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Susanne Paulsen

Pintor Cego - Joan Gardy-Artigas
Cegueira significa viver em uma masmorra obscura - esta é a
ideia de quem enxerga. Felizmente, em muitos casos, trata-se de uma ideia falsa.
Não existem apenas os reinos do claro e do sombrio, do nítido e do nebuloso, da
lembrança e da imaginação nos quais se orientam os deficientes visuais. Em
muitos, o sistema nervoso produz imagens singulares. Estas pessoas enxergam sem
a visão. Um grupo de fotógrafos com deficiência visual se impôs o desafio de
visualizar imagens à sua maneira e transportá-las para o mundo exterior. O que
os cegos percebem com frequência não é compreensível aos que enxergam. E para os
especialistas, isso permanece, ainda, um grande mistério
Quando criança, Oliver Nadig adorava subir em torres. Quanto mais altas,
melhores. Escalou uma torre de reservatório de água no Sarre, na Alemanha, subiu
na torre de televisão em Munique e na torre de televisão da Alexander Platz, em
Berlim, cujas vidraças vão do teto ao chão. Lá de cima, o menino de cabelos
escuros olhava para baixo pelas lentes grossas de seus óculos. Ele nasceu apenas
com um "resto" de capacidade visual. As cores lhe eram estranhas e não conseguia
reconhecer detalhes.
Mas ele via - de forma sombreada, acinzentada e muito distante - a paisagem
de ruas, casas e automóveis. Nessas horas, a consciência do que é espaço
acometia-o sempre com força vertiginosa. E profundidade. "Talvez a senhora não
faça ideia", diz ele, "da experiência inacreditável que isso pode ser."
Acabou. O mundo de Oliver Nadig mudou radicalmente. No ano de 2001, com 31
anos, perdeu o que lhe restara de sua visão. Retinitis pigmentosa, uma doença
hereditária, destruiu por completo sua retina. Aos seus olhos castanhos resta
apenas a missão de embelezar o rosto. Eles olham para baixo. As pálpebras estão
semicerradas. Nadig, nesse ínterim psicólogo e engenheiro de computação na
cidade alemã de Marburg, trabalha como professor de informática em uma
instituição de reabilitação para pessoas com lesões oculares.
Em seu caminho, deixa pender diante dos pés a longa bengala. Embora ele se
concentre, suas feições permanecem relaxadas. Pressente placas e juntas.
Degraus. As partes inferiores dos postes de luz. Muros de fundações. Os
pedestais das jardineiras. Papel. Pequenos galhos. Ele espreita as menores
alterações do eco produzido pelas raspadas e batidas de sua bengala.
Acompanha com atenção as pequenas brisas que lhe indicam os vãos entre os
prédios. Fareja fumaça, mofo, cachorros, pãezinhos, desodorante.
Para os que enxergam, a cegueira, de todas
as deficiências, é a mais fácil de
simular,
mas a mais difícil de compreender
John Hull, professor universitário britânico e
deficiente visual, em seu ensaio
"Recognising
Another World" escreveu: "A cegueira é provavelmente, de todas as deficiências, a mais fácil de simular, mas
sem dúvida a mais difícil de entender". Então, como seria viver os sentidos em
um mundo só de odor, som e contacto? Sem imagens externas, sem visão geral? O
mundo dos sentidos dos cegos é pobre? Ou, pelo contrário, rico? Pessoas que
precisam explorar a esfera além da visão descobrem lá, por vezes, tesouros
insuspeitados?
De acordo com uma pesquisa da Organização Mundial de Saúde, em 2004 havia
cerca de 37 milhões de cegos em todo o mundo. Na média de todos os países, menos
de 0,1% das crianças menores de 15 anos estava cega e no máximo 0,2% das pessoas
entre 15 e 49 anos. As diferenças mais marcantes apresentaram-se na população
acima dos 49 anos: enquanto no sul e no norte da Europa 0,5% dessas pessoas é
cega, a parcela na Turquia chega a 1,2%; no Brasil, a 1,3% e na Índia, onde o
número de cegos reduziu-se drasticamente nos últimos tempos, permanece ainda em
torno 3,4%.
Embora o estudo apresente lacunas (dados da Rússia, por exemplo, não puderam
ser incorporados), mostrou-se uma tendência geral: a maioria dos afectados vive
com uma cegueira conhecida como periférica. Ou seja, seu estado não é causado
por um cérebro lesionado - por exemplo, acidente vascular cerebral ou outro
acidente -, mas por doenças ou ferimentos dos olhos ou do nervo ocular.
Para o homem, criatura visual, cujo cérebro normalmente dedica uma parte
considerável de sua capacidade ao processamento de estímulos visuais, a cegueira
periférica constitui um estado de excepção dramático. "Quando perdi o mundo dos
que enxergam", relata Hull, "de início, eu não tinha mais um mundo. Era
incorpóreo, desnudo, desprotegido, em um espaço infinito, escuro. Somente pouco
a pouco alvoreceu um mundo novo".
Ficar cego, dizem os especialistas, é uma grande e pavorosa passagem: morrer
como alguém que enxerga; ressuscitar como cego. Alguns dos afectados fracassam
diante desse desafio extremo. Depressão, alcoolismo, hipocondria ou até mesmo
suicídio ocorrem após serem acometidos pela cegueira. Outros conseguem, depois
de algum tempo, voltar a uma vida plena.
"Eu me viro bem", diz Oliver Nadig. "Mas a vida em uma sociedade direccionada
para quem enxerga é penosa e consome bastante tempo. Imagine-se cego ou
deficiente visual grave em um supermercado e procure um shampoo ou um pacote de
ravioli".
Nadig diz que tem curiosidade sobre a aparência de sua namorada. E, às vezes,
sonha em novamente estudar um livro de matemática na universidade sob o aparelho
de leitura para deficientes visuais. Ele gostaria de poder enxergar outra vez,
no mínimo tão bem quanto em sua juventude; contudo, ele acrescenta, esse
pensamento lhe causa tanto medo quanto alegria. Pois enxergar, por mais estranho
que pareça, limitaria seu mundo. Então a cegueira não é uma masmorra escura?
Exactamente, responde Nadig, em tom sério.
Mesmo "escuro" é um mal-entendido. Ocorre porque aqueles que enxergam partem
muito de si mesmos. Na verdade, os cegos têm as mais diversas coisas diante dos
olhos: os olhos dos cegos de nascença, por exemplo, não vêem nada, exactamente
quanto pode enxergar uma mão ou uma orelha. Por isso, deficientes visuais inatos
têm uma relação com a luz talvez idêntica àquela dos que enxergam com os campos
magnéticos da Terra, que as aves migratórias utilizam para orientação: para eles
é óbvio que o fenômeno exista, mas essa experiência permanece na teoria.
Caso os cegos de nascença imaginem luz e cor, precisam do auxílio dos
sentidos que lhes restam. "Era como se o sol batesse e uma brisa leve soprasse
no rosto" descreveu suas sensações uma aluna deficiente visual de nascença. Ela
havia sonhado que podia enxergar.
Em contrapartida, quem fica cego mais tarde, retém muitas vezes lembranças da
luz. E pode, então, passar pela estranha situação de enxergar em sonho e, ao
acordar, perder novamente as imagens coloridas e cheias de detalhes. O mundo do
dia se abre: quem (como a maioria dos cegos) dispõe de um mínimo de visão, pode
ainda, por exemplo, diferenciar nele claro e escuro. Percebe, portanto, a luz
que penetra de portas ou janelas, porém sem quaisquer detalhes.
Muitos cegos não revelam suas percepções-fantasma
-
por medo de serem considerados loucos.
Quem não possui mais esse restante de visão, entretanto, quando acordado
"enxerga" algo independente do ambiente. Muitos cegos, inclusive Oliver Nadig,
descrevem uma sensação básica como "cinza" ou "nebuloso".
Além disso, ainda surgem por vezes manifestações que os deficientes
frequentemente mantêm em segredo - como demonstrado no fim dos anos 80 do século
passado em estudo publicado na revista médica Lancet. Pois eles supõem (com toda
razão) que, se as revelassem, poderiam despertar a (falsa) suspeita de que
sofrem de um distúrbio psíquico.
"Inclusive muitos médicos não sabem que aproximadamente 20% dos deficientes
visuais inatos e aqueles que perderam a visão, continuamente vêem coisas que não
estão lá", diz Brigitte Röder, neuropsicóloga da Universidade de Hamburgo.
"Imagens cinza disformes, luzes, vigas, nuvens, escadas, paisagens, rostos e
muito mais." A Dra. Röder sabe que essas "percepções-fantasma" surgem pela
actividade própria dos centros visuais no cérebro. "Nosso cérebro clama por
input", ela explica. "Quando um sistema visual, uma vez acostumado à visão, não
recebe mais mensagens dos olhos, provavelmente ele próprio produz suas imagens."
"É como se os pacientes quisessem substituir a realidade óptica que falta em
suas vidas", escreve o neurocientista Vilayanur Ramachandran, da Universidade da
Califórnia, em San Diego. Os cientistas chamam esse tipo de alucinação de
"síndrome de Charles Bonnet". Há determinadas características,
percepções-fantasma que, ocorridas uma vez, tendem a se repetir. Aparecem
independentes de qualquer desencadeador e têm feição com frequência bastante
realista. Plásticas demais, brilhantes e belas demais para serem reais.
Coincidência ou não, é incerto o tipo de ilusões que acompanha um deficiente
visual atingido pela síndrome de Charles Bennet durante a sua vida. Talvez as
percepções- fantasma não tenham, no momento de seu surgimento, nenhum sentido
mais profundo - ou talvez tenham de, algum modo, relação com a actividade
fantasiosa. De qualquer forma, o ser humano não seria ser humano se não
meditasse sobre esses visitantes especiais, deixando-os desempenhar um papel no
teatro de sua vida.
Jacques Lusseyran, um jovem de Paris, também tinha percepções-fantasma. Ficou
cego aos 7 anos de idade, em 1932, em virtude de um acidente, e admirou-se.
"Eles me diziam que ser cego significava não ver" escreveu mais tarde em sua
autobiografia. "Mas como eu poderia lhes dar crédito, se eu ainda enxergava?
Enxergava como se, de um lugar que não conhecia e que podia estar tanto fora
como dentro de mim, saísse uma emanação, ou para ser mais exacto: uma luz." A
aparição era muito luminosa. Entretanto, tão logo Lusseyran ficasse raivoso,
assustado ou impaciente, ela desaparecia quase por completo.
O menino deixou-se educar pelo fantasma. Ele treinava sua doçura, sua coragem
e sua paciência para que essa luz sempre o acompanhasse. Ele o chamava para si
mesmo de "razão de viver". "Eu o deixava nascer em mim como água em uma fonte e
uma alegria sem fim me tomava" escreveu Lusseyran. Na Segunda Guerra Mundial,
Lusseyran entrou para o movimento da resistência francesa, foi capturado e
enviado para o campo de concentração de Buchenwald, na Alemanha.
Entretanto, seu sentido de visão e sua alma continuaram a presenteá-lo: "Eu
mantinha em mim tal abundância de luz e alegria que uma parcela disso
transbordou para os outros."
O escritor e cartoonista norte-americano
James Thurber também foi enriquecido
por percepções-fantasma. Ele era deficiente visual. Nos anos 50 do século
passado, com pouco mais de 50 anos, ficou cego quase por completo. Seu interior
evocou um mundo fantástico, pleno de figuras constantemente mutantes,
surrealistas. Enxergava "aspiradores de pó azuis, faíscas douradas, fios de
baba, flocos de neve, açafrão". Certa vez, uma alegre e idosa senhora marchava
por trás de um caminhão. Outra vez, um gato rolava pela rua em um barril e
pontes subiam como balões de ar.
Mas todas essas visões enigmáticas não deprimiam Thurber, pelo contrário,
deram asas à sua força criativa: os textos e desenhos que ele produziu, mesmo
após ter ficado cego, são famosos por sua comicidade comovente e hilariante.
Amplia o horizonte a entrada no mundo de percepções de Lusseyran ou Thurber.
Somos lembrados de uma sabedoria óbvia para filósofos e neurocientistas, mas que
não faz parte, para a maioria das pessoas, dos pensamentos cotidianos: o que
enxergamos não é o mundo. É um produto de nosso cérebro, não importando se o
centro da visão é activado e organizado pelos impulsos eléctricos recebidos pelo
nervo óptico, como é o caso para a maioria de nós quando estamos acordados. Ou
se produz imagens sem mensagem de fora. Nosso cérebro é um artista, criativo,
altamente individualizado, rebelde.
Quem é cego se exercita constantemente:
tactear, ouvir, cheirar, memorizar.
Mas a capacidade visual nunca é substituída.
Além disso, flexível, não apenas no que tange a sonhos e alucinações. Pois se
o sentido da visão falha, os demais sistemas sensoriais reagem de imediato.
Começam a construir uma imagem do mundo alternativa. "Cegueira é muito mais do
que não ver", diz Brigitte Röder. "É um treinamento cerebral maciço e
compulsório." Quem é cego se exercita constantemente. Tactear. Ouvir. Cheirar.
Memorizar.
Por meio disso, o cérebro é "reorganizado", o que aumenta o desempenho dos
sentidos remanescentes. Por exemplo, o sentido do tacto. "Não é por acaso que os
cegos são mais susceptíveis às sensações do toque", explica a dr.ª Röder. "Quando
se verifica qual pressão um participante da pesquisa percebe ainda sobre sua
pele, então não se encontra diferença alguma entre pessoas com ou sem
deficiência visual. Contudo, os cegos podem diferenciar melhor o estímulo do
toque." Eles conseguem, por exemplo, sentir com a ponta dos dedos que duas
pontas de lápis colocadas bem juntas são realmente duas pontas. Se colocarmos
alguém que enxerga na condição do teste, ele sentirá apenas uma ponta.
Com modernos processos de obtenção de imagens pôde-se indicar que a acuidade
táctil se reflecte na estrutura cerebral: nos "mapas sensoriais", nos quais a
superfície corporal é reproduzida no cérebro, o dedo indicador é representado em
tamanho consideravelmente grande em deficientes visuais. Com medidores de ondas
cerebrais, o grupo de trabalho da Dra. Röder demonstrou, em 1996, que os cegos
localizam estímulos tácteis não apenas de forma mais exacta, mas também mais
rapidamente em seus mapas sensoriais. Ou seja, eles percebem mais rapidamente do
que aqueles que enxergam, com que parte do corpo tocam algo, o que lhes
possibilita, entre outros, ler com eficiência a escrita Braille, composta de
pontos tácteis em relevo com no máximo 2,3 milímetros de distância um do outro.
Quando Oliver Nadig, de Marburg, Alemanha, liga o computador em seu
escritório e navega na internet, a tela permanece escura. Contudo, no teclado,
os pequenos pinos das linhas em braile sobem e descem. Eles traduzem bits e
bytes em pontos em relevo. O dedo indicador direito de Nadig desliza sem parar
da esquerda para a direita sobre os pontinhos dançantes e tacteia o sentido. Às
vezes, Nadig faz que as páginas de internet sejam lidas por uma voz eletrônica.
Para quem enxerga, porém, ela é tão incompreensível quanto o braile, pois Nadig
acelerou a velocidade da fala computadorizada.
"Os deficientes visuais ouvem com mais eficiência que pessoas da mesma idade
que enxergam", confirma Röder. "As ondas sonoras batem em um córtex auditivo
mais facilmente sensibilizado, que aparentemente está mais bem-correlacionado."
Isso faz que as pessoas sem a luz dos olhos reconheçam sons e barulhos mais
rapidamente e os interpretem melhor com mais frequência.
Na compreensão da fala, muitos deles comprovam essa capacidade de modo
especialmente impressionante. Assim, por exemplo, em linhas de pesquisa nas
quais os participantes dos testes deveriam diferenciar frases sem sentido das
com sentido, o grupo dos deficientes visuais suplantou aquele dos não
deficientes. Mesmo quando se trata de localizar fontes sonoras à direita ou à
esquerda do ouvinte, muitos cegos têm desempenho surpreendente: apenas maestros
de orquestra conseguem localizar tão bem sons laterais entre aqueles que
enxergam.
A cegueira também pode promover o desenvolvimento musical? "É uma ideia
antiga", comenta Robert Zatorre, da Universidade McGill, em Montreal, Canadá.
Todavia, sabe-se ao menos que ela se aplica a cegos de nascença ou para quem
ficou cego em idade prematura. Em conjunto com colegas, Zatorre demonstrou que
esses cegos conseguiram diferenciar diversas elevações de tons com muito mais
exactidão que os deficientes visuais tardios ou os não deficientes visuais.
Um grupo de trabalho na Harvard Medical School, em Boston, comprovou mais:
músicos cegos de nascença possuem com mais frequência ouvido absoluto do que
pessoas que enxergam. Entretanto, é óbvio que não surge um Stevie Wonder de cada
bebê cego, pois a musicalidade é algo extremamente complexo. E se ela será
utilizada ou não, dependerá também de cada biografia.
Cada mundo de sentidos surge individualmente e reflecte-se no modus operandi
de cada cérebro em particular. Diversos grupos de cientistas em todo o mundo
tentam rastreá-lo também nos deficientes visuais. Esses grupos querem saber, por
exemplo, o que ocorre nas secções cerebrais que são ameaçadas de "desemprego" em
cegos.
O que acontece, perguntavam os pesquisadores, com o córtex visual, aquela
região do cérebro que descodifica os sinais do nervo óptico nas pessoas que
enxergam? E como trabalham as partes atribuídas ao nervo óptico de nossas áreas
cerebrais funcionais "multissensoriais"? Nessas áreas as entradas de diversos
canais sensoriais são correlacionadas. Eles são, por exemplo, responsáveis pela
capacidade de interligação da imagem de um gato com seu miado e a maciez de sua
pelagem a uma impressão geral.
Resultado assombroso dos estudos: secções cerebrais normalmente relacionadas à
visão não estão paralisadas ou mesmo atrofiadas. Permanecem activas, mesmo que,
em geral, sem tanta intensidade quanto em não deficientes visuais. Os
especialistas supunham, de início, que elas apenas "ressoassem" com o restante
do cérebro, ou que a actividade em pessoas que haviam conhecido a luz, apenas
reproduzisse um processo rememorativo. Contudo, desde há pouco tempo, muitos
pesquisadores preferem uma explicação totalmente diversa: "parece que as áreas
de visão, por assim dizer, podem ser anexadas pelos sentidos funcionais",
declara Brigitte Röder. Dessa maneira, em muitos deficientes visuais o córtex
visual é activado quando eles tocam, ouvem, entendem uma fala ou resolvem um
exercício de memória. Em um caso (veja "O pintor cego",
abaixo) ele se activa até
ao desenhar.
Como se sentem esses padrões de atividade cerebral incomuns? Oliver Sacks,
neurologista nova-iorquino famoso por seus relatos de casos, ousa em um ensaio
sobre
The Mind's Eye apenas uma suposição: "pela re-alocação do córtex
visual para o tacto e outros sentidos, estes podem ganhar uma superacuidade que
talvez nenhuma pessoa que enxergue possa imaginar".
O francês Jacques Lusseyran tentou descrever esses estados em sua
autobiografia. Ele acredita que "a cegueira actua como uma droga". "Não creio que
haja sequer um cego que não tenha conhecido em algum momento da sua vida o
perigo do "envenenamento". Como a droga, a cegueira também aumenta determinadas
sensações, concede às percepções auditivas e sensoriais, por exemplo, uma
acuidade repentina e, não raro, vertiginosa."
Existe aqui uma explicação para o desempenho máximo de muitos cegos? Por
exemplo, para a carreira científica do paleontólogo
Geerat Vermeij, que ficou
cego aos 3 anos de idade? O holandês ministra aulas e realiza pesquisas na
Universidade da Califórnia, em Davis, sendo um especialista de renome
internacional na evolução de caramujos e mexilhões, cujas finíssimas estruturas
ele consegue identificar.
O córtex visual também ajuda os "oficiais de investigações especiais" da
polícia holandesa e belga? Ou o "homem-morcego" Daniel Kish? Os oficiais de
polícia cegos são responsáveis em ambos os países pela análise de gravações de
conversas entre suspeitos. "Eles conseguem identificar essencialmente melhor não
apenas sons de fundo e distinguir os diferentes participantes da conversa",
explicou um porta-voz do departamento central da polícia holandesa. "Reconhecem
também melhor que qualquer não deficiente visual quem é o chefe e quem apenas
aceita os 'serviços'."
O norte-americano Daniel Kish surpreende em uma área totalmente diversa. Ele
perdeu a visão aos 2 anos de idade. Contudo, logo voltou a se movimentar como
qualquer outra criança: estalava a língua e se orientava pelo eco que os objectos
a sua volta lhe devolviam. A ecolocalização não é um princípio novo, mas Kish a
aperfeiçoou. Ele gosta de caminhar sozinho por áreas florestais desconhecidas.
Regularmente pedala com sua bicicleta por Los Angeles. Há alguns anos, tenta
compartilhar seus métodos com deficientes visuais em todo o mundo por meio de
oficinas.
"Ele que faça o que quiser", resmunga Oliver Nadig, "fico feliz apenas por
dominar meu cotidiano". Ele sabe o quanto se pode crescer diante das
dificuldades e que muitas possibilidades de desenvolvimento inigualáveis estão
abertas aos cegos. Afinal, está entre suas tarefas mostrar aos novos deficientes
visuais "o que eles ainda podem fazer com suas vidas". O que aulas de
administração do cotidiano, treinamento de mobilidade e curso de informática
podem realizar. Nadig ressalta também que, quem admira demais um talento
excepcional, cai em uma armadilha muito antiga, mistifica os cegos. Com isso,
impõe a cada um deles o fardo de ter de se desenvolver em um ser maravilhoso. E
isso Nadig considera injusto, pois todas as pessoas são diferentes.
Se ele possui alguma capacidade extraordinária? De jeito nenhum, responde
Nadig. Mas isso torna o relato que ele faz então de seu mundo de experiências,
no fundo ainda mais interessante. Ver, afirma ele, significa ser superficial.
Regalar-se na sensação de entender tudo. De confiar em um sentido dominante.
Olhar sempre apenas em uma direcção, nunca ao redor. Relegar todos os outros
sentidos a um segundo plano. Em oposição a isso, Nadig considera seu modo de
percepção, no mínimo, mais "aberto" que o comum.
"Podemos nos abrir uma esfera além da visão e aprender a enxergar de um modo
mais corporal e holístico", afirma também
John Hull. Em 1983, aos 48 anos de
idade, o professor emérito de educação religiosa da Universidade de Birmingham
perdeu totalmente a visão. O caminho de Hull o levou ainda mais longe na
cegueira que Nadig: suas lembranças visuais se esvaíram gradualmente.
"Toda a
ideia de que as coisas possuem um aspecto tornou-se algo estranho", relata ele.
Hoje se sente "alguém que enxerga com o corpo inteiro". Muitas percepções até
então subliminares se incorporaram à sua consciência: oscilações mínimas de
temperatura. Alterações atmosféricas causadas por nuvens de tempestade que se
aglomeram. Aromas e odores. Ecos e reverberações. As sinfonias tocadas pelas
gotas de chuva nos caminhos, gramados e canteiros de seu jardim.
Os cegos, confirma Hull, podem encontrar novamente acesso a um conhecimento
que todos nós possuímos, mas de cuja existência normalmente não suspeitamos. Ele
chama o alerta para esse conhecimento de um dos "presentes dos cegos àqueles que
enxergam".
Podemos dar o devido valor a esse presente? E como? Talvez, se nos despirmos
às vezes da arrogância dos que enxergam como se fosse um casaco que saiu de
moda. Em seguida, nos conduzir cuidadosamente pelos sentidos a um dos muitos e
diversos mundos dos muitos e diversos cegos. Naturalmente com a consciência de
que todo seu horror e toda sua beleza permanecerão inacessíveis a nós.
Poderíamos, por exemplo, nos sentar em uma praia por um tempo com os olhos
fechados. Pensar naquilo que Jacques Lusseyran vivenciou dois meses após seu
acidente. "Não era nada mais que o mar e sua voz", escreve em suas lembranças,
"essa voz inacreditavelmente nítida. As ondas formadas como terraços faziam
juntas uma música e, mesmo assim, cada degrau tinha sua própria linguagem: era
um riscar no fundo, um borbulhar na crista."
Era uma sensação maravilhosa. E não havia a necessidade, pensava o pequeno
Jacques, de lhe dizerem realmente o que olhos podiam ver ali.
Eşref Armağan nunca viu o mundo. No entanto, ele desenha seus quadros como se
percebesse tudo. Cores, dimensões, até sombras e perspectivas. Como ele
consegue?

Logo Eşref Armağan mostrará sua arte, um mágico de um tipo especial. Ele
arregaça as mangas de sua camisa azul, passada com todo esmero, abre um sorriso
largo e confiante e toma lugar. Ele é pesado e robusto. Sobre a mesa de sua sala
de estar, com a toalha de renda branca, está um vaso com rosas de seda
coloridas, as bordas douradas. Armağan pega uma folha de papel, enfia-a sob a
presilha do suporte para escrever e a prende, girando dois parafusos em roda cor
de prata, estriados. Eu coloco a concha em sua mão. Agora ele precisa de
silêncio.
Nesses momentos, sua mulher Nilifat não pode passar o aspirador de pó. Deve
ficar quieta como um camundongo, andar sorrateiramente pelos quartos e fechar as
portas sem bater.
O velho relógio de pêndulo na parede faz o seu tique-taque. Bem ao longe, um
muezim chama. De resto, só silêncio na residência de quatro quartos em Batikent,
um subúrbio distante alguns quilômetros a noroeste do centro de Ankara, Turquia.
Eşref Armağan tacteia. Suas mãos são largas e bem-tratadas, os dedos, curtos.
Polegar direito e esquerdo e indicadores passam pelas ondulações, ficam sobre as
elevações, escorregam para dentro da cavidade da concha, lisa como espelho,
levemente abaulada.
Ele precisa conhecê-la dessa forma. Pois é cego de nascença. Atrás de seus
óculos escuros falta um olho, o outro é um botão pequeno, aleijado.
E alguém assim vira pintor. Naturalmente: crianças cegas pintam, quando
alguém as incentiva (o que não é algo óbvio, de forma alguma). Elas precisam
apenas de um material qualquer, em que as linhas traçadas por elas sejam
perceptíveis. Assim também elas trazem seu mundo interno para fora. Mas Armağan
não ficou parado no quadro acanhado da criança. Primeiramente, aperfeiçoou seus
desenhos. Depois, conquistou para si fenômenos que nem aparecem no mundo do
tactear: sombras, cores, perspectivas.
Armağan fala pouco sobre isso, por que o fez e com que sentimentos. Nasceu há
55 anos como filho de, assim chamada, gente pequena, não teve uma educação
escolar regular e não é claramente membro da moderna cultura de autoanálise. No
máximo, consegue-se tirar dele o que seu amado pai lhe dissera: Ele, Eşref, com
certeza ficaria famoso com seus quadros. Poderia ganhar dinheiro pintando,
quando o pai não estivesse mais entre eles.
O dinheiro é uma das coisas, mas devem existir grandes sentimentos entre esse
homem e a luz. Ao contar de sua infância, sentado de pernas esticadas no sofá,
eles eram perceptíveis. Ele gesticulava vivamente, mostrava com a mão como se
ligava e desligava as lâmpadas a gás, antigamente. "Que coisas são essas,
'lâmpadas', eu perguntava. E meu pai tentava me explicar, que à noite ficava
escuro." E o jovem Eşref ficou curioso com a luz. Sua vontade de saber
transbordava.
Ele queria transpor seus limites. Ele queria conquistar o mundo do ver, que
havia sido presenteado ao pai, mãe, irmão, amigos, vizinhos. Compreender suas
regras; se não podia com os sentidos, então pela capacidade de imaginação. "Eu
tentava apenas compreender o que há em volta de mim," ele responde à pergunta,
porque passara uma grande parte de sua infância a desenhar.
Eşref Armağan riscava com as unhas no papelão. Para seus amigos, colocava
jornal sobre um pedaço de papelão. Em cima vinha um papel de desenho. Eles
pintavam - carros, animais, montanhas - e ele examinava as imagens impressas no
papelão. O pai lhe arranjava versões em brinquedo de pessoas, casas, veículos.
Eşref Armağan os desenhava. Se suas obras, tacteadas, reproduziam sentido e
beleza, parecia não ser tão importante para ele. Ele visava os que viam: "Eu
perguntava a meus amigos ou meus pais, se dava para reconhecer e se estava
certo."
Como jovem adulto, Armağan fica sabendo como se parecem os caminhos que vão
para o horizonte. Ele pede que lhe digam a cor das coisas e a memoriza. Ele
arranja tintas, fica sabendo seus nomes e as coloca, para não confundi-las,
sempre na mesma sequência. Ele aprende também sobre o outro lado da luz: as
sombras. Algumas ficam em cima dos objectos, os fazem ficar redondos ou
quadrados. Outras se encontram abaixo do objecto, como caídas ou batidas para
baixo. Sua forma ou extensão depende de maneira complicada da posição da fonte
de luz. De início, Armağan acredita que a sombra de uma maçã também deveria ser
vermelha. Até que alguém o corrija e ele começa a pintar sombras de cinza ou
preto.
Num momento qualquer naquele tempo, começa pela primeira vez a surgir um
sentimento estranho ao desenhar ou pintar. É como se Armağan mergulhasse em sua
obra, como se ele fosse engolido por ela. Se, por exemplo, pinta água, ele tem a
sensação de que seria melhor usar um colete salva-vidas. É extremamente
impressionante, portanto, a maneira como sua imaginação lhe cria o mundo
exterior.
"Eu sei, eu não posso ver. Mas há uma espécie de imagem na minha cabeça", ele
acabou de me explicar. E depois acrescentou titubeante: a imagem é mais complexa
do que aquelas linhas principais, que seu suporte especial de desenhar imprime
para fora, quando ele desenha vigorosamente. Mas se ele quisesse, poderia
observar sua imagem de diversos lados, um depois do outro.
Um quadro, imaginado no silêncio necessário para isso, ele não iria esquecer
nunca mais.
Armağan não havia gostado nem um pouco, quando anteriormente teve de olhar
para dentro de si e informar alguma coisa sobre o jeito de suas imagens sem luz.
Eu precisei perguntar novamente. Não, não eram como algo que ele cheirava ou
sentia o gosto. Não como algo que ele escutava. E também não - como se esperaria
- como algo que ele tacteava. "Só linhas", ele acrescentou asperamente. "Eu vejo
linhas". Eu vejo! E finalizando: "É tão difícil de descrever quanto um sonho."
Agora, Armağan quer fazer um desenho a lápis da grande concha. Ele precisou
de aproximadamente cinco minutos para criar para si uma imagem representativa
útil, com a ajuda dos dedos. Rapidamente, Armağan esquematiza duas perspectivas
da concha. Agora ele está como que mudado, conta anedotas, faz piadinhas, ri
alto. Sua mão direita conduz o lápis. Dedos indicador e médio de sua mão
esquerda deslizam sobre as cristas e colinas, que seu suporte de desenho empurra
para cima no papel. Proporção, curvas e sombras da concha estão certas. Mas
exactamente como no caso das pinturas primitivas de Armağan, com tintas de
acrílico, de paisagens, peixes, frutas e borboletas, o desenho se torna especial
por se saber de quem é.
Não é só uma celebridade local. Não, Armağan tem bênçãos científicas. Testes
neuropsicológicos por horas seguidas foram realizados com ele. Um escaneamento
de ressonância magnética de seu cérebro ao desenhar, na famosa universidade de
Harvard.
"Eu fiquei sem fala", John Kennedy contou em um congresso. O psicólogo da
Universidade de Toronto, em Scarborough, Canadá, pesquisa há décadas como cegos
desenham. Ele examinou Armağan exaustivamente no ano de 2004 e declarou, a
seguir, nunca ter conhecido alguém com tais capacidades. Não são as cores
colocadas no quadro com tanta destreza por Armağan, que interessam o
especialista canadense. A nostalgia, a teimosia e a intuição social, com cuja
ajuda o artista cego adquiriu seu talento de cores, não são a especialidade de
Kennedy.
O que o fascina até hoje são as "imagens de linhas" sem cor, que Armağan vê
em seu cérebro e desenha. Eşref mostra uma sensibilidade pelo seu meio ambiente,
que se poderia quase chamar de visual", diz Kennedy. "Por exemplo, ele parece
ter um conceito exato de perspectiva."
Perspectiva, na realidade, é algo apenas para os que enxergam: a
representação plana de aspectos espaciais correspondente a apresentação à vista.
Seus escorços, esboços, e suas linhas convergentes não são passíveis de se
tactear no objeto real.
Pode naturalmente ser também, que Armağan tenha aprendido todas as leis da
representação em perspectiva pouco a pouco dos que enxergam. Mas Kennedy acha
que ele a aplica com muita flexibilidade, muito intuitivamente. Sem esforço ele
encontra soluções para problemas de representação em perspectiva, que antes lhe
eram desconhecidos. Perspectiva, portanto, não parece ser para Armağan uma
construção geométrica abstrata, mas elemento de seu mundo imaginativo.
Resultados surpreendentes também foram apresentados por escaneamentos do
cérebro que o neurologista Avaro Pascual- Leone, do Harvard Medical School, em
Boston, realizou em Eşref Armağan. Nesses exames, interessava-lhe especialmente
o córtex visual. Muitos cegos o "recrutam" nessa parte do cérebro, por assim
dizer, desempregada, para outras tarefas - por exemplo, para melhor tactear
escrita braile ou retrabalhar coisas ouvidas. Em Armağan, contudo, o centro
visual só era activado ao desenhar; e com tanta intensidade que só ocorre entre
os que enxergam. Como isso se dá? Será que Armağan, tão-somente pelo treino
incansável de sua imaginação, é capaz de trazer à tona algo similar ao ver? Tais
questões não conseguem ser respondidas. Nós nem ao menos sabemos se nossos
semelhantes que enxergam, vêem aproximadamente o mesmo que nós, quando olham
para um caramujo, uma maçã. Dito de outra forma: as qualidades subjectivas das
percepções de uma pessoa - cientificamente chamadas de "qualia" - são em
princípio inacessíveis aos semelhantes.

Eu perguntei pelo seu quadro favorito. Está
pendurado perto da mesa da sala de estar e mostra uma jovem carregadora de água
em calças largas. Ela leva bastante peso e caminha por uma paisagem florida.
Armağan ri em alto e bom som. Seus dentes brilham. "Eu realmente não
conheço a moça. Diga isso à minha mulher". Naturalmente Armağan tem o quadro em sua cabeça. Ele diz o que significa, em uma
única frase, o que poderia ser o lema de sua própria vida: "Esforçar-se é algo
muito belo.
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28.Fev.2010
Publicado por
MJA
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