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SOBRE A DEFICIÊNCIA VISUAL


Mar Santo

Branquinho da Fonseca

-excerto-

Um cego - Federico Barocci [1528-1612]
Um cego - Federico Barocci [1528-1612]

 

- 'Tàs com pressa?

- Eu cá não. Ti Georgina...

- Atão nã fujas, que nã te cai a casa em cima...

E, aproximando-se, continuou, baixando a voz:

- Olha cá, Maria: achas bem o q'a'nha filha tem andado a fazer?...

- Qu'é qu'ela fez? - perguntou Maria Bragaia, olhando-a de frente e fingindo-se surpreendida.

- Nem me fala uma palavra; vai comer à tu'casa...

- Ah, Ti Georgina!... 'Tá a mangar!...

- ...Ou'eu que fui à bruxa, e q'à porta da Crestina do Oréga 'tava uma panela com nã sê quê lá dentro, que só se fui eu q'a lá mande dêxar... Atão eu nã sê bem q'a Inês nã pensa naquele home? E nem qu'eu acarditasse im bruxas andava co'esses trabalhos!... Por causa dessa mulher 'tá o mê home cego, e já chega. Sê q'a'nhã filha é uma rapariga de juízo e nunca olhou pra esse 'esgraçado do filho dela...

- Pois é mesmo verdade que nã olha... E eu já lhe ralhê que nã desse fé a tudo q'anto lhe metem nos ouvidos.

Georgina, mais conhecida pelo nome de solteira - a Maralha -, era uma mulher de cinquenta anos, de estatura meã, seca de carnes, os cabelos já brancos, e o olhar duma vivacidade penetrante. Poisou a mão no braço da Maria Bragaia e sibilou num tom surdo:

- Ah, Maria! Antes a qu'ria ver cair do Bico do Milagre!

- 'Teja aí sossegada. Ti Georgina!... Nã há nada...

- Entra aqui pra dentro... - acrescentou numa intimidade de confidência, puxando-lhe pela mão.

Entrou, contrafeita.

- Bom dia, Ti Mariana...

A velha Fainó abanava ao fogareiro; compôs o lenço atado debaixo do queixo e voltou-se:

- És a Bragaiazinha?... 'Tás boazinha, mê amor?...

Com o passo arrastado, caminhou para ela e parou a olhá-la.

- 'Tás uma flor... Já me tiveram a dezer que falas pró Zé Quinzico...

- Oh!... Só faltava essa!... - E deu uma gargalhada.

- Quem é atão?...

- Quem é o quê. Ti Mariana?...

- Nã te queres confessar?... Nã tenho crôa... 'Tá bem...

Georgina Maralha interrompeu:

- Dêxe-nos agora aqui falar, dê lêcença...

- Ora essa!... Nã te chegue aí a sombra...

E voltou ao pé do lume. - Maralha puxou a Bragaia para o outro canto e em segredo:

- Tu, qu'és amiga dela, sabes q'a Inês tem aquele fêtio: s'a gente puxar pra uma banda, ela intesa-se prà oitra... Eu nunca lhe toque nisto nim c'm'à ponta desta unha... No bailhe do Carnaval vi-o andar de largo, a pairar. Verdade seja qu'ela 'teve sempre como se nim o visse... Mas eu fique ca brasa no imbigo. E agora astreve-se a falar-lhe e arma aquele terramote!... Tu nã sabes de que raça é aquela gente: têm pacte c'o demónio prá inrolarem o santo má's sagrado do altar... Olha: eu 'tou-te a falar e a tremer das mãos aos calcanharis... Só me via bem era cem léguas desta terra pra longe!...

- Mas, ah Ti Georgina, nós 'tamos a falar às toneladas... Tudo isto é nã dizer coisa nenhuma... A Inês nã quer nada co'ele. Eu sê bem.

- Qu'é qu'ela te diz?...

- Faz caçoada, como dos outros...

- Pois disso é qu'eu tremo: nenhum lhe serve. E aquele farsola nã sê em que famas o querem, que já ninguém sabe governar um barco senão ele, nim do mundo todo vai outro igual os bancos da Griolanda!... As raparigas, q'ando o vêem, parece que chegou o rei à barra... e andem todas a dezer-lhe: "Aqui me tens!" Sabes o qu'eu ouvi com estes, a umas cachopinhas escondidas atrás dum barco, a falarem dele?... Contava uma a escândola da Luzindra e responde-lhe a outra: "Inda hê-de ser amiga dele!"

- Oh!.

- Fique parva!... Que cataratas é q'aquele home lhes bota nos olhos q'até as crianças e as mulheres casadas?!... Tenho pena é da Matilde Luzindra; e vê lá tu!... O marido dá co'eles e tem mãos pr'arrastar a pobrezinha plos cabelos, mas nã teve uma faca pró atravessar!... E tudo má's q'anto tu sabes e eu!...

- 'Teja 'escansada... Eu sê bem q'a Inês nã pensa nele. Nã mexa má's nisto. Quem anda a olhar pra ela é o Caboz, - Já me disseram. Desse gostava eu, do Caboz, qu'é um rapaz aprumado e tem de seu. Agora um vareiro daqueles, que nã tem onde cair morto... Vê se lh'abres os olhos...

Uma sombra tapou a porta. Voltaram-se de repente e ficaram caladas. Joaquim Fainó, o pai da Inês, tacteou a ombreira e parou. Em sua imobilidade de cego, olhava em frente. O vulto recortado na luz da porta era um gigante que fazia medo.

Estranhando o silêncio que se fizera à sua chegada, ficou parado, e por fim, com a voz pesada e lenta, perguntou:

- Quem é que está aqui?

- Semos nós e a Bragaia. Até ficámos assustadas; nã t'ouvimos os passos...

Tinha os cabelos brancos, a cara de linhas duras, queimada do sol.

Maria Bragaia foi pegar-lhe na mão, carinhosa:

- Atão!?... Ah, Vês!... 'tava na fonte a namorar as raparigas?... Qu'é isso?...

Passou-lhe o braço por cima dos ombros e encostou-a ao peito, num abraço paternal.

- E nã me falaste?...

- Passê de longe... Nim m'ia lá meter!...

- Nunca me contas nada, mas eu já sei...

- Sabe o quê, Ti Jaquim?...

- Enmalhaste o Manel Chalabardo...

- Nã m'arranja coisa melhor?... Nã se fie das línguas dessa gente: q'ando nã têm, inventem... A Ti Mariana a dezer há um minuto qu'era o Quinzico, agora já é o Chalabardo!... 'Tou bem rodeada!... vou-me mas é pôr a fugir, senão saio daqui já casada e cum filho nos braços!... Adeus, Ti Jaquim... Ti Mariana, passe bem; adeus, Ti Georgina!...

- Adeus...

E saiu apressada, a puxar as tamancas, que se enterravam no chão de areia.


***

Enfiaram uma corda no ferro da proa e começaram a puxar, em fila. Os outros desarmavam os remos e saltavam também. Alguns pescadores desciam à praia e aproximavam-se para ajudar. O arrais berrava com um dos da companha, que lhe respondia fazendo gestos e apontando para o mar. E a gente que estava sobre o paredão começou a dispersar; as mulheres sentavam-se no chão, encostadas às paredes das casas; os homens entravam para as tabernas ou iam deitar-se na areia, junto dos barcos. - Dêxem a gente sossegado..."

O Ti Bártolo murmurou, como se falasse sozinho:

- O mar engana Cristo... Andava nesse tempo o Jaquim Fainó no mê barco - era um rapazito: 'tá velho e cego -, quisemos ir dêtar uma rede, cum mar menos de escandelizar do q'a este: veio tudo inrolado, que foi um milagre...

- Nã foi vomecê que deu co Ti Jaquim Fainó no juncal do rio, q'ando ele apanhou o tiro?

- Isso já lá vai...

- Inda onte 'tivemos a falar, por causa da bulha do Oréga. Ah, home!... Ia dêtando o treato abaixo!...

- E nã teve rezão?... - avançou outra voz.

- Tinha que falar prà Inês?... sabendo o que foi passado?

- 'Tou a falar disso?... O Zarro é que não 'tava ali metido pra coisíssima nenhuma... Ou é parente? ou tá pra casar co'ela? ou tem procuração escrita num papel?...

- 'Tá certo...

O velho tornou, a "dar passagem":

- O que lá vai, lá vai... vou é ali sentar-me n'areia que já nã tenho pernas.

- Mas conte lá, Ti Bártolo!...

- Toda a gente sabe, só vocês é que não?...

- Sabemos por longe... Mentirolas que nem odres. Diz um, diz outro: fica tudo às escuras...

- É uma história que já nã tem nada que falar... Pra quê 'tar a mexê nessas coisas passadas?

Desceram a escadinha de quatro degraus e o velho Bártolo sentou-se encostado a um barco, de cara para o Sol. Com as mãos esfregou o pé direito, tosco e cascudo como um pau. Falava devagar:

- Ando co rêmático... Q'ando isso foi inda eu era um valente... Vai pra má's de dez anos... Ia pró rio dêtar os guelrichos... 'Tava um marzão duma maré de lua e por cima uma noite de munta chuva e cruel... Mês dois irmãos q'ando chegarem ó pé do rio puxarem o barco. Eu nã quis ir...

- "Vem." E têmarém. Eu que não... Era o pecado a chamar... Fui caminhando pla borda. O cão ia comigo, mas de repente sumiu-se. Chamei e nada... Ando má's e o animal a chêrar, e era um home estendido. Já me tinha conhecido a voz d'eu chamar o cão e disse-me logo, que fiquei cortado no coração:- "Ah Manel!... que me mataram!" Alevantei-o da lama, 'tava ele de caras no lodo, assim imborcado cos olhos na humedade do chão, alevantei-o e prantei-me a gritar. Mês irmãos julgarem qu'era alguém contra mim e vierem desarvorados... Atão pegámos-lhe plas pernas e outros plos braços e desatámos dali a correr c'm'a cavalos. Eu só lhe disse: - "Ah Jaquim, nã temas. Quiseram alimpar-te a vida, mas Deus é que manda."

Fez uma pausa e ficou esquecido a olhar o mar. Vinha de longe, de entre os barcos varados na praia, um coro que se alongava e terminava de repente:

Váááááá... ao!... Váááááá... ao!...

Eram os de uma campanha agarrados ao barco tão pegado ao chão que só ia "à fala".

Vai agooora!... Vai! Váááááá... ao!

- E atão, Ti Bártolo?...

O velho continuou na sua voz lenta:

- De lá eram dois quelómetros grandes, com munto areal seco, que pra corredelas nã há chão má's trèdor. Éramos três homes cumo três mastros, mas custou-nos a arribar cuma pescaria daquelas... Eu nã sondo na vida dos outros, que basta a minha pra m'empachar o rainel, mas ia a moer q'uma façanha deste bestrum na s'arma sem ventos, venham lá donde vierem... A mim ninguém me faz a auga negra. Q.'ando olho pra ver, hê-de ver mesmo. E ali havia mistero. Foi logo na farmaça a Rosa Véca quem pôs tudo em pratos limpos: eram saias - a Crestina. Quem a vê hoje inda diz o qu'ela foi: uma mulher cumo nã havia nenhuma...

Calou-se, como se a história tivesse acabado, e olhou para longe, com uma expressão vaga e pensativa. Depois acrescentou:

- Podia ter casado bem, todos olhavam pra ela... Mas veio - nim sê donde... - um algarvio qu'entrou pra companha do Toino Facho e apanhou-a... Mas nim tam maciozinho que chegue a seda, nim tam aspro q'arranhe as pedras... A mocinha 'tava por desbolinar, mas ele tanta carga lh'assentou q'a fez velha. Em cada sete dias esfiava-lhe uma boca nos costados... As vezinhas acudiam, tiravam-lha das mãos e alagavam-no de nomes, faziam ali um laberinte e aquilo esborralhava... Era home de bater im mulheres. Depois, c'm'a fez velha, nã na quis. Dêxou-a cum filho nos braços e foi-se pró Algarve, qu'era de lá, um alvitano...

'Tava de ver qu'ela, co alivo, tomou ar e em três marés pôs-se outra vez airosa que nem uma vela: e logo rondadores à porta... Mas nada... Qu'ia pró divorço... Eles eram má's q'as gaivotas à tripa...

O Jaquim Fainó já era casado, mas meteu a mão... Um home nã cabe em sete mulheres e mêa... Hoje 'tá velho e cego, mas era um home frondoso. E pró mar um lião... A mulher dele é que sentia o barco à rola, ca póita n'auga... Até q'alguma santa comadre lhe foi meter as palavras no olvido... Ficou atoada, mas nã tinha tamanho pra s'agachá no archete. - olha quem! a Georgina Maralha!... -, e q'ando ele entra em casa chama-lhe home perdido: - "Ah, home perdido!" E o Jaquim, descansado: - "Home perdido?... Só se 'tá néova..." E lá ciou à ré como pôde, pra dêxar passar aquela escumada de mar bravo...

Até c'a Crestina foi pra casa duma tia dela... ali prà banda da Cela Velha; e como era ao sul do rio, o Jaquim Fainó dá de pescador de guelricho q'até fazia riso. Ah home: um pescador do alto, agora ao guelricho?... Mas calhava certo; a mulher dele já nã se ralava: a outra 'tava longe... Q'as mulheres só acarditam no que vêem ou no que chêrem... E o Jaquim levava os guelrichos e trazia umas enguias machinhas: é que 'teve a pescar... Passou um novelo de tempo - sê lá?... má's de dois anos... - e um belo dia aparece aí outra vez o vagabundo do algarvio. Mas o Jaquim, que nã tinha medo dum mar d'altura do céu, havia de temer-se dum home c'm'a um macaco?! Via-o andar pr'aí. Ele falava com quem lhe falava, dizia qu'ia marticular-se?!... Numa companha de ninguém, que ninguém o qu'ria nim para caldêrêro... E foi-a estudando. Até que naquela noite negra, mete-se no mêo do junco, naqueles juncais do rio má's cerrados q'ó Pinhal do Rei, e q'ando o Jaquim ia a passar a um palmo dele, que 'tava uma noite má's feia e má's fechada q'um porão, dá-lhe o tiro nos olhos E foi até hoje: que levou um sumiço nem q'o mar o comesse. Nunca a justiça deu co'elê... E olha que foi pensado pra nã matar... 'Tava carregado com sal, ou com areia, ou nã sê cum quê, qu'era pra ser mesmo nos olhos, pra dêxar o home pior q'a morto... E andou Cristo na Terra!...

Calou-se. Um dos pescadores perguntou:

- O Oréga é filho do algravio?

- Qu'rias que fosse teu?...

- Podia ser do Ti Jaquim Fainó...

- Sabes o que 'tás aí a dezer?... Q.'ando o Jaquim Fainó começou a andar metido ca Crestina já o Zé Oréga andava aqui a borrar a praia... É filho do algravio mas nã saiu a ele, qu'é um rapaz direito. Saiu à banda da mãe, uma mulher pràs armas, valiosa... Que culpa é qu'ela teve?

- Mas o Oréga pode pensar na Inês?... filha do Ti Jaquim?... Nã pode.

O velho Bártolo olhou o céu, o horizonte onde o mar acabava, e depois de um silêncio disse noutro tom, como se tivesse estado a falar de coisas sem importância:

Ninguém respondeu. O velho Bártolo olhou o céu, depois o horizonte onde o mar acabava, e quebrou o silêncio, dizendo noutro tom, como se tivesse estado a falar de coisas sem importância:

- O quarto da lua é capaz de virar esta noite o tempo e vir bom... 'Tou a ver...

A noite vinha do pinhal e descia pelas encostas dos montes, mas, ao chegar às casas brancas da povoação, parava, diluía-se numa penumbra cinzenta, hesitante, e, recuando, adensava-se ao longe, para as bandas do rio. Sobre o mar uma luminosidade fria ficava pegada à superfície da água, que tinha um colear oleoso, sem ondas.

Na praia deserta e silenciosa, os dois pescadores, sentados dentro do barco, nem tinham reparado que anoitecera. Manuel Chalabardo parecia adormecido, enquanto o Oréga, recostado na concha da proa, mascava na harmónica uma toada monótona.


***

A onda bate na ré, encharca tudo, está salvo! E a companha salta para fora, como se aquelas tábuas fossem explodir, e viram-se uns aos outros numa fúria que começa e acaba com a primeira palavra.

Joaquim Fainó, na sua imobilidade de cego, também estava sobre o paredão, voltado para o mar, como se visse tudo. A seu lado, outro pescador comentava, em frases breves, o que estava a passar-se:

- Desarma o remo e foge prà ré!... O mar nã 'tá assim tão fora de conta...

- Tá rabioso...

- A rede do Seprum matou pêxe d'apartar: dois xalavares. Na Moiteira e no Lance Norte vêm a sair...

Um barco que estava a preparar-se para entrar, desiste. Prendem-lhe a corda ao ferro da proa e puxam pela praia acima.

- O Mirão já nã quer. Lá vai boca arriba.

Mas, mais ao sul, outra companha mete o barco à água: em remadas fortes arrancam, aproveitando um "raso" que os deixa passar. Depois, para lá das ondas, afastam-se num vogar descansado. Param junto de um odre do norte, da rede que está na Moiteira, e amarram-lhe a ponta da corda que tem um seminho de baliza e um ferro que deixam na água. Depois vão ao odre da mão do sul e fazem o mesmo, mas ficam com a corda presa ao barco. E afastam-se; e esperam. Quando a outra rede já vai ser puxada, e podem lançar a deles à água, o arrais faz a "vénia", a invocação da sua fé: - "Vamos, plo Santíssimo Sacramento!», e remam para o sítio do lance. - "Alvora!" Pára. Estão no sinal. Vai o ferro à água e a primeira "mão" da rede, a do Sul. O barco vira todo à direita e começa a fazer a "anca". Os revezeiros, que vão a remar em pé, largam os remos e ajudam o arrais. O revezeiro da banda de terra "vai ao chumbo", deita-o para o mar, o outro dá o pano ao arrais, a rede e as cortiças, que ele vai atirando para a água, às braçadas. Ao lançar a boca da rede, ergue a voz e repete:

- "Vai plo Santíssimo Sacramento!" O homem do revez do lado do mar deita a seguir o saco e faz também a sua invocação, que pode ser por um santo ou por uma mulher: - "Vai pla Inês Fainó!"

- É de pêxe?...

- Vamos ver...

E o barco foi andando, em meia lua, até apanharem o seminho que tinha icado ao norte, com a outra corda. Depois é remar para terra.

A rede fica na água o "tempo da lei". Até que chega a hora. Lá vão primeiro puxar à corda da mão do sul, até os dois odres estarem à mesma distância da terra, sinal de que a rede está direita. Então dividem metade do pessoal para cada corda e cruzam a rede, passando a corda do norte para o lado sul, a "fecharem". E continuam a alar. Só quando os odres já vêm perto a descruzam. Os cerradores, metidos na água até ao joelho, aguentam a rede certa. Mas o mar puxa. A rede não anda, não sai da água. Só "vai à fala". Um comanda: - "Ó salha!... Vai!...

Ôóóó... salha! Ôóóó... salha!..."; e lá vem vindo, atrás daquelas negras filas de condenados, arrastados, chicoteados pela voz que dá esperança: - Ó vai! Ó vai!... Ó vai!...

Na borda é que o mar estronca e agarra mais. Quando a rede chega à mão, é uma corrida: - "Vai!"; e num último arranque o saco está na areia. Traz pouco: quatro xalavares. O arrais tira a navalha e corta o "entralho". Com as grossas varas na mão, as recoveiras, já alguns homens esperam que encham os xalavares para os levarem à venda.

O barco que estava no mar, encalhou. Uma voz de riso:

- Deitei o saco pla Inês Fainó.

- Tamém deitas pla Inês? ah desgraçado! Nã há pêxe que chegue... Contigo já são quatro a rondar-lhe à porta... Mas é do Orega, s'ele quiser...

- Eu?... É só pra me rir. Rondo o quê?...

Mas o outro fez-lhe um sinal. E calaram-se ao repararem no cego, que estava ali a ouvir. Joaquim Fainó, avançou para eles:

- Quem está aí?...

Ninguém... Nem ele nem os outros. Voltou a cara para o mar, como se visse. E ficou a ouvir só o rolar das ondas... mas era ao longe, já muito longe...


*

- Oiço-o no chão da minha casa... dizia a velha Mariana, vestida de luto, naquela voz que vinha do fundo de toda a sua vida, como um eco das tempestades passadas.

"Quando o mar começa a rabujar logo o oiço no chão da minha casa..."

Falava do mar, sem ódio. Tinham lá ficado o pai, o marido e um filho - e já sem medo - outros filhos e netos haviam de lá ficar também. De lá vinha tudo e lá ficava tudo, naquele "mar sagrado".

Joaquim Fainó, sentado ao pé da mesa, parecia olhar o candeeiro, como se a luz ainda lhe atraísse os olhos fechados e cegos. Com o cachimbo esquecido na mão, parecia ter adormecido. Mas a sua voz, fria e apagada por uma distância indefinível, falou serenamente.

A velha Mariana estremeceu, e só depois entendeu o que ele dissera:

- A Inês?...

Experimentou o fecho da janela que o vento abanava com assobios de ameaça, e respondeu:

- Inda nã veio.

- Aonde foi?

- Ao Sito, a casa das Bragaias.

- Nã são horas d'andar na rua.

As palavras caíam secas, como desligadas de tudo. Ouviram o silvo do elevador, grito que cortou a noite e se foi extinguindo num desmaio lento.

- Pode vir neste elevador. Ela saiu com a mãe...

- A mãe... - murmurou o velho numa voz amarga. Fez uma pausa e continuou:

- Vossemecê sabe mais do qu'eu mas nã tem confiança em mim. Olhe qu'eu já tenho idade pra saber o que se deve fazer e o que nã se deve fazer... Vossemecê nã é mais amiga da Inês do qu'eu, que sou pai dela.

- Alma de Deus! Que te escondi eu?... Tu ouves tudo q'anto te dizem!... Vem uma língua envenenada e mete-te nos ouvidos tudo q'anto quer. Extrema o pêxe do limo!... Ah Jaquim, qu'é q'alguém aqui te esconde? Alguma vez viram um home a falar, por um acaso, ca nossa Inês, e largarem fogo à bicha, que rabeou por chãos e paredes moucas, até que te deu no ouvido, e logo deste valor! Ah Jaquim! nã é dum home c'm'a ti, que sabe o que são línguas... A Inês 'tá firme c'm'a rocha. Vai dormir 'escansado.

- 'Escansado, mãe? Ouviram a porta do pátio.

- Aí vêm elas. Vai dormir.

O estalar das tamancas aproximava-se. A porta abriu-se e entrou um furacão que apagou o candeeiro. As duas mulheres ficaram encostadas ao lado de dentro da porta, como se a segurassem contra a ventania. Na escuridão soou a voz seca e sacudida da Georgina Fainó:

- Ora vocês inda nã sabem q'o candeêro nã pode 'tar diante da porta?

- Nã 'tava este vento... - respondeu a velha numa voz tão lenta e calma que teve o valor de um conselho e de um aviso.

- Fomos nós q'o trouzemos... Acenda lá um fosfre!

- Dá tempo, mulher...

- 'Tá aqui alguma coisa no mêo da casa, onde eu parta a cabeça?

- Nã... Podes andar.

A velha Mariana riscou um fósforo, acendeu o candeeiro. Georgina tirou a capa, que ainda tinha pela cabeça, e quebrou o silêncio:

- Já puseram os barcos todos outra vez na Praça; 'tá um mar que chega ó céu.

- Já o ouvi. Vai a Lua toda... - continuou a velha, para dar fio à conversa.

Falava do mar como se falasse de uma pessoa ou de um animal familiar, que ora fosse bom ora se zangasse.

- Vai haver outra vez munta fome.

E agora é tempo do carapau e das redadas de sardinha.

O cego levantou-se, arrastando a cadeira. Dentro da casa de tecto baixo, parecia maior do que já era, com seus ombros largos, os braços caídos. A passos lentos, atravessou a saleta e entrou no quarto, fechando a porta.

- Tamém me vou deitar - disse Inês.

Georgina perguntou à velha:

- Nã vierem cá trazer as canastras?

- Nã...

- Deixem, q'amanhã vou lá eu! Pegara na vassoira e varria o pó que o vento metera por baixo da porta.

- Pois vai. Eu vou-me tamém dêtar - resmungou a velha como se falasse só para si, enquanto acendia a lanterna de petróleo.

Dormia na pequena casa do outro lado do pátio. Puxando a parte de trás da saia e deitando-a por cima da cabeça, à maneira de capa, abriu a porta da rua e saiu sem dizer mais nada. Georgina deu volta à chave, que rangia, da ferrugem.

Quando bateram as nove horas no sino da igreja, era já noite velha e o mar bravo transformara outra vez a povoação numa terra morta e abandonada. A fúria da ventania perdia-se num lamento, pela noite negra. - "O mar, oiço-o no chão da minha casa..."

João Caboz tinha combinado vir à noite falar-lhe à janela. A porta do pátio estaria fechada, mas saltava o muro. Sabia que a mãe de Inês favorecia o casamento; e o cego - era cego.

Ela tinha-lhe dito que quando apagasse o candeeiro era sinal de que podia vir.

O luar iluminava tudo, mas também ajudava quem quisesse esconder-se nas sombras negras como tinta. João Caboz, para que ninguém suspeitasse do rumo que levava, deu uma volta de lobo, por fora da povoação, e desceu a rua estreita, num passo apressado, até à viela que cortava para o areal das traseiras da casa. Aí, parou, encostado ao muro, e esperou. Ninguém. No alto da encosta o sino da igreja bateu as onze.

Uma fila de piteiras subia a encosta; e a sombra das folhas, ainda que de pouco vulto, era ali de boa ajuda para namorados.

Quando se apagou a janela, olhou mais uma vez em volta e desceu o combro de areia. Deitou as mãos à crista do muro e guindou-se. Parou, à escuta. O pátio de areia branca como sal... Se o vissem? E então?!... Era a maneira de pôr já tudo em pratos limpos. Que a Inês não olhava para o Oréga tinha provas, e a mais certa era esta de ter chegado ali com sua ordem. Aproximando-se da janela, disse em voz baixa:

- Parece que 'tou com medo, c'm'um ladrão.

- Pra saíres põe o pé no banco. O meu pai, se souber, nã gosta. Eu disse que viesses, só pra nã dezeres que nã qu'ria...

- A tua mãe disse alguma coisa?

- Põe-te num altar, cum raminho na mão...

- E tu?

- Nã prèguntes, qu'eu digo.

De repente fez-lhe um sinal, que se calasse, e ficou à escuta.

- O meu pai! - exclamou com a voz abafada, fechando a janela.

Caboz deu uns passos, mas ouviu ranger a fechadura e estacou. O vulto do cego surgiu no vão da porta, iluminado pelo luar:

- Quem está aí!

O silêncio da noite pareceu maior. Com receio de fazer barulho, João Caboz deixou-se ficar onde estava. Tinha de passar na frente dele para ir até ao muro. E talvez aqueles olhos baços lhe distinguissem a sombra. Viu-o caminhar na direcção da janela e estender as mãos, como se procurasse alguma coisa. Tocou na vidraça, que já estava fechada. Depois foi tacteando ao longo da parede. E os seus passos não eram hesitantes, como deviam ser os de um cego; eram firmes. Com os braços estendidos para a frente, caminhou contra ele, mas no mesmo instante tornou atrás, atravessando o pátio. Fez um ziguezague até ao banco e voltou ao pé da janela, a passos largos, atirando os braços, a lutar no vazio da noite. E de repente João Caboz viu a Ti Mariana sentada no degrau da porta da cozinha. Estava ali há muito tempo, a ver tudo. Como se um destino oculto fizesse com que ele só agora a visse e ela só agora quisesse entrar na cena, no mesmo instante em que a viu ouviu-lhe a voz:

- Ah, Jaquim!... q'andas aí a fazer? l...

- Onde está ele, minha mãe?... - perguntou, da sombra, a voz do cego, recalcada.

- Ele quem?...

- Mãe!... nunca me mentiu!...

E ficou imóvel, como de pedra. A velha tinha chegado junto do filho e agarrara-lhe as grandes mãos de gigante.

- Mas que tens tu? Foi algum sonho mau... Tira essas idêas da tua frente. Vai-te dêtar, dorme descansado. Valha-te Deus!...

- Pois valha, Mãe... - respondeu num tom amargo, de vencido.

E afastou-se da velha, que ficou sozinha no meio do pátio. Sem olhar para João Caboz, curvada como uma sombra, regressou, num passo arrastado, à porta da cabana donde saíra. E tornou a sentar-se no degrau, murmurando como se rezasse:

- Louvado seja Deus, que nos vê!

Com a Lua nova amainou o mar, e os batéis do alto já podiam afastar-se até aos bons pesqueiros, a muitas milhas da costa. Saíam de madrugada e regressavam ao cair da tarde, com a brisa fresca que tombava as velas.

A praia era uma feira tumultuosa, onde toda a gente vendia ou comprava, dava ou recebia, e até os velhos tinham algum quinhão, por bem ganho em seu tempo.


***

Ao anoitecer, uma a uma, as traineiras da sardinha começaram a fazer-se ao largo. O bater lento dos motores deixava de se ouvir, e viravam o cabo do farol, de proa ao parcel do norte, onde os alcatrazes tinham andado toda a tarde a "malhar", de cabeça à água, nos corsos da sardinha.

A traineira do Joaquim Fainó, com o grande monte da rede bem arrumada contra a guarita do motor, corcho a um lado, retenida a outro, pronta a ser atirada ao mar, chalandra bem peada à ré, largou também. O cego, com os olhos baços, parecia seguir todos os preparativos; dera as suas ordens e conselhos e quando o barco partiu ficou na praia, sozinho, imóvel, a ouvir o ruído do motor que se afastava.

- Pai, são horas da ceia.

- Já vou... Estavas aí?...

- Não. Cheguei agora.

E agarrou-lhe a mão. Começaram a subir pelo declive da praia, calados, num passo lento.

Era um gigante que desafiava as tempestades, todas as que o mar e o céu já tinham descarregado sobre ele e as que ainda lhe estivessem guardadas. Inês segurava-se àquela mão forte, como quem vem de longe, cansada, e se deixa levar. Não precisavam de falar para se compreenderem. Mas ele parou:

- Está aqui alguém?...

- Não...

- Inês, quero dizer-te uma coisa... Não julgues que 'tou atravessado diante de ti: o homem que for da tua vontade pra casares é tamém da minha.

E continuaram a caminhar no mesmo passo vagaroso. Ela, a quem estas palavras ao mesmo tempo não surpreenderam e chocaram, sentiu os olhos embaciarem-se de lágrimas. Depois de um longo silêncio, o pai acrescentou:

- O qu'eu digo é a verdade. Tu sabes. Fazendo um esforço para tornar a voz natural, respondeu:

- Eu sei... pai.

No mar, a escuridão estava picada de luzes dos barcos que andavam a pescar ao candil. Era um arraial de festa.

Ao chegarem diante da porta do pátio, Inês beijou-lhe a mão. E ficaram parados.

A lâmpada que iluminava frouxamente a rua apagava as duas sombras... Mais ninguém...

FIM

 
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Sobre Branquinho da Fonseca:
Se é sobretudo à literatura strictu sensu que o autor deve a sua fama, “[c]ombinando elementos de progénie simbolista com certas experiências surrealistas, o teatro de Branquinho (reunido em 1973 em um volume único) prolonga, na geração presencista o vanguardismo do Orpheu” (REBELLO 1984: 75), sobrepondo “o mundo real e o mundo imaginário, cada um dos quais ao mesmo tempo contém o outro: ‘o sonho é sonhado no vivido’ escreveu Vitorino Nemésio acerca das admiráveis novelas de Branquinho, cujas virtudes essenciais o seu teatro mantém intactas, ainda que em mais reduzida escala” (apud REBELLO 1959: LXIX). A estas qualidades se junta uma habilidade “caracterizada, antes de mais, pelo dom de sugerir a existência de múltiplos planos nas figuras que cria, pela extrema fluência dialogal em que elas se exprimem, pela alternância de transparência e de opacidade nas atmosferas em que se movem [...] Mergulham, com efeito, numa luz de estranheza os seus ambientes e personagens arrancados ao quotidiano; e, em contrapartida, nunca por completo se evadem da realidade as suas sondagens nos domínios do insólito. Devem-se-lhe, por outro lado, como poeta e como dramaturgo, algumas das mais válidas experiências do nosso vanguardismo pós-modernista” (MOURÃO-FERREIRA 1976: 349). Há, na sua obra dramática, um traço transversal a todos os textos: “a temática do homem, essencial, descarnado, nu, em busca das raízes da sua explicação e das vias da sua comunicação” (CRUZ 1965: 76). São também destacados, frequentemente, “três elementos do universo ficcional de Branquinho da Fonseca: o realismo, o lirismo e o grotesco” (FERREIRA 2010: 57). Luiz Francisco Rebello salientou, por sua vez, a brevidade, a concisão e o esquematismo que caracterizam os textos dramáticos de Branquinho da Fonseca e que se manifestam tanto a nível da estrutura como do conteúdo (REBELLO 2010: 218). in instituto-camoes.pt/
 

Mar Santo por António José Branquinho da Fonseca - Portal da Literatura

Título: Mar Santo
-excerto-
Autor: Branquinho da Fonseca.
1952
Portugália Editora
Lisboa, 4ª Edição.
Género: Romance.  

 

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11.Mai.2021
Maria José Alegre