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 Sobre a Deficiência Visual

Simulando as Deficiências: como é ser um deficiente visual?

- Preparação da turma para receber colegas com deficiência -

Maria Salete Fábio Aranha
 

'Eu Não Quero Voltar Sozinho' de Daniel Ribeiro
cena da curta metragem brasileira 'Eu Não Quero Voltar Sozinho' dirigida por Daniel Ribeiro

 

  1. Aceitação sem imposição
  2. Como é ser deficiente visual
  3. Adivinhe pelo tacto
  4. Como se usa a bengala
  5. Filmes
  6. Envolvendo a Comunidade

 

I. Aceitação sem imposição

Apesar de a inclusão de crianças com necessidades educacionais especiais na rede regular de ensino ser um direito garantido pela Constituição Federal, isso não é suficiente para garantir a construção e o desenvolvimento de um sistema educacional inclusivo. Para tanto, é necessário que a comunidade escolar se disponha a aceitar e a participar desse processo, que é mais complexo do que somente inserir a criança com deficiência, fisicamente, numa sala de aula comum.

Antes de se iniciar um trabalho com alunos com deficiência em classes comuns do sistema regular de ensino, é necessário que se desenvolva um trabalho de sensibilização e acolhimento para a convivência na diversidade com os demais alunos, enfatizando a importância das diferenças entre indivíduos, de maneira geral.

Promova actividades de simulação, durante as quais, os alunos poderão vivenciar uma deficiência. As simulações  favorecem a ampliação perceptual do que é conviver com características e consequências de deficiências. Essas experiências permitem que eles percebam as dificuldades das pessoas com deficiência e como elas eventualmente podem se sentir.

As actividades apresentadas foram realizadas e aprovadas por professores de classes comuns, em conjunto com professores de classes especiais.

 

II. COMO É SER UM DEFICIENTE VISUAL?

Objectivo - Ajudar as crianças a perceberem como é «precisar de ajuda» e como oferecer e dar ajuda a uma pessoa com deficiência visual.

Material - Vendas pretas para todo o grupo.

Procedimento - Divida o grupo em pares, sendo que enquanto uma criança representará a pessoa cega, a outra será o acompanhante. Após um certo tempo, a dupla deverá inverter os papéis, de forma que aquele que representou a criança cega, será agora o acompanhante, enquanto que aquele que foi o acompanhante, será agora a criança cega. Explique claramente que todos os alunos terão a oportunidade de vivenciarem os dois papéis: o de criança cega e o de acompanhante.

Explique que o papel do acompanhante é estar ao lado do "cego" para oferecer ajuda e dar essa ajuda quando for solicitada, ou aceita. Explique que é importante perguntar se ele precisa de ajuda e de que forma essa ajuda pode ser dada.

Os pares serão orientados a realizar diversas actividades, tais como:

  • ler um material escrito na biblioteca da escola,
  • tomar água no bebedouro,
  • pedir uma informação na secretaria,
  • dar um passeio no pátio da escola,
  • utilizar o banheiro,
  • etc.


Discussão - Em pequenos grupos formados pelos pares originais, discuta as seguintes questões:

1. Como você se sentiu simulando uma pessoa com deficiência?

2. Você acha que ficou mais atenta para perceber os sons e sentir os objectos?

3. Como você se sentiu simulando o acompanhante?

4. Como acompanhante, quais as coisas que você fez para ajudar seu colega "cego" ?

5. Seu colega "cego"  concorda com você?

6. Você sentiu mudança na sua atitude quando estava vivenciando ser "cego"  e quando estava sendo acompanhante?

7. Qual a melhor forma que você e seu companheiro "cego"  encontraram para fazer as actividades juntos?

8. Foi mais difícil ser o "cego" ou o acompanhante? Por quê?


Explique aos alunos que a simulação de caminhada que acabaram de fazer é parecida com a actividade de orientação e mobilidade, que os alunos cegos têm com educadores especiais, para aprenderem a se locomover com segurança e confiança.

 

III. ADIVINHE PELO TACTO

Objectivo - Proporcionar aos alunos conhecimentos sobre a sensibilidade táctil, mostrando a eles como uma pessoa com deficiência visual desenvolve o sentido do tacto.

Material - Sacola de papel, uma colecção aleatória de objectos, tais como: um lápis, uma maçã, um livro, uma xícara, etc.

Faça seis cartões de cartolina com botões colados (como na figura) para representar o alfabeto Braille.

 

 

  1.º cartão: letras  a b c d e


  2.º cartão: letras  f g h i j


  3.º cartão: letras  k l m n o


  4.º cartão: letras  p q r s t


  5.º cartão: letras  u v w x y


  6.º cartão: letra   z

ALFABETO BRAILLE: Em 1825, na França, um jovem cego, Louis Braille, inventou um sistema de leitura e escrita para uso de pessoas cegas.

 

Procedimento:

1. Divida os alunos em grupos de três ou quatro.

2. Estimule os alunos a sentirem, com os olhos vendados, os objectos que estão dentro da sacola.

3. Cada um deverá identificar um objecto dentro da sacola.

4. Peça a cada um dos alunos que descreva como conseguiu identificar o objecto, ou seja, se a identificação foi possível pela forma, textura, cheiro, etc.

5. Coloque os cartões de cartolina dentro de uma outra sacola e passe-a entre os alunos, pedindo para que cada um deles descreva o que percebeu no cartão.

6. Os alunos devem continuar a sentir os cartões dentro da sacola, até que todos tenham identificado e descrito a localização dos botões em relevo.


Discussão - Tire os cartões da sacola e identifique as letras representadas no alfabeto Braille. Explique aos alunos que eles acabaram de vivenciar a forma como as pessoas cegas desenvolvem o sentido do tacto para serem capazes de ler o alfabeto Braille e de perceber o mundo à sua volta. Discuta com o grupo as seguintes questões:

1. Foi fácil identificar os objectos dentro da sacola? Por quê?

2. Foi fácil identificar os cartões? Por quê?

3. Quais as dicas que diferenciam um cartão Braille do outro?

4. Você acha que o alfabeto braille é um código secreto usado pelas pessoas cegas?

 

IV. COMO O DEFICIENTE VISUAL USA A BENGALA

Objectivo - Simular o uso da bengala longa para aprender a realizar actividades de orientação e mobilidade com pessoas com deficiência visual.

Material - Vendas para os olhos e guarda-chuvas ou sombrinhas para cada aluno.


Procedimento:

1. Divida os alunos em grupos de quatro, designando um deles para simular a pessoa cega, um para ser o acompanhante e dois outros para serem observadores.

2. Demonstre o uso da bengala longa, segurando a sombrinha a sua frente em direcção ao chão e movimentando-a lateralmente, em forma de arco, enquanto caminha.

3. Coloque um aluno à sua frente, segure em seu cotovelo direito e caminhem juntos.

4. Diga para os alunos caminharem em pares da mesma forma como você demonstrou.

5. Selecione uma direcção para eles caminharem. Um deles usará a venda nos olhos e a bengala longa e o outro será o acompanhante.

6. Oriente cada observador para anotar num papel as situações em que a bengala ajudou.

 

Discussão - Quando todos os grupos tiverem voltado, proponha a seguinte discussão:

Para o cego:

1. Como a bengala ajudou você?

2. Quais as coisas que você conseguiu perceber com a bengala longa ?


Para o acompanhante:

1. Como a bengala o ajudou?

2. Você se sentiu mais relaxado porque seu companheiro estava usando a bengala? Por quê?


Para os observadores:

1. Como a pessoa cega usou a bengala?

2. Ela parecia mais confiante ou tímida?

3. Se você fosse a pessoa cega, você usaria a bengala de forma diferente?

4. Você acha que a bengala deu mais confiança à pessoa cega?

5. Quando usada adequadamente (isto é, quando a bengala é segurada em frente à pessoa e movida para os lados), a bengala longa pode ser de extrema ajuda para a pessoa cega. Se você fosse cego, gostaria de ter uma?

6. Se você tivesse uma bengala longa como você a usaria?

7. Conte para os alunos que existem bengalas longas, médias e pequenas, adequadas para cada pessoa, de acordo com a sua altura. O comprimento da bengala deve serigual à distância entre o tórax da pessoa cega e o chão. Geralmente, elas são de alumínio e são dobráveis.

 

V. FILMES

Há um número cada vez maior de vídeos que podem ser exibidos na sua escola, com personagens com deficiência.

Fique atento, pois muitos passam na televisão e você pode recomendar a seus alunos que os assistam. Esses personagens podem ser objecto de uma discussão em grupo. Relacionamos, abaixo, alguns desses filmes:


Nota: trailers, fichas e sinopses de todos os filmes mencionados aqui:
Cinema e Cegueira


À Primeira Vista - Virgil, um homem que ficou cego após um acidente na infância, é convencido por Amy, que por ele se apaixona, a fazer um novo tratamento especial. Essa cirurgia é realizada com sucesso e ele recomeça tudo de novo, reaprendendo a enxergar à luz do dia e a conhecer a força do amor.

Além dos Meus Olhos - Após alguns anos de casados, James e Ethel, que são cegos descobrem que não podem ter filhos. Quando decidem adoptar uma criança, eles têm que enfrentar uma série de barreiras legais - e provar que são capazes de cuidar de alguém.

Castelos de Gelo - Patinadora adolescente é descoberta por famosa treinadora, que transforma a garota em campeã mundial. No auge da fama, ela sofre acidente, que a deixa cega, tendo de recomeçar do zero, com a ajuda do namorado.

Dançando no Escuro - Uma imigrante checa leva uma vida cheia de dificuldades trabalhando nos Estados Unidos, vivendo numa caravana, com seu filho de doze anos. Ao descobrir que está perdendo a visão lentamente, tenta a todo custo esconder o fato de todos, principalmente do seu filho, porque ela descobre, também, que a doença é genética.

Janela da Alma - Um documentário sobre a deficiência visual, no qual dezanove pessoas com diferentes graus - da miopia à cegueira total - falam como vêem os outros e como percebem e sentem o mundo. Personalidades como Marieta Severo (atriz), Hermeto Pascoal (músico), Arnaldo Godoy (vereador), Evgen Bvacar (fotógrafo e professor de estética da Surbone), José Saramago (prémio Nobel), Wim Wenders (cineasta), Oliver Sachs (neurologista), e muitos outras fazem surpreendentes e inesperadas revelações sobre a visão.

Perfume de Mulher - Um ex-capitão cego e amargurado e um jovem contratado para acompanhá-lo em um tour pela Itália. Essa é a história do filme, que mostra a amizade entre os dois. O ex-capitão descobre mulheres atractivas, usando seu apurado olfacto. O filme mostra variados cenários da Itália para ilustrar a condição de um homem que está condenado à cegueira, mas pouco disposto a aceitar suas limitações.


VI. ENVOLVENDO A COMUNIDADE

O próximo passo, depois da preparação da turma para receber colegas com deficiência, é proporcionar uma reunião onde os pais e familiares dos seus alunos possam também compartilhar desse novo conhecimento. Nessa reunião com a família, os alunos poderão relatar as suas experiências, os adultos com deficiência poderão falar sobre sua experiência de vida, bem como os alunos com deficiência poderão falar sobre a mudança de atitude dos colegas de turma, depois de passarem pelo programa anterior de sensibilização. Geralmente, as eventuais resistências dos pais com relação ao ingresso de alunos com deficiência na escola comum são eliminadas quando percebem que seus filhos estão compreendendo e convivendo de modo saudável e construtivamente com a deficiência em seu quotidiano escolar.


 

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excertos da obra:
Projecto Escola Viva
- Garantindo o acesso e permanência de todos os alunos na escola -
3.º Volume: Sensibilização e Convivência
Autora: Maria Salete Fábio Aranha
Ministério da Educação - Secretaria de Educação Especial - Brasília 2005

texto integral aqui.

 

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29.Abr.2010
publicado por MJA