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 Sobre a Deficiência Visual

Treino Sensorial para Pessoas Cegas

Julie E. Fields

 

treino sensorial

 

Introdução

Para ajudar os adultos que recentemente cegaram a reunir as aptidões necessárias para se tornarem pessoas auto-suficientes e independentes, criaram-se muitos programas de reabilitação que lhes ensinaram técnicas de mobilidade e movimentação, Braille para a comunicação e muitos outros cursos de perícia que lhes permitem continuar as actividades que as rotinas diárias compreendem para todos nós. Recentemente os centros de reabilitação reconhecendo que têm que lidar com o homem no seu conjunto, juntaram aos seus programas de perícia um programa de conselhos ou de terapêutica, para ajudar o cego a lutar com os seus problemas e para o ajudar a ter uma melhor compreensão das suas necessidades emocionais.

Contudo, negligenciou-se tristemente, ou pelo menos, tratou-se ao acaso, uma área que é absolutamente, essencial para que o cego consiga tornar-se uma pessoa auto-suficiente. Trata-se da área conhecida por treino sensorial. É aqui que o cego aprende a utilizar da melhor maneira possível os sentidos que lhe ficaram, para responder a sons que o rodeiam e que são tão subtis que muitos de nós nunca os notamos - não temos necessidade disso.

Embora o treino sensorial seja apenas uma área no programa total de reabilitação, é muito importante para o cego para que ele se possa sentir familiarizado com o mundo que o rodeia, tal como um ser visual quando, enquanto criança, começa a "conhecer" as coisas.

Apresentei na matéria que exponho a seguir, os principais problemas que irão ser encontrados ao tentar desenvolver um programa de treino nesta área, e, se fui capaz de seguir alguns possíveis caminhos para o tratamento destes problemas, terei em consideração o esforço empregado ao tentar dar o conjunto do contexto do meu trabalho e pensamentos durante o último ano. Terei que ser incompleto porque ainda estão a ser consideradas muitas áreas sensoriais; mas é um princípio.


A questão básica é "o que aprender"

Há um problema básico que se apresenta aos que trabalham no campo do treino sensorial do cego. Ainda estamos a tentar determinar o que na verdade deve ser apreendido durante o treino da criança. Há pelo menos duas respostas possíveis para esta questão. A primeira sugere que um indivíduo se torna conscientemente consciente de certos estímulos vizinhos actuando nos seus receptores sensoriais. A segunda insinua que o indivíduo aprende a usar a informação sensorial mais eficazmente. No primeiro caso o indivíduo que está a ser treinado está apenas a tomar consciência das suas sensações; ele compreende que a informação está a vir para uma das suas veredas sensoriais. No segundo caso há um "aguçamento" da percepção, de maneira que o indivíduo pode responder a uma maior variedade de sons subtis que o rodeiam fazendo gradualmente discriminações mais nítidas entre eles.

Numa área tal como a localização de sons, estes dois modos de aprendizagem teriam os seguintes efeitos respectivos: o primeiro efeito seria que o indivíduo se torna consciente do facto de que os seus ouvidos lhe podem dizer de onde vem um som do espaço. Ele também se torna consciente do seu próprio erro, porque o instrutor lhe diz se ele está certo ou errado no seu cálculo da localização do som. Contudo isto não implica que ele seja capaz de corrigir o seu erro. O segundo efeito seria que, escutando e localizando repetidas vezes, o indivíduo se torna gradualmente capaz de reduzir os seus erros na localização de um som; consequentemente as suas opiniões tornam-se cada vez mais exactas.

Até à data esta questão continua por resolver e temos que esperar futuras descobertas psicológicas para alargar a nossa compreensão do processo de aprendizagem. Contudo, queremos tentar estabelecer um curso de treino sensorial que seja benéfico para a pessoa que está a ser treinada, embora não seja possível dizer com segurança o que essa pessoa deve aprender, ou até que ponto se espera que ela vá.


Estruturando o curso e estabelecendo objectivos

Para avaliar a aprendizagem que se efectua durante o treino sensorial, de maneira a podermos estabelecer objectivos apropriados, necessitamos um modo objectivo de fazer um teste antes e depois do período de treino (de tempo especificado e conteúdo uniforme para um grupo de pessoas que estão a ser treinadas), de maneira a podermos começar a medir o melhoramento, ou sua ausência, na execução de uma dada tarefa. Até agora trabalhámos sem esta maneira de fazer testes. Na nossa tentativa para sermos ao mesmo tempo realistas e práticos, ensinámos aquilo que parecia "resultar". Isto tanto no que se refere ao conteúdo do curso como no que se refere à regulação e duração do treino.

Antigamente o conteúdo do curso era em grande parte determinado, consultando as pessoas que estavam a ser treinadas. Daí aprendemos quais as necessidades que elas julgavam ser as suas, e em que ordem de prioridade elas deviam ser encontradas. A regulação ou codificação e a extensão dos exercícios era decidida pelo instrutor que observava o nível das dificuldades que o indivíduo tinha numa determinada área de perícia, e que a comparava com o nível da aspiração que tinha sido fixada para si própria pelo indivíduo que estava a ser treinado. Muitas vezes, quando a motivação era baixa, reduzia-se o tempo destinado para uma dada lição. O indivíduo que estava a ser treinado não parecia querer ir mais longe. Nós não sabíamos até que ponto ele podia ir. Era-lhe então, se ele desejasse, deixada a decisão de ver se podia aumentar o seu nível de actuação a uma média superior à sua. Por outro lado, quando um indivíduo parecia ter mais dificuldades do que as normais com um determinado problema, gastávamos com ele mais tempo do que o habitual, pois não sabíamos os limites do indivíduo neste género de aprendizagem. Enquanto este sistema continuar em vigor e o conteúdo do curso for em tão alto grau influenciado pela percepção do indivíduo das suas próprias necessidades, é necessário que as aulas sejam estabelecidas apenas para uma pessoa de cada vez, de maneira que o instrutor possa trabalhar com os problemas à medida que o instruendo os vai percepcionando. Além de que é evidente que as necessidades serão marcadamente diferentes de indivíduo para indivíduo segundo o interesse, a atitude, o estudo geral físico e os problemas médicos específicos, a idade e um sem número de outros factores.

Isto é uma justificação para a individualização do curso. Relaciona-se com o facto de a percepção ser tanto objectiva como subjectiva, no sentido em que é tanto uma função do real que o rodeia, como uma função do aparelho "visor" do indivíduo e na maioria dos casos dois instruendos diferirão notavelmente nas suas respostas no mesmo estímulo. Por exemplo, estaremos provavelmente errados se supusermos que dois instruendos que "escutam" a mesma coisa, "ouvem" a mesma coisa. Podemos obter provas disto pelo relato subjectivo do indivíduo no que respeita àquilo que ouviu. Uma comparação revela a diferença entre diversas pessoas.

Voltemos à questão de como decidimos aquilo que devia ser incluído num curso de treino sensorial. Estamos limitados pelos seguintes factores:

  1. Ainda não temos critério para julgarmos o que deve ser considerado justo, bom ou excelente em várias áreas de perícia e

  2. Também ainda não sabemos, na extensa área da "realização sensorial", se essas normas podem ser estabelecidas.

Estes dois factores afectam a nossa selecção do conteúdo do curso e a nossa definição dos objectivos do treino. Contudo, como já se sugeriu, podemos aproximar o próprio instruendo de uma estimativa das necessidades e de uma indicação da direcção. Assim podemos formular fins.

Ter a certeza, do ponto de vista do instruendo que toda a informação acerca daquilo que o rodeia (uma vez visualmente obtida), de que agora ele pode aprender a desembaraçar-se com os outros sentidos, ajudará a dar confiança - torna-lo-á consciente dos seus poderes e também o colocará mais em contacto com aquilo que o rodeia. Contudo, "o nível da sabedoria" é meramente um conceito verbal através do qual descrevemos até que ponto o cego sabe o que se passa à sua volta; não podemos querer aumentar directamente este nível - na realidade temos que lidar com problemas específicos em áreas sensoriais particulares. Exige-se dele principalmente o grau de concentração em exercícios específicos ou em actividades que o poderão tornar mais consciente. Para decidirmos quais devem ser essas actividades, precisamos descobrir quais as espécies de informação que são mais importantes para a pessoa que está a ser treinada. Com base em frequentes conversas com instruendos e pela minha observação, acho que dois intentos podem ser iniciados. Deveríamos incluir no treino sensorial as actividades que 1) irão ajudar o instruendo a estar quanto possível em segurança quando viaja sozinho e 2) o irão ajudar a desenvolver a perícia no sentido de uma orientação mais eficaz.

Para atingir estes dois intentos achámos que certas espécies de informação sensorial são mais vitais para a pessoa que está a ser treinada, do que outras. Assim focamos a nossa atenção ao longo de linhas específicas. O que se segue é uma descrição do trabalho que já foi anteriormente feito no treino sensorial. Algumas áreas foram tratadas mais em detalhe do que outras, por serem importantes. A minha esperança é que, aqueles que estão ligados ao trabalho neste campo, possam encontrar aqui algumas técnicas importantes do treino, e que tomem conhecimento de alguns dos problemas inerentes ao treino dos sentidos humanos. Notar-se-á que estamos a lidar com uma área de que pouco se sabe; onde foi possível, tentei indicar áreas pra estudos e pesquisas ulteriores.


Gosto e cheiro

Respeitando embora os sentidos gustativo e olfactivo, estamos antes de mais, interessados na sua utilidade para os fins que fixámos, como oposto ao seu valor estético ou "de prazer". Como canais para a transmissão de informação vital para fins de segurança de trânsito ou de orientação de perícia, a importância destes dois sentidos é relativamente baixa. Anteriormente não tentámos desenvolver a sensibilidade nestas áreas.


O sentido do tacto

Por outro lado, o sentido do tacto realiza algumas funções importantes e que estão directamente relacionadas com os nossos fins. A identificação dos objectos é a primeira dessas funções, embora até agora pouco se tenha feito com ela. Como um auxílio para a orientação, aprender a fazer reconhecimentos palpáveis, seria um bom contributo para o indivíduo que está a ser treinado; contudo, a selecção de objectos para o treino dos adultos que recentemente cegaram e o reconhecimento táctil, pôs um problema. Se o objecto é muito vulgar, pode ser reconhecido com demasiada facilidade; se é um objecto raramente encontrado é duvidoso se é realmente importante que a pessoa trave conhecimento com ele. Devemos seleccionar cuidadosamente objectos que estejam entre estes dois pólos. A segunda função é a discriminação - uma função que é realizada pelo sentido do tacto de pelo menos duas maneiras importantes. Embora não tenhamos ainda treinado instruendos que quisessem aprender Braille, essa é uma possibilidade que pode vir a dar-se futuramente. Pode também ser possível fazer um teste a um instruendo que esteja no primeiro grau do programa de reabilitação, com um severo teste de discriminação, que seria usado para prever as futuras realizações nesta área. Juntamente com tal teste uma examinação neurológica poderia determinar se a baixa sensibilidade táctil tem uma base orgânica.

A discriminação do segundo tipo é importante para a orientação geral. Referimo-nos aqui ao treino do reconhecimento das superfícies da parede ou do chão, feito através das mãos, dos pés ou da bengala, dependendo isso do contexto. Recomenda-se insistentemente que se estabeleça uma série de problemas de orientação para o treino nesta área; nessa série os sinais do exterior seriam controlados de tal maneira que a informação táctil fosse estratégica para a orientação de cada um.


Orientação e recepção das orientações espaciais

O instruendo que tem dificuldade em se relacionar a si mesmo (posição de segurança) com os objectos e lugares do exterior imediato, por meio de uma estimativa subjectiva da sua distância ou direcção, encontrará dificuldade em encontrar o seu caminho. O sentido do tacto fornece um meio útil para dar lições acerca de relações espaciais. Pode-se conseguir a informação da dimensão e da proporção através do treino da formação de associações visuais de um dado objecto. O sentido do tacto fornece também um método para ensinar o indivíduo a organizar mentalmente as relações espaciais dos objectos uns com os outros, e de partes com o todo dentro de um ambiente espacial limitado que ele próprio pode manipular. Este método  pode ser aplicado de diversas maneiras, por exemplo, com jogos e puzzles.

Sempre que possível, usei jogos tais como o xadrez e damas como instrumentos de ensino. Era necessário que o instruendo já tivesse anteriormente jogado esse jogo, e pretendia-se ensinar novas técnicas que lhe permitissem, no futuro, jogar. Desde o momento em que ele estava familiarizado com o jogo, era relativamente fácil começar a ensiná-lo a reconhecer as peças do jogo e a manipulá-las na mesa. O verdadeiro repto está na necessidade de o indivíduo visualizar (através de uma espécie de mapa mental) as jogadas anteriores e subsequentes de ambos os jogadores. Estes jogos eram assim, menos um teste de reconhecimento táctil e destreza manual do que a capacidade de fazer mapas mentais - a capacidade de visualizar relações espaciais.

Usei também "puzzles" simples (consistindo em não mais de dez peças), aproximadamente com o mesmo fim. Os puzzles eram separados e pedia-se ao instruendo que os ligasse de novo. Para fazer isto, era necessária a seguinte sequência:

  1. O contorno da peça tinha que ser efectuado com o tacto, focando características proeminentes ou distintas. Se de início a capacidade de visualizar a forma da peça era pequena, juntar novamente o puzzle era difícil, se não impossível.

  2. Era então necessário integrar uma certa quantidade de informação táctil. Era necessário comparar a informação de ambas as mãos na colocação da peça na sua posição anterior - uma mão sentindo o contorno da peça e a outra definindo a forma do espaço a preencher.

Descobri, enquanto fazia este exercício, que a capacidade de relacionar a forma do puzzle com a forma do espaço em relação com a semelhança de forma e a direcção da colocação, parecia estar gradualmente relacionada com a capacidade geral individual da pessoa para se orientar a si mesma. Os indivíduos variavam consideravelmente na sua capacidade para coordenar o movimento, para medir e manipular a peça e o espaço, reconhecer alternativas quanto à direcção da colocação da pedra a espaçar, compreender que a peça não se ajustava e sentir que estavam a forçar uma peça a ajustar-se no local errado.

Falando de um modo geral a concentração que esta tarefa exigia era intensa e era muito grande o nível da frustração devido a faltas de sucesso temporárias ou parciais. Contudo, do ponto de vista do instrutor este tipo de exercício podia ser muito útil para treinar o indivíduo a visualizar a forma no espaço; seria também um grande auxílio no desenvolvimento da perícia na orientação. Pode-se imaginar a expressão desta lição numa série de puzzles de complexidade crescente, bidimensional e tridimensional.


O sentido de volta

A utilidade de o instruendo estar altamente consciente dos seus próprios movimentos, especialmente das mudanças na direcção do movimento, contribui para a importância do ensino da volta no curso de treino sensorial. A falta do conhecimento da volta é uma das causas mais vulgares da desorientação. Muitas vezes se ouve dizer a um instruendo "fiquei baralhado" explicando a sua ida a um lugar que não era o pretendido, como se ele não tivesse controle no que tinha acontecido. O conhecimento da volta significaria ficar apto a julgar até mesmo as posições de minuto posição do corpo e o desenvolvimento do critério para o julgamento do tamanho ou ângulo da volta.

No ensino da "volta" os termos conceptuais devem primeiramente ser esclarecidos. Meia volta, um quarto de volta e uma volta completa não significam a mesma coisa para diferentes pessoas, e devem ser definidos. Em seguida temos que perguntar qual é o caminho mais eficiente de voltar um número específico de graus, sem "feedback" visual. Isto é difícil de dizer. Talvez a resposta consista em criar um substituto para o feedback visual do ambiente através da visualização. O processo que criei para treinar a capacidade para visualizar uma volta, descreve-se a seguir. Durante este exercício é necessário que o instruendo atravesse um número específico de voltas, visualizando o seu ângulo ou tamanho, enquanto o faz.
 

  1. Coloca-se uma série de postes amarradas uns aos outros em várias disposições, tais como letras do alfabeto ou modelos geométricos vulgares.

  2. Pede-se ao instruendo que siga a corda, usando-a como linha de guia; assim ele é impelido a fazer as voltas apropriadas.

  3. Pede-se então ao instruendo que reproduza pictoricamente a configuração da corda, desenhando-a no quadro.

Assim a pessoa que está a ser treinada demonstra a sua capacidade para transformar a informação quinestésica em informação visual à medida que reproduz a sua gravura mental. Desenhar cada volta do modelo da corda tem que ser feito no contexto espacial, relacionando com as anteriores ou com as seguintes. Assim, o que ela está apreendendo a fazer é formar um mapa mental do seu próprio percurso à medida que ele se move através do espaço.

Se se pode ensinar ao instruendo a visualizar-se a si próprio à medida que ele se vai voltando através do espaço, parece que confere o sentimento do grau do movimento requerido para uma meia volta ou para uma volta completa. Algumas pessoas não precisam de qualquer ensinamento neste aspecto. São aquelas pessoas que se voltam "instrutivamente". Para outras pessoas, contudo, isto torna-se uma tarefa muito difícil. Para representar os 360 graus (volta completa) ou voltas mais pequenas que o instruendo tem que fazer, achei que a analogia do relógio poderia ser útil porque ele representa uma boa imagem de um círculo dividido em segundos. Para pedir ao instruendo que faça meia volta, a técnica seria: "Faça uma meia volta; rodará do número doze ao número seis do relógio."

Uma técnica útil para ensinar o instruendo a avaliar o grau do movimento requerido para um quarto de volta, meia volta ou uma volta ou uma volta completa, é usar quatro postes na periferia de um círculo de aproximadamente cinco ou seis pés de diâmetro. Os postes estão colocados em grau zero (mesmo em frente do instruendo), noventa graus, cento e oitenta graus e duzentos e setenta graus. O instruendo está no meio do círculo. Ele pode praticar em dar o número completo de voltas e em conseguir o feedback tentando ver com a bengala se o poste está directamente à sua frente quando  completou a volta. Assim ele sabe se calculou mal a distância para mais ou para menos.

Um outro método de trabalho com voltas dá-se na circunstância muito vulgar de vir e voltar de e para diversos lugares. Contudo o problema que isto põe ao instruendo, não é necessariamente simples. Se se lhe pedir para partir de um determinado ponto da sala e para voltar a ele, o instruendo tem que dar adequadamente a volta, ou então dirigir-se-á numa direcção diferente. Esta é uma das coisas mais importantes que o instruendo tem que aprender - o conhecimento da volta; insistir na aquisição   desta perícia nunca é demais.


Viragem

Em seguida lidamos com a volta na medida em que afecta a capacidade do instruendo para caminhar em linha recta. Neste contexto está relacionado com a viragem. Iniciam-se pequenas voltas ao instruendo que está em movimento (tentar caminhar em linha recta), à medida que elas surgem, de maneira a que ele se torne consciente da posição incorrecta do corpo quando começa a virar. Assim ele aprende a reconhecer o sentimento corpóreo quando sai do percurso, e torna-se capaz de corrigir a sua posição e direcção.

Um método recentemente desenvolvido para corrigir a tendência para as viragens, fundou-se no uso de um sistema fotoeléctrico. Dois circuitos fotoeléctricos espaçados de dois a cinco pés, são colocados a uma boa distância do receptor para a fonte da luz (aproximadamente) de trinta e cinco pés a cinquenta. O instruendo tenta caminhar em linha recta entre os dois circuitos. Se ele se vira para um dos lados, quebrando um circuito, há um sinal que lhe indica o seu erro. O sinal acaba quando o circuito está novamente completo. Com este tipo de montagem, o instruendo pode praticar por si mesmo, sem o feedback do instrutor; à medida que a execução melhora, a passagem entre os dois circuitos pode tornar-se mais estreita para tornar a tarefa cada vez mais difícil.


Percepção da reclinação

O conhecimento do movimento do indivíduo num plano horizontal inclui, em parte, o sentido da volta. O conhecimento da posição do indivíduo em relação a um eixo vertical está relacionado com o sentido da inclinação. Este sentido fornece indicações quanto à existência de um declive em subida ou em descida. Embora o treino da percepção da inclinação possa ser útil ao instruendo indicando-lhe certas marcas do terreno que ele pode encontrar nas suas viagens, tais como caminhos inclinados, ele ainda não foi incluindo no curso de treino sensorial.


Equilíbrio ou "equilibrium"

Embora o sentido labiríntico controle o equilíbrio ou "equilibrium", nós não tentámos treiná-lo. Para a maior parte das pessoas ele é um sentido que opera abaixo do nível consciente e que parece trabalhar automaticamente. Como o seu funcionamento conveniente é absolutamente essencial para a maior parte das actividades em que o instruendo participa durante a sua reabilitação, quando descobrimos que ele não está a funcionar normalmente devemos tentar descobrir os factores psicológicos ou fisiológicos que estão a originar a perturbação. Fisiologicamente há diversos factores a considerar. A neuropatologia é um deles. Física é outro. Os factores originantes incluem diferentes comprimentos da perna, modo de andar atípico, posição defeituosa e alinhamento impróprio de partes simétricas do corpo. Este último factor refere-se a casos como inclinação pélvica, do cotovelo, etc. A própria cabeça pode ser um factor crucial se tiver tendência para se reclinar para um dos lados. Os factores psíquicos podem também criar desequilíbrio. Por vezes a falta de à-vontade criada por fortes complexos de inferioridade causados pelo facto de ser cego ou reabilitado pode resultar na falta de equilíbrio. Muitas vezes este sintoma desaparece à medida que o instruendo vai avançando através do programa.


Treino auditivo

Vamos agora para o sentido que é mais importante para o cego como fonte de informação acerca daquilo que o rodeia - o sentido do ouvido. O cego está dependente, para caminhar com segurança, da eficiência com que usa este sentido. A nossa finalidade é aumentar esta eficiência, treinando-o para usar o melhor possível a informação auditiva. Embora nós não estejamos absolutamente seguros do grau até ao qual essa eficiência pode ser aumentada nem saibamos exactamente como conseguir, através do treino, melhores auditores, partimos da suposição de que conseguiremos alcançar resultados positivos treinando o instruendo nas diferentes espécies de escuta que ele terá que fazer quando viajar sozinho. Podemos definir pelo menos quatro áreas em que o treino auditivo seria útil:
 

  1. localização do som;
  2. alinhamento do som;
  3. descoberta de obstáculos (uso de som reflectido); e
  4. discriminação do som no ruído de máscara.


Localização do som

A capacidade que tem o ouvido humano de localizar um som no espaço é notável no que diz respeito à sua precisão e velocidade. Quase nos voltamos instintivamente em direcção a um som inesperado produzido perto de nós, calculando (inconscientemente) ao mesmo tempo que o fazemos, o seu azimute, elevação e distância. Contudo, para a maior parte das pessoas visuais, a informação auditiva deste género tem que ser confirmada pelo feedback visual, antes de ser seguida. Esta última é uma verificação dupla em relação à anterior. Mas para as pessoas cegas a localização tem de ser feito unicamente com base na informação auditiva e o grau de precisão com que é feita é crucial. O cego, ao aprender a usar os sons da circulação tem que, com base nessa informação, tomar instantaneamente decisões que afectam a sua segurança, se não a sua sobrevivência. Por isso temos que tentar averiguar o grau de confiança que ele pode ter nas suas decisões; apontar-lhe a extensão e direcção dos seus erros; ensiná-lo a compensá-los se esses erros forem permanentes e eliminá-los tanto quanto possível.

Nem todos os instruendos com que lidamos têm uma audição "normal". Alguns têm falhas que podem variar de insignificantes a graves. Para estes a dúvida sobre até que ponto eles podem confiar nos seus julgamentos auditivos, torna-se ainda mais difícil de resolver. Normalmente uma pessoa nestas condições repetirá continuamente o seu primeiro cálculo da localização de um som, sem ser capaz de dizer qual dos seus julgamentos é o mais preciso. Como podemos nós ajudá-lo a aprender a interpretar a informação auditiva que ele recebe?


Ensinando a localização do som

Tanto para aqueles que ouvem "normalmente" como para aqueles que têm perdas auditivas, aprender a localizar o som mais eficientemente, é um processo que requer prática e tempo. Não sucede automaticamente só porque se perdeu o uso da vista. É um processo que pode ter começado para o instruendo muito tempo antes de ele vir para o centro de reabilitação, mas do qual ele só agora se torna consciente. É também um processo que nós esperamos que continuará depois de ele ter deixado o centro.

Começamos por chamar a atenção do instruendo para o facto de que ele pode dizer onde está uma pessoa, ouvindo de onde vem a voz dessa pessoa. O instrutor fala e pede-se à pessoa que está a ser treinada para o apontar ao mesmo tempo para se pôr de frente para a fonte do som.

Diz-se-lhe que ele deve aprender a fazer como que uma estimativa subjectiva quanto à distância e direcção do som partindo dele. O instrutor diz-lhe até que ponto ele está acertado ao pôr-se em frente e ao indicar. Em seguida o instrutor mudará de posição e falará para o instruendo de um ponto diferente da sala. Pede-se de novo à pessoa que está a ser treinada que avalie a distância e direcção do som. Então o instrutor pára de falar. Pede-se ao instruendo que vá até ao lugar exacto onde ele supõe que está o instrutor. Quando ele pensa que chegou a esse lugar ou que está perto dele, diz-se-lhe se ele está muito perto ou por quanto errou. Isto é o princípio. A partir deste ponto podemos aumentar o nível de dificuldade da localização, mudando o género de som que o instruendo tem de localizar, aumentando a distância entre os dois, baixando a intensidade do som ou introduzindo ruídos de máscara. O tempo que gastamos com estes exercícios é proporcional ao melhoramento que gostaríamos de obter, e ao que esperamos alcançar.

Ainda temos muito que aprender quanto à dinâmica da localização do som. Gostaríamos de ser capazes de ajudar o cego a localizar o som com rapidez e precisão. Algumas das perguntas que fazemos são:
 

  • A que nível de certeza se pode actuar seguramente, com base na informação auditiva? Por exemplo, quanto tempo terá que esperar o instruendo antes de atravessar sozinho uma rua? Quão seguro tem ele que estar de que não há carros na sua vizinhança imediata? Poderemos generalizar quanto ao tempo de reacção necessário para a estimativa grosseira da localização de um som, em contraste com o tempo necessário para haver uma certeza?

  • Será eventualmente capaz de dizer, aquele instruendo que está permanentemente um pouco enganado na localização do som: "Normalmente eu ouço um som quinze graus mais para a direita do que aquilo que ele realmente está e assim, para o alcançar eu tenho que apontar um pouco mais para a  esquerda?" Isto apenas seria possível se conseguíssemos determinar que os seus erros são constantes em direcção e extensão.

  • Sabemos que os movimentos quase imperceptíveis da cabeça que nós chamamos examinações cuidadosas ajudam a pessoa a localizar um som. Contudo, no caso das pessoas cegas temos um problema especial. Esses movimentos devem ser recomendados ou limitados? Porque embora eles possam ser um auxílio para a localização, podem também prejudicar o alinhamento do corpo, e se a pessoa está a tentar manter a sua direcção em linha recta para um objectivo, podem interferir com a marcha. No caso do instruendo que tem um ouvido "melhor" do que o outro, embora ele se possa sentir melhor se o virar em direcção ao tráfego ou em direcção ao que quer que seja que ele esteja escutando, isso pode resultar numa mudança de direcção porque se ele virar a cabeça o resto do corpo reajusta-se para lhe corresponder.

  • O cego com graves perdas auditivas num dos ouvidos quer saber até que ponto pode confiar na sua audição numa zona de muito tráfego onde se tem que estar atento a muitos e diferentes sons. Até que ponto pode ele contar com a audição de um só ouvido? Qual é o limite máximo para a capacidade de localização monaural?

Já começamos a trabalhar com algumas das perguntas precedentes. Para começarmos a trabalhar com as outras temos que esperar pesquisas futuras. Esperamos um dia ser capazes de responder aos instruendos que fizessem essas perguntas.


Alinhamento de som

Aquilo que referimos como alinhamento de som, é apenas a localização do som através de um espaço de tempo contínuo. Subconscientemente dizemos que o som está agora aqui, agora ali, etc. à medida que a fonte de som em movimento se vai deslocando ao longo do seu percurso. Desenhamos então mentalmente uma linha entre esses pontos com a qual nós mesmos nos alinhamos. Contudo, para a pessoa que é cega, definir o percurso de um som em movimento, tal como um automóvel, em relação à sua própria posição, ou seja, paralelo, defronte, de um ângulo, ao caminho para onde ele está voltano, parece muito mais difícil do que localizá-lo em separado e em diferentes pontos ao longo do caminho. Mas o movimento dos automóveis é contínuo. O instruendo deve aprender a seguir o som visualizando a linha que ele faz quando passa ao pé do seu cotovelo ou em frente da sua face. Só quando ele pode fazer isso é que está apto a atravessar convenientemente uma rua e apto a dizer se se inclina em direcção à corrente do tráfego ou na direcção contrária.


Ensinando o alinhamento do som

Em vez de pôr o instruendo imediatamente em contacto com o trânsito, deve-se ensinar-lhe a seguir um som em movimento, dentro de casa, onde ele pode sentar-se em segurança e onde o som pode ser interrompido em muitos e diferentes pontos. Embora o tipo de audição seja o mesmo que lá fora, os sons podem variar desde o bater saltos, a um aparelho eléctrico que dá sinais e que é transportado, ao chocalhar de chaves. O instrutor, deslocando-se, pode mover o som em modelos especiais familiares para o instruendo, tais como um quadrado, um triângulo ou uma letra do alfabeto. O instruendo deve visualizar e descrever em seguida o modelo que está a ser feito. Ele apenas poderá fazer isto se seguir adequadamente o som.

Outros métodos, melhores para praticar o alinhamento de som, poderão ser executados no futuro. Estamos presentemente a tentar desenvolver uma série de fitas de treino com informação direccional do tipo de que temos estado a falar, de diferentes situações do trânsito. Estas, esperamos, serão um dia executadas pelo instruendo antes e no período durante o qual ele tem que lidar com o trânsito fora de portas. Contudo, nesta altura, essas fitas não estão ainda suficientemente aperfeiçoadas a ponto de poderem ser usadas para treinos.


Detecção de obstáculos

Sabemos hoje que o "sentido de obstáculo" é, tanto nos homens como nos animais, uma função do som reflectido. Os morcegos e os porcos-marinhos têm a capacidade de detectar os obstáculos. Fazem-no emitindo sons que são reflectidos do obstáculo e interpretando o resultado combinado do eco e do som em marcha, com uma velocidade tal que eles podem ir ao encontro do objecto em questão ou evitá-lo, conforme ele é desejável ou perigoso.

Temos muito que aprender acerca do uso humano deste sentido do obstáculo. Sabemos que se pode treinar as pessoas cegas no sentido de detectarem superfícies reflectores quer em frente delas quer ao lado; essas superfícies podem ser paredes, quadros de ardósia (usados no ensino) ou as linhas dos edifícios. Sabemos também que é possível detectar aberturas ou intervalos nessas superfícies.


Ensinando os cegos a detectar obstáculos

Não há qualquer espécie de magia em ensinar um cego a detectar obstáculos. Muitos dos instruendos que vêm ter connosco, tiveram já vagamente a consciência de que têm qualquer "sensação" quando se aproximam de qualquer coisa, uma sensação de "aproximação". Normalmente as pessoas que a sentiram tiveram alguma dificuldade em descrever essa sensação. Contudo, a maior parte dos instruendos fica verdadeiramente espantada por ser capaz de detectar a presença de alguma coisa (por vezes alguém) na sua vizinhança.

Ensinamos a detecção de obstáculos usando quadros de pedra de aproximadamente cinco pés de altura, que são excelentes superfícies reflectoras. Os quadros são colocados ou em frente do instruendo que caminha em direcção a eles ou então ao seu lado de maneira que ele caminhe perto deles. Pede-se então que indique quando passa pelo quadro. Primeiro pedimos ao instruendo que vá falando à medida que avança em direcção ao quadro. Ele pode fazer isto facilmente. Parece ser este também o caminho mais fácil para o tornar consciente da mudança do som à medida que ele se aproxima do obstáculo. Quando já é capaz de conseguir parar antes de chegar ao quadro (o qual deve estar sempre a diferentes distâncias do ponto de partida), pedimos-lhe que caminhe novamente em direcção ao quadro, desta vez sem falar.

Os instruendos diferem naquilo que experimentam neste período. Alguns dos que conseguem parar antes de ir de encontro ao obstáculo, afirmam ouvir uma mudança do som dos passos à medida que se aproximam do quadro. A maior parte deles, contudo, não ouve esta mudança. Ensinou-se-lhes a caminhar normalmente até ao quadro e os seus passos são silenciosos. O que experimentam é uma sensação de aproximação que é interpretada como uma sensação de pressão na face. Daqui resultou o primitivo e algo enganador nome dado a este fenómeno - "visão facial" - um fenómeno que é hoje em dia conhecido como detecção de reflexão auditiva. A sensação é alternadamente descrita como aproximação; sombra; escuridão (não escuridão visual porque a luz não tem nada que ver com este assunto); sensação de estar numa cave; sensação de estar num túnel, e mais vulgarmente a sensação de qualquer coisa vindo sobre a cabeça ou à volta dos ouvidos. Como esta  sensação é muito forte e se dá na maior parte dos casos, no ensino da detecção dos objectos preferimos que o instruendo procure a sensação em vez de procurar a mudança do som. No último caso, se o instruendo caminha normalmente, em alguns casos os seus passos serão audíveis e noutros não, mas a sensação continuará em qualquer situação. Contudo, dizemos-lhe que aquilo que ele experimenta é na realidade um fenómeno auditivo, e que, onde não houver um som a ser reflectido da superfície de um objecto ou obstáculo também não haverá sensação de pressão.

O instruendo aprende também a usar essa sensação de aproximação como uma indicação de que ele está a passar ao lado de qualquer coisa, tal como um quadro (durante a classe) ou uma árvore lá fora. O mesmo princípio continua a operar, mas a sensação é agora mais forte de um dos lados da cara. É por vezes descrito como uma cavidade sobre a orelha, como uma concha do mar.

O instruendo que aprendeu a aproximar-se de um obstáculo e a parar antes de ir de encontro a ele e a indicar quando está a passar ao lado de qualquer coisa, é seguidamente ensinado a detectar aberturas tais como passagens, becos e esquinas da rua. Normalmente se ele desenvolveu a sua perícia em localizar pela sensação superfícies reflectoras, será também capaz de dizer onde elas acabam - na abertura. Conheci instruendos que atravessavam uma abertura de mais de oito polegadas entre dois quadros de pedra e que paravam no meio porque sentiam uma sensação de abertura oposta a uma sensação de fechamento.

O nível de perícia que pode ser atingido nesta área varia consideravelmente entre os indivíduos. Muitos instruendos lutarão durante semanas sem que suceda nada de extraordinário - esbarram sempre com o quadro. Um dia subitamente, alguma coisa se produzirá e então virá a sensação, quando o instruendo parar, antes do obstáculo.

Estamos ainda a examinar este fenómeno. Embora se saiba que é um fenómeno auditivo no qual a orelha nota uma alteração no grau de elevação do som, sabe-se também que para muitos esta alteração não é conscientemente perceptível, mas que a sensação de pressão o é. A maneira como as duas se relacionam está ainda por determinar. Sabemos que a capacidade para detectar objectos ou grandes superfícies reflectoras é extremamente útil para uma pessoa cega. Ajuda-a a dizer o tamanho e dimensões de uma sala, escutando as suas propriedades de eco e também se ela está cheia ou vazia. Ajuda-o a saber quando alcança a parede em direcção à qual caminha; a descobrir entradas se a porta está aberta; e a dizer quando passa por um beco ao descer a rua, e quando está à esquina da rua.

Na medida em que este fenómeno é tão importante para a pessoa cega, é igualmente importante que aprendamos mais sobre ele. Queremos saber como é que o ruído ambiente afecta a sensibilidade na detecção de obstáculos, e que factores psicológicos inibem a capacidade do cego para percepcionar os sinais auditivos. Estas e outras perguntas merecerão futuramente a nossa atenção. Estamos ainda a tentar determinar o efeito do género de treino auditivo que faremos para a capacidade de detectar obstáculos. Foram feitos testes preliminares a vinte instruendos do Centro de Reabilitação St. Paul; fizeram-se testes cerca do início (na terceira semana) e cerca do fim (décima quinta semana) de um programa de dezasseis semanas.


Discriminação do som no ruído de máscara

Há, para todos nós, muitas situações na vida em que estamos num sítio muito barulhento, tentando escutar uma determinada coisa. Podemos estar numa festa entre uma grande algazarra de vozes, tentando escutar a nossa conversa ou a de outra pessoa. Ou podemos também estar metidos numa conversa com diversas pessoas, ou a ver televisão e a tentar ouvir a campainha do telefone no quarto ao lado. Para o cego, as situações em que ele precisa ouvir discriminadamente, multiplicam-se, porque em muitas situações barulhentas, tais como atravessar uma rua movimentada ou manobrar numa área comercial em que as pessoas visuais podem utilizar a visão, o cego deve permanecer atento aos sons que são importantes para ele, ouvindo.

A discriminação do som no ruído de máscara é uma ciência importante que o cego deve desenvolver. Requer uma concentração da atenção naquilo que ele pretende ouvir e uma "expulsão" dos elementos auditivos que são inconvenientes para os seus fins. A discriminação do som no ruído de máscara significa uma facilidade crescente em apanhar um som fraco quando há um som alto presente ou próximo. Significa ser capaz de ouvir o fraco motor do carro atrás do grande caminhão, e saber que há dois veículos que têm de passar antes de poder atravessar, e não um. Claro que há limites para a nossa capacidade de fazer isto, porque há limites, fisiologicamente para a audição do indivíduo e há um ponto no qual o ruído de máscara se torna tão forte que por mais atenta e concentrada que esteja a pessoa cega, não consegue ouvir o ruído mais fraco. Contudo, dentro destes limites o factor de atenção tem um papel importante.

O instruendo pode aprender a ouvir discriminadamente um só som que é mais fraco do que o ruído de fundo. Podem-se pôr os dois sons numa fita de gravador. À medida que o ruído de fundo aumenta de volume, torna-se mais difícil discriminar o pequeno som que ele quer ouvir. este género de concentração de atenção é um factor chave na discriminação do som, distinguindo o instruendo que está alerta para muitos sons à sua volta do instruendo que parece ter dificuldade em captá-los.


Treinando os restantes sentidos

Ao treinar os restantes sentidos de um cego, encontra-se muitas vezes hipersensibilidade e mesmo resistência a enviar a informação daquilo que o rodeia, anteriormente obtida pela visão, através de outros canais sensoriais. A alguns instruendos parece-lhes artificial, pouco natural e perturbador usar, para obter informação, meios de que as pessoas visuais não necessitam. Por exemplo, alguns instruendos, embora gratos por poderem aprender a usar melhor a sua audição, estão desgostosos por terem de o fazer assim. Isto é muito mais perturbador no início do treino antes de os novos moldes de comportamento se terem tornado automáticos e simultaneamente, parecerem mais naturais. Como o sucesso se dá com mais frequência, aquilo que é normalmente tomado como compensação torna-se efectivamente uma realidade. Como o instruendo continua a encontrar novos meios de obter informação acerca daquilo que o rodeia, uma vez obtida através da visão, constrói moldes de sucesso que o irão ajudar a renovar a sua confiança em si mesmo.

 

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Ms Fields é instrutora de treino sensorial no Centro de Reabilitação para Cegos de St. Paul Newton, Massachusetts, e membro de pesquisa do Centro Americano para Pesquisa da Cegueira e Reabilitação, um laboratório fundado no ano passado e unicamente devotado aos problemas médicos, psicológicos, sociológicos e de reabilitação dos cegos, também localizado em Newton, Massachusetts.

in  «The Next Outlook for the Blind»
Janeiro de 1964 - nº 1 - vol. 58 - pág. 2

 

 

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publicado por MJA