dificilmente pôde dominar.

― Já te aviso quando chegar o momento próprio ― disse o conde. ― Tenho de reflectir sobre o que vou escrever.

O senhor de Linières despediu o criado com um gesto benévolo, ficando convencido de que Picart conseguia fazer entrar na razão o obstinado sobrinho. O criado fechou a porta atrás de si e suspirou profundamente. Agora mais do que nunca impunha-se a evasão de Rogério, mas o conde tinha de escrever aquela carta que ele levaria ao cavaleiro e que lhe permitiria introduzir-se na Bastilha.

A missiva tardava e Picart não sabia que resolução tomar.

Passaram algumas horas que ao criado pareceram intermináveis, mas por fim o senhor de Linières entregou-lhe a tão desejada carta.

― Tenho motivos para crer que as poderosas razões que faço constar nessa carta induzirão o meu sobrinho a capitular. Espero um bom resultado na missão que te confio.

Picart, eufórico, regressou ao seu quarto.

Sem perda de tempo, dispôs todos os acessórios indispensáveis para a cena que se ia desenrolar pouco depois: uma caixa com tabaco, bocados de corda e uma mordaça.

A madrugada surpreendeu Picart planeando elementos para poder levar a efeito sem grande perigo a evasão do seu jovem amo.

Era domingo, o dia por que tanto tinha esperado, e tudo estava pronto.

Com a carta do conde na mão, saiu rapidamente; mas ao chegar defronte da fortaleza perturbou-se um pouco, pensando que ainda faltava um pormenor. O cavaleiro de Vaudrey não podia fugir da Bastilha sem a ajuda dum disfarce.

Fingindo uma forte dor de dentes, entrou numa farmácia e fez com que lhe ligassem completamente a cara.

Convencido de que estava irreconhecível, caminhou resolutamente para a fortaleza.

Mostrou a carta que levava à sentinela e deixaram-no passar; Rumignac reconheceu-o mais pela maneira de andar e pelo trajo negro do que pelo rosto.

― Tenho uma dor de dentes terrível ― disse o criado ― e se não fosse a importância da minha missão e para não desagradar ao meu poderoso senhor, talvez não tivesse vindo; mas o dever está acima de tudo. Fui encarregado de entregar esta carta ao seu prisioneiro. O senhor conde recomendou-me que a entregasse por mão própria a esse velhaco do sobrinho.

― Nesse caso terei de avisar Sua Excelência o governador― replicou o carcereiro.

Picart teve de esperar muito pouco, porque momentos depois Rumignac regressava para lhe dizer que podia passar. O carcereiro acompanhou-o.

― É esta a cela ― disse o carcereiro abrindo a porta.

― Que querem vocês? ― perguntou Rogério voltando ràPidamente a cabeça.

Picart fez um sinal que o cavaleiro captou imediatamente.

― Sua Excelência o governador ― explicou Rumignac dignou-se permitir que o criado do senhor subdirector-geral da Polícia viesse entregar em mão própria uma carta ao senhor cavaleiro...

Rumignac não pôde continuar a falar, porque Picart, como um relâmpago, atirou um punhado de tabaco aos olhos do carcereiro, que caiu nos braços de Rogério.

Picart aproveitou-se do momento em que a sua vítima abria a boca, para lhe colocar a mordaça entre os dentes.

O carcereiro debatia-se enêrgicamente contra os agressores. No entanto, nada pôde fazer e teve de entregar-se à sua sorte. Em poucos instantes viu-se despojado do uniforme das chaves e atado fortemente à cama, sem se poder mover e impossibilitado de articular uma só palavra.

Picart, por seu turno, despiu o fato, que entregou a Rogério, a quem também colocou a ligadura na cara, enquanto ele se vestiu pressuroso com a roupa de Rumignac, transformando-se assim em carcereiro.

Nada tinha sido feito ao acaso e até àquele momento tudo corria bem.

Picart aproximou-se da janelita e perscrutou detidamente o exterior. O pátio estava deserto. Então procurou entre o molho de chaves a que Rumignac, forçada e dificilmente, lhe indicou e abriu a porta da cela.

Picart olhou para fora e escutou. Os dois fugitivos aventuraram-se no corredor, atingindo o andar inferior sem ter encontrado ninguém. Ali ouviram rumor de vozes que vinham do corpo da guarda. Eram os soldados que, na ausência dos oficiais, jogavam aos dados. A sentinela observava como os seus companheiros jogavam.

Rogério e Picart continuaram a caminhar até chegarem a uma espécie de vestíbulo onde deviam estar os guardas de serviço; mas como aos domingos a ordem era menos observada e a maior parte deles estava junto da porta da igreja para ouvir missa, os fugitivos puderam seguir o seu caminho.

Já só faltava atravessar o pátio grande e avançar rapidamente em linha recta para atingir a saída.

Picart olhou para todos os lados, virou ligeiramente para a esquerda e disse:

― Avante! Não há vivalma.

O criado procurou a chave da porta no molho que levava! mas, quando ia a introduzi-la na fechadura, os guardas, que até então tinham estado junto da igreja, voltavam ao?s seus postos.

Um deles, destacando-se dos demais, dirigiu-se para a porta.

Rogério e o criado sobressaltaram-se.

― Estamos perdidos ― murmurou Picart. ― Abre, aconteça o que acontecer!

Mas naquele momento o guarda gritou:

― Eh, Escuta, Rumignac!

― Fuja! ― disse Picart. ― Rogo-lhe em nome da menina Henriqueta!

O cavaleiro atravessou rapidamente o portal, enquanto Picart se voltava para responder ao que o chamara; mas com o maior dos espantos viu que este, parado no meio do pátio, lhe dizia:

― Se tens alguma coisa para fazer não te preocupes, Rumignac. Ver-nos-emos mais tarde.

Picart fez um gesto de assentimento e com uma serenidade pasmosa saiu para o exterior, fechando a pesada porta com duas voltas à chave.

― Estamos livres! ― disse o criado reunindo-se ao cavaleiro.

Rogério agarrou num braço do criado e tentou acelerar o passo, mas este fez-lhe ver que seria uma imprudência deitar a correr nas circunstâncias em que se encontravam.

Era preciso não chamar a atenção, porque talvez naquele momento já tivesse sido descoberta a evasão.

Procurando mostrar a maior calma possível, os dois fugitivos dirigiram-se ao cais de Tournelle com a esperança de encontrarem alguma carruagem.

Picart estava agitadíssimo, porque, agora que tinha proporcionado a evasão ao amo, não sabia como lhe dizer que Henriqueta estava prestes a embarcar num navio de deportadas. Por outro lado, a situação de ambos não era, digamos, muito cómoda.

Ao cabo de dez minutos, o cavaleiro de Vaudrey e o criado fizeram deter um veículo, que tomou a direcção do hotel onde habitava o primeiro.

Rogério fazia pressão para que Picart respondesse às suas perguntas.

Este não sabia como explicar-lhe a desgraça acontecida a Henriqueta, mas por fim narrou tudo o que sabia e expôs a continuação do plano que imaginara para resgatar a jovem. Rogério ficou desorientado ao pensar que pouca coisa podiam fazer contra os agentes do preboste.

― Se escapámos da Bastilha ― explicou Picart com orgulho― também poderemos resgatar Henriqueta.

― Mas, não teremos de abandonar a França se nos conseguirmos reunir a ela? O único futuro que se nos oferece É o de proscritos!

O cavaleiro de Vaudrey dissera aquelas palavras com tristeza.

― Aceitaremos os dois esse futuro ― acrescentou Picart. ― Iremos com a sua noiva para o estrangeiro, onde poderão casar-se e ser felizes.

― E tu condenas-te a seguir-nos? ― exclamou o cavaleiro, com espanto.

― Estou completamente decidido a isso. Vão para onde forem, eu os acompanharei!

Rogério olhou com reconhecimento para o seu velho servidor. Ficou pensativo uns momentos e, decidido como estava a impedir a deportação de Henriqueta, aceitou o plano do criado. Estava resolvido a ligar para sempre a sua vida à da jovem.

― Mãos à obra, Picart ― disse entusiasmado.


XIII

CHEGADOS ao pequeno hotel de Rogério, vestiram-se os dois com agitação febril e depois o senhor de Vaudrey encarregou o seu criado de tratar dos cavalos com que pretendiam alcançar as deportadas.

O criado mandou limpar e selar os dois melhores cavalos que encontrou e os dois partiram a trote largo, bem fornecidos de armas e de dinheiro.

Rogério ia firmemente resolvido a libertar Henriqueta, custasse o que custasse. O coração transbordava-lhe de desespero ao pensar que ia encontrar a santa rapariga no meio daquelas criaturas que iam expiar as faltas cometidas.

Ao chegarem aos arrabaldes de Santo Honorato, lançaram-se a todo o galope, continuando assim até às primeiras aldeias, onde pediram notícias.

Numa pousada asseguraram-lhes que não tinham visto passar o carro da polícia.

― A não ser que ― disse o informador ― tenham passado de noite e nesse caso devem estar bastante longe. Se é] assim, devem seguir em linha recta até Nantes, porque ali têm de se deter forçosamente para dar descanso aos cavalos. Os dois cavaleiros continuaram o caminho.

Picart estava visivelmente preocupado ao ver que lheS faltava um pormenor muito importante: saber exactamente a que horas as deportadas haviam saído do Saladero.

Em Nantes não conseguiram ser informados, nem tão-pouco em Evreux, onde tiveram de se deter para alugar novos cavalos.

As etapas sucediam-se sem saberem notícias das presas até que por fim chegaram aos arredores do Havre.

Rogério foi imediatamente informar-se e soube que um barco estava prestes a fazer-se ao largo com rumo ao México e à Luisiana.

― O capitão ― disseram-lhe ― espera apenas pela chegada de um grupo de prisioneiras, com destino à América.

O cavaleiro de Vaudrey pensou que as possibilidades de resgatar a sua amada diminuíam consideravelmente. Teria sido muito mais fácil tentá-lo no caminho do que naquele lugar tão concorrido. No entanto, não desanimou e, juntamente com Picart, alojou-se num hotel.

Picart perscrutava o horizonte da janela do seu quarto e prestava atenção a todos os ruídos. Durante a noite continuou a vigília, mas o cansaço da viagem pôde mais do que a vontade e por fim adormeceu profundamente.

No dia seguinte o criado sobressaltou-se, pensando que o sono o teria feito perder a possibilidade de encontrar a caravana das prisioneiras.

Saiu, precipitadamente, e ao saber que as deportadas ainda não tinham chegado pediu licença ao senhor de Vaudrey para ir ao seu encontro a cavalo.

Umas horas mais tarde, Picart sentiu o coração saltar dentro do peito. Diante duma pousada da estrada viu a carruagem das prisioneiras e os soldados da escolta. O sargento e alguns soldados encontravam-se no interior bebendo alguns copos de vinho.

Picart, com os olhos fora das órbitas, olhou para o veículo, procurando dentre as raparigas a que lhe interessava. Mas procurou inutilmente. Então, entrou na pousada e sentou-se junto do sargento, a fim de obter dele as informações necessárias.

― Acaso conhece algumas dessas "nobres" senhoras? ― perguntou-lhe este.

Picart sorriu maliciosamente e replicou:

― Efectivamente. Vai ali uma conhecida minha com quem desejaria falar por uns momentos. Chama-se Henriqueta Gerard. Vem na expedição?

O sargento consultou a lista e disse:

― Sim, é a número 12. Decididamente esta é uma rapariga Pela qual muito se preocupam. Inclusivamente, leva uma carta do subdirector-geral da Polícia recomendando-a ao comandante do barco.

― Está certo de que a menina Henriqueta Gerard se encontra entre as prisioneiras? ― perguntou o servidor de Rogério.

― Não creio que tenha podido evadir-se durante a viagem.

O sargento ordenou a um dos soldados: ― Traz-me a número 12.

Poucos momentos depois, apareciam duas mulheres acorrentadas pelos braços. Uma delas era Mariana.

― Ligam-nas duas a duas ― perguntou Picart sem notar que nenhuma das que chegavam era Henriqueta.

― A sua amiga é a mais linda ladra do lote ― disse ironicamente o sargento.

Picart, ao vê-las, pôs-se de pé num salto.

― Nenhuma destas duas é Henriqueta Gerard!

― Tem a certeza? ― perguntou o militar. ― Vejamos! O sargento gritou:

― Henriqueta Gerard, avance!

Mariana deu um passo, arrastando consigo a companheira.

― Aí tem a menina que procurava. Se tem alguma coisa a dizer-lhe, não faça cerimónia; eu deixo-os sós.

Picart olhou estupefacto para a rapariga, cujas feições lhe eram completamente desconhecidas.

― Que significa isto? ― perguntou aproximando-se da jovem.

A prisioneira obstinou-se em declarar que ela era Henriqueta.

O criado ficou espantado.

― É que eu conheço essa menina ― balbuciou Picart. Mas Mariana, que se recordava de ter visto aquele homem no Saladero, onde se apresentara como o criado de confiança do subdirector-geral da Polícia, reuniu toda a energia para continuar a representar o seu papel.

O sargento, entretanto, veio interrompê-los, o que evitou Maiores embaraços a Mariana.

― Já disse à sua amiga o que desejava?

O criado, aturdido como estava, não respondeu.

O militar ordenou que as prisioneiras se retirassem. Picart, sem saber de facto o que acontecia, só pensou em ir ter com o seu senhor.

― Chegou a carruagem das desterradas? ― perguntou Rogério quando o criado chegou.

― Sim, meu amo.

― Falaste com Henriqueta? Disseste-lhe que estou disposto a arriscar tudo para a libertar?

Picart permaneceu mudo, mas ante a insistência de Rogério não teve outro remédio senão contar o que se passara.

O cavaleiro de Vaudrey caiu num abismo de hesitações e conjecturas, mas, refazendo-se imediatamente, foi ao pavilhão do capitão do porto, o qual lhe confirmou a chegada da carruagem e lhe anunciou que a partida das desterradas seria à hora da maré favorável. Perguntou se lhe seria permitido ver as prisioneiras à hora do embarque. Como o capitão acedesse, Rogério retirou-se para o cais, onde Picart o esperava, e por ali vagabundearam aguardando a chegada das desterradas.

As primeiras não tardaram.

O sargento foi fazendo a chamada. Quando gritou o nome de Henriqueta, Rogério estremeceu e os olhos cravaram-se-lhe na mulher que respondera "Pronto!

― É preciso desvendar este mistério ― asseverou o cavaleiro de Vaudrey. ― Vou imediatamente pedir autorização ao capitão do porto para falar com ela.

Este, acedendo aos desejos do fidalgo, que se apresentou como enviado do subdirector da Polícia, pôs à sua disposição o barco do oficial do porto para que pudesse ir a bordo.

― Não é você ― disse o comandante a Rogério ― a única pessoa que se interessa por essa desgraçada. Sua Excelência o conde de Linières recomenda-me numa carta a deportada Henriqueta Gerard.

Momentos depois, Rogério encontrava-se frente a frente com Mariana.

A jovem sentiu um forte sobressalto ao suspeitar que, o fidalgo era o mesmo que protegera Henriqueta, aquele cujo amor era, no momento, a causa de todas as desgraças que atingiam a pobre irmã de Luísa.

O cavaleiro de Vaudrey iniciou a conversa.

― Insisto em que me explique o motivo desta substituição, porque a pessoa de quem usa o nome me é muito querida.

Mariana, visivelmente comovida, não teve forças para ocultar a verdade e explicou ao seu interlocutor tudo quanto sabia e tudo o que se tinha passado entre ela e Henriqueta desde que se conheceram.

Depois, falou da cega e descreveu as angústias que ela certamente sentiria por estar dominada pela Frochard.

A comoção do cavaleiro de Vaudrey ia crescendo à medida que escutava o relato de Mariana. Quando esta terminou, Rogério disse, estreitando-lhe as mãos:

― Na verdade, não sei que palavras empregar para louvar a sua acção, menina. Você não quis que um anjo de pureza fosse vítima da mais odiosa condenação.

― Não era justo que ela sofresse a sorte destas miseráveis criaturas, destinadas, como eu, a morrerem na penitenciária de Luisiana.

― Obrigado, obrigado! ― exclamou Rogério visivelmente comovido. ― O sacrifício que se impôs basta por si só para conquistar a minha mais profunda estima e para me impor o dever de fazer tudo o que estiver ao meu alcance em seu favor.

― Fiz ― disse Mariana baixando os olhos ― o que me ordenava a minha consciência, aberta à luz por Henriqueta Gerard. Sem os seus conselhos ter-me-ia transformado na pior das criaturas e seria digna da sorte destas miseráveis, enquanto que vou agora para o meu destino e para o meu sacrifício com o coração limpo e com uma infinita esperança em Deus.


XIV

QUANDO Henriqueta Gerard viu Mariana subir para o coche das deportadas, fazendo o sacrifício do seu cativeiro, levou as mãos ao coração, invadida duma dor imensa. Parecia-lhe impossível o que acabava de acontecer. A madre Genoveva teve de lhe lembrar que ela tinha o documento que concedia o perdão de Mariana e que podia servir-se dessa mercê.

― Pode sair imediatamente desta prisão, minha filha disse a freira. ― É livre.

O doutor aproximou-se da jovem e entregou-lhe um cartão de visita, no qual escrevera umas linhas.

― Vão aí escritas ― disse ― algumas indicações para que possa encontrar o abrigo da Frochard, uma mulher vagabunda e da pior espécie que vive numa choça infecta. Não deve hesitar em fazer-se acompanhar por algum agente da autoridade, já que essa mulher não faz outra coisa senão tirar o máximo proveito possível da sua irmã. Aí tem também a minha direcção.

Henriqueta escutava o médico emocionada.

― Quando encontrar Luísa ― prosseguiu o doutor ―,  leve-a ao meu consultório de São Luís. O caso interessa-me e creio que não perdemos nada em tentar a sua cura.

― Devolverá a vista à minha irmã? ― perguntou a jovem com ansiedade.

― Faremos todo o possível ― respondeu o doutor Herbert, que depois de se despedir da Superiora e da órfã se retirou.

Momentos depois o portão do Saladero abria-se diante da prisioneira perdoada e posta em liberdade.

Henriqueta tinha pressa de se afastar daquela prisão, ao mesmo tempo que o pensamento não se podia afastar dos seres mais queridos: Luísa e o cavaleiro Vaudrey.

Com o cartão do doutor nas mãos, informou-se numa loja da direcção que devia tomar para chegar à Rua de Lourcine. A partir daquele momento, resolvera percorrer sozinha os bairros mais populosos.

O caixeiro deu-lhe todas as indicações que lhe pediam e Henriqueta pôs-se a caminho.

À medida que avançava por uma série de vielas sombrias e tortuosas, sentia o coração oprimir-se-lhe dentro do peito ante a idéia de que a irmã tinha sido, dias antes, arrastada por aqueles lugares.

A jovem teve necessidade de pedir informações muitas vezes, antes de chegar ao seu destino.

À medida que se aproximava da rua de Lourcine, Henriqueta sentia-se dominada pelos piores pressentimentos. Parecia-lhe impossível que aqueles imundos lugares pudessem ser habitados por seres humanos. No entanto, tinha de interrogar aquelas desamparadas, para averiguar em qual das barracas vivia a Frochard.

Por fim um pequeno vadio indicou-lhe a miserável habitação. Henriqueta bateu, tremendo de emoção. A Frochard, que nunca recebia visitas, olhou alarmada para a porta. Escondeu a garrafa de aguardente debaixo do colchão e pensou: "Quem pode ser a estas horas?"

Encheu-se de coragem e gritou:

― Quem é?

Dirigiu-se para a porta e uma exclamação de surpresa escapou-se-lhe dos lábios ao encontrar-se na presença de Henriqueta.

― É a senhora Frochard? ― perguntou a jovem.

A vagabunda deitou uma olhadela para a rua e, vendo que a visitante não estava acompanhada, disse:

― Entre. Que tem a dizer à Frochard?

O coração de Henriqueta batia tão aceleradamente que não podia articular palavra. Os seus olhos percorreram coffl atenção todo o compartimento.

― Para onde olha com tanta insistência? ― perguntou a velha, de mau humor.

― Procuro uma pessoa que vive consigo. Uma rapariguinha!

A pedinte fez um gesto de assombro, que dissimulou imediatamente.

― Uma rapariguinha, foi o que disse? ― perguntou com ironia, pensando que aquela devia ser a sua irmã. ― Não a conheço.

― Como, não a conhece? ― exclamou Henriqueta, angustiada. ― Indicaram-me esta casa situada perto da ribeira... Talvez me tenha equivocado.

Mas, refazendo-se imediatamente, continuou:

― Você é a senhora Frochard, não é verdade? ― Sim, porquê?

― E pede esmola em companhia de uma jovem que canta pelas ruas?

A vagabunda sentiu um calafrio percorrer-lhe todo o corpo. Começou a inquietar-se, ao ver que estava apanhada; mas, fingindo ter ficado profundamente ofendida pelas palavras que acabava de escutar, exclamou com a sua desagradável voz:

― Não compreendo o que quer dizer! Para que havia eu de pedir esmola se tenho dois filhos que trabalham? Um deles é amolador. A ferramenta está naquele canto.

Henriqueta pareceu vacilar e dispunha-se a retirar-se quando emudeceu de surpresa ao observar a indumentária da mendiga.

― Esse xaile é dela! É de Luísa! Reconheço-o! Aproximou-se da velha e, cheia de coragem, continuou: ― Tudo isso é meu!

A Frochard não sabia o que dizer, mas, como não era uma mulher que perdesse tão facilmente a serenidade, tentou ganhar tempo, pois sabia que Jacobo não andava longe.

― Pois bem! Isso era dantes, mas agora é meu. E, adoptando um ar de compaixão, acrescentou:

― Vi-a tão nervosa, menina, que não me atrevi a contar-lhe toda a verdade.

Henriqueta alarmou-se.

― A jovem que procura ― continuou a velha ― fui eu que a encontrei e recolhi uma noite em que ia perdida pelas ruas de Paris. Era muito boa, a pobrezinha, porque ao notar que eu não podia dar-lhe de comer começou a cantar como uma avezita para ganhar o seu pão.

― E depois? ― perguntou Henriqueta, arquejante.

― Depois? ― repetiu a repugnante mulher. ― Não sei como hei-de dizê-lo! Quando começava a acostumar-se à vida que levava, teve de deixar de cantar e já nunca mais cantará. Daqui ― a Frochard levantou os olhos ao céu ― não a poderemos ouvir.

― Morta ― exclamou Henriqueta lançando um grito de desespero e caindo pesadamente no chão.

― Desmaiou ― murmurou a velha. ― Eu não disse que estava morta, tentava dar-lhe a entender que daqui ninguém a conseguiria ouvir. ― E a bruxa sorria maldosamente.

Passaram-se alguns minutos, durante os quais a Frochard não podia dominar a inquietação. Jacobo tardava demasiado a chegar e decidiu-se a sair à rua à sua procura. Mas, assim que o fez, a porta do sótão começou a ser empurrada por Luísa, que, pensando estar só, tentava escapar-se.

Pouco antes, Luísa causara uma terrível cena entre a vagabunda e os filhos; Jacobo ameaçara-a com as maiores torturas se ela se negasse a continuar a pedir esmola e Pedro atrevera-se a fazer frente corajosamente ao irmão.

Também a Frochard interviera, convertendo aquela barraca num autêntico inferno de imprecações e blasfémias, de ameaças e ódio.

Luísa, julgando-se agora sozinha, fez esforços sobre-humanos para abrir a porta da sua prisão e finalmente conseguiu-o.

Surpreendida, permaneceu uns instantes no alto da escada, e, depois, procurando com a mão a corda que fazia as vezes de corrimão, começou a descer.

Por fim encontrou-se sobre o húmido piso da cabana e avançou com os braços estendidos para a porta, mas naquele momento lembrou-se de que na sua precipitação se esquecera da chave que Pedro, umas horas antes, deixara debaixo da enxerga.

Voltou atrás e os seus pés tropeçaram em Henriqueta.

Agachou-se e estendeu a mão.

― Uma mulher!

Pôs-se de joelhos e começou a tactear aquele corpo imóvel. De repente o sangue gelou-se-lhe nas veias. A fechadura acabava de ser aberta e ela reconheceu as vozes odiosas de Jacobo e da mãe.

A velha não pôde reprimir uma exclamação de espanto-Juntas! É necessário separá-las! Vamos, Jacobo!

A vagabunda agarrou Luísa por um braço e obrigou-a brutalmente a levantar-se.

Naquele momento, Henriqueta começou a mexer os braços, levando as mãos à testa.

― Vamos, para cima! ― gritou a Frochard a Luísa.

― Mas essa mulher... ― exclamou em tom de súplica. No umbral da porta apareceu então Pedro.

― Uma mulher! ― exclamou, entrando.

A velha apressou-se a desembaraçar-se de Luísa empurrando-a pelas escadas acima; mas ainda a cega não tinha dado dois passos quando sua irmã abriu os olhos e a viu.

Um grito dilacerante saiu da garganta de Henriqueta, que foi retribuído com uma exclamação que partia da escada.

Jacobo tentou dominar Henriqueta, que se debatia desesperadamente, até que esta conseguiu desprender-se do miserável e, enlouquecida, correu para a irmã.

― Luísa! Luísa! ― dizia sem cessar.

― Henriqueta! ― gritou por sua vez a cega, que reunindo todas as forças conseguiu libertar-se da mendiga.

As duas abraçaram-se fortemente com emoção impossível de descrever.

― Minha irmã! Minha irmã ― diziam ambas com as lágrimas nos olhos.

Pedro, ante aquela revelação, não pôde dissimular a alegria.

― Vocês são uns miseráveis a quem castigarei ― increpou corajosamente Henriqueta, olhando com desprezo a Frochard e Jacobo.

Depois, atraiu a si Luísa, dizendo-lhe:

― Vamo-nos!

Mas Jacobo, recuperando o seu cinismo, atravessou-se no caminho das fugitivas.

― Não sairão daqui! Não a levará!

Pedro acudiu em auxílio das jovens, mas o irmão deu-lhe um tremendo empurrão que o fez rolar no solo.

― Gritarei! Pedirei socorro! ― dizia corajosamente Henriqueta.

Jacobo enfrentou-a, fora de si, com os braços cruzados.

― Fique sabendo-disse-que eu sou um homem que não recua diante de nada. Não haverá ninguém que a leve daqui com vida. ― Apontou para Luísa. ― Essa mulher não sairá daqui.

Pedro não podia dominar os nervos. Compreendia que ia perder para sempre a sua adorada Luísa, mas sentia uma grande tranquilidade de espírito ao vê-la livre do jugo da Frochard.

Ao ver que Jacobo embargava a passagem da cega, não pôde conter-se e, sem pensar nas consequências da sua intervenção, lançou-se furiosamente contra Jacobo, que agarrara Luísa por um braço.

Aquela inesperada reacção do irmão apanhou o miserável desprevenido, fazendo-o largar a presa; mas Jacobo, depois dum segundo de hesitação, foi colocar-se cara a cara com o irmão, para lhe dizer, com a voz abafada pela ira:

― Como te atreveste!

Pedro cravou o olhar em Jacobo com valentia.

― Sim, atrevi-me! ― respondeu o coxo fechando os punhos com raiva.

O jovem estava transfigurado. Ele, de ordinário tão humilde, sentia o sangue ferver-lhe diante daquele infame.

― Comigo? ― rugiu colérico Jacobo.

― Sim, diante de quem me fez tremer tantas vezes! Já não te temo! Compreendi que és um cobarde e que a minha coragem é superior à tua força!

A surpresa de Jacobo dissipou-se imediatamente e avançando para o seu irmão, de braços levantados, increpou-o:

― Pois agora veremos qual dos dois pode mais.

Pedro sentiu-se fortemente preso pelas garras do irmão, que, depois de o levantar ao alto, o atirou contra o chão, indo o desgraçado cair junto do aparador, em cuja parte superior se encontrava a pedra de afiar.

― Canalha ― gritou Pedro.

Jacobo, com a ira reflectida no rosto, lançou-se com fúria contra o irmão, que ao tentar repelir a agressão deu uma forte pancada no carcomido armário.

O movel inclinou-se justamente no momento em que Jacobo, ajoelhado no solo, levantava o punho para castigar o pobre rapaz. Não pôde, porém, levar a cabo a ameaça, pois a pedra de amolar resvalou e caiu sobre a sua cabeça. Lançando um grito de dor, Jacobo ficou prostrado no chão.

Henriqueta tapou os olhos com as mãos, enquanto a Frochard corria para o filho mais velho a fim de o socorrer. No entanto, era demasiado tarde. Jacobo, atingido pela pedra mesmo no meio da cabeça, deixara de existir.

― Jacobo! Jacobo! ― gritou a Frochard lançando-se sobre o corpo do filho.

Pedro levantou-se. Do seu braço direito brotava um fio de sangue.

― Está ferido? ― perguntou Henriqueta ao amolador.

Este, com a voz a tremer, disse a Luísa:

― Vão-se embora, meninas! Fujam agora!

― E você, Pedro? ― perguntou a cega, inquietando-se com o que lhe podia acontecer.

Pedro baixou a cabeça.

― Eu ― murmurou ― esperarei aqui a justiça. Luísa interrogou a irmã acerca do que se passara.

― Que aconteceu a Jacobo? ― perguntou Luísa.

― O meu irmão morreu. Saiam depressa.

― Fujamos desta casa, Luísa! Pedro não foi o causador desta desgraça e nós devemos seguir o seu conselho.

As duas órfãs, poucos momentos depois, estavam na rua.

Henriqueta sentia sobre si a responsabilidade do que tinha acontecido, e Luísa, ao pensar que o seu infeliz protector podia ser acusado de um assassínio que não praticara, pensava que a angústia e a dor a iam vencer.

― Não podes imaginar como esse rapaz se sacrificou e se expôs por mim, desde o momento em que caí em poder desta família. Também ele sofreu muito.

Ao chegar ao princípio da Rua Lourcine, Henriqueta teve de se informar da direcção a seguir.

― Para onde vamos? ― perguntou Luísa. ― Conseguiste encontrar o senhor Martin? Vamos para sua casa?

― Já te contarei o que eu também sofri, enquanto tu permaneceste em poder daqueles que tão cruelmente abusaram da tua condição. Por agora, conforma-te em saber que vamos encontrar hospitalidade em casa de um homem de bem que se preocupou connosco. Trata-se de um cavalheiro que se interessou pela tua vista.

As duas órfãs continuaram o caminho, apressando o passo, até que chegaram à porta do pequeno hotel habitado pelo Dr. Herbert.

O médico recebeu-as imediatamente e Henriqueta contou-lhe o drama que presenciara pouco antes.

O doutor não afastava a vista de Luísa enquanto ouvia o que a irmã desta relatava. Após breve silêncio, Luísa não pôde deixar de revelar quanto a afligia a difícil situação em que se encontrava o rapaz que a protegera. O médico, comovido pelas palavras da jovem, mandou buscar a sua carruagem.

― Não posso perder um instante ― disse. ― Tentarei salvar esse rapaz da possível acusação que seguramente a própria mãe lhe fará.

A carruagem do Dr. Herbert detinha-se pouco depois diante da barraca da Frochard, ao mesmo tempo que chegavam dois polícias para proceder às diligências judiciais.

O doutor correu para o corpo estendido por terra e afastou bruscamente a mendiga, que começava a vociferar contra o próprio filho, o amolador.

Examinou atentamente o cadáver na presença dos polícias e dos soldados da ronda e, ao fim de um curto espaço de tempo, declarou que, pela forma da ferida, não podia ser de maneira nenhuma um crime. E o médico deu toda a espécie de pormenores aos funcionários para os convencer da sua teoria.

A Frochard escutou atentamente, sem deixar de olhar furiosamente para Pedro.

O médico, ao notar a expressão daqueles olhares, dirigiu-se à vagabunda e disse-lhe energicamente:

― O seu filho, compreenda bem, foi vítima de um acidente. Percebe? De um acidente!

― De um acidente! ― repetiu a Frochard como alucinada.

― É isso que eu faço constar na minha declaração e ninguém poderá desmenti-lo. Compreende?

― Sim, sim! ― balbuciou a Frochard, idiotizada. ― Foi um acidente! O meu Jacobo perdeu a vida num acidente!

Os soldados levantaram o cadáver e colocaram-no sobre a miserável enxerga.

O doutor aproximou-se de Pedro e, cumprindo a promessa que fizera a Luísa, disse-lhe:

― Depois do funeral do seu irmão, espero-o em minha casa.

O jovem, sem compreender por que razão o doutor se interessava tanto por ele, agradeceu-lhe.

Naquela noite Pedro não dormiu, não só por causa dos remorsos que o assaltavam, já que apesar de tudo se sentia em parte culpado da morte do irmão, mas também porque acontecera o que ele tanto desejava e ao mesmo tempo temia: Luísa nunca mais voltaria àquela barraca; a cega desaparecera e talvez nunca mais tivesse a alegria de a tornar a ver; nunca mais sentiria a sua mão estreitando a dele, para lhe agradecer a devotada amizade, por se ter convertido em seu protector. De futuro, ficaria só no mundo, como quando ainda não encontrara o anjo que lhe iluminou a vida e que o fez ter coragem ante todas as tristezas e adversidades por que passara. Tudo tinha terminado!

No dia seguinte realizou-se o enterro de Jacobo.

Os transeuntes descobriam-se diante dos restos daquele que em vida fora um cínico miserável com o mesmo respeito com que o fariam se se tratasse de render uma homenagem póstuma a um honrado cidadão.

Atrás do féretro iam apenas a Frochard e Pedro.

Entretanto, um barco sulcava os mares levando para o desterro na Luisiana aquela que tinha sido vítima daquele homem.

No entanto, a jovem recebia a bordo um tratamento de favor. A recomendação do próprio Rogério ao comandante do cargueiro, que depressa notou que aquela prisioneira era muito diferente das outras, despertara uma simpatia que o próprio comandante Carlos d'Ouvelles não conseguia dominar.

― Você procura deliberadamente isolar-se ― disse-lhe um dia. ― Só de vez em quando se preocupa em informar-se do que fazem as suas companheiras. Não se junta a elas senão à hora de fazer a chamada.

A prisioneira, dominada pela comoção, sentiu a necessidade de se justificar.

― Estou-lhe muito reconhecida, senhor, pela maneira especial como me tratam. Mas, se me fosse permitido, eu agradeceria que me autorizasse a viver em comum com as outras desterradas. D'Ouvelles esboçou um sorriso e replicou:

― É impossível! No entanto...

No momento em que Mariana se inclinava para lhe agradecer, o seu olhar cruzou-se com o dele, como se os olhos se tivessem procurado.


XV

Avida a bordo de O Glorioso era menos dura do que normalmente em viagens daquele género, mesmo tendo em conta que D'Ouvelles era um homem mais humanitário do que a maioria dos comandantes daquela época.

No entanto, é necessário acrescentar que Mariana influía muito naquele estado de coisas, pois com a sua doçura conseguia, por um lado, certas atenções para todas elas, enquanto que por outro as animava, sempre que podia, com as melhores palavras de consolação para o trágico futuro que as esperava.

Foi assim que o comandante do barco permitiu certo dia que as reclusas assistissem à caça a um tubarão que se aproximara do brigue.

― Este tubarão segue-nos desde ontem à noite como se nos viesse trazer alguma má notícia. Há uma velha lenda, segundo a qual este animal pressente uma catástrofe a bordo dum navio.

Os marinheiros, cumprindo as ordens que recebiam, fizeram os preparativos para a captura do monstro.

O espectáculo era soberbo e por fim o tubarão foi içado para a coberta.

Mas, quando menos se esperava, na altura em que um dos marinheiros ia confirmar a sua morte, o monstro resfolgou com força e deu um formidável golpe com a cauda, fazendo estremecer o madeirame, e caiu de novo na água.

Passados alguns minutos, perante o espanto geral, a superfície do mar começou a ondular-se.

O imediato empalideceu. Como bom bretão que era, fez o sinal da cruz e, erguendo os olhos para o céu, murmurou:

― Mau presságio! Mau presságio!

Mas, como que para desmentir os tristes pressentimentos do imediato, o vento pareceu acalmar-se e O Glorioso deslizou com rapidez sobre um mar tranquilo e com tempo soberbo.

― Quinze dias com este vento ― disse D'Ouvelles-e costearemos as Bermudas para chegarmos docemente ao golfo do México.

Passaram mais oito dias e ninguém se lembrava já do incidente do tubarão, quando, de repente, o imediato se aproximou do comandante para lhe dizer:

― Tenho necessidade de lhe falar.

D'Ouvelles, que se acostumara a conversar todos os dias com Mariana, pediu licença a esta e seguiu o marinheiro até uma das escotilhas que punham em comunicação a ponte com o piso inferior.

Poucos minutos volvidos, o comandante regressava e ordenou, chamando o aspirante:

― Que todas as passageiras desçam para a entreponte. Nenhuma delas deve abandoná-la sem o meu consentimento.

Depois o tenente reuniu-se com o seu estado-maior.

― Senhores ― disse ―,  corremos um grave perigo que só pode ser conjurado se mantivermos a tripulação na mais rígida disciplina. Já todos sabem que levamos a bordo um carregamento de pólvora e balas com destino à Luisiana. Pois bem: Há fogo a bordo!

Todos os oficiais se levantaram.

― Sim ― prosseguiu o comandante do brigue ―,  O Glorioso está minado no casco; o velho armazém do nosso brigue vai-se queimando lentamente e bastará a mais pequena corrente de ar para que as chamas apareçam. É necessário que esta notícia se não espalhe a bordo. Temos de evitar o pânico e a confusão, que estorvaria os trabalhos de salvamento. As baleeiras só devem ser lançadas à água por ordem dos oficiais. Enfrentemos os acontecimentos com sangue-frio e tenhamos confiança em Deus.

Os oficiais retiraram-se para executar as ordens recebidas. D'Ouvelles mandou subir à ponte a prisioneira Henriqueta Gerard.

Mariana apresentou-se imediatamente.

― Mandei-a chamar com o fim de lhe comunicar uma grave notícia ― disse o comandante.

Em seguida revelou-lhe o que sucedia a bordo e pediu-lhe para que, no caso de o fogo se declarar abertamente, tentasse aconselhar as prisioneiras e lhes desse ânimo.

As desterradas, que pressentiram algo de anormal, assediaram Mariana com perguntas para saberem o que acontecia, mas ela, com uma serenidade que roçava pela abnegação, mudou a conversa para o terreno que queria, para apresentar calmamente certos casos que podem acontecer a um barco no mar alto.

― Quase sempre ― explicou Mariana ― é por culpa da indisciplina que se produzem as catástrofes. É a precipitação e o pânico que levam aos maiores desastres.

As prisioneiras escutavam com atenção.

― Um barco ― prosseguiu a falsa Henriqueta ― não se afunda muito facilmente. Inclusivamente, se se propagar um fogo, a tripulação pode ser salva. Por isso eu vos digo que, se por acaso nós tivermos algum percalço, é preciso não perder a serenidade...

As prisioneiras deixaram ouvir as suas vozes em sinal de assentimento, mas naquele momento ouviram um grande ruído que se produzira na ponte. Era uma mescla de gritos e ordens, passos precipitados e correrias.

Os marinheiros, com clamores desesperados, abafavam quase totalmente as vozes de comando dos oficiais.

As desterradas precipitaram-se por sua vez para a escada; mas Mariana, mantendo-se diante delas, recordou-lhes a serenidade de que pouco antes tinha falado.

Todas as companheiras se detiveram subitamente.

No entanto, quando a palavra "fogo" passou de boca em boca, os gritos de desespero das prisioneiras não podiam ser contidos.

As cenas de terror sucederam-se ininterruptamente, mas a grande energia de D'Ouvelles, a força de vontade dos oficiais e a serenidade de Mariana, que lutou denodadamente ao lado dos chefes do brigue, permitiram arrear os botes e quando foi dada a voz de "salve-se quem puder!" já a catástrofe fora praticamente evitada.

Meia hora mais tarde, os náufragos puderam ver dos seus escaleres como O Glorioso, depois de um formidável estrépito, era tragado pelas águas. Os salva-vidas navegaram durante todo o dia sem se afastarem uns dos outros. Tinham podido salvar provisões e água e a situação momentaneamente não era desesperada a não ser que surgisse um temporal.

Durante a noite as distâncias foram aumentando e no dia seguinte o escaler onde iam D'Ouveles e Mariana encontrava-se isolado na imensidade do oceano.

No entanto, ao fim de algumas horas, o comandante e os que o acompanhavam foram recolhidos por um barco francês que fazia a travessia para o México.

― Louvado seja Deus! ― exclamou D'OuveIles.

A corveta que acabara de salvar alguns dos náufragos era um desses barcos de guerra que o almirante francês enviava para protecção dos seus bacalhoeiros da Terra Nova, mas que de vez em quando faziam escala pelo mar das AntiIhas, com o objectivo de dar caça aos piratas que infestavam as costas daquelas colónias. Por isso, não tinha de mudar de rota para deixar os náufragos no seu destino.

A pedido do comandante D'Ouvelles, o capitão da corveta fez várias tentativas para encontrar também o resto dos náufragos, mas, perante a improficuidade dos esforços, viu-se forçado a desistir, fazendo-se à vela para o seu destino.

A travessia terminou nas melhores condições para os náufragos.

O tenente D'Ouvelles empregara o tempo a escrever o relatório dos acontecimentos que se haviam desenrolado a bordo de O Glorioso até ao momento em que teve de abandonar o barco envolto em chamas.

O relatório, juntamente com a documentação do barco, na qual figurava a carta do conde de Linières ao governador da Luisiana, foram cuidadosamente guardadas pelo senhor de D'Ouvelles, que, ao apresentar-se, fez os elogios dos oficiais e dos marinheiros e teve o cuidado de não se esquecer da conduta da prisioneira inscrita com o nome de Henriqueta Gerard. Assinalava-a como merecedora duma recompensa recomendava-a à benevolência do governador.

Na Luisiana, Mariana recusa um posto privilegiado na penitenciária, para ocupar, a seu pedido, o lugar de enfermeira, atitude esta que chegou aos ouvidos do governador.

Por outro lado, Carlos D'Ouvelles, sob o pretexto de que precisava muito de descanso, não quis deixar logo aquela terra. E foi assim que entre os dois jovens aumentou a corrente de simpatia que se iniciara durante a travessia.

O governador, ao verificar pelos seus próprios olhos que a jovem prisioneira era muito diferente das outras e tomando em conta as recomendações que recebera, e levado também pelo seu nobre coração, transferiu-a para o palácio como costureira.

Os seus serviços foram muito elogiados porque, precisamente naquela altura, a filha do governador estava preparando o enxoval.

Mariana esmerou-se no trabalho e recebeu as felicitações de todos. No entanto, não era feliz e procurava fugir das atenções do comandante D'Ouvelles.

Este falava-lhe de amor e ela sentia o coração partir-se ao pensar que por várias razões não tinha direito de o aceitar, particularmente pelo facto de ela não ser Henriqueta.

― O senhor esquece, comandante, quem é e quem eu sou.

― Quem é você? ― exclamou o marinheiro. ― Sei-o muito bem porque a vi conduzir-se a bordo do meu pobre navio incendiado. uma bonita e corajosa rapariga, com um coração cheio de energia e espírito caritativo e abnegado.

― E também sabe o que eu fui? ― exclamou dolorosamente Mariana.

"Hei-de sabê-lo", pensou o comandante.

Os trabalhos de costura de que se encarregara reclamavam diariamente a presença de Mariana nos aposentos do governador, cuja esposa se interessava, como todos, por aquela mulher.

Certo dia a marquesa, esposa do governador, resolveu ter uma conversa com Mariana e dispôs-se a interrogá-la com a maior cordialidade.

Mariana sentiu-se corar ao ver-se obrigada a continuar a mentir.

Repugnava-lhe enganar os que tanto se tinham interessado por ela e que, procedendo assim, julgavam reparar o melhor possível uma enorme injustiça.

Na sua perturbação, Mariana sentiu-se tentada a contar a verdade àquela que lhe prodigalizava palavras tão consoladoras e que ela vinha mantendo no erro. Estava prestes a revelar-lhes tudo, mas o medo de que novas perseguições fossem iniciadas contra Henriqueta, que desejava manter salva a todo o custo, obrigou-a a ocultar a verdade.

Na impossibilidade de revelar o seu segredo, Mariana chorava ao ouvir os conselhos da marquesa, que se felicitava diariamente por seu marido ter condescendido em dar-lhe aquela jovem como costureira.

Entretanto, Carlos D'Ouvelles sentia aumentar o seu amor por Mariana. E, resolvido a pôr termo àquela situação, tentou vê-la nessa mesma noite.

― O senhor quer, e bem claramente o mostra ― disse a jovem ―,  que eu conte a história da minha vida. Mas, como pode interessar-se pelas desgraças e faltas de uma mulher como eu? Não quer compreender que se estou aqui é porque mereci um severo castigo?

Carlos olhou a infeliz com compaixão e fez um gesto de protesto, mas Mariana continuou:

― Não é só o facto de eu ter sido uma ladra, mesmo que logo me tenha arrependido e chorado amargamente. Há algo mais importante, pelo que não mereço a protecção que me dá o senhor governador e a família nem as suas atenções.

D'Ouvelles cravou o olhar no rosto torturado de Mariana.

― Custa-me muito falar-lhe desta maneira ― juntou tristemente a jovem ―,  mas não quero esquecer que é a si que eu devo os favores que tão generosamente me fizeram. Graças a si fui admitida em casa do senhor governador.

― Não, menina, não ― replicou Carlos ―,  a consideração de que goza não a deve a ninguém. É um tributo de gratidão e de reconhecimento que merece completamente.

O oficial ia-se animando.

― Escute, Henriqueta, consente que lhe ofereça a minha...

― A sua amizade? ― interrompeu rapidamente a jovem.

― Sim, ia dizer a minha amizade ― concluiu Carlos vacilante e confundido.

― Essa amizade que me dá a honra de oferecer aceito-a com alegria, visto que ela me eleva aos meus próprios olhos e me fará suportar com maior coragem as amarguras do desterro.

Para ela foi como se a sua alma rejuvenescesse. Mas pensava que este sentimento que inspirara não se dirigia de facto à sua pessoa, mas à meiga Henriqueta Gerard, de quem conhecia a inocente pureza. E este pensamento foi para a desgraçada um duro golpe, que se misturou com o apressado bater do coração.

Agora, mais do que nunca, devia calcar o amor que lhe inundava o coração e afastar o homem que o inspirava. Mariana amava-o e era indispensável impor ao seu coração um cruel martírio.

Carlos D'Ouvelles deixou a jovem pesarosa.

Passaram-se alguns dias sem que a situação mudasse. Mariana continuava a trabalhar com ardor e os que a rodeavam sentiam-se cada vez mais atraídos pela sua bondade.

D'Ouvelles estava mais preocupado do que normalmente, quando se encontrou de novo com Mariana.

Foi numa ocasião em que o marinheiro visitou o governador de Luisiana.

― Quando a vi no salão da senhora marquesa ― disse o comandante ― pareceu-me estar feliz.

― De facto ― respondeu Mariana ―,  tanto quanto pode ser uma mulher que como eu recebe uma alegria inesperada. A senhora marquesa elevou-me à categoria de empregada. Começou a pagar-me os trabalhos como costureira.

As lágrimas assomaram aos olhos da jovem.

― Isso prova o interesse que soube inspirar a toda a gente. Felicito-a e também lhe vou dar uma notícia.

Mariana levantou a cabeça e esperou silenciosa.

― Já sabe ― disse D'Ouvelles ― que tenho um parente nas Antilhas, um tio que vive não muito longe daqui e que não vejo há muitos anos. Este homem opunha-se a que eu escolhesse a carreira das armas e queria que me fizesse lavrador, para que um dia tomasse conta da administração das suas ricas propriedades.

― Penso ― disse ela ― que vem anunciar-me a sua partida.

― Efectivamente, parto, mas não para as possessões do meu tio. Este compreendeu a inutilidade dos seus esforços e quer que procure, sem perda de tempo, obter um novo comando. Portanto, vou regressar a França dentro de alguns dias.

― Vai-se! ― exclamou Mariana com voz hesitante.

― Que fico a fazer aqui? ― disse vagarosamente o marinheiro.

― É verdade! Nada o retém aqui!

Carlos notou uma certa comoção nas palavras e na voz da jovem. Olhou com mais atenção e descobriu que uma nuvem de tristeza lhe ensombrava o rosto.

Leu, por fim, nos seus olhos, a confissão do profundo pesar que ela experimentava e não conseguia dissimular.

Carlos sentiu um profundo sobressalto. Aquilo foi para ele uma revelação e no estremecimento que lhe percorreu todo o corpo havia tanto de alegria como de inquietação.

― Compreendo que queira regressar a França ― disse Mariana amargamente. ― Tomará o comando de outro navio e quem sabe se um dia, daqui a muito tempo, voltará à Luisiana.

A jovem não pôde conter-se durante mais tempo e mesmo sem querer começou a chorar.

O oficial deixou passar alguns segundos, até que Mariana pareceu acalmar-se.

Obrigou-a a levantar a cabeça e perguntou:

― Porque se atormenta dessa maneira? A jovem não respondeu.

O marinheiro retomou a palavra.

― Henriqueta, permita-me que lho diga agora que já sei quem é e que conheço o motivo por que foi atirada para fora de França. Recebi algumas informações que pedi e sei que você é a mulher mais virtuosa, mais honrada e mais digna de estima que vive à superfície da terra.

Mariana abriu desmesuradamente os olhos sem saber o que dizer.

― Por isso ― prosseguiu Carlos ―,  já não tenho necessidade de calar o meu coração. Posso confessar-lhe o meu amor, a si que possui uma alma mais nobre do que todos os títulos de nobreza. Amo-a desde o dia em que a vi enfrentando heroicamente a catástrofe que fez afundar o meu navio. Depois vi que o amor que sentia por si ia aumentando dia a dia no meu coração e venho pedir-lhe agora, querida Henriqueta, que me aceite para marido.

Mariana, com os olhos abertos pelo espanto, afogou um grito. Aquelas palavras que acabava de ouvir lançavam-na num espantoso desespero. Aturdida, transtornada e dominada por violenta emoção, retorcia os braços. Lutava contra a vergonha de revelar ao homem que amava quem era na realidade.

Carlos D'Ouvelles pegou carinhosamente nas mãos da jovem e disse:

― Henriqueta, aceita-me por marido?

A jovem não pôde conter-se mais. com a voz cheia de desespero e com os olhos chamejantes respondeu:

― Eu não sou Henriqueta Gerard! Não sou a mulher que todos julgam que sou e que eu desejaria ser! Juro por Deus! Henriqueta Gerard, a que de facto tem este nome, é uma santa rapariga, vítima do orgulho duma família nobre.

Carlos ficou assombrado.

― Então, se não é Henriqueta Gerard ― disse ―,  quem é você?

A vergonha operou uma mudança brusca de expressão no rosto de Mariana, fazendo com que os seus olhos revelassem algo de dor intensa. Encheu-se de coragem e cravando resolutamente o olhar no oficial exclamou:

― Eu não sou mais do que uma desgraçada que a fatalidade ligou, por obra do acaso, ao destino dessa pura e admirável jovem que se chama Henriqueta Gerard.

E depois destas palavras, Mariana contou, com todos os pormenores, a história da sua vida.

― Esta expiação que se impôs ― comentou tristemente o oficial ― resgatará as faltas do passado de que você se acusa e elevá-la-á aos olhos de todo o mundo. E eu, a quem esta confissão partiu o coração, não esquecerei jamais nem a sua abnegação nem a sua conduta nas terríveis circunstâncias em que nos encontrámos juntos.

Fez uma pausa e depois acrescentou:

― E se já não me é possível continuar a pedir-lhe que seja minha esposa, permita-me, pelo menos, estender-lhe para sempre a minha mão e suplicar-lhe que continue a. ser minha amiga.

Os olhos do marinheiro humedeceram-se e não pôde conter as lágrimas que lhe rolaram pelas faces.

Mariana, tentando em vão dissimular a perturbação e a dor da alma, murmurou:

― Sua amiga! Sempre o serei, visto que o senhor mo permite.

Dias depois efectuou-se o casamento da filha do governador, depois do qual houve uma animada festa nos jardins do palácio.

Inesperadamente, uma serpente enroscou-se numa das pernas de Carlos D'Ouvelles, que sentiu um calafrio de terror porque sabia que o veneno daquela cobra era mortal. Ninguém se atrevia a mover-se do seu lugar, quando, de repente, apareceu Mariana com um recipiente cheio de leite fresco, aproximando-o da cobra. Esta pareceu hesitar, mas, levada pela sua gulodice, deixou Carlos e foi atrás da jovem. De repente lançou-se sobre ela. Mariana, sus tendo a respiração, quedou-se imóvel com o recipiente na mão. A serpente escorregou por todo o seu corpo e por fim aproximou a cabeça do leite. Mariana agachou-se lentamente até deixar o recipiente no chão, ante o pasmo geral. A serpente meteu-se gulosamente dentro do líquido que tanto a entusiasmava e aquele momento foi aproveitado por Carlos para voltar com rapidez o recipiente, aprisionando assim o nojento animal.

Mariana sentiu as forças abandoná-la e desmaiou. Quando voltou a si, Carlos estava acompanhado do governador e da sua família.

― Obrigado, obrigado! Devo-lhe a vida, de agora em diante ela ser-lhe-á consagrada.

― E eu digo ― exclamou o governador ― que a sua acção se transformou na sua reabilitação e que lhe concedo a liberdade, exercendo o direito que me outorga o cargo que ocupo.

Mariana sobressaltou-se e pediu que a deixassem só. NO entanto, uma hora mais tarde D'Ouvelles batia à porta do quarto da jovem, com a intenção de lhe falar.

Mariana não podia afastar do pensamento as palavras que pouco antes Carlos lhe dissera:

"Devo-lhe a vida E ela ser-lhe-á consagrada "

A jovem, na presença do comandante, sentiu o coração dar um salto no peito. E encheu-se de coragem para dizer:

― Não insista, Carlos. Não pronuncie de novo aquelas palavras que foram ditas num momento de exaltação.

― Você foi perdoada e o passado já não conta.

― O passado! ― murmurou tristemente a jovem. ― Pode esquecer-se que fui uma ladra? O dinheiro que roubei era dum pobre rapazinho, um dinheiro economizado pelas operárias da alfaiataria para acudir às necessidades do órfão que por nós fora adoptado; isto não é um roubo, mas um crime odioso.

"Roubei o dinheiro do filho duma pobre mulher que foi minha amiga e a quem prometemos no leito da morte cuidar do pequeno que ela deixou só no mundo. No céu, Madalena de Baichelin jamais me poderá perdoar.

Carlos D'Ouvelles levantou-se, intensamente pálido.

― Que sabe dessa mulher?

― Era viúva ― contou Mariana um pouco mais calma-; o seu marido, marinheiro como o senhor, morreu num naufrágio.

― O naufrágio da corveta Adriatic! Pierre Baichelin! exclamou Carlos visivelmente emocionado.

A jovem sentiu um calafrio percorrer-lhe todo o corpo.

― Conhecia-o? Conhecia esse homem?

― Sim, Mariana ― asseverou D'Ouvelles, pegando a tremer nas mãos da rapariga e obrigando-a a levantar-se. ― Esse homem era meu primo.

― Que diz?

― Que a providência quis que eu a conhecesse para que acuda em auxílio desse pequeno órfão. Sim, Mariana, de agora em diante seremos dois a ocupar-nos dele. Ajudar-me-á a encontrar o pequeno. Madalena, ao contrário do que disse, não só perdoará como ainda a deve bendizer.

E o jovem, que tinha desafiado bravamente tempestades, o marinheiro que permanecera tranquilo e resoluto ante o naufrágio de O Glorioso, chorou naquele momento, ao recordar todos os seres a quem tinha querido entranhadamente.

Aquelas lágrimas tocaram a alma de Mariana. Tomou a mão do oficial e pela primeira vez deixou o coração bater numa suprema e irresistível manifestação de amor.

A partir daquele momento os encontros dos dois amigos tornaram-se mais frequentes e neles se falou do pequeno, a quem Mariana chamava "o filho da alfaiataria".

Carlos D'Ouvelles não falava noutra coisa senão em voltar a França para cumprir o que ele considerava um dever, mas quando fez saber à jovem a sua intenção julgou ver-lhe nos olhos uma nuvem de tristeza.

― Não esqueça, Carlos ― suspirou Mariana ―,  que, apesar do perdão do governador, sou uma desterrada de França, onde não posso voltar. Como me pode falar de casamento?

Carlos D'Ouvelles reflectiu durante um momento.

― Sim, é livre mas é uma desterrada; no entanto, se é este o único obstáculo, porque não hei-de eu ser por minha vez um desterrado? Separar-nos-emos momentaneamente, apenas o tempo necessário para eu ir a Paris buscar o filho de Madalena e regressar. Juro!

Uma infinita alegria invadiu Mariana; de repente, porém, um pensamento veio perturbar-lhe o espírito. Ela não figurava como Mariana Vauthier, visto que para todos era Henriqueta Gerard. Como vencer este último obstáculo?

Os dois jovens tiveram de adiar para mais tarde a solução deste problema.

Oito dias depois, as salvas do forte anunciavam a chegada dum navio procedente de França, para substituir o que ali estava ancorado.

Carlos D'Ouvelles vestiu naquele dia o uniforme de oficial de marinha e foi apresentado ao capitão quando este desembarcou.

A notícia da perda de O Glorioso chegara ao Havre, levada por um navio inglês que recolhera no mar alto um dos tripulantes do brigue.

Esta notícia alegrou muito Carlos, mas uma surpresa ainda maior o esperava nessa noite, quando o governador lhe entregou o pacote de despachos e cartas que lhe tinham mandado de França.

― Aí vão algumas boas notícias ― disse o governador ao tenente. ― Sou encarregado de o repatriar e pode tomar lugar a bordo do primeiro navio que parta para a Europa.

Carlos mostrou-se contrariado e não proferiu palavra. O marquês, sorridente, cortou o silêncio.

― É muito provável que haja uma pessoa que não hesite em regressar a França.

O marinheiro levantou a cabeça vivamente.

― Uma prisioneira ― continuou o governador ― de que me falam numa carta que encontrará no pacote da correspondência. O tenente pôs-se imediatamente a seleccionar as cartas e documentos.

― Não tenha tanta pressa ― exclamou risonho o marquês. ― A carta é-me dirigida pelo subdirector-geral da Policia e refere-se inteiramente a essa jovem costureira.

― É dela que se trata ― exclamou Carlos intensamente pálido.

― Efectivamente, o marquês de Linières anuncia-me que a prisioneira Henriqueta Gerard obteve o perdão completo e absoluto e que deve ser posta imediatamente em liberdade.

A surpresa e a satisfação inundaram as palavras de D'Ouvelles:

― Livre! Livre!

Depois, novamente senhor de si, exclamou:

― Verdadeiramente, eu achava injusta a condenação desta mulher maravilhosa.

O governador esboçou um sorriso.

Por sua vez, o tenente entregou-se às mais venturosas conjecturas.

Quando Mariana soube a nova graça que lhe outorgavam não conseguiu dissimular a alegria que experimentava. Estava livre e recobrava, por isso, todos os direitos que tinha na sociedade.

Não se arrependia do seu sacrifício pela bondosa Henriqueta e naquele momento sentia-se feliz por tê-lo feito.

Mariana Vauthier, a autêntica Mariana, perdoada um dia do seu castigo, conseguira agora o amplo e completo perdão de Henriqueta Gerard, cujo lugar tomara.

Falou-se imediatamente da boda, mas o casamento que era impossível em Nova Orleães podia celebrar-se em qualquer outra parte das Antilhas, onde nenhum dos dois era conhecido. Seria suficiente irem a Martinica, para que a jovem pudesse retomar, sem nenhum inconveniente, o seu nome.

O acordo foi unânime e os dois noivos combinaram ir quanto antes ao lugar indicado.

Mariana sentia-se quase completamente feliz. Não sabia que sorte tinham tido Henriqueta e Luísa e isto fazia com que uma nuvem lhe ensombrasse a felicidade.

Confiou a sua inquietação a Carlos, que tentou persuadi-la de que, certamente, o conde de Linières tinha reconhecido o seu erro e tentara reparar o mais depressa possível o dano que causara à jovem a quem a sua cólera fizera perseguir tão injustamente.

Mariana, que não desejava outra coisa senão deixar-se convencer, acreditou que as duas órfãs teriam chegado ao fim do seu sofrimento.

D'Ouvelles precedeu a noiva na ida à Martinica, para preparar a boda que um sacerdote iria consagrar uns dias mais tarde.

Uma nova existência ia começar para ele e para sua mulher. O oficial acedera em ficar ao lado do seu tio e por essa razão pedira ao ministro a demissão de oficial da marinha real.


XVI

DEPOIS de presenciar a partida de O Glorioso, o cavaleiro de Vaudrey alugou dois bons cavalos e pôs-se a caminho de Paris, concentrado em dolorosos pensamentos, que o seu criado Picart não se atreveu a interromper.

Também ele ia entregue a negras cogitações.

Amo e criado combinaram entrar em Paris separados.

Rogério iria directamente visitar o Dr. Herbert, onde estava certo de encontrar Henriqueta.

Os dois cavaleiros separaram-se na última etapa. Enquanto Picart se encaminhava para a porta de Versalhes, o cavaleiro de Vaudrey, seguindo pela margem direita do Sena, não tardou a encontrar-se no bairro de Santo Honorato.

Uma serena esperança o invadia, visto que ao dirigir-se a casa do célebre cirurgião Rogério estava certo de encontrar ali a infeliz a quem tantos males causara apenas pelo facto de a amar. E ao evocar tudo o que tinha acontecido desde o dia em que a conheceu, o jovem sentiu o coração bater com mais força.

Inquieto por mil pensamentos, Rogério chegou, por fim, a casa do doutor.

Henriqueta, sob os cuidados do bondoso homem de ciência, esquecera as múltiplas desgraças que a tinham atingido e a partir do momento em que encontrou a sua querida irmã, que julgava perdida para sempre, era totalmente feliz.

Henriqueta falara a Luísa em regressar a Evreux, mas esta lembrou-se de que o doutor, quando ela estava a pedir à porta duma igreja, tivera uma conversa com a Frochard acerca da sua cegueira. Foi naquele momento tão doloroso para ela que a mendiga, respondendo à sua inquietação, lhe dissera que não existia a menor esperança de cura.

Por isso, quando Henriqueta lhe falou das possibilidades de recuperar a vista, a cega manifestou o desejo de esperar.

Henriqueta, apesar disso, não queria infundir demasiadas esperanças à irmã. Seria um golpe tão tremendo, se a cura não se realizasse!

O Dr. Herbert chamou ao seu escritório, certa manhã, a menina Gerard, que, pensando tratar-se da saúde da irmã, perguntou:

― Diga-me a verdade, doutor. Está condenada à cegueira perpétua? É inquietante o estado de Luísa?

― Não se trata de sua irmã ― respondeu o médico  ―,  mas de si. A sua saúde preocupa-me, menina. O seu estado moral requer que recolha ao leito. É preciso que se vá acalmando, pois terminaram as suas desgraças. Tem de pensar numa existência mais alegre.

O Dr. Herbert fez uma pequena pausa e continuou:

― com respeito ao cavaleiro de Vaudrey... A jovem levantou a cabeça com ansiedade.

― Na realidade ― prosseguiu o médico ― ignoro totalmente o que foi feito dele, mas o que lhe posso assegurar é que já não se encontra na Bastilha.

― Livre! ― exclamou Henriqueta visivelmente emocionada.

― Sim, minha filha, livre. Teve a sorte de conseguir evadir-se.

A manifesta alegria que a jovem sentira ensombrou-se imediatamente. Era muito estranho que não tivesse tentado vê-la.

O Dr. Herbert, ante o significativo silêncio que a jovem guardava, exclamou:

― Você ama o cavaleiro!

Henriqueta não protestou tal afirmação e corou intensamente. Levantou os olhos e, impelida por um sentimento sincero, asseverou:

― Não posso negá-lo, doutor. Salvou-me duma odiosa maquinação urdida contra mim e desde os primeiros momentos senti por ele uma profunda gratidão. Mais tarde, tive de lutar em vão contra o meu coração, quando me falou das suas intenções. O resto já o conhece o senhor doutor.

― Não tento dirigir-lhe nenhuma reprovação, minha filha

― continuou o médico. ― Se lhe falo desta maneira, é devido ao meu interesse por si e com o desejo de reparar no que for possível a injustiça inqualificável que lhe fizeram. Aceite, pois, a linha de conduta que lhe indicarei oportunamente.

Agora volte para junto de sua querida irmã e diga-lhe que noutra altura me ocuparei dela.

As coisas estavam neste estado quando Rogério se apresentou em casa do médico com a esperança de obter notícias da órfã.

O Dr. Herbert, ao vê-lo entrar, sobressaltou-se.

― Você aqui?

― Já sei que a minha presença pode comprometê-lo explicou o cavaleiro de Vaudrey. ― Desculpe-me, doutor, mas anseio por saber se continua a proteger a jovem do Saladero.

― Interesso-me por ela, é certo ― respondeu o médico. ― Faço-o para evitar uma injustiça, o mais odioso atentado contra a liberdade e a honra de uma mulher desprotegida.

― De modo que ela está aqui? ― exclamou o jovem, contendo com dificuldade a alegria que lhe enchia o coração.

O médico sorriu complacente.

― Oh, doutor! Deixe-me que a veja e lhe fale! Herbert teve de voltar um pouco a cara para ocultar a

comoção que o dominava. Fez um movimento como para segurar as mãos do jovem, mas conteve-se.

― Por agora, é melhor que não a veja ― disse-; é preciso resignar-se. Nunca me perdoaria ter acedido a esta entrevista.

Fez uma pausa e continuou:

― Não sabe que a condessa de Linières, que lhe serviu de mãe, se encontra em perigo de morte?

― A minha tia está assim tão mal?

― A senhora de Linières não resistiria já a uma emoção violenta ― asseverou o homem de ciência.

― Deus me livre de com o meu procedimento atentar contra a sua vida ― exclamou Rogério estremecendo. ― Ela tem um papel importante a desempenhar aqui na Terra, para a felicidade de alguém, como também o senhor na cura da cega. Por isso, o doutor e ela são as únicas pessoas que podem contar com todo o meu afecto e a quem não quero desagradar. Cumprirei os seus desejos, doutor.

― Está disposto a fazer tudo o que lhe ordenar? ― perguntou o médico visivelmente enternecido pelas palavras do cavaleiro.

O jovem respondeu resoluto:

― Até a arriscar a vida, se o senhor mo pedir.

― Não creio que seja preciso ir até esse ponto ― comentou o Dr. Herbert comovido. ― O que eu lhe peço, e penso que é absolutamente necessário, é que vá visitar sua extremosa tia e tente reconciliar-se com o senhor conde.

― O que me exige é tanto como o sacrifício do meu amor e da minha honra!

O médico espiava os mínimos gestos e reacções do seu interlocutor, com a esperança de que no espírito do desgraçado cavaleiro se fizesse a luz necessária para vencer aquela terrível luta em que se estava debatendo. E com calma, como um juiz que pronuncia uma sentença, disse-lhe:

― Não lhe quero fazer a injúria de duvidar de si, Rogério, porque estou convencido de que cumprirá rigorosamente o seu dever. Amanhã irá ao palácio de Linières e daqui até lá eu prepararei a condessa e o conde para esse grato acontecimento.

Rogério levantou-se rapidamente e exclamou, fixando o olhar no do doutor:

― E a outra vítima não achará o meu procedimento indigno?

― Confie em mim ― asseverou o doutor ―,  ela estimá-lo-á.

Depois, aproximando-se do cavaleiro de Vaudrey, pôs-lhe amistosamente a mão no ombro.

― Acalme-se, meu amigo ― disse. ― Tenha a esperança de que não está muito longe o dia em que voltará a ver a menina Gerard. Então terá o direito de proclamar em voz alta o seu amor.

― Que diz, doutor?

As palavras do cientista tinham feito vibrar as fibras mais sensíveis do coração do jovem cavaleiro.

― Que eu velo por vocês ― pronunciou o médico.

Para o atribulado Rogério, aquela frase fora um bálsamo protector que finalmente o fez encontrar a completa tranquilidade de espírito.

O médico, não querendo prolongar mais aquela comovente cena, estendeu a mão ao visitante como para dar por terminada a entrevista.

― E não se esqueça ― disse ainda o doutor, enquanto acompanhava Rogério até à porta ― que prometeu ir amanhã ver a condessa de Linières. Não se preocupe, porque, como já lhe disse, pela minha parte prepararei o terreno.

O cavaleiro de Vaudrey inclinou-se.

Momentos depois deixava a casa do médico levando no coração as melhores intenções. Cumpriu a sua palavra. ― Foi visitar o senhor de Lmières, a quem anunciou a próxima chegada do cavaleiro de Vaudrey.

― O conde dera ao Dr. Herbert toda a espécie de garantias e, no entanto, nesse momento, não estava muito certo de poder esquecer o que ele considerava como ofensas feitas pelo jovem sobrinho.

O nobre cavaleiro passeava inquieto o olhar por todos os cantos do gabinete, enquanto o cérebro se debatia em mil conjecturas. O que mais o angustiava era ignorar o que continha aquela folha que Rogério lhe tirara e na qual estava o segredo que tanto desejava desvendar e era a causa dos desgostos que o vinham torturando desde o primeiro dia do seu casamento.

O senhor de lenières prometera ao médico não ocasionar nenhum escândalo e sabia, além disso, que o menor choque moral podia causar um fatal desenlace na doença de sua esposa.

Encontrava-se na alternativa de acelerar a tão temida catástrofe e de se conter diante de Rogério, dando assim ampla vitória à causa do sobrinho, que resistiria ainda com mais afinco ao desejo manifestado pelo rei e teria nessa altura mais força para lhe pedir contas do castigo imposto a Henriqueta Gerard, um castigo que ele sabia injusto e que ditara levado pela cólera e pelo que ele julgava ser a defesa do glorioso nome da família.

Ao recordar tudo o que se passara, o coração do conde agitava-se violentamente, tanto mais que o mantivera silencioso durante muito tempo.

No entanto, e como que levado por uma reacção humana que nem ele mesmo sabia a que atribuir, a cólera cedeu lugar à ansiedade.

Não afastava os olhos da porta do escritório, até que por fim um criado anunciou:

― O cavaleiro de Vaudrey.

O senhor de Liniéres, antes do criado se retirar, ordenou;

― Pergunte à senhora condessa se pode receber o sobrinho.

Momentos depois o conde de Liniéres e o cavaleiro de Vaudrey encontravam-se frente a frente.

O primeiro falou, naquela entrevista, de tudo menos dos desejos do rei acerca do projectado matrimónio, que tinha servido de pretexto para os seus ataques de cólera.

Durante aqueles momentos, o subdirector-geral da Polícia só pensava na folha que lhe teria podido revelar o segredo da esposa, porque na verdade os desejos do rei pouca importância tinham ante o tormento que o afligia.

Porque o certo era que o rei, ignorando o drama que fora desencadeado por umas frases suas, ditas mais para envaidecer o conde de Liniéres do que por outra razão, teria acedido com prazer em que o cavaleiro de Vaudrey elegesse como esposa aquela que gozasse de sua preferência e evitaria assim o tormento do subdirector da Polícia.

Este revelou-se completamente durante aquela conversa.

― Se não tivesses arrancado aquela página fatal! Rogério ergueu-se diante do tio e exclamou:

― Se o não tivesse feito, hoje o senhor acusar-me-ia de uma acção indigna!

A conversa foi cortada pela aparição dum criado a anunciar que a condessa estava pronta para receber o sobrinho.

O senhor de Liniéres correu, com a sua própria mão, a cortina da porta que o separava dos aposentos de Diana e convidou o cavaleiro de Vaudrey a entrar.

A enferma, ao ver chegar o sobrinho, levantou-se da poltrona onde jazia e abrindo os braços segurou a cabeça de Rogério, como o teria feito uma mãe longamente separada de seu filho, encostando a ela os lábios febris, enquanto repetia:

― Rogério! Querido Rogério!

O conde de Liniéres desviou o olhar quando o jovem se precipitava nos braços da condessa.

Diana sentou-se novamente na poltrona e poucos minutos depois contava a Rogério, que estava ajoelhado a seus pés, todos os incidentes passados ao ser surpreendida pelo marido junto de Henriqueta.

O senhor de Linières escutava com interesse crescente, até que não pôde evitar aproximar-se da enferma, como se adivinhasse que por fim veria cair o véu que ocultava o passado de sua mulher.

― Naquele momento ― murmurou o conde em voz baixa

― havia lágrimas nos teus olhos e soluços na tua garganta, mas estou convencido de que não era por aquela que eu mandara prender que choravas.

Diana levantou os olhos.

― Não! ― continuou o conde. ― Não era por ela que as tuas lágrimas corriam. Não é verdade?

Diana, tomada de viva agitação, confessou ao esposo que acertara.

― É verdade! ― respondeu simplesmente.

O conde cravou então o enérgico olhar no de sua mulher, como se a quisesse fascinar para lhe arrancar o segredo.

― Então, por quem choravas? Por quem? ― gritou exasperado.

O olhar de Diana cruzou-se com o de Rogério e sem dúvida que se compreenderam, porque a condessa, totalmente abatida, exclamou:

― Como desejo morrer, Rogério! Como desejo morrer! Em seguida fez-se um silêncio impressionante. As três pessoas reflectiam nos olhos o que se passava no espírito de cada um. No interior das três personagens dava-se uma surda batalha.

Iria rebentar a ira do marquês de Linières? Onde chegariam as coisas?

Uma densa atmosfera presidia àquele ambiente, mas quando parecia que a situação não se podia manter nem mais um minuto um criado anunciou a chegada do Dr. Herbert.

Mas este não vinha só. Por trás dele via-se uma graciosa cabeleira loira.

Era a cega, era Luísa, que sem o saber se encontrava diante da própria mãe.

O médico, ante o espanto do conde de Linières e do cavaleiro de Vaudrey, conduziu a jovem pela mão até ao sítio onde estava a condessa,

Diana, dominada por uma forte comoção, segurou entre as suas uma das mãos da cega e esta, ao seu contacto, pareceu sentir na alma uma grande tranquilidade, um profundo sossego.

A condessa puxou uma cadeira próxima.

― Senta-te, querida. Aqui a meu lado.

Uma exclamação de surpresa escapou-se da garganta de Luísa ao ouvir aquela voz.

― Esta voz! Eu conheço esta voz! ― exclamou vivamente, ao mesmo tempo que se aproximava ainda mais de Diana.

― Deveras, conheces a minha voz? ― perguntou a condessa. ― Deves saber que estás no meio de pessoas que desejariam que fosses feliz.

Luísa não teve dúvida. Aquela voz era, efectivamente, sua conhecida.

― A senhora! A senhora!... ― exclamou, sem poder evitar que o seu coração batesse fortemente. ― A senhora teve pena de mim ― e perguntou, ansiosa: ― Não é verdade que já me falou noutra ocasião?

Enquanto Luísa evocava a cena da Praça de São Sulpício, Diana sentia-se desfalecer. A jovem recordava aquele dia em que a neve; caía em grandes flocos e os mendigos, tiritando de frio, esperavam uma esmola dos transeuntes.

― Lembro-me perfeitamente-prosseguiu Luísa juntando as mãos. ― Sim, foi um dia à saída duma igreja que se aproximou de mim dizendo-me: Toma, é para ti.

Luísa, ao lembrar aquela acção, sentiu uma tão infinita ternura em todo o seu ser que expressou um sorriso bondoso. Depois perguntou:

― Quem é a senhora?

Diana ía a responder sinceramente, mas compreendeu que era preciso voltar ao seu papel oficial. Olhou para o marido e disse:

― Sou a condessa de Linières.

― Então ― falou a cega estendendo instintivamente as duas mãos suplicantes ―,  tenha a bondade de me conduzir junto do senhor conde, para que eu lhe possa suplicar humildemente o perdão de minha irmã Henriqueta.

O subdirector-geral da Polícia não pôde reprimir um gesto, que ninguém poderia compreender se era de surpresa, de admiração ou de contrariedade.

O médico triunfava. Luísa aprendera bem a lição. Rogério, por sua vez, esperava ansioso o desenlace daquela comovedora cena. Não pôde evitar que um estremecimento lhe percorresse todo o corpo ao ouvir o nome da mulher que tanto amava. E temeu que o efeito que produzira no conde lhe fizesse estalar a cólera que continha.

O conde de Linières, que se debatia com os pensamentos mais díspares, afastara-se para um canto do quarto. Parecia que só a presença da condessa e a atitude da mesma reprimiam o seu amor.

Por sua parte Diana sentiu-se tomada da mais viva emoção ao aceder ao rogo da cega.

Com um movimento febril segurou as mãos que Luísa lhe estendia.

A condessa ficou como paralisada durante uns segundos, como se o que se estava passando fosse superior às suas forças. Parecia hesitar, titubeava.

No entanto, elevando os olhos para o céu como para suplicar o auxílio divino, conduziu lentamente Luísa até seu esposo.

Com a voz a tremer, devido à angústia que sentia naquele momento supremo, Diana, acompanhando o gesto com a palavra, murmurou:

― De joelhos, de joelhos, minha filha.

A cega estremeceu. Iniciou uma genuflexão e nuns instantes ajoelhou-se diante do conde com as mãos estendidas numa atitude implorante.

Aquele homem sentiu por um momento que as forças o abandonavam.

― Senhor conde! Tenha piedade!

Diana não pôde resistir àquela impressionante cena. Esqueceu-se de tudo e, com o afã de suplicar também ela o perdão, caiu de joelhos aos pés do esposo, repetindo o rogo da cega.

― Piedade, tem piedade.

Ante aquela demonstração de afecto por uma estranha, tão vivamente sentida por sua esposa, o senhor de Linières ficou surpreendido.

Durante uns instantes, os seus olhares foram alternadamente do rosto da condessa para o da cega, que traduzia a mais viva ansiedade. O coração oprimia-se-lhe mas o cérebro mantinha, todavia, o orgulho do nome como uma barreira intransponível, aquele orgulho que ele tanto respeitava e que o impedia de dar passagem aos verdadeiros sentimentos que lhe invadiam o espírito.

A cega rompeu o silêncio e, dirigindo-se novamente ao subdirector-geral da Polícia, falou pela segunda vez:

― Senhor! ― disse com voz soluçante. ― A minha irmã está inocente. Juro-o, senhor! Conceda-lhe o perdão e nós vos bendiremos como nosso salvador.

O olhar suplicante da condessa não se afastava do marido e foi talvez por isso que o senhor de Linières quis pôr termo àquela situação, tão penosa para a condessa.

Com um gesto rápido tirou da algi beira da casaca um papel, um daqueles papéis que costumava trazer sempre consigo para os casos de urgência. A folha tinha o selo vermelho da subdirecção-Geral da Polícia.

O médico e Rogério olharam-se ansiosamente. Nas pupilas de ambos assomou um imperceptível sinal de inteligência.

O conde de Linières aproximou-se então da cega, que se mantinha de joelhos. Perturbado, pôs a mão direita no ombro da jovem e ao fim de uns momentos de silêncio, que ninguém interrompeu, disse em tom agitado:

― Aqui está o perdão que me pede para sua irmã. Luísa pegou na mão que lhe repousava no ombro e levou-a aos lábios, u conde sentiu o fogo de duas lágrimas que pareciam queimar-lhe a pele. No entanto, acalmou-se e dirigindo-se para uma mesita assinou o documento.

Depois, voltando-se para o médico, acrescentou:

― Doutor, ponha o senhor mesmo o nome da sua protegida.

― Sim, senhor conde ― exclamou o doutor com a alegria reflectida no rosto.

 Segurou o documento assinado e preencheu imediatamente o espaço em branco com o nome de Henriqueta, depois do que se dirigiu à cega, enquanto Rogério por sua parte oferecia o braço à senhora de Linières, para a conduzir à poltrona, e exclamava num murmúrio imperceptível: ― Obrigado, meu Deus, obrigado!


XVII

O conde de Linières não podia dissimular a comoção. A voz do coração, que o conde em vão tentara reprimir, vencera por fim.

― Esta tarde mesmo expedirei a ordem para Nova Orleães ― exclamou dirigindo-se ao médico.

Herbert riu abertamente.

― Parece-me que não vai ser necessário ― asseverou tranquilamente.

Deu um passo para a porta e acrescentou:

― Eu próprio a vou buscar.

O subdirector da Polícia franziu a testa. Não compreendia o que aquele homem queria insinuar com tais palavras.

Por sua parte o doutor sabia que aquele ia ser o momento mais difícil.

Rogério sentia o coração bater com mais força do que de costume e o seu olhar procurava o de Diana, que, vencida pelas emoções sofridas, estava prestes a desfalecer.

Herbert julgou-se na obrigação de intervir.

Sem deixar de sorrir, pronunciou estas palavras à maneira de explicação:

― Tomei a liberdade de trazer a minha protegida.

E, calmamente, sem esperar resposta, abriu a porta e fez um sinal.

No umbral apareceu Henriqueta.

Todos os olhares se dirigiram para ela.

A jovem entrou com os olhos baixos e as mãos estendidas para o doutor.

Este tinha-lhe dito:

― Se a chamar, é porque foi perdoada.

É impossível descrever o que a irmã da cega sentiu quando o médico a chamou. Estava perdoada!

― Luísa! ― murmurou Henriqueta sem atinar o que dizer.

A cega, ao ouvir estas palavras, deu alguns passos, guiando-se pela voz daquela a quem queria como uma irmã.

― Henriqueta! ― exclamou. ― Agradece aos nossos benfeitores.

O senhor de Linières olhou de alto a baixo aquela a quem acabava de conceder o perdão.

Esta, quando viu que o cavaleiro de Vaudrey estava presente, não pôde reprimir uma exclamação de surpresa.

Rogério envolveu-a num terno olhar, mas não se atreveu a mover-se do seu lugar, porque naquele momento o subdirector da Polícia reconhecera a jovem que mandara prender nos arrabaldes de Santo Honorato.

― Mas essa mulher! ― gritou irado. ― Essa mulher!... A frase expirou-lhe nos lábios.

― Esta mulher ― cortou Rogério, que, esquecendo todas as conveniências, correu para o lado de Henriqueta-é a mulher a quem amo. É a mulher a quem eu amarei sempre.

― E num tom firme repetiu: ― Sempre, juro!

O conde Linières, senhor novamente do seu orgulho, ia a responder com uma daquelas frases ameaçadoras tão frequentes nele. Deu um passo para Rogério com os punhos cerrados. Mas Henriqueta, trémula de emoção, interpôs-se. O seu rosto tinha uma expressão resignada e sincera.

― Senhor ― suplicou ―,  esperai, por favor. Esperai e dignai-vos escutar-me. ― E, voltando-se para Rogério, acrescentou: ― Esquecei-me! O meu dever agora é viver para a minha querida irmã, apenas para ela.

No entanto, as lágrimas brotavam-lhe dos olhos e a voz quebrava-se-lhe na garganta.

Fez um supremo esforço para se acalmar e, enfrentando o senhor de Linières, disse:

― Agradeço-lhe, nobre cavalheiro, o que fez por mim. Em compensação, Luísa e eu partiremos de Paris. Não podemos fazer outra coisa.

― Então, partam agora mesmo! ― gritou o conde, apontando para a porta com o braço estendido.

As duas órfãs abraçaram-se instintivamente.

― Adeus! Adeus a todos! ― gritaram as duas.

Vendo que Luísa se ia embora, a senhora de Linières pareceu enlouquecer. Todos os sentimentos maternais se revelavam tumultuosamente. Naquele momento era a mãe, que, depois de ter encontrado a filha perdida durante tantos anos, via arrebatarem-na de novo do seu lado. Só o coração contava, e, não ouvindo nada além do seu desespero, levantou-se excitada e com inexorável segurança exclamou:

― Não, não! Parai! Não vos podeis ir embora! Eu não quero, não quero!

Era o grito da mãe que tinha saído do fundo daquele coração destroçado. Era o grito arrancado pelo desespero, que devia ressoar profundamente no peito de todos os que eram testemunhas daquele amor maternal.

O conde de Linières estava lívido.

Aquele grito acabava de ser dado por uma pessoa que tinha um segredo para ele. A resignação imposta durante tantos anos dissipara-se à vista da filha, como se a Providência achasse que era chegado o momento em que a mãe se pudesse sentir feliz.

A senhora de Linières pusera toda a força da sua alma torturada naquela exclamação e o esforço realizado abateu-lhe o corpo. Aquela situação acelerava a marcha da doença que já há muito tempo a minava.

A vida escapava-se do corpo.

Tinha a sensação de que no seu interior se produzia um terrível abalo que lhe fazia o sangue afluir ao coração e ao cérebro, de tal maneira que se viu obrigada a abandonar-se nos braços do esposo, enquanto dizia:

― Morro! Morro!

A desgraçada desfaleceu. O seu esposo dava mostras da mais intensa dor. O médico, afastando todos com imperiosa autoridade, examinou a enferma. Deixava então de ser o amigo para se converter no homem de ciência. Com o rosto impassível auscultou o peito de Diana.

Passaram alguns segundos durante os quais o doutor examinou a enferma.

O conde interrogou-o com um olhar.

― Nada posso dizer por enquanto. Foi como se lhe tivesse caído um raio do céu. Tudo se pode esperar do seu estado. Se o desfalecimento se prolonga... Ah! Esta dor secreta que lhe angustia a alma!

O conde dirigiu-se resolutamente para o sobrinho, agarrando-o vigorosamente por um braço.

― És tu quem a matas! Tu! ― e a sua voz era surda e concentrada.

― Eu? ― perguntou dignamente Rogério. O conde sacudiu o sobrinho.

― Sim, tu-repetiu ―,  tu, que me roubaste o segredo do seu sofrimento.

Ante o ataque de tão encarniçado inimigo, Rogério ficou paralisado.

Olhou friamente o conde e replicou:

― Poderia defender-me dessa acusação, mas este não é o lugar mais conveniente.

E como que inspirado por uma determinação enérgica, desprendeu a mão que ainda o agarrava e acrescentou:

― Vamos ao seu escritório. Aí responderei a essa acusação.

Os dois homens abandonaram a sala.

As órfãs, entretanto, tinham permanecido imóveis e agitadas pelos mais dolorosos pressentimentos. Luísa e Henriqueta esperavam também o final de todos aqueles acontecimentos. Nada podia dar uma idéia da pena que se tinha apoderado de Henriqueta, que estreitava a irmã contra o peito, enquanto Luísa rezava mentalmente. Durante alguns instantes permaneceram silenciosas atrás do médico, que continuava a observar a enferma.

Quando o cientista notou que as jovens se mantinham junto dela, voltou-se e disse-lhes:

― A fatalidade persegue a mais nobre, a mais digna criatura que se podia encontrar neste mundo. Que profundo desgosto deve dilacerar-lhe o coração!

O doutor, ao falar assim, satisfazia a necessidade de expressar os pensamentos.

As suas idéias tornavam-se mais claras e mais precisas a cada instante e perguntava-se se aquilo não era o princípio de um drama de família que estalava de repente.

― Não, não, pobre pequena ― disse o médico pondo paternamente a mão direita no ombro da cega. ― Deus não pode permitir tamanha desgraça.

O doutor continuou nos seus pensamentos sem afastar a vista da enferma, enquanto Henriqueta e Luísa permaneciam ansiosas.

Entretanto, o conde de Linières sentava-se diante da sua secretária.

― Pois bem ― exclamou ―,  já estamos aqui. Ordeno-te que fales.

Rogério, ante a transcendência do momento, sentiu um estremecimento de emoção. Levou a mão ao bolso da casaca, donde, silenciosamente, tirou uma carteira. com lentidão retirou dela um papel e estendeu-o diante dos olhos do conde.

― Esta é a folha que eu arranquei dos arquivos da polícia. O subdirector da Polícia segurou energicamente no papel.

Tinha por fim na mão a revelação do segredo que há tantos anos lhe atormentava a vida.

Ia poder ler aquelas linhas, sobre as quais, no entanto, parecia cerrar-se uma nuvem, que devido à sua perturbação parecia que as transformava em borrões.

Uma exclamação de triunfo saiu-lhe da garganta.

Rogério sentiu aquele grito ressoar no mais profundo do seu ser.

Naquele momento o cavaleiro de Vaudrey pensou em Diana, aquela doce vítima levada pela força das circunstâncias ao matrimónio que lhe tinham imposto e convertida na união de esposa submissa aos seus deveres conjugais. A mulher que se tinha visto obrigada a esconder um santo matrimónio efectuado por amor e a abandonar uma filha à caridade pública.

O cavaleiro de Vaudrey desejava demonstrar que aquela a quem considerava uma segunda mãe tinha a seu favor a resistência que opusera ao seu casamento, contrariando as ordens paternas. Reagiu, portanto, e disse com veemência:

― Senhor conde, lede, mas recordai sobretudo todo o passado. Não esqueçais as súplicas de Diana e as suas lágrimas, que precederam o dia do seu enlace.

O conde não ouvia nada. com olhar febril devorava as linhas insertas naquele papel que lhe tremia nas mãos. Em frases rápidas via desfilar toda a novela de amor que servira de prólogo ao casamento de Diana de Vaudrey.

Por fim, descobria o segredo daquela lenta doença que consumia sua esposa, e, conforme ia lendo, no coração via que não ficava lugar para um sentimento de humanidade.

Sentia-se profundamente ferido no orgulho por aquela revelação.

O subdirector da Polícia, cego pelo furor, lançou um grito de raiva.

Dos seus lábios, a espumar de cólera, saíram palavras incoerentes que traduziam as torturas da alma, e, levado pela intensidade daquele sentimento reprimido que sentia, chegou a dizer, fora de si:

― Atraiçoado! Enganado por ela!

Rogério saltou em defesa da mulher que adorava como a uma mãe e que era acusada diante dele.

― Por ela não! ― respondeu. ― Não fostes enganado por ela, mas por aqueles que, como vós, não compreenderam a autenticidade dos sentimentos humanos. Não foi ela que vos atraiçoou, mas aqueles, quero repeti-lo, que fizeram do silêncio questão de vida ou de morte para a sua filha.

O conde sentiu como que uma chicotada no corpo.

― Sua filha?

Esta exclamação, que a surpresa arrancava ao conde, depois da dolorosa revelação do secreto casamento de Diana de Linières com outro homem, foi o golpe final para o seu espírito, tão profundamente abalado.

O conde ficou um instante como que privado da razão.

Rogério espiava atentamente as reacções do tio, que levou vivamente as mãos ao peito, para afogar a dor que lhe atormentava o coração.

― Sua filha! Sua filha ― repetia com uma voz que parecia a de um alienado.

Rogério sentiu que a comoção lhe invadia a alma, ao prever a desaparição de toda a felicidade, de toda a esperança.

No entanto, não lhe faltou coragem para replicar:

― Senhor conde ― a sua voz era tranquila. ― Sim, a sua filha, de quem está separada há dezasseis anos.

O senhor de Linières parecia reflectir, apertando a cabeça entre as mãos.

― Uma filha ― atreveu-se a dizer Rogério ― que Deus lhe devolve agora.

O conde pareceu sair da sua perplexidade.

― Que queres dizer? ― perguntou recobrando a lucidez de espírito, ao mesmo tempo que recobrava a calma.

O cavaleiro de Vaudrey não tinha outra solução senão completar a revelação que tinha começado, e, tentando dar às suas palavras a melhor entoação possível, contou brevemente ao conde como Diana e o doutor, em conversas sucessivas com as órfãs, tinham conseguido averiguar que uma delas era a filha da condessa.

― Uma delas? ― perguntou intranquilo o conde.

― Certamente ― asseverou Rogério ―,  uma delas e, decerto, a mais infeliz das duas. Trata-se da cega.

― Essa!... Essa mendiga!... ― gritou, mais do que exclamou, o senhor de Linières.

O golpe fora demasiado violento.

E aquele homem, para quem a força de vontade tinha sido sempre a sua melhor arma, vacilou e deixou-se cair num cadeirão, dando a Rogério o espectáculo de uma dor e de um desespero que raiava o paroxismo.

Era uma luta interior entre os nobres sentimentos e a exasperação do espírito, ferido pela mais cruel decepção.

O conde via o seu nome abandonado à maledicência, como pedra de escândalo.

Como iria dar um cunho de simplicidade a tão tremendo problema?

As idéias sucediam-se com uma rapidez vertiginosa, sem que o seu cérebro fosse capaz de tomar uma resolução.

Rogério esperava o fim daquela crise, da qual num sentido ou noutro teria de sair alguma resolução enérgica. O jovem aguardava.

A esperança não o abandonava e seguia com respeito as reflexões do tio.

Por fim, depois de um longo mutismo, o senhor conde de Linières passou rapidamente a mão pela testa, levantou-se com a sua peculiar energia e com um movimento febril rasgou a folha de papel que pouco antes o sobrinho lhe entregara.

Depois, já de pé e com os olhos chamejantes, disse em tom solene:

― Cavaleiro de Vaudrey, já nada temos que fazer aqui.

O conde tomou o sobrinho por um braço e encaminhou-se com ele para a porta.

Poucos momentos depois chegaram ao compartimento onde tinham deixado, desmaiada, a condessa.

Diana parecia voltar a si naquele instante. Abrira os olhos, e a vista, intranquila e vaga ainda, deteve-se nas duas órfãs ajoelhadas a seus pés.

O médico mostrava a sua satisfação ao verificar que a vida voltava àquele corpo.

A condessa dirigiu o olhar para o esposo e disse com voz hesitante, apontando para as duas jovens.

― Obrigado por ter permitido que não partam tão depressa.

― Sim ― disse o senhor de Linières com um gesto como de protesto ―,  dei-lhes licença.

Diana soltou um profundo suspiro.

O senhor de Linières aproximou-se lentamente da poltrona onde repousava Diana, que revelava no rosto um doce sossego e uma felicidade infinita.

― Compreendi ― explicou o magistrado ― que uma separação total deixaria aqui uma dor eterna.

Diana abriu os olhos sem compreender totalmente aquelas palavras.

― Por ti e pelo filho de tua irmã ― continuou o conde ―,  por quem tanto carinho professas, impus à minha alma um imenso sacrifício que atinge todo o orgulho do meu nome. Estas jovens não partirão.

Diana tentou levantar-se para se lançar nos braços do marido.

Todos os presentes demonstravam nas expressões a estupefacção que as palavras do conde lhes tinham causado.

― É verdade que não partirão? ― perguntou a condessa, sem poder conter a alegria que sentia.

Passaram-se alguns segundos embaraçosos, até que Henriqueta, impelida a manifestar a sua gratidão ao homem que lhe perdoara e que se impunha, como ele próprio dissera, um imenso sacrifício, lançou-se aos pés do conde e beijou-lhe as mãos.

― Oh! senhor, senhor! Como lhe poderei pagar?

O senhor de Linières fê-la levantar-se e, olhando-a serenamente, disse:

― Consinto, menina ― o tom da sua voz era paternal ―,  consinto em que viva em Paris e faço votos para que os planos mais queridos do meu sobrinho se vejam realizados.

A frase foi interrompida por um grito de imensa alegria, lançado ao mesmo tempo por Henriqueta e Rogério, ao compreenderem que o conde autorizava o seu enlace.

Luísa, levada também por aquela grande corrente de alegria que se apoderara de todos os presentes, dirigiu-se ao conde de Linières para lhe dizer balbuciante:

― Permita-me, senhor, que me ajoelhe a vossos pés em sinal de agradecimento e felicidade.

Mas o conde, segurando-lhe na mão, não a deixou realizar aquela acção.

Conduziu-a até à poltrona da condessa.

― Vinde aqui ― a sua voz agora era doce. E olhando Diana acrescentou: ― És uma pobre criatura sem protecção. Como a menina Henriqueta já tem outro afecto, esta órfã vai ficar muito só e triste.

O senhor de Linières teve de fazer uma pausa para dominar a comoção que sentia.

― Se o desejas... ― acrescentou ― se te parece bem, querida Diana, nós a adoptaremos.

A condessa lançou um grito de alegria indescritível.

Tinha-se levantado olhando fixamente o sobrinho e duvidando ainda se o marido a queria submeter a uma nova e decisiva prova.

Rogério mostrava enorme serenidade no olhar.

Diana olhou então o conde e viu que o rosto deste reflectia doçura e compaixão sinceras.

Tremendo de felicidade, abriu os braços para estreitar contra o peito a filha que lhe era devolvida, o anjo que lhe era permitido amar sem restrições, abertamente, à luz do dia, tal como todas as mães do mundo amam os filhos.

Luísa estremecia de emoção, misturando as suas lágrimas com as da condessa. Na alma sentia uma paz reconfortante.

O conde, enternecido, aproximou-se da esposa. Pôs-lhe a mão no ombro e disse solenemente:

― Sim, Diana, podes amá-la; a partir de hoje será nossa filha.


XVIII

A Frochard deixara de sair para percorrer as ruas. Desde a morte de Jacobo, a velha vagabunda ficara idiotizada. Só tinha forças para maltratar o filho, a quem dirigia os piores insultos quando, à noite, o trabalho deste não rendera tanto quanto ela desejava. O pobre, como sempre, continuava a ser vítima daquela desprezível mulher.

E não é que Pedro trabalhasse menos do que dantes. O jovem percorria todos os bairros de Paris com esse intuito e também na esperança de que pudesse vir a ter a imensa alegria de ver de novo Luísa, aquela cega que durante muitos dias fora o seu único consolo e que soubera despertar-lhe no coração os mais nobres sentimentos.

O amolador, na sua solidão, sentia o coração dilacerado, embora nas suas reflexões reconhecesse que não lhe era possível amar uma jovem tão bela.

Entretanto, a miserável Frochard passava a vida a beber, até ficar completamente embriagada.

Era então que Pedro sentia mais do que nunca o coração oprimir-se-lhe. A mãe dava rédea solta ao seu furor e maltratava-o porque a ração de aguardente não tinha sido a que ela desejava.

Certa noite, uma luxuosa carruagem deteve-se à porta do sujo abrigo da Frochard e do filho.

Um cavalheiro desceu dela e penetrou resolutamente na barraca.

Poucos minutos depois, este saiu com o amolador e fê-lo subir para a carruagem, que imediatamente partiu ao trote dos cavalos.

O cavalheiro que se apresentou na casa de Pedro era o Dr. Herbert, que, cumprindo a palavra que certo dia lhe dera, fora arrancá-lo da sua miséria e sofrimento.

O jovem não atinava com o que havia de dizer ao seu

protector. Na sua mente debatia-se apenas uma idéia que

não se atrevia a exteriorizar. Estaria Luísa em casa do doutor?

 Poderia vê-la?

 E, dominado pela comoção, o amolador deixou-se conduzir ignorando que precisamente a cega tinha perguntado com

insistência e repetidas vezes por ele.

A Frochard, que quando Pedro partiu estava sob os efeitos do álcool, ao ver-se sozinha desafogou o seu furor deixando escapar por aquela boca desprezível as mais duras imprecações e as mais terríveis blasfémias.

Os poucos móveis foram derrubados, até que, tropeçando aqui e acolá, foi de encontro à mesa, que caiu sobre ela e a feriu na cabeça.

Da garganta escapou-se-lhe um grito espantoso, produzido pela dor.

A velha, apesar do golpe, reagiu momentaneamente e começou a chamar:

― A mim! Socorro! A mim!

Fez os maiores esforços para se levantar, mas foi inútil. As forças faltaram-lhe e teve de se arrastar pelo chão como um réptil.

No seu desespero procurava um ponto de apoio para tentar levantar-se, e, ao verificar que ninguém vinha em seu auxílio, continuava a vociferar os mais terríveis palavrões que jamais foram pronunciados por uma boca humana.

De repente, levou a mão direita à cara e pôde verificar que um fio de sangue, que saía da testa, lhe escorria tragicamente pelo rosto.

Orientando-se, aos tombos, aproximou-se do fogareiro. Depois de grandes esforços para avivar as brasas, conseguiu incendiar um papel e com ele acendeu uma vela segura no gargalo da garrafa.

Em seguida pegou nela e tentou subir a carcomida escada de madeira que conduzia ao sótão.

Sentia que as forças a abandonavam e, para não cair, sentou-se no terceiro degrau, deixando a vela acesa ao seu lado.

Momentos depois, a Frochard, com o estômago saturado de álcool, inclinava a cabeça para o peito e adormecia.

Durante o sono pronunciava palavras incoerentes, sem qualquer sentido.

― Jacobo! Meu "Querubim"!

De repente fazia um gesto, como se todo o sistema nervoso a sacudisse, e dizia:

― Monstro! Afasta-te de mim, Pedro asqueroso!

Num desses movimentos empurrou a garrafa e a chama da vela incendiou as roupas da velha; quando acordou, estava envolta em chamas e estas já lhe queimavam a pele.

Rebolou-se enlouquecida e, uivando como uma fera, começou a gritar pedindo auxílio.

― Ninguém respondia aos seus lamentos.

As chamas, activadas pelos movimentos violentos que fazia, cresciam cada vez mais.

Com as mais espantosas contorções, produzidas pelo pânico e pela dor, a miserável suplicava:

― Salvem-me! Salvem-me!

As suas mãos, desafiando o fogo, tentavam arrancar os farrapos que lhe cobriam as flácidas carnes, mas teve de desistir do seu intento, porque os cabelos começaram também a arder, como o resto do corpo.

Levada pela força que produz o desespero, a Frochard lançou-se frenèticamente contra a débil porta da barraca, da qual saltaram algumas tábuas, e saiu para a rua pela brecha que a pancada produzira.

Corria pedindo auxílio, enquanto gritava sem cessar.

Nas barracas ninguém dava sinal de vida.

As portas permaneciam fechadas. Parecia que a justiça divina tornava surdos todos os moradores dos arredores, ninguém se ocupando com a odiosa mulher que todos desprezavam.

No interior das casas, no entanto, os gritos da vagabunda tinham sido ouvidos, mas todos encolhiam os ombros e murmuravam:

― Bah! A Frochard está embriagada como um tonel. Sempre com estes espectáculos degradantes.

Os gritos da desgraçada eram cada vez mais débeis.

Por fim, caiu na lama da rua, revolvendo-se em horríveis contracções, desamparada por todos.

Ali, naquele lugar onde tantas vezes tinha arrastado Luísa, exigindo-lhe os maiores sacrifícios, jazia o corpo da Frochard, já completamente inerte, acabando de se queimar.

Quando algumas horas mais tarde passou uma ronda, apenas encontrou uma massa informe de cinzas e ossos calcinados.

Quando Pedro soube da trágica morte de sua mãe, já depois de ter sido recolhido em casa do Dr. Herbert, levantou os olhos para o céu solicitando clemência para a desgraçada, enquanto dos lábios lhe saía uma oração.

Haviam passado três meses e encontravam-se reunidas em casa do bondoso cirurgião as principais personagens da nossa história.

Luísa fora operada e conservava ainda uma ligadura nos olhos.

O antigo amolador, que parecia outro em todos os aspectos, não afastava a vista da jovem.

Alguns dias antes deste encontro, o Dr. Herbert aproximara-se da cega, dizendo-lhe bondosamente:

― Sei que tenho de cumprir a minha promessa. Chegou a hora, mas é preciso que por tua vez te não esqueças do que prometeste; tem serenidade e coragem.

― Sim, doutor, hei-de ter.

A condessa e Henriqueta, que se encontravam presentes, avançaram uns passos para ajudar o doutor, mas este fez um sinal com a mão para que se detivessem.

Aproximou-se de Diana e disse em voz baixa:

― Seria contraproducente. Uma emoção demasiado viva da vossa parte poderia provocar em Luísa qualquer movimento involuntário que faria fracassar a operação. É melhor que me deixem só. Mantenham-se à distância que eu tratarei devidamente da nossa amiguinha.

O médico introduziu então a cega no seu gabinete e ajudou-a a estender-se num canapé.

Colocou uma almofada sob o pescoço da jovem, e, ao observar que ela mantinha a cabeça rígida na mesma linha do corpo, perguntou:

― Bem, minha filha, estás realmente em estado de suportar a operação?

― Estou pronta-respondeu a enferma com voz firme e segura.

O doutor fez os preparativos, sem deixar de observar Luísa. Esta, durante aquele tempo, não fez um só movimento. i Diana e Henriqueta, com as mãos juntas, rezavam, mentalmente, num canto do compartimento contíguo. O médico abriu um estojo e pegou numa lanceta. Aproximou-se de Luísa, olhou-a compassivamente e benzeu-se.

O momento supremo tinha chegado.

O médico concentrou-se durante alguns segundos. Mas se nele havia alguma emoção, esta foi rapidamente vencida, porque os seus olhos reflectiam a maior serenidade. ― Minha filha ― disse o cientista afàvelmente  ―,  chegou o momento.

E acariciou os cabelos da jovem e acrescentou: ― Abre bem os olhos.

Luísa obedeceu e ficou rígida como uma estátua. Então o médico, enquanto com a mão esquerda segurava a pálpebra superior, com a direita fez uma incisão entre a córnea e a esclerótica. Depois, comprimindo habilmente a primeira, fez sair pela incisão uma espécie de pequeno cristal mate da forma duma lentilha. Era ele que, tendo perdido a sua transparência, impedia os raios luminosos de chegarem ao nervo óptico. O doutor suspirou satisfeito. A operação demorara escassos minutos. Em seguida repetiu o mesmo trabalho no outro olho e finalmente cobriu a vista da jovem com uma fina ligadura. A uma indicação sua, Diana e Henriqueta aproximaram-se da paciente.

A condessa sentiu um estremecimento e, olhando para o

médico sem poder conter as lágrimas, perguntou:

― Correu tudo bem?

Henriqueta tão-pouco podia reprimir a angústia.

― Verá, doutor? ― A sua voz era trémula.

― Já sabem o que eu disse ― comentou Herbert. ― Deus responderá por mim dentro de uns dias.

E tinham passado os dias que o doutor indicara. Era esse o motivo por que se encontravam todos reunidos.

Luísa ia ver pela primeira vez o amolador, que o bom doutor adoptara.

A jovem sentia uma grande inquietação por não poder sequer imaginar como seria aquele rapaz que ela sabia bom, e a quem os seus parentes chamavam monstro.

Fosse como fosse, ela não se afligiria com a sua deformidade e testemunhar-lhe-ia a mesma simpatia de outros tempos, fazendo-lhe compreender com palavras doces que pensara muito nele e que era feliz por tê-lo a seu lado.

Uma emoção irreprimível invadiu todos os presentes.

O doutor preparava-se para tirar as ligaduras dos olhos de Luísa, confiando em que o Todo-Poderoso o teria ajudado no seu trabalho.

Com passo firme aproximou-se da jovem e começou a tirar a venda que lhe cobria os olhos.

Naquele momento apareceu um criado seguido duma visita.

Henriqueta voltou-se e lançou uma exclamação de surpresa.

― Mariana! ― Correu para ela e as duas uniram-se num abraço. ― Tu aqui? Que alegria! Que alegria tão grande! Chegaste no momento preciso em que a minha querida irmã vai dar-nos a mais agradável das surpresas ou a mais terrível das contrariedades.

Como era que Mariana surgira em casa do doutor?

Tínhamo-la deixado no momento em que o seu noivo se dirigia à Martinica para preparar a boda, uma boda que se realizou na intimidade, mas que tanta felicidade proporcionou aos dois enamorados.

Haviam regressado à Luisiana para apresentar os seus respeitos ao governador e a toda a família pelas atenções recebidas, especialmente Mariana, que não sabia como agradecer o que ela considerava um exagerado altruísmo por uma humilde pessoa.

Depois, antes de ir para as plantações do tio a fim de tomar a sua administração, Carlos D'Ouvelles quis cumprir a promessa que fizera a Mariana e que, por outro lado, ele pensava ser um dever: recolher o "filho da alfaiataria", que os dois consideravam como seu filho.

Foi assim que o jovem casal embarcou no primeiro barco que partia para a Europa.

Ao desembarcar no Havre, Carlos teve de render-se à evidência de passar ali alguns dias, na companhia da sua querida esposa, cumulado de gentilezas por vários antigos companheiros de armas, que desta forma rendiam o tributo de simpatia que D'Ouvelles tinha captado ao longo da sua carreira de navegante.

Também deste modo pôde ampliar os mínimos pormenores referentes ao naufrágio do brigue O Glorioso, aproveitando a ocasião tão favorável que se apresentava para mencionar o admirável comportamento da que então ainda não era sua esposa.

Porque Carlos, levado pelo entusiasmo e pela verdade, essa verdade que os homens de boa vontade nunca ocultam quando se trata da verdadeira justiça, não quis ocultar as circunstâncias em que conhecera Mariana, visto que por ela se tinha feito credora de toda a sua simpatia e de todo o seu amor.

Por fim chegaram a Paris e a primeira diligência foi visitar a antiga alfaiataria onde Mariana prestara serviços e onde foi recebida de braços abertos pelas antigas companheiras, que conheciam de sobra os motivos que tinham levado a jovem a pecar.

Mas aquelas caras de alegria e satisfação, por voltarem a ver a companheira de quem tanto gostavam, esfumaram-se por completo quando Mariana lhes disse que o esposo era tio do pequeno órfão.

Aquelas humildes operárias queriam todas entranhadamente ao que consideravam como seu filho, e, portanto, não é de admirar o desgosto que lhes produzia o facto de terem de se separar do pequeno.

No entanto, renderam-se à evidência e aceitaram a decisão de Carlos, considerando que além de lhe assistir a razão e de a lei estar por ele, era suficiente que fosse o marido da sua antiga companheira para saberem que o pequeno receberia todos os cuidados de que necessitava.

Mariana segurou a criança nos braços e beijou-a, chorando. E sem que ninguém a ouvisse, sem que ninguém notasse, murmurou-lhe ao ouvido, como se o pequeno pudesse compreendê-la:

― Perdoa-me tu também, meu filho, perdoa-me para que a minha consciência fique completamente tranquila.

A jovem sentiu como que um raio de luz invadir-lhe todo o espírito, como se uma terna voz lhe dissesse baixinho:

― Sim, perdoo-te.

No dia seguinte, Carlos e Mariana, com a ânsia de saberem notícias de Henriqueta, visitaram a senhora de Ervigny.

Esta, que depois dos acontecimentos passados em sua casa seguira passo a passo todos os incidentes ocorridos a Henriqueta, recebeu Mariana com os braços abertos, à qual numa má altura, e levada pelas circunstâncias, chegou a considerar como uma ladra.

Carlos teve conhecimento da morada do Dr. Herbert por informação da senhora de Ervigny, que durante o inquérito fora obrigada pela polícia a comparecer e a prestar certas declarações para comprometer Henriqueta; nessa ocasião teve ensejo de falar com o médico, que a convidou a ir a sua casa para lhe explicar com todos os pormenores quão enganada estava a respeito daquela que tinham feito prender.

Durante a conversa ouviu-se tantas vezes o nome de Henriqueta Gerard, que apenas isto seria suficiente para despertar a curiosidade de Carlos, se ele não trouxesse já escrito no coração aquele nome que abençoava e que tanto tinha contribuído para que ele alcançasse a felicidade de que gozava agora.

O ex-marinheiro estava, portanto, impaciente por conhecer Henriqueta, cujo nome pronunciara tantas vezes julgando ser o de Mariana.

E agora que o momento se aproximava, o seu coração batia de alegria ao ver que podia agradecer àquela nobre criatura que tanto sofrera e que tão ligada estava a sua esposa.

Sem perda de tempo o jovem casal dirigiu-se a casa do Dr. Herbert, aonde chegaram no momento preciso em que este começava a tirar a ligadura dos olhos de Luísa.

Fizera-se um silêncio impressionante naquela sala.

Momentos depois o doutor terminou o cuidadoso trabalho.

Luísa permaneceu por momentos paralisada e ao mesmo tempo dominada pela mais viva excitação.

Todos a olharam com ansiedade e puderam ver a jovem mover os olhos de um lado para outro, observando todas aquelas caras.

De súbito, um grito de júbilo geral escapou-se de todas as gargantas.

A cega via!

O seu primeiro movimento foi de assombro. Depois sorriu beatificamente e murmurou:

― Obrigada, meu Deus, obrigada!

E aqueles olhos, que tanto tempo tinham estado nas trevas, ergueram-se para o céu com uma expressão de sublime agradecimento.

Em seguida contemplou detidamente os presentes um a um, detendo-se por fim o seu olhar em Pedro.

Ao lado dela estava o pobre amolador, aquele ser humilde que ia pelas ruas apregoando o seu ofício.

― Pedro! ― exclamou Luísa com voz trémula de emoção. O jovem levantou-se rapidamente e tentou dar alguns passos, mas não o pôde fazer. As pernas tremiam-lhe e teve de permanecer assim durante muito tempo. Depois, endireitou-se o mais possível e aproximou-se de Luísa, beijando-lhe as mãos com devoção.

Mais tarde, depois de passados aqueles momentos de inquietação, a alegria era transbordante.

Henriqueta ria e chorava ao mesmo tempo.

Abraçaram-se uns aos outros, até que por fim o doutor exclamou radiante:

― Saudemos a aurora que se levanta! Saudemos a juventude, a felicidade e os corações amantes que se encontram!

Um Hurra!" unânime apoiou as palavras do doutor.

Mariana apresentou Carlos à sua amiga e viu-se obrigada a contar tudo quanto lhe tinha acontecido desde que ambas se separaram no Saladero.

Também Henriqueta teve de fazer o mesmo para satisfação de todos.

D'Ouvelles escutou comovido todas as penas passadas pela irmã de Luísa, já quase perdidas nas brumas do passado, porque a radiante felicidade daqueles momentos tinha forçosamente de fazer esquecer os tempos idos que ficavam como uma página triste da história, apesar de terem dilacerado tão fortemente os corações.
 

XIX

A alegria que Diana de Vaudrey, condessa de Linières, experimentou produziu uma melhoria súbita na sua saúde. Os olhos brilhavam-lhe com uma expressão que há muitos anos não tinham, o sorriso assomava-lhe frequentemente aos lábios e a leveza do seu corpo havia voltado.

O Dr. Herbert tinha razão quando dissera que Diana não precisava da ciência dos homens para se curar, mas sim que a mão Divina lhe devolvesse a paz ao espírito atormentado.

E aquela paz chegara finalmente.

O seu coração irradiava felicidade e no fundo do seu ser sentia renascer toda a alegria perdida, pelo que constantemente elevava orações ao céu em acção de graças.

Recuperara a filha e considerava isso como o melhor prémio que Deus lhe podia ter dado, em atenção aos sofrimentos passados.

O conde de Linières, apesar de se sentir ferido pela revelação do segredo da esposa, sentia também uma alegria indescritível ao ver que renascia nela a alegria e a felicidade.

E aquele homem orgulhoso, que tanto adorava o seu apelido, ― ia sendo atraído sem o notar pela bondosa Luísa, que o cumulava de atenções.

Inclusivamente, mais de uma vez ela o fez sorrir e via-se perturbado frequentemente pelas ingénuas perguntas da jovem, que considerando-o como pai lhe participava os mais pequenos problemas, para os quais pedia ajuda e conselho.

Por sua vez, o cavaleiro de Vaudrey influía também com o seu nobre proceder para que no seio daquela família reinasse a paz e se assegurasse uma tranquilidade perdurável.

Fazia com Henriqueta projectos para o futuro. Tinham pensado casar-se o mais depressa possível e pediram autorização aos condes para anunciar o noivado.

O subdirector da Polícia deu-lhes a maior e certamente a mais agradável das surpresas.

― Sim, sim ― disse, querendo manter aquela arrogância tão peculiar nele ―,  já pensei nisso e espero apenas que procedam aos preparativos.

O conde retirou-se a seguir a estas palavras, para que os seus familiares não vissem que o coração o estava atraiçoando.

Quando estava só, aquele homem forte por mais de uma vez tinha chorado. Era, apesar de tudo, um ser humano que tinha um coração que nem sempre se podia fechar à vontade e aos desejos do cérebro.

Compreendia claramente como fora injusto para com sua mulher durante os dezasseis anos de casados, durante os quais os ciúmes não o haviam deixado tranquilo, ciúmes motivados pelo orgulho que tanto lhe custara dominar.

Ah! Se ele tivesse podido acreditar que no coração não se manda. Se ele tivesse compreendido que todos os entes têm direito à felicidade. Se ele tivesse visto que Deus não dá valor às pessoas pelo que têm, mas sim pelo que são. Quantos erros poderia ter evitado!

Porque se Diana ocultou a toda a sua família, com excepção da irmã, aquele primeiro casamento, não foi porque tivesse de ocultar qualquer pecado, mas porque temia as reacções dos homens contra um enlace que Deus abençoara.

Deus e os homens!

O conde meditou profundamente e foi então que, despojado totalmente daqueles preconceitos que eram um desafio aos próprios desígnios divinos, notou a pequenez da sua pessoa, dos seus brasões, do seu nobre apelido e de tudo aquilo que ele tanto considerava, ante a bondade dos corações eleitos e o verdadeiro amor dos que sabem amar desinteressadamente.

E no seu coração começou a fazer-se luz.

Também na moradia do Dr. Herbert a vida corria com uma alegria sem limites. Ali, como sabemos, vivia Pedro como um autêntico filho do médico e ali permanecia Henriqueta, à espera dos acontecimentos que a haviam de levar à felicidade.

Ambos os jovens comunicavam as suas impressões e esperanças e passavam os dias na mais absoluta tranquilidade.

O cavaleiro de Vaudrey, totalmente reabilitado, fora recebido pelo rei e certo dia pôde comunicar a Henriqueta, com o coração cheio de alegria, que o tinham nomeado para um alto cargo. O conde de Linières interviera a seu favor, contribuindo para que tudo voltasse à normalidade.

Certo dia, Pedro, com autorização do doutor e da condessa Diana, e acedendo aos rogos de Luísa, a quem não se atrevia a confessar o seu amor, visitou em sua companhia o bairro onde tinha passado tantos anos de privação e onde a sua amada também sofrera os piores tratos da Frochard.

O jovem fez deter o coche muito antes de chegar à Rua de Lourcine, à entrada daquele bairro mísero e repugnante.

Ajudou Luísa a descer da carruagem e avançaram ambos por aquelas horríveis vielas.

Luísa olhava aterrada para todos os lados, sem poder compreender como era possível que durante tanto tempo tivesse podido cruzar aqueles lugares com tanta coragem.

O jovem ia-lhe explicando a cada passo certos pormenores e episódios, dos quais fora protagonista a própria Luísa.

Algumas pessoas reconheceram o antigo amolador, aproximaram-se dele, e enquanto alguns se congratulavam pela sua repentina mudança de posição, outros não podiam reprimir a inveja que sentiam. No entanto, todos se alegravam por Luísa ter recuperado a vista e por haverem terminado os seus sofrimentos.

Seguiram um bom bocado pela margem do rio e depois, a indicação de Pedro, viraram à esquerda.

― Ali ― explicou o jovem apontando várias barracas meio destruídas ― é o sítio para onde a trouxeram.

Luísa estremeceu ao contemplar aquela desolação e abandono.

― É a Rua Lourcine.

Andaram mais uns minutos em silêncio, até que o filho da desaparecida mendiga parou diante duma autêntica choça e disse:

― É esta a casa.

A irmã de Henriqueta não pôde reprimir um gesto de repugnância e teve de esconder a cara entre as mãos.

Pedro meditou uns instantes, respeitando a dor da companheira, e pensou que não era de estranhar que ninguém se tivesse atrevido a habitar de novo aquele antro de miséria. Eram muitos, para não dizer todos, os que naquele bairro consideravam a Frochard como um espírito maligno e que consideravam, portanto, que o seu cubículo estava embruxado.

E aquela idéia mantinha-se depois da morte da mendiga.

― Quer entrar? ― perguntou Pedro.

Luísa levantou os olhos e tentou acalmar-se. Hesitou uns instantes, mas por fim exclamou:

― Sim, meu amigo. A seu lado também me sinto agora corajosa como antigamente. Entremos. Quero ver com os meus olhos o que foi a minha prisão.

Luísa apoiou-se no braço do companheiro e, subindo os degraus escorregadios, penetraram na choça.

Momentaneamente nada viram, porque a escuridão era quase total.

Percorreram-na durante alguns minutos sem trocar uma só palavra, até que as imagens do cubículo pareceram iluminar-se e se tornaram completamente visíveis.

A jovem sentia tremerem-lhe as pernas ante aquele espectáculo tão desolador. Não podia acreditar no que via e recordou com espanto os dias passados naquele buraco, maltratada por todos e praticamente abandonada à sua sorte.

Sem dar por isso, apertou com a mão o braço de Pedro, aquele rapaz que agora, como antes, não a abandonara e que foi o único consolo que teve naqueles dias de luta terrível.

O seu olhar continuou a percorrer todos os recantos e de súbito deteve-se na pedra de afiar que estava no chão.

Sentiu um estremecimento percorrer-lhe todo o corpo.

Aquele objecto de trabalho tinha servido muitas vezes para que ela comesse algum alimento agradável, que o jovem lhe trazia sem ninguém saber, e tinha sido também o instrumento de justiça que Deus certamente enviara em seu auxílio, para que Jacobo desaparecesse e com ele toda a força moral da desprezível Frochard.

O ex-amolador não dizia nada, porque também sentia uma dor profunda no coração, e agora mais do que nunca avaliava o seu recto procedimento, ao verificar a coragem que naquele dia tivera para enfrentar o irmão.

Olhou atentamente a companheira e depois, levantando a mão, indicou o sótão, onde Luísa derramara tantas lágrimas. A jovem não respondeu, mas levados pelo mesmo impulso avançaram até ao escuro canto onde começava a carcomida escada. Pararam ambos. Ao lado da escada, num lugar pouco iluminado, viram a atlética figura de um homem com a cabeça inclinada para o peito em atitude de meditação.

Os dois jovens olharam-se surpreendidos. Luísa teve de afogar um grito que se lhe escapava da garganta. Era o conde de Linières. Sim, era o subdirector-geral da Polícia que se encontrava ali; era a alta personagem que meditava no cubículo da velha desaparecida; era, finalmente, o homem que pela primeira vez na vida via os sofrimentos dos outros e as misérias humanas.

Pedro e Luísa respeitaram o silêncio do conde e saíram para a rua.

― É o meu protector-explicou a jovem. E olhando ternamente o companheiro, acrescentou: ― O nosso protector, a quem devemos admiração e respeito.

Luísa viu-se então obrigada a explicar certos pormenores que Pedro ignorava. De repente, o cavaleiro apareceu no escuro umbral da porta e não pareceu surpreender-se ao ver o par, que parecia estar à espera na rua.

Luísa avançou uns passos e, com uma leve inclinação de cabeça, murmurou:

― Senhor conde, os meus respeitos.

Aquele simples acto, levado a cabo num lugar como era a Rua Lourcine e diante dum cubículo como o da Frochard, tomou um aspecto de sublime grandiosidade.

O senhor de Linières permaneceu rígido por um momento diante da sua protegida, enquanto esta o envolvia num olhar doce. Uns passos mais além, Pedro seguia a cena emocionado.

Pelo cérebro do conde passaram então os pensamentos mais díspares, e, por fim, não podendo resistir à comoção que dele se apoderava e que lhe fazia ver a realidade, avançou uns passos até quase tocar com o seu corpo no de Luísa e abrindo lentamente os braços exclamou com um tom de bondade paternal:

― Minha filha!

E aqueles dois seres, levados por um impulso que nem um nem outro poderiam explicar, fundiram-se num carinhoso abraço.

Pedro sentiu as lágrimas nos olhos ante aquela cena que tanta ternura revelava.

O conde de Linières passou a mão pela loira cabeleira de Luísa e disse:

― Vamo-nos, não podemos ficar mais tempo neste lugar.

E como procurasse saber quem era o jovem, Luísa aclarou:

― Ele foi o meu protector quando eu...

O conde não deixou terminar a frase. Sabia o que ela ia dizer e não permitiu que lhe dilacerasse mais o coração.

― Aproxime-se, rapaz ― disse amàvelmente o conde ―,  e ofereça o braço à sua protegida.

Luísa agradeceu aquelas palavras com um olhar do mais sincero amor filial.

As três personagens abandonaram aquele lugar, onde não pensavam voltar mais; mas que recordariam sempre, porque, apesar das dores sofridas, ele tinha sido o ponto de partida da sua felicidade futura.

Pedro e Luísa, porque ali se tinham conhecido e porque ali haviam sentido pela primeira vez que se compreendiam, e o conde de Linières, porque pudera compreender muitas coisas ao verificar directamente a miséria daquele antro.

Quando Diana viu que o seu esposo e Luísa voltavam juntos na mesma carruagem, não pôde reprimir um gesto de surpresa.

Que tinha acontecido?

Sabia que a filha saíra com Pedro e que o conde dissera que ia ao seu escritório oficial. Mas o alarme da condessa depressa se dissipou quando os viu entrar tranquilamente nos seus aposentos. Interrogou-os com um olhar.

― Nossa filha te explicará ― asseverou o conde de Linières com voz quente. ― Luísa saberá fazê-lo melhor do que eu.

E, segurando a jovem por um braço, fê-la aproximar-se de Diana.

Esta sentiu uma imensa alegria invadir-lhe o coração.

Fez-se um silêncio embaraçoso, porque a rapariga não sabia ao certo se o conde pretendia que ela contasse absolutamente tudo.

Mas este veio em seu auxílio.

― Sim, Luísa ― disse afàvelmente ―,  podes contar à tua mãe onde nos encontrámos. Ela te agradecerá.

― Obrigada, senhor conde ― respondeu Luísa.

O subdirector da Polícia, abanando a cabeça da direita para a esquerda, disse:

― Senhor conde! Senhor conde! ― Olhou para a esposa e acrescentou: ― Não te parece que, agora que estamos os três sós, essas palavras são demasiado protocolares?

Diana sentiu o coração bater com força.

Luísa olhou um e outro sem se atrever a dizer nada. Ela sentia instintivamente muito maior inclinação por Diana.

O conde certamente compreendeu, porque fez um sinal à esposa que a encheu de alegria.

― Minha filha ― pronunciou a condessa, emocionada.

A jovem, ao ver que aquela mulher lhe estendia os braços, olhou o conde, que exclamou:

― Sim, a ela primeiro, porque a consideras como uma autêntica mãe.

E Luísa, levada por um impulso irrefreável, por um impulso que lhe saía do mais profundo do ser, disse pela primeira vez na sua vida aquela palavra dirigida à única pessoa no mundo que tinha o direito de a ouvir.

― Mãe! Minha mãe!

― Filhinha! Filhinha da minha alma!

O conde de Linières levou a mão à cara para ocultar uma furtiva lágrima que o traía.

Depois, Luísa, desprendendo-se dos braços daquela santa mulher, dirigiu-se para o conde e lançando-se nos seus braços exclamou:

― Também lhe posso chamar pai? O conde assentiu com um movimento de cabeça. i Momentos mais tarde, Luísa contou à sua mãe com todos os pormenores o encontro que tivera com o conde no lugar onde tinha vivido e sofrido tanto, i. Diana escutou a narração enlevada, sem conseguir compreender aquela grande transformação do esposo. Mas deu graças a Deus por assim ter acontecido e compreendeu que fora precisamente a filha que, com os seus sofrimentos, tinha tornado possível aquela reconciliação que ela tanto desejava. ― E Pedro? ― perguntou Diana. Luísa corou ligeiramente. ― Ama-lo, não é verdade? A jovem respondeu beijando a mãe. Esta sorriu, satisfeita, e comentou:

 ― Bem me parecia; e se ele te quer como penso, não hei-de ser eu precisamente quem me oponha aos vossos desejos.

E Diana tinha razão. A amizade que os dois jovens sentiam, e que nascera espontaneamente no passado, não era passageira, era um amor modelado pela total compreensão e pelos sofrimentos de que ambos participaram. Era, na realidade, um amor puro e verdadeiro que se tinha confessado sem falar, que Luísa compreendera tempos antes nas suas trevas e que os olhares de Pedro agora confirmavam.

Mas Pedro sentia-se humilde, sentia-se quase insignificante ante aquela pessoa que fora adoptada pelos poderosos condes de Linières, e trabalhava com afinco ao lado do Dr. Herbert, para se tornar merecedor do carinho daquela que tanto amava.

Queria deixar para trás o passado e Pedro conseguia-o dia a dia com o próprio esforço e com a sua maneira de ser.


XX

QUANDO Carlos e Mariana fizeram saber aos seus amigos que projectavam regressar à América dentro de dias, foram carinhosamente contrariados.

Tinha-se projectado o casamento do cavaleiro de Vaudrey com Henriqueta e falava-se também do de Luísa com Pedro, e, portanto, o jovem casal estava convidado a assistir a eles.

― Não, Mariana, não ― disse Henriqueta com carinhosa energia. ― Já que eu não pude assistir ao teu casamento, vós tendes de estar presente no meu. Seria uma ingratidão se se fossem embora. Lembra-te de que durante algum tempo eu fui Mariana e tu Henriqueta e isso obriga-te a aceder aos nossos desejos.

D'Ouvelles, apesar da pressa que tinha em se consagrar às plantações de seu tio, não pôde recusar aquele convite e decidiu permanecer mais uns dias em Paris, à espera dos gratos acontecimentos.

Entretanto, aproveitariam o tempo para fazerem algumas compras e para legalizar totalmente a adopção do "filho da alfaiataria".

No palácio do conde de Linières, na residência do cavaleiro de Vaudrey e na moradia do Dr. Herbert, não se falava noutra coisa senão nos próximos enlaces, porque Pedro, por fim, se decidira a falar abertamente a Luísa, tendo tido, porém, o doutor de ajudar o jovem a decidir-se.

Foi preciso que o médico fizesse ver ao seu protegido que naquela altura já era outro homem, digno de toda a estima e respeito, um homem que a seu lado ia alcançando um lugar na sociedade e que merecia, portanto, ser totalmente feliz.

Os preparativos faziam-se em ritmo acelerado e cada um deles ocupava-se das suas coisas para que em tão memoráveis acontecimentos nada faltasse.

Picart, que fora reabilitado da sua cumplicidade na fuga do cavaleiro de Vaudrey, quando este estivera preso na Bastilha, era quem mais trabalhava e quem parecia estar mais surpreendido, porque não compreendia como o conde de Linières fora capaz de lhe perdoar a traição, visto que, fazendo-se passar por seu fiel criado, o que tinha feito fora servir totalmente, mesmo com risco da própria vida, o seu jovem amo, o cavaleiro de Vaudrey.

"Enfim! ― dizia filosòficamente. ― Não sou eu quem vai pedir explicações ao subdirector-geral da Polícia. Ele lá sabe."

E, sem pensar mais nisso, entregava-se de novo ao seu labor, fazendo visitas, preparando coisas, efectuando recados e levando a cabo os mais inverosímeis trabalhos.

Mas o que mais lhe custou foi ter um dia de visitar o senhor conde de Linières.

Não sabia como se apresentar diante dele e foi preciso que Marest, que encontrou na antecâmara do escritório do conde, lhe afirmasse que este não lhe guardava qualquer rancor e inclusivamente o apresentava muitas vezes como exemplo de abnegação.

A partir daquele momento, Picart sentiu-se outro homem, e apesar da sua simplicidade considerava-se a si próprio uma pessoa importante.

Também o conde de Linières se preocupava com os acontecimentos que iam ter lugar muito em breve, e talvez fosse ele quem teria de resolver a parte mais delicada do assunto.

Sabia que Luísa era filha de sua esposa e deu-o a entender sem o dizer abertamente, facto que Diana compreendeu e agradeceu do fundo do coração.

Por sua vez, a jovem sentia uma grande estima e um verdadeiro amor filial por aqueles que oficialmente a tinham adoptado e a quem chamava pais.

Mas para o grande mundo, para todo o Paris, aquela rapariga era uma estranha às famílias nobres e esse facto, ante aquela sociedade cheia de orgulho, tinha de ser tomado em consideração.

No entanto, o senhor de Linières não queria desgostar sua esposa, que tanto amava e a quem agora quase venerava, porque sabia quanto ela sofrera.

Era um dilema para o qual tinha de arranjar uma solução.

O cavaleiro de Vaudrey. era nobre e, portanto, podia convidar para o seu casamento as pessoas mais importantes.

Se os pares se unissem na mesma igreja e no mesmo dia a comédia podia ser realizada.

Quando Diana soube a decisão do esposo teve uma grande alegria.

― Obrigado, meu esposo.

― Faço-o por ti, Diana ― explicou o conde ―,  porque sei que desejas para Luísa toda a felicidade e as máximas honras.

― Sim, é verdade.

― Tê-las-á, tê-las-á, porque eu também sinto por essa jovem uma grande estima.

Desde aquele momento tudo mudou notavelmente para Diana. Ganhara, por assim dizer, a última batalha, pois agora sabia-se querida e perdoada pelo esposo e amada por sua filha.

Que mais podia desejar?

Que melhor prémio podia ela pedir para as suas desventuras?

Deus tinha-lhe escutado as orações e naquele momento sentia-se completamente feliz.

Quinze dias depois, a igreja de São Sulpício transbordava de gente. Toda a aristocracia respondera aos convites do subdirector-geral da Polícia. O cavaleiro de Vaudrey ia unir-se com Henriqueta Gerard.

Isto era o que se anunciara oficialmente, mas à mesma hora também Luísa e Pedro iam receber a bênção nupcial. Muita gente se aglomerara nos arredores do templo, esperando a passagem da elegante comitiva. As carruagens iam chegando umas atrás das outras, levando as mais ilustres personalidades.

Pessoas de todas as classes sociais acotovelavam-se perto da igreja, admirando-se da pompa daquele acto. As damas vestiam os mais luxuosos vestidos e usavam as mais caras jóias, enquanto muitos cavaleiros se apresentavam de vistosos uniformes, representando toda a classe de organismos oficiais.

― Este é o secretário do rei ― diziam uns.

― Aquele cavaleiro é o primeiro almirante da Marinha Francesa ― comentavam outros.

― Esta dama é a esposa do ministro da Justiça ― diziam alguns mais além.

E assim, sucessivamente, iam nomeando representantes da nação e nobres de todas as linhagens.

Marqueses, condes, duques e outros titulares apresentavam-se naquele lugar, dando assim um esplendor inusitado àqueles casamentos que haviam de levar a felicidade às quatro pessoas que tanto a mereciam.

De repente, os murmúrios tornaram-se mais intensos.

Tinha aparecido o coche do cavaleiro de Vaudrey.

― O noivo! O noivo!

Rogério apeou-se e com o seu porte elegante dirigiu-se para o interior da igreja.

O templo, como dissemos, transbordava de convidados da aristocracia e estava profusamente iluminado.

Milhares de círios luziam por todos os lados, dando às flores que ali havia em abundância umas tonalidades fantásticas que pareciam intensificar o seu perfume.

Uma rica tapeçaria de veludo cobria de ponta a ponta a nave central do templo, desde o altar-mor até à rua. O luxo era imenso, porque, além disso, ricos tapetes com temas religiosos, fabricados pelas mais célebres firmas, cobriam as paredes laterais.

Num lugar de destaque figurava o escudo da casa de Vaudrey e o da casa de Linières. Momentos mais tarde, uma numerosa orquestra deixou ouvir os acordes da marcha nupcial. Todas as cabeças se voltaram para a porta de entrada. Henriqueta Gerard acabava de fazer a sua aparição, pelo braço do Dr. Herbert. A sua beleza resplandecia. Ia completamente vestida de branco, usando um traje que parecia confeccionado pelas hábeis mãos de uma fada. E de facto eram fadas as que realizaram aquela obra. Foram as costureiras da alfaiataria que ofereceram os seus serviços, e Mariana fizera o milagre.

Henriqueta avançou lentamente para o altar, onde Rogério a recebeu carinhosamente.

Momentos depois, o sacerdote unia no santo e indissolúvel laço do matrimónio aqueles dois seres que se tinham feito merecedores da maior felicidade.

Todos os presentes estavam atentos à cerimónia, todos, menos uma mulher que tinha a cabeça voltada para um altar lateral onde se celebrava outro casamento, uma mulher que não era outra senão Diana de Vaudrey, condessa de Linières.

No mesmo momento e ante a mesma grandiosidade do templo, a sua filha Luísa unia-se também para sempre a Pedro Frochard.

O conde de Linières conseguira o que desejava. Que ao casamento de Luísa assistisse toda a aristocracia francesa; se bem que esta supusesse encontrar-se no templo para o enlance do cavaleiro de Vaudrey, no seu íntimo o senhor de Linières reconhecia que convidara aqueles titulares mais por Luísa do que pelo seu próprio sobrinho. Espiritualmente, assim o interpretava.

Por isso, de vez em quando, voltava também a cabeça para o altar lateral e lançava um olhar paternal a Luísa.

Picart, enquanto durava a cerimónia, permanecia no vestíbulo em animada conversação com os criados e lacaios que esperavam a saída dos seus senhores.

― Sim, sim, ainda que não acreditem, todos os que neste momento se estão casando são meus amigos. Os quatro são meus amigos.

― Os quatro? ― perguntou um criado com ironia.

― Os quatro ― asseverou com energia o criado de Rogério-; porque vocês devem saber que são dois casamentos que se celebram neste momento.

E Picart embrenhou-se numa longa explicação, contando aos presentes tudo o que sabia a respeito dos noivos. E como o que sabia era muito, as exclamações de espanto sucediam-se.

Isto serviu para que todos compreendessem a grande mudança que o subdirector-geral da Polícia sofrera.

― Isto demonstra ― comentou um lacaio ― que o conde de Linières tentou unir espiritualmente a nobreza com o povo. É um gesto muito nobre que oxalá fosse compreendido por todos os senhores da sua posição.

Picart estoirava de alegria.

― Visto que os meus amigos se casaram ― dizia gritando ―,  também nós nos casamos. Somos felizes, muito felizes os quatro, quer dizer os cinco, porque também sou um pouco da família.

E o bom homem ria e chorava ao mesmo tempo.

Momentos depois, ao dar-se por terminada a cerimónia, repetiram-se os murmúrios de admiração quando os noivos saíram do templo e os convidados subiram para as suas carruagens.

O dia, que tinha estado esplêndido, com o Sol a brilhar em todo o seu esplendor, parecia querer contribuir para a felicidade de todos.

Mais tarde, no palácio do senhor de Linières, celebrou-se um banquete e uma luzida festa como remate dos acontecimentos do dia.

Brindou-se várias vezes pela felicidade do cavaleiro de Vaudrey e de sua esposa; mas quando tocou a vez ao conde de Linières este levantou-se e disse:

― Meus amigos, dou-vos em meu nome e em nome de minha esposa os mais efusivos agradecimentos pela vossa presença, que tanto realçou o acto que nos reuniu; mas quero que saibam que não é só esta alegria que me enche o coração, mas também a de ter proporcionado a outros a felicidade que merecem. Sim, nobres senhores, já vistes que, ao mesmo tempo que Rogério de Vaudrey se casava, outro par recebia igualmente a bênção do céu, outro par que se encontrava num altar lateral e de quem vos quero falar.

Fez uma pausa e, dirigindo o seu olhar para Luísa, que estava afastada num extremo do amplo salão, junto de Pedro e de Diana, continuou:

― Refiro-me, meus senhores, à minha filha adoptiva, à que a partir de hoje se aparentou com o cavaleiro de Vaudrey, a menina Luísa Gerard, que, ainda que humilde, se fez credora da máxima estima por parte de minha esposa, que a considera como sua autêntica filha, afecto de que eu participo.

"Esta jovem não pertence à nobreza, mas temos de considerar que além da nobreza do nosso nome, da nossa linhagem, enfim, há que ter em conta a nobreza do coração, essa nobreza com a qual se nasce e que tem tanto ou mais valor do que aquela que nós recebemos como herança. Em troca, ela e esse humilde rapaz que se converteu em seu esposo levam aquela nobreza de coração de que vos falei, não só por herança, como por direito próprio, porque nasceram com ela e com ela viverão até ao fim dos seus dias.

Ao terminar o seu discurso houve um momento de silêncio, porque alguns dos cavaleiros e damas não conseguiram compreender totalmente o que o conde lhes explicara. Mas, prontamente, uma tremenda ovação retumbou no salão e os vivas sucederam-se sem parar, aclamando o senhor de Linières, que foi buscar Luísa e o seu esposo, Diana, o cavaleiro de Vaudrey e sua esposa, para os apresentar diante de todos como símbolos do cavalheirismo, da honra, da pureza e dos mais nobres sentimentos, que são sempre as qualidades que dão valor aos homens.

Diana não pôde resistir a tantas emoções, e, lançando-se primeiro nos braços do seu esposo, e depois nos de sua filha, afogou neles os soluços que eram para ela a libertação de todas as angústias.

As duas órfãs também tinham merecido o prémio de que se haviam tornado credoras, ao encontrar uma total felicidade ao lado dos seus respectivos esposos.

FIM

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Adolphe Philippe d'Ennery
(1811 – 1899)

foi um dramaturgo e romancista francês. Nascido em Paris, seu verdadeiro sobrenome era Philippe. Obteve seu primeiro sucesso em colaboração com Charles Desnoyer em Émile, ou le fils d'un pair de France (1831), um drama que foi o primeiro de uma série de cerca de duzentas peças escritas sozinho ou em colaboração com outros dramaturgos. Dentre as melhores delas podem ser citadas: Gaspard Hauser (1838) com Auguste Anicet-Bourgeois; Les Bohémiens de Paris (1842) com Eugène Grangé; com Mallian, Marie-Jeanne, ou la femme de peuple (1845), com a qual Madame Dorval obteve um grande sucesso, La Case d'Oncle Tom (1853) e Les Deux Orphelines (1875), talvez a sua melhor obra, com Eugène Cormon.

Les Deux Orphelines foi adaptada  em 1921 por  D.W. Griffith no filme 'Orphans of the Storm'.
 


Orphans of the Storm - filme mudo de D. W. Griffith, 1921
 

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texto integral:

As Duas Órfãs
Autor: Adolf D'Ennery
Titulo original: LES DEUX ORPHELINES
Tradução de REBELO DA SILVA
Editora Bertrand,
Lisboa, Maio de 1974.


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[23.Abr.2013]
Publicado por MJA