Ξ  

hits counter

 

 Sobre a Deficiência Visual

 

O Assassino Cego

Margaret Atwood

-excerto-

Kuttar ou fila de mendigos cegos - Cabul (1879)
Kuttar - cordão de mendigos cegos - Cabul, 1879
 

Ele diz: Sakiel-Norn é agora um monte de pedras, mas um dia foi um próspero centro de comércio e troca. Ficava num cruzamento entre três estradas - uma que vinha do leste, outra que vinha do oeste e outra que vinha do sul. Ele se ligava com o norte por um largo canal que ia dar no próprio mar, onde havia um cais bem protegido. Não resta nenhum traço dessas escavações nem desses muros protetores: depois de sua destruição, os blocos de pedra foram levados pelos inimigos ou por estrangeiros para serem usados em seus abrigos para animais, em suas gamelas de água e em seus fortes grosseiros, ou então foram enterrados na areia pelas ondas e pelo vento.

O canal e o cais foram construídos por escravos, o que não causa surpresa: foi por meio dos escravos que Sakiel-Norn alcançou sua magnificência e seu poder. Mas a cidade era conhecida também pelo seu artesanato, especialmente a tecelagem. O segredo das tinturas usadas por seus artesãos era cuidadosamente guardado: seus panos brilhavam como mel líquido, como uvas roxas amassadas, como uma xícara de sangue de boi derramado ao sol. Seus véus delicados eram leves como teias de aranha, e seus tapetes tão macios e finos que você pensava que estava andando no ar, um ar que se parecia com flores e com água correndo.

Isso é muito poético, ela diz. Eu estou surpresa.

Pense nela como uma loja de departamentos, ele diz. No fundo são apenas mercadorias de luxo. Assim fica menos poético.

Os tapetes eram tecidos por escravos, que eram invariavelmente crianças, porque só dedos de crianças eram suficientemente pequenos para um trabalho tão delicado. Mas o trabalho incessante exigido dessas crianças fazia com que elas ficassem cegas por volta dos oito ou nove anos, e a cegueira delas era a medida pela qual os negociantes de tapetes avaliavam e exaltavam a sua mercadoria: Este tapete cegou dez crianças, eles diziam. Este aqui cegou quinze, este outro vinte. Uma vez que o preço subia na mesma proporção, eles sempre exageravam. Era costume o comprador duvidar do que eles diziam. Com certeza não mais que sete, que doze, que dezesseis, eles diziam, examinando o tapete com os dedos. É áspero como um pano de chão. Não passa de um cobertor de mendigo. Foi feito por um gnarr.

Uma vez cegas, as crianças eram vendidas para donos de bordéis, tanto as meninas quanto os meninos. Os serviços das crianças que tinham ficado cegas desse jeito valiam uma fortuna; o toque delas era tão suave e preciso, diziam, que sob seus dedos você podia sentir as flores se abrindo e a água jorrando da sua própria pele.

Elas também eram muito hábeis em abrir fechaduras. Aquelas que conseguiam escapar abraçavam a profissão de cortar gargantas no escuro e eram muito procuradas como assassinos de aluguel. Sua audição era apurada; elas conseguiam andar sem fazer nenhum ruído, e passar através de aberturas mínimas; diferenciavam pelo cheiro uma pessoa que dormia profundamente de outra que sonhava agitadamente. Matavam tão suavemente como se fosse uma mariposa roçando pelo seu pescoço. Eram consideradas impiedosas. Eram muito temidas.

As histórias que as crianças murmuravam umas para as outras - enquanto teciam seus tapetes sem fim - eram sobre essa possível forma de vida futura. Havia um ditado entre elas de que apenas os cegos são livres.

FIM

 

ϟ

O Assassino Cego

excerto de

'O Assassino Cego'
título original: 'The Blind Assassin'
autora: Margaret Atwood
tradução: Léa Viveiros de Castro
edição: Rio de Janeiro, Rocco, 2001


 

Δ

20.Nov.2016
publicado por MJA