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 Sobre a Deficiência Visual

O Deficiente Visual e a Aula de Educação Física – reflexões

Mário Jorge Lopes

Professor do Ensino Secundário
 

imagem APNEN - Nova Odessa

 

A aula de educação física inclusiva é uma realidade complexa que, à semelhança dos outros alunos nas outras disciplinas, deve ser alvo da atenção da liderança da escola, do conselho de turma, do departamento curricular e do professor da disciplina, em permanente articulação com a família e em sintonia com a equipa da educação especial e com o médico assistente. A opinião e as preferências dos alunos da turma devem ser tidas em conta no contexto dos graus de liberdade garantidos pelo processo de gestão curricular adotado. Tal como os restantes colegas, o aluno com deficiência visual deve ser estimulado a desafiar os seus limites, mantendo-se todos dentro das fronteiras dos procedimentos tidos por seguros e de uma sociabilidade agradável na turma – as adaptações, quaisquer que sejam, devem ser implementadas de forma pouco percetível e as atividades específicas reduzidas ao mínimo essencial.

Parece tarefa de monta, mas a verdade é que muitas das escolas portuguesas têm processos de gestão curricular operacionalizados na acomodação de outras questões, sejam elas de género, estatuto socioeconómico, etnia ou proficiência nesta ou naquela disciplina – haverá apenas que promover-se mais alguma reflexão e discussão. Não se trata de mais do que uma nuance e de uma extensão da missão que a escola pública portuguesa tem cumprido com distinção (vide relatórios PISA 2009 e 2012), a de promover a igualdade de oportunidades, fazendo por atenuar as mais latas e inescapáveis diferenças de estatuto social, económico e cultural dos alunos. Trata-se de resolver de forma diferente situações que são diferentes. É isto a igualdade de oportunidades e não o pronto-a-vestir one size fits all !

As adaptações passíveis de serem aplicadas ao processo ensino/aprendizagem são mais prementes no que concerne aos jogos desportivos coletivos, uma vez que algum cuidado na montagem dos equipamentos e no acompanhamento à mobilidade dos alunos na ginástica, na dança, na natação e na maior parte das disciplinas do atletismo, por exemplo, são por si só suficientes para garantir que a aula integra de facto o aluno com deficiência visual.

O basquetebol, o voleibol, o futsal, o rugby e o andebol, por outro lado, exigem outra atenção. O professor deve ter em atenção que a utilização de estímulos auditivos ou propriocetivos deve ser sempre que possível privilegiada, por oposição aos estímulos visuais; o aluno cego ou com baixa visão pode beneficiar também do acompanhamento individual de um colega nas movimentações defensivas e ofensivas; a posição a ocupar pelo aluno deve preferencialmente ser mais afastada do centro do jogo (corredor lateral do campo), eventualmente com a introdução de regras limitativas à oposição dos adversários, nomeadamente impedindo-se situações de superioridade numérica do adversário na sua zona de ação; instruir-se os alunos para que mais do que habitualmente sinalizem verbalmente as suas ações técnico-táticas pode igualmente ser benéfico. Além destas, medidas como a utilização de coletes de cores fortemente contrastantes e de bolas com guizos e/ou de cores fortes, igualmente contrastantes com a cor do piso são também de aplicação fundamental. Deve ainda usarse como ferramenta de orientação do aluno no espaço o feedback emitido pelo professor ou por um colega a partir de uma localização pré-determinada. Pode-se ainda procurar utilizar materiais de texturas e tamanhos diferenciados, delimitar espaços e ajudar à orientação do aluno por via do reconhecimento das zonas mais iluminadas e do contraste cromático das marcações e dos alvos do jogo – cesto, baliza, etc...

Relembrando que a aula começa e termina no balneário e na arrecadação do material, é também fundamental que os assistentes operacionais (e os restantes professores) estejam informados acerca das necessidades dos alunos e das formas de as suprir, nomeadamente quanto à arrumação dos espaços e à organização dos acessos.

Os restantes alunos também beneficiam de uma aula verdadeiramente inclusiva. Além das vantagens que ficam implícitas do que antes se disse, resta acrescentar que a possibilidade de experimentar a prática de modalidades adaptadas ou de outras, criadas de raiz para as pessoas com deficiência – no caso da deficiência visual, o exemplo ideal é mesmo o goalball. Diz-me a experiência que invariavelmente o primeiro contacto com novas modalidades e especificamente com o goalball provoca nos alunos um estado de entusiasmo e de envolvimento difíceis de replicar nas modalidades do costume.

A inclusão dos alunos com deficiência visual na aula de educação física pode ser o primeiro passo na mudança de mentalidades que todos esperamos poder expandirse extramuros, abrindo-se assim as portas a uma participação mais afirmativa de crianças, jovens e adultos com cegueira ou baixa visão nas outras esferas da prática desportiva (o desporto escolar, os clubes, as autarquias, os grupos informais) e da vida social.

Acima de tudo, e concluindo, é fundamental que na definição de políticas educativas ou desportivas (centralmente mas também no estabelecimento de ensino ou no clube) que as pessoas com deficiência sejam elas próprias envolvidas em permanência nas fases de conceção, desenvolvimento, avaliação e eventual reformulação.

 

 

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O deficiente visual e a aula de educação física – reflexões
por Mário Jorge Lopes
Professor do Ensino Secundário
Fonte: Revista Louis Braille n.º 9: Jan-Fev-Mar 2014
(excerto)

 

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7.Maio.2014
publicado por MJA