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Jacques Lusseyran, Herói da Resistência (1924-1971)
Este livro reúne três palestras
proferidas por Jacques Lusseyran em 1971: "Un Regard Nouveau sur le Monde",
"L'Aveugle
dans la Société" e "Contre la Pollution du Moi".
Termina com um texto comovente "La
Mort devient la Vie", no qual
Lusseyran descreve a sua experiência da morte no campo de concentração
de Buchenwald em 1945.
Índice
Jacques Lusseyran nasceu em Paris, no dia 19 de
Setembro de 1924. Em sua autobiografia, ele descreve sua infância como feliz e seus pais como ideais. Aos oito anos de idade, ele perde a visão num acidente na escola.
Seus pais, no entanto, resolvem conservá-lo no liceu regular, em vez de mandá-lo a uma escola especial para cegos. Em seis semanas aprende a ler e escrever em Braille, é aceito condicionalmente pelas autoridades
escolares e se sai tão bem que, no fim do ano letivo, lhe é concedido o primeiro prêmio da classe. O jovem Lusseyran foi um estudante bem dotado. Sentia-se especialmente atraído para a literatura e filosofia, mas achava
que “a matéria mais importante, o fato de que o mundo não existe só fora de nós, mas também dentro”, faltava inteiramente na classe. “Acumular conhecimentos era bom e belo, mas a razão para os homens adquiri-los haveria
de ter maior significado, e ninguém falava disto.”
Na primavera de 1941, durante a ocupação de Paris pelos nazistas, Lusseyran organiza “Os Voluntários da Liberdade”, um grupo de estudantes para a Resistência, o qual passa a publicar um jornal clandestino chamado “O
Tigre”. Inicialmente, o membro mais velho do grupo não tinha ainda vinte e um anos, e o próprio Lusseyran, que havia sido eleito chefe, tinha apenas dezessete. Sua principal tarefa era de administrar as atividades do
grupo e entrevistar candidatos potenciais, porque ele possuía o que seus companheiros chamavam de “senso para seres humanos”. Ele podia “Ver”, em parte, através de suas vozes, quem merecia confiança e quem revelar-se-ia
traidor. Em 1943, o grupo, que crescera ao ponto de ter 600 membros, se une à “Défense de la France”, um dos cinco grandes movimentos da Resistência na França. Lusseyran torna-se membro de seu Comitê Executivo e fica
encarregado da distribuição maciça de seu jornal clandestino. Depois da libertação da França, esse jornal se tornou o “France-Soir”, um dos mais importantes diários de Paris.
Em 20 de julho de 1943, Lusseyran é preso por agentes da Gestapo. Ele e outros de seu grupo haviam sido traídos pelo único homem que ele havia recrutado com desconfiança — desconfiança que ele havia ponderado e
suprimido. Ele é internado e interrogado em Fresnes e deportado em janeiro de 1944 para Buchenwald, onde fica até ser libertado pelo Terceiro Exército dos Estados Unidos, no dia 18 de abril de 1945. Dos 2.000 franceses
que haviam ido com ele a Buchenwald, ele foi um dos 30 sobreviventes.
Terminada a guerra, Lusseyran luta para obter um cargo de professor na França. Apesar de haver completado “cum laude” seus estudos na Sorbonne com uma licenciatura em Letras e Filosofia, o ingresso na École Normale
Supérieure, onde estudam funcionários públicos, tais como professores de curso superior e diplomatas, é-lhe recusado por causa de uma lei instituída pelo Governo Vichy, proibindo o ingresso de “inválidos” em empregos
públicos.
Tendo, eventualmente, vencido sua luta na França, torna-se professor de curso superior e leciona durante a década de 50; depois resolve mudar-se para os Estados Unidos. Por vários anos leciona como conferencista
convidado no Hollins College e, em 1961 toma-se professor associado e, depois, catedrático na Westem Reserve University, de Cleveland. Na época de sua morte, em 1971, ele estava lecionando na Universidade do Havaí.
Em 21 de julho de 1971, Lusseyran morre num acidente de automóvel, junto com sua terceira esposa, Marie, que era pintora e escritora. O acidente aconteceu perto da casa de sua mãe, em Juvardeil, na França, onde ele havia
passado muitos verões de sua infância. Deixa quatro filhos.
Além de suas atividades normais como professor, Lusseyran fez conferências por todos os Estados Unidos, Canadá e Europa, falando sobre vários temas literários e filosóficos, muitos dos quais relacionados com a cegueira.
Foi também autor de vários livros e artigos. Seu último trabalho, intitulado “Conversations amoureuses” ainda não foi publicado.
Os seguintes artigos relatam a experiência de um homem com a cegueira, mas dizem respeito a questões de interesse universal. Hoje, para muitos de nós, o mundo sensório é a única realidade que predomina, e os
nossos sentidos físicos são os únicos canais através dos quais temos acesso a ele. Procuramos captar a vida, o conhecimento e mesmo o amor através dos nossos sentidos. Portanto, ser fisicamente deficiente deveria
significar uma privação dura, distorcendo drasticamente nossa relação com o mundo e levantando obstáculos à nossa capacidade de gozar a vida. Mas não para Jacques Lusseyran.
Embora Lusseyran tivesse perdido a visão quando criança, aquilo que poderia ser causa de desgosto, ele o transformou em fonte de uma felicidade única. Através de constantes esforços e descobertas, aprendeu que há muitas
maneiras de perceber o mundo e que a cegueira física pode levar a um outro grau de percepção. Sua descoberta diz respeito a todos que sofrem uma perda de qualquer natureza, sensória ou outra. Ele achou que para cada
perda pode haver um lucro igual ou maior; para ele, a cegueira foi a portadora de extraordinários dons.
Em sua autobiografia
“Et
La Lumière Fut”, Lusseyran expressa duas verdades que o ensinaram a amar a vida e a enfrentar qualquer desafio que ela possa oferecer. “A primeira verdade é que a alegria não vem de fora; pois
tudo quanto aconteça conosco, ela está lá dentro. A segunda é que a luz não vem de fora. A luz está em nós, mesmo que não tenhamos olhos.” Para seus amigos, o mundo de alegria e luz que ele descrevia era um belo sonho,
um encantamento, como se fosse mágica. Para ele, não era “mágica alguma, mas fato... Nossa única mágica é a realidade.”.
Un Regard Nouveau sur le Monde
| Cap. 1 de «La lumière dans les ténèbres»
I
Esta é a minha história: Eu via, via com meus olhos até a idade de oito anos. Há mais de trinta e cinco anos sou cego, completamente cego. Sei que esta história, esta experiência, é a minha maior felicidade.
Sei, também, o que se poderia dizer sobre isto: São só palavras; é mero adorno poético; é um conto de fadas consolador; é misticismo; é uma rebelião orgulhosa contra o destino. Isto, no entanto, não é verdade para mim.
Sei bem demais que não alcancei esta felicidade lutando por ela, senão que ela me foi presenteada, e isso de uma maneira muito natural. Sei também que ela não é um privilégio meu, uma propriedade minha, e sim, uma dádiva
que devo aceitar de novo todos os dias, e que todos os cegos podem receber à sua própria maneira.
Espero que me perdoem por começar com esta profissão de fé. Porém, não sei dizer nada sobre cegueira que possa ser mais importante. Estou pensando na ajuda espiritual e prática que ela poderia dar a todos aqueles que a
compartilham.
E agora me defronto com uma questão fundamental: Qual o valor que a visão tem para nós? Ela visa a que fim? E observo que ninguém tem uma resposta séria, nem os que vêem nem os cegos.
Bem, este silêncio é bastante natural. Por que questionar algo que possuímos: a vida, a visão?
Aqueles que vêem não pensem nisso. Para eles, ver é um ato simples, um bem inalienável. Certamente eles aceitam a advertência dos filósofos que lhes dizem: “Cuidado com a ilusão dos sentidos” e particularmente: “Cuidado
com a ilusão dos olhou”. Porém, aqui não é a visão que está sendo acusada, mas sim o uso que se faz dela. Quem aceitaria a validade daquela outra exortação: “Feche os olhos se quiser enxergar”?
Os cegos, por outro lado, poderiam fazer a si mesmos essa pergunta; porém, não se atrevem. Eles acreditam que não têm esse direito. Possuem, certamente, algumas respostas, mas as escondem até para si próprios. Enterram
no fundo de sua consciência aquilo que lhes aparece como um mero sonho. No que diz respeito à capacidade dos olhos, eles compartilham da opinião dos que vêem, opinião em que estes os fazem crer de novo todos os dias. A
pressão da sociedade — daqueles que vêem — pesa duramente sobre eles.
Qual é o valor da visão? Permitam-me que tente responder.
A visão é um sentido precioso. Aqueles que estão privados dele bem o sabem. Mas, antes de mais nada, a visão é um sentido prático. Permite manejar formas e distâncias. Todo objeto ela torna útil ou, pelo menos, usável.
A vista se nos apresenta como um prolongamento de nossas mãos, como uma faculdade adicional de manipular. É graças aos nossos olhos que seguimos adiante. Fazemos nossa uma parte maior do universo. Podemos agir até mesmo
onde nossos braços e pernas não alcançam.
Por meio de nossos olhos, podemos fazer observações simultâneas. Quando nos servimos deles, não nos é preciso conhecer cada objeto em separado, medir as coisas em relação às proporções de nosso corpo. Os olhos nos
proporcionam muitas vitórias magníficas sobre o tempo e o espaço. E é essa a vantagem fundamental da visão: ela nos coloca no centro de um mundo que é muito maior que nós.
Todavia, não são essas as qualidades de um instrumento ou mesmo de uma ferramenta? Suas vantagens são óbvias. Porém, não dependem inteiramente do uso que fazemos delas? Em resumo, possui a visão um poder próprio, ou é
ela nada mais que uma ferramenta?
É uma ferramenta muito preciosa, e os cegos que são privados dela sofrem uma grave perda. Contudo, é apenas uma ferramenta e, por isso, pode ser substituída. Nisto, certamente, reside uma das maiores riquezas de nossas
possibilidades de conhecimento sensorial: não há uma ferramenta que seja única e insubstituível. Cada sentido pode tomar o lugar de um outro, se for usado em sua totalidade.
Agora, porém, estamos diante de uma grande dificuldade, pois a visão é um sentido superficial.
Costuma-se dizer que a visão nos aproxima mais das coisas. Decerto. Ela nos permite achar nosso caminho, orientando-nos no espaço. Porém, a qual parte dos objetos ela mais nos aproxima? Ela nos relaciona com a superfície
das coisas. Com os olhos, passamos pelos móveis, pelas árvores, pelas pessoas. Este movimento ao longo das coisas, este deslizar, é suficiente para nós. Chamamo-lo cognição. E é aqui, creio eu que reside um grande
perigo. A verdadeira natureza das coisas não é revelada pelo seu primeiro aspecto. Sei que o pensamento pode corrigir a informação que recebemos através dos olhos. Mas para esse fim temos de pôr nosso pensamento em ação,
e o turbilhão das necessidades diárias nem sempre nos deixa tempo para isso.
A visão prefere a aparência externa; é parte de sua natureza. Ela tende a considerar como causas, as conseqüências. Em nossa estranha atitude para com a luz, acreditamos que nossos olhos vêem o sol, embora percebam
apenas objetos iluminados.
Por conseguinte, o perigo jaz na natureza da própria vista, em sua rapidez, em sua utilidade. Isto é verdade principalmente quando nos servimos dela para conhecer outras pessoas. Pensem nos desastrosos erros de nosso
julgamento, quando o baseamos nas roupas, no penteado e no sorriso da pessoa que encontramos. A maior parte de nosso amar e de nosso odiar, assim como a maior parte de nossas opiniões, depende dessas roupas, desse
sorriso.
Uma pessoa se aproxima de nós. Que significa ela para nossos olhos? Antes de mais nada, ela nos causa uma impressão física, isto é, não existe relacionamento algum — nem mesmo um relacionamento fugaz — entre ela e nós,
mas sim apenas entre ela e a sociedade, pois é óbvio que vestuário, sorriso, expressão facial e mesmo gestos, numa palavra, comportamento, são patrimônio comum da sociedade.
Penso nesse jogo sem fim, um jogo que se tomou involuntário. Nós o praticamos para chamar a atenção sobre nós mesmos. É a arte de enganar os olhos dos outros, uma arte que toma tantos minutos de nossas vidas, O que
enganamos são os olhos. Para eles é que trabalhamos. Sabemos muito bem que eles passarão por nós rapidamente, e não levarão muito tempo nos examinando.
Naturalmente, há olhos que examinam e não apenas vêem. São os olhos de uma mãe ou de uma esposa ansiosa, os olhos de um bom médico, de um homem sábio, de um artista e — porque não — os olhos de um humorista. Mas por que
será que, no momento em que esses olhos vêem, eles parecem meio fechados e voltados para dentro?
Este processo tem muitos nomes: refletir, concentrar-se, lembrar-se. Pensando bem, é sempre um reflexo de defesa contra vista. Após termos recebido imagens através dos olhos, é necessário reter essas imagens, explicá-las
a nós mesmos sem qualquer apoio visual, em resumo, dar-lhes uma forma de existência amplamente nova: a existência interior. Se não estivermos prontos para renunciar, pelo menos temporariamente, às impressões que
recebemos através dos olhos, nenhuma cognição verdadeira, em minha opinião, será possível.
Este simples fato deveria prevenir-nos contra uma grande ilusão: a ilusão de que as formas são onipotentes.
Os seres humanos gostam de colecionar de tudo. Sonham em multiplicar, infinitamente, fatos e experiências. Se querem conhecer o mundo das plantas, eles então observam todas as plantas, uma após a outra. Examinam todas as
partes, determinam divergências e similaridades; diferenciam e classificam. Enumerar e classificar formas tornou-se a função mais importante da inteligência. O que é verdadeiro para a pesquisa sistemática também é
verdadeiro para nossa vida diária. Para a maioria das pessoas, viajar significa ver tudo: todas as paisagens, uma após a outra, cada paisagem em sua particularidade, todos os recintos de uma casa, quem não viu todos os
quartos, não viu a casa. Quem não viu todos os advogados, todos os operários, não chegou a ver o homem que é chamado advogado ou operário. Este é o princípio básico de todas as enciclopédias, de todos os dicionários, de
quase todos os compêndios. Desta maneira faz-se pesquisa histórica, pesquisa do homem e pesquisa na natureza. E depois nos surpreendemos com sua pobreza e sua insuficiência.
Creio que a visão é responsável pela opinião predominante de que podemos compreender o mundo e conhecê-lo completamente, passando de uma forma à outra, de um fenômeno a outro. Esquecemos que a própria força de movimento
que conduz os olhos de um objeto a outro não se pode realizar dentro dos olhos. Ela, forçosamente, precede e dirige o seu deslocamento.
Nos dias de hoje, estas observações adquirem uma importância inteiramente nova, pois nosso mundo atual de cartazes, anúncios luminosos, cinema e televisão se baseia inteiramente na confiança nos olhos. Foi dito, com toda
a razão, que vivemos hoje na era das imagens. Pois já não está na iminência de ser reduzida a imagens externas a transmissão dos pensamentos? Já não estamos a caminho de um ensino inteiramente orientado para o visual?
Que um cego levante a voz, como estou fazendo, e previna os que vêem para que se acautelem quanto ao uso de seus próprios olhos, pode parecer descabido e até cômico. Porém não é o processo de ver que estou atacando.
Acuso apenas uma certa idolatria. O ídolo é aquela convicção, que é característica dos que vêem, de que a visão é a atividade principal do espírito e suficiente para ele.
Naturalmente não se pode culpar os olhos. Pelo contrário, eles são tão bons que deveriam mesmo ser melhorados mais ainda.
O que, simplesmente, deve ser compreendido é que ver não é exclusivamente trabalho dos olhos. A vista, a faculdade de ver, existe antes do instrumento que são os olhos. Enquanto os homens esquecerem esse fato,
defrontar-se-ão constantemente com ilusões e fracassos. Ficarão impacientes. Hão de querer ver sempre mais e mais, e não se reconhecerão mais no individuo que se encontra frente a uma tal torrente de impressões e que as
vê.
Tudo isso é do conhecimento de uma pessoa cega. Ela o sabe, não por causa de um extraordinário dom da inteligência ou por seu próprio mérito, mas sim naturalmente: despojado do privilégio da vista, ele mede, ao mesmo
tempo, sua perda e seu ganho. Sobretudo, continua a viver e a experimentar, com uma força irresistível, esse maravilhoso intercâmbio que se realiza entre o mundo interior e o exterior.
II
Deus nos concede sempre essa continuidade na vida. Quando percebemos, em algum lugar, um muro, ou experimentamos uma perda, uma desgraça, não foi Deus quem ergueu esse obstáculo, mas sim nosso espírito. Ele brotou para
fora da criação perpétua. Por assim dizer, preferiu sua própria corrente de força à corrente de força universal.
Na realidade, não existe nem muro nem perda. Tudo é substituível e contínuo. Assim acontece também com a luz para os cegos.
Ouço, sempre com renovada surpresa, as pessoas mais sérias — médicos, escritores, psicólogos — falarem da terrível “noite” em que a cegueira nos atira. “Noite” é a palavra que todo mundo usa, e não posso senão protestar
contra ela, porque essa palavra revela um julgamento estranho, um preconceito ou, simplesmente, uma opinião superficial; pois, como é possível, especialmente para um médico ou um psicólogo, não suspeitar, ao menos, do
caráter principalmente relativo de toda percepção?
Os fatos são bem diferentes de tudo o que realmente imaginamos. Deixar de enxergar com os olhos não significa entrar num mundo em que a luz deixou de existir.
No momento em que perdi a luz dos meus olhos, descobri que a luz dentro de mim não diminuíra. Não era obrigado a lembrar o que essa luz havia significado para os meus olhos, nem a manter viva a memória desse fato: a luz
estava ali em meu espírito e em meu corpo. Estava gravada neles integralmente. A luz estava ali, acompanhada de todas as formas, cores e todos os contornos visíveis, dotada do mesmo poder de aumentar, de diminuir e de se
deslocar, que possui no mundo dos olhos.
Repito: a experiência que me fora concedida não era a de uma lembrança. A luz que eu continuava a ver sem meus olhos era a mesma de antes. Porém, meu ponto de vista em relação a ela havia mudado: eu me aproximara mais de
sua origem.
Era como se a luz não fosse mais aquele objeto do mundo exterior, aquela estranha iluminação, aquele fenômeno da natureza que pode acontecer ou não, e sobre o qual temos tão pouco poder. Em vez disso, era como se a luz,
daí por diante, envolvesse a mim e ao mundo exterior num único movimento, abarcando-os de uma só vez.
Privado da luz dos meus olhos, eu não podia dizer que a luz que eu via viesse de fora; tampouco podia dizer que viesse de dentro.
E realmente: Dentro e fora tornaram-se conceitos inadequados. Quando, muito mais tarde, durante o tempo de meus estudos, ouvia falar da diferença entre fatos objetivos e subjetivos, não fiquei satisfeito: via claramente
que essa diferença se baseava numa concepção errônea da percepção.
Já estamos agora bem longe da “noite” de que se costuma falar. Aquilo que habita a cabeça de um cego é a luz. Devemos dizer: a sua cabeça, ou o seu coração? Ou até talvez os seus olhos? Para que? Que diferença faz, já
que a luz não é algo nem interno nem externo, mas abarca todo o ser e confunde as distinções que fazemos por causa do hábito. A luz está ali. Esta é e única certeza.
Sei muito bem a objeção que poderia ser levantada: Não seria a sua experiência uma ilusão? Você, tempos atrás, já havia enxergado, havia conhecido cores e formas, podia nomeá-las. Porém, o que acontece com aquele que
nasce cego?
Admito que essa seja uma objeção de peso; e o seria ainda mais, se não tivéssemos o testemunho dos cegos de nascença que foram curados. Sem dúvida, todos afirmam que a luz, tal como se revelou aos seus olhos, foi uma
surpresa para eles, uma nova descoberta. Mas, ao mesmo tempo, confessam que antes de poderem ver com seus olhos, traziam dentro de si mesmos uma contrapartida dessa luz.
E assim tudo é luz nesta cegueira: e essa luminosidade manifesta ainda contém uma lição magnífica. Desde minha infância, me impressionara com um fenômeno de uma nitidez surpreendente: a luz que via se modificava
conforme meu estado interior. Em parte, isso dependia de minha condição física, por exemplo, cansaço, repouso, tensão ou relaxamento. Mas isso era relativamente raro. As verdadeiras mudanças dependiam do meu estado de
alma.
Quando estava triste, quando tinha medo, todos os matizes escureciam e todas as formas se tornavam indistintas. Ao contrário, quando estava alegre e atento, todas as imagens clareavam. Rancor ou escrúpulos mergulhavam
tudo na escuridão. Uma resolução magnânima, uma decisão corajosa, emitia um claro raio de luz. Pouco a pouco, aprendi a distinguir que amar significava ver e odiar significava cegueira e noite.
Desta maneira compreendi que a moral (não a moral social, mas a espiritual) não era simplesmente um conjunto de normas abstratas, mas sim uma ordem bem disposta, uma seqüência de fatos, como um manejar da luz.
Passei pela mesma aventura em relação ao espaço. Quando fiquei cego, descobri que existia um espaço interior. Este espaço também mudava suas dimensões conforme o meu estado de alma. Tristeza, ódio ou medo não somente
escureciam meu universo, como também o reduziam. O número de objetos que eu, com um olhar, podia abranger dentro de mim diminuía. No sentido exato da palavra, eu me chocava contra tudo. Seres e coisas se tornavam
obstáculos dentro de mim mesmo. Externamente, não conseguia deixar de colidir com portas e móveis. Era castigado rapidamente e da maneira mais completa.
Entretanto, pelo contrário, coragem, atenção, alegria, tinham o efeito imediato de alargar e clarear o espaço. Logo, tudo dentro de mim existia em abundância: uma grande quantidade de objetos, imagens, seres. Via diante
de mim uma paisagem grandiosa. Sabia que essa paisagem podia se expandir indefinidamente; para conseguir isto, minha alegria tinha simplesmente que aumentar.
Ao mesmo tempo, minha destreza física progredia; aprendi a me orientar e a me mover com segurança. Em resumo, havia duas possibilidades: rejeitar o mundo — e isto significava escuridão, revezes —, ou aceitá-lo, o que
significava luz e força.
Acho que esta minha explanação não representa algo particularmente novo, a não ser que se leve em conta o caráter experimental, concreto e manifesto dos fatos descritos. A descoberta que a cegueira possibilitou foi, sem
dúvida, a da existência de uma vida interior. De inúmeros encontros com pessoas cegas e de inúmeras perguntas que lhes fiz, fiquei sabendo que os outros haviam tido experiências similares. Contudo, a maioria não fala
sobre elas.
Para poder descrever essas experiências é necessário, sem dúvida, um certo material técnico; é preciso dominar uma linguagem especial, a da psicologia, e estar habituado a um certo tipo de análise. Mas isso não é assim
tão difícil e muitas pessoas cegas têm essas possibilidades.
Todos nós sabemos o quanto nossas experiências, especialmente nossas experiências internas, dependem da língua. No entanto, a língua é, antes de mais nada, uma ferramenta da coletividade, Pode-se dizer que ela é a
ferramenta da maioria.
As palavras de que os cegos se servem são as palavras dos que vêem. Eles tomaram emprestado todas elas, e os que vêem não aceitam de muito bom grado o fato de que os cegos fazem delas um uso tão positivo. Os que vêem são
dados à intolerância.
Um cego é um inválido; é um incapacitado, ou seja, um excluído da sociedade, e não é levado em conta. Ele recebe compaixão e até ajuda, mas quase todo mundo prefere ouvi-lo lastimar-se, revoltar-se, censurar-se por ser
diferente, do que ouvi-lo descrever, com segurança, o mundo que ele traz dentro de si. Freqüentemente, os cegos sentem, de maneira bastante dolorosa, a dúvida e a descrença com que sua experiência pessoal é recebida.
Em conseqüência, ou os cegos se isolam do mundo e levam uma vida cheia de hábitos estranhos, aumentando assim ainda mais o abismo que os separa do mundo dos que vêem, ou dirigem seus esforços no sentido de fazer com que
os outros esqueçam sua cegueira. Raramente, muito raramente, eles se apresentam, realmente, como cegos, e como quem deseja exercer sua função como cego.
Acredito que a cegueira tenha uma função própria. Ela tem a tarefa de nos lembrar que o despotismo de um dos nossos sentidos, a visão, não se justifica, e de nos acautelar contra a forma de percepção que atualmente
predomina. Mais ainda: sua tarefa não é apenas a de evocar em nós a origem de todo saber, mas também fazer com que nos lembremos do dom maravilhoso que nos permite um intercâmbio entre outras formas de percepção e
imagens percebidas.
Os cegos sabem, por experiência direta, que o ato de ver tem prioridade sobre a visão no sentido usual, a visão externa. Acho importante que eles não escondam esse conhecimento.
Sobretudo, considero importante que o cego e aquele que vê comparem o que vêem. Eles deveriam se reunir, antes de pronunciar qualquer julgamento, e antes de estabelecer qualquer regra de classificação para a visão
interna e externa; deveriam comparar suas experiências, ficar cientes de sua mútua riqueza de experiências. E tanto um como o outro deveriam aceitar suas respectivas limitações. Estou convencido de que essa comparação
efetuaria um valioso trabalho. Estou convencido de que, depois de tal intercâmbio de pensamentos, os limites de ambos os tipos de percepção, limites que deveriam ser conhecidos, surgirão com uma nova claridade.
III
Para que esta comparação, entre o mundo que os olhos vêem e o mundo percebido sem olhos, ficasse perfeitamente compreensível, deveria ser conduzida pelos dois lados. Esperemos que um dia este diálogo seja levado a cabo
com toda franqueza!
Contudo, acredito que hoje já seja possível fazer uma relação provisória das faculdades dos cegos. Hoje, em geral, se diz que a perda da visão imediatamente faz com que os outros sentidos se desenvolvam mais, e que haja
uma compensação. Isso é verdade. É verdade que os cegos ouvem melhor do que os que vêem. Os sons lhes dão a possibilidade de perceber distâncias e até vultos.
A sombra de uma árvore no caminho não constitui apenas um fenômeno visual. É também audível, O carvalho, o choupo, a nogueira têm seus níveis específicos de som. Penetra-se na tonalidade de um plátano como se penetra
numa sala. Reconhece-se nisto uma certa ordem do espaço, zonas de tensão e zonas de livre passagem. A mesma coisa é válida para um muro ou toda uma paisagem.
Todas as graduações da luz têm graduações correspondentes no som. Aquilo que escuto, debruçado na minha janela, sob um cinzento céu nublado, é indolente. Todos os sons se tornam fracos. Movimentam-se em pequenos grupos
desconexos. Circulam num único plano espacial. Aquilo que escuto quando o sol brilha possui uma vibração muito mais intensa. Objetos reais, emitindo sons, começam a aparecer. Os sons vagueiam à vontade, encontrando-se
de acordo com sua afinidade, e se combinam em formas.
Uma pessoa cega ouve melhor, e isto é bom; pois ela ouve aquilo que não vê. Um cego possui um melhor senso de sentir, de paladar e de tato. Deveria ser-lhe dito o quanto os seus sentidos guardam em reserva para ele.
Contudo, me parece que, antes de mais nada, deve-se chamar sua atenção para a condição que leva a uma tal amplitude dos sentidos.
Essa condição não é simplesmente o fato de não mais poder ver. Nem significa que seja dada, aos sentidos remanescentes, uma nova estrutura. A condição necessária é muito mais simples: deve-se estar atento. Uma pessoa
realmente atenta poderia identificar tudo. Para esse reconhecimento, ela não precisaria de nada que tivesse ligação com os sentidos. Para ela nãoo existiria nem luz, nem som, nem a forma peculiar a cada objeto, mas cada
objeto se revelaria a ela em todos os seus aspectos possíveis. Em outras palavras, ela penetraria completamente em seu mundo interior.
Os sentidos continuariam a existir, porque seu papel como intermediários naturais foi estabelecido pela própria ordem da criação. Porém, eles não mais funcionariam independentemente, uns separados dos outros, como
erradamente supomos que deveriam.
É justamente dessa “atenção total” que as pessoas que vêem se desviam constantemente. Assim também os cegos, porém não até o mesmo grau. É para eles uma necessidade prática permanecerem atentos, e esse simples fato
constitui o primeiro dos seus dons.
A audição, o olfato, o tato! Sinceramente, hesito em fazer essas diferenciações, pois receio que sejam arbitrárias.
Sabe o cego realmente o que percebe quando, caminhando pela calçada, indica subitamente que reconheceu uma brecha num muro ou numa construção, ou quando ele pára a pouca distância de um obstáculo, sem tê-lo tocado nem
mesmo de leve? Pode ele expressar em palavras aquela experiência? Creio não. Se o perguntarmos, dirá que ouviu algo. Uma leve ressonância, um movimento do ar, como a aproximação muito vagarosa de um objeto. Mas essa
explicação seria apenas uma concessão à linguagem geralmente usada.
Ele não ouvia; tocava. A audição e o tato talvez sejam a mesma percepção sensorial. O fato de ter o cego apontado a brecha no muro significa que a área livre de cimento ou pedras, já se apoderara de todo o seu corpo; ou
seja, que, com toda a superfície de seu corpo, ele já havia experimentado aquela forma e seu poder de resistência. Significa até que ele já havia passado através da abertura.
Creio que todos os nossos sentidos se unem num só. Eles são estágios sucessivos de uma única percepção, e essa percepção sempre apenas uma percepção de tato. Portanto, a audição pode substituir a visão, e a visão, o
tato. Em conseqüência, nenhuma perda é irreparável.
A essa altura me pergunto se é possível que aquilo que chamamos de “atenção” seja a forma psicológica desse contato fundamental, forma essa baseada tanto na sensação como no intelecto. Em outras palavras: seria a
atenção uma espécie de tato?
Uma pessoa cega encontra-se numa sala; entra um homem, senta-se e não fala. Pode o cego chegar a conhecê-lo? O senso comum diria que não. Mas não tenho certeza de que esse senso comum tenha razão. O cego é capaz de
intensificar sua atenção; ele pode se abrir a tal ponto que esse homem imóvel chegue mais perto dele. Pouco a pouco, silenciosamente e sem se mexer, ele pode remover todos os recônditos obstáculos que o separam do outro
e que se encontram no interior de todos nós, e pode começar a absorver a aparência desse homem.
Sei que uma tal experiência vai até os limites da cognição; sei que ela quase nunca é realizada conscientemente. No entanto, acredito que todo cego já a tenha tido, quer estivesse cônscio disto, quer não.
O que se diria neste caso? Teria o cego desenvolvido um poder superior? Com a ajuda do espírito, teria ele transcendido as condições normais de percepção? Creio que se deveria dizer simplesmente: Ele tocou.
Usei como exemplo uma pessoa cega. Da mesma forma eu poderia ter falado de uma pessoa que vê, pois — repito — o mérito especial da cegueira não consiste em criar uma experiência diferente, mas sim em nos levar, por
necessidade, a uma experiência elevada.
Alguns chamaram este tato fundamental de “sentido de obstáculos”. Tentaram até atribuir-lhe uma determinada parte do corpo. Uns queriam localizá-lo, de acordo com a tradição da fisiologia esotérica, na região da testa,
no “olho de Shiva”; Outros, seguindo uma hipótese puramente racional, falaram de uma concordância, de uma mistura de sensações elementares de caráter visual, as quais estariam situadas, principalmente, em certos pontos
de nossa pele. Esta é a famosa tese de Jules Romain, formulada em sua monografia sobre “Visão Para-ótica” ou a “visão que ocorre fora da retina”.
No que me diz respeito, prefiro me restringir a uma observação mais direta.
Aquilo que um cego sente na presença de um objeto é uma pressão. Estando de pé diante de um muro que ele nunca tocou e não está tocando no momento, ele sente uma pressão física: o muro, por assim dizer, cai sobre ele.
Uma emanação sutil se exala do muro e, no momento em que ela se encontra com outra emanação que se origina no cego, tem lugar a percepção consciente.
Por conseguinte, a percepção significaria entrar num equilíbrio de pressão, num campo de forças. Assim que prestamos atenção a esse fenômeno, o mundo se revela de uma maneira surpreendentemente diferente. Nenhum único
objeto, nenhum só indivíduo permanece neutro. A unidade do mundo é vivenciada como um acontecimento físico.
A pressão pode assumir todas as formas: absorção, transferência, cooperação. Tudo entra num relacionamento íntimo e ativo conosco — a janela, a rua, as paredes do quarto, a mobília, o leve movimento do ar, os seres
vivos. Finalmente, até os próprios pensamentos adquirem peso e direção.
Esta é a experiência do cego, mas é também — disto estou convencido — uma experiência comum. As pessoas que vêem também experimentam esses efeitos de pressão, mas não os deixam entrar em suas consciências.
Todavia, parece-me que elucidariam um grande número de estados de espírito, bastante vagos, mas importantes: simpatia, antipatia, sensação de mal-estar, boa-vontade, o desejo de ficar ou de fugir, oposição, devoção.
Existe a tendência de explicar estes estados a todo custo psicologicamente: considero-os como sendo muito mais simples.
Eu disse “pressão”. Disse “emanação”. Poderia também ter me expressado diferentemente e falado sobre um “campo vibratório”. Essa vibração básica que dá forma aos objetos e revela os seres, é para mais perto dela que
somos conduzidos pela cegueira.
Não me parece conveniente levar mais longe esta análise, porque penetramos no domínio da experiência pessoal. Quando desejamos transmitir nossas experiências a outras pessoas, o único modo é explicar e tornar a explicar,
e com todos os detalhes.
Quis chamar a atenção para o caráter estranhamente unilateral de nossa psicologia da percepção. O preconceito que, arbitrariamente, eleva a visão à sua posição todo-poderosa ocultou à maioria dos pensadores, aquilo que
torna possível a visão, assim como todas as outras percepções sensoriais e, de uma forma geral, nosso relacionamento com o mundo.
Por todas essas razões, o cego tem o direito de dizer: A cegueira alterou minha visão, mas não a extinguiu.
E agora espero que vocês possam aceitar com mais facilidade o meu paradoxo, a profissão de fé que fiz no início: A cegueira é a minha maior felicidade: A cegueira nos dá uma grande felicidade. Ela nos dá uma verdadeira
oportunidade, tanto através da desordem quanto da ordem que ela cria.
A desordem é a peça que ela nos prega, a leve alteração que causa: força-nos a enxergar o mundo de um ponto de vista diferente. Essa desordem é necessária, pois a principal causa de nossa infelicidade e de nossos erros
é que nossos pontos de vista são fixos.
Quanto à ordem gerada pela cegueira, ela é a descoberta da criação constantemente presente. Acusamos sempre as condições de nossas vidas; nós as chamamos de incidentes, acidentes, doenças, obrigações, defeitos. Desejamos
impor nossas próprias condições à vida: é aí que reside nossa verdadeira fraqueza. Nos esquecemos de que Deus nunca nos cria novas condições sem nos dar a força para enfrentá-las. Sou grato à cegueira que não me
permitiu esquecer isto.
Gostaria que esta atitude fosse considerada “otimista”, se bem que, hoje em dia, o otimismo não seja muito bem visto. Este é o meu desejo, porque não posso admitir que se deprecie o valor de uma experiência, somente por
ser uma experiência feliz.
Os cegos vêem à sua maneira, mas realmente vêem. Para eles isso não é um consolo. É um fato que lhes acarreta tantos riscos e obrigações quanto os que a visão acarreta para aqueles que dispõem da luz de seus olhos.
O Cego na
Sociedade
A longa viagem que me trouxe do meio do Oceano Pacífico até à Suíça e que me dá hoje a alegria de me encontrar com vocês se realizou por causa de um livro. Escrevi esse livro primeiramente na minha língua materna, o
francês, e lhe dei o nome “Et la Lumière Fut”. Depois, publiquei-o em inglês, nos Estados Unidos e na Inglaterra. Finalmente, foi traduzido para o alemão com o titulo “Das wiedergefundene Licht”. É a história de minha
vida, ou antes, daquilo que a vida me ensinou, desde a idade de sete anos e meio, quando, num acidente, perdi, completa e irremediavelmente, a visão — até a primavera de 1945, aquele momento em que saí com vida do campo
de concentração Buchenwald, na Alemanha nazista.
Esse livro é, indubitavelmente, o mais pessoal de todos os que escrevi até hoje — o mais pessoal e quase que o mais íntimo. Contudo, é aquele que me tem dado até agora a oportunidade de entrar em contato com o maior
número possível de meus semelhantes. Isto não me surpreende, pois sempre que nos damos ao trabalho de sondar as profundezas de uma experiência e extrair dela tudo o que ela contém, do mais simples e do mais oculto,
cessamos de falar só e unicamente de nós mesmos: entramos nos domínios daquilo que é mais precioso, nos domínios da experiência universal, aquela experiência que compartilhamos com os outros.
Portanto, não vou pedir desculpas por lhes contar hoje um pouco mais de mim. Aquilo que um homem descobriu em sua vida — por mais singular e única que ela seja — pertence a todos. E se suas descobertas podem elevar e
enriquecer a vida de outros, é sua obrigação falar delas.
Pois bem, é este o meu caso. O que trinta e sete anos de cegueira me ensinaram — devo admitir — foi fazer grandes esforços; porém, eles são mais do que esforços: são também descobertas. Mal posso esperar para lhes contar
algumas delas.
Apenas dez dias após o acidente que me roubara a vista, fiz a descoberta fundamental. Estou ainda como enlevado nela. Só posso descrevê-la com palavras claras e diretas: eu perdera totalmente a visão; não podia mais
enxergar a luz do mundo. Contudo a luz continuava ali.
Ela estava ali. Tentem imaginar como isto deve ter constituído uma surpresa para mim, menino que ainda não tinha oito anos. É verdade que não podia mais ver a luz fora de mim, a luz que ilumina as coisas, que está
associada a elas e influi nelas; todo mundo estava convencido de que eu a perdera para sempre; mas a reencontrei em outro lugar. Encontrei-a dentro de mim mesmo, e — que milagre! — ela estava intacta.
Contudo, este “dentro de mim mesmo” — onde se encontrava? Em minha cabeça, em meu coração, em minha imaginação? Não sentem vocês que tais indagações são de natureza puramente intelectual e dignas somente daqueles que
já esqueceram a simplicidade e o poder indiscutível das experiências genuínas? Para mim — eu tinha oito anos de idade e vivia em vez de pensar —, para mim, a luz estava presente. Sua fonte não cessara. Eu sentia que ela
continuava jorrando a todo momento e transbordando, sentia o quanto ela desejava espalhar-se pelo mundo afora. Era só recebê-la. Ela estava inevitavelmente presente. Estava toda lá, e eu reencontrei seus matizes e
movimentos, isto é, suas cores, as quais eu havia amado tão apaixonadamente poucas semanas antes.
Vocês compreendem que isto era algo inteiramente novo, tanto mais que contradizia tudo aquilo em que acreditavam aqueles que têm olhos. A origem da luz não se encontra no mundo exterior. Só acreditamos que esteja lá em
virtude de uma ilusão comum. A luz habita onde a vida também habita: dentro de nós.
Contudo, tive de me esforçar para achar meu caminho entre as portas, as paredes, os homens e as árvores. Como acontece com todos os cegos, eu me machucava freqüentemente. Porém, não demorei a aprender que esbarrava nas
coisas unicamente quando me esquecia da luz. Quando não deixava de prestar atenção à luz, corria muito menos perigo. Quase que imediatamente depois disto veio a segunda grande descoberta. Havia apenas um meio de poder
contemplar a luz interior: amar.
Quando eu era vencido pela tristeza, quando me deixava arrebatar pela cólera, quando invejava aqueles que possuíam a luz de seus olhos, a luz imediatamente diminuía. Às vezes se apagava por completo. Então, eu ficava
cego. Porém, esta cegueira era um estado de não mais amar, era estar triste; não era ter perdido a visão.
Falei-lhes de descobertas. Essa foi uma delas, e era tão grandiosa que, muitas vezes, toda uma vida repleta de Religião e Moralidade não basta para que os outros possam realizá-la.
Em outro aspecto, também, desejo deixar dito, fui extremamente afortunado. Tive pais que compreenderam. Nem minha mãe, nem meu pai demonstraram, alguma vez, piedade pela minha sorte. Nunca usaram em minha presença a
palavra “infortúnio”. Especialmente meu pai que possuía uma profunda compreensão da vida espiritual logo me disse: “Conte-nos toda vez que fizer uma descoberta”. Descobrir cada vez mais? Ele tinha razão. Não se trata de
consolar, nem aqueles que perderam a visão, nem os que sofreram outras perdas — a fortuna, a saúde ou um ente querido. Em vez disto é preciso mostrar-lhes o que essa perda lhes traz, e quais as dádivas que recebem em
lugar daquilo que perderam. Porque sempre recebemos dádivas. Deus assim o quer. A ordem se restabelece; nada jamais desaparece completamente.
Eu soube disso aos oito anos de idade, porque havia reencontrado a luz. Desde aquele momento, a cegueira se tornou para mim, uma experiência fascinante e uma tentativa de viver uma vida nova.
Já não podia ler com meus olhos. Porém, que importava? Desenhava, dentro de mim, letras e palavras numa tela, maior e mais luminosa do que todos os quadros negros, e, dentro de poucas semanas, pude aprender a escrever de
novo, em Braille.
Com meus olhos, eu não via nem o sol, nem as plantas, nem os rostos. Mas bastava que o calor do dia me tocasse, que uma árvore aparecesse ao longo do caminho, que uma voz me chamasse e imediatamente aqueles seres e
aquelas coisas surgiam na minha tela interior. Só faltava aprender algumas técnicas simples a fim de enfrentar os problemas do dia-a-dia — as únicas que ainda podiam ser consideradas dificuldades: escrever em Braille,
ler em Braille o mais fluentemente possível, bater a uma máquina de escrever comum, pois era necessário poder entrar em contato com os que viam. Felizmente, aprendi tudo isto muito cedo em minha vida, dos oito aos dez
anos de idade.
Além disto, meus pais haviam resolvido deixar-me ficar entre meus colegas que viam. Foi uma decisão ousada. Uma escola especializada para cegos teria oferecido maiores garantias, e ainda hoje acredito que, para a maioria
dos cegos, uma escola especial seja mais eficiente e mais vantajosa. Contudo, a obrigatoriedade de viver sob as mesmas condições que todos os outros me ensinou muita coisa.
Eu tinha de esquecer que era cego. Tinha de parar de pensar no assunto. Pude comparar minhas experiências com as dos outros, e compreendi bem rapidamente que minha cegueira me preservava de uma grande desgraça: a de
conviver com egoístas ou tolos. Somente aqueles que eram capazes de ser generosos e compreensivos procuravam minha companhia. Para mim, a escolha de meus camaradas era bem mais fácil do que para os outros. Não conheci
rapazes e moças que esperavam da amizade apenas o lucro pessoal, porque esses nunca se aproximavam de mim. Assim, conheci os melhores, tanto na escola primária, como depois no ginásio, em Paris, sem jamais ter de me
preocupar com isto. Eles estavam ali, perto de mim, comigo. Eles me interrogavam, e eu os interrogava de volta. Ajudaram-me a viver como se tivesse olhos, ajudaram-me a correr, a subir em árvores, andar de barco e, às
vezes, a furtar maçãs. E, para sua maior surpresa e, muitas vezes, para surpresa minha, eu lhes ensinava a ver melhor.
Graças à minha cegueira, eu havia desenvolvido uma nova faculdade. A rigor, todo homem a possui, mas quase todos se esquecem de usá-la. Essa faculdade é a atenção. Para poder viver sem olhos, é necessário estar muito
atento, ficar horas e horas num estado de vigilância e, ao mesmo tempo, de receptividade e de atividade. De fato, a atenção não é, simplesmente, uma virtude da inteligência ou resultado de educação, e algo de que se pode
prescindir com facilidade: é um estado de ser. É um estado sem o qual nunca seremos capazes de nos aperfeiçoar. No seu sentido mais exato, ela é o posto de escuta do Universo.
Eu era muito atento. Era mais atento que qualquer um dos meus companheiros. Todos os cegos o são ou podem ser. Assim, adquirem o poder de estar completamente presentes, às vezes até mesmo o poder de transformar a vida ao
seu redor, um poder que a civilização distraída do século XX não possui mais.
Estar atento abre uma esfera de realidade de que ninguém suspeita. Se eu, por exemplo, passeava por um atalho sem prestar atenção, completamente imerso em mim mesmo, nem sabia se havia árvores ao longo do caminho, ou
qual o seu tamanho, ou se elas tinham folhas. No entanto, quando despertava minha atenção, cada árvore, imediatamente, se fazia presente. Isto deve ser tomado bem ao pé da letra: cada uma das árvores projetava sua forma,
seu peso, seu movimento - mesmo quando estava quase imóvel — em minha direção. Eu podia apontar o seu tronco e o lugar de onde saíam os primeiros galhos, mesmo quando estava a vários metros dela. Pouco a pouco, algo novo
se me tornava evidente, algo que nunca se encontra nos livros: o mundo exerce de longe uma pressão sobre nós.
Aqueles que vêem cometem um estranho engano: acreditam que conhecemos o mundo somente através de nossos olhos. De minha parte, descobri que o Universo consiste de pressão, que cada objeto e cada ser vivo se revela a nós,
em primeiro lugar por uma espécie de pressão muito suave e inequívoca, que nos revela sua intenção e sua forma. Passei por uma experiência maravilhosa que foi a seguinte: uma voz, a voz de uma pessoa, faz com que ela
apareça como uma imagem. Quando a voz de uma pessoa me alcança, percebo logo sua figura, seu ritmo e a maioria de suas intenções. Mesmo as pedras pesam sobre nós à distância, e assim também os contornos das montanhas
distantes e a súbita depressão de um lago no fundo de um vale.
Essa comunicação é tão exata que eu, passeando de braço dado com um amigo pelos caminhos dos Alpes, sabia como era a paisagem e, algumas vezes, era capaz de descrevê-la com uma clareza surpreendente. Algumas vezes; sim,
apenas algumas vezes. Eu o conseguia quando convocava toda minha atenção: Permitam-me que diga com toda franqueza: se todos os homens fossem atentos, se se encarregassem de sê-lo em todos os momentos de suas vidas
redescobririam o mundo; veriam subitamente que o mundo é inteiramente diferente do que acreditavam que fosse. Toda a ciência se tornaria obsoleta num instante, e nós penetraríamos no milagre da cognição imediata.
Essa cognição imediata e completa, eu lhes asseguro, não a possuo. Os cegos não a têm. Todavia, têm uma chance adicional quando tentam aproximar-se dela.
Aos dezessete anos de idade, formei-me no colégio e entrei na Universidade. Porém, isto já não era essencial para mim. A falsa paz entre as duas guerras tinha chegado ao fim. A Europa se lançara no pior conflito de sua
história, e minha pátria, a França, fora conquistada em cinco semanas. Paris estava ocupada pelos nazistas.
Como vocês podem imaginar, muitas vezes me perguntaram como me fora possível participar da Resistência e prestar valiosos serviços a ela. Com mais freqüência ainda me perguntaram por que eu, um cego, escolhera fazer
isso. Permitam-me que o explique de uma maneira mais simples do que jamais o havia explicado antes.
Durante os primeiros meses da ocupação, experimentei algo como uma segunda cegueira. Isso aconteceu embora eu não fosse nacionalista. A ocupação da França fora um choque para mim; porém, pensava na opressão de toda a
Europa ainda mais do que no terrível e todo-abrangente fato da ocupação em si. Além do mais, nem eu nem minha família éramos anti-alemães. Eu tinha estudado, cheio de respeito e fascinação, a cultura e a língua alemãs.
Contudo, essa segunda cegueira, a ocupação nazista, eu a experimentei tal como a primeira.
Nove anos antes, a luz externa me havia sido tirada. Desta vez, tiraram-me a liberdade externa. Nove anos antes, eu reencontrara, dentro de mim, a luz, intacta e até fortalecida. Desta vez, encontrei dentro de mim a
liberdade, presente e exigente como sempre. Em poucas semanas, compreendi que o destino esperava de mim, pela segunda vez, a mesma tarefa. Havia aprendido que a liberdade era a luz da alma.
Ninguém tem o direito de interferir com o livre-arbítrio dos homens ou com o seu auto-respeito. Ninguém tem o direito de assassinar em nome de uma idéia — muito menos em nome de uma idéia insana. Lembrar-me sem cessar
de que a liberdade existia, e lembrar constantemente esse fato a todos que encontrava, tornou-se para mim um dever, tão incontestável quanto o de manter viva a luz atrás dos meus olhos fechados. Não houve nenhuma outra
razão para minha entrada no movimento da Resistência. Mas houve a dificuldade de como consegui-lo.
Já tinha resolvido muitos problemas, problemas relacionados com meus estudos, com a inteligência e com a vida interior. Porém, agora deparava com um muito difícil: como poderia eu encontrar um lugar na sociedade dos
outros, a fim de mostrar que era útil e necessário a eles e com eles? Jamais um cego seria admitido num grupo da Resistência. Ninguém poderia visualizar um lugar para ele.
Por isso, na primavera de 1941, fiz aquilo que, sem dúvida, tivesse eu ainda a luz dos meus olhos, nunca teria feito de uma forma tão completa e repentina: Formei, eu mesmo, um grupo no movimento de Resistência.
Em tomando a iniciativa, imediatamente invalidei todos os preconceitos. Apenas pela minha resolução, já havia provado que precisavam de mim. E isso, realmente, não foi difícil. Um trabalho feito às ocultas requeria mãos
e olhos, mas também coragem e pensamentos claros. Também era necessária uma convicção que não dependia de uma idéia, mesmo que fosse uma idéia honesta, mas sim de uma experiência adquirida dia após dia. Essa convicção,
eu a possuía.
Tudo mais aconteceu como que por si mesmo. Reuni em volta de mim várias centenas de jovens, na maioria estudantes. Editamos e publicamos um periódico clandestino. Formamos pequenos grupos de ação que pudessem tomar-se
um dia, os quadros de um movimento nacional. De fato, no começo de 1943, eu e 600 dos meus camaradas pudemos, finalmente, unir-nos ao movimento “Défense de la France”, um dos cinco mais importantes grupos não comunistas
do movimento da Resistência.
Repito: Não tenho certeza de que me teria saído bem sem minha cegueira. Foi o líder cego a quem todos os meus camaradas escolheram e em que acreditavam. Desde a primeira hora, assumi toda a responsabilidade pelo
alistamento de novos membros. Cada novo candidato era apresentado a mim, e somente a mim. Eu conversava com ele bastante tempo. Dirigia-lhe aquele olhar especial que a cegueira me ensinara. Era muito mais fácil para mim
do que para qualquer outra pessoa despojá-lo de todas as aparências. Sua voz expressava seu interior e, às vezes, o denunciava.
Finalmente, me era possível fazer uso daquela vida interior que o destino me forçara a descobrir tão cedo e tão a fundo. Servia-me dela para saber melhor o que eu mesmo queria, e para averiguar do que os outros eram
capazes. A habilidade de concatenar pensamentos e sentimentos, de ordenar, no meu coração e meu espírito, o mundo sem a ajuda de objetos, podia, finalmente, ser utilizada para uma tarefa, cujas metas transcendiam a minha
pessoa. Tenho certeza de que, durante mais de dois anos, nenhum dos meus camaradas jamais pensou nas limitações que a cegueira impunha ao meu trabalho. Eu não podia andar armado, nem percorrer as ruas de Paris com um
saco de jornais clandestinos ao ombro, nem me pôr em campo para descobrir uma base militar alemã. Meus camaradas iam em meu lugar. Porém, antes de saírem, vinham a mim para saber o caminho; depois voltavam a mim para
relatar seus triunfos, e era minha tarefa fazer um balanço dos resultados e decidir sobre novas ações.
Em poucas palavras — perdoem-me esta declaração que faço novamente contra minha vontade —, descobri que não existe cegueira quando se trata de refletir, de querer, de planejar alguma coisa, ou mesmo de ajudar os homens a
viverem. E quando, em 1943, unira meu pequeno pelotão à “Défense de la France” e me tomara, de repente, um membro de seu “Comité Directive Clandestine” e responsável pela distribuição de um jornal que saía de 15 em 15
dias, com uma tiragem de mais de 250.000 exemplares, ninguém ao meu redor se surpreendeu realmente.
O teste a que fui submetido um pouco mais tarde foi de natureza inteiramente diferente. Em julho de 1943, fui preso pela Gestapo. Isto aconteceu, como no caso de quase todos os combatentes da Resistência, por causa de
uma traição; sem traidores, a Gestapo nunca teria podido lançar sua rede sobre uma só organização clandestina. Fui interrogado durante quarenta e cinco dias; fiquei preso durante seis meses e, em janeiro de 1944, fui
levado para o campo de concentração de Buchenwald. Desta vez, minha sorte não tinha nada de extraordinário.
É impossível dizer em poucas palavras o que era um campo de concentração, e não tentarei fazê-lo. Além do mais, haveria na Europa uma só pessoa que não o soubesse? Porém, eu não era um preso igual aos outros, pois era
cego. Devo ao menos contar-lhes porque sobrevivi.
Dos 2.000 franceses que chegaram a Buchenwald no mesmo dia que eu, apenas trinta estavam vivos quando o Terceiro Exército Norte-Americano libertou o campo. O fato de eu ainda estar aqui é um daqueles trinta milagres.
Meus 29 camaradas não podem explicar melhor que eu.
Contudo, não hesito em dizer que devo à minha cegueira, mais do que a qualquer outra coisa, o fato de ter sido capaz de agüentar. Não tomem isto no sentido físico. Se consegui ser tolerado num campo onde os nazistas
aniquilavam, sistematicamente, todos aqueles que classificavam como “incapazes para o trabalho”, foi porque eu havia encontrado uma maneira de ser útil à comunidade dos prisioneiros. Tornara-me intérprete. E essa era
uma função real. Não agia como intérprete entre meus camaradas e os nazistas — estes nos ignoravam, a não ser nas horas de extermínio —, mas entre meus próprios camaradas. Nessa comunidade internacional que vivia
debaixo do terror era muito importante falar francês, alemão e, mais tarde, um pouco de russo. Eu estabelecia as comunicações, transmitia notícias; conseguia escutar as falsas notícias do alto comando da Wehrmacht e as
explicava aos meus companheiros, decifrando e corrigindo-as. Essa atividade assegurou-me um lugar entre eles. Já não era mais um inválido.
Mas isso não foi o bastante. Para sobreviver num campo de concentração, nenhum estratagema é suficiente, nenhuma forma de inteligência é bastante. Quando a morte está presente a todo minuto, quando todos aqueles que
amamos desaparecem, quando a dignidade humana se esvai, quando não existe mais um motivo concreto, nem um só motivo razoável para se ter esperança, então se faz necessário um refúgio imediato, todo-poderoso. E esse
refúgio é a fé. Todavia, frequentemente, a fé mais fervorosa não é mais que uma crença. É necessário um tipo de fé que esteja enraizada em nosso ser, uma fé que, com o tempo, se torne o nosso próprio eu. Em outras
palavras: é necessária uma experiência. Essa experiência, eu a adquirira; a cegueira me havia ensinado um dia.
Eu sabia que, quando a luz me fosse tirada, poderia fazê-la reviver dentro de mim. Sabia que, quando o amor me fosse tirado, sua fonte fluiria novamente dentro de mim. Sabia até que, quando a vida está em jogo, é
possível encontrar sua fonte dentro do próprio ser.
Sei que estas explanações podem parecer abstratas, e que não se vive de consolo teórico. Para mim, entretanto, não eram abstratas. Toda vez que a cena e as provações do campo se tomavam insuportáveis, eu me isolava do
mundo. Penetrava naquele refúgio em que a SS não me podia alcançar. Dirigia meu olhar para aquela luz interior, que havia visto quando tinha oito anos de idade. Fazia-a vibrar através de mim. E não tardei a descobrir
que aquela luz era vida, era amor. Agora podia abrir de novo os olhos — e também os ouvidos e o nariz — à matança e à desgraça. Sobrevivi a elas.
Se existe alguém que não aceita esta explicação, que é a única explicação correta, então me parece que esse alguém ignora uma verdade mais importante do que todas as demais, a saber: de que nosso destino se forma de
dentro para fora, nunca de fora para dentro. A cegueira, tal como qualquer outra grande perda, física ou moral, ensina-nos essa verdade de maneira tão cabal que, afinal, é impossível negá-la. Como posso chamar ainda de
“infortúnio” ao acidente que me trouxe uma tal dádiva?
O infortúnio eu só vim a conhecer mais tarde. Chamo, aqui, de infortúnio àquelas circunstâncias que nossos esforços pessoais são incapazes de mudar; àquelas que nos são impostas pelos preconceitos da maioria e pela
indolência dos que estão no poder.
Nunca esqueçamos que a sorte da comunidade dos cegos é a sorte de todas as minorias. Não importa se essas minorias são de origem nacional, religiosa ou física. Quando muito, elas são toleradas. Quase nunca
compreendidas.
Quando terminou a guerra voltei à minha pátria, pronto para concluir meus estudos e escolher uma das profissões para as quais me considerava mais apto: a diplomacia ou o magistério. Mas em 1942, o governo de Vichy, à
imitação dos nazistas, havia posto em vigor uma nova lei. Essa lei estabelecia as qualificações físicas exigidas aos candidatos, para serem admitidos às posições controladas pelo governo. Isto se referia,
especificamente, ao magistério e à diplomacia.
Hoje, essa lei absurda não existe mais. Porém, foram necessários dezessete anos de esforços infindos para aboli-la. E naqueles dezessete anos, descobri o abismo que separa os que vêem daqueles que não possuem a luz
dos seus olhos.
Sei que a esse respeito, a França se mostrou de uma estreiteza e de uma obstinação que não existem em outros países. Mas o exemplo francês continua muito significativo: os que vêem não crêem nos cegos.
Essa dúvida injusta e tola orientou minhas ações durante todos aqueles anos. Resolvi não lutar contra a lei diretamente, mas sim, apresentar provas. Queria lecionar. E lecionei, por assim dizer, à força. Tomei a meu
cargo lecionar sem garantias, sem emprego fixo, sem direito a pensão e sem ordenado durante as férias. Ofereci meus serviços com uma teimosia persistente. Apenas exigi que eles fossem julgados pelo seu valor real, e não
pelo que supunham que valessem. Levei avante uma batalha longa e solitária que, sem dúvida, foi a mais dura de minha vida. Mais uma vez, a história de minha luta não é minha pessoal: é a mesma luta que todos os cegos têm
de empreender.
Estou convencido de que chegou a hora de mostrar ao mundo a cegueira tal como ela é: não uma enfermidade que os que dela sofrem tentam compensar constantemente de acordo com suas capacidades — isto é, sempre de maneira
imperfeita —, mas, sim, um estado diferente de percepção. Esse estado tem as dificuldades práticas que lhe são inerentes. Um professor cego precisa de uma secretária para obter o material necessário ao seu trabalho. O
diretor cego de uma companhia comercial precisa de alguém que o acompanhe aonde quer que vá. Porém, nas condições da vida moderna, tais obstáculos dificilmente são dignos de nota. Qual o advogado, e mesmo qual o
engenheiro que, hoje em dia, poderia levar a cabo seu trabalho sem a ajuda de alguns auxiliares competentes?
Tomada realmente a sério, a cegueira é um estado de percepção que — se for aceito e utilizado — é capaz de desenvolver muitas faculdades extremamente necessárias para toda atividade intelectual e organizacional. Entre
duas pessoas de igual talento, a memória de um cego é melhor que a de uma pessoa que vê. E quando dizemos “memória”, nos referimos, ao mesmo tempo, àquela outra valiosa habilidade: a habilidade de associar fatos e
idéias, de compará-los e de perceber noves combinações.
Não existe um motivo misterioso para a memória melhor. Acontece simplesmente que os cegos, no decorrer do tempo, são forçados a memorizar mais do que aqueles que vêem. Por conseguinte, um cego, como eu já falei várias
vezes, descobre imediatamente, o alcance todo poderoso e inexplorado da atenção. Em outras palavras, ele sofre menos a distração do mundo. Por que não tirar proveito disto? Por que não destinar aos cegos aquelas tarefas
que no mundo requerem este raro talento?
Permitam-me fazer uma sugestão prática. Já que é uma realidade serem fortes os preconceitos contra os cegos e o preconceito é aquilo que o ser humano tem mais dificuldade de superar, eu gostaria de sugerir a seguinte
norma: cada vez que um cego se candidate a um trabalho, que lhe seja dada uma chance; que ele seja empregado por um período de experiência. Poderíamos planejar um estágio de seis ou doze meses durante o qual o
escritório, a escola ou a firma que o contratou não teria compromisso com ele.
De dez cegos, a nove já foi negado um emprego. Não por se mostrarem incapazes, mas porque nem mesmo lhes foi permitida a oportunidade de dar provas de suas capacidades.
Vamos permitir que eles trabalhem. Vamos confiar neles por algum tempo. Os resultados seriam provavelmente espantosos.
Estou sugerindo exatamente aquilo que consegui para mim mesmo. Na verdade, só conhecemos aquilo que experimentamos em nós mesmos. Aconteceu que, apesar das leis antiquadas, feudais de meu país, eu me tornei professor de
universidade e continuo a exercer minha profissão há vinte e quatro anos, sem enfrentar dificuldade alguma, a não ser aquelas inerentes à própria profissão em si.
Atrevo-me a dizer que lecionar é menos difícil para um cego do que para uma pessoa que enxerga. Sempre que este ponto de vista é discutido, sempre se referem à questão delicada da disciplina.
No entanto, eu lhes pergunto: será que todos os professores que enxergam são capazes de manter o respeito de seus alunos?
É óbvio que a disciplina depende da autoridade natural do professor, de sua força moral, de sua capacidade de dar vida à sua matéria. E a autoridade moral nada tem a ver com o fato de enxergar.
Sou professor há vinte e quatro anos e jamais me defrontei com qualquer dificuldade causada pela falta de visão. Na verdade, o oposto é verdadeiro.
Uma aula é um exercício do espírito e do caráter. Baseia-se inteiramente em nossa capacidade de plasmar, de formar a nossa vida interior, de transmiti-la aos outros. Quanto a isso, a cegueira é uma escola sem igual.
Por que haveria de ser necessário, quando me encontro em frente aos meus alunos, observar a posição de seus braços e pernas? Por que deveria eu observar a vaga expressão de seus rostos que transmite apenas a sua
distração ou curiosidade?
A cegueira me revelou um outro espaço que não o visto, que só serve para separá-los de mim e me separar deles. Esse outro espaço é aquele onde nascem as atividades da alma e do espírito. Eu o conheço graças a uma longa
experiência prática. É o silêncio. Um certo tipo de silêncio me mostra muito melhor o grau de interesse, de compreensão, ou de opressão que provoco em meus alunos que seria impossível conseguir com a ampliação de um
filme que mostrasse a presença física deles em câmara lenta.
O que causa, hoje em dia, o fracasso de tantos professores, tanto na Europa como nos Estados Unidos, e se está fazendo um grande alarde desse fracasso, é a sua incapacidade de sair de sua própria cabeça.
Muitos professores são competentes, muitos se esforçam de maneira louvável, mas bem poucos são capazes de penetrar no único domínio em que o ensino pode prosperar: o espaço comum entre os espíritos. Nisso a cegueira tem
me ajudado. Eu praticara durante muito tempo a técnica da troca direta entre seres humanos. Avaliar as vozes, avaliar o silêncio. Graças à cegueira aprendi avaliar muitos sinais que me vinham de outras pessoas que,
normalmente, escapam à observação dos que enxergam. Se existe um domínio em que a cegueira nos torna peritos, é o domínio do invisível.
Um auditório não é um inimigo para mim. É uma entidade nova para mim. Muitas conexões novas se formam, subitamente, dentro de mim e, como não tenho que abranger o auditório com a vista e dividir sua presença em
percepções isoladas, o que seria uma tarefa infrutífera, o auditório me fala como um todo, como uma unidade capaz de comunicar-se.
Não vou esconder de vocês o fato de que amo minha profissão. Ela me permite, todos os dias, compartilhar um pouco da riqueza inesperada, inquietante que a cegueira me trouxe.
É preciso terminar. E realmente, há mais alguma coisa que eu possa acrescentar? Talvez isto: se a cegueira é tida como uma privação, ela se toma uma privação. Se pensamos na cegueira como uma deficiência que deve ser
compensada a todo custo, um caminho talvez se abra, mas não vai longe.
Quando, pelo contrário, se considerar a cegueira como um outro estado de percepção, como um outro âmbito de experiência, tudo se tornará possível.
Continuar a ver, se bem a seu modo, é, sem dúvida, o mais importante para um cego. Eu não lhes disse que possuo olhos como vocês; disse que tenho olhos diferentes. Não lhes disse que minhas experiências são mais
verdadeiras ou mais completas. Seria uma presunção ridícula, e até mesmo uma mentira. Disse-lhes que chegou a hora de comparar nossas experiências. Quando minha esposa pinta, eu lhe pergunto o que seus olhos vêem,
indago acerca de todas as linhas que eles seguem, de todas as cores que eles encontram. Ao mesmo tempo, pinto mentalmente, dentro de mim, um outro quadro. Sei que é ela quem vê o quadro real, mas eu o vejo tão bem quanto
ela. Não é um grande milagre que haja tantas maneiras de perceber o mundo e não apenas uma?
Sim, vocês me ouviram bem: muitas maneiras de perceber — e é justamente esta a nossa chance!
Cap. 3 de «La lumière dans les ténèbres»
Chaque matin et chaque soir, il le faut bien, j’écoute les nouvelles
de la guerre. Il le faut, car je n’ai pas le droit de vivre hors de mon
temps. Et puisque c’est actuellement en Amérique que j’habite, les
nouvelles que je reçois sont celles de cette guerre inutile, de cette
guerre perdue qu’on s’obstine à mener au Vietnam. Mais plus souvent
encore, de plus en plus souvent, ce sont celles d’une autre guerre : les
nouvelles de la pollution. Et cette fois l’ennemi n’est pas à l’autre
bout du monde, il n’est pas un étranger, il n’a pas une autre histoire
que la mienne et d’autres croyances. L’ennemi, c’est moi, c’est nous. La
pollution est une guerre civile. L’ennemi, cette fois, ce sont les
découvertes sans fin de notre intelligence pratique, ce sont les rêves,
les combinaisons de nos techniques dont les retombées font des brèches
jusque dans notre vie de tous les jours, jusque dans notre vie la plus
intime. J’écoute les communiqués quotidiens de nos défaites.
Sur un territoire de trois cents kilomètres de diamètre, là où se
trouvait jadis (jadis, c’est-à-dire hier encore) la paisible réserve
indienne des tribus Navahos, le plateau du Colorado est aujourd’hui
pollué par les fumées d’une centrale thermique géante qui dévore le
charbon qu’on arrache à même le sol tout autour d’elle. Plus loin, les
immenses forêts intactes qui couvraient toute la partie sud-est de
l’Alaska ont commencé d’être exploitées. On annonce qu’elles vont être
mises en coupe systématiquement. Ce poumon qui faisait respirer le
continent nord-américain vers son nord-ouest bientôt ne fonctionnera
plus. Telles étaient hier les deux nouvelles du front.
Il est bien sans doute qu’on nous les donne. Il y a quatre ans encore,
seuls quelques audacieux, quelques pionniers songeaient à le faire. Ces
informations – je voudrais pouvoir dire cette conscience – sont devenues
un bien public. Peut-être les hommes finiront-ils par mettre fin à leur
folie. Peut-être signeront-ils enfin une Sainte Alliance pour sauver la
Terre. Mais la guerre civile, hélas, ne se limite pas à la terre, à
l’air et à l’eau. Elle fait rage au-dedans de nous. Et de ces
batailles-là je n’entends pas parler. Je voudrais, pour ma part, rompre
le silence. Il a trop duré.
Autant dire que je viens aujourd’hui partager avec vous mes inquiétudes,
mes plus profondes inquiétudes. Mais rassurez-vous : je ne suis pas de
ceux qui se réjouissent d’être inquiets. Je ne suis pas de ceux qui
cherchent dans leur panique et leur misère une source de plaisir. Je ne
serai inquiet avec vous que dans l’espoir de trouver ensemble les
vérités et les moyens qui feront que nous cesserons de l’être.
La terre est bien ce champ unique où puisse pousser cette vie que nous
avons reçue. Nous l’avons abîmée. Mais la terre n’est que la petite
moitié de notre existence : c’en est le champ visible, l’espace du
dehors. Nous avons un autre domaine à gérer : notre espace intérieur,
notre moi. Et c’est de lui que les nouvelles du matin ne me parlent
jamais. Pourtant c’est lui, c’est notre moi, qui, à ce jour, est le plus
mortellement menacé. Qu’on me permette de courir à sa défense ! Il
faudra que je me batte modestement : le moi est ce que nous avons de
plus fragile. Mais il n’est plus permis de dormir ni même de patienter.
Notre moi. Le mot est si fort et si vague qu’il exige, dès le départ, un
éclaircissement.
Il existe deux niveaux du moi, comme il existe en toutes choses un
dehors et un dedans. Ou, si vous préférez, comme il existe pour chacun
de nous deux formes sous lesquelles nous nous présentons à autrui : les
vêtements et la personne. Or, de nos jours, quand on consent à parler du
moi, c’est presque toujours d’une de ses formes que l’on parle, c’est de
ce niveau où il n’est qu’une surface, c’est de ce que je n’appellerai
pas le « moi », mais l’« ego ».
Notre ego, c’est cette envie que nous avons tous – pas un seul de nous
n’en est exempt – de ne pas ressembler tout à fait à tout le monde, de
nous signaler à tout prix par quelque chose – et franchement, par
n’importe quoi –, d’obtenir pour nous-mêmes une plus grosse part de ce
butin qu’est la vie, d’avoir raison même quand nous avons tort. C’est
lui, c’est notre ego qui crée ces monstres dont personne ne songe à dire
du mal : la jalousie, la concurrence. C’est lui qui crée le fanatisme et
l’autoritarisme qu’on voudrait prendre pour de l’autorité. L’ego, c’est
cette force qui cherche à nous séparer les uns des autres. Et vous savez
bien tous quel est le mal de notre siècle, celui qui a si tristement
remplacé la mélancolie des Romantiques : le mal de la non-communication.
Si nous en sommes atteints, la pente est fatale : plus nous serons
nous-mêmes, plus nous serons seuls. Tel est le verdict. Tel est le
poison de l’ego. On le sait, on l’écrit. Mais que fait-on pour le
combattre ? En vérité, on le flatte.
De l’ego, de cette partie trompeuse de notre moi, tout le monde
s’occupe. Et les éducateurs en premier. Autrefois, les élèves des écoles
– et même les étudiants des universités – avaient tort, chaque fois
qu’ils ne travaillaient pas ou ne comprenaient pas. Tout leur mérite
était dans leurs efforts, mais bien plus encore dans leur succès.
Aujourd’hui on court au-devant de l’ego de chaque élève. S’il allait
être blessé ! On invente des vérités communes, des difficultés moyennes,
afin que pas un ego ne se sente dominé. Et puisqu’il est un point, dans
chaque type de travail, que la majorité des egos ne semble pas pouvoir
dépasser, on décrète que ce point est le but des études.
Ce n’est pas tout, et les éducateurs ne sont pas les plus coupables :
les hommes de la publicité se sont emparés de l’ego. Tout leur travail
consiste à se saisir des caprices individuels, dès qu’ils sont partagés
par un nombre suffisant de clients, et à en faire des vérités morales,
des comportements licites et dignes de respect.
Ce qu’ils oublient tous, c’est que l’ego n’est pas le moi, mais la
surface passagère, tremblante, arbitraire du moi, et qu’à force de
donner à l’ego tous les droits, on tue le moi.
Je vous le disais : le moi est fragile. Ce n’est même pas, en chacun de
nous, un bien que nous possédions, un ensemble de facultés dont nous
puissions faire le compte avec orgueil. C’est un élan, tout au plus un
élan. C’est une force qui est encore toute proche de sa naissance. C’est
une promesse, si vous voulez, qui est faite à l’homme de pouvoir un jour
exister autant que l’univers, de pouvoir un jour regarder le monde, les
yeux grand ouverts, et se regarder lui-même, et reconnaître qu’il existe
un ordre, un rapport nécessaire entre ce monde et lui. Bref, le moi,
c’est encore si peu de chose qu’un rien suffirait à nous l’ôter. Or je
vois qu’on lui fait la guerre.
Parlons du moi, du vrai. Essayons de le faire. Ce que j’appelle le moi,
c’est ce mouvement, cette impulsion qui me permet de me servir des
quatre éléments (oui, de cette terre sur laquelle je vis), mais aussi de
mon intelligence et de mes émotions, voire de mes rêves. C’est une
force, en somme, qui me donne un pouvoir qu’aucune autre ne me donne :
ne pas attendre pour vivre que la vie vienne à moi. L’ego avait besoin
des choses, du plus grand nombre possible de choses (qu’elles
s’appellent l’argent, la réputation, l’approbation, le commandement, les
récompenses). Le moi n’en demande aucune. S’il est là, s’il est au
travail, il pose un monde en face de l’autre, en face du monde des
choses. Il est la richesse au milieu de la pauvreté. Il est l’intérêt
quand tout autour de nous s’ennuie. Il est l’espérance quand toutes les
chances objectives d’espérer ont disparu. C’est de lui que provient
toute l’invention des hommes. C’est, finalement, ce qui nous reste quand
tout nous est retiré, quand rien ne nous arrive plus du dehors et que
nos forces sont assez grandes pour compenser ce vide.
Jamais, c’est vrai, le moi de l’homme n’a été très fort (sauf chez
quelques individualités isolées) et notre époque n’est sans doute pas
plus démunie que toutes celles qui l’ont précédée. Mais, de nos jours,
un fait nouveau intervient : on voudrait chasser le moi, le chasser pour
de bon, se défaire enfin de ce voisin bizarre, de cet habitant confus.
On lui fait la guerre, et la plus dangereuse de toutes les guerres, car
personne ne s’avise de la déclarer.
Voulez-vous bien faire un exercice avec moi ? Tenez ! cela coûte si
peu : engageons-nous à le faire dès ce soir. Ce soir, à l’heure d’aller
nous coucher, arrêtons-nous deux minutes. Deux minutes suffisent. Deux
minutes, c’est long pour un homme qui s’arrête. Et demandons-nous ce que
nous contenons. Ce que je vous propose, en somme, c’est un examen de
conscience. Oui, mais concret et, si je puis dire, matériel. Car il y a
en chacun de nous un espace intérieur et qu’il faut traverser, parcourir
comme un espace véritable, en regardant quels objets sont là et où ils
sont.
C’est un grouillement d’images et de sons que nous allons trouver – des
sons qui éclatent et ne se terminent pas, des bouts d’images dont aucune
ne réussit à devenir une forme. Nous allons même trouver des objets plus
vagues encore, des sortes de poussées, des mouvements qui ont la force
de besoins. C’est le bric-à-brac ordinaire d’une conscience. Il n’y a
vraiment pas de quoi s’étonner. Mais nous allons nous poser une autre
question : ces morceaux d’images et de sons, ces fragments de désirs,
sont-ils à moi ? Sont-ils à moi, ou d’autres les ont-ils mis en moi ?
Est-ce ma voix que j’entends ainsi – ma voix quand je parlais tout à
l’heure à quelqu’un ? Est-ce la voix de ma femme, de mes enfants, de mes
amis, d’êtres vivants ? Et ces images, est-ce qu’elles me rappellent les
objets dont je me suis servi, les lieux où j’ai marché, travaillé ? En
vérité, c’est bien peu probable. Les images, ce seront celles de la
télévision (pourtant, je ne l’ai regardée qu’une heure). Ce seront
celles de toutes ces pancartes, de tous ces signaux qu’on a brandis sous
mon nez depuis le matin dans les rues de ma ville, sur la première page
des journaux, aux devantures des magasins et jusque sur le paquet de
lessive que j’ai acheté en rentrant. Les voix, ce seront celles des
miens, mais jamais seules, toujours mêlées à d’autres voix étrangement
familières et entièrement indifférentes – celles de toutes ces femmes et
de tous ces hommes que je ne rencontrerai jamais, auxquels je n’aurais
du reste rien à dire et qui ne me parleront pas. Comment ! mais ils me
parlent ! Ils ne font que cela, à la radio, à la télévision, au cinéma,
au téléphone, sur papier, sur bande magnétique… Ils le font, et pourtant
rien n’a lieu. Ils ne savent pas à qui ils s’adressent. Ils parlent,
mais c’est parce qu’ils savent que, de nos jours, la parole se vend.
Telle est l’odieuse découverte : mon espace intérieur n’est plus à moi.
J’y trouve encore quelques objets personnels, mais comme une épingle
dans un tas de foin. Et mon espace intérieur n’est pas non plus aux
autres : je n’ai pas eu le projet de le leur donner. Il n’est à
personne. Il est jonché d’objets. Il existait déjà des cimetières de
voitures, et je m’en plaignais, car ils détruisent le paysage. Mais
voici qu’à mon tour je deviens cimetière de mots, de cris, de musique,
de gestes que personne ne fait pour de bon, d’informations, de recettes,
de séquences cent fois répétées et que personne ne veut.
C’est entendu : toute la soirée j’ai été distrait. La télévision, je ne
l’ai pas vraiment regardée. La radio, elle était branchée, mais je ne
l’écoutais pas. Quant à la musique de fond à la cafétéria à midi et dans
les ascenseurs, je ne sais même plus si elle fonctionnait. Et les
réclames, cela fait longtemps que je ne sais plus ce qu’elles disent.
Alors comment pourrais-je être atteint ? le piège est là, mais je suis
hors du piège. Du moins, je le crois.
Pourtant, tous ces bruits, tous ces flashs dans ma tête, il n’y a pas de
doute : ils ne sont pas à moi. Mon moi peut les ignorer, il peut
chercher encore à vivre sans eux. Mais où vivra-t-il ? La place est
prise. Le monde extérieur a semé ses détritus partout.
Et c’est ici qu’il faut avoir du courage. Le courage de dire ce qu’au
fond nous savons tous, mais ce dont nous n’avons plus la force de
témoigner. Un être humain auquel je laisse le droit de me parler sans
être en mesure de lui répondre n’est pas un être humain tout à fait. Ce
n’est pas un être humain, mais il agit sur moi. Une musique que je n’ai
pas choisi d’écouter construit en moi des formes. Elle le fait, même si
je n’ai pas su que je l’entendais. Et ces formes ne sont plus de la
musique ; elles galopent sans ordre, elles me modèlent à mon insu. Et
tous ces voyages que je fais en images, de Harlem à Pékin et de Suez à
Cuba, je ne les ai pas faits, je ne les ai pas voulus, je ne me suis pas
déplacé d’un pas, ils sont à jamais inutiles.
Il n’y aura bientôt plus un pouce de notre espace intérieur qui ne soit
piétiné chaque jour. L’amour, l’amour lui-même (et qui aurait dit qu’il
sortirait un jour du refuge le plus intime des êtres ?) devient
spectacle : on s’est mis à le faire devant nous.
Tout cela ne serait pas très grave si les hommes n’étaient que des
machines. Mais il se trouve qu’ils sont un peu autre chose, car ils
possèdent un moi. Et le moi a ses règles. Employons un autre mot : le
moi a ses conditions de croissance. Il se nourrit uniquement des
mouvements qu’il fait. Ceux que d’autres font à sa place, loin de
l’aider, l’appauvrissent.
S’il n’a pas fait de lui-même la moitié du chemin vers les choses, les
choses le repoussent, elles le réduisent, elles n’ont de cesse qu’il ne
s’absente et qu’il ne meure. Ce fait très simple, la psychologie
objective aurait sans doute bien de la peine à le prouver. Mais qui
parle ici de psychologie ? La mort du moi est un fait d’expérience. Et
si cette expérience, la plupart de nos contemporains ne la font déjà
plus, n’est-ce pas parce que leur moi les a fuis déjà ?
Les conditions de croissance sont sévères. Elles le sont pour tout ce
qui vit. Nous venons de découvrir qu’elles l’étaient pour les bêtes et
les plantes, pour l’air et pour les eaux. Mais le moi, le moi humain est
le plus instable de nos biens. Et les ravages sur lui de la pollution
vont si vite qu’on ne les nomme déjà plus. C’est pire : on leur donne
d’autres noms.
Tout le monde aujourd’hui, par exemple, respecte l’opinion publique – ou
fait semblant. Les sondages d’opinion sont en voie, nous le savons tous,
de remplacer les conversations. On interroge les gens sur tout, mais on
les interroge par classes sociales, par groupes d’âge, par unités
professionnelles, par unités géographiques. Et on publie leurs réponses,
toutes leurs réponses en pourcentages. Un jour, n’en doutez pas, on
sondera l’opinion pour savoir s’il faut encore se marier ; un jour plus
lointain (mais plus proche peut-être que nous ne le pensons) pour savoir
s’il vaut encore la peine de vivre. Car on croit aux réponses.
Finalement, on y croit. Et je ne rencontre plus que des poignées de
gens, de-ci de-là, pour soupçonner que les statistiques ne sont pas des
réponses.
Une majorité, une moyenne, ce ne sont pas des réalités ! Ce ne sont des
réalités que pour l’intelligence abstraite, c’est-à-dire pour la
manipulation des foules – je veux dire de leur inconscient. Pour le moi,
ce n’est rien. C’est à peine une constatation. Le moi, s’il ne dort pas
tout à fait, sait qu’une vérité ne consiste jamais dans ce que la
plupart des gens font ou disent. Il sait qu’une vérité, c’est ce qui
apparaît à la pointe extrême de chaque expérience, d’une expérience
faite personnellement et jusqu’au bout. Il sait que l’utilité, la
légitimité d’un comportement ne dépend à aucun degré du nombre de fois
que ce comportement est pratiqué.
Il me semble que nous ne vivons plus que de chiffres et qu’à chacun nous
donnons les privilèges d’un dieu. L’étrange mythologie que la nôtre !
Mais si du moins nous savions que c’est une mythologie – et très
primitive !
L’homme moyen n’existe pas. Tout le monde le sait, et les statisticiens
tous les premiers. C’est pourtant à ce non-homme que nous donnons la
plupart de nos soins. L’autre, celui qui est capable de changement,
celui qui, se découvrant moyen, ne supporterait pas cet état, celui qui
ne dirait « je sais » que si c’était lui qui savait, il étouffe. Il
s’enfouit chaque jour davantage sous l’avalanche des faits collectifs.
Et bientôt, si nous ne travaillons pas avec l’acharnement d’un
sauve-qui-peut, la vérité ne sera plus que ce que le plus grand nombre
pense ; le bien ce que le plus grand nombre fait. Pour une fois, moi qui
ne recommande pas l’angoisse, je dis : « Soyons angoissés ! ».
Ne nous y trompons pas : c’est la guerre contre le moi. Et ceux-là mêmes
qui, traditionnellement, vivaient le plus près du moi, qui en étaient
comme les conservateurs et les prophètes, je veux dire les intellectuels
et les artistes, nous les voyons aujourd’hui, par bandes entières,
rejoindre l’armée des agresseurs.
Pendant des siècles, un écrivain, un musicien, un peintre, c’était un
homme qui exprimait un point de vue sur le monde. Et son point de vue
était le sien et n’était pas celui des autres. Mais il était le sien
avec une telle force qu’il finissait par retrouver le domaine de
l’universel. Même les réalistes, s’ils cherchaient à se faire tout
petits devant les faits, ne s’absentaient jamais entièrement de leur
œuvre. Or, depuis une quinzaine d’années, nous voyons apparaître des
créateurs dont le désir manifeste n’est pas seulement de se rendre le
moins visibles possible, mais de ne pas être dans leurs œuvres. Au lieu
du moi, il y aura un regard, une conscience qui constate. Les
événements, les personnages même ne seront plus rapportés à celui qui
les voit ou les imagine. Est-ce là une entreprise honnête ? Honnête, je
le crois. Mais est-ce une entreprise sérieuse ? Ce regard impersonnel
peut-il être autre chose qu’une idée, une abstraction ? Quand Alain
Robbe-Grillet, pour citer un auteur de mon pays, écrit un roman comme La
Jalousie, est-il bien réellement absent de son récit ou fait-il semblant
de l’être ? Le seul fait de choisir des mots, d’écarter certains objets,
certaines lumières et d’en retenir d’autres, n’est-ce pas déjà, et
nécessairement, un choix et l’affirmation d’une présence ? Mais peu
importe. Je n’ai pas le projet de faire ici le procès du « nouveau
roman », et toute tentative de l’esprit est captivante. Ce qui
m’intéresse, bien plus que le succès ou l’échec de ces œuvres, c’est
leur intention. Des artistes, aujourd’hui, ont peur du moi. Ils font
tout ce qu’ils savent faire pour qu’il n’entre plus dans le jeu de la
connaissance. Ils ouvrent toutes grandes les portes à ce qui n’est pas à
eux, à ce qui, croient-ils, n’appartient en propre à personne. Je citais
Alain Robbe-Grillet. Nous pourrions tout aussi bien songer à ce
compositeur américain : John Cage. Cage, à son tour, construit des
ensembles de sons dont aucun n’a été inventé, mais qui ont tous été
empruntés à l’univers des bruits extérieurs. Et Cage aussi bien que
Robbe-Grillet commandent aujourd’hui l’attention. Le public n’aime pas
souvent ce qu’ils font, mais il croit que leurs efforts traduisent la
pente nécessaire de notre époque.
Eugène Ionesco et Samuel Beckett vont plus loin : ils mettent en scène
le départ du moi. Ionesco le fait sans commentaires et, si je puis dire,
brutalement. Chez Beckett, le moi est non moins violemment congédié,
mais son absence prend l’acuité d’une nostalgie, la force insupportable
d’une douleur physique. Chez Beckett, il se forme une métaphysique de
l’absence du moi qui, à certains, apparaît comme la promesse d’un
retour. C’est néanmoins une métaphysique de l’absence et non de la
présence.
Les intellectuels, par dizaines, ne s’occupent plus du contenu de la
pensée, mais de sa forme. Ils ne se soucient plus du rapport qui existe
entre celui qui pense et ce qui est pensé, mais de tout ce qui, selon
eux, existe sans nous : les méthodes, les structures. Et les
conséquences de ce choix vont jusqu’aux détails concrets ; je vois se
multiplier les études pédagogiques dans lesquelles il n’y a plus de
maître ni d’élève, mais une troisième réalité – celle-là dépourvue de
moi : un ordre de phénomènes, un système.
Bref, on court vers l’objet, vers la machine. On veut oublier celui pour
qui la machine est faite (oui, même la machine de l’univers). On
donnerait cher pour se débarrasser enfin de ce hasard encombrant, de cet
imprévu obstiné qu’est l’homme, de ce risque impossible à programmer
qu’est le moi dans l’homme.
Il est vrai que les jeunes protestent. Depuis quelques années, ils
protestent jusque dans nos rues. Il est vrai qu’ils semblent ne pas
aimer ce monde sans caprices, sans rêves, sans ombres, sans repos, sans
inutilité. À leur sujet, on s’est mis récemment à parler – et notamment
en Amérique – d’une « contre-culture ». Je ne puis m’empêcher devant
leur refus (et même s’il prend les formes détestables de la bagarre
physique et de la confusion des idées) d’éprouver une délivrance. Ils
ont un moi et ils s’en doutent. On ne les a pas encore persuadés du
contraire. Peut-être veulent-ils le garder. Peut-être en seront-ils
capables mieux que nous.
Ce sont les barricades dans toutes les grandes villes d’Europe et sur
tous les grands campus universitaires d’Amérique. C’est même – pourquoi
pas – Woodstock et tous les festivals rock de l’Atlantique au Pacifique
et jusqu’en Provence. Mais je ne peux m’empêcher non plus de me poser la
question : est-ce bien réellement le moi qui manifeste ?
Car il y a chez ces dizaines de milliers de jeunes un vrai besoin de
connaître leurs besoins – les vrais, ceux qu’on ne leur vend pas, ceux
qu’ils ne pourront pas acheter ; mais aussi, et presque toujours en même
temps, le plus soudain, le plus global abandon à ce qui n’est pas à eux.
Nous le savons bien : une fois qu’ils ont quitté la rue, la drogue n’est
pas loin.
Et tout d’abord, la plus commune de toutes les drogues, celle à laquelle
on ne pense pas comme à un poison : l’effusion collective. Le festival
rock a lieu sur fond d’oubli. Il est fait pour augmenter la présence,
pour faire tomber toutes les barrières, pour libérer l’élan personnel
vers l’amour d’autrui et vers la joie que tout soit vivant mais il se
fait sur des incantations, il exalte le rythme, il proclame l’anonymat
des corps, il exorcise les différences individuelles ; bref, je crains
qu’il ne prépare le règne du « non moi ». J’ai vu des « hippies »
heureux sur les places de San Francisco, absorbés dans leur bonheur au
point d’ignorer pendant des journées entières les passants. Mais leurs
regards n’étaient pas tournés vers eux-mêmes et leur musique avait
l’uniformité implacable d’une fuite.
C’est qu’il n’est pas facile de posséder un moi, et moins encore de le
tenir. C’est que la recherche du bonheur n’en est peut-être pas le
moyen. Et me voici jeté contre ce problème, le plus irritant et le plus
urgent de tous, que je voudrais tant pouvoir éviter, mais que les faits
m’interdisent de taire : le problème qui est si bien nommé celui du
« voyage », les voyages de la drogue. Et vers quels pays ?
Je soupçonne qu’on se battra longtemps sur le degré de nocivité de
chaque drogue particulière. Si l’héroïne n’a aucune chance de réussir à
l’examen, la marijuana, elle, est sur le point de passer. Il suffira,
n’est-il pas vrai, de la traiter comme le tabac, de la commercialiser,
de la rendre licite. On en parle déjà aux nouvelles du matin, pas tous
les jours, mais plus d’une fois par semaine. Je ne chercherai pas à
trancher. Je ne suis pas spécialement curieux de savoir si la mescaline
crée ou ne crée pas une accoutumance sans retour. À mes yeux, toutes les
drogues, discrètes ou despotiques, posent le même problème, et qui n’est
pas d’ordre médical – pas en premier lieu : faut-il confier le destin de
nos âmes à des corps chimiques ? Faut-il devoir notre sommeil à des
somnifères, notre paix à des herbes, notre joie à des substances
hallucinogènes ? Cela est-il raisonnable ? Cela est-il permis ? Et je ne
veux pas dire permis par la morale (de toute façon, la morale change
continuellement et presque toujours elle se trompe), mais par l’ordre de
la nature. Et c’est la question que je n’entends jamais poser, du moins
dans les cercles officiels.
Je comprends pourquoi tant de jeunes aujourd’hui courent vers la drogue.
Je comprends, soyez-en certains, qu’ils veuillent tirer un rideau sur ce
monde où l’on massacre tous les jours des populations ou des forêts
entières, où la persécution n’est plus une fureur mais une science. Et
en effet comment supporter à la longue cette civilisation où l’âme est
rapetissée, canalisée, étiquetée, insultée ? Comment se satisfaire d’une
société où l’imagination ne sera bientôt plus bonne qu’au remplissage
des loisirs, où l’on voudrait tout peser jusqu’au bonheur – comme on
pèse du ciment, des engrais ? Je comprends qu’ils soient pris d’un désir
unique : s’en aller. Mais s’ils partent, arrivent-ils ? Il faudrait leur
dire à tous qu’ils n’arriveront pas.
J’avais un ami très cher (c’était il y a près de quinze ans). Cet homme
avait une vaste culture, mais il disait ne pas être musicien. Et cette
lacune le gênait. Pour lui la musique était agréable, mais obscure. Il
la percevait comme une masse ; il n’en distinguait pas les parties. Or
cet homme, un jour, a fait l’expérience de la mescaline et, sous l’effet
de cette drogue, il a écouté l’enregistrement de la messe en si mineur
de Bach. Ô merveille ! Dès les premiers instants, les diverses voix des
chœurs du « kyrie » étaient là pour lui, chacune distincte. Quelques
jours plus tard, il m’a conté sa découverte. J’ai dit : « Recommençons,
mais sans la mescaline ». Il n’entendait plus les voix du chœur
séparément, il ne percevait plus leur destin.
C’est ainsi que travaillent toutes les drogues. Elles nous reprennent ce
qu’elles nous donnent. Elles nous comblent, puis elles nous vident. Avec
elles nous visitons des terres étranges et lointaines, mais le voyage
terminé nous ne pouvons plus les décrire, et nous n’y emmènerons jamais
personne. Et la cause en est simple : c’est que nous ne nous étions pas
emmenés nous-mêmes. Nous avions laissé notre moi derrière nous.
Toutes les drogues, sans exception, travaillent contre le moi ; elles
s’acharnent sur lui. Elles vivent de son absence. Et c’est pourquoi, à
mes yeux, leur monde ne sera jamais le monde des hommes.
Mais alors, faut-il nous contenter du peu que nous avons ? Car je n’ai
pas hésité à l’admettre : le moi en nous n’est pas fort. Il nous laisse
en état de famine. Il ne nous livre encore que de bien faibles armes
contre tout ce qui n’est pas lui. C’est vrai, nous sommes bien mal armés
contre l’invasion des calculs, de la matière, de l’abstraction. Mais
c’est une raison de plus pour ne pas abdiquer une seule parcelle de ce
que nous possédons de moi.
Au reste, ne dirait-on pas que ce monde de l’abstraction et des objets
se sert de la drogue contre nous ? Quelle permission inespérée notre
sommeil lui donnerait ! Représentons-nous (si la pensée n’en est pas
trop intolérable) la vie humaine divisée en deux parts égales : l’une où
tout serait soumis aux nombres, à la vitesse, à l’efficacité matérielle,
à la production, à l’obéissance ; et l’autre on tout irait se blottir,
puis se dissoudre dans l’univers parallèle de la drogue. Enfin,
l’insoluble problème de la conduite des hommes, de leur mise en
esclavage (insoluble pendant des millénaires) ne se poserait plus. Il
suffirait d’approvisionner. Et pardonnez-moi cette hypothèse, mais elle
s’impose à moi : je comprends mal à ce jour la politique de
superarmement des grandes puissances, alors qu’un réseau d’espionnage et
de persuasion indirecte, une lente campagne secrète de diffusion de la
drogue leur assurerait si bien, à brève ou longue échéance, le sommeil
de l’ennemi, c’est-à-dire le but idéal de toute guerre.
J’aimerais penser que je dramatise sans le vouloir. Mais je ne crois pas
dramatiser. Ce germe d’humanité en chacun de nous, notre moi, a besoin
de nous. Or déjà nous l’avions oublié afin de laisser notre esprit libre
de toute entrave dans la construction du monde technique et abstrait.
Mais voici que la drogue chasse le moi d’un autre refuge : celui de nos
émotions. Ce n’est pas assez dire : celui de notre âme même. La
tristesse et la joie avaient toujours appartenu aux hommes. C’était leur
domaine réservé. C’était leur honte ou leur fierté. Allons-nous renoncer
à l’une et à l’autre ? Allons-nous demander l’éloignement de la
tristesse et l’augmentation de la joie à d’autres forces que les
nôtres ? Mais s’il en est ainsi, nous qui étions déjà si fragiles, nous
allons tous nous briser comme verre ! Je garde encore le souvenir – et
qu’on le note bien c’était avant la marée de la drogue – de ce rapport
fait par un psychologue de l’armée américaine au sujet de soldats
américains faits prisonniers par les Chinois pendant la guerre de Corée.
Ces hommes avaient été soumis à un brain washing (lavage de cerveau)
rigoureux. Et dans cette thérapeutique d’enfer, il y a certes de quoi
arracher leur moi aux plus fidèles. Mais ce dont ce psychologue de
l’armée ne se consolait pas, c’était la rapidité avec laquelle on avait
pu ôter de la tête et du cœur de ces jeunes Américains tout ce qui
faisait qu’ils étaient Américains, la croyance à leurs droits, à leur
égalité, et jusqu’à la croyance en leur bonheur. Pour moi ce n’est pas
étonnant. Cette force que nous appelons le « moi », elle a touché tous
les humains, mais elle n’est pas rivée à leur corps. Elle ne demande
qu’à céder sa place. Elle appelle sa submersion par les objets, les
chiffres, les systèmes, les plaisirs sans fin et les drogues. Et c’est
pourquoi j’ai dit qu’il y avait danger, qu’il y avait urgence. La
pollution du moi va plus vite que celle de la terre.
Peut-être certains d’entre vous se demandent-ils depuis un moment au nom
de quelle sombre philosophie je nourris, sur le destin du moi humain,
des craintes aussi graves. Qu’ils en soient bien sûrs : il ne s’agit pas
de philosophie, il s’agit d’expérience. Et qu’ils me permettent, avant
de terminer, de me reporter à un épisode de ma vie.
En janvier 1944, j’ai été déporté, en compagnie de deux mille autres
Français, au camp de concentration de Buchenwald. Dès notre entrée au
camp, le règlement voulait que toutes nos affaires personnelles nous
fussent retirées : nos vêtements, nos alliances, et jusqu’à nos
appareils orthopédiques. Aussitôt après, nous passions dans une seconde
salle, où nous devions nous immerger – la tête aussi bien que le corps –
dans un bain de xylol, ce désinfectant très fort. Après quoi on nous
poussait dans une troisième salle. Là, des fils pendaient au plafond et
au bout de chaque fil il y avait une tondeuse électrique. Alors,
méticuleusement, des préposés fauchaient tous les poils de notre corps.
Cette mesure, comme tant de celles prises dans les camps de
concentration, résultait clairement de deux projets mêlés : assurer
l’hygiène et infliger une humiliation.
Par fournées d’une trentaine d’hommes, nous passions sous la tondeuse.
Je connaissais mes camarades : nous venions de vivre trois jours et
trois nuits dans les wagons à bestiaux du transport. Tous étaient ce
qu’on appelait alors des « prisonniers politiques », c’est-à-dire des
hommes qui avaient participé volontairement à la résistance contre le
nazisme. Aucun d’entre eux n’était un lâche aucun d’entre eux n’avait de
remords. Je pouvais compter sur la force de chacun. Or tout à coup,
pendant cette opération dérisoire de la tonte, j’ai eu la stupeur
d’entendre des sanglots. Oui, plusieurs hommes pleuraient. L’un d’eux
était un médecin renommé, l’autre un boulanger, l’autre un professeur de
sociologie… Bref, des hommes bien différents les uns des autres. Bien
différents, pourtant ils pleuraient ensemble. Et leurs larmes semblaient
dire : « Laissez-moi ce que j’ai ! »
Ces hommes, au cours des jours suivants, j’ai voulu les interroger. Oh !
n’allez surtout pas croire que je les méprisais ! Quand on a traversé
certaines épreuves, on ne saurait plus éprouver qu’affection envers la
faiblesse. Mais que leur était-il arrivé ? Je ne pouvais pas me passer
de le savoir. Or les réponses du boulanger et celles du sociologue ont
été les mêmes. Elles ont été réticentes, hésitantes, mais claires. Sans
leurs vêtements, sans leurs cheveux, ces hommes ne se sentaient plus
vivre. Déshabillés de leurs apparences, personne ne les reconnaîtrait
plus. Cette idée les jetait dans une pauvreté qu’ils ne supportaient
pas.
Mais telle n’est pas la fin de mon récit. L’incident de ces hommes en
larmes avait eu lieu le 24 janvier. Le 1er mars, ils étaient tous morts.
Je dois rappeler ici que nos conditions d’existence à Buchenwald étaient
très dures. Mais elles ne l’avaient pas été plus pour ces hommes que
pour tous les autres. Ils étaient morts (comment ne l’aurais-je pas
compris ?) par défaut du moi, par arrêt du moi.
Depuis deux ou trois siècles, des penseurs ont cru pouvoir parler de la
mort de Dieu. Certains l’ont annoncée comme un fait. J’ai toujours tenu
leur annonce pour un cas flagrant et pathétique d’abstraction. Dieu ne
saurait pas plus mourir que le moi de l’homme. Aussi, quand je dis que
notre moi est fragile, est-ce dans un sens bien particulier.
Notre moi est fragile, parce qu’il diminue chaque fois qu’il ne
travaille pas. Ce n’est pas un décret de l’intelligence : c’est une loi,
et dont nous sentons l’exigence aujourd’hui avec plus de force que
jamais. Si notre moi s’abandonne à autre chose que lui-même, nous
devenons immédiatement des victimes. Notre plaisir grandira pendant
quelques instants, car il y a un plaisir du sommeil. Mais jamais nous ne
connaîtrons plus la joie.
Et n’est-ce pas, après tout, le sens vrai de ces mots que tant
d’entre nous prononcent chaque jour : « religion » ou, dans un autre
vocabulaire « yoga » ? L’un et l’autre mot signifie « réunion »,
établissement d’un lien. Ce lien entre l’homme individuel et le principe
universel, il ne suffit assurément pas de le nommer : il faut encore le
désirer consciemment. Et si j’ai des craintes à ce jour, c’est parce que
je vois augmenter le nombre des hommes qui ne le désirent plus. Mais je
n’oublie pas que le travail du moi, quoique lent et difficile et soumis
à tous les pièges des idées et des apparences, est, de tous ceux que
nous pouvons faire, le plus chargé d’espérance. Et je sais que je ne
suis pas le seul ce soir à l’aimer et à l’entreprendre.
LA MORT
DEVIENT LA VIE
L’ordre ancien éclatait. Une image de moi-même toute nouvelle, de moment
en moment, se formait, montait devant mes yeux. C’était, pour la
première fois, une image pacifique.
Une sphère très lumineuse : j’étais au centre. Mais, autour d’elle, une
zone obscure. Dans la lumière, à l’intérieur de moi, le silence, à
l’extérieur dans l’ombre, le bruit.
Autrefois, je vivais à la frontière de moi-même, contre l’obscurité. Je
m’occupais seulement des objets et des êtres qui bougeaient à travers
l’ombre. Maintenant je m’étais éloigné. Aussitôt les départs se
multiplièrent.
Les premiers, je vis mes souvenirs me quitter : ils s’étaient jetés dans
l’ombre extérieure. Je les voyais danser au loin, séparés de moi : ils
étaient de petits êtres tristes, toujours tristes, même à travers leur
sourire, tout agités de querelles, de regrets. Et par-dessus tout, ils
détestaient la vie. Ils la comparaient toujours à eux-mêmes.
Mon passé pourtant subsistait. Mais, au centre de la lumière, il n’était
plus qu’une grande présence semblable à celle d’un travail achevé : la
présence d’un espace.
Dans cet espace, plus d’accidents, plus de visages particuliers, plus de
ces voix que mes réponses allaient assourdir, comme autrefois. Mes amis,
mes parents étaient là, mais ils étaient là vraiment ; rien d’eux ne
cherchait à me fuir. Le bonheur qui me venait d’eux, je le vivais d’un
seul coup, sans qu’il eût besoin de durer. Je ne demandais plus même
qu’il revint.
Puis mes craintes partirent. L’obscurité les aspirait à leur tour.
Il me sembla que j’étais nu au milieu d’une prairie très douce et
chargée de soleil. Mais le soleil n’était droit et efficace qu’en un
seul point de la prairie : je devais me tenir là immobile. Plus loin, à
la façon d’une vague, le soleil mourait et c’était, dans un cercle
étroit et dressé, la tempête d’une forêt sans lumière.
Au même instant, je vis une source qui jaillissait du ciel, mais dont
l’eau palpitait comme l’air d’été. Je voulus couler avec elle, m’établir
dans son tremblement. Je ne pouvais plus abandonner son cours : c’eût
été perdre la vie.
Vraiment j’assistais à tous ces spectacles. Mon corps lui-même y
participait. Je n’éprouvais ni l’incertitude des rêves ni l’agitation de
l’état de veille. Simplement, le point central de mon être s’était
déplacé.
Ma pensée, dans cet espace nouveau, ne s’appliquait plus à aucun objet :
elle était libre. Il n’en résultait pas une sensation de vide, mais de
puissance entière.
Ma conscience vivait, très petite, très faible, un pouvoir à peine
exercé, mais si animé et sensible en moi qu’elle pouvait diriger mon
esprit d’un bout à l’autre de mon corps, transporter mon corps et le
maintenir.
Je ne rêvais pas : de cela j’étais tout à fait sûr. La sphère lumineuse,
la source, le soleil, je ne les avais pas fabriqués : ils m’étaient
donnés. Ils indiquaient à travers moi le passage d’une force et d’une
volonté.
Cette volonté, ce devait être la mienne ; je ne m’étais jamais senti si
proche de mon existence. Et en même temps c’était la volonté d’un autre.
Cet autre avait chassé mes souvenirs, chassé mes craintes et mes espoirs
aussi qui n’étaient pas des espoirs véritables puisqu’ils étaient nés de
ma peur. Il voulait que je fusse beaucoup plus simple qu’autrefois,
qu’aucune image involontaire ne demeurât en moi, aucun chagrin non plus.
Au centre de cette lumière qu’un autre me donnait, il y avait une
consolation immense.
Je n’étais donc plus seul. J’étais en face de moi-même. Et quand je me
rencontrais ainsi, je n’avais justement plus d’intentions, plus de
griefs. J’étais là très assuré, sans autre désir que celui de rester où
j’étais. Et je devenais très mince, toute nuit écartée. À travers moi
quelqu’un marchait.
Des mots encore, des noms parcouraient ma tête : Dieu, le spirituel, la
vie intérieure. Mais ils n’agissaient pas sur moi, car à chacun d’eux je
donnais plusieurs significations, j’établissais entre eux des rapports,
je les calculais, je les disposais, je les contestais. Je ne parvenais
pas à les vivre.
La colonne de lumière qui montait au centre de moi n’était pas une idée
même vraie : elle était un être vivant, moi-même et un autre, à ce point
précis où ma personnalité grandissait de ne plus être solitaire. Ma
lumière était faite d’un amour beaucoup plus ancien que moi, d’un amour
qui, sur mon chemin, m’avait pris un jour, à mon insu, et m’avait
conduit plus loin déjà que mon intelligence ne le pouvait reconnaître.
Un amour très riche, qui ne comportait ni colère, ni justice, ni ce
relâchement des muscles de l’âme qu’on appelle ordinairement tendresse.
Il s’approchait de moi avec la sécurité d’une personne visible. C’était
un être familier, moins hostile, moins incertain pour moi que ne
l’étaient les battements mêmes de mon cœur.
C’était un ami absolu, car il dépendait de mon désir, de cet appel que
j’allais lui faire. Je pouvais très bien ne pas le recevoir. Et, en même
temps, il s’imposait comme une image agrandie de moi, comme un état de
mon être intérieur qu’il eût lui-même constitué avant moi et sans moi. À
travers lui, je deviendrais peut-être image de Dieu.
Beaucoup d’hommes l’appelaient Jésus-Christ. Je découvrais que tel
était, pour moi aussi, son nom. Mais je n’avais plus même besoin de le
prononcer.
Le Christ avait, depuis longtemps, disparu des villes qu’il avait
traversées, du jardin où il regardait sa mort. Il avait disparu
également de sa croix. Pourquoi aurais-je tenté de voir ses gestes et
son visage, son visage qui n’était qu’intérieur.
Il ne fallait pas que le Christ fût une joie particulière, une
souffrance particulière : il était, depuis longtemps, descendu en chacun
de nous.
Prendre sa place ? Cela n’avait aucun sens, quand il était déjà si
difficile d’oser le voir et d’oser le nommer. Prétendre le toucher, le
définir, quand je ne m’étais pas même trouvé dans ma simplicité et
séparé de tout même en songe ! Il fallait que naquît en moi un très
grand surcroît de respect.
Mais le Christ existait. C’était lui cette présence découverte après le
départ de la tristesse et de la peur. Il était la vie en moi qui ne
pouvait pas finir.
Il avait parlé du salut des hommes. Et si justement le salut consistait
à ne plus nous confondre nous-mêmes avec toutes les images que nous
croyons nous appartenir : désirs, remords, espérances !
La mort du Christ était une naissance. Alors avait commencé son travail
important, car, depuis cet instant, il ne marchait plus vers nous, comme
il marchait autrefois en Galilée, mais il marchait à travers nous.
Ses paroles étaient toutes exactes et visibles. Elles me demandaient de
vivre jusqu’au centre de moi, de préférer à tout être la part la plus
intérieure.
Il y avait maintenant à travers mon corps un éclat et une lenteur
merveilleuse. Telle était en moi la pensée du Christ. Avait-il été homme
ou Dieu ? Pourquoi en aurais-je décidé ? Je vivais devant lui, avec sa
permission et sa protection qu’il tenait de beaucoup plus loin que
l’univers perceptible tout entier. Il était, avant tout, une présence,
et je n’avais pas besoin de lui donner un nom.
Je ne voulais plus me poser de questions. Je me rappelais seulement
qu’il avait, le premier, donné l’ordre d’aimer.
…Je n’étais pas indifférent et surtout j’étais incapable de tristesse.
Car ma pensée formait vraiment un monde au-dedans de moi et mon amour
animait ce monde. Mes rêves n’étaient plus des images seulement. Ma
volonté n’était plus un mot. J’avais part à la vie des êtres et à leur
naissance. Je ne rencontrais pas le vide en moi, mais la présence
continue de personnes semblables.
Je ne me demandais plus qui je connaissais. Quelqu’un me parlait
soudain. C’était une voix étrangère, puisqu’elle ne portait pas de nom.
Mais elle était tendre et prochaine comme l’était jadis la voix de ma
mère ou celle de mes amis. Je n’étais plus capable d’imaginer même une
différence.
Réconcilié ! L’oreille contre tout ce qui approcherait ; sans volonté
contraire. Et le malheur ne pouvait plus venir.
Le malheur n’existait pas. Qu’il s’appelât maladie, injustice,
séparation, mort, il était fait de ma colère et de mon refus. Il était
fait de l’ombre en moi, de l’ombre de mes désirs et du plus grand de mes
désirs, du plus obscur, celui de vivre à la place des autres. Ce
désir-là, réfléchi dans tous les êtres et tous les objets, j’avais eu
l’inconséquence de l’appeler le malheur. Je n’avais pas de mérite. Je
n’avais pas envie d’avoir de mérite. Le courage lui-même me semblait
inutile. Je ne résistais plus à rien. Le Christ aurait, à ma place, tous
les droits. Je les lui donnais tous.
Je m’aperçus alors que ma respiration s’était ralentie, que ma tête
était devenue légère ; que j’entendais mille sons qui ne venaient pas du
dehors, qu’il m’était indifférent de ne plus voir ceux que j’aimais. La
plus grande joie de ma vie venait de naître, quand je ne dépendais plus
d’aucun objet qui fût provisoire.
Quand mes oreilles s’étaient fermées, j’avais entendu le bruit de mon
corps : une vaste pièce oscillante, en perte continuelle d’équilibre, un
réseau de désordres particuliers conduits par un battement central.
Puis, après quelques heures, j’avais perçu le silence.
C’était un silence libre et souple, non pas l’étouffement des sons que
nous connaissons d’ordinaire, et la multiplication des distances et des
obstacles, mais un espace absolument détendu. Le silence intérieur
permettait tous les sons.
J’utilisais mes souvenirs : le claquement d’une porte, la chute d’un
fruit sur la terre chaude, les voix connues. Chacun de ces bruits, je
l’entendais désormais seul, parfait. Aucun d’eux ne répétait un autre.
Je saisissais sa naissance, sa courbe et son éclatement propre. Je
mesurais le temps qu’il occupait et son volume d’espace. Je l’écoutais
sonner sans me soucier de sa direction, de sa conséquence pour moi.
Enfin je l’aimais et je le prolongeais. Car, à l’intérieur de moi, les
sons vibraient sans fin, comme s’ils n’avaient plus rencontré que mes
désirs.
Les bruits les plus fragiles, ceux qui, dans la vie courante, font
songer à des objets que l’on brise, prenaient ici une douceur très
longue. Je frappais de ma main une table qui chantait comme une corde.
Je grattais le sol, et j’entendais chaque mouvement de la terre
infiniment divisée comme une parole distincte.
Ce fut une liberté incroyable avec laquelle je jouai longtemps. Il me
semblait être en un lieu nouveau, non pas même au-dedans de moi, car les
lois du retard, de la suspension, de l’inégalité des bruits et de leur
discordance ne s’exerçaient plus. L’harmonie régnait, et la durée. Tout
à l’heure la lumière, maintenant les sons : le même événement avait
lieu. S’ils naissaient à l’intérieur de moi, ils grandissaient,
s’isolaient de toute menace. Ils devenaient signes d’eux-mêmes.
J’assistai bientôt à des concerts immenses. Une note retrouvée
entraînait derrière elle toutes celles d’une mélodie, ou plutôt elle les
poussait devant elle, les faisait naître chacune à son tour comme des
gestes nécessaires ; je n’avais plus même besoin de me souvenir. Chaque
instrument prenait sa partie avec une autorité étrange. L’espace
bondissait, les contours des sons étaient lumineux et tranchants.
Avais-je déchaîné moi-même toute cette musique ? L’avais-je voulue et
rappelée ? Nulle part je ne trouvais ma volonté, mais partout une
délivrance, une permission, un renversement de toutes les contraintes.
Ma seule pensée était d’entendre, de remercier, et plus je remerciais,
plus la musique affluait, claire jusqu’à l’infini.
Cette fois, je ne songeais plus qu’à vivre, qu’à m’établir dans ce
bonheur interminable, puisqu’il me semblait ne dépendre d’aucun
événement ni de moi-même. J’avais le droit de tout oublier.
À ce moment, je découvris que mes pensées et mes sentiments modifiaient,
eux aussi, ma sonorité intérieure. Si je cessais, pris d’impatience, de
m’abandonner, et cherchais à deviner l’approche d’un son, un grondement
très doux, une traînée de bruits m’emplissait : les sons extérieurs
refluaient en moi. Ce bonheur-là voulait donc être accepté et non pas
appelé.
Je me laissais emporter par ma joie, par cette joie si nouvelle
d’entendre tant de sons se croiser, se mêler et se défaire, et de les
entendre sans raison ni inquiétude, ni projet : aussitôt l’espace
tintait plus large, s’animait de palpitations sonores. Je voyais une mer
sous le soleil.
Mais si je voulais comprendre les sons avant qu’ils m’eussent
entièrement frappé, les lier, les justifier, aussitôt l’espace en moi
s’épaississait.
Au dehors, il ne se passait plus rien. J’avais cessé de vivre le temps
des autres. J’étais en paix.
…Une immense gaieté me venait d’avoir si bien rompu avec le monde. Je
riais en moi-même et je raisonnais beaucoup : pourquoi avais-je connu
autrefois la souffrance et la peur ? Pourquoi avaient-elles été un jour
si importantes, puisque j’apprenais maintenant qu’elles étaient des
illusions ?
Depuis que je m’étais détaché des choses, j’étais devenu plus lucide que
jamais. Non seulement je pensais encore, mais je pensais plus vite et
plus exactement ; désormais, chaque fois qu’une idée me venait, un
objet, en face d’elle, se dressait. Et je savais contenir mes pensées,
les séparer les unes des autres, les arrêter, fixer leur départ. Elles
ne m’étaient plus imposées. Au fond de moi une clarté brûlante ; au
dehors, contre mes sens, la nuit.
Puis, un jour, il me sembla qu’on m’adressait la parole. C’était juste
au-dessus de moi. Il y avait un épais rideau qui bougeait. La voix était
incertaine et très rapide.
Quelqu’un en moi connaissait cette voix, mais non pas moi tout entier.
On me disait que j’allais mourir, qu’on pensait à moi et qu’on m’aimait
beaucoup. On me disait aussi de ne pas être malheureux. Sans doute
était-ce un ami qui parlait.
Je ne fus pas surpris : cela ne m’intéressait pas. Je n’eus pas non plus
l’idée de répondre. Je fis seulement un grand effort pour m’éloigner de
la voix, pour la regarder en souriant et pour dire, tout au fond de
moi : « Mais je suis heureux » !
Puis l’annonce de ma mort suivit son chemin et rencontra ma
conscience qui ne la reçut pas. Mourir, c’était un mot qu’elle ignorait,
tout simplement dont le sens lui semblait improbable et tout à fait
inutile. Elle ne voyait en elle, autour d’elle, que la vie.
ϟ

La
lumière dans les ténèbres
Jacques
Lusseyran
Os textos das conferências «Cegueira, uma nova Visão do Mundo» e o «Cego na Sociedade»
foram traduzidos e editados pela Associação Beneficente Tobias – São Paulo, 1983.
Os textos «Contre la Pollution du Moi»
e «La
Mort devient la Vie», de que não encontrei traduções para português,
foram retirados da edição da Triades.
18.Jan.2011
Publicado por
MJA
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