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 Sobre a Deficiência Visual

Descobrindo o real papel das outras Percepções, além da Visão, para a Orientação e Mobilidade

Tomázia Dirce Peres Lora
 

 

As pessoas percebem boa parte da realidade à sua volta por meio da visão, o que não significa que as com deficiência visual estejam impossibilitadas de conhecer e se relacionar com o mundo. Ela deve se utilizar de outras percepções sensoriais, como a audição que envolve as funções de ecolocalização, localização dos sons, escutar seletivamente e sombra sonora; o sistema háptico ou tato ativo; a cinestesia; a memória muscular; o sentido vestibular ou labiríntico; o olfato e o aproveitamento máximo de qualquer grau de visão que possa ter.


1. AUDIÇÃO

O ouvido é o principal órgão sensorial à longa distância, pode ser considerado como o sentido "rei" principalmente para as pessoas com cegueira, é o único meio pelo qual a pessoa cega pode perceber a distância e a profundidade em qualquer ambiente.

Ao contrário do que parece, não existe uma compensação automática da agudeza auditiva causada pela perda da visão. Ela aparece como resultado do esforço persistente das pessoas cegas para usufruírem ao máximo desse sentido.

LOWENFELD (1980), recomenda estimular as crianças cegas a permanecerem alertas aos sons, interpretá-los e convertê-los em pistas para orientação no espaço.

Pelos sons a criança deficiente visual conhece as qualidades acústicas de sua casa, reconhecendo cada ambiente pelas características de seus respectivos sons. Desde muito pequena deve ser estimulada a tomar consciência de qualquer som que possibilite sua orientação. O som de abrir ou fechar uma porta pode revelar a posição da criança, os sons vindos das janelas favorecem a relação do ambiente interno com o externo da casa e suas relações de espaço e distância.

O professor deve falar sobre os diferentes sons e ajudar a criança a descobrir outros que possam ser utilizados como indicadores de orientação (OCHAITÁ, 1990). Por exemplo, na escola a direção de um corredor pode ser facilmente determinada pelo passo de outras pessoas.

Os corredores que se cruzam podem ser detectados pelos passos e ecolocalização. Num ambiente há várias indicações ou pistas auditivas: uma torneira aberta, troca de som dos passos devido a mudança de piso da superfície, sons característicos da cozinha, refeitório, secretaria, barulho de um ventilador e outros. Qualquer som tem o potencial de se converter em um auxiliar para a orientação. OCHAITÁ, (1990) insiste para que os professores estimulem os alunos deficientes visuais a converterem o seu "ouvir" em um "escutar" ativo para a orientação e mobilidade.

Pais e professores devem estar atentos para as inúmeras sub-habilidades do ouvido que ajudam as crianças com deficiência visual a interpretarem o ambiente e a se orientarem de forma mais segura no mesmo, devendo ajudá-las para que possam usufruir ao máximo desta importante via sensorial.


1.2 - Ecolocalização
 

ecolocalização


Este termo indica a habilidade de transmitir um som e perceber as qualidades do eco refletido, foi identificado nos morcegos e posteriormente nos golfinhos, utilizam extremamente bem esta habilidade ao navegar pelos oceanos (KELLOG,1978).

As pessoas com deficiência visual fazem uso da ecolocalização em diferentes graus e ela é também conhecida como visão facial, percepção de obstáculo e "sexto sentido". As crianças são menos inibidas para emitir um som e perceber a sua reflexão, porém, os adultos são mais sutis nessa realização. Muitas crianças empregam a ecolocalização em um recinto fechado para ter noção de seu tamanho ou para perceber a extensão de um corredor ou tentar descobrir mais informações sobre o ambiente em que se encontra.

Algumas crianças cegas arrastam os pés "varrendo" o chão a cada passo, com esta forma de andar criam a ressonância auditiva, utilizando-a como meio para orientar-se no ambiente.

O som pode ser emitido de diferentes formas: bater palmas, estalar a língua, fazer castanholas com os dedos, ou dar um passo mais "forte" no solo.

Esse ato indica o desejo de apreender o ambiente ou a necessidade de levantar dados adicionais sobre ele. A ecolocalização capacita a pessoa cega a adquirir informações a respeito das dimensões das habitações, a presença de objetos no ambiente e a direção dos corredores ou passagens estreitas e outros detalhes que cada um é capaz de captar.

Como indicam as investigações de WORCHEL e MAUNEY (1951), a percepção auditiva e suas sub-habilidades podem ser aprendidas por qualquer pessoa com ouvido normal, o desenvolvimento da mesma, requer prática e oportunidade para aprender.

LOWENFELD (1973), aponta que as crianças cegas podem desenvolver esta habilidade a partir de um ano de idade e devem ser estimuladas a usá-la no decorrer de sua vida, uma vez que Barraga também destaca em seus estudos que a integração sensorial nunca se completa.


1.3 - Localização do som

Habilidade para determinar com precisão a localização da fonte sonora, comparandose o momento de chegada e a intensidade do som em cada ouvido, sendo, portanto, a audição biauricular indispensável para o desenvolvimento preciso dessa habilidade.

Os sons são localizados pelo intervalo de tempo e intensidade. Se a fonte sonora estiver à direita, as ondas sonoras alcançarão o ouvido direito numa fração de segundo antes que o ouvido esquerdo. Os sons que vêm da frente ou de trás são mais difíceis de serem localizados e é comum a pessoa virar a cabeça para melhor determinar sua origem.

A localização do som depende da fonte sonora ter uma duração suficiente que permita ao indivíduo medi-la auditivamente, encontrar a direção de maior intensidade e determinar a pista para um caminhar mais seguro.

A localização do som possibilita à criança deficiente visual perceber se os passos vêm em sua direção, ou em direção contrária, "olhar" o rosto da pessoa com quem está falando e também determinar a sua altura.

Quando a criança têm dificuldade para se orientar em casa, o rádio ligado serve como fonte sonora constante que permite localizar as dependências da casa e mantê-la orientada através da relação que estabelece com a fonte sonora, assim como os ruídos característicos existentes nos respectivos ambientes: cozinha, banheiro, lavanderia, quintal e outros.

A pessoa cega mantém a sua linha de direção e por vezes atravessa as ruas de mão única localizando o som paralelo dos carros, identificando quando o som do trânsito está à sua frente, o que indica um cruzamento de ruas.

Nos jogos, o professor deve observar se a criança vem em direção ao som que lhe interessa, ou da voz que a chama e fazer com que localize objetos que caem, os que permanecem fixos no local e os que rolam (bolas sonoras). O mesmo devendo ocorrer nas atividades da sala de aula e em casa, devendo o professor trocar, constantemente, informações com os pais.


1.4 - Escutar seletivamente

Esta sub-habilidade do ouvido é a capacidade de selecionar um som entre um grupo de muitos outros simultâneos (GRIPSON,1966).

O escutar seletivamente possibilita à pessoa cega extrair uma pista de orientação auditiva entre muitos sons. Existem muitas oportunidades para sua aplicação, é a forma mais precisa para cruzar ruas, sempre que possível, onde entre muitos sons é selecionado o som do trânsito.

Outra aplicação importante é quando, mantendo uma conversação, ocasionalmente percebe os passos de outras pessoas andando ao longo da calçada. Quando termina a conversa, pode imediatamente tomar a pista original como referência e prosseguir com confiança o seu caminho.

O desenvolvimento dessa habilidade exige da criança atenção e discriminação para que possa selecionar precisamente a fonte sonora para melhor se orientar em ambientes conhecidos ou não, por isso deve sempre ser informada sobre os sons do ambiente.


1.5 - Sombra sonora

A sombra sonora é uma área de relativo silêncio atrás de um objeto que filtra suas ondas, como se fosse uma sombra produzida por algum objeto, quando o raio de luz de uma lanterna incide sobre ele.

Essa capacidade pode ser usada pela pessoa cega para detectar troncos de árvores, postes, caixas de correio, carros e caminhões estacionados no meio fio, as colunas dos pátios escolares, as quinas dos prédios e outros obstáculos, possíveis de serem detectados quando esta habilidade é desenvolvida.

O usuário eficiente de sombra sonora poderá identificar com facilidade o início e o final dos obstáculos para sua melhor orientação.

Essa sub-habilidade deverá ser desenvolvida principalmente nas escolas onde existem, geralmente, muitas colunas, para evitar acidentes. A criança poderá se orientar no prédio escolar percebendo o início e o final das paredes e saber se está no lugar planejado.

O professor poderá exercitar esta habilidade no aluno juntamente com os pais, por meio de situações simuladas de obstáculos, colocados em seu trajeto, como painéis ou panos que possam provocar sombra sonora.


2. SISTEMA HÁPTICO OU TATO ATIVO

A percepção sensorial mais importante que a pessoa cega possui para conhecer o mundo é o háptico, também chamado de tato ativo.

No tato passivo, a informação tátil é recebida de forma não intencional, como a sensação que a roupa causa na pele produzindo calor, a mão que repousa sobre a mesa, o resvalo na parede e outros. No tato ativo, a informação é buscada de forma intencional pelo indivíduo que toca o objeto e procura identificá-lo.

As pessoas cegas obtêm muitas informações para sua orientação pelas mãos tocando os objetos e os transformando em pontos de referência. A bengala longa, nas técnicas de Hoover, se transforma em extensão do dedo indicador para sondar tatilmente a superfície. Os pés percebem pontos de referência quando pisam diferentes tipos de texturas, como a grama, pedregulhos, lajotas, areia, asfalto e outros.

OCHAITÁ (1998), considera de grande importância a percepção tátil, porque possibilita o contato e o conhecimento dos objetos, sendo o canal imprescindível para a leitura. Entretanto, para a orientação e mobilidade, a audição é um dos sentidos mais importantes, porque possibilita estabelecer as relações espaciais.

Os receptores térmicos na pele fornecem indicações de orientação, pela indicação dos pontos cardeais. Pela manhã, o sol (calor) incidindo na face ou parte anterior do corpo, indica à pessoa cega que está se dirigindo para o leste; na parte de trás da cabeça e nas costas, para o oeste. Desta forma, o uso do sol como referência possibilita rápida verificação de uma possível troca de direção e a correção imediata da mesma.

SUTERKO, (1973), chama a atenção dos professores para que os alunos cegos utilizem essas indicações e se mantenham orientados na escola, durante o recreio para preservarem sua independência na mobilidade.

A percepção do calor e frio fornecida por lugares ensolarados ou não poderá ajudar a criança cega a identificar sombras de árvores e do prédio escolar, perceber sua aproximação do objetivo que deseja atingir, fornecendo pistas seguras e confiáveis.

O movimento do ar sobre os pêlos do corpo pode ser de grande ajuda para, o aluno detectar um ventilador silencioso, portas e janelas abertas, o final de um corredor ou a saída do ambiente sem ser desejado.


3. CINESTESIA - PROPRIOCEPTIVIDADE

Cinestesia é a sensibilidade para perceber os movimentos musculares ou das articulações.

Segundo COLL (1990), esta percepção nos torna conscientes da posição e do movimento do corpo, quando se eleva o braço até a altura dos ombros, o sentido cinestésico nos informa a posição exata do braço e qualquer movimento executado.

Por esse sentido as pessoas deficientes visuais podem detectar as inclinações ou os desníveis das superfícies sobre as quais caminham, quando o ângulo do pé ou da parte interior da perna trocam sua posição normal, face a modificação do solo.

As pessoas deficientes visuais percebem os aclives e os declives com muito mais sensibilidade que as pessoas que enxergam, devido a sua importância para a orientação.

CRATTY, (1975), aponta que pessoas deficientes visuais, quando estimuladas desde crianças, podem detectar declives de um grau e aclives de dois graus e constatar mudanças verticais leves da superfície que passam despercebidas às pessoas que enxergam.

As inclinações leves nos corredores e no pátio da escola são pontos de referência para o aluno deficiente visual. Cabe aos professores desenvolverem estas habilidades nos alunos e ajudá-los a descobrirem a melhor forma de utilizá-las, devendo, portanto, andar com o aluno por todas as dependências da escola, nomeando e discriminando as diferentes características do ambiente, recomendando aos pais que também façam o mesmo no ambiente doméstico e no percurso casa/escola.


4. MEMÓRIA MUSCULAR

Segundo CRATTY (1983), a memória muscular, uma das funções do sentido cinestésico, é a repetição de movimentos em uma sequência fixa, que se convertem em movimentos automáticos.

Para os cegos esse fenômeno é valioso para trajetos curtos em ambientes internos. Por meio dele a pessoa pode realizar um caminho e retornar ao ponto de partida sem a necessidade de contar os passos.

Nas subidas e descidas das escadas, graças à memória muscular, as pessoas cegas são capazes de descer e subir, com bastante eficiência, todos os degraus das escadas sem contá-los.

Essa habilidade não é percebida pelas pessoas que enxergam uma vez que utilizam a visão como principal referência para realizar esse controle. Embora inata, esta habilidade deve ser estimulada no aluno cego possibilitando a vivência dos movimentos que contribuirão para a sua independência. .


5. SENTIDO VESTIBULAR OU LABIRÍNTICO

O sentido vestibular provê informações sobre a posição vertical do corpo e dos componentes rotatórios e lineares dos movimentos sobre o eixo de uma volta em graus (ao dobrar uma esquina 90 graus) (LAMBERT, 1986).

Os movimentos para a direita ou para a esquerda exercem grande influência no equilíbrio e a pessoa deficiente visual precisa vivenciar situações desse tipo para não se desorientar ou desequilibrar-se. O professor e a família devem trabalhar juntos para desenvolverem essa habilidade na criança, aproveitando, sempre que possível, atividades contextualizadas e agradáveis para que a criança não apresente resistência para realizá-las.


6. 0LFAT0

O olfato é um sentido de longo alcance e pode fornecer pistas para a orientação e localização de ambientes, como cozinha, sanitários, consultório dentário, laboratório, jardins e outros. O olfato é uma grande referência para a localização na rua, por meio de odores característicos de certos estabelecimentos comerciais, como farmácia, açougue, posto de gasolina e outros.

Esse sentido deve ser bastante estimulado nas pessoas deficientes visuais porque, além de ser um grande auxiliar para sua orientação e mobilidade, contribui, também, para a proteção e cuidados pessoais na discriminação de produtos de diferentes naturezas, como alimentação, higiene pessoal, limpeza, medicamentos e outros.

A criança cega terá poucas oportunidades de explorar o ambiente se ficar deslocandose somente por caminhos e espaços conhecidos, com auxílio de guias. Ela apreende o mundo pela interação direta com ele (HAZEN 1982 e HERMAN, KOLLER & SHAW, 1982), daí a importância da alteração de caminhos, exploração máxima das pistas olfativas.


Baixa visão

Nos casos em que existe algum tipo de percepção visual, esta deve ser utilizada ao máximo na orientação e mobilidade, devendo o professor estar atento para as pistas visuais do ambiente como focos luminosos que podem fornecer ao deficiente visual indicações de corredores, salas ambientes, portas e janelas abertas, cantina, biblioteca e outros locais da escola. Especial atenção deve ser dada aos objetos coloridos existentes na escola, uma vez que poderão servir como ponto de referência para a orientação do aluno, como as escadas por exemplo, colocar sinalização do primeiro e último degrau com fita crepe colorida (amarela e azul juntas de preferência). Em ambientes muito grandes, portas e corredores poderão receber pinturas de cores diferentes, com contraste, que identifiquem lugares previamente determinados.

É importante que se conheça a capacidade visual existente, como ela se apresenta e como o aluno faz uso da mesma.

  • No caso de visão central é necessário que o aluno aprenda a movimentar levemente a cabeça de um lado para o outro, para cima e para baixo, visando melhor exploração do ambiente; e na visão periférica deverá posicionar a cabeça de tal forma que aproveite o máximo do potencial visual existente.
  • Quando houver flutuação no grau de visão, observando-se melhor desempenho com mais ou menos luz, natural ou artificial os programas de Orientação e Mobilidade deverão ser realizados em diferentes horários com maior luminosidade ou ao entardecer para maior conhecimento e exploração das possibilidades do educando.
  • O desenvolvimento da Orientação e Mobilidade em horários diferentes do dia, com alterações de intensidade de luz, de ruídos e de movimentação de pessoas no ambiente, é necessário não só para a utilização máxima da visão existente, como também oferece oportunidades de observações e explorações mais abrangentes, por vezes, não percebidas pelos educandos, permitindo a utilização de todas as percepções de forma integrada.


A criança cega precisa sentir-se segura para passar de um nível cognitivo para outro mais elevado (OCHAITÁ, 1992). A passividade e a falta de curiosidade que demonstra podem estar relacionadas ao medo de se machucar e à falta de motivação para explorar o meio ambiente.

A interação limitada com o mundo pode ser causada por dificuldade na exploração do espaço que leva a um conhecimento pobre do ambiente (HILL at al., 1994).

A criança que se movimenta livremente tem mais oportunidade para compreender e internalizar os conceitos espaciais, motivo pelo qual pais e professores deverão estimular o aluno a estar sempre buscando e se envolvendo em novas situações que contribuam para o conhecimento de novos ambientes favorecendo assim, cada vez mais, a sua independência.  
 

 

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Descobrindo o real papel das outras percepções, além da visão, para a Orientação e Mobilidade
autora: Tomázia Dirce Peres Lora (Prof.ª Doutora da Faculdade de Educação da USP)
in "Orientação e Mobilidade: Conhecimentos básicos para a inclusão do deficiente visual"
Coordenação de Maria Glória Batista da Mota
Brasília: MEC, SEESP, 2003
 

 

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18.Jan.2014
publicado por MJA