Ξ  

 

 Sobre a Deficiência Visual


Amor Cego

Patrick Cauvin

L'Aveugle - foto de Thomas Devaux
L'Aveugle -  Thomas Devaux (fotografia)

 

Capítulo I

— Bernier!

Olho para trás: é Briette. Bri-Bri, como lhe chamam os alunos.

Corre em plena luz; encandeado pelos reflexos dos vidros do átrio do liceu, distingo-a mal. Detenho-me no meio do pátio cheio de jovens e de sol.

Briette corre para mim com um certo toque desportivo, cotovelos bem colocados, num sprint de guia escuta. É a minha colega de Ciências Naturais. Há catorze anos que a conheço. Durante os fins-de-semana, dedica-se às adolescentes e, de mochila às costas, leva-as até às magras florestas que circundam a capital. Aquele escutismo dinâmico apavora-me.

Partidária dos métodos de choque, entrega-se com ardor à educação sexual. No fundo do seu armário, tem uns mapas gigantescos, de tela, representando homens e mulheres de barriga transparente e olhar assombrado, cobertos de setas e de nomes complicados.

O ano passado, na escada, desenrolou um à minha frente no meio de uma roda de alunas com a respiração suspensa, brandindo a tela colorida como um estandarte.

— Que é que pensa disto, pedagogicamente falando?

Ainda o eco da sua voz se prolongava pelos vetustos corredores e já eu desaparecera, cheio de vergonha por possuir aquela infinidade de tubos, gânglios e canais variegados. Nunca supusera ter tantos arrebiques no meu interior. Tive a sensação de que as pequenas do terceiro ano me encaravam com severidade.

Em todo o caso, hoje, dia 28 de Junho, último dia do ano lectivo, dia da distribuição dos prémios, dos discursos e da inevitável récita teatral, Jacqueline Briette trava à minha frente. Aqueles óculos redondos lembram-me uns faróis e os dentes largos e quadrados parecem a grelha de um Cadillac. Gosto de Briette.

Dá-me a novidade como quem atira uma pedra:

— Consegui a minha transferência para o ano que vem!

A transferência! Há anos que sonhava com ela; era da Haute-Garonne, a infeliz, e desde o fim da guerra que tentava regressar à sua terra. Mas havia sempre um professor mais classificado que lhe roubava o lugar.

É esquisito, aborrece-me saber que ela se vai embora. Não gosto de separações ... Ao fim e ao cabo, sou um velho professor. Gosto de encontrar o meu gabinete de um ano para o outro; não gosto que pintem as paredes de novo, que mudem as mesas, as caras.

Não que alguma vez tenha sido particularmente amigo de Briette. O seu estilo desportista e de escuteira irrita-me; porém, habituei-me de tal maneira à sua presença que me parece que vou sentir a falta de qualquer coisa.

— Ainda bem. Parabéns ...

Continuamos até à sala de convívio. Estou com calor; não há meio de me decidir a comprar um fato leve, talvez de linho, como Versin. Só que ele tem dezoito anos e um tipo americano. Não é o género de vestuário que me fique bem. Não me interessa parecer mais novo.

No convívio, embora as cortinas tenham sido corridas sobre as janelas envidraçadas, está calor. Alguns colegas tomaram já o seu lugar no estrado. Não vai ser agradável ficar mais de duas horas a ouvir o reitor desbobinar o discurso do ano passado, igual ao de há dois anos. E, no entanto, já devia estar habituado.

— Bom dia, Dr. Bernier.

A tia Rebolot, de Físico-Químicas, traz um vestido de seda estampada, com uma borboleta no seio direito, rosinhas estilizadas no esquerdo, mais uns fetos violeta nas mangas, a envolver os seus oitenta e três quilos. Em breve também ela não voltará a aparecer, pois está prestes a atingir a reforma.

Sento-me ao lado de Briette, junto aos vasos com palmeiras. Umas plantas bem estranhas. Só se vêem nos liceus, no dia da distribuição dos prémios.

— Então, caro Bernier, estas férias prometem? É Meunier, de História e Geografia, personalidade forte, brincalhão. No refeitório, durante vários anos, escondeu-me a argola do guardanapo pelo menos duas vezes por semana. Nós, os profissionais do ensino, somos sempre muito divertidos ...

Os alunos começam a entrar. O burburinho cresce. São duzentos, sentados à nossa frente. Que calor, Deus meu! Felizmente, amanhã por estas horas já estou em ... Nem eu sei; vai ser a debandada geral, e espero que aquela maldita bateria funcione. Não devia ter aceitado o convite de Anne, mas ultimamente encontramo-nos tão pouco ...

— Procurem fazer menos barulho, por favor ...

Lá no fundo, Carnot tenta fazer-se ouvir. Isto de ser prefeito-geral é bem divertido, não é, Carnot? O sonho dele é o ribeiro das trutas. De cada vez que lá vou a casa, pasmo diante das canas, dos carretos das moscas artificiais. Está claro que não percebo nada de pesca. Mas gosto de Carnot, é quase um amigo.

Briette inclina-se para mim:

— Para onde é que vai este Verão?

Sinto o suor a escorrer-me pelas costas.

— Para o Midi, um pouco acima de Menton.

— Para casa de uns amigos?

— Sim, para casa de uns amigos.

Aqui nunca lhes falei de Anne. Não sabem que tenho uma filha. A administração da casa tem conhecimento do facto, que tinha forçosamente de ficar registado na ficha. Situação familiar: divorciado, uma filha.

— Silêncio, por favor!

Duverrier, o reitor sobe ao estrado e levanta os braços:

— Por favor! Por favor!

O ruído decresce como o refluxo da maré, e Duverrier sorri do seu poder. É o senhor dos oceanos, cujo fragor amaina do alto da falésia do estrado. Uma vez por ano, Duverrier é Neptuno. Calma absoluta. E, subitamente, dou um pulo como se uma mola rompesse da cadeira e me lançasse ao ar: A Marselhesa.

Pregam-me sempre a mesma partida. Tenho o altifalante a um metro e meio do tímpano esquerdo, por detrás das palmeiras. Resisto estoicamente, com a membrana auditiva quase a rebentar, encostado a Briette, que marca o compasso com o seu sapato raso.

Uma última revoada dos pratos da orquestra rodopia-me na cabeça, enquanto voltamos a sentar-nos. E absolutamente indispensável que, para o ano que vem, eu detecte o altifalante e o evite.

À minha frente, o alteroso oceano voltou a amansar. É óbvio: Neptuno retomou a palavra.

— Tenho uma vez mais a satisfação de nos vermos aqui reunidos, pais, alunos, professores, para esta pequena cerimónia por alguns talvez considerada antiquada, mas que, a meu ver ..

Nunca reparara que o ecónomo tinha tantos pêlos nos ouvidos, uma autêntica plantação. Será possível que os sons consigam abrir caminho através deles? Ainda bem que não tenho nenhuma tesoura a jeito, pois não seria capaz de resistir à tentação.

— E a quem ficamos a dever estes resultados? A vós, pais, cujo apoio e vigilância foram constantes ao longo deste ano que termina. Assim, pois, o vosso papel ...

Tenho as mãos suadas. Vinte e sete minutos ... Neptuno está a bater o seu próprio record. De qualquer forma, se tudo correr bem, amanhã por esta hora estou em Lyon. Estremeço com uma ribombante tempestade de aplausos. Bato freneticamente as minhas palmas húmidas. Tenho sede.

— Não quer ir beber um copo, Bernier?

É Briette; quer oferecer um copo de despedida no bar de Marcel, à esquina. Vou beber um Ricard com muita água, uma garrafa de água gelada toda embaciada ...

A distribuição começou. Neptuno aperta as mãos, quem entrega os livros é o professor da classe respectiva.

— Viviane Chapoteau!

Vejo um minúsculo carrapito ruivo inclinar-se à frente de Duverrier, deter-se junto do professor e desaparecer.

— Philippe Evrard! A este, mais alto, vejo-lhe a cabeça.

— Nathalie Devinard!

É sempre a mesma coisa: começa-se pelos do segundo ano, que nunca mais acabam, e os meus são os últimos. Paciência. Interrogo-me sobre o tipo de casa e o modo de vida de Anne. Não me fala da casa na carta que me escreveu, onde apenas me diz que lá me espera com Frédéric.

— Françoise Villeneuve!

Conheço mal Frédéric, vi-o quando muito umas duas ou três vezes. Mas nunca me pareceu que ele me considerasse um bota-de-elástico, o que já não é nada mau: nos tempos que correm, não se pode pedir o impossível.

— Jacques Frémier!

Talvez tenham razão em não quererem casar, sei lá! De qualquer maneira, não me incomoda saber que Anne vive com ele. Aliás, fico um pouco surpreendido comigo mesmo; pelos vistos, sou um liberal. Ele é que comprou a casa, que os pais pagaram. Aqui há uns cinquenta anos, Frédéric teria sido um belo partido; hoje, é um tipo de jeans que nunca mais acaba o curso de Filosofia, toma banhos de sol nos Alpes Marítimos e dorme com a minha filha, tudo isto com uma calma temperada de budismo zen.

Agora é que chegou a minha vez de distribuir os prémios.

— Desculpe ... Dá-me licença ... Dá-me licença ...

Percorro a fila toda, pisando o menor número possível de pés.

Clareio a voz para a manter acima do burburinho que cresce incessantemente:

— Albert Trinardier!

Abre passagem, vem ao meu encontro. É simpático, o Trinardier. Fez um trabalho sobre Hemingway. Aperto-lhe a mão pela primeira vez. Há coisas estúpidas: lidámos um ano inteiro um com o outro, e é quando nos vamos separar que trocamos um aperto de mão. Entrego-lhe o livro.

— Adeus, s'tôr.

Não querem ver que me comovo?... Apetecia-me tratá-lo pelo nome próprio, por uma única vez.

— Adeus, Trinardier, Albert.

Rimo-nos, um tanto embaraçados. A atitude foi tipicamente minha: nunca consigo fazer realmente aquilo que me apetece. Acabo por rematar com uma graça qualquer. Espero que ele tenha compreendido.

— Emilie Caranel! Tratam-na por Miss Caramel, tinha de ser. É de pequena estatura, bem proporcionada, feições delicadas e ligeiramente arruivada. Ganhou o segundo prémio e adora Baudelaire.

— Adeus, Sr. Doutor.

— Adeus, Miss Caramel.

Tem uns olhos brilhantes com longas pestanas, nas quais eu nunca reparara. Há mais três que vêm receber o respectivo livro e retomo o meu lugar; missão cumprida. As cadeiras, a mesa e as plantas foram arredadas e deu-se início à récita. Quatro cenas da Andrómaca: elas enfiadas em lençóis, e Pirro com uma toga curta e os ténis a espreitar. Não se saíram nada mal e a claque estava razoavelmente espalhada pela sala.

Depois, o final chegou rapidamente: acabei por beber dois ricards à custa de Briette e troquei alguns duzentos apertos de mão.

Boas férias. Divirta-se. Em Setembro cá nos encontramos.

Voltei para casa ligeiramente tocado pelos aperitivos simultaneamente triste e alegre. Tinha dois meses e meio à minha frente, vazios como páginas em branco. Seria preciso preenchê-las.

A minha casa de banho é verde-salsa. Tento tomar um duche frio, mas, friorento como sou, ao primeiro jacto vejo-me obrigado a temperar com água quente. É a última toalha lavada; era tempo que o ano acabasse: em Outubro tratarei de mandar lavar a roupa.

Estou nu à frente do espelho. Ora vejamos: um metro e setenta e dois, sessenta e nove quilos, um toque de calvície, pouca barriga, já não é nada mau. Claro que as ancas se apresentam um tanto flácidas, mas o pormenor não é alarmante. Pernas impecáveis: nem uma única variz. Peitorais normais; só me aborrece ter tantos pêlos grisalhos no peito, mas não me posso esquecer de que já lá vão vinte anos que fiz os vinte e cinco. Barriga para dentro, peito para fora, numa pose de culturista: o resultado não é dos mais satisfatórios. É esquisito, mas nunca consigo estar à frente de um espelho sem fazer figura de parvo. Pergunto-me com que idade perderei a mania de me armar em Tarzan na casa de banho.

Slip cor de laranja. A este respeito, é evidente que me deixei influenciar pela publicidade. De tanto esperar o metro em frente de um gigantesco cartaz com três atletas bronzeados em slip de cor, na cabina de um iate, acabei por comprar um. E qual é o problema?

Férias são férias. Sabe tão bem estrear qualquer coisa. Para já, começo pelo slip; o iate virá depois. É uma e cinco e ainda tenho numerosos preparativos a terminar: pedir à porteira para me mandar o correio, pagar a renda da casa, fazer a mala. E experimentar aquela maldita bateria.

Comecemos pela mala.

De cada vez que abro o armário, invade-me um sentimento de tristeza: todos os meus fatos são cinzentos, as camisas, brancas, os pulôveres, discretos, as peúgas pretas. De facto, apenas o slip é colorido. Vou desembarcar no Midi como um cangalheiro.

Apetece-me por vezes usar dessas peças de vestuário que para aí se vendem hoje; mas é sempre em boutiques sofisticadas, cheias de empregadas suecas, onde não me atrevo a entrar.

Tocam à porta.

— Correio, Sr. Doutor.

É Mme Morfoine, a porteira. Deve-lhe apetecer conversar.

Normalmente, nunca sobe.

— Está de abalada, Sr. Doutor?

— É verdade, Mme Morfoine, amanhã de manhã.

— Os professores é que têm sorte! Dois meses e meio! ...

— Que quer a senhora que lhe faça? ... Ainda é das coisas boas da minha profissão ...

— E para onde é que vai, se não é curiosidade?

Protegida por esta sua fórmula habitual, seria bem capaz de me perguntar: E quantas mulheres possuiu na sua vida, se não é curiosidade? — Vou para o Midi, para uma aldeola ... A propósito, se me pudesse mandar o correio ..

Levou a morada de Anne e uma nota de dez francos. Os degraus da escada estalam sob o seu peso.

Sinto-me contente por voltar a ver Anne. Custava-me sempre tanto separar-me dela aos domingos à noite, quando a deixava em casa da mãe ... Levava-a a ver todos os filmes de Walt Disney. Entre os sete e os dez anos não falhou nem um. Eu detestava-os, e normalmente tinha de os ver duas vezes. Um dia, vimos o Peter Pan três vezes seguidas, sempre a chupar rebuçados. Passei mal toda a noite; ela não.

No Verão, era o Bosque de Bolonha e o Jardim Botânico.

Aos dez anos, começou a querer ver filmes de amor. Sempre que algum cinema passava E Tudo o Vento Levou, corria para mim com o jornal aberto na página dos espectáculos e enfiávamo-nos no metro. Não deve haver uma zona da cidade em que eu não tenha visto a fita. Às oito e meia deixava-a em casa.

— Boa noite, Anne, até para a semana.

— Até domingo, pai.

Pelos meus anos, dava-me um desenho; ainda hoje os tenho: são onze, ao todo. O primeiro representa uma casa com um sol verde e uma coisa esquisita com umas patas fininhas, que ela me declarou ser um cordeiro. O último, elaboradamente trabalhado, reproduz uma bailarina, desenhada a carvão. Tinha ela dezasseis anos.

Depois, Catherine, a minha ex-mulher, anunciou-me que ia para o Canadá, refazer a vida, como dizia, uma vida que partilháramos durante um ano e meio, um período curto que todavia nos parecera bastante longo tanto a um como a outro. Hesitava em levar Anne para outro país com outra língua, outra gente, outros hábitos ... Estava capaz de me pedir para ...

Resumindo e concluindo, Anne veio viver comigo. Pintámos o apartamento, ela colou fotografias por toda a parte, arranjou dinheiro para comprar um gira-discos e os anos foram passando: o liceu, a Universidade, o namoro, a separação.

Um postal durante as férias um telefonema de quando em vez, o bar da Rua de Bièvre, onde lhe pago um cuscuz quando ela está disponível; actualmente levamos vidas paralelas. Anne desenvencilhou-se bem na vida. Estou sempre atento ao genérico das noites de teatro na televisão, e o nome dela aparece muitas vezes: Cenários e arranjos de cena — Anne Bernier. Fico contente. Mas vive a um ritmo alucinante, que eu seria incapaz de acompanhar.

Até que, há três semanas, quando saboreávamos dois cuscuz fumegantes, apoiou os cotovelos na toalha aos quadrados:

— Não lhe apetece passar as férias comigo?

— Se eu tivesse a certeza de que não me levavas a ver E Tudo o Vento Levou ...

Riu. É bonita quando ri, bem mais bonita do que a mãe. E veste com gosto, também não é como eu. Depois descreveu-me a casa, próximo de Sainte-Agnès no meio das colinas, de onde se desfruta uma vista magnífica e onde se ouve o silêncio das cigarras. Eu poderia descansar, ler, trabalhar, se me apetecesse; claro que Frédéric também lá estaria, mas ...

— Gosta de Frédéric?

— Sim, gosto de Frédéric.

E não minto, aliás. A única coisa que lhe reprovo é dormir com a minha filha; mas essa é a minha faceta antiquada.

— Fica então combinado? Vem?

Ergo o meu copo, cheio de um vinho lilás.

— Às nossas férias!

Separámo-nos felizes e contentes, encantados um com o outro.

Valha-me Deus! São quase quatro horas e ainda nem sequer fiz a mala. Ah, é verdade! E o carro? Aquela malvada bateria põe-me doente! E além disso tenho sempre a impressão de qué o meu pobre 3 CV, com mais de oitenta e sete mil quilómetros, vai deixar delïnitivamente de funcionar no cimo de alguma rampa. Detesto automóveis. Devia ir de comboio, em couchette, e amanhã de manhã encontrar-me-ia, fresco que nem uma alface, à sombra das palmeiras da Riviera. Em vez disso, vou ficar amarrado ao assento, encharcado em suor e a brincar com a morte a todo o instante ... Não é por uma questão de dinheiro. Podia perfeitamente pagar uma passagem de comboio, só que nunca me lembro de reservar o lugar; e desde que o Carnot me disse que era ridículo ir de comboio tendo um carro, lá me consigo convencer por alguns dias de que até é agradável conduzir: experimenta-se uma sensação de liberdade, pode-se parar onde se quer, etc. Até que finalmente, na véspera da partida, encontro-me com as mãos suadas de angústia à simples ideia de que terei de percorrer mais de mil quilómetros numa caixa de lata com um motor prestes a expirar. Não vou conseguir chegar. Só com muita sorte é que consigo ultrapassar Fontainebleau.

Vou fazer spaghetti para o jantar. É da maneira que já começo a respirar uma atmosfera italiana: Sainte-Agnès fica apenas alguns quilómetros distante da fronteira. Acendo um cigarro. A propósito, restam-me apenas dois cigarros para a noite. E se eu experimentasse deixar de fumar durante as férias? Vou viver ao ar livre; excelente oportunidade para limpar os brônquios. Anne sempre me preveniu contra os riscos que corro como fumador. E emprega palavras terríveis: enfarte, cancro, perda de memória. É caso para perguntar como é que ainda não morri. E hei-de fazer ginástica; há mais de dez anos que me prometo o mesmo. Imagino-me nitidamente, pela frescura da manhã, a correr em passo de ginástica por entre o alecrim e o rosmaninho. Hei-de voltar mais rijo do que nunca, com os pulmões sem um grão de nicotina.

Parece que já estou a ouvir a roliça Rebolot, no dia da abertura das aulas:

— Você está vinte anos mais novo, meu caro Bernier!

A água para a massa já ferve. Introduzo o spaghetti e ralo um naco de Gruyère. Quero deitar-me cedo e pôr o despertador para as quatro e meia. Barbeio-me rapidamente, coloco a mala no porta-bagagens e arranco. Seguindo pela auto-estrada, chego a Avinhão num instante, nada mais simples. Depois, corto pela Provença até Anne, que deverá estar à minha espera à porta de casa, como nos desenhos animados de Walt Disney.

Um prato, um garfo, uma faca, e sento-me à mesa.

São cinco horas da tarde, mas gosto de comer quando me apetece, sempre que me vejo livre do horário da cantina. Além disso, não comi nada ao meio-dia.

Lá fora, o disco branco do Sol bate implacavelmente nas vidraças. Este Verão os Parisienses vão esturrar, a cidade há-de transformar-se numa autêntica fornalha. Hão-de ficar desesperados. Esta ideia faz-me rir; estou a ser cruel. Amanhã por estas horas já estou longe.

*

— Sai daí, azelha! Nabo!

Cá está uma atitude típica dos condutores dos 404. Todos os tipos dos 404 são uns canalhas inconcebíveis que nunca pesam menos de cem quilos. Tudo isto porque eu ia a ultrapassar um semiatrelado monstruoso, de vinte mil toneladas, que se arrastava a quinze à hora; é o único género de veículos que eu consigo ultrapassar com facilidade, e evidentemente que não ia deixar de o fazer. Acciono o pisca-pisca, meto a segunda, tomo a faixa da esquerda, quando aquele palerma surge do horizonte a buzinar loucamente, parecendo mesmo querer mandar-me para a valeta, fazendo-me sinais luminosos, enfim, um exagero. Cheguei-me calmamente à direita e nessa altura já ele devia estar em Marselha.

Afinal, consegui ultrapassar Fontainebleau, mas há um pormenor que me aflige: esta velha carroça puxa que é uma maravilha! Por muito que apure o ouvido, não me apercebo do menor ruído, por mais que me esforce, não sinto qualquer cheiro a queimado — é angustiante. A avaria, quando surgir, não vai ser irrelevante.

Lyon, 380 km. Vai estar um dia quente, o sol já se faz sentir através da dupla parede do vidro do pára-brisas e do nylon da camisa. No entanto, pouco passa das oito da manhã. E que tal um cigarro para começar as férias?

Que prazer divinal! O fumo cinzento e azul paira na luz dourada. A estrada segue a direito, seguro o volante com dois dedos e o cigarro ao canto da boca; olho-me ao retrovisor e constato o meu ar feliz. Só falta um fundo musical. Não obstante os ruídos que interceptam a emissão, qual bronquite de um asmático, sempre é possível captar alguns sons.

O amor é tão bom,
Ai, tão bom, tão bom, tão bom.

Insuportável. Já ouvi esta cantora na televisão; alguns dos meus alunos revestem a capa dos dossiers com a fotografia dela. É quando olhamos para estes e outros fenómenos similares que nos sentimos longe das gerações actuais.

...engarrafamento de três quilómetros em Nogent-le-Rotrou; sigam por Émeraude. Boa viagem e boas férias! Daqui a dez minutos, nova informação das brigadas de trânsito. Convosco, Johnny ... Basta de telefonia.

Já cá faltavam as roulottes. E logo três de enfiada! Bem, vou ultrapassar: uma olhadela pelo retrovisor, nada de 404 no horizonte, força! Toca a afastar, meninos, que a estrada é minha. Ora aí está: três de seguida, que limpeza!

O malandro do automóvel puxa que é um encanto. Um autêntico papa-léguas! E nem sombra de avaria. Atenção!, uma bomba de gasolina, vamos encher o depósito. Não há muita gente, sobretudo na bomba da gasolina normal. Vou aproveitar a ocasião para desentorpecer as pernas. Largo trinta , francos — o preço do combustível sobe diariamente — e arrumo o bólide defronte de uma loja. Uma auto-estrada não deixa de ter piada: as estações de serviço assemelham-se cada vez mais aos centros , comerciais.

Saio do carro, olho para a montra que está à minha frente e, de repente, vejo-o. Julguei que já tivesse ultrapassado a idade dos amores à primeira vista, mas desta vez foi fulminante. Precisamente aquilo que eu quero: um fato completo, calças de boca de sino e bolsos com pesponto, mas de ganga tipo jeans — um sonho. Um olhar rápido pela etiqueta, por atavismo de amola-tesouras: cento e cinquenta francos; o preço é razoável para a minha bolsa. Quase me falta o ar. O momento é decisivo. Comprar assim, inesperadamente na auto-estrada, sem reflectir maduramente, é a Aventura em estado bruto. Uma vista dé olhos pela boutique: a empregada está sozinha e não tem o aspecto de uma sueca emancipada. Vou tentar a sorte.

Sempre é melhor verem-me chegar com um ar moderno: Anne vai ficar encantada, Frédéric, estupefacto, mas férias são férias.

Entro. Ela aproxima-se, sem nada de intimidante — e contam-se pelos dedos as empregadas de balcão que não me intimidam.

— Posso ver o fato que está na montra?

— Com certeza, eu já lho mostro.

Considera perfeitamente natural que eu goste daquele fato.

— É muito leve, muito agradável, e olhe que vamos ter um Verão quente ... Este modelo tem-se vendido imenso. Não quer vestir?

Pega numa fita métrica, com a qual me rodeia a cintura. E encontro-me numa cabina segurando nas mãos o objecto dos meus desejos. As cabinas deixam-me em pânico: a cortina nunca corre completamente e tenho sempre a impressão de que centenas de velhinhas espreitam pela abertura acotovelando-se para apreciarem as minhas peúgas feitas num acordeão, divertidas por verem a fralda da camisa a tapar-me as nádegas. Procedo racionalmente: primeiro os sapatos, depois as calças, que me escorregam para o chão; visto as novas; subo o fecho de correr e contemplo-me.

Impecável. Serei mesmo eu? Sinto-me espantosamente leve, elegante, com um toque de à vontade: o perfeito compromisso entre o diplomata e o cowboy do Arizona. Saio da cabina.

— Fica-lhe lindamente, nem sequer precisa de acerto.

— Confesso que me sinto bastante tentado, mas não acha ... como hei-de dizer ... não acha isto jovem demais para mim?

Os seus olhos castanhos reflectem o espanto.

— De maneira nenhuma! É mesmo o seu género de fato. Ainda ontem um senhor que não teria menos de sessenta anos comprou um, não tenha medo ..

Sessenta anos! Este argumento convence-me definitivamente.

— Vou levá-lo.

— Quer levá-lo vestido?

Esta mulher só tem boas ideias. Volto a enfiar-me na cabina, apanho as calças velhas e o casaco, entrego-lhos, transfiro chaves, carteira e canetas para os bolsos do novo fato e assino um cheque.

Faz-me um embrulho e saio para o sol. Decididamente, é um dia de sorte: compro um fato moderno, está um tempo maravilhoso, vou para casa de Anne, tenho vinte anos a menos. Viva! Faço-me outra vez à estrada. O carro pegou à primeira. Foi difícil atravessar Vienne e Lyon, onde o tráfego provocava engarrafamentos. Mas isso já lá vai.

Valence, 85 km. Pouco falta para as duas da tarde. Experimento uma sensação há muito esquecida: tenho fome. A maior parte das vezes como maquinalmente, sem experimentar qualquer prazer. E agora, de repente, apetece-me um prato saboroso: uma salada de tomate, um rosé seco e um bife grelhado. Pensava comer algures uma sanduíche, mas hoje é dia de festa.

Percorri mais trinta quilómetros até que se me deparou um sinal com uma faca e um garfo cruzados. Só de os ver, cresce-me água na boca. Instalo-me junto à janela envidraçada, orgulhoso do meu fato de Verão. Os tampos das mesas, de acrílico transparente, brilham.ao sol. À minha frente tenho uma garrafa de rosé embaciada e uma salada de arroz, azeitonas, ovos cozidos e uns cubos que não consigo identificar. Uma delícia.

Um homem gordo, com ar preocupado, aproxima-se da minha mesa:

— Dá-me licença?

— Faça favor.

Manda vir uma choucroute, em tom irado, e inicia a conversa:

— Não costuma ter problemas com o radiador?

Sempre ignorei se o meu carro tinha ou não radiador. Já verifiquei, no decurso de numerosas conversas, que o meu automóvel não tem nada do que os outros têm. É tão raro levantar o capot ... Respondo ao acaso:

— Não, quanto a isso, não.

Fica decepcionado e ataca melancolicamente a salsicha de Francfort. Sinto remorsos de o deixar naquele estado.

— A bateria é que me tem dado que fazer.

Interrompe-se, o garfo suspenso.

— Quantos anos tem a sua bateria?

Vasculho freneticamente a memória:

— Cinco.

E ele remata, peremptório:

— Nesse caso, já deu o que tinha a dar. Eu cá, ao fim de três anos, bateria nova.

Com aquela é que eu não contava. Felizmente, o meu bife gre lhado está a chegar e levanta-me o moral. Para me mostrar entendido no assunto, acrescento:

— Ainda serve; tenho é de substituir os platinados um dia destes.

Ouvi frequentemente esta frase e sinto-me satisfeito por poder aplicar a fórmula; porém, não devo ter dito o mais acertado, porquanto o meu vizinho da frente olha-me com desconfiança e concentra-se no queijinho.

Despacho-me rapidamente, pago a conta e saio do restaurante. Sempre há pessoas que têm prazer em envenenar-nos o espírito.

Introduzo a chave da ignição, ligo, o carro pega. O tipo é parvo: a querer convencer-me de que a bateria estava liquidada! Ligo a telefonia: é um grupo pop, mas deixo tocar. Quando se veste um fato como o meu, é preciso saber acompanhar os tempos. Ponho-me a assobiar. Sinto-me bem.


Capítulo II

Cheguei! Sob um sol dourado, que apenas iluminava os telhados de telha redonda, o campanário da igreja e as colinas agrestes. Tive de perguntar o caminho por três vezes. Da última vez, um velhote mudou a cesta para o outro braço e introduziu a cabeça pela janela, espalhando no carro um cheirinho a figos e a uva moscatel.

— O senhor sai da aldeia e vê um caminho imediatamente a seguir ao lavadouro. Avança uns quinhentos metros e logo vê a casa. Mas tenha atenção, que é hora de recolher as cabras e o gado é espantadiço.

Agradeci e arranquei. Estava esgotado. Doze horas ao volante representam muito, sobretudo para mim. O caminho que o velhote me indicou sobe em ziguezague. Abundam as pedras de arestas aguçadas e os meus pneus já começam a ficar carecas. Para evitar azares, arrumo o carro e percorro o resto do trajecto a pé. Cruzo-me com um bêbado e, depois da curva, avisto a casa. Primeira desilusão: Anne não está à minha espera à soleira da porta. Em vez dela, vejo um rapaz sentado nos degraus, descalço e de tronco nu, trabalhando com arame. Parecia estar em casa dele. Pergunto-me se não me terei enganado.

— É aqui que mora Anne Bernier?

Só depois de acabar de torcer uma ponta me respondeu: — É.

Se há algo que não suporte, é interrogar alguém e ficar à espera que o interpelado acabe o que está a fazer antes que me responda.

— Sou o pai dela.

O traste não se mostrou impressionado. Aliás, não tinha razão para tal. Encolheu umas patorras de pernalta para me deixar passar e estendeu-me a mão.

— Olá. Sou o Max.

Ainda eu não desfizera um sorriso idiota quando Anne apareceu, radiante. Trazia uma camisola sem mangas e uma saia de caqui.

Pregou-me dois beijos sonoros e arrastou-me para dentro da casa.

— Estou tão contente! Entre depressa, deve vir estafado.

Lá dentro a luminosidade era ténue: consegui apenas distinguir uns bancos, umas latas de tinta e um grupo de jovens de ambos os sexos sentados no chão em esteiras. Tive a sensação de que eram pelo menos alguns trezentos.

— Vou fazer-lhe um café, sente-se. Estão aqui uns amigos meus.

Do magma confuso que cobria o chão emergiram alguns braços, que esboçaram um gesto vago à guisa de cumprimento. Respondi-lhes do mesmo modo e deixei-me cair num banco. Foi nessa altura que me lembrei de que, no fim do almoço da Rua de Bièvre, ela me dissera rapidamente algo a que eu não ligara importância, qualquer coisa como: Hão-de lá aparecer uns amigos, por entre o habitual fluxo torrencial de palavras. Esquecera-me completamente daquele pormenor.

Só depois de fazer mil e duzentos quilómetros é que o enfrentava: encontrava-me numa comunidade.

Relanceei-os enquanto bebia o café, e fui respondendo às perguntas de Anne; a cabeça de um guedelhudo apoiava-se no traseiro de uma jovem enorme, de saia comprida, deitada de barriga para baixo, que lia à luz crepuscular.

— Não teve nenhum problema?

— Não, a viagem correu lindamente.

Anne chega a cabeça atrás, como que a contemplar um quadro, e junta as mãos:

— Espere ... Tem um fato novo!

Por pouco não me engasgo com o café. E, quase a gaguejar:

— Sim, estava muito calor e achei que ...

Torna a beijar-me:

— O pai é espantoso. — E voltando-se para trás: — Está quase pronto, Kim?

Vejo a cabeça de Kim espreitar à janela. Ainda não a vira: ruiva, cabelo encaracolado, minúscula. Traz uma colher de pau na mão.

— Já ferve — respondeu.

— Chega aqui. Quero-te apresentar o meu pai; esta é a Kim Spander, já a deve ter visto na televisão.

Aperto o pulso de Kim, que continua de colher na mão.

Frédéric, de camisa indiana, chega nessa altura, seguido por Max, que ainda não largou os arames.

— Ah, Sr. Doutor! Boa noite. Então fez boa viagem?

Nem sequer tenho tempo de lhe responder. Anne arrasta-me pela escada acima.

— Venha cá ver o seu cantinho.

Embora de dimensões exíguas, é encantador: chão de tijoleira, paredes caiadas, cama antiga de varões de cobre, armário rústico.

Volta-se para mim. Digo-lhe com entusiasmo:

— Formidável!

Ri-se.

— Não trouxe exercícios para corrigir?

Agora quem ri sou eu.

— Não. Liberdade total. Tu aqui não tens livros?

— O quarto ao lado está cheio deles. Cá na aldeia não há, mas Menton fica a vinte e cinco quilómetros e encontra-se lá de tudo.

Vou mostrar-lhe a casa de banho.

— Espera. Deixei a minha mala no carro, tenho de ir buscá-la.

Atravessa o quarto e debruça-se à janela:

— Frédéric! Importas-te de ir buscar a mala do pai?

— Deixa que eu vou, não tenho setenta anos — protesto.

Esboça um gesto maternal.

— O pai está cansado, precisa de tomar um banho. A Kim fez carne estufada para o jantar, eu disse-lhe que era um prato de que o pai gostava. Se precisar de alguma coisa, chame.

Está quase a sair do quarto quando, timidamente, arrisco:

— Vocês aqui são mais que muitos!

— Somos dez, contando consigo. Até já.

Contemplo a banheira, semiatordoado. Através daquelas paredes grossas chega-me o barulho da louça, risos. E eu que nunca fui capaz de me juntar a grupo nenhum! Eu, que sou associal por excelência, encontro-me agora em plena colónia de férias. Caí numa autêntica emboscada. Bem, depois se verá; mas se não fosse por Anne, já estaria a cem quilómetros de distância. No entanto, tinha obrigação de saber que ela é incapaz de viver sem quinhentas pessoas à volta dela.

O duche faz-me bem. Deito-me na banheira e deixo a água escorrer pelo corpo. Sinto-me bem, sei que vou adormecer; os azulejos da parede vão perdendo nitidez, distingo apenas um clarão esbranquiçado que vai escurecendo, escurece mais ainda ... vai desaparecer ..

O amor é tão bom,
Ai, tão bom, tão bom, tão bom ...

Por pouco que não rachei a cabeça na saboneteira. Foi o gira-discos mais potente que jamais ouvi em dias da minha vida. Aliás, erguem-se gritos de protesto e o som baixa imediatamente de volume. Ensaboo-me lentamente, com a cabeça oca.

Toc, toc, toc.

Ergo-me de um salto, bato de novo com a cabeça na saboneteira e ponho uma toalha às ramagens à volta da cintura.

— Hm ... Entre.

É a jovem alta, da saia comprida. Traz a minha mala na mão.

— Desculpe, é só para lhe entregar a mala.

— Ah, sim ... está bem. Muito obrigado.

E fico agarrado à toalha. Ela está perfeitamente à vontade, muito mais do que eu.

— Chamo-me Françoise.

Uma autêntica sorte ela não me ter estendido a mão. Devo estar com cara de parvo. Quem diria, ontem à noite, que neste momento estaria nu na casa de banho com uma gigante?

— Bem ... eu ... eu sou Bernier. Jacques Bernier.

Dirige-me uma espécie de saudação militar abortada. Imito-a maquinalmente, consigo apanhar a toalha no momento exacto e sento-me, arrasado, depois de ela sair. São demasiadas novidades para um homem só.

Visto uma camisa, umas calças e tento um golpe de audácia: não vou calçar meias para o jantar. É com um nó na garganta que desço pela escada abobadada e sem reboco; não é caso para menos: vim cair num bando de hippies.

AS verdadeiras apresentações fizeram-se à volta da carne estufa, na confusão do arrastar dos bancos.

Max, o homem dos arames, já eu conhecia. Fiquei a saber que aqueles objectos de pequenas dimensões que ele fabrica são maquetas de esculturas abstractas, que, ao que parece, ele vende bastante bem nos Estados Unidos.

Eis outra coisa que me aflige; nunca ventilaria sequer a hipótese de ganhar a vida a enrolar fio de cobre à volta de uns fragmentos de madeira.

Kim é bailarina; de vez em quando, quando menos se espera, faz uma espargata ou um entrechat. Françoise, a mulher-gigante, trabalha numa empresa qualquer. Há ainda dois tipos com barbas à Cristo: Antoine e Virgile. Um deles está com uma jovem estilo boémia, com um xaile de lã preta, que olha para mim como se eu fosse desfazer-me em pó de um momento para o outro.

Anne interpela-me do outro extremo da mesa: — Então, que tal acha a cabana?

Procuro desesperadamente uma resposta original. Tenho de impressionar esta malta nova.

— Sensacional. Já não consigo viver em mais lado nenhum.

Um dos Cristos graceja:

— Eu também não, antes de Dezembro não saio daqui.

Risos. Falam todos ao mesmo tempo.

— Põe um disco — diz Frédéric.

Françoise bamboleia-se até a um canto da sala. Kim grita-me qualquer coisa que eu não percebo. Anne conversa animadamente.

Atrás de mim, a orquestra arranca. A voz da boémia domina a confusão geral:

— É professor?

Cuidado, piso escorregadio.

— Sou.

— Como é possível ser-se professor nos tempos que correm?

Vejo Anne rir às gargalhadas através do fumo da terrina. Grito:

— Sim, às vezes é difícil, mas chega-se ao mês de Junho todos os anos ...

Max levanta a cabeça:

— Eu estava convencido de que os tipos lhe mandavam uns tirinhos sempre que o viam entrar na aula...

— Até à data nunca me aconteceu; talvez para o ano.

Frédéric palita um dente com a unha do mindinho.

— Os seus alunos não lêem Mao? Ele disse que, quando um professor era chato, os alunos tinham o direito de dormir.

Françoise protesta:

— Dormir não é um direito, é uma necessidade. Eu, na faculdade, fartei-me de dormir.

E a conversa continua, enquanto eu fico esquecido no meio da confusão. De certeza que não aguento três dias neste ambiente. A boémia esvazia o copo de um trago, como um estivador.

— Então não dizes nada, Frantz?

É verdade, já me esquecera deste. É um austríaco com uns óculos de aros redondos e três colares em torno do pescoço que segue um regime vegetariano. Está a ruminar verduras há mais de meia hora, passeando à sua volta um olhar de infinita comiseração.

Frédéric encosta-se para trás, apoiando as solas dos ténis no rebordo da mesa.

— És tu a lavares a louça, Antoine.

Antoine protesta, e eu, numa tentativa de mostrar a minha boa vontade e o meu profundo sentido de colectividade, ofereço os meus préstimos.

Recusa geral. Françoise levanta-se do banco e vai enroscar-se num sofá junto à lareira; os outros arrumam-se pela sala, tagarelando em voz baixa. Frédéric sentou Anne ao colo. Um dos Cristos fechou os olhos e adoptou uma postura de ioga. Kim levanta a mesa, sempre a esboçar passos de dança; Frantz, de passagem, vai-lhe acariciando a barriga das pernas num gesto simples, ao qual ela não liga importância. Decididamente, as mulheres estão a mudar.

Não só me aborreço, como tenho medo de qualquer coisa, não sei bem de quê, que um deles me agrida, me faça uma pergunta. Eu não tenho a mesma vivacidade de espírito, já não compreendo muito bem a sua linguagem, as suas brincadeiras...

Contemplo as minhas calças novas; a ilusão que me deram foi de pouca dura; graças a elas, fui jovem durante algumas horas. Esta noite sinto-me velho. Levanto-me.

— Desculpem-me, mas estou estafado. Boa noite a todos!

Anne vem atrás de mim e dá-me um beijo. Não consegue disfarçar um fundo de inquietação nos seus olhos.

— Que tal os achou? Forço um pouco a voz:

— Simpáticos, muito simpáticos.

Consegui tranquilizá-la ..

E cá estou eu no meu quarto. Que dirão eles de mim neste momento? O teu pai não é desengraçado. Parecia um pouco chateado. Não deve ser muito conversador ... ou então, pior ainda, abordam outros assuntos, como se eu não existisse. Ouço-os rir.

Parecem muito divertidos desde que saí da sala. Adormeci de repente. No dia seguinte, ficaria a saber que se deitaram por volta das quatro. Parece que o serão foi giríssimo.

O que mais me aflige são as refeições, quando estamos todos reunidos. Durante o resto do tempo, não é assim tão mau. Andei a passear pelas colinas, com um livro da Série Negra no bolso. Escolhi uma árvore e instalei-me à sombra. Li quatro páginas e adormeci. Entretanto, o Sol rodou e apanhei uma verdadeira queimadura.

Kim felicitou-me pelo meu óptimo aspecto.

— Quando chegou — disse-me ela - tinha uma cara de desenterrado.

Passei a tarde com Catherine. É a boémia. Veio ter comigo debaixo das figueiras, embrulhada no seu xaile; e, no entanto, a temperatura devia orçar os vinte e cinco graus à sombra.

Não é parva nenhuma; leu muito e trabalha para umas revistas, vendendo espaço para publicidade. Tenho a impressão de que se lhe tivesse proposto vir dormir comigo ela teria aceitado o convite com a maior naturalidade, como uma ajuda que se presta a um colega de equipa; mas não estava sequer em causa fazer-lhe semelhante proposta: o avozinho é tão complexado ...

O serão foi interminável. O Virgile-Cristo põe todos a rir, mas não consigo achar-lhe piada. O sorriso que afivelo deixa-me os músculos faciais doridos. Fui uma vez mais o primeiro a recolher-me.

Mesmo antes de adormecer, ocorreu-me uma ideia: amanhã, sob um pretexto qualquer, vou a Menton, preciso de estar sozinho. A este simples pensamento, fiquei logo bem disposto. Pronto, fica então assente que vou à cidade.

*

Abri as janelas sobre um céu carregado, um amontoado de nuvens densas e plúmbeas. As folhas da vinha virgem palpitavam mansamente, parecendo preparar-se para suportar a borrasca de uma trovoada de Verão. Respirei a atmosfera húmida. Aquele tempo servia as minhas intenções; era mais um pretexto para ir comprar livros; com um tempo destes, que mais fazer senão ler?

Desci. Anne apareceu mais tarde, bocejou algumas dez vezes e ligou a telefonia. Barrei com manteiga uma fatia de pão e anunciei a minha decisão de ir à cidade. Estava com um certo receio de que algum dos elementos do bando me pedisse para o levar, mas não houve candidatos e pude partir livremente.

Gotas pesadas fustigam o pára-brisas com chicotadas violentas que as escovas vão varrendo à mistura com a poeira. Vindo do mar, ouve-se o ribombar dos trovões e a chuva pára. Abro a janela e sinto o ar fresco. Tem um sabor açucarado a solidão; parece-me que não estou sozinho há uma eternidade.

Menton sofreu uma considerável alteração. Passei por aqui ainda garoto. Lembro-me de uma praça perto do Casino, onde brinquei com areia, sem me afastar do banco onde a minha mãe tricotava. A toda a volta erguiam-se palácios gigantescos, circundados de colunas; lá em cima, muito alto, sucediam-se as cúpulas e as abóbadas; era, ao mesmo tempo, Bagdade, Alexandria, Moscovo ...

Depois de uma curva, avistei a baía, e as minhas recordações esbarraram numa muralha de betão. A marginal foi invadida por arranha-céus. Riviera Beach, Sun Marina, restaurantes de vidro e plástico, snacks cheios de drogados, alinham-se junto ao passeio.

Estacionei o carro e dirigi-me a pé para a cidade velha.

Caminho de cigarro nos lábios, mãos nos bolsos. Subo as escadas do paredão e avanço até à extremidade do molhe para contemplar o oceano como um velho lobo do mar. Não me parece que esta zona tenha sofrido alterações consideráveis. No entanto, dir-se-ia que tudo perdeu dimensão, ou então fui eu que cresci.

Lá está o farol. O mar ganhou tonalidades sombrias, que lhe emprestam um aspecto levemente fúnebre. Nem um único barco, apenas uma gaivota de pedais, com um par que se deixa embalar melancolicamente, os pés imóveis. Nos blocos de pedra que prolongam o paredão há pescadores atentos às linhas que lançaram. Gosto de olhar para os pescadores. Não deve haver espectáculo menos animado, mas detenho-me sempre para os contemplar.

À minha frente, o mar adquire tonalidades de cor, o cinzento dá lugar a uma transparência entre o verde e o azul. Como me sinto bem! Chego a esquecer a minha trupe de saltimbancos. A propósito, é melhor ir comprar uns livros; é quase meio-dia e as livrarias vão fechar.

Agora há mais gente no paredão; jovens a passear, pares que trocam beijos rápidos e alegres; possivelmente conhecem-se apenas há um ou dois dias e já se beijam! Como tudo é rápido actualmente!

Eu, com o sexo oposto, desempenhava papéis complicados, era respeitador e hipócrita; aos dezassete anos armava-me em homem, e aos quarenta e cinco tenho a sensação de ainda o não ser, ao passo que estes rapazes se me afiguram subitamente de uma grande maturidade: aceitam-se tal como são, abraçam as mulheres que lhes agradam, desprezando tácticas e estratégias.

Talvez por serem mais atraentes do que  eu era; acho-os mais altos, mais elegantes, mais bronzeados, mais alegres ... talvez devido à alimentação, ao desporto. Em todo o caso, quando cruzo com eles, sinto-me um velho invejoso, subitamente com dez mil anos e ...

É melhor mudar de assunto. Cá está a livraria.

Agora sim, estou no meu elemento. Em primeiro lugar, o cheiro. Às vezes pergunto a mim mesmo se o meu primeiro contacto com a leitura não terá sido olfactivo; quando era garoto, cheirava os livros antes de os ler. Sou um perdigueiro de biblioteca.

Os prémios literários, enfaixados numa cinta, e os best-sellers estão perto da caixa. Uma vista de olhos pelas novidades e vou direito aos livros de bolso, que ocupam uma parede inteira, junto da qual me acocoro para ver os títulos mais recentes.

Acabei por levar dois Balzacs, um Gide, um Cocteau, para não deixar esmorecer a cultura, e quatro policiais. A empregada enfiou tudo num saco. Deve-me chegar para uma semana; quando tiver acabado, venho buscar mais.

Próximo da cidade velha, entrei numa tasca sem muita gente.

Instalei-me numa mesa minúscula, entre uma família holandesa e uns pintores da construção civil espanhóis; encomendei spaghetti à bolonhesa — dezasseis francos, com um jarro de rosé e um café e em breve me encontrava, feliz e contente, sobraçando o saco de livros, no meio da rua. Tinha uma tarde inteira à minha frente e senti crescer em mim uma velha inquietação: que iria fazer para passar o tempo?

Dirigi-me ao Casino, onde me surgiu uma ideia brilhante. O cartaz era espantoso: um mastodonte de olhos verdes e dentes a escorrer sangue esmagava sob as suas patas negras alguns quinze arranha-céus. O monstro apertava numa das mãos uma mulher nova, de aspecto atraente, e que, compreensivelmente, não parecia estar muito à vontade. Ao lado, anunciava-se: Sessão às 14 horas. Passava um minuto das duas. Precipitei-me para a bilheteira e entrei como se fosse a comandar um regimento.

É nestas caves, sob estas abóbadas centenárias, que se processam as últimas fases do fabrico destes queijos, que, amanhã, irão dar a volta ao Mundo." Não vejo quase nada no escuro; a arrumadora apontou-me o foco da lanterna à cara, como se quisesse forçar-me a confessar um crime. Não há quase ninguém: alguns pares espalhados nas últimas filas, meia dúzia de habitués da terceira idade e eu.

As imagens sucedem-se com uma lentidão desgastante. Agora, vejo uma dúzia de papalvos de bata branca, feitos enfermeiros, a carregar os malditos queijos para uns camiões. Enterro-me na poltrona.

Antes de serem expedidos, os queijos irão permanecer durante algum tempo nestes armazéns frigoríficos ..." — Mas que estopada!

Tenho um sobressalto. Quem foi que disse aquilo? Endireito-me no assento e consigo vê-la. Está sentada na fila à frente da minha, três lugares à esquerda. Tem os joelhos mais acima do que a cabeça e as variações de luz no écran reflectem-se-lhe na ganga esticada dos jeans. De momento, sei apenas três coisas a seu respeito: está farta da história dos queijos, é loura e gosta de enterrar-se na poltrona do cinema.

E é assim que, dia a dia, no seio desta terra ingrata, se vai construindo a maravilhosa aventura do queijo amanteigado. A última imagem é projectada ao som de uma marcha triunfal; por detrás das montanhas do Auvergne, declina o disco vermelho do Sol.

É superior às mirihas forças. Tenho de bater palmas.

Afinal, acabo sempre por me surpreender a mim mesmo; sou tímido, não gosto de me fazer notado, até que, repentina e inconsequentemente, cometo uma asneira qualquer.

A mulher sentada à minha frente põe-se a rir e volta-se na minha direcção, enquanto se acendem as luzes.

Vejo-lhe a cara pela primeira vez. Já não é nenhuma criança. É uma mulher dos seus trinta e cinco anos, bonita, em meu entender, com uns lábios meigos e um caracol caído sobre o rosto, como um parêntese de cabelos.

— Deve gostar imenso de queijo!

— Ando sempre com um em cada bolso, de marcas diferentes.

Vejo-lhe os dentes brilhar quando ela torna a rir. Voltou-se outra vez para o écran e agora apenas lhe distingo a parte superior da cabeça.

Não anda em busca de aventuras. Tenho a certeza. Não é desse género. Traz uma camisa azul, de corte militar, com os bolsos pespontados. Não é vestimenta para conquistas; seja como for, parece ter-se esquecido completamente de mim.

A arrumadora percorre a coxia lateral apregoando gelados. Pára ao fundo da sala, junto ao écran, lança um olhar desenganado pela sala deserta e desce pela outra coxia, esmagada pelo destino. As luzes extinguem-se. Música suave. Uma frase publicitária: Os discos que está a ouvir encontram-se à venda na Discodisc, Avenida Gambetta, 6. Fica-me no ouvido o riso da minha vizinha. Um riso que não tem medo de rir, sem nada de contido nem de forçado. Aquela mulher deve ser uma obra-prima de equilíbrio.

E é que não teve medo de me dirigir a palavra! Eu não o teria ousado. Bravo. Chego-me um pouco à frente e vejo-a bocejar. Enfio-me outra vez na poltrona. Sempre quereria ver a minha cara se ela me apanhasse a espiá-la. Então, Jacques, não comeces a sonhar: ela é nova, bonita, arranja os homens que quer e não precisa para nada de um insignificante professor.

Apagaram-se as luzes. Segue-se um violento rufar de tambores e, no enorme écran de cinemascópio, o título O MONSTRO QUE VEIO DO ALÉM desaparece logo a seguir.

*

Depois de vestir uma vaporosa camisa de noite, Teresa prepara-se para se enfiar nuns lençóis azul-turquesa às riscas cor de amora; o telefone toca.

És tu, querido? Sou; olha hoje vou mais tarde, precisam de mim no laboratóno. Não te preocupes, querido, está tudo bem e sinto-me muito calma." (Na realidade, os seus dedos tamborilam nervosamente e, numa sequência anterior, ela derrubara uma pilha de pratos. É um filme muito subtil.) Vai-te já deitar, filha. Tordo fugiu para o deserto, podes dormir descansada. (Tordo é o nome do monstro.) Teresa é a mulher de um sábio que procura aperfeiçoar uma arma destinada a liquidar o monstro; este, por seu turno, não apresenta características especiais, para além de ter pulverizado o Empire State Building com as costas da mão.

Teresa fecha os olhos. Pressinto que vai acontecer qualquer coisa ... É agora! Uma sombra enche o écran e vê-se um olho de vinte e cinco metros quadrados colar-se à vidraça da janela. A música torna-se lancinante e, de repente, Tordo arromba a janela e segura a delicada criatura entre o polegar e o indicador. Teresa grita. A minha vizinha endireitou-se no assento e, apesar do barulho, ouço-a soltar uma exclamação. Chego-me à frente:

— Não tenha medo, eu estou aqui.

Voltou-se para mim e o seu rosto reflecte a luz rosada do écran.

Tive vontade de falar-lhe, de estar com ela noutro sítio qualquer, de abandonar aquele filme idiota que não consegue divertir nenhum dos dois. Mas, para isso, seria preciso uma coragem que nunca tive.

O meu coração bate descompassadamente, falhei não sei quantas oportunidades semelhantes ao longo de toda a minha vida e, desta vez, tenho de levar as minhas intenções até ao fim. Numa situação destas, Frédéric ou Max já teriam mudado de lugar e já estariam abraçados a ela, ao passo que eu ... Inclinei-me para a frente.

— Desculpe, mas começo a estar farto do filme e creio que você também. Se estiver de acordo, podemos sair e tomar qualquer coisa. Desde já lhe digo que isto não é nenhuma manobra da minha parte.

Nunca na minha vida me senti tão orgulhoso comigo; pareceu-me por instantes que não fora eu quem falara. Ela permaneceu silenciosa durante alguns momentos, após o que se ergueu de repente.

— Está bem.

Saímos devagarinho da sala. Estava escuro, e por pouco não tropeçou nuns degraus; segurei-a pelo braço e descemos.

Lá fora estava um dia de Verão. Encostou-se à parede, manteve durante uns segundos o rosto voltado para o céu e depois perguntou:

— Que horas tem?

— São quatro e cinco.

— Tenho de estar aqui outra vez às cinco. A minha irmã ficou de vir buscar-me porque ...

Sorriu e acrescentou em tom alegre:

— Sou cega.

*

— Duas imperiais.

Tem os olhos claros; as pupilas reflectem o mar e um canto do guarda-sol: mar e guarda-sol que ela não vê. Sinto-me extraordinariamente calmo. É estranho poder olhar para as pessoas sem receio de que elas se ofendam por as fitarmos. Posso contemplar-lhe a boca e a testa perfeitamente à vontade, enquanto ela bebe e fica com um grão de espuma colado ao canto dos lábios. Pousou o copo no balcão, guiando-se com o dedo mindinho, que aflorou a superfície polida num gesto brando, sem tactear.

— Quem é você?

Enrola uma madeixa de cabelos em torno do dedo e espera.

— Bem eu ... enfim, é muito simples: sou professor de Francês e ... estou de férias.

Sinto que ela continua à espera. Ou talvez um cego necessite de informações mais pormenorizadas, como compensação da sua deficiência.

— Vivo em Paris, sou divorciado e ...

Interrompe-me com um gesto. Tem uns dedos esguios e não usa anéis; apenas uma pulseira de prata em torno do pulso.

— É muito mais divertido brincarmos às adivinhas. Idade: trinta anos.

É mais uma afirmação do que uma pergunta.

— Não. Quarenta e dois.

Quando minto, sou mesquinho; poderia ter dito a verdade ou eliminar pura e simplesmente quinze anos. Em vez disso, porém, escamoteio uns míseros três anos.

— Nunca o diria. Tem uma voz tão jovem.

Sinto-me remoçado. Vejo-a puxar de um maço de cigarros e de uma caixa de fósforos. Involuntariamente, a minha mão precipita-se para o isqueiro que trago no bolso, mas detenho-me a tempo.

Acende o cigarro, puxa uma fumaça longa, calma, e assenta a nuca no espaldar da cadeira.

— Você tem bigode?

— Acha que tenho voz de quem usa bigode?

— Não sei, talvez.

Acendo também um cigarro.

— Pois bem, tenho bigode, sou alto, moreno, tenho orelhas grandes, rodei E Tudo o Vento Levou e chamo-me Clark. Quem sou eu?

Aponta subitamente o cigarro na minha direcção.

— Você fuma, e quando tirei um cigarro não me ofereceu lume. Porquê?

Tenho desde o início a impressão de que só vou dizer coisas acertadas, as coisas que ela quer ouvir; sinto-me seguro de mim.

— Prefiro ser eu próprio a acender os meus cigarros, e achei que não devia roubar-lhe esse prazer; além disso, fá-lo perfeitamente sozinha.

Com um leve toque da unha do polegar deixa a cinza cair com precisão no cinzeiro.

— Chamo-me Laura Bérien. Sou parisiense, tenho trinta e quatro anos e bebo imperiais à custa dos cavalheiros que encontro no cinema.

Tem um perfil muito correcto. Na linha de recorte do seu pescoço há algo que me enche de um desejo louco de me atirar a ela e fugir com ela para o país dos sonhos. Bernier, toma cautela! O tempo das paixões adolescentes já lá vai.

Esmaga a beata no cinzeiro:

— Gostava de saber o que será feito do Tordo a estas horas.

Espero que não o tenham morto.

— Não, Teresa apaixona-se por ele, casam-se e têm muitos monstrozinhos.

Assentou os cotovelos na mesa e apoiou o queixo nas mãos. Mantém-se sonhadora durante alguns instantes.

— Como era Teresa?

— Dois olhos, um nariz, uma boca, deve haver dezenas de milhões de exemplares com um rosto semelhante.

Acaricia as suas faces com as pontas dos dedos, fala mais lentamente.

— A princípio tinha medo de não ser capaz de me lembrar da minha cara.

Olho-a: acho-a ainda mais atraente do que há pouco.

— Como foi que isso lhe aconteceu? — pergunto após um breve silêncio.

Encolhe os ombros.

— Os termos científicos são muito complicados, mas parece que é uma doença raríssima; para simplificar, pode dizer-se que consiste num enfraquecimento progressivo do nervo óptico. A luz foi diminuindo durante alguns meses e depois, de repente o interruptor desligou-se. A chamada brincadeira de mau gosto.

— Foi há muito tempo?

— Há quatro anos.

Endireita-se bruscamente e pousa as mãos nos joelhos. De repente, volta a sorrir.

— Afinal, continuo sem saber se sempre tem bigode ou não.

— Não, não tenho, mas tenho os beiços a escorrer sangue e a cara coberta de pêlos. Chamo-me Tordo.

Ri mais uma vez; tem os olhos voltados para mim e, durante um segundo ocorre-me ao espírito a ideia de que ela me mentira, que me vê, que tudo aquilo é uma brincadeira.

— E capaz de dizer-me as horas, Tordo? Santo Deus! Esquecera-me completamente: são cinco menos cinco. Deixo uma nota de dez francos sob a base do copo de cortiça. Este ano as tuas férias acabam cedo, Bernier. Foram curtas, mas sei desde já que as não esquecerei tão depressa.

— São quase cinco horas, Laura, eu vou consigo. Quer dar-me o braço, ou prefere que ...

— Vamos de braço dado; ao fim e ao cabo, não é nenhuma coisa reservada aos cegos — responde, levantando-se.

Caminhamos pela avenida.

— A minha irmã está à minha espera em frente do Casino; tem um 2 CV azul-marinho, com a parte da frente amolgada do lado direito.

— Não quer que ela a veja comigo? Posso deixá-la sozinha, se quiser.

Quando sacode a cabeça o caracol dança-lhe na face.

— Não, não tem importância nenhuma. Você é um monstro muito delicado.

Chegámos. Os seus cabelos cheiram a limão. Não posso esquecer-me deste perfume ... Larguei-lhe o braço e conservo na palma da mão a doçura daquela forma arredondada. Num gesto arrapazado, voltou a enfiar as mãos nos bolsos. Foi nesse instante que vi o automóvel. Tenho vinte segundos para me decidir.

— Ouça, Laura, gostava de voltar a vê-la.

 Voltar a vê-la, como sou desastrado. Estas palavras não fazem sentido para ela.

Baixou a cabeça, apenas vejo o ouro dos seus cabelos. Atrás de nós ouço abrir e fechar uma porta. Vêm buscá-la. Decidi-me demasiado tarde. Adeus, Laura.

Então, com a simplicidade de quem pede para lhe chegarem o sal, disse:

— Passe um dia lá por casa: Vila Caprizzi, na Estrada de Gorbio.

A irmã pousou-lhe a mão no ombro e beijou-a, sem desviar os olhos de mim. Não eram parecidas e o seu olhar era desconfiado, como o das aias velhas no teatro. Se Laura lhe perguntar qual é o meu aspecto, a descrição não vai ser favorável.

Laura apresentou-nos:

— A minha irmã Edith. Tordo, o monstro do além.

Um pouco atrapalhada, murmurou:

— Muito prazer.

Pura convenção. Só nós dois nos divertimos com a cena. Vi o carro desaparecer. Julguei que ia permanecer ali até ao fim dos tempos ou pelo menos até à abertura das aulas.

Em casa só estavam Max e Kim. Pus a mesa, cantarolando. Só quando me sentei é que reparei que me esquecera dos livros no cinema.

*

Não consigo adormecer. Continuo a não ser capaz de apreender a realidade do que me aconteceu. Eu, Jacques Bernier, estou apaixonado como não é permitido estar-se ao fim de uns bons vinte anos de serenidade sentimental.

Laura ...

"Cego" é uma daquelas palavras cujo significado real desconheço. Que é que se vê quando nada se vê? Outra pergunta: será possível agradar e ser amado sem ser visto?

Rio sozinho na cama: eu, que sempre detestei fazer-me notado, eu, que sempre quis passar despercebido, acertei em cheio: apaixonei-me por uma mulher que nunca me há-de ver.

Laura ...

Claro que vou lá amanhã; não me vou armar num homem ocupado, com numerosas visitas a fazer. Não; tê-lo-ia feito aos dezoito anos, mas esse tempo já lá vai. Além de que não seria capaz de passar o dia nas colinas sabendo que ela está à minha espera, sozinha na escuridão permanente ... Se eu conseguisse que ela fosse menos cega ao pé de mim ...

Aliás, estará ela à minha espera? É talvez ela quem está sempre ocupada, rodeada de amigos, sou capaz de ir parar a uma sala cheia de gente requintada, espirituosa, que sabe tocar piano, por entre a qual Laura abre caminho, vindo ao meu encontro com um sorriso: Deixe-me apresentá-lo aos meus amigos ... Jacques Bernier, sedutor profissional: tentou violar-me num cinema.

Fazem círculo à minha volta. Têm um aspecto horrível, semelhante ao de Tordo, e, de repente, atiram-se a mim. Grito, agarrando-me convulsivamente ao travesseiro.


Capítulo III.

— Que foi que lhe aconteceu esta noite? Gritou como se estivessem a estrangulá-lo.

Olho para Anne. Está a dispor flores numa jarra e leva à boca a ponta de um dedo onde brilha uma gota escarlate; picou-se nas roseiras.

— Tive um pesadelo.

Olha-me de lado.

— Está muito bem arranjado e barbeado: hoje também sai?

— Saio. Se pretendes contratar um detective particular para me seguir o rasto, tens de arranjar um muito sabido.

As duas peças do bikini de Françoise não chegariam para me cobrir a palma da mão; besuntou-se com um creme amarelado que cheira a farmácia. Foi sentar-se no terraço.

— Aposto que o teu pai se fartou de fazer conquistas em Menton.

Frédéric interrompe a leitura do jornal:

— Que tal é ela?

O que mais me irrita, afinal, é que não acreditam; arrumam-me simpaticamente na prateleira, intimamente convencidos de que um velho senil como eu já há muito deixou de ligar ao sexo fraco. Para me deixarem em paz, resolvo entrar no jogo.

— Tem oito anos e usa tranças. É a minha fornecedora de caramelos.

Anne ri, e enquanto me afasto ouço-a gritar:

— Veja lá se o raptam. Olhe que contamos consigo para o jantar.

Respondo com um simples gesto de arranco. A morada dança-me na cabeça. Vila Caprizzi, Estrada de Gorbio.

*

— Duas imperiais.

Laura sorri enquanto o empregado se afasta.

— E que foi então que lhes disse?

— Que tinha um encontro com uma menina de oito anos com tranças.

Um dos seus ombros está à sombra e ela desvia-se ligeiramente para ficar toda ao sol. Traz uma camisola cor de ameixa e os mesmos jeans que ontem. Tudo aconteceu com uma simplicidade infantil. Toquei à campainha do portão, ela desceu os degraus do patamar como uma bailarina-estrela e parou atrás das grades; disse-lhe então:

— Vim para lhe oferecer outra imperial.

Respondeu gravemente: — Não. Hoje quem convida sou eu.

Voltou-se para trás e gritou:

— Edith, vou sair! Sem esperar resposta, abriu o portão e entrámos para o automóvel. Com a ponta dos dedos, tacteou o pára-brisas, o volante, e disse:

— Gosto dos Dyanes.

Soltei um assobio de admiração, rimos, e agora estamos na esplanada do Continental. À nossa volta, famílias inteiras comem sorvetes multicores. Verifico que tenho as mãos a tremer e que não consigo controlá-las.

Ela passa distraidamente os dedos pelo copo.

— Sabe que no ano passado aconteceu-me uma coisa engraçada neste café. A Edith tinha ido ao cabeleireiro e eu fiquei aqui à espera dela, sentada a uma mesa. De repente, sinto alguém sentar-se na cadeira ao lado da minha e ouço uma voz dizer-me: Quer ir dar uma volta? Quase me falta o ar e pergunto ao homem o que é que o levava a supor, que eu queria ir dar uma volta com ele. Então ele respondeu-me: E porque há dez minutos que não tiras os olhos de mim. — Tem um riso contagioso. — Desde então, sempre que estou em locais públicos, faço por mudar de vez em quando a direcção do olhar para evitar cenas destas.

Segue-se um silêncio.

Desloco a minha cadeira uns cinquenta centímetros em redor da mesa; segue-me com os olhos, que continuam voltados para mim.

— Formidável, devo dizer-lhe que ainda ontem julguei que me estava a pregar uma partida.

— Palavra? Sabe que isso dá-me prazer; consigo orientar-me perfeitamente pelo som; tornei-me um autêntico radar.

Bebo um gole de cerveja.

— Devo dizer-lhe que dormi mal e que, quando acordei, lembrei-me daqueles filmes idiotas em que se vê uma mulher numa cama de hospital com a cabeça toda ligada; depois, aparece um cirurgião cheio de charme que lhe desenrola a ligadura; começa-se a ver a cara do cirurgião inicialmente muito desfocada, mas, a pouco e pouco, mais nítida, até que a mulher exclama: Eu vejo! Eu vejo!

Desprende os olhos de mim e o seu olhar flutua sobre a minha cabeça. Custa-me compreender como é que a sua deficiência pode ser-lhe tão indiferente.

— É muito amável por sonhar essas coisas e tenho imensa pena de o desiludir, mas, na realidade, não há a menor hipótese de uma operação milagrosa; ficarei como sou. Aborrece-lhe?

— Não me aborrece nada, até me convém. Lembre-se do filme do Charlot: a cega recupera a vista e acha-o tão desajeitado que nem sequer o reconhece. Se lhe fizessem uma operação do género, havia de pedir ao céu para que falhasse.

Responde-me calmamente:

— Você subestima-se, o que acaba de dizer prova que tem pouca consideração por si; e olhe que o retrato que a Edith fez de si era bastante lisonjeiro.

Por esta é que eu não esperava.

— Vou deixá-la sozinha durante alguns minutos, porque tenho de ir ali mandar entregar à Edith trinta dúzias de rosas vermelhas.

Ri-se.

— Cuidado, nada de exageros; a Edith não me disse que você era parecido com o Clark Gable, mas, enfim, também não é propriamente o Tordo.

Gracejo:

— Ela é realmente um amor, mas terá de contentar-se com as rosas do seu jardim.

Encosta-se ao espaldar da cadeira.

— Mas como é que nunca lhe ocorreu que, a partir do momento em que uma mulher fica cega, o físico dos homens que encontra deixa de fazer parte do seu universo?

Sinto-me subitamente estúpido. É uma sensação que experimento frequentemente, mas desta vez com uma intensidade inusual.

Laura calou-se e passou o braço esquerdo sobre o espaldar da cadeira. Parece feliz; continua com o caracol, que o vento agita, a afagar-lhe a face.

Eis senão quando as vejo à minha frente no passeio. Françoise primeiro, porque a sua cabeça emerge da multidão como o periscópio de um submarino. Anne encontra-se a seu lado, a comer um gelado. Inclino-me para Laura:

— Temos visitas.

Anne viu-me, olhou para Laura e registou. Visivelmente, pensou que o velhote não se tratava nada mal. Passou maquinalmente a língua pela baunilha e estacou. Tem bons reflexos e um gosto inato pelas situações complexas.

— Será que devo passar sem dar por nada ou, como filha atenciosa, deverei cumprimentar o meu querido pai?

Senti-me orgulhoso dela, o que aliás me acontece com bastante frequência.

— Laura, apresento-lhe a minha filha Anne, que neste momento morre de curiosidade. Vem acompanhada por uma amiga, a Françoise.

Laura estendeu-lhes a mão e cumprimentaram-se. Ainda não se haviam apercebido de nada, tal fora a simplicidade do gesto.

— Tenho muito gosto. Como podem verificar, cresci um bocadinho desde ontem à tarde.

Anne ferra o dente no sorvete com entusiasmo.

— É verdade! — exclama. — Imagine que nos disse que tinha um encontro com uma criança de oito anos.

Laura esboça um gesto circular.

— Sentem-se aqui connosco ...

Anne e Françoise consultam-se com o olhar.

— Gostávamos imenso, mas não pode ser — responde Anne —, temos montes de compras para fazer, damos uma festa amanhã e ...

— Franze o sobrolho, como se lhe ocorresse algo que tivesse em mente desde o início da conversa. — Aliás, tínhamos muito gosto se aparecesse. É uma coisa muito simples, come-se ao ar livre, acende-se uma fogueira, canta-se e depois ...

Vê-se que não descansa enquanto Laura não aceitar.

— Devo dizer-lhe que o meu pai se aborrece terrivelmente connosco; ainda bem que a conhece, porque compreendo que ele não se divertia nada lá em casa ...

Sem sequer me dar tempo para protestar, Laura põe o dedo no ar, como na escola, para pedir a palavra:

— Ouça, aceito com todo o gosto, é muito simpático da sua parte, mas devo preveni-la de uma coisa de que muito provavelmente ainda não se apercebeu: sou cega.

Anne pára subitamente de saborear o gelado. Françoise fica boquiaberta.

— Sim, realmente ainda não tinha dado por nada.

O riso de Laura é mais cristalino do que nunca.

— Vê como fiz bem em preveni-la ...

Subitamente desamparada, Anne olha para mim e diz:

— Mas não me parece ... enfim, acho que isso não tem importância nenhuma para nós ... quer dizer ... Olhe, desculpe, já nem sei o que digo.

O meu instinto paternal sente-se estimulado e corro em seu auxílio.

— Não te aflijas, menina, a Laura já disse que aparecia: vai lá às tuas compras.

Semiatordoada, Anne consegue balbuciar:

— Então até amanhã à noite.

Ficamos sozinhos os dois. Vislumbra-se-lhe um fio de inquietação na voz quando pergunta:

— Aborrece-o que a sua filha saiba que aproveita o facto de uma mulher ser cega para lhe fazer charme?

— Eu não lhe estou a fazer charme.

Solta uma risada breve.

— Não diga isso: não tem feito outra coisa!

— Eu! Que exagero! Ontem ofereci-lhe uma imperial porque estava com sede, e hoje fui buscá-la a casa porque contava que ma retribuísse, mais nada.

— Okay, não se fala mais nisso. E não se importa que eu apareça amanhã? Ainda não lhe pedi a sua opinião.

Tem a mão pousada sobre a mesa e aperto-a nos meus dedos. Consente. Sinto um gongo no coração, já não lhe conhecia este ritmo pesado, mas sei apenas que a ti o devo, Laura, de ti nasce esta música.

*

Haviam preparado a patuscada na montanha e tivemos de subir até lá pelo carreiro das cabras. Françoise seguia à frente, com uma garrafa de vodka em cada mão; Max tropeçava nas pedras: levava às costas uma enorme mochila e adiantava-se-nos a saborear o rosé seco.

Laura ia tagarelando enquanto subíamos a encosta; segurava-a por um braço e o vento fustigava as minhas pernas com a sua saia comprida. Estava muitíssimo bem disposta, distribuía apertos de mão e impressionara bastante Virgile, que lhe falara sobre música dodecafónica. Depois de uma curva, avistámos o clarão da fogueira. Laura respirou fundo:

— Borrego assado. A coisa promete.

Divertimo-nos bastante; eu levava uma garrafa a mais para nós dois, e não chegou. Anne executou o número habitual, que consiste, sempre que há visitas, em pedir-me para recitar uma cena do Cid em que desempenho todos os papéis. Recusei terminantemente, mas, perante tal resistência, Laura juntou-se ao coro. Talvez por efeito do álcool, tive a impressão de que havia uma certa ternura na sua voz, e acabei por ceder.

Fui sucessivamente Ximena, Rodrigo, o Rei, a Infanta: um êxito. Laura aplaudiu entusiasticamente. Meio atrapalhado, bebi do copo dela.

Contemplo-a: tem os olhos salpicados de estrelas; ouvem-se os acordes de uma guitarra e algumas notas que se desprendem, lentas como as gotas de um aguaceiro preguiçoso e quente. Murmura: — Ficou tudo tão calmo, de repente ... Que é que eles estão a fazer?

É a primeira vez que me pede que a elucide sobre o que se passa e que não consegue ver, e sinto simultaneamente dor e ternura.

— A fogueira baixou. Max e Kim estão a dançar e quem está a tocar é Virgile. Anne conversa em voz baixa com Frédéric. Não vejo os outros. Está uma daquelas noites mediterrânicas que as agências de viagens prometem aos clientes e o céu é uma girândola de astros. Pouco falta para o nascer do Sol.

Tem um súbito arrepio e, quando lhe pouso o meu casaco nos ombros, a minha mão toca-lhe numa das faces.

— Quer ir para casa?

Baixa mansamente as pálpebras, num rosto luminoso.

— Pode ser, mas apetece-me andar.

Levantamo-nos ao mesmo tempo. Anne viu-nos e vem ao nosso encontro.

— Vão-se embora?

— Vamos — responde Laura. — Passei uma noite maravilhosa, e pode crer que não digo isto para lhe agradar.

— Dá-me imenso prazer sabê-lo ... Mas, palavra que não se aborreceu?

É curioso, Anne adora receber, mas é a primeira vez que sinto que está a ser sincera, sei que neste momento deseja realmente que Laura esteja a falar verdade.

Laura pousou-lhe as mãos nos ombros: — Ri muito, bebi muito e sinto-me lindamente, graças a si, pode acreditar.

Descemos pelo carreiro; não me voltei para trás, mas sei que Anne ficou a olhar-nos, frágil sentinela perturbada, imóvel na aurora que desponta, enquanto, atrás dela, se erguem os últimos fumos e, as cinzas começam a esfriar.

O som da guitarra extinguiu-se há muito. Num pequeno desvio há uma fonte. Pela pedra lisa corre um débil fio de água. A mão de Laura deixou-se guiar pela minha e a água escorre-lhe pelos dedos.

Ajoelhou-se e bebe, quase tocando com os lábios as ervas húmidas que crescem junto ao rebordo de pedra. Na claridade que desponta brilha uma gota que lhe desliza pelo  pescoço. Já não tenho medo, e este simples facto surpreende-me.

Beijo-a eu, Jacques Bernier, o homem a quem nunca nada acontece. O meu casaco caiu-lhe dos ombros, sinto os braços dela cerrarem-se em torno do meu pescoço. As suas mãos cobrem-me o rosto e sobem por ele; agora ela está a ver-me e sinto medo: a testa, os olhos, o nariz, tudo é passado a pente fino. Nem me atrevo a respirar. Finalmente, acabou. Agora, sabe. Pigarreio antes de falar.

— Então. Escapa?

— O conjunto parece-me satisfatório.

Ri e os seus dedos voltam a tocar-me o rosto, mas desta vez num gesto de ternura. Sinto dilatar-se-me o coração. Tomo balanço e digo: — Laura, levo-a até casa, você faz a mala, eu pego na minha e arrancamos.

Com o indicador, vai acompanhando o perfil dos meus lábios:

— Eu... Ouça, preciso de...

Torno a beijá-la arrebatadamente; após quarenta e cinco anos de rotina, sinto-me subitamente viver e não consentirei que a vida me fuja.

— Diga que sim, Laura, ou atiro-a do alto de uma falésia.

— Okay, vamos. Que dirá Anne?

— Quero lá saber! E Edith?

— Há-de compreender, isso aliás não tem importância.

Já era dia quando entrámos para o automóvel.

As persianas da moradia estavam ainda corridas. Quando descemos, tomei-a nos braços, junto ao portão.

A sua boca era fresca e julguei que permaneceríamos assim para todo o sempre. Laura encostou-se ao muro, ofegante, com os dedos fincados nos meus braços.

— Queria dizer-te uma coisa.

Sinto-a subitamente desarmada, como um guerreiro que se tivesse despojado da armadura.

— O quê? — Tenho medo.

Como se naufragasse, volta a colocar os braços em torno do meu pescoço e o murmúrio das suas palavras acaricia-me os ouvidos.

— Há quatro anos que não faço amor ...

— E então, estás com medo de ter esquecido?

Volta a sorrir, ganhei. Anda, Bernier, não podes parar, tens de levar a tua franqueza até ao fim.

— Tenho quase quarenta e seis anos, Laura. Desde anteontem que me sinto mais jovem e podes estar certa de uma coisa: se um de nós dois morre de medo, garanto-te que sou eu.

O sorriso iluminou-lhe definitivamente o rosto. Sinto que está serena; ouço o portão ranger, vejo-a subir os degraus e desaparecer.

Fumei um cigarro ao volante antes de partir. Queria reflectir sobre tudo aquilo e não perder nem uma migalha daquela felicidade que irrompera na monotonia do meu caminho.

*

Partimos amanhã.

O que conta é o tacto e os cheiros. Partindo deste pressuposto, tenho de comprar umas lâminas de barbear superafiadas. Sei da sua existência através de um anúncio na televisão, no qual se vêem umas mulheres quase em êxtase diante de uns tipos com faces de veludo. Tenho de atender a estes pormenores. Normalmente, sob o queixo a pele fica-me sempre um pouco áspera. Dadas as circunstâncias, vou passar a usar uma loção after shave.

Alguns alunos com falta de imaginação ofereceram-me um frasco aqui há três anos, mas os resultados do peditório não devem ter sido brilhantes, atendendo à qualidade do produto, e só me besuntei umas duas ou três vezes com umas gotas gordurosas e perfumadas; no metro, às oito da manhã, todos os passageiros me encaravam pouco amistosamente. Desta vez, vou dar-me ao luxo de comprar uma loção discreta, tipicamente masculina, simultaneamente delicada e viril. Existe, com certeza. Vejamos o resto. Um ligeiro chumaço junto às ancas. Mas não é grave, bastam-me quinze dias de abdominais para a celulite desaparecer. Não posso é perder tempo, partimos daqui a duas horas.

Sento-me no chão da casa de banho e começo o exercício, procurando lembrar-me dos movimentos que o professor nos mandava fazer nos meus tempos de liceu. Flexão do tronco em direcção às pernas. O nariz, que em princípio deveria tocar no joelho, fica a uns bons quinze centímetros deste. Passemos ao exercício seguinte.

Curtos batimentos alternados com as pernas. É melhor ir cantarolando para distrair a fadiga muscular:

0 amor é tão bom,
Ai, tão bom, tão bom, tão bom ...

Estava eu a cantar a plenos pulmões quando bateram brutalmente à porta.

— Já não demora ou é melhor passar por cá só da parte da tarde?

Pego precipitadamente no roupão, visto-o e saio. É Max.

— Há vinte e sete minutos que estou à espera — comenta.

Fico perfeitamente estupefacto.

— Como o tempo passa!

Esboça um sorriso amarelo e enfia-se na casa de banho. Antes de fechar a porta, pergunta:

— Sempre é verdade que se vai embora?

— Sim, daqui a bocado.

— Então, adeus.

— Adeus, Max. Quando mandar os convites para a sua exposição, não se esqueça de mim, gostava de ver os seus trabalhos.

0 seu olhar brilha por instantes e, de repente, fica quase triste.

— Combinado, mas se eu tivesse sabido que se interessava por este tipo de coisas, podíamos ter conversado um pouco.

— É sempre assim, Max, quando as pessoas se conhecem já é tarde.

Fechou a porta e eu acabo de arrumar a mala. Faz-me pena deixá-los. A princípio aterrorizaram-me, mas agora gosto deles. Desde que se ultrapasse o aspecto espectacular do seu vocabulário, do seu comportamento, encontra-se gente simples, certamente mais simples e com mais naturalidade do que eu.

Sem o menor ruído, Anne entrou e sentou-se na cama.

— Vai com a Laura — Vou.

Alisa minuciosamente a coberta com a mão. Suspira.

— Tens algum problema? Sorri, um tanto tensa.

— O pai já é um homenzinho e deve saber aquilo que faz, mas ... sempre gostava de saber como vai acabar a vossa história.

— Não te posso dizer, na medida em que ela ainda não começou. — Baixa a cabeça e continua a alisar a coberta. Sento-me perto dela. — Ouve, Anne. A situação é simples: o teu querido pai abandona a filha e vai-se embora com uma senhora. Será assim tão grave? Mergulha numa profunda reflexão.

— Às vezes, pode ser.

— Porquê? Tens ciúmes? — Não é isso, mas há uma coisa que parece que não o preocupa muito: a Laura é cega.

Chego-me à janela. O barulho das cigarras é tão intenso que receio que ela não consiga ouvir-me.

— A Laura é cega, de facto. E então?

Anne levanta-se.

— Então, nada. Não ligue ao que eu digo, não tem importância nenhuma. Para onde é que vão?

— Quanto a isso é que eu não faço a menor ideia. Só sei que vamos para qualquer lado.

Recua um pouco e olha para mim, um tanto maternal. num misto de orgulho, ternura e angústia.

— Afinal, sob essa sua aparência de paizinho pacato, ainda é maroto.

Beijo-a. São horas de ir embora. Descemos juntos as escadas. A casa está deserta.

— Despedes-te deles por mim, está bem?

— Combinado.

Lá fora, o sol arde como uma brasa. Entro para o automóvel e a moldura da janela enquadra o rosto de Anne.

— De qualquer maneira, não se vão casar?

— Prometo que não o faço sem a tua autorização.

Acelero. Anne grita para se fazer ouvir:

— É a primeira vez que o vejo arrancar sem resmungar com a bateria ...

É verdade, nem sequer me lembrara dela.

— Minha querida, se por acaso tiver problemas com a bateria, paro numa estação de serviço e compro uma nova; por modestos que sejam, os meus honorários de professor ainda me permitem essa despesa. Resta-me acrescentar que esse tipo de indivíduos que se lamentam constantemente do mau funcionamento da bateria é particularmente irritante e que seria incapaz de me dar com semelhante gente.

Rimos os dois. Engato em primeira.

— Ciao.

— Ciao. Boa viagem.

Vejo-a minguar no retrovisor, até que desaparece, depois de uma curva. Lá vou eu. Daqui a um quarto de hora, Laura estará a meu lado. Tenho vinte anos.

*

— São então duas saladas de tomate e depois ...

A comissura dos lábios do dono do restaurante abate-se numa expressão triste. Vai certamente participar-nos a morte da mulher e dos quatro filhos.

— Já não tenho salada de tomate.

Laura vai brincando com o garfo.

— Não faz mal; para mim, pode trazer uma talhada de melão.

O homenzinho fica de rastos.

— Também já não tenho melão.

Consulto a ementa.

— Bem, paciência ... Traga-nos então uns ovos verdes.

Com voz abafada, murmura à beira do desespero:

— Já não tenho ovos verdes.

Laura desata a rir. O homem ergue os braços ao céu.

— Francamente! Os senhores já chegaram tardíssimo. São quase três horas!

— Mas que é que ainda há, afinal?

Parece acalmar um pouco.

— Olhe, temos uma choucroute muito boa.

Aperto o braço de Laura.

— Alinhamos na choucroute?

— Está bem.

Bebemos três Ricards cada um; aliás, não ligavam nada mal com a choucroute, até lhe conferiam um gosto particular. Depois, comemos queijo e um baba au rhum.

Laura afasta o prato.

— Já não posso mais. É feio desabotoar as calças à mesa?

— É rigorosamente proibido, mas eu dou-te licença para o fazeres porque sou um homem de ideias largas e porque, na parte que me toca, já tratei de me pôr à vontade.

Inclina-se sobre os copos.

— És um tipo indecente que se aproveita hipocritamente da minha doença para se pavonear em atitudes e modos incorrectos.

Desaperta o botão dos jeans e, quando estica as pernas sob a mesa, os seus joelhos tocam nos meus.

— Está-se aqui tão bem. Onde é que estamos?

— Não sei bem ao certo. Devemos ter feito uns cinquenta quilómetros. Queres ficar?

— Acho que sim.

O patrão aproxima-se com os cafés.

— Tem algum quarto vago?

— Só no anexo, aqui está tudo cheio. Devo preveni-lo de que não é muito confortável, mas é muito asseado. Se quiser ver ...

— Não vale a pena, confio em si.

O café escalda. Pouso a chávena no pires. A sala está vazia; também é verdade que são quase cinco horas.

— Fala-me do teu trabalho: ainda não me disseste nada a esse respeito ...

— Pois bem, imagina que a minha especialidade é a psicossociologia; trabalho numa empresa que arranja trabalho para deficientes físicos. Verifiquei que, com um intercomunicador e um gravador, eram capazes de me tornar indispensável. Para mais, as pessoas que respondem às perguntas feitas por um cego obtêm um índice de sinceridade superior ao alcançado por um psicólogo normal.

— Quer isso dizer que não se mente a um cego?

— Mente-se menos, vá lá.

— Que género de perguntas é que tu fazes?

— Varia. Sou especialista no estudo das relações inter-individuais nos locais de trabalho. Impressiono-te?

Aperta o botão dos jeans e levanta-se.

— Vamos dar uma volta?

O caminho é bastante íngreme e eu aperto-a com força de encontro a mim, rodeando-lhe o ombro com um braço. Depois de duas curvas, chegamos à aldeia. Abrandámos o passo e Laura vai tagarelando sob as arcadas. Aqui está fresco; as mulheres derramam água às portas das casas e paira no ar desta ruela um aroma húmido. Sob passagens abobadadas, avistam-se escadas desconjuntadas que trepam colina acima.

No largo, em frente do Café Nacional, alguns homens jogam uma espécie de chinquilho, em que a malha é substituída por uma esfera. As suas vozes ecoam curiosamente, como se a abóbada de folhas impedisse os sons de subirem. Um deles, mais atarracado, de camisola interior, faz pontaria, equilibrando-se na ponta das alpercatas. Acerta em cheio. Boa bola!

— Bravo, Mario! Agora és tu, Fernand.

Fernand tem os seus sessenta anos e os cabelos polvilhados de farinha. Largou o trabalho para entrar no jogo. Estuda o terreno, sopesa a bola, olha para o ar, coça a axila.

Em voz baixa, digo a Laura:

— Este é veterano. Vai acertar.

Cria-se uma certa expectativa à volta dele.

— Estás a jogar ou a fazer contas de cabeça, Fernand?

Fernand não se mostra perturbado; a esfera sobe no ar, roça pelas folhas dos ramos mais baixos e pára junto do alvo. Volto-me para Laura.

— Ofereço-te um copo no Café Nacional.

O calor vai amainando. É a hora em que as cores são mais vivas, o céu é de um azul puro e a montanha surge envolta no halo dourado do Verão.

Não podes ver nada disto, Laura, e no entanto não sinto pena.

Sei que no momento exacto em que coloco na tua mão o copo frio as trevas dissipam-se e sentes-te feliz.

O quarto.

Laura acaba de fumar um cigarro enquanto eu trato das malas.

Tenho medo, sensação esta que já esperava, pelo que não sou apanhado de surpresa.

Laura encontrou a janela. Respira profundamente o ar da noite e volta-se para trás.

— Como é o quarto?

— É pequeno, branco, limpo, é um quarto de hotel.

Deixo-me cair na cama.

Dzzzzzzoüüüüng! Ainda não parei de vibrar como o badalo de um sino quando Laura exclama, assustada: — Que é que partiste?

— Não parti absolutamente nada, limitei-me a sentar-me na cama.

Levanto a coberta e não vejo colchão: apenas umas lâminas metálicas que vibram como cem mil harpas.

Laura carrega levemente no cobertor com a palma da mão.

Dzzoüing!

Quando a última vibração se extingue, murmura:

— Agora os dois ao mesmo tempo. — Dzzzzzzoüüüüng!

Deveria ter cronometrado; o som não cessou antes de um minuto e meio.

Olho para Laura. Sinto que tem uma enorme vontade de rir.

— É o quarto nupcial — declaro. — Quando os habitantes da aldeia ouvem dzoing, vêm felicitar os noivos.

Contorce-se de riso, e quando me preparo para puxar a coberta para o chão ouço uma chave rodar na fechadura. Ouvem-se as vozes tão distintamente que chego a perguntar-me se não terão entrado pelo nosso quarto alguns entes invisíveis e ruidosos.

Voz de mulher:

— Já te disse para não arrastares os pés, Alexandre. E agora vai lavar os dentes.

Alexandre assobia uma canção em voga. Barulho de mala a abrir-se, roçagar de tecidos.

Voz de menina:

— Onde é que pusestes o meu roupão, mamã?

Voz de homem:

— Não é pusestes que se diz: diz-se puseste.

Voz de menina:

— Mas então onde é que está?

Voz de rapaz: — Para que é que tu precisas do roupão? Está tanto calor!

Voz de mulher:

— Alexandre, deixa a tua irmã e vai lavar os dentes.

Laura encosta a boca ao meu ouvido:

— Tens a certeza de que eles não estão no nosso quarto?

Tenho uma ideia. Digo baixinho:

— Ouve bem o que vai acontecer.

Faço uma tosse cavernosa. No quarto do lado, o ruído cessou.

Voz de mulher, a que a inquietação confere um timbre mais agudo: — Foste tu que tossiste, Alexandre?

Voz de homem:

— Deixa lá o garoto. isto é aqui ao lado.

Laura recua e senta-se na cama, desencadeando a sinfonia das molas torturadas. Ouve-se uma exclamação de terror e depois uma voz de homem:

— Não tenhas medo, Henriette, é uma cama a ranger.

Bem alto, Laura pergunta: — Já lavaste os dentes, Alexandre?

Pego à pressa em duas mantas e fujo para o corredor com Laura pela mão.

Ainda ouvimos o Alexandrinho responder: Lavei, sim, mamã e corremos pelas escadas abaixo até à frescura da noite.

*

Não há uma estrela no céu e mal a distingo sob a manta. Tem os músculos contraídos e redondos e a humidade salgada que os meus lábios encontram são lágrimas que lhe rolam pelas faces.

— Laura ... Que é que tens?

Responde com voz trémula:

— Não sei, creio que nunca mais vou ser capaz.

Deito-me a seu lado e as minhas mãos abandonam-na.

— Não te apetece?

— Apetece-me terrivelmente, mas não sei o que é isto.

Embrulhei-a na manta e permanecemos imóveis durante muito tempo, sem dizer uma única palavra; quando o primeiro raio de sol  rompeu a cortina da noite, voltou-se meigamente para mim e sorriu.

Ainda hoje ouço a música da sua voz naquele instante, a voz de uma mulher liberta de um duro combate que travara sozinha.

— Jacques, acho que podia ser agora.


Capítulo IV

CHARNY, 3 km.

Leva os maxilares contraídos. 0 ponteiro chega aos trinta e cinco, oscila e aproxima-se dos quarenta.

— Vou meter a terceira.

Levanta o pé direito e pressiona o pedal da embraiagem com o esquerdo, ao mesmo tempo que manobra a alavanca de velocidades. 0 volante não se desviou nem um milímetro. Dantes, deveria ter sido uma autêntica campeã.

— Há uma curva a cinquenta metros.

Mete a segunda, abranda para dez à hora. Sinto as costas suadas.

— Descansa que o carro há-de dar a curva sozinho, vais sentir isso nas rodas; cuidado, começa a virar!

Abrandou mais ainda e põe-se ligeiramente pálida; quando a minha mão se prepara para ir em seu auxílio, ela própria endireita o volante. Entramos numa recta.

— Pronto, já está. Podes acelerar. Em que é que vais a pensar?

— Não vou a pensar em nada: só vejo camiões a virem para cima de mim a todo o momento.

— Queres parar?

— Deixa-me ir até ao próximo marco.

Estamos em pleno campo. Na Beauce, talvez; nunca soube muito bem onde é que esta região começa nem onde acaba. De qualquer modo, é uma planície.

— Podes parar, se quiseres, já fizeste mais um quilómetro.

No meio das ervas secas pelo calor do Verão vejo o marco quilométrico: Charny, 2 km. Trava, deixa o carro em ponto morto e beija-me. Trocamos de lugar.

— Gostaste?

— Imenso! Sabes o que foi que me atrapalhou mais?

— A lama no pára-brisas.

— Não sejas idiota. Foi imaginar que podias corrigir os meus erros manobrando o volante sem eu o notar. De qualquer maneira, não me portei nada mal...

— Foste um autêntico ás! Ri de felicidade.

— Acelerei até quantos?

— Até aos quarenta.

Assobia de admiração. Apetece-me perguntar-lhe se costumava guiar depressa, mas, por um acordo tácito, nunca falamos do tempo em que o mundo era visível.

Sinto-me bem. Há quatro dias que andamos em viagem e tudo tem corrido pelo melhor, sem um tempo morto, sem um atrito; ftzemos do universo uma enorme bola de riso e de amor.

Foi anteontem que a ideia lhe ocorreu. Os hotéis tinham todos as lotações esgotadas, mas ao fim de uma dezena de tentativas conseguimos encontrar um quarto. Simplesmente, tivemos de aguentar uma refeição numa sala a abarrotar de famílias em férias que trocavam de mesa para mesa receitas para os rissóis de camarão, para as queimaduras do sol e para entreter as crianças. Começava já a sentir uma terrível enxaqueca quando a mão de Laura deslizou como uma cobra por entre o saleiro e a garrafa de rosé e pousou na minha.

Inclinei-me para ela, que ostentava um ar discreto e bem comportado:

— Ouve: vai toda a gente a caminho do Sul. E se nós fôssemos para o Norte?

— És uma mulher superinteligente. Amanhã vamos direitos a Paris.

No dia seguinte, arrancamos para a grande etapa.

Subitamente, Laura boceja e espreguiça-se:

— Estamos a quanto tempo de Paris?

— Duas horas. Queres dormir um bocado ou preferes cantar?

— Cantamos os dois.

Não há que enganar: há apenas um dueto que ambos sabemos de cor, o da Carmen.

Aos treze anos, de colarinho engomado e com um chapéu de fitas, cantara-o na festa de aniversário da madre superiora, entre um nocturno de Fauré e as trouxas de ovos.

Quanto a mim, tive durante quatro anos um vizinho, capitão reformado, melómano e meio surdo, que todos os dias punha a tocar o dueto da Carmen, com o gira-discos tão alto que tive tempo de o gravar para todo o sempre na memória.

Paris, 117 km. A voz de Laura ergue-se, sonora. Quer fugir com um toureiro, a desavergonhada! Bato no volante com força e paixão:

Carmen, ainda não é tarde ...
Carmen, ainda não é tarde ...

Ela provoca-me. Não sente o menor respeito pelos militares. Canta numa voz bem timbrada, as nossas vozes fundem-se, o efeito é brilhante. Gritamos apaixonadamente.

0h minha Carmen bem-amada!
Oh Carmen adorada!

Despediu-se de mim, chegou a hora de a apunhalar. Ultrapasso primeiro uma carrinha e só depois lhe cravo a navalha no coração.

Deixou-se cair para o lado da janela, soltando uma nota aguda, enquanto eu rompo a soluçar horrivelmente:

Eu é que a matei ...
Carmen, Carmen, que tanto amei ...

— Fumas demais — diz-me Laura. Não aguentas os agudos.

Pousa a mão no meu joelho. O roncar do motor intensifica-se, mas, após a gritaria de há pouco, paira sobre nós uma enorme calma.

— Sinto-me bem contigo — diz-me ela.

Nunca fui dotado para dizer frases sentimentais. As palavras ficam-me presas não sei onde, como roupa num bengaleiro. E gostava de as arejar, de fazer uso delas ... É roupa já tão velha, trago-as há tanto tempo dentro de mim, cheiram tanto a naftalina ... Pego, pois, nas palavras, arrasto-as do coração até à laringe, mas não consigo fazê-las franquear a porta. E não disse a Laura que a amava.

— Se nos sentimos bem os dois juntos, podemos continuar por mais um tempo ...

Os seus lábios deslizam da minha orelha até ao queixo:

— Pois sim, continuamos.

Pela janela entreaberta entram doces lufadas de vento, amornadas pelo sol de Julho. A bruma que se avista ao fundo é já Paris. Assim que chegámos a casa dela, ainda eu não pousara as malas no chão e já ela me mostrava a sua brincadeira preferida: a corrida da morte, como lhe chama.

Para se ficar a perceber no que consiste é preciso explicar que há quatro divisões do apartamento que comunicam entre si. Abriu todas as portas, voltou ao ponto de partida e arrancou. Com os cotovelos colados ao corpo, passando rente às ombreiras das portas, atravessou as quatro divisões a toda a velocidade e, finalmente, veio chocar comigo, ofegante.

— Então, que me dizes?

Eu ainda sentia calafrios.

— Que é que te acontece se alguma porta se fecha com uma corrente de ar?

— Adivinha.

— Splatch! — respondi.

— Exacto. Mas até hoje nunca houve nenhuma corrente de ar ...

— Isso é que é sorte!

Pensara estupidamente que viver com uma cega era até certo ponto cuidar de um doente, fazer de enfermeiro, num arnbiente de leitura, de música suave, de serenidade, e dava afinal com uma criatura desvairada, especialista em corridas de salão, em filmes de terror e em gincana de automóvel. O que apenas prova que se deve desconfiar das ideias preconcebidas.

Pegou-me pela mão e mostrou-me a casa. Era toda ela branca. Ficara com os móveis antigos, da família, que erarn de certo modo abafados pela alvura das paredes e dos tectos.

— Mandei pintar a casa toda de novo depois que ceguei. Parecia-me que, se a casa fosse escura, também dentro de mim havia de ser mais escuro ... Dormi durante muito tempo com a luz acesa ...

Sozinha na noite dupla, Laura acende a luz como uma criança amedrontada ... Por vezes, esta ideia torna-se-me insuportável.

Pego-lhe ao colo.

— Que estás tu a fazer?

— Adivinha.

Quando as suas costas sentiram a coberta da cama, disse-me baixinho, ao ouvido:

— Então, rapaz, essa sexualidade como vai?

— Menos mal. E tu, avozinha, já perdeste o medo?

*

— É no 17, o prédio da esquina.

Encontro um lugar um pouco mais adiante, arrumo o carro, saio e vou abrir a porta. São nove e meia, já estamos atrasados; o empregado do restaurante levou um tempo infinito para nos trazer a conta. À esquerda, a cúpula dos Inválidos brilha como um capacete ao luar.

— Achas mesmo que não devo levar a garrafa?

Sacode os caracóis e aperta-me o braço.

— Estou-te a dizer que há bebidas com fartura, que somos amigos e que os conheço quase todos. Enfiamo-nos no elevador. É no quarto andar.

Esta noite Laura está particularmente atraente. Traz um vestido de linho branco, com uma espécie de atilhos dos lados, e um anel de aço, enorme, na mão esquerda. Maquilhou-se sozinha, com uma habilidade inacreditável.

— Achas que estão de luz acesa?

Ri, enquanto o elevador pára e saímos.

— Não tenhas medo. Mesmo que só lá haja invisuais, podes ter a certeza de que têm a luz acesa. Estás nervoso? — Um bocado. Posso tocar?

Dir-se-ia que o tipo estava à nossa espera, encostado à porta: abriu-a instantaneamente. Tem as pálpebras fechadas, mas não à maneira de quem dorme; sente-se que estão defrnitivamente fechadas. Laura adianta-se:

— Boa noite, Simon.

— Olá, Laura, estávamos à sua espera. Fez bem em trazer o seu amigo.

Ignoro como é que ele sabe que eu também vim. Cumprimento Simon com um aperto de mão e ele pousa-me dois dedos no ombro e leva-me até um grupo de pessoas sentadas no meio de uma sala. Uma mulher nova estende-me um copo. Reparo que se deslocam como qualquer outra pessoa e que, à excepção de Simon, nunca atravessam a sala em diagonal; avançam junto às paredes, caminham rapidamente, sempre no mesmo sentido, certos de que não encontrarão obstáculos. Esta a razão por que agruparam os sofás e os poufs no meio da sala.

— Boa noite, Laura. Sou o Maxime.

O homem que se aproximou é jovem e atraente. É um dos poucos com o cabelo comprido. Impressionou-me mais do que os outros. Tem as pupilas brancas, a íris velada, quase incolor. Os gestos são lentos, muito suaves. Laura conversa com ele. Ambos sorriem. Parece fixá-la com os seus olhos mortos. Maxime é de uma espécie diferente. Assusta-me. Deixo-os; não quero dar a impressão de não largar Laura, tê-la-ei só para mim daqui a pouco.

— Sr. Doutor ... Queríamos pedir-lhe uma coisa ...

É Simon, com a jovem que me serviu de beber.

— Façam favor ...

— Armámos-lhe uma ratoeira — diz Simon. — É muito simples: todos nós lemos braille, mas para os mais ávidos de leitura isso não chega; resumindo, uma das finalidades destas reuniões é precisamente convidar um visual e pedir-lhe que nos leia determinada obra. A gravação que dela fazemos permite-nos formar uma espécie de áudio-biblioteca. Aceita ser o nosso leitor desta noite?

— Evidentemente que aceito, embora receie ser um mau leitor.

— Tenho a certeza do contrário. Daqui a bocado começamos.

Com que então, resolveu pregar-me uma partida, Mlle Bérien? Tenho de me vingar.

— Laura, podes chegar aqui num instante? Pego-lhe pelo braço, ladeio os convidados e detenho-me no meio da sala. Digo-lhe ao ouvido:

— Tens a certeza de que são todos cegos?

— Absoluta. À excepção de ti, não há nenhum que o não seja. Onde é que tu queres chegar com isso?

Há uma ponta de inquietação na sua voz.

— Já vais ver.

Tiro-lhe o copo das mãos, pouso-o no chão e aperto-a contra mim. Com a mão direita, corro até abaixo o fecho do vestido e acaricio-lhe as costas tépidas. Beijo-a loucamente.

Afasta a boca e murmura, assustada:

— És completamente doido! Sem a largar, encosto-a à parede e digo baixinho, como um ignóbil canalha:

— Não te aflijas que eles não nos vêem.

Solta um oh! escandalizado, que abafa imediatamente. Até que entra no jogo e resolve beijar-me; a vinte e cinco centímetros do meu cotovelo esquerdo discute-se animadamente sobre as cotações da Bolsa. Tem graça, também há cegos ricos.

— Pára, querido, que me afogas!

O tipo a meu lado recua ligeiramente e torna a recuar quando corro para cima o fecho do vestido.

Simon toca à chamada. Já era tempo.

*

Esta manhã, a criação brilha como um fruto esquecido após a colheita, como uma laranja na espessa folhagem da laranjeira ...

É curioso que me tenham pedido para ler este texto; só fala de luz e de cores. Ouvem. A maior parte não tem os olhos voltados para mim, mas noutras direcções, e sinto estranhamente que não me dão ouvidos; é difícil imaginar que alguém que não nos olha esteja a prestar-nos atenção.

A mão de Laura brinca com os cordões dos cortinados. Maxime está ao pé dela, lívido e majestoso como Drácula. Tenho a certeza de que tem as gengivas húmidas de sangue e que passa os dias escondido numa urna da cripta do castelo que herdou da família. O silêncio apenas é quebrado pela minha própria voz e pelo ruído imperceptível das bobinas do gravador. Um tanto cinicamente, marco com o polegar a última página e lanço-lhe uma olhadela rápida, sem interromper a leitura; cento e sessenta e cinco, ao todo, e ainda não passei da página quarenta e cinco. Tenho a certeza de que não vou aguentar.

Bom dia, bela roseira brava, minha companheira de solidão que esta noite floriste à minha porta. Nem sequer tenho tempo de beber, estou pregado ao livro como um forçado ao seu banco. E se saltasse um ou dois capítulos? Despachávamo-nos muito mais rapidamente, além de que me apetece estar a sós com Laura ...

Depois de virar uma página, ouço um leve disparo: é o fim da bobina. Simon suspira como se saísse de um sonho maravilhoso e levanta-se.

— Obrigado, foi muito simpático da sua parte aceder ao nosso pedido, não imagina o que estas gravações representam para nós.

Se a vergonha matasse, eu estava morto. Simon continua:

— Sei que está cansado e por isso vamos ficar por aqui. Vou guardar o fim do livro para outra pessoa.

Como sou canalha! Podia proporcionar-lhes algo extremamente necessário e importante e só pensava em saltar páginas.

Agora vão-se todos embora. Dentro do carro, Laura encosta-se a mim com um suspiro de bem-estar.

— Leve-me a casa, Baptista.

Na noite quente e deserta, somos um casal como tantos mais; acabámos de passar um serão em casa de uns amigos e regressamos calmamente a penates.

Um casal, um simples casal.

*

— Eh, malta, o Carocha fanou-nos os pregos!

O Carocha atravessa-se-nos à frente; seguro Laura, que não obstante bate de encontro ao tapume pintado de fresco e fica cheia de tinta, do ombro até ao cotovelo.

— Ora bolas, não mexas, ficaste com tinta na blusa.

Subitamente, por entre duas pranchas desengonçadas, vejo aparecer três crianças: uma garota com as meias em acordeão e sardas na cara e dois miúdos com uma tal camada de sarro que não é possível distinguir onde acaba a pele e começa a camisola.

— Não passou por aqui um tipo a correr?

— Passou sim, senhor. Até chocou connosco e fez um lindo serviço.

Os catraios contemplam a blusa de Laura.

— Tá-se memo a ver que foi o Carocha — diz o Sebento Número Um. — E a nós fanou-nos os pregos.

— É verdade, pois — corrobora a mais velha. — O tipo é bera.

— Paméla, vê lá se arranjas essência de terebintina. Com isso a tinta sai — afirma o Sebento Número Dois.

— Onde é que vão arranjar semelhante coisa? — pergunta Laura.

— A gente temos — responde o Sebento Número Um. — Por isso é que estávamos a dizer.

Entrámos no recinto das obras. Já lera nos jornais a respeito daquele local era um terreno baldio juncado de tábuas, de traves de madeira, de garotos que se nos atravessavam à frente e não paravam de martelar, de aplainar, de pintar, de gritar. Era uma experiência orientada por psicólogos; não sei quais os resultados, mas as crianças divertiam-se francamente. Construíam cabanas, desarmavam-nas, pintavam tapumes, muros, tijolos, o chão, tudo e mais alguma coisa. Dois garotitos, gordos que nem uns texugos, cada qual na extremidade de um madeiro, vinham direitos a nós; encostei Laura a uma chapa de fibrocimento para lhes dar passagem. Paméla, a garota de soquetes, voltou para nós o seu queixo bicudo como a ponta de um canivete.

— Atão a senhora não vê?

— Pois não — disse Laura — sou cega.

— Dê cá a mão, qu'esse senhor pega-le do outro lado.

Percorremos assim umas dezenas de metros. 0s dois Sebentos precediam-nos, a abrir caminho, como as motos de um automóvel presidencial.

— Já puseste a pata na poça, pá: atão não vês qu'a senhora é cega?

Já são uns vinte e cinco à nossa volta.

— Conquistámos a glória — comenta Laura.

Estamos sentados num amontoado de materiais de construção que mais parece uma barricada destruída. Paméla estende a Laura uma garrafa meio cheia de um líquido incolor, no preciso momento em que um barbudo vai abrindo passagem por entre os garotos.

— Em princípio os adultos não podem aqui entrar — diz ele.

Esclareço que fôramos até ali conduzidos por Paméla.

— Se foram eles que convidaram, é diferente.

E desapareceu enquanto eu limpava a blusa de Laura com o meu lenço embebido em terebintina.

Observavam sobretudo Laura. Houve um murmúrio de entendimento, até que um deles se decidiu. Tinha os cabelos empastados  com cola, uns olhos negros como ameixas e um penso em cada dedo: — Palavra qu'a senhora não vê?

Laura enxugou uma gota de terebintina que lhe escorria pelo braço.

— Não, não vejo.

Na última fila, uma garotinha de bibe às flores perguntou: — E a mim também não me vês?

Julguei que a linchavam. Um tipo com carapinha, que se encontrava mesmo à frente, que eles tratavam por Mohamed, voltou-se imediatamente:

— Ora gaita! Se ela não vê, como é que te havia de ver?

Afastei a garrafa, puxei do tabaco e risquei um fósforo. Mohamed, que não perdia nenhum dos meus gestos, lançou um olhar guloso ao meu cigarro. Passei-o a Laura, que deu uma fumaça.

— Queres ir embora?

— Não, porquê? O assento é um bocado rijo, mas não se está mal de todo.

Alguns dos garotos riram. Resolvo fazer-lhes uma pergunta:

— Vocês gostam disto?

— Gostamos, isto é bestialmente giro, mas não é como na praia.

O Sebento Número Um não perde a deixa: — Ainda bem que não é como na praia. A praia é cá uma estopada!

Empoleirado numa viga, em equilíbrio instável, um tipo baixinho remata:

— Olha lá, tu já foste à praia? Anda, responde: foste ou não? O Sebento Número Dois tem espírito de equipa:

— E tu já lá fostes?

— Já lá fui, já, ó bucha.

— E atão?

— E atão não é estopada nenhuma.

Laura ri, cega, jovem e bonita. A discussão aquece e o Sol brilha, radioso. Pouso-lhe a mão no ombro.

— Tens de reconhecer que isto sempre é outra coisa do que aquela parvoíce da Côte d'Azur!

A pequerrucha do bibe aproxima-se e pergunta com uma vozinha esganiçada:

— Atão se tu não vês, vês tudo preto?

Houve como que uma paragem. É curioso como as crianças sabem ser delicadas e sensíveis; teriam sido capazes de bater na miúda para ela não ter pronunciado aquelas palavras mas como já era demasiado tarde para o evitarem, deixaram-se ficar, atrapalhadas.

— Não — disse Laura —, não vejo tudo preto: o preto é uma cor e eu já não vejo as cores.

A resposta saiu-lhe tão naturalmente que a assistência começou a sentir-se mais à vontade. Foi a vez de Paméla falar:

— Se não vê preto, que é qu'a senhora vê?

Laura mostrava-se sensível àquela curiosidade infantil.

— É difícil explicar-te. Dá cá a tua mão, Paméla.

Paméla estendeu-lhe uma mãozita suja. Estavam todos a olhar.

— Olhem para a mão de Paméla. É com a mão que ela pode saber se as coisas são duras ou moles, quentes ou frias. Mas as mãos não vêem.

Ouvem-na, fascinados.

— Bem — continuou Laura —, se as mãos não vêem, não se pode dizer que vêem preto, pois não? Com os cegos acontece o mesmo: não há preto, não há cores, não há nada.

Um murmúrio de concordância percorre a assembleia.

— Não querem ir ver a cabana? Esta ainda não falara. Nada no seu comportamento dera a entender que estava mais interessada do que os outros e foi ela quem apareceu com aquele presente em forma de convite.

Era num recanto das obras, muito perto de uma das últimas árvores do bairro. Mohamed disse-nos que a pobre da árvore estava tão preta que lhe tinham lavado o tronco. E porque não? Se se limpa o Arco do Triunfo, por que razão não se hão-de lavar as árvores? A cabana que haviam construído por detrás da árvore, estava longe de ser dada por acabada. Tencionavam acrescentar-lhe um andar, mas essa tarefa representava uma séria dificuldade.

Laura avançava no meio deles, com três miúdos pendurados em cada braço ... Quanto a mim, acabei por distribuir os meus cigarros ao Mohamed e aos mais velhos. Era um gesto demagógico e o fumo não lhes seria benéfico para os brônquios. Claro que não, eu sei. Mas desafio todo e qualquer homem que se encontre no meio de garotos forçados a passar as férias nos bairros mais decrépitos de Paris, com os pulmões envenenados pelos miasmas do metro e as exalações do Sena, a não tomar a mesma atitude.

Ao abandonar o local das obras, Laura distribuiu uma boa dúzia de beijos às garotas que a acompanharam até ao tapume e nos deixaram no passeio. Depois sacudiu a cabeça; percebi que se sentia simultaneamente feliz e perturbada. Na manga da blusa, já seca, desenhara-se uma auréola.

Enlaçados, enflámo-nos por aquilo que resta da velha zona dos Halles, por umas ruas estreitas onde ainda paira o cheiro dos queijos de outros tempos, até nos sentarmos numa daquelas leitarias com as paredes forradas de mosaico e onde ainda servem café em copo. Nessa tarde, Laura sentia-se bem: as crianças e as perguntas que lhe haviam feito pareciam ter-lhe insuflado novas forças.

— Apetece-te ir a algum sítio em especial? — Leva-me a jantar a um bom Palace Hotel.

— Tens de mudar de roupa, porque com os teus jeans e a tua blusa a cheirar a terebintina duvido que te deixassem entrar, nem que fosse para lavar louça.

— Oferece-me um casaco de vison.

— Não se usa no mês de Julho.

— És mas é forreta.

Pago os dois cafés.

— Vou-te dizer qual vai ser o título da primeira página do próximo France-Dimanche: Professor de liceu, quadragenário e insinuante, incapaz de proporcionar à sua loura companheira o luxo por que esta ambicionava, acaba por estrangulá-la, louco de dor. Ri às gargalhadas.

— Quadragenário e insinuante ... O que os jornalistas inventam! Em todo o caso, como a modéstia do teu salário não permite sustentar uma mulher do meu nível, quem te convida sou eu.

Atravessámos o Sena, percorrido por barcaças. Ela gostava de as ouvir, gostava do cheiro da água. Em frente de Notre-Dame, um tocador de viola cantava blues. Laura ouvia, sonhadora.

— Paris é uma cidade curiosa — disse ela. — Está cheia de recantos onde se tem a sensação de não estar em Paris.

— É precisamente isso que lhe dá o encanto.

Senti que ela estava a ficar melancólica, em parte devido àquela viola e aos seus lentos acordes ... Recuei dois passos, procurando não provocar o menor ruído, e coloquei-me do outro lado dela. Com uma voz nasalada e fala provinciana, era muito possível que a brincadeira resultasse.

— Vossemecê vai fazer o favor de desculpar, mas esta igreja granjola aqui assim o que é que vem a ser?

— É Notre-Dame — retorquiu Laura.

— Pois a mim queria parecer-me que Notre-Dame tinha duas torres. Como é isto feito que só le vejo uma?

Laura ficou um tanto embaraçada e depois atirou-se a mim. Embora o riso a deixasse quase sem forças, conseguiu ainda atingir-me com alguns golpes violentos. Levámos tempo a recompor-nos; sinto os lábios dela encostados aos meus enquanto murmura:

— És um pateta, as tuas brincadeiras são de um mau gosto a toda a prova; um dia destes levantas a tampa de algum colector de esgotos e empurras-me lá para dentro.

— Pensava fazê-lo neste fim-de-semana.

Seguimos até ao Odéon, caminhando sempre junto ao Sena. Segurava a mão de Laura na minha. Há oito dias que estávamos em Paris.

É a Galeria dos Espelhos de Versalhes numa versão mais sinistra. Ainda não demos três passos a caminho das toalhas adamascadas e já um séquito de dez empregados nos acompanha. Um deles, de fraque, bigode farfalhudo, hirto como uma estátua, arreda a poltrona de Laura.

— Supúnhamos que estivesse de férias, Mlle Bérien.

Um dos criados estende-me uma ementa, protegida por uma capa de couro trabalhado e quase da espessura de um livro. Sabem que ela é cega e não lhe apresentam nenhuma.

— Talvez um cocktail, para começar ...

Laura, à vontade, sorri, fitando as pinturas do tecto.

— Um manhattan, mas muito fraco.

— E para o senhor?

Procuro coligir as minhas recordações de romances policiais. É que não há livro da Série Negra onde não abundem os cocktails, que polícias e ladrões bebem página sim, página não. Pronto, já me lembro:

— Uma cuba livre.

O tipo de bigodes afasta-se, deferente. Solto um leve assobio de admiração ao contemplar os lustres e os espelhos. Laura parece satisfeita.

— Tem uma certa piada, não achas? Já cá vim várias vezes com a Edith, que adora este género de sítios. Que tal achas?

— Tenho medo de me enganar no garfo. Queres que te leia a ementa? Se começar já, talvez acabe antes de eles fecharem.

Lá vem a Estátua com Bigodes; avança como que sobre patins e tem as rótulas bem oleadas.

— Os senhores já escolheram?

— Que é que nos aconselha?

O debate foi animado. A minha ideia inicial era pedir um bom bife com batatas fritas, mas tive de me contentar com um tournedos Chateaubriand e batata soufflée. Laura diverte-se loucamente com os meus protestos.

— Mas eu não quero batata soufflée! Não sei o que isso é, o que eu quero é batatas fritas: ainda parto a cara àquele bigodes.

— Chiu, cala-te, senão ainda mando vir para ti uns caracóis à Montpensier. A Edith pediu-os uma vez: aparecem alguns dez criados com montes de frigideiras, que preparam o prato à nossa frente. É fascinante!

Na mesa do lado acabou de instalar-se um trio de holandesas.

Todas juntas, devem pesar mais de vinte arrobas. Laura acabou o seu manhattan e inclinou-se para mim.

— Ouço vozes cristalinas — diz-me. — Suponho que terás motivos para te felicitares uma vez mais do meu triste estado, que te permite, impunemente, fazer olhinhos a alguma dessas senhoras.

As gargalhadas sufocam-me. Um empregado com cara de pau fulmina-me com um olhar reprovador. Em semelhante local, o riso deve ser comedido.

— De que te ris?

Pouso o copo na mesa.

— Vou descrever-te as três graças. A mais encantadora parece uma embalagem de manteiga, a segunda, um pote de banha e a terceira ...

Laura rompe a rir e finca-me os dedos no braço.

— Jacques, é importante que saibas que desde que saí do cinema, em Menton, não tive um único momento que não fosse de alegria.

Senti como que uma dor no peito; o que ela acabava de dizer representava muito para mim. Tinha, porém de continuar a gracejar, não podia permitir que a emoção se apoderasse de nós.

— É porque sou um brincalhão.

Inclina um pouco a cabeça, como uma mãe que apanhasse um filho a mentir.

— Serás realmente um brincalhão?

— Nem pouco mais ou menos; julgo que, se estou assim, a ti o devo ... aliás, não julgo, tenho a certeza.

Entretanto, chegou o meu tournedos. Só quando toquei no prato, que escaldava, e sacudi o dedo, já com a bolha a crescer, é que o tipo com cara de pau me disse:

— Devo preveni-lo de que os pratos estão quentes.

Este homem se pudesse matava-me.

Laura saboreia com apetite uns petiscos complicados.

— É bom?

— Prova.

Estende-me o garfo, onde espetou uns quadradinhos esponjosos, cobertos com um molho cor-de-rosa. Mastigo e engulo conscienciosamente. Parece uma mistura de alcachofra com pastilha elástica. Em troca, passo-lhe um bocado do meu tournedos.

O Bigodes e o Cara-de-Pau fitam-nos seriamente, com ar reprovador. Laura assenta o queixo entre as mãos:

— Então como é que se sente o nosso professor?

— Maravilhosamente bem, embora este género de sítios me dê sempre vontade de descalçar os sapatos. Como é que explicas semelhante fenómeno?

Assume uma expressão profissional, de psicossocióloga:

— Trata-se de uma manifestação característica da tua consciência de classe. És um pequeno-burguês que afirma a sua recusa de luxo ostentatório da grande burguesia mediante um gesto grotesco, cujo significado é altamente político.

— E a ti não te apetece fazer coisas destas?

— Claro que apetece; mas eu talvez escolhesse a dança do ventre.

— Garanto-te que gostava de assistir. Não queres experimentar?

— Manda vir primeiro a sobremesa. Quero uma tarte de groselha. E a ti aconselho-te as cerejas com marasquino.

— Achas que se eu pedir um iogurte natural chamam a Polícia?

— Não há como experimentares. Dá-me vinho.

— Tenho a impressão de que este vinho trepa mesmo ...

Laura ri. Tem as faces afogueadas. Vamos na segunda garrafa.

— E a seguir, champanhe — diz ela.

— Mas que grande banquete!

— É o dia dos meus anos.

Olho-a, desolado.

— Ao menos, podias ter avisado.

— Que é que isso adiantava?

— Sempre te dava os parabéns ...

— Ainda vais a tempo.

A mesa é larga demais, tenho medo de entornar qualquer recipiente se me debruçar. Levanto-me, contorno-a e beijo-a.

— Parabéns, Laura.

— Obrigada, querido.

Atrás de nós, os bonecos articulados devem ter-se desmanchado, vítimas de algum ataque. Retomo o meu lugar. É esquisito como o vinho desce da cabeça para as pernas.

— Olhe, se faz favor ...

Desta vez aparece um terceiro, e mal tenho tempo de segredar a Laura: — Este é outro; os que aqui estavam foram levados de urgência  para a enfermaria.

Parecia uma cobra cascavel, mas desprovida de escamas.

— Uma tarte de groselhas, cerejas com marasquino e uma garrafa de champanhe.

Afastou-se, obsequioso e servil.

... com trezentos, quinhentos, e quinhentos são mil. Boa noite e obrigado.

O brilho da porta envidraçada fere-me os olhos. Sinto as pálpebras trémulas e a cabeça a ecoar como um gongo. Ainda bem que encontrei aquela farmácia aberta. Espero que o efeito dos comprimidos efervescentes resulte. Quando a deitei, Laura contou-me a vida dela, repetindo três vezes os mesmos pormenores. Praticamente não dormi. De madrugada, começou a gemer incessantemente.

— Que vergonha, Jacques. Nunca devia ter bebido daquela maneira: uma cega tem obrigação de portar-se bem.

Quando voltei da rua, trazia um ramo de cravos, uma caixa de aspirinas, duas garrafas de água mineral, um pacote de tostas, seis ovos e uma lata de sardinhas. Quando sentiu o aroma dos cravos, precipitou-se para me beijar, detendo-se, porém, com um esgar: também ela sentia as têmporas a latejar. Enfrascámo-nos em aspirinas.

Talvez nunca tivéssemos passado uma manhã tão terna. Desde que partíramos, vivíamos num tal turbilhão que, inconscientemente, ansiávamos por aquele repouso. Fiz um chá de tília e pus massa a cozer; sentia-me com vocação de enfermeiro.

Falamos pouco. Aqui há momentos pediu-me um cigarro: é sinal de que se sente ligeiramente melhor. Quanto a mim, sinto aproximar-se uma crise de fígado. Normalmente, devia mesmo fazer dieta e tomar uns comprimidos antes das refeições.

As suas mãos afloram-me o rosto.

— Sentes-te mal?

— É o fígado às voltas.

— Trouxeste remédios?

— Não, deixei-os em Menton.

— Ainda não me tinhas dito que sofrias do fígado. Porquê?

— Nem eu próprio me quero lembrar disso. E, além do mais, foi para não estragar o quadro.

Pela primeira vez vejo-lhe uma expressão sombria.

— Que queres tu dizer com isso de não estragar o quadro?

O fígado, a dor de cabeça, o medo de discutir, levam-me a dizer:

— Não ligues. Não vamos agora discutir.

Deu um pulo no ar, vibrante de energia. Recompusera-se muito mais rapidamente do que eu.

— Pois eu não me importo nada de discutir e digo-te já o que é que tu andas a arranjar: estás pura e simplesmente a encenar um conto de fadas, como as crianças, e pretendes afastar tudo o que te pareça que vai estragar o quadro, como dizes. Só que te esqueces de que, para mim, já não existem quadros e que já não estamos em idade de sermos os protagonistas de uma fotonovela.

Sei que tem razão, o que me irrita.

— Onde é que queres chegar com esses argumentos? Tenho todo o direito de esquecer que tenho quarenta e cinco anos e que tu não vês! Ou achas que não? Onde é que está o drama?

— Mas que necessidade tens tu de esquecer? Eu sou cega, tu tens quarenta e cinco anos e acabou ...

Digo entre dentes:

— Pois eu preferi esquecê-lo.

Solta uma gargalhada sonora e murmura:

— Pois eu, não. Lamento muito, mas nunca deixo de ter presente que sou uma diminuída, e não vejo por que razão, se te receitaram umas gotas ...

— Não são gotas, são comprimidos.

— Não vejo porque é que não hás-de tomar os comprimidos.

Tens medo que eu repare que já não tens dezoito anos? Onde eles já vão ... Tens quarenta e cinco e eu gosto de ti. Vês? Fizeste com que eu to dissesse, mas não é por gostares de mim que vais ficar mais novo: disto é que tens de te convencer. Quando vou contigo para a cama, longe de mim imaginar que és um adolescente. Até me falta o ar.

— Olha que esta! É forte demais, não achas? E eu a julgar que a coisa não corria assim tão mal! ...

Ri-se.

— Nunca te disse que a coisa corria mal, disse-te que estava longe de imaginar ...

Agarro-a pela gola do roupão e rebolamos no tapete. Grito a última cena da Carmen, enquanto ela esbraceja furiosamente.

Tenta dois ou três golpes de rins e pergunta, arfando:

— Então esse fígado vai melhor?

Conseguiu fugir-me. Com a respiração ofegante, resolvi fazer  uma proposta de armistício.

Pelo fim da tarde, saímos e abasteci-me de comprimidos. Decididamente, era o dia das farmácias. Quando regressámos, sentia-me  como quando era criança e me perdoavam uma mentira. À minha frente abria-se um futuro claro e luminoso. Já devia ter desconfiado: a vida, às vezes, parece-se com os filmes. É nos momentos de maior calma que o perigo surge.

No patamar, um homem espera. Maxime. Quando abro a porta, sinto medo.

*

Dentro do copo, a superfície do whisky está perfeitamente lisa. A mão que o segura não treme. Sinto-me contente por Laura não poder vê-lo; os seus traços são de uma correcção e uma simplicidade perturbadoras. Sob a máscara do equilíbrio, porém, arde um fogo invisível.

Encontrava-se ela no término da sua reeducação no instituto quando Maxime apareceu. Desde que cegara cometera já duas tentativas de suicídio e negara-se a aprender braille. Proibira toda e r qualquer música em casa, recusara-se a ouvir rádio. Durante mais de um ano não pronunciara uma única palavra. Até que se produziu uma mudança. Maxime parecia querer voltar a viver; eu ignorava , por que razões, sabia apenas que Laura era uma délas.

— É professor, não é verdade? As palavras nada significam. A entoação é que conta. Traduzo a verdadeira pergunta de Maxime: Que faz você aqui no meio de dois invisuais, Bernier? = — Sou professor de Francês.

Maxime não procura disfarçar os seus sentimentos, ou então a perda da vista impede-o de controlar as suas expressões faciais. Seja como for, desenha-se-lhe nos lábios um ricto de profundo desprezo.

— Vai desculpar-me, mas sempre tive a sensação de que os professores são homens sem imaginação. Vão para a escola aos seis anos e só de lá saem aos sessenta.

Laura agita-se no sofá. Receia qualquer coisa.

— Exacto; pode-se considerar uma vida monótona, mas deixe-me fazer-lhe uma confidência: a aventura aborrece-me.

Pousa o copo e assume uma expressão sombria.

— Só uma pergunta: não considera que o facto de viver com uma cega é uma aventura?

Subitamente, Laura empalidece.

— Maxime, acho que se podia evitar este tipo de conversa e, se não se importa ...

Voltou energicamente o rosto para mim:

— Verá que bem depressa se há-de aperceber de uma coisa: em terra de cegos, nem os vesgos nem os que o não são chegam a reis.

Emana de toda a sua pessoa uma força quase brutal. Ao terminar a frase, senti tremer-me a voz:

— Parece-me que não estou a perceber ...

Laura tenta interpor-se, mas Maxime lançou-se ao ataque e compreendi que nada o poderá deter.

— Um cego não é apenas alguém que não vê: é um ser diferente dos outros, que sente, pensa, ama e odeia de outra maneira. E posso garantir-lhe uma coisa: é que já não tem mais nada, ouviu, mais nada em comum com o mundo dos que vêem.

Laura ouve-o e mantém-se calada; pousadas nos braços do sofá, as articulações dos dedos puseram-se-lhe brancas. Levanto-me e acendo um cigarro.

— Estou de acordo que quando se muda um elemento de um conjunto também este muda. E daí?

Ergue uma sobrancelha e vejo os seus dentes brilharem no espaço ínfimo de um segundo.

— E daí? Pois bem, é muito simples: só entre nós há realmente comunicação possível. Formamos uma sociedade à parte. E você sabe-o perfeitamente. Tal como Laura o sabe.

Laura estremece ao ouvir pronunciar o seu nome.

— Conversámos muitas vezes sobre isto, Maxime — diz —, e conhece as minhas ideias a este respeito; você traz dentro de si uma enorme vontade de cortar todo o contacto com o mundo visível, de nos agrupar numa sociedade fechada. Você é um teórico, mas a vida é outra coisa. A vida faz com que Jacques veja e eu não, mais nada. Quanto à questão de saber se ... ora, ora.

Maxime descruza lentamente as pernas; neste momento o seu rosto é inexpressivo; fala sem paixão, e cada uma das suas palavras surge como que escalpelizada.

— Tanto um como o outro são vítimas da ilusão. Acreditaram certamente no sonho cor-de-rosa da compreensão mútua, acreditaram na aproximação de brancos e negros, de judeus e não judeus, de argelinos e franceses, e no entanto sabem perfeitamente que a realidade, quando estes grupos se encontram, não se chama Harmonia, mas Escravatura, Segregação e Guerra. Pois bem, se acaso existe uma diferença fundamental entre um branco e um negro, convençam-se de que ela não é nada em comparação com a que separa um cego dos que vêem.

Laura esboça um gesto rápido e instintivo, como que a esquivar-se de uma bala.

— Parece-me que a conversa pode ficar por aqui, Maxime.

Todos estes argumentos são fruto do ciúme: Maxime queria Laura para ele e sou eu que a possuo. O resto é conversa fiada. Calou-se e bebemos em silêncio. E se ele tivesse razão? Já antes de o ouvir eu me sentia posto de parte, só por não ser cego ... Talvez eu acabe por me aperceber, daqui a algum tempo, que Laura é demasiado diferente de mim para que eu possa compreendê-la, talvez ela descubra um dia que pertence a Maxime, que o seu universo é o dela. Sabe que ele é novo, rico, bonito ... Como lhe poderei eu fazer frente, Deus meu, velho, pobre, hepático e tudo o mais?

— Não quer jantar connosco?

O tom não era dos mais convidativos. Maxime levantou-se.

— Não, estão à minha espera.

Laura roça por ele ao passar e abre-lhe a porta. O meu coração bate com força; é na hora da despedida que se diz o mais importante. Ele sabe que vou ouvir o que vai dizer, mas não é esse facto que o detém.

— Até breve, Laura. Digo-lhe que anda iludida com esse homem. Ele representa para si o derradeiro laço com a visão. Você ainda não rompeu totalmente com a luz, ao passo que ela já se afastou definitivamente de si. Quando isso acontecer, é para mim que você se vai voltar.

A porta bateu. Laura aproximou-se, com os lábios trémulos, e pousou a testa no meu peito.

Não consegui imprimir à minha voz segurança suficiente:

— Drácula saiu em busca do sangue de algum transeunte solitário. Esquece esta visita.

Acenou com a cabeça. Eu sei, Laura, sei perfeitamente que não esquecemos aquilo que queremos e que há palavras tão pesadas que muito depois de terem sido pronunciadas ainda continuam a martelar-nos os ouvidos. Murmura:

— Este homem é realmente doentio ...

Que soro venenoso acabou ele de injectar? Mas hei-de vencer.

Seguro Laura pelos ombros:

— Eu, Jacques Bernier, por graça de Sua Santidade o Papa e em obediência ao meu senhor e suserano, ofereço-vos, Dama Laura, auxílio e protecção. Por vós derrubarei o poderoso e mui terrível príncipe das trevas, e em boa hora vos proponho que abandonemos estes locais mal soarem as matinas, vós em garboso corcel montada e eu cavalgando palafrém.

Laura pousa os lábios na minha face.

— Para onde queres ir?

— Não faço a menor ideia.

Num gesto vivo, bate com as costas de uma mão na palma da outra:

Para a Bélgica. Vamos a Bruges! Sempre quis lá ir.


Capítulo V

— Juro-te que é liso como a palma da mão. Não há nem um gato à tua frente, podes avançar à vontade.

Estamos em Ostende. Laura salta sobre um pé na areia.

— Evidentemente que quem vai ganhar és tu — diz ela, agarrando-se a mim. — Há quatro anos que não corro.

— Pois eu, já lá vão alguns trinta. Podes ter a certeza de que não estou em grande forma. Vamos lá a ver quem chega primeiro à água.

— E não há ninguém a tomar banho?

— Não, a esta hora está tudo a almoçar. Atenção: um, dois, três!

Os pés enterram-se-me na areia, os meus joelhos erguem-se e baixam como pistões. Laura está a ganhar terreno. Desvia a corrida um tudo-nada para a esquerda, o que não constitui problema, pois a praia está deserta.

Tenho a respiração ofegante. Laura leva três metros de avanço e sinto os tornozelos cada vez mais agarrados ao chão. Ela vai ganhar. Num esforço derradeiro, recupero um metro, dois metros; sopro como um touro. Com um grunhido, Laura acelera como se a sua vida dependesse desta corrida. Não posso perder: agarro-a pela cintura em pleno sprint e caio sobre ela, já dentro de água.

A areia molhada cola-se à pele. O bikini dela é preto. À terceira tentativa consigo dizer:

— Esse bikini fica-te lindamente.

— Sempre vamos ao banho?

— Não estamos aqui para outra coisa.

Laura levanta alternadamente os pés da água.

— Está gelada!

— É porque não és uma mulher de coragem. Eu já mergulhei.

— Primeiro era preciso que eu te acreditasse.

Temos de percorrer uma distância considerável para que a água nos atinja a cintura; Laura avança com os braços cruzados. Dir-se-ia que nunca se deixa de ter pé. Depois de desferir alguns socos no ar, Laura executa dois saltos de carpa.

— Pelos vistos, estás cheia de energia!

Começa por insultar-me e explica logo a seguir:

— Quase inconscientemente, adquiri o hábito de medir todos os meus gestos, e por uma vez que tenho a certeza de não entornar o bule de chá nem de enfiar um dedo no olho do parceiro ao lado, peço muita desculpa, mas aproveito a oportunidade.

Zás! Com as mãos em concha, atira-me uma chapada de água que me acerta em cheio. É difícil correr dentro de água; avançamos dobrados pela cintura. De repente, ela mergulha e desaparece. Mergulho mais lentamente e começo a nadar de bruços, com a nuca bem erguida. Vejo-a aparecer à minha esquerda. Tem um crawl de campeã.

— Onde é que estás?

— Aqui.

Agarra-se a mim e ponho-me de pé. A água chega-nos a meio do tronco. Com os lábios salgados, húmidos e quentes; estreitamo-nos num beijo de mar e de Verão. Afastamo-nos para o largo e boiamos a fim de descansarmos um pouco. Pelo canto do olho, vejo-a balouçar mansamente, como um navio ancorado.

— Já não sei onde estou — diz Laura. — Só me consigo orientar na vertical. Mas agora, horizontalmente, para onde quer que vá, tenho a certeza de não encontrar obstáculos. Só o mar é que me oferece esta possibilidade.

Nadamos agora em direcção à praia; para prolongar aquele prazer, avança lentamente. Cá fora, um vento fresco arrepia-me. Esqueci-me das toalhas e deitamo-nos na areia, voltados para o Sol. Cobri-a com uma leve camada de areia quente e, a pouco e pouco, os arrepios cessam.

Com as pálpebras baixadas, faz e desfaz com a mão um montículo de areia. À minha esquerda, vejo aparecer a primeira família da tarde: chapéus-de-sol, cadeiras portáteis, camaroeiros. É tempo de partirmos. Laura levantou-se.

— Onde é que me levas a almoçar?

— Não faço a menor ideia, mas garanto-te que hás-de comer os melhores mexilhões do mar do Norte.

Hesitou uns segundos e encaminhou-se para a água:

— Espera aí, é só mais um mergulho.

Agora só, Laura avança. A água já lhe chega aos joelhos.

Olho-a e sinto uma estranha impressão. É a primeira vez que a vejo ao Ionge. Tudo o que dela conheço desaparece: o seu sorriso, o seu passado, a sua maneira de fumar, de beber, de amar; resta apenas uma mulher que penetra no mar, e sinto que era precisamente isso que ela procurava: a alegria primitiva de um corpo evoluindo no espaço. Domino o impulso que me levaria a reunir-me a ela com aquela mesma segurança que me levara a não lhe oferecer lume no café: há gestos que nunca se devem fazer. Laura foi sozinha e, neste momento, quer continuar sozinha: seria falta de tacto ir ao seu encontro. Aliás, não se demora; o seu busto emerge e, quando sacode a cabeça para trás, acendem-se nas gotas de água todos os tons do arco-íris.

— Então que tal?

Ao ouvir a minha voz, corrige ligeiramente o trajecto que seguia para se juntar a mim. Sorri.

A cabina cheira a madeira e a tinta; continuo com as costas cheias de areia. Ao olhar para o espelho quebrado, constato que apanhei um escaldão. Laura está à minha espera junto do bar, com uma saia que eu não lhe conhecia.

— Nunca te tinha visto essa toilette!

Rodopiou, como nas passagens de modelos.

— Ainda não viste nada. Trouxe umas calças mexicanas que arrastam multidões.

Transpomos as dunas, subimos umas escadas e temos o mar à nossa frente. Entrámos num tasco de tijolo escuro que tresandava a salmoura e a lixívia; decorridos dois minutos, devorávamos o almoço. Só então me lembrei de que me esquecera novamente dos comprimidos.

Arrancámos para Bruges.

— À minha direita, um moinho de madeira, do mais puro estilo flamengo.

— Tem as pás a girar?

— Não.

Vinte segundos de silêncio.

— À minha esquerda, outro moinho.

Não me responde. Deixo passar mais dez segundos.

— Mais outro, ainda maior que os dois primeiros.

— Estamos na terra dos moinhos — comenta Laura.

Depois de lhe ter assinalado o décimo quinto moinho, pousa a mão no meu joelho com a maior delicadeza:

— Importas-te de me fazer um favor, Jacques?

— Diz, querida.

— Gostava de saber ao certo quantos moinhos contaste desde que partimos.

Solto uma longa gargalhada e remato:

— Nem um. Na Holanda é que há moinhos. Desta vez enganei-te ...

Encolhe-se no assento.

— Deixa-me, não sejas parvo!

Ao chegarmos às primeiras ruas da cidade, subitamente sinto medo. Nunca lhe será dado ver o esplendor das estátuas, os reflexos do Sol no dourado das colunas e das varandas, as fachadas dos palácios ondulando no espelho dos canais. Como poderei eu traduzir em palavras o encanto daquela cidade, imobilizada numa atitude teatral?

...Laura! Porque não hás-de— tu conhecer esta canção de pedra?

Deixamos o automóvel e imediatamente ouvimos o som dos carrilhões. Um bando de pombos esvoaça sobre as nossas cabeças.

Lançou a cabeça para trás e sorriu: soube então que nada tinha a recear. Para ela, Bruges havia de existir, já existia.

Estamos em Bruges há três dias e as horas correm, entrecortadas pela música dos sinos e dos carrilhões. Sentamo-nos nas esplanadas a beber cerveja, perdemo-nos pelas ruelas estreitas, erramos pelos jardins, onde passam velhinhas de meias de algodão e lenço na cabeça. Adquirimos já determinados hábitos: comemos num restaurante italiano, cuja empregada, que reparou desde o primeiro dia que Laura era cega, quando a viu entornar o saleiro, nos serve sempre em travessas enormes. Escrevi a Anne. Parece-me que a deixei há dez mil anos e receio ter de certo modo esquecido a carne da minha carne. Acabo a carta enviando saudades a todos, desejando-lhes um tempo magnífico ... enfim, não sei ao certo que mais tenho a dizer-lhe. Nunca ninguém me ensinou a exprimir a felicidade.

— Jacques!

— Diz.

Mergulha uma bolacha na chávena. São dez horas e ainda não acabou de tomar o pequeno-almoço. Hoje estamos mais demorados.

— Ficavas aborrecido se eu te pedisse para me levares às compras?

— Não, que ideia!

— Queria mandar um presente à Edith. Para lhe pedir desculpa; deixei-a um tanto bruscamente.

— E que é que lhe vais oferecer?

— Um anel. Nunca os usa, mas adora tê-los.

Saímos. Imensa gente nas ruas. Sempre que nos encontramos no meio da multidão, habituei-me a apertá-la bem contra mim, rodeando-lhe os ombros com um braço. À medida que avançamos, apercebo-me de um facto: embora nunca o tivéssemos combinado, estabeleceu-se um código entre nós. Por exemplo, antes de subir para o passeio ou de o descer, abrando ligeiramente o passo. Encosto um pouco mais a minha perna à dela e subimos ou descemos simultaneamente, quase sem afrouxar o andamento.

Descobri uma boutique moderna, com lenços indianos, casacos do Afeganistão, colares do Nepal, enfim, um variadíssimo sortido de objectos fabricados nos arredores de Bruxelas. Conduzo Laura até junto de uma enorme cesta cheia de anéis. Procura durante algum tempo naquele amontoado e conclui: — É tudo pechisbeque, temos de ir a outro sítio.

Saímos. Sob as arcadas havia vendedeiras de flores, e na esquina, um armazém. Lá dentro era um formigar de gente; esbocei um movimento de recuo, que não lhe passou despercebido. Apertou-me o braço com mais força.

— Não tenhas medo. Eu guio-te.

Subimos as escadas rolantes.

— Também te vou oferecer um presente — disse Laura. — De que é que tu gostavas?

Nesse dia Laura irradiava felicidade.

— Sei lá! Apanhas-me de surpresa.

Fui-a conduzindo por entre os diversos balcões até chegarmos aos anéis. A caixeira tem um ar sofisticado:

— Os senhores que desejam?

— Queria um anel sem pedra, grosso, geométrico e de aço. Se não se importa, vá-mos passando para a mão, porque eu não vejo.

A boneca enrubesce e toda ela se requebra em torno dos estojos.

Porque teria ela corado quando Laura lhe disse que era cega? Mistérios da alma humana. Observa os dedos de Laura percorrendo as jóias.

— Este não me parece mal. Que achas?

O anel, que apresenta dois cubos de aço engastados, cobre toda a falange. Laura enfiou-o no dedo.

— Brilha?

— Não, é um metal baço.

Solta um suspiro, percorre de novo com os dedos um anel com uma esfera e um losango e abandona-o.

— Levo antes o outro, gosto mais.

— E de qual é que tu gostavas mais para ti?

— Do mesmo. Levo sempre para a Edith os anéis de que gostava para mim.

Volto-me para a boneca sofisticada:

— Embrulhe dois, se faz favor.

— Que comoção! — diz Laura. — Não me digas que o outro é para mim!?

— Nem mais, acertaste em cheio. O contacto da tua anca na minha perna perturba-me profundamente.

A boneca fica estupefacta: deixa cair o queixo e só a custo se recompõe. Começa a embrulhar os anéis.

— Não devia ter consentido — diz Laura. — Por muito que te aumentem, o teu vencimento de professor nunca há-de chegar para uma perdulária como eu.

— Não te aflijas! Tinha conseguido juntar um pequeno pecúlio debaixo do meu colchão para comprar uma cabana para a velhice, mas, sendo assim, olha, vou para o asilo!

A empregada voltou com os dois embrulhos em papel de fantasia. Pagámos e Laura deu-me o braço.

— E agora leva-me à secção de artigos masculinos.

Disse-o com voz autoritária, de quem não admite discussão. E deu início a um ballet táctil e veloz, apalpando camisas e pulôveres, rodando em torno dos mostruários.

— Em primeiro lugar, precisas de uma camisola de gola alta.

— Mas olha que estamos em Julho ...

— Sabes muito bem que aqui as noites são frescas; mal sopra uma brisa, pões-te logo a bater os dentes. Julgas que não reparo?

— Vamos admitir que sim; de qualquer modo, tenho um casaco.

— É isso mesmo: estou farta do teu casaco. Com um pulôver ficas com um ar muito mais desportivo.

— Isso é coisa que eu não sou! Nem sequer me ouviu: percorria com os dedos um modelo que colocou diante de mim.

— Vais provar este, que deve servir-te.

Passam-me subitamente pela cabeça todos os horrores das cabinas de prova e encontro um subterfúgio:

— Nem penses nisso, é pavoroso, aos quadrados azuis, verdes e amarelos!

Neste momento aparece uma empregada.

— Não posso ajudá-la em nada?

Um sorriso maquiavélico entreabre lentamente os lábios de Laura, que murmura:

— Diga-me só: de que cor é este pulôver que tenho na mão?

A empregada, que já deve ter-se habituado a todo o género de perguntas, não revela qualquer estranheza e responde com a maior naturalidade:

— A cor vem indicada na etiqueta, minha senhora, é cinzento.

Silêncio. Tusso discretamente.

— Obrigada — responde Laura, mas, se não se importa, eu insisto: tem a certeza de que não é aos quadrados verdes, azuis e amarelos?

— Não, minha senhora. Esse modelo só se fabrica em cores lisas.

Laura volta-se para mim.

— Com que então, querias armar-te em esperto ...

Procuro no monte dos pulôveres até encontrar um castanho.

— Gosto mais deste.

E eis-me na cabina. Como de costume, a cortina não corre totalmente. Enfio a camisola e vejo-me ao espelho. Não me fica nada mal. Saio, dilatando o peito e encolhendo o estômago. Laura passa-lhe a mão por cima, aperta a lã entre os dedos e pergunta em tom maternal: — Não te está apertado debaixo dos braços? Não te fica muito justo?

— Não, não, está impecável.

— Pronto, vai este. E agora passamos às camisas.

Fico estupefacto.

— Mas eu tenho imensas camisas!

— Não — responde. — Estou farta de saber que andas sempre de camisa branca. Quero uma coisa mais alegre. Vá, leva-me à secção das camisas. Chegou então a vez de esticar a cabeça, e uma empregada corpulenta e com as mãos húmidas passou-me a fita métrica à volta do pescoço. Sendo os belgas profissionais muito meticulosos, mediu-me também o comprimento dos braços, que considerou demasiado longos, facto que não me agradou particularmente.

— Nunca reparou que quando ando toco com as mãos no chão?

Soltou um gemido que fez estremecer as montras da loja. Houve pelo menos trinta pessoas que se voltaram para nos olhar.

Laura acabou por decidir-se por três camisas de Verão: uma castanha (fiz questão em que pelo menos uma delas fosse discreta) e duas muito garridas. Já me estou a ver a chegar ao liceu envergando uma delas: os garotos até venderiam bilhetes para o espectáculo. Ao passarmos pela secção das tee-shirts, disse-lhe:

— Sabes do que é que eu gostava? De ter uma tee-shirt com esta frase: I love Mickey Mouse. Apertou com força a minha mão na dela.

— Estamos na secção das tee-shirts?

Nesse momento fiquei seriamente assustado, receando de facto que ela me quisesse comprar uma. Aliás, comprou, mas para ela.

Levou-a vestida: era verde e preta e moldava-lhe harmoniosamente o busto. Rejuvenescia-a, e quando veio ao meu encontro ostentava  um sorriso de dezoito anos, como se eu fosse um rapaz de vinte e tivéssemos marcado um rendez-vous amoroso à beira de um canal. Laura era assim; talvez porque não via, era capaz de ignorar a multidão, e sei que, naquele instante, quando me sorriu, o armazém desaparecera e eu esperava-a à beira do canal. Quando voltou à realidade, pegou-me outra vez pelo braço.

— Vamos, que ainda tenho umas compras a fazer.

Parecia tomada de uma fúria de gastar; subíamos e descíamos de andar para andar como marionetas. Até que lhe supliquei:

— Estou a morrer de sede; se não beber nada no prazo de três minutos, sou um homem morto.

Saímos carregados de embrulhos e instalámo-nos à mesa de uma pastelaria cara, perto da Ponte de Flandres. Pelos vidros recortados das janelas, viam-se os telhados dos palácios da outra margem. Bebi a minha cerveja de um trago e contemplei o amontoado das nossas compras. Havia discos, um recipiente de porcelana para Simon guardar o tabaco, um enorme lenço de cabeça para uma amiga que eu não conhecia, um blusão de camurça para ela (a um preço fora de série, ao que parece), collants, o meu pulôver, as minhas camisas e dez pares de peúgas. Quando a ouvi pedir semelhante quantidade à empregada, fiquei completamente siderado:

— Mas porquê dez pares? — Porque é muito mais prático do que andar a lavar todas as noites o mesmo par na casa de banho do hotel.

Tentei explicar-lhe que procedia daquela maneira há mais de vinte anos, mas em vão; e lá fiquei eu com mais vinte peúgas. Decididamente, esta mulher alterou radicalmente os meus hábitos de vida.

Laura bebe um gole; tem os olhos brilhantes e limpa os lábios às costas da mão, como um garoto mal-educado.

— Diz lá que não foi uma manhã divertida?

— Foi, Laura, foi.

Passáramos uma manhã divertida.

*

Provavelmente, amanhã as condições climáticas deteriorar-se-ão: para os lados do mar, nuvens escuras acumulam-se no céu nocturno. Já não se vê ninguém nas ruas. O canal espelha cada vez menos nitidamente o céu plúmbeo.

O ambiente do restaurante é sensaborão. Laura boceja e eu imito-a. Por vezes, há momentos assim; dir-se-ia que a vida teve uma quebra de tensão e que precisa de recompor-se antes de retomar a sua intensidade habitual. Tudo está calmo e triste. É inútil tentar encetar uma conversa, que obviamente não resultaria.

— Voltamos para o hotel?

— Como quiseres.

Também ela não envida o menor esforço, sabendo de antemão que a tentativa se revelaria infrutífera. Limita-se a acrescentar a meia voz:

— Tenho a certeza de que o dono desta tasca é um tipo sinistro. Aposto que tem a cave cheia de cadáveres.

Saímos. Laura afaga-me a camisola com a palma da mão.

— Então, está quentinho, está?

O certo é que não a dispo tão depressa: o vento que se levantou já cheira a Novembro.

— Mas que terra esta meu Deus! — dizia Laura a tremer.

Devia ter vestido o meu blusão.

Vejo um cartaz de cinema afixado na parede, mas, como a iluminação é insuficiente, largo a mão de Laura durante uns segundos para o ver de perto, enquanto ela continua. Uma fita policial americana. Talvez seja de ver.

É nesse momento que ouço um grito.

Estavam os três perto do candeeiro: ele, Laura petrificada, e o garoto caído no chão. O tipo, que se baixara para levantar a criança, antes de verificar se esta se magoara ergueu a cabeça.

— Não vês bem, ou quê?

Aproximei-me e ouvi Laura dizer:

— Não, não vejo bem.

Eu sabia que ela nunca diria que era cega; ele é que teria de o compreender, e nunca ela de o dizer. O homem pegou na criança por um braço e pô-la de pé. Era um tipo espadaúdo, irascível, com cabeça de queijo flamengo. Não percebeu que estávamos juntos; piscou-me o olho, voltou-se para ela e disse-lhe:

— Podes andar à vontade no engate aqui à beira do canal, mas para a próxima vê lá onde é que pões os pés.

Procedi insensatamente, mas fui incapaz de me conter: — Ó sua besta, então não percebeu que esta senhora é cega?

Quer porque tivesse gritado alto demais, ou porque me tremesse a voz, ou porque ele não tivesse querido compreender — o certo é que só deu atenção ao insulto:

— Repete lá isso outra vez.

Pôs a mão em concha por detrás da orelha, com ar de rufia, seguro da sua força e do seu peso; tinha pelo menos mais vinte quilos do que eu. E a sua insistência ainda mais me exasperou:

— Que é que tu me chamaste? Que é que foi?

Senti-me tomado de pânico, tive uma vontade louca de fugir, mas só me ouvi dizer:

— Chamei-lhe besta, que é o que você é!

O murro acertou-me no ombro; Laura precipitou-se para mim, vi a cara dele à minha frente e atirei o braço ao acaso; julguei que tinha desfeito a minha mão. O tipo recuou um bom metro, com o sangue a escorrer-lhe do nariz. Disse apenas:

— Estou a sangrar. Vai chamar a Polícia, Marcel.

Laura foi ao encontro daquela voz, com os dedos fincados no meu pulso. Eu tremia violentamente.

— Já lhe disse que sou cega, seu imbecil, cega. Pensa que deitei o garoto ao chão de propósito?

O homem estava ofegante e tinha dificuldade em discorrer.

Quem olhasse para ele tinha a sensação de assistir ao esforço que fazia para encadear as ideias. Até que acabou por dizer:

— Ele pôs-me a sangrar e há-de pagá-las.

Avançou para mim, ao mesmo tempo que eu via algumas pessoas saírem do café do outro lado da rua. Tinha de procurar aguentar a situação mais alguns segundos. Recuei com Laura agarrada a mim. Fiquei encostado à parede, mas, precisamente nessa altura, senti esgotarem-se-me as reservas de paciência; chegara o momento de me desfazer de quarenta anos de frustração, não podia suportar a ideia de que Laura imaginasse que eu estava prestes a morrer de medo, tinha de fazer frente àquela encarnação da estupidez e da teimosia.

Libertei-me de Laura e lancei-me em frente; devo ter-lhe acertado mais uma vez, porque ele gemeu. Depois vi o chão a subir até mim e caí de borco no saibro. Seguiu-se uma espécie de cavalgada, pernas e calças a aproximarem-se, gente a falar flamengo. Levantei-me: Laura conversava com dois homens. Mastiguei alguns fragmentos de esmalte. Aproximei-me dela e afastámo-nos. Sentia todos os olhares pousados sobre nós.

A luz do quarto encandeia-me; sento-me, com as pernas frouxas e as mãos ainda trémulas. Dói-me sobretudo a região esquerda do queixo. Laura comprime ligeiramente a luva de banho contra a minha cara. Diz-me baixinho:

— Porque é que lhe chamaste besta?

— Porque achei que era verdade.

Levanta-me o lábio e pressiona dois dedos contra os meus dentes.

― Não sentes nenhum a abanar?

A sua expressão é tão preocupada que me dá vontade de rir.

— Soltou-se-me uma coroa, mas não há problema. Podias era ter-me prevenido de que o tipo trazia um martelo-pilão escondido na manga.

— Tiveste imensa sorte. Agora vai-te deitar que eu ponho-te aí uma compressa.

Estendo-me na cama, enquanto ela se dirige à casa de banho. Já vi esta cena vezes sem conta nos filmes policiais: o herói bonitão e amigo de brigas a ser tratado por uma brasa flamejante. Pois bem, hoje o herói sou eu. Só que, normalmente, o herói sai vencedor; e esta tarde ... Não obstante, desfechei-lhe um directo que não foi brincadeira, é bom não esquecer.

— Laura ... Tenho pena de que não tivesses visto; a minha réplica foi de uma eficácia extraordinária; é o golpe preferido de Carlos Monzon, que só raramente lhe sai bem, aliás.

— Quem é esse Carlos Monzon?

— Um campeão mundial de boxe.

Laura aparece com outra luva de banho. A luva quente encostada à cara parece aspirar a dor; é uma sensação agradável. Entretanto, descrevo-lhe o combate.

— Avançou para mim como uma montanha de músculos, aguardei cientificamente uma aberta e, na primeira oportunidade, desferi um directo fulminante.

Laura ri. A sua voz revela ainda um certo nervosismo, mas começa a mostrar-se descontraída. — Eu estava convencidíssima de que eras pela não violência. Que te deu?

Rio com escárnio.

— Deves estar a brincar, com certeza; eu sou eminentemente agressivo. O melhor que ele fez foi pôr-se a andar, senão ainda o desfazia.

Esfrega a mão no quadril e faz uma careta.

— Se calhar ainda aleijei o miúdo; ele devia vir a correr e por pouco não caímos os dois. Até certo ponto, o homem tinha razão para ficar danado; realmente, quem não vê não deve andar a passear sozinho na rua.

— Não estavas sozinha, eu estava a uns três metros; acho que tens todo o direito de passear pela rua, não és nenhum perigo público ...

— Até sou ... E tive medo, sabes? Tudo à minha volta se tornou ameaçador ... Nos meus primeiros tempos de cegueira, tinha muitas vezes o mesmo pesadelo: seguia por uma estrada cheia de automóveis que passavam a toda a velocidade e ouvia constantemente o chiar das travagens e a algazarra das buzinas. — Laura começou a tremer, ficou tensa num esforço para se dominar e retirou a mão de cima do meu braço. — Um cego nunca pode deixar de ser frágil, percebes? Vai-se abaixo com qualquer coisa.

Não sabia o que fazer; via-a pela primeira vez como um enfermo, como um ser de uma fragilidade extrema, sujeito a múltiplos perigos. Para Laura, o rebordo de um passeio, uma escada, um gato, tudo podia ser mortal. Retirara-lhe a minha protecção durante alguns segundos e fora o bastante para a mergulhar na realidade da sua condição.

— Não devia ter-te deixado sozinha no passeio ...

Respondeu-me com violência:

— Tens todo o direito de ir ler um cartaz!

Elevei o tom de voz:

— Não sei por que razão havemos de discutir; lá por termos encontrado um idiota que queria armar barulho, que é uma coisa que acontece na vida de qualquer pessoa.

Ao mesmo tempo que começava a rir, as lágrimas saltavam-lhe dos olhos. Soluçava profunda e ruidosamente, a espaços regulares. Estreitámo-nos como loucos e depois fui buscar uma luva de banho para lha passar pela cara.

— Estima bem esta luva, que está provado que é preciosa.

Senti que a crise passara. Exibi-me no quarto, onde reproduzi por meio de gestos e sons um combate de boxe do princípio ao fim, a que nem sequer faltou o clamor da multidão, o ruído dos murros, o gongo, os conselhos do treinador. Até que, subitamente, ouvi bater com força na parede; os vizinhos do lado não deviam apreciar aquela transmissão em diferido de um combate de boxe à uma hora da manhã. Laura, que acalmara, disse baixinho:

— Não são desportistas, pelos vistos. O melhor é dormir.

Deitámo-nos. Sentia-a calma, descontraída, o incidente fora sanado.

— E se mudássemos de poiso? — sugeriu ela de repente.

— Como queiras.

Pareceu hesitar.

— Voltamos para Paris?

— De acordo! Para a capital, a todo o pano!

Deu-me um beijo na testa.

— Boa noite, Laura.

— Boa noite, Carlos Monzon.


Capítulo VI

Ecoam trombetas e o príncipe faz a sua aparição. Dá alguns passos e toma entre as suas uma das mãos da rainha. A sua voz, com inflexões metálicas, ergue-se, acentuando as sílabas finais.

Ignorava que estivésseis aqui. Ela encurva as costas e parece querer rasgar o veludo do corpete com as suas unhas escarlates.

Como vos enganais, Gregor, ou antes, como mentis! É por força de uma ordem que vós próprio assinastes que me vejo obrigada a permanecer em tão funesto lugar e a mostrar-me ante os vossos olhos.

Laura suspira. Inclino-me para ela e segredo-lhe: — Queres ir embora?

— Ohh!

Calamo-nos. O tipo atrás de nós não parece amistoso. Não quer perder uma única deixa do espectáculo. Tem certamente assinatura. No palco, o diálogo mantém-se aceso; ela parece encolerizada.

... Acautelai-vos, pois se o povo acaso tiver conhecimento dos vossos desígnios, pagareis bem caro a vossa vilania! Gregor acusa o toque e leva a mão ao punhal:

Tens toda a razão, rainha, basta de fingimento. Guardas, prendei-a! A rainha estende um braço crispado na direcção do seu carrasco.

E o tratamento por tu prossegue:

Deus julgar-te-á, Gregor, e quando soar a hora da morte, será para te anunciar uma eternidade de tormenta.

Cai o pano. Pingam alguns aplausos. Não deve haver mais de quinze pessoas na sala. Faltam ainda dois actos, e não me parece que sejamos capazes de aguentar até ao fim. Aquela meia dúzia de espectadores entreolha-se suspeitosa; cada qual se interroga como foi possível que os outros tivessem tido a fantasia de ali estarem naquela noite.

Atravessamos o foyer do teatro; no bar, um único cliente contempla o copo com ar resignado.

— Ficamos?

Laura não parece muito entusiasmada.

— Se fazes questão nisso ... mas não me importava nada de ir embora.

Estava-se bem cá fora; o néon iluminava as folhagens dos castanheiros; descemos calmamente a avenida, como um velho casal de parisienses. Havia uma florista aberta. Por entre os cravos e as rosas, um pequeno cartaz anunciava: Amanhã, 25 de Julho, Dia de Sant'iago.

O que me surpreendeu foi o facto de vivermos juntos há três semanas, Laura e eu; por momentos a situação pareceu-me inverosímil, era capaz de jurar que ainda nem há oito dias partíramos de Menton.

— Sabes que dia é hoje?

— Sei, sexta-feira 24.

Mais uma surpresa: pelos vistos, ela não perdera a noção da realidade como eu. E não pude deixar de lho dizer:

— Estava convencido de que, arrastada pela louca paixão pela minha pessoa, tivesses esquecido a fuga do tempo.

Não respondeu imediatamente e continuámos a passear frente às montras iluminadas. De repente, disse-me:

— Sei que hoje é dia 24 porque também sei que no dia 31 tenho de estar em Nova Iorque.

Quando um homem sofre um choque, é frequente ler-se nos romances: Tudo vacilou à sua volta, ou então: Subitamente, mergulhou na escuridão. Pois nada disso me aconteceu: a estátua da Praça Clichy não se moveu nem um milímetro e não houve lâmpada que fraquejasse. Uma única coisa mudara: o futuro. Daqui a sete dias; Laura já não estaria a meu lado. Só isto.

É certo que ela tinha a sua vida própria, os seus amigos, a sua profissão. Era cega, mas não deixava de ser jovem, bonita, inteligente, e havia milhões de homens à superfície da Terra. Ao fim e ao cabo, que fizéramos nós durante aquelas três semanas? Contribuíramos mutuamente para passarmos umas férias agradáveis, que de outro modo teriam sido banais, e conseguíramo-lo razoavelmente; mas aquilo só não bastava; ela não começara propriamente a viver no momento em que me encontrara.

— Não dizes nada? ...

Dissera-me um dia que é difícil mentir a um cego. Seja como for, o problema não se põe.

— Estava a pensar na tua partida. Porque é que só mo disseste agora?

— Porque seria inútil dizer-to antes. Quando se vive com os dias contados, já não se vive tão bem; não queria que todas as manhãs, ao acordares, pensasses para contigo: Só faltam quinze dias. Só faltam oito dias.

Pigarreei:

— E que vais tu fazer à América?

— Vou com a Edith. Ofereceram-me um lugar na direcção de um Instituto de Psicologia.

— E é um lugar com interesse?

— Não faço ideia. Por enquanto, vou fazer um estágio e estabelecer um primeiro contacto na própria instituição. Mas é evidente que não sou obrigada a aceitar.

— Claro, claro.

Estacou subitamente e apontou com o dedo para a frente, em direcção à Praça Blanche.

— Escuta ...

Era uma mistura de vozes, de buzinas, um emaranhado de gritos e de música. Mais distintamente, ecoou uma canção:

O amor é tão bom,
Ai, tão bom, tão bom, tão bom.

Laura sorriu, e, talvez pela primeira vez desde que a conhecera, não era um verdadeiro sorriso.

— É a festa — disse ela.

Foi também com um esforço que respondi:

— Queres ir? Trouxe trocado.

— Vamos!

Misturámo-nos à multidão; cheirava a fritos, a nougat e a caramelo. O pavilhão das Mil e Uma Noites estava apinhado. Ao lado, havia uma barraca com lutadores. Laura quis parar para ouvir o banha-da-cobra que anunciava o espectáculo. Havia três desgraçados sobre o estrado: um tipo magro e nervoso, que se agitava freneticamente, boxeando o vácuo; um gordo e apático, com uma pele de pantera, que dava pelo nome de Estrangulador das Montanhas Rochosas e o terceiro, todo vestido de vermelho, com uma cogula e uns collants.

Laura segreda-me ao ouvido: — Não queres aceitar o desafio? Tens um directo tão terrível ...

O ruído da montanha russa impediu-me de ouvir o que ela acrescentou; os altifalantes rugiam tremendamente, sobrepondo-se aos gritos das mulheres e das crianças que deslizavam a uma velocidade alucinante por aquelas colinas de neve falsa. Comprámos amendoins e dois enormes chupa-chupas. Pelo meio das espirais pretas e açucaradas corria um fio de açúcar cor-de-rosa. Eu mordiscava o chupa quando nos aproximámos da jaula das feras do Prof. O'Brien (leões do Tanganhica, gorilas das florestas equatoriais, tigres de Bengala); foi então que me decidi a largar:

— Não achas que nos podíamos casar?

Fez rolar suavemente um amendoim na palma da mão. Levantou o braço e introduziu-me aquele grão por entre os lábios segurei-o com os dentes e Laura pousou a cabeça no meu ombro. E continuámos a andar, por entre os estribilhos das cantigas, os gritos, os risos, as concertinas.

Faltavam sete dias.

*

Não voltámos a falar em casamento; estes últimos dias passaram demasiado depressa, e é já depois de amanhã que ela toma o avião para Nice, onde Edith a vai esperar. Levo-a até ao Aeroporto de Orly — está tudo programado, como uma canção triste nas cinco linhas da pauta.

Ontem tivemos visitas, convidámos o Simon. Entendo-me bem com ele. É um homem bom, compreensivo, como qualquer pessoa que não seja imbecil. Falámos longamente sobre literatura. E fiquei surpreendido com o meu próprio à vontade; perdera os meus habituais sentimentos de compaixão e de superioridade. Compreendi a determinada altura, quando estávamos os dois sós, que ele gostaria de me falar de Laura; sabia que ele se preocupava, mas com amizade, com a nossa relação de casal; porém, e lamentavelmente, Laura chegara entretanto, e o tema da conversa mudou.

Se algum dia nos casarmos, irei pedir conselhos a Simon. Deve saber imensas coisas que eu ignoro a respeito do mundo dos cegos; além do mais, deve saber se é possível que ela e eu continuemos juntos. Conseguimos ser felizes durante vinte e três dias; talvez devamos esperar mais ainda ...

*

— Volta-te e contempla.

Rodo na cadeira. Está de pé no meio da sala, de óculos escuros e bengala branca na mão. Fico sem responder, um tanto abalado, nunca a vi assim. Mas tenho de dizer qualquer coisa.

— Não sabia que tinhas um equipamento completo ...

— A Edith queria que eu tivesse um cão treinado especialmente. Eu é que não sabia onde é que o havia de guardar — concluiu, rindo.

— Usas alguma vez a bengala?

— Quando saio sozinha. Mas é muito raro. Há três anos levava-a sempre. Nessa altura, usavam-se as saias curtas, e uma vez que eu ia na rua houve uma mulher que me disse: Quando uma pessoa é cega, veste-se com decência. Sempre que ando com esta vara na mão, tenho a sensação de que ela me impõe um determinado comportamento ... Não sei explicar bem ... as pessoas esperam que tenhamos um ar grave e sério, de outra maneira sentem-se chocadas; um cego que ri parece-lhes um cego falso.

Perguntei a mim próprio por que razão ela quisera mostrar-se com os atributos característicos do seu estado; seria acaso para me convencer de que era cega antes de ser mulher?

Tacteou-me o braço e prolongou o movimento, passando-me ao de leve a mão pela cara.

— São dez e meia, e ainda de pijama e por barbear; decididamente, você é um mandrião, Bernier, um indivíduo sem iniciativa.

Senti os seus dedos pousarem-me na testa e depois nas pálpebras. Senti-os passarem por mais de uma vez sobre os meus olhos, até que, subitamente, rebentou. Rompeu a soluçar, como uma tela demasiado esticada trespassada por um sabre. Agora, Laura é tão-só uma mulher a chorar, enrolada sobre si própria no tapete, e não sei  que fazer para a acalmar, para deter aquele súbito arremesso de infortúnio ...

— Sossega, Laura ... Então?

A pouco e pouco, acalmou, sacudida ainda por longos estremecimentos, como as derradeiras vagas de um sismo que se afastasse. Com a cabeça recolhida na dobra do meu braço, diz:

— Não ligues, isto às vezes acontece-me.

— Mas porquê este desespero?

Responde com voz segura e pressinto que o que me vai dizer é importante para ambos:

— Sempre me mostrei alegre até hoje, mas não queria que pensasses que isso nunca me custou e que sempre fui alegre. Sempre procurei dar-te o mais possível a sensação de encarar a minha doença como um pormenor sem importância e que se pode superar. Mas deixa-me dizer-te uma verdade, Jacques: nunca se consegue superar uma coisa destas. Ouviste? Nunca!

Gritou-me a última palavra e eu limito-me a ficar perante ela, perturbado e inútil. Agora, fala com voz sumida:

— Trabalho, brinco contigo, faço amor, rio, mas há uma coisa que nunca esqueço em momento algum: há quatro anos ... eu ainda via.

Quando me olhei ao espelho, estava mais branco do que um lençol. No espaço de um segundo, perguntei-me se tudo aquilo não fora, desde o início, uma enorme mentira; ela fingira que ria, que gostava de mim, que era feliz.

— Perguntaste-me no outro dia se queria casar contigo — continuou. — Devo pelo menos avisar-te muito honestamente que a Laura não é uma menina brincalhona e cega e que pouco se rala com isso; não há nenhum cego que não se importe de ser cego.

— Mas ...

— Deixa-me continuar. A Laura é uma mulher que morre de dor e de raiva a maior parte do tempo da sua vida e que no tempo que sobra consegue dar a impressão de ter encontrado um certo equilíbrio. Vou confessar-te uma coisa, Jacques: quando, em Ostende, fui tomar banho pela segunda vez, naquela manhã em que me sentia plenamente feliz, pois bem nessa altura pensei em nadar para muito longe e deixar-me afogar. No entanto, eu amo-te ...

Sacudiu a cabeça, porventura incapaz de traduzir em palavras aquela chapa impenetrável que se interpusera irremediavelmente entre ela e o mundo.

— Maxime, mais do que ninguém, reflectiu no seu problema e achou a solução: cortou todas as pontes com os homens que podem gozar da luz. Nada mais tem a ver com eles. Considerei durante muito tempo a sua atitude extremista; mas interrogo-me por vezes se ele não terá realmente razão.

Acendi um cigarro. Tremiam-me os dedos, amarelos de nicotina. Devia esforçar-me seriamente por fumar menos.

Sentou-se, o queixo apoiado nos joelhos, os braços em torno das pernas, o rosto ainda sulcado de lágrimas.

— Não dizes nada ...

— Creio que é bastante difícil dizer uma única palavra a partir do momento em que começas a falar.

Ao canto dos lábios começou a esboçar-se como que um sorriso. Era bom sinal. De repente, porém, tive medo; tornara-se já um hábito encarar sempre todas as situações jocosamente, e agora, de súbito, era necessário explicarmo-nos. Por fim, consegui articular com esforço: — Imagina que sempre desconfiei que ser cego não era nada divertido. Vivemos juntos durante um mês e pareceu-me que poderíamos ir mais longe. Propus-te que nos casássemos porque continuo a ser bastante tradicionalista, mas se achares que não vale a pena, a coisa não é grave; aliás, era da maneira que não tinha de comprar um fato nem de convidar o reitor ... Só queria dizer-te isto: não sei se é possível que um visual e uma cega sejam realmente felizes. O que me parece possível é que Laura Bérien e Jacques Bernier o sejam.

Laura encolhe os ombros.

— Tens decididamente vocação de enfermeiro ...

Grito-lhe:

— Disseste-me o que tinhas na cabeça, não pretendas examinar o que tenho na minha!

— Não grites, que a vizinha do primeiro andar vai a passar na escada.

— Não julgues que me calas, Laura. Hei-de dizer tudo o que tenho para te dizer.

Ajoelhei-me à frente dela, tomei-lhe o rosto nas mãos e falei durante muito tempo. Foi um discurso interminável, como na distribuição dos prémios.

— E, além do mais, estou a ficar velho, estou farto de viver sozinho, de me alimentar de ovos estrelados e de acumular todas as semanas um monte de louça suja; se te perguntei se querias casar comigo, foi porque me apeteceu, mais nada. Apetece-me casar contigo. Escusas de ir mais longe; se me disseres que sim, fico contente; se me disseres que não, olha ... merda!

Riu com ternura.

— Mas não te vais atirar ao Sena?

Rio também e ergo a mão direita:

— Juro que não.

Ficou pensativa por instantes e pousou levemente a mão no meu braço.

— Temos pouco tempo antes da minha partida ...

O meu relógio marcava meio-dia e meia; amanhã por esta hora partimos para o aeroporto.

— Temos vinte e quatro horas, Laura. Uma eternidade.

*

Este tipo alto, de boné, mesmo à minha frente, dificulta-me a vista, não me permite ver a curva.

— Pronto, lá vêm eles!

Avisto ao longe, por detrás da sebe, batidas pelo sol, as cores garridas das blusas dos jockeys. Laura enterra os dedos na manga do meu casaco. O tropel do galope aproxima-se, Laura impacienta-se.

— Estás a vê-lo? Avisto-o precisamente nessa altura; o jockey vai de pé, sobre o cavalo, a cabeça mais baixa do que as nádegas, fustigando constantemente a montada.

— Vai em,terceiro e está a ganhar terreno, vai ultrapassar, ultrapassou e continua a ganhar vantagem!

Quando passam por nós, voam pedaços de relva e a terra treme.

— Vai ganhar? — grita Laura.

Inclino-me para a frente o mais que posso, em equilíbrio instável, prestes a cair.

— E vai mesmo, vai mesmo, é ele!

Agarro-me a ela, que rompe a rir, encantada; os cavalos afastam-se, sempre a galope. Não vamos ganhar nenhuma fortuna, mas de qualquer maneira a perspectiva é agradável.

Entretanto, o tipo alto, de boné, voltou-se para trás:

— Não comecem já a deitar foguetes que ainda falta uma volta.

É um autêntico balde de água fria. Laura pergunta:

— Acha que o 6 tem alguma hipótese?

O homem olha para ela, a seguir para mim, e os seus olhos reflectem um misto de espanto e de riso.

— O 6? É uma mula velha! Apostaram naquilo?

Não vale a pena tentar impressioná-lo. Tem todo o aspecto de quem nasceu numa cabina de apostas mútuas. Com toda a deferência que qualquer amador deve a um profissional, confesso:

— Temos apostado no 6 desde o princípio.

Sacode a cabeça com uma compaixão infinita:

— Vêm muitas vezes às corridas?

Laura confidencia humildemente:

— Nunca. É a primeira vez.

Ponho-me em bicos de pés.

— Atenção! Aí vêm eles!

Sem uma palavra, o homem do boné passa-me o binóculo.

— Então a nossa mula? — pergunta Laura.

Onde é que se enfiou o diabo do 6? Percorro o pelotão de ponta a ponta e não consigo descobri-lo. Não pode ser, Deus meu! Lá longe, muito ao fundo, avisto uma pileca em apuros, cujo jockey parece remar desesperadamente contra a corrente. Reconheço-o pela blusa verde-maçã: é ele. Devolvo o binóculo.

— Traz meia volta de atraso — digo a Laura. — Mais parece que avança às arrecuas.

Rasga os talões melancolicamente e murmura:

— Cansou-se logo à partida e ficou sem reservas.

O habitué interrompe com ar trocista:

— Nem que andasse sempre a trote, havia de chegar ao fim estourado: tem asma. Pergunte a um jockey qualquer: quando ele tosse em Auteuil, ouvem-no em Chantilly.

Laura ri.

— E nós, que nunca apostamos, logo havíamos de ter escolhido um asmático. Não tem nenhum palpite para a próxima?

— Os senhores façam o que quiserem, mas, cá para mim, não há como o 7 para ganhar.

— Obrigada — diz Laura.

Dirige-me um olhar suplicante.

— Vamos apostar só mais esta.

Repreendo-a com severidade:

— Eu sabia que havias de conduzir-me à ruína; deixas-te dominar pelo vício do jogo e hás-de passar a vida a incitar-me a roubar e a matar para satisfazer as tuas vis necessidades. Quantos banqueiros não se suicidaram já, depois de os teres reduzido à miséria?

— Deixa experimentar o 7 só uma vez ... Não ouviste o que ele disse?

— Não tentes seduzir-me. Anda, que eu pago-te uma imperial.

Havia pouca gente no bar. Instalei Laura à frente de um copo e fui apostar no 7 para a quarta corrida, no 8 para a quinta e no 9 para a sexta. E fica feita a festa.

A cerveja está fresca e espumosa; está-se bem aqui. O tempo está magnífico e ainda só são quatro horas. Mas é melhor não olhar para o relógio. Nesta tarde de Verão, paira no ar um leve aroma a relva e a prados. Foi engraçado como decidimos ir às corridas de cavalos. Apeteceu-lhe estar no meio da relva, que não é fácil de encontrar em Paris. Sugeri o Bosque de Vincennes e quando passámos pelo hipódromo resolvemos entrar.

O sinal da partida acaba de soar e arrancam. O nervoso apossa-se de mim. Os altifalantes anunciaram a vitória do 12. Laura ficou desesperada.

— Pronto, deixa lá, vamos embora. Não temos sorte no jogo.

Mas a decisão contrariava as minhas expectativas. Foi um pouco confundido que confessei:

— Espera mais um bocado. Apostei nas duas próximas corridas.

— E atreves-te a insinuar que eu é que tenho o vício do jogo? Apostaste em quem?

— No Belle Fontaine e no Tanagra.

O seu rosto iluminou-se.

— Sendo assim, a coisa é diferente. Pressinto que um dos dois vai ganhar.

*

Na luz velada, ao som lânguido do piano, o baterista passeia as varetas metálicas pela superfície dos timbales. Dançamos pouco, slows apeñas, o único ritmo que sei dançar. Sentimo-nos ainda abalados pela grande emoção daquela tarde: a vitória do Tanagra. Consequentemente, decidimos gastar toda a nossa fortuna numa noite, numa boîte sumptuosa, com champanhe, ao som do slow. O slow acabou e conduzo Laura para a nossa mesa. Tenho de olhar para ela, de gravar o seu rosto na minha memória. É absolutamente necessário evitar um pensamento: amanhã, não voltarei a vê-la.

— Queres champanhe?

— Sim, se fazes favor.

Pouco a pouco, o silêncio instala-se entre nós dois. Porquê esconder que já não estás verdadeiramente aqui comigo, que isto não passa de um adiamento? Um solo de piano. Laura ouve, o queixo apoiado na mão. Esta noite sinto-me incapaz de a descrever, tal a sua beleza. Para quê, aliás, se vai deixar-me Duas violas vieram juntar-se ao piano. Não é um slow, mas é um ritmo que talvez eu consiga dançar.

— A senhora dança?

Sorri e levanta-se. Deslizamos pela pista.

— Não te afastes tanto.

É verdade, tenho o costume de conduzir o meu par como se existisse entre nós um muro imaginário. Sinto o calor do seu corpo, o seu perfume. Não, não é possível que aquilo seja o fim.

Levantou a cabeça como se tivesse adivinhado que eu ia falar.

Disse apenas: — Parece-me que não vou ficar em Nova Iorque.

Na pista, espaçosa, onde apenas rodopiava um número reduzido de pares, algo de inacreditável aconteceu: pus-me a dançar a valsa sem nunca a ter aprendido. Rodopiámos pelo menos quinze vezes, a toda a velocidade, e parámos cambaleantes sob o efeito do cansaço, do champanhe ... deixei-me cair na cadeira, com um nó na garganta.

Era o nosso último dia, mas era talvez também o meu dia de sorte: Tanagra ganhara e Laura voltaria.

*

"Os passageiros com destino ... os passageiros ... com destino ... a Teerão ... queiram dirigir-se ... às portas de embarque ..." A voz ecoa no hall do aeroporto como nas vertentes de uma montanha. Seguro Laura para dar passagem a um carrinho com bagagem.

— Importas-te de esperar aqui enquanto vou registar o teu bilhete?

A hospedeira percorre com uma unha descomunal a lista dos passageiros para Nice. Inutiliza um talão, entrega-me dois cartões para apresentar sucessivamente ... Não a deixo completar as explicações e arrisco: — Esta senhora é cega. Seria possível ...

Com uma expressão inalterável, responde com uma voz átona: — Não há problema; a minha colega de assistência aos passageiros encarrega-se dela durante toda a viagem.

Ao ouvi-la, tenho a impressão de que a Air Inter só transporta cegos.

Pega no telefone:

— Está? Uma passageira cega no voo 214 para Nice. Obrigada.

Vou ter com Laura. Quando lhe coloco a minha mão sobre o joelho, sorri. Traz num dos dedos o anel que lhe ofereci e entretém-se a brincar com as hastes dos óculos escuros. Não sei que dizer e é difícil suportar o silêncio.

— Que é que tu vais fazer no resto das férias, Jacques?

É verdade, foi pormenor em que nem sequer pensara. Seis intermináveis semanas ... Nunca seria capaz de voltar a Menton, de passar em frente do Casino, de ver a Vila Caprizzi com as persianas corridas, de vadiar constantemente de um lado para o outro. Não. E nem sequer me apetece guiar, tanto mais que a bateria há-de acabar por falhar.

— Não sei ... Vou ficar mais uns dias em Paris. Dou uns passeios a pé, vou até aos museus ... Olha, e vou visitar o Simon.

Sinto-a tensa e triste. Baixou a cabeça e não pára de abrir e fechar as hastes dos óculos.

— Nunca gostei de partir — disse ela.

— Já vi uma quantidade de filmes em que ela tem de tomar um avião, como tu, enquanto o galã volta para o carro sob o peso da saudade; depois, vê-se ela a começar a subir a escada e, de repente dar meia volta e desatar a correr pelo meio da multidão. Chega junto do automóvel no momento exacto em que ele vai a ligar o  motor, abre a porta e cai-lhe nos braços. Na última imagem vê-se o carro a afastar-se; ela leva a cabeça encostada no ombro dele e correm-lhe pelo rosto lágrimas de felicidade.

Ri-se.

— É no mesmo filme em que a cega recupera a vista?

— É, pois. Começo a desconfiar que só me lembro de filmes idiotas.

Porque não lhe pedi para ficar? No entanto, teria sido bastante fácil dizer-lhe que não suportava aquela história de Nova Iorque, que a amava e que não estava disposto a sofrer. Nunca consegui impor a minha vontade a ninguém, e não iria certamente começar por ela; e, no entanto, era talvez o que devia ter feito. Devia ter sido mais honesto, não me arvorar em intelectual de ideias largas, que compreende que ela se vá embora por razões profissionais ... Se não tivesse sido tão cobarde, não estaríamos nesta manhã no Aeroporto de Orly, esmagados por este pesado silêncio.

— Fazes tenção de me escrever?

— Efectivamente, faço — respondeu.

— Pois bem, eu tenciono responder-te, embora se me ponha um problema que é inútil explicar-te.

Leva os dedos à minha cara.

— A Edith lê-me as tuas cartas. Não tenho segredos para ela. Mesmo que te apeteça escrever páginas das mais eróticas, podes fazê-lo.

— Combinado. No fim, acrescento umas palavrinhas para ela.

Ainda faltam vinte minutos.

Nos sofás à nossa frente instalou-se uma família indiana; um dos garotos balouça as pernas com um movimento regular, como se contasse os segundos.

— Se ... se voltares, voltas quando?

— Em princípio, o estágio é de três meses.

Agosto, Setembro, Outubro. É possível que já cá esteja nos primeiros dias de Novembro. Pelo Outono. É uma estação bela, em Paris; iremos passar os fins-de-semana para a floresta, numa daquelas estalagens rústicas com as traves do tecto a descoberto ... Quantas coisas há que não chegámos a fazer!

Aquele garoto irrita-me, não pára de bater com os calcanhares no suporte metálico do assento, como um autêntico metrónomo de carne e osso, desfiando o rosário dos segundos. Resta-nos pouco tempo ... Laura tem um sobressalto.

— Não tenho cigarros.

— Deixa-te ficar aqui. Eu vou comprar.

— Não, espera, eu vou contigo.

E se ela não quisesse partir? Se não suportasse a separação? Porque há-de ela insistir em ir comigo comprar tabaco?

— Dê-me dois maços de Gauloises.

Meto-lhe um dos maços no bolso do blusão; abre imediatamente o outro, mas rasga mal a embalagem, coisa que não lhe acontece habitualmente. O sinal que antecede as chamadas soou sobre as nossas cabeças e senti rasgar-se-me o coração.

— A Air Inter anuncia a partida do voo 214 para Nice, porta de embarque número 7.

É assim que as coisas acabam. Voltamos para a sala de espera. O garoto continua a marcar o compasso com os pés.

— É escusado correr — diz Laura — chamam sempre com imensa antecedência.

Os meus dedos crispam-se no ombro dela.

— Na verdade, Laura, eu ... enfim, creio que não te disse muitas vezes que gostava de ti, mas não queria que concluísses que não gosto ou que não gosto muito.

Pôs subitamente os óculos, como se tivesse sido ofuscada por uma luz muito intensa.

— Ainda gostava de saber se a protagonista do filme não fez bem em voltar para trás.

— Mlle Laura Bérien?

É a hospedeira. Deve ter reparado nos óculos.

— Sou eu.

— Estou encarregada de velar pela sua segurança e o seu conforto; não hesite em chamar-me sempre que tiver necessidade seja do que for; acompanho-a durante toda a viagem.

— Obrigada.

A hospedeira lança-me um olhar rápido e inquiridor.

— Venho buscá-la daqui a alguns minutos. Não se importa de me dar o seu cartão de embarque?

Ficamos sós.

— É assim.

— Pois é, é assim.

— É assim, de facto.

Rimos os dois. Nunca como naquela altura reparei como os dentes dela eram brancos; descubro-lhe também umas rugas subtis ao canto dos olhos.

— Vais-te já embora?

— Não, quero certificar-me de que embarcaste realmente e depois digo-te adeus com o lenço.

Vê a hospedeira voltar, com o seu andar rápido e decidido.

— Aí vem o teu guarda-costas.

— Podíamos beijar-nos — disse Laura.

— Era também essa a minha intenção.

Tinha os lábios frescos, com um gosto a framboesa, levemente açucarado. A hospedeira pousou a mão na manga do blusão de camurça. Entretanto, o grosso dos passageiros precipitou-se para um pequeno autocarro estacionado junto à porta.

— Adeus, Laura.

Acenou-me com a mão livre e a hospedeira levou-a, conversando muito atenciosamente, enquanto Laura se mantinha silenciosa.

Até que desapareceram.

Considerei inútil permanecer ali mais tempo. Não sabia qual era o avião que a transportava e queria poupar-me ao ridículo de seguir a descolagem de um aparelho, seguindo ela noutro. O céu estava fabulosamente azul, o tempo não iria certamente prejudicar o voo; apenas havia a temer alguma avaria mecânica ou um desvio para Cuba.

Consegui finalmente dar meia volta e atravessar o hall do aeroporto. O garoto continuava em frente dos sofás onde nos sentáramos, mas as pernas pendiam-lhe, inertes como os ponteiros de um relógio parado. Levei a mão ao bolso e encontrei o envelope que lá deixara esquecido desde manhã. É uma carta de Anne. E engraçado que a tenha recebido precisamente hoje, como se, com a partida de Laura, a minha filha voltasse a entrar em cena.

Devo ser um pai desnaturado, porque ainda não a li; mas a partir de agora tenho imenso tempo e não me apetece voltar para casa; aliás, não há meio de me decidir a abandonar o edifício do aeroporto, como se, ao passar a porta, cortasse a última ponte que me ligava a Laura.

Instalei-me num dos sofás e desdobrei as folhas. É uma carta extensa, muito embora Anne, sendo conversadora, deteste escrever. Tem passado bem, já tem dois programas em vista para a televisão quando voltar de férias, e Frédéric tem sido um óptimo companheiro, continuam a entender-se lindamente.

Actualmente, estamos os dois sós. Max foi o último do grupo a ir embora. Estou convencida de que eles devem tê-lo assustado um pouco quando cá chegou e sinto-me de certo modo responsável pelo que lhe aconteceu depois disso; às vezes, pergunto se, em parte, o pai não foi com a Laura para fugir à confusão do nosso grupo.

Não sejas pateta, Anne; nada teria podido impedir-me de partir com Laura. Posso confessar-te que, se me tivesses pedido para ficar, nunca o teria feito ... Mesmo que aquela garotita de antigamente tivesse corrido para mim sacudindo os caracóis e me tivesse implorado que não partisse, mesmo assim far-me-ia à estrada. Nunca houve nada na minha vida com que se pudesse fazer um romance, minha querida Anne, ou talvez nem sequer se lhe pudesse chamar vida; não podia deixar de experimentar ... E não me queiras mal se acaso te impus algum sacrifício.

Sei que é um professor honrado, cheio de bom senso, e compreendo perfeitamente que possa julgar que tenho ciúmes; mas a questão é mais grave do que isso e desde o princípio que hesito em dizer-lho. Troquei impressões a seu respeito com um amigo que é psicólogo e se especializou neste tipo de problemas; ele disse-me que a vida com um diminuído se torna difícil, tanto sob o ponto de vista psicológico como nervoso, e tenho medo de que não se adapte, que não seja feliz ... Far-me-ia pena vê-lo triste quando nos voltarmos a encontrar para saborear um cuscuz.

Ponderei já todos esses factores, Anne, e tenho duas respostas a dar-te. A primeira basta: gosto de Laura. Há ainda outra, mais egoísta: é a minha última oportunidade de amar. Estou a ficar velho e não terei mais nenhuma depois desta ... Depois de Laura, se ela não voltar, não haverá mais nada para além dos pontos a corrigir, dos amigos, da reforma. Encontrar-me-ei velho e só, e não estou disposto a isso. Por isso te peço, Anne, que me deixes viver o meu último amor.

Frédéric diz-me que não tenho nada a ver com isso e não deixa de ter razão, embora eu também a tenha, pois apenas pretendo evitar uma desgraça, vê-lo feliz. Entretanto, apenas posso dizer-lhe:
Tenha cautela, pai, não se despiste.
Beijinhos
Anne

Silenciosamente, um avião desliza como uma mosca de diamante do lado de lá do vidro.

Vou responder-lhe esta noite. Com uma longa carta.

Laura partiu e subitamente tenho medo de não ser capaz de recordar as suas feições como um autêntico imbecil, não fiquei com uma única fotografia dela. Talvez seja melhor assim, aliás; sendo as fotografias um privilégio dos que vêem, desta maneira ficamos em pé de igualdade, ver-nos-emos apenas através dos olhos da memória, até ao seu regresso.

Saí. O sol batia a pino no parque de estacionamento. A chaparia do automóvel escaldava. Abri as janelas.

Há-de voltar, disse-me que voltava, tenho de acreditar.

Mas é possível que a sua vida por lá apague muitas recordações; três semanas de vida na América devem bastar para que Jacques Bernier, o insignificante professor das férias, desapareça. Além de que talvez se apaixone pelo seu trabalho. Tudo isto pode adiar um regresso, quiçá impedi-lo definitivamente ...

Mal arranquei, apareceu-me um 404 pela frente, que travou a fundo. O condutor desculpou-se com um gesto e deixou-me passar, sorridente. Um autêntico milagre! Era a primeira vez que aquela raça de assassinos se comportava humanamente ... Logo a seguir, ultrapassei três camiões, buzinando alegremente, e liguei a telefonia no máximo; tinha a estrada livre à minha frente.

Tudo aquilo nada significava, mas soube então que havias de voltar, meu amor. Meu amor cego.

 

FIM

 

PATRICK CAUVIN
[1932-2010]
Com os seus blue-jeans, a sua camisa de xadrez, o seu sorriso descontraído, Patrick Cauvin, pseudónimo de Claude Klotz, assemelha-se mais a um cowboy quadragenário que ao professor de Francês que foi durante quinze anos. Mas há os óculos, esses malditos óculos que o impediram de obedecer à sua verdadeira vocação de futebolista. A seus olhos, os sucessos literários jamais valerão a glória de fazer parte da equipa de França. E, não obstante, constatem os números. Quando assina Patrick Cauvin, os seus romances, traduzidos numa quinzena de línguas, vendem-se por milhões de exemplares. Basta lê-los para compreender porquê.
Cada uma das suas obras Amor Cego, Monsieur Papa, E=mc2, Mon amour, Pourquoi pas nous? Irradia ironia e calor humano. Quando Cauvin se cansa de sorrir, Klotz empunha a pena para escrever romances policiais realistas e brutais ou de ficção científica, que constituem actualmente uma vintena de volumes, cujo último publicado, Darakan, alcançou um sucesso que quase se equipara ao dos seus romances de amor. Este escritor prolífico vive em Montmartre, num quinto andar sem elevador (o que me permite manter a forma", segundo diz), com a sua mulher e os seus dois filhos. Longe de se deitar sobre os louros alcançados, trabalha afincadamente, de preferência de manhã. A tarde é reservada ao cinema, que constitui, por vezes, para ele uma fonte de inspiração. De natureza ansiosa, sente-se solidário com os hesitantes, os timoratos, os tímidos. O seu sonho é possuir um dia uma casa com jardim - para poder adquirir um cão ou um gato - e nela se instalar com a sua família, pois a sua felicidade depende de quantos o rodeiam.

 

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L'Amour aveugle par Cauvin

AMOR CEGO - Patrick Cauvin
=texto integral=
título original: L'AMOUR AVEUGLE
1.ª edição: 1982
Livre de Poche, Librairie Générale Française

 


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[12.Set.2013]
Publicado por MJA