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 Sobre a Deficiência Visual

Sonhos Arquetípicos em Portadores de Deficiência Visual

Jorge António Monteiro de Lima
 


 

1. Apresentação

Falar de sonhos de deficientes visuais é algo que tem gerado muita polêmica no mundo acadêmico. Embora existam inúmeros estudos acerca das deficiências, poucos tem abordado tais questões com profundidade.

Como se formam as imagens e a percepção visual de alguém que jamais enxergou?

Como se dá o mecanismo de sonhar de um deficiente visual?

As imagens que o nosso cérebro forma em nosso sonho são ligadas exclusivamente a um aprendizado?

Só podemos sonhar com aquilo que vemos?

Este estudo utilizou como metodologia a clínica psicoterapêutica de base analítica. O material foi coletado por meio de entrevistas, feitas com deficientes visuais de todo país na clínica, pela Internet, em debates de rádio em que portadores de deficiência contavam sua experiência vivência com a produção onírica.

Ao longo deste estudo utilizaremos a palavra deficiente para exprimir uma realidade vivência de uma pessoa que por motivos diversos perde uma capacidade associada a sua percepção, motricidade, e ou comunicação. Embora alguns autores utilizem o termo " portador de necessidades especiais" esta terminologia não abarca a realidade que impõe se pela vida.

O termo deficiente surge etimologicamente do Latim - "efficcere" e define-se pelo" ato de provocar resultados". O resultado que então propomos é o da unificação necessária entre as polaridades da vida- entre a saúde e a doença- uma síntese que faz-se necessária para a possibilidade de harmonização psíquica de um deficiente. Este terá de apreender a conviver com sua " patologia" para poder tornar-se um ser produtivo e sociável.

A busca de um resultado é o que exprime- se na realidade de uma deficiência, que traz em si um enigma como o que proposto pela Esfinge ao rei Édipo, na mitologia Tebana de Sófocles (Teatrólogo grego 496 A.C.) : " Decifra me ou devoro-te..."

A realidade psíquica de um portador de uma deficiência tem suas particularidades. Os aspectos individuais da história de vida, o desenvolvimento do corpo físico e sua adaptação, a formação da personalidade, as influências do meio em que vive em sua criação aglutinam- se em sua psiqué. Cada experiência vivenciada de forma objetiva e ou subjetiva tempera- se de uma afetividade peculiar e única.

Contudo a experiência clínica em psicoterapia, no convívio com a dor e o sofrimento do ser humano, traz nos uma outra realidade adicional. Frisamos que esta realidade que surge não exclui as demais, pelo contrário soma- se a estas. Alem dos componentes pessoais, e sociais observamos componentes universais, elementos genéricos que estão presentes a realidade dos deficientes, com componentes que transcendem tempo e espaço, credos e dogmas, culturas e sociedades.

Elementos que pertencem a espécie humana e apresentam-se em todas as partes do planeta.

São o postulado teórico que C. G. Jung, Psiquiatra Suíço , definiu como Arquétipo: "... imagens universais, temas bem definidos que reaparecem sempre e por toda parte. Encontramos estes mesmos temas nas fantasias, nos sonhos, nas idéias delirantes, e ilusões dos indivíduos que vivem atualmente.

A estas imagens e correspondências típicas denomino representações arquetípicas. Quanto mais nítidas, mais são acompanhadas de tonalidades afetivas vividas...elas nos impressionam, nos influenciam, nos fascinam. Têm sua origem no arquétipo que, em si mesmo, escapa à representação. Forma preexistente e inconsciente que parece fazer parte da estrutura psíquica herdada e pode, portanto, manifestar-se espontaneamente sempre e por toda parte..." CW XVI, 1958 PPg. 323

Estes arquétipos mostram nos de forma prática que alem dos conteúdos individuais, da dor e sofrimento particular de cada deficiente existem elementos comuns que repetem - se de forma independente à história de vida. Apontaremos na seqüência deste trabalho alguns destes elementos.

Nosso alvo de estudos são os deficientes visuais de nascimento, ou seja as pessoas que nasceram cegas. Como terminologia utilizaremos o termo D.V. Este estudo é fruto de mais de 10 anos de pesquisas científicas na área, vivências, observação clínica de pacientes portadores de deficiência visual, somadas a nossa própria experiência de vida.


2. Uma questão de percepção

"Há mais de três anos atrás, tive um sonho que iria morar no Setor Urias Magalhães ( Goiânia) em uma casa, cuja a rua tinha vários meninos jogando bola, esse sonho se tornou realidade! Comprei a casa e do mesmo jeito do sonho, tinha crianças jogando bola, isso foi um aviso de Deus? Ou os sonhos tem um pouco de realidade? Já tive vários sonhos que acabaram se tornando realidade, possível isso?"  Carlindo, Goiânia GO

A ciência moderna, em especial a psicologia do desenvolvimento, tem deparado se com uma questão prática acerca da etiologia da percepção. Estudos mais novos por meio de ultra-som e ressonância magnética apontam para a formação de nosso aparelho preceptivo entre o 2 ou 3 mês de gestação. Neste período são formados os olhos, ouvidos, nariz, boca, pele e cérebro de um feto. Estes desde seu surgimento já apresentam sinais de funcionamento.

Já na vida intra-uterina inicia-se por meio de movimentos repetidos e repetitivos, os primeiros ensaios da memória corporal - a repetição como base da aprendizagem.

Este processo estender-se há por toda a vida sendo facilmente observado na primeira infância. O domínio do corpo terá papel fundamental na motricidade e também no desenvolvimento da personalidade. Regidas pelo tempero da afetividade as experiências tendem a aglutinar - se seja de forma cociente ou inconsciente em nossa psique.

A medida em que avançamos em idade outras formas de percepção surgem e ou são elaboradas. Estas então diferenciam-se como formas de maior utilidade, de acordo com cada experiência individual.

Cada indivíduo então utilizará uma forma específica de percepção que irá adaptar - se melhor a sua psiqué.

Existe ainda algo que devemos salientar. Embora um deficiente visual tenha um comprometimento de sua forma de recepção de imagens, ou seja alguma região do olho e ou do nervo óptico ser afetada, geralmente não apresenta comprometimentos em seu cérebro, a menos que sua cegueira seja devido a alguma lesão na região cerebral. Assim ele pode formar imagens por seu cérebro estar intacto. É baseado neste princípio, que são investidos todos os anos milhares de dólares em pesquisas em oftalmologia, buscando técnicas adaptavas para reconstrução do aparelho visual, como por exemplo o "Olho biônico".

Quem forma as imagens não é o nosso olho mas sim o cérebro. A região cerebral que forma as imagens captadas pelo olho é a região conhecida por área occipital responsável pela visão (perto da nuca), sendo que existem outras áreas responsáveis pela memória visual.


3. A tipologia psíquica de C. G.Jung

"Sonhei que estava com minha namorada e com um amigo no alto de uma montanha. Esta montanha era recortada numa faixa vertical, como se houvessem passado uma faca nela. Neste recorte montaram uma montanha russa, e diziam que era a maior do mundo em queda livre e velocidade. Sou cego e a via com perfeição. Entramos nela eu e minha namorada no carrinho da montanha russa e uma voz disse: Vocês vão descer. Na queda acordei assustado. Neste dia ela terminou comigo para sempre."  João, São Paulo SP

No desenvolvimento do estudo da consciência humana Jung-1928 em sua obra "Tipos Psicológicos", faz um "mapeamento" de nossa percepção distinguindo tanto nossa forma de ação no mundo -as atitudes- quanto nossa forma de receber e elaborar as informações -As Funções -.

Esta percepção pelas funções, dá-se por dois eixos distintos um não racional formado por duas funções distintas: Sensação e Intuição; e outro racional formado pelas funções: Pensamento e Sentimento.

Neste estudo vamos nos ater ao eixo não racional, principal interesse deste trabalho que é o das funções intuição e sensação.


3.1. A função sensação e intuição

"O tipo sensação é em todos aspectos, o oposto ao tipo intuição. Está baseado quase exclusivamente no elemento da sensação (audição, paladar, olfato, visão e tato). Sua psicologia orienta-se pelo instinto e pela sensação (5 sentidos). Depende, pois, totalmente dos estímulos externos." CW VI prgf 224

Esta função baseia-se na capacidade de percepção por meio dos 5 sentidos (visão, audição, paladar, olfato e tato). "Neste tipo as determinantes prevalentes estão nos sentidos, na percepção sensível.

O tipo sensação não tem o pensamento diferenciado e nem o sentimento diferenciado, mas sua sensibilidade é bem desenvolvida. Como se sabe este é também o caso do homem primitivo. A sensualidade instintiva do primitivo conta, porem, com a contrapartida, a saber, a espontaneidade do psíquico. O espiritual, as idéias, que aparecem, por assim dizer. Não é ele que as produz ou as pensa, falta-lhe para tanto a capacidade mas são elas que se produzem e o acometem e, inclusive , se manifestam como alucinações. Esta mentalidade devemos designá-la como intuitiva, pois intuição é a percepção instintiva de um dado conteúdo psíquico.

Enquanto a sensação, via de regra, é a função psicológica mais importante do primitivo, a intuição é a função que se manifesta como menos compensadora. Em grau mais elevado de civilização, onde algum têm mais diferenciado, o pensamento e outros sentimentos, também há muitos que tem uma intuição altamente desenvolvida e a utilizam como função essencialmente determinante. Daí resulta o tipo intuitivo." CW VI Prf 233.

A função intuição alem de ser o oposto da função sensação é algo extremamente comum ao ser humano. A intuição é uma "idéia a priori", algo que nos invade e que comumente chamamos de "tino ou faro comercial", e ou "instinto de mãe" ou ainda "nosso sexto sentido".


3.2. Reorganização das funções

No processo natural do desenvolvimento da personalidade, na dinâmica da energia psíquica, observamos algumas peculiaridades quando trazemos a nosso campo de estudos os D.V.s;

Existe uma disfunção natural na função Sensação - a visão é afetada e funciona de forma parcial e ou total. Por meio do equilíbrio natural surge um movimento de compensação no qual a energia psíquica que seria destinada a visão é redistribuída a outros aspectos da função Sensação. Assim a percepção do D.V. passa a ser redirecionada para o olfato, tato, audição e paladar; assim o que ocorre é que estes outros sentidos tornam-se mais aguçados naturalmente. Contudo este redirecionamento não se dá somente na função sensação, atinge da mesma forma a função Intuição. Este reequilibro ocorre de forma natural em um processo compensatório que é vital para o D.V.


4. Afetos, complexos e arquétipos

"Sonhei que estava com meu namorado fazendo amor. Ele então me beijava antes de ter um orgasmo. Após fazermos amor descansamos. Ele estava mais forte do que era. Ele então me disse que tinha algo a fazer, que era matar um bandido. Questionei ele e ele me disse que este era seu papel no mundo o de colocar ordem nas coisas que estavam em desordem. Mostrou me uma espada e disse que iria cortar sua cabeça e que voltaria quando houvesse acabado sua missão para casar-se comigo, que esta seria sua prova de bravura."  Paola

Enigmas pairam sobre nossas cabeças. A existência de um lado oculto sobre a realidade dos D.V.s fez ao longo de toda história da humanidade com que surgissem inúmeras lendas, que repetiam-se independentemente da cultura.

A dinâmica citada anteriormente entre as funções não racionais, justificaria uma das razões pela qual todo D.V. era chamado de "Tirésias" na Grécia antiga. Este homem foi célebre adivinho Tebano, arauto do destino dos Tebanos. Na mística a cegueira geralmente era vista como sinônimo de clarividência, ou seja de intuição apurada.

Estas representações não eram exclusivas de uma única civilização na história da humanidade. Eram uma imagem universal presente em várias culturas em épocas distintas. O mito Japonês lendário do Samurai cego, o maior espadachim de todos os tempos é mais uma das inúmeras histórias neste sentido. Nos quadrinhos da Marvel nos anos 70 surge um herói cego com super poderes "O Demolidor". No cinema a interpretação de Al Pacino em "Perfume de Mulher" reensaia na modernidade este traço arquetípico. O super-herói capaz de transcender o traço comum da humanidade. A eficiência da deficiência.

Este padrão arquetípico de reconhecimento do mundo através da função Intuição, tempera-se de toda a história pessoal de cada D.V.; a afetividade mescla-se com a constituição dos complexos postulado teórico de Jung que exprime: "um conjunto de idéias carregadas afetivamente" - isto resulta que embora o D.V. tenha contato intenso com a função Intuição, nem sempre terá pleno domínio da mesma. este domínio dependerá de aprendizagem, da constituição de sua afetividade, dos seus complexos, do meio em que está inserido.

Só pelo fato de não ser uma função racional, o contato com a Função Intuição é difícil. Torna-se algo mistificado, de difícil compreensão, vivência e subjetivo. Uma experiência de "pele", que impõe-se à nossa consciência de forma pessoal e única.

Esta subjetividade poderá fazer com que surjam dificuldades para o convívio com a Função Intuição, de expressar e comunicar, de dar vazão a este tipo de percepção, e de a racionalizar.


5. Os sonhos dos portadores de deficiência visual ― uma possibilidade de percepção do mundo

O sono é um mecanismo psíquico fisiológico. Envolvem toda atividade cerebral, nosso sistema nervoso, que entra em processo de relaxamento que visa a reposição de energias, produção de hormônios metabolismo de substancias. O sono é um dos principais agentes reparadores e reguladores do sistema nervoso e de todo organismo.

Inúmeras doenças surgem e ou são agravadas devido a distúrbios do sono como a depressão, a síndrome de pânico.

O sono e o sonho também regulam nossa afetividade, marcam-se por trazerem reequilibro de nosso sistema nervoso, de nossas emoções. Nos sonhos estes afetos ressurgem e marcam sua presença de forma pré-consciente.

Após inúmeras fases de relaxamento surge então a produção onírica que faz o mesmo processo reparador com nossa psique. O sonho dentre outros atributos reequilibra nossa psique: afetos e razão; consciência e inconsciente; instintos e complexos. tem em si um potencial de síntese, de mediação, de reorganização e de aprendizagem. Por ele podemos entrar em contato com toda nossa personalidade.

Nos sub-itens abaixo colocamos alguns exemplos de sonhos de deficientes visuais coletados em todo país: pela Internet, em depoimentos gravados ao vivo na Rádio K do Brasil (Am 730, Goiânia, no programa Kadmous alassal), e em nosso consultório particular.

Catalogamos 2 tipos básicos de sonhos, com relação a dinâmica nos sonhos de deficientes visuais de nascimento:


5.1. Sonho concreto e sinestésico

"Eu sonho todos os dias com coisas que ocorrem em minha vida. Ontem fui na casa de uma amiga na Vila Ida, que me deu bananas para comer. Eu as provei e estavam deliciosas. No sonho estava comendo as bananas e conversando com o irmão de minha amiga. Ouvi sua voz no sonho e sentia o gosto das bananas. Ao fundo, no sonho, ouvia uma canção de Roberto Carlos. Acho que enxergar é algo muito abstrato, assim como Deus e alma."  Ana - São Paulo SP
 
"Ando sonhando com deslocamentos pelos espaços, tipo casas e ruas, com vozes de pessoas, com sabores de alimentos, com coisas que me assustam e me fazem acordar apavorado tipo ruídos ou sensações de que pessoas que já haviam morrido estavam se encostando em mim."  Eduardo, 17 anos, São Paulo SP
 
"As vezes também sonho muito que estou me deslocando no espaço. As vezes estou sonhando que preciso correr e não consigo e aí, em geral estou de mãos dadas com alguém, a pessoa do meu lado corre e eu, por não conseguir correr, vou voando."  Simone
 
"As vezes sonho com a traição, de meu namorado, sinto ele no sonho me traindo com uma amiga dele. É tão real, ouço sua voz e sinto seu cheiro e o cheiro dela. No sonho eles fazem barulho de quem está fazendo amor. Geralmente acordo muito mal, acordo muitas vezes com raiva, e me parece, mesmo na vida real, que fui traída de verdade. Não consigo me desligar do sonho rapidamente. Fico as vezes um dia todo mal com isto. É engraçado, fico de mal humor mesmo, e tenho que me controlar para não brigar com a pessoa envolvida no sonho, caso a encontre na rua."  Ana, 23 anos, Belo Horizonte MG
 
"As vezes sonho que estou em queda livre, caindo de uma grande altura, outras vezes sonho que estou me afogando, acordo assustado, com o coração batendo forte, com taquicardia e acordo gritando. Tenho a impressão que o estrado da cama sumiu e mergulhei no espaço. Geralmente quando sonho com o afogamento choro e transpiro muito. Mas é engraçado pois não tenho na vida real medo de altura, nem de água já que nado com freqüência."  Marcos, Rio de Janeiro RJ


Estes sonhos de cegos de nascença mostram-nos o quanto a função sensação é ativada na produção onírica, misturando se tanto com a afetividade quanto com os Complexos ativados. Estes sonhos geralmente misturam percepções táteis, audição, paladar e olfato junto com o enredo do sonho. Surge por este meio a produção onírica que trará como base a formação de percepção pela experiência concreta de vida dos deficientes visuais, ou seja, a reprodução do mundo pela percepção corporal.

Mas uma indagação fica: Como uma pessoa que jamais enxergou pode definir o que é uma imagem?

Esta dúvida paira no ar, visto que o mecanismo do sonho é geralmente visual. Frisamos contudo que a capacidade do deficiente visual de formar imagens em seu cérebro, na maior parte dos casos está intacta. A deficiência afeta geralmente os olhos e ou o nervo óptico. Na verdade o que ocorre ao certo ainda estamos por desvendar.


5.2. Sonho de função intuição:

Itamar (ao vivo na rádio), do Setor Bueno: "Eu também sou cego, mas em meus sonhos eu enxergo normal. Só que dentro do próprio sonho eu fico assim: gente, eu sou cego mas estou enxergando!... No sonho, fico preocupado com isso. Pô!, mas espera aí, a pessoa aqui pensa que estou tapeando ela. Fico profundamente incomodado com isto."  Itamar, Goiânia GO
 
"As vezes sonho que enxergo, eu conheci minha mulher em um sonho que vi seu rosto. Imaginando... será que é isto? Então por que quando as pessoas falaram como ela era, eu a vi igualzinho no sonho?  Antonio, Porto Alegre RS
 
"Vou falar de algo muito curioso que acontecia comigo quando criança. Antes porém, tenho que lhe informar: moro em Resende, cidade do RJ, meu padrinho mora em Volta Redonda que fica cerca de meia hora daqui. Bom, é curioso, mas sempre que sonhava com ele, ele aparecia aqui em casa! Tinha vezes de eu mesma ao acordar, avisava a minha mãe que meu padrinho estava vindo pra cá. E vinha mesmo. Hoje em dia, acho que isso não ocorre mais. Ele também parou de vir aqui devido a compromissos. Não vinha muito na época também, mas quando vinha, era certo que na noite anterior eu havia tido um sonho com ele. Devo dizer ainda, que tinha um ciúmes doentio dele com qualquer mulher! é engraçado, parece que estou vendo as situações! Outra coisa, tenho noção de cores e vultos, mas não o suficiente para me locomover sem a bengala. Enxerguei no passado. Quando eu sonho, nunca estou com bengala e sempre sei da disposição de tudo, mesmo que nunca tenha conhecido o lugar que sonho."  Débora (Miau), RJ
 
"Marcos (ao vivo na rádio): - sim quero contar uma experiência, este sonho me impressionou muito. Bem eu sonhei que estava de frente para o espelho, e nele eu via meu rosto, e estava fazendo minha barba. Preciso dizer um detalhe eu sou cego de nascença, sou deficiente visual, e nunca enxerguei. Quando acordei estava emocionado, pois era a primeira vez que enxergava, e algo dentro de mim dizia: Está vendo é assim que é enxergar... Bem eu acordei meio que aturdido, impressionado, com o sonho. Era a primeira vez que eu via meu rosto no espelho."  Marcos, Anápolis GO


Existem várias descrições deste fenômeno. Cegos de nascença podem sonhar que estão enxergando, bem como deficientes físicos podem sonhar que estão andando, as pessoas comuns podem sonhar que estão voando e assim por diante.

Nosso cérebro tem uma função responsável por criar imagens, que está muito presente no mundo dos sonhos. Nos sonhos não estamos enxergando as coisas, nós não vemos nos sonhos, apenas reproduzimos percepções que temos, mas o nosso cérebro pode montar as imagens tanto pela capacidade inata que possui quanto por nosso instinto de criatividade. Aqui surge um ponto de discussão ampla para a ciência, que hoje em dia ampliamos.

Estas imagens dependem ou não de um aprendizado prévio?

Alguém pode ou não construir imagens sem nunca as ter visto?

Nossa observação clínica mostra que independentemente de termos visto algo, podemos criar sua imagem, somente a partir de uma descrição e ou impressão sinestésica (física). Ou seja, podemos por meio de nosso instinto de criatividade, de nossas fantasias, imaginar lugares em que nunca estivemos, idealizar pessoas que nunca vimos, e assim por diante. Esta capacidade é inata ao ser humano. E o melhor disto tudo é que esta observação quebra em parte os postulados de que a aprendizagem é fundamental aos processos cognitivos da percepção. Nem sempre é o que observamos. As vezes imaginamos algo completamente absurdo em que jamais tivemos contato.

Soma-se a esta experiência a capacidade da função intuição que fica mais aguçada na maior parte dos deficientes visuais. Assim alem da criatividade, da fantasia surge o terceiro elemento que é a Intuição. Em nossa experiência com os D.V.s percebemos que mais de 70% deles tem esta capacidade aguçada. Agora devemos salientar que também existem os conflitos naturais que associam- se a maturação desta função psicológica que precisará ser integrada a personalidade.


5.3. Sonhos arquetípicos de deficientes visuais

Temas arquetípicos geralmente são encontrados nos sonhos dos deficientes visuais: O herói, A morte, o bode-expiatório, a jornada, a traição, e muitos outros. De acordo com a profundidade de cada psiqué estarão refletidos tais temas, que surgirão de acordo com a necessidade pessoal de cada indivíduo.

Os sonhos com temas arquetípicos dos deficientes visuais vão misturar - se justamente com aspectos da função Intuição, trazendo percepções extra-sensoriais (acima dos 5 sentidos), premonições e contato apurado com o sagrado e com a essência de cada ser humano. Assim remontam aspectos que transcendem tempo e espaço, culturas e sociedades, um mergulho profundo na essência da psiqué da humanidade.

A quinta função - chamada de Transcendente - aqui então se fará presente unificando e dando sentido a esta experiência por meio de um paradoxo: apurando a capacidade de ver de quem não enxerga. Traz assim novamente o questionamento encontrado no sentido da própria palavra Deficiente - o ato de provocar resultados. Resumindo: "Transcende-me ou devoro-te..."
 

 

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Jorge Antônio Monteiro de Lima é Pesquisador em saúde mental, Psicólogo e Músico. É também Consultor de Recursos Humanos em projetos de acessibilidade para pessoas com necessidades especiais

Fonte: Portal do Marketing

 

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13.Dez.2011
publicado por MJA