
A alegria na cegueira
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Francis Picabia, 1947
Nazaré, 16 de Maio de 1946 É uma história triste, mas eu conto-a, porque uma história triste agrada sempre. No seu sentido mais profundo, a vida é bela e alegre. Todos nós tivemos já a experiência disso
milhares de vezes. Provas sobre provas de que não há primavera sem flores, nem Outono sem frutos. Mas, apegados como estamos à aparência de tudo, esquecemos a
voz do profundo, e ouvimos deliciados o som da superfície. Temos o vício da tristeza.
Eu fui à Falca exatamente porque a vida é bela e alegre. Caminhar sobre dunas, ao nascer do sol, por entre pinheiros floridos, a ouvir o mar, é bem a felicidade. É bem ter a consciência
protoplásmica de que viver é uma graça da natureza. Mas o hábito pode muito. Mal vi a cega, perdi a alegria. Que importavam dois olhos a mais ou a menos na
luz universal da manhã? Comovi-me, contudo. E esqueci o bálsamo que pisava, os pinheiros acesos como candelabros, o tombo das ondas, e pus-me a falar com a
escuridão. Tinha visto a mulher de longe, sentada na soleira da porta, com a costura no regaço, a passar a mão pela cabeça de uma criança. Era o velho
quadro da ternura materna, mas havia no gesto o tacto de uma suavidade particular. Aproximei-me, então. E só quando cheguei mesmo ao pé dos dois olhos
baços, é que alguém disse dramaticamente: ― É cega!
A Falca são quatro casas sobre a duna. Há nove pessoas e um burro. ― Mas cose... ― argumentei eu, incrédulo. ― Remenda, ponteia, prega
botões, vai à fonte, cozinha... ― E não cai, não se magoa? ― Agora caio! E, se cair, a
areia é mole... A heroína da minha história triste entrava no palco a sorrir. A vida é, de facto, alegre. Eu é que estava,
estupidamente, cada vez mais comovido. ― É seu filho, este miúdo? ― perguntei a medo. ― É, sim. E ainda tenho mais dois... O burro orneou no meio das camarneiras. ― Cegou depois de os ter? ― Não, meu senhor. Foi antes,
logo depois de casar. Nunca vi nenhum... O pequenito era loiro; a mãe morena. ― Deve ser triste... ―
arrisquei, cruelmente. ― Se é! Mas a gente acostuma-se a tudo. Há dias que nem me lembro. A vida sempre a puxar para o lado
bom, e eu sempre a puxar para o lado mau. ― Não faz ideia nenhuma da cara deles? ― Só pelo que me dizem... A mão acarinhava a cabecita com
mais ternura. Os dedos pareciam olhos da noite. ― E gosta de viver mesmo assim? ― Essa agora! Quem é que não
gosta de viver?! ― Cega... ― Tudo é vida. É pena, mas paciência. Antes eu nunca tivesse visto a luz do dia. Não sabia o que era,
pronto. Não disse que antes nunca tivesse tido os filhos. ― E como é que havia de namorar
o seu marido, se não visse? ― Também é verdade... Mas ele cá viria. Olha os homens! ― Talvez a não quisesse... ― Queria, queria! O principal
estava cá... Riu-se da brejeirice. Eu é que fiquei sério como um pau. A minha imaginação melancólica não se resignava. ― Também deve ter mágoa de o não
ver agora, mudado pelos anos... ― Isso não. Tenho-o sempre novo, que é melhor... Era escusado. A minha mazombice não
se pegava. ― Então, adeus! E fique sabendo que o seu filho é bem bonito... ― Parece que sim. E os irmãos
também. Andam à lenha... Este é o mais pequenino. E já cá trago outro... O sol ia alto, e o dia estava
cada vez mais alegre. Mas quê!? A gente gosta da tristeza...
FIM
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Miguel Torga
12.08.1907 — 17.01.1995
in «Diário» III - 16 Maio de 1946
[ 17.Jan.2013]
Publicado por
MJA
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