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 Sobre a Deficiência Visual

Mobilidade na primeira pessoa

Ana Maria Fontes
 

Blind Man - Michail Panikovsky
Blind Man - Michail Panikovsky

 

Comecemos por ensinar mobilidade no edifício da escola. As técnicas são idênticas às que empregamos na rua, com a vantagem de não nos expormos aos perigos do trânsito.


Pontos de referência

A mobilidade de um deficiente visual apoia-se constantemente em pontos de referência. Genericamente, ponto de referência é tudo quanto possa ser percebido pelo ouvido, pelo olfacto, pelos pés ou pela pele. Havendo um resíduo visual sensível à luminosidade, aproveite-o: vai facilitar a orientação na medida em que indica com precisão onde estão as janelas. As faculdades intelectuais intervêm também. Requere-se sobretudo memória para decorar os pontos de referência, atenção para os encontrar a tempo, capacidade de abstracção para traçar e reter na mente o mapa do espaço previamente explorado, e inteligência para relacionar, deduzir e induzir.

Pelo ouvido percebemos não apenas sons; quando passeamos também sentimos a proximidade de obstáculos vultuosos situados à altura da cabeça. É por isso que uma pessoa cega mesmo sem bengala se desvia de uma parede, de um móvel alto ou de uma árvore ao passar junto deles, mas esbarra numa cancela, numa mesa ou em qualquer arbusto que lhe estorve o caminho. É por isso também que encontrar esquinas se torna fácil: de repente deixamos de sentir a parede; nesse espaço de súbito alargado podemos notar mais vento, mais frio ou o calor do sol.


Os sentidos não nascem ensinados

A ideia consoladora de que uma pessoa que não vê nasce com os outros sentidos mais apurados é um mito. Na verdade eles ficam mais apurados graças ao maior uso que ela tem de fazer deles. Deixe-se surpreender pelo manancial de potencialidades que neles jazem latentes!

Para treinar o ouvido leve o aluno, com bengala, para um terraço vedado ou espaço análogo. Informe-o previamente do que vão fazer: vai caminhar perto dele, depressa, mudando várias vezes de direcção, devendo o aluno segui-lo sempre. Outro exercício útil é deixar cair uma coisa sonora e encorajar o aluno a prestar atenção ao ruído que ela faz até parar para depois ir buscá-la.

Os sons do meio ambiente, aos quais se associam muitas vezes cheiros, indicam-nos por exemplo, a proximidade da cantina, da papelaria, do bar, da biblioteca, do laboratório, das instalações sanitárias ou do portão de saída. Repare, depois alerte o seu educando, para a enorme diversidade de informação que o olfacto nos transmite do mundo exterior. Além dos ruídos existentes no meio em que vivemos, nós próprios os produzimos de propósito ou sem querer, não raro originando ecos.

O eco pode ser um excelente indicador do local onde estamos: o ginásio faz um eco diferente do da biblioteca ou do jardim; uma sala de aula faz mais eco com poucos alunos do que com muitos. Há partes de ruas com ecos característicos. Geramos discretamente ecos quer batendo ao de leve com a bengala ou os pés no chão (recomenda-se para o efeito calçado de sola), quer dando leves estalidos com a língua.

Os nossos pés devem ser sensibilizados para distinguir formas, tipos e texturas de pavimentos: uma subida ou descida mais ou menos acentuada do piso, tal como uma mudança de textura do mesmo, podem servir de ponto de referência. Assim destrinçamos, consoante a rugosidade, lisura ou atrito, madeira de mosaicos, paralelepípedos de asfalto e de chão em terra batida.

O atrás exposto sobre ruídos e cheiros como pontos de referência vale também para a locomoção na rua: um olfacto apurado distingue facilmente uma sapataria de uma farmácia, um banco ou uma agência de viagens de um supermercado.


Intervenção das faculdades intelectuais e mapa espacial

Ao entrar numa sala pela primeira vez, basta a uma pessoa que vê passar os olhos por ela para ficar com uma visão do seu todo. Nós, desprovidos da percepção globalizante e vasta do olhar, precisamos que ela nos seja mostrada passo a passo. Preferimos formas geométricas e descrições precisas. Portanto, comece por dizer qual a forma da sala e que posição ocupa nela o ponto onde vai começar a visita guiada. Substitua localizações vagas do estilo «aqui, ali, aí», por outras mais elucidativas como «atrás de ti; no meio da sala; no canto superior direito». Enquanto não adquirimos prática é mais funcional percorrer distâncias maiores sempre apoiados em pontos de referência, do que andar ao longo de espaços vazios, ainda que mais curtos, em diagonal. Durante a aprendizagem escolha sempre o mesmo ponto de partida e o mesmo método de exploração (salvo se eles se revelarem ineficazes) e situe os vários objectos em relação com esse ponto. Assim: «De costas para a porta tens à tua frente a janela, à direita…, à esquerda… A parede é cortada pela esquina para um corredor.» Nos casos em que a cegueira ocorre por volta dos 10 anos experimente comparar a forma de uma sala ou de uma casa com a forma de letras.

Segundo a minha experiência, de pouco serve à nossa mobilidade decorar descrições. Em vez disso, é mais rentável desenvolvermos a capacidade de abstracção até conseguirmos desenhar e reter na mente o mapa espacial dos locais onde decorre a maior parte da nossa vida. A título de exercício, sugiro a experiência que passo a descrever: disponha cubos num cubaritmo ou as peças de uma caixa aritmética em determinada posição. Deixe o aluno observar o seu desenho por uns momentos, depois retire os cubos ou as peças e convide-o a repô-los tal como estavam. Comece por um número reduzido de peças ou cubos e aumente-o progressivamente até o aluno ficar em dificuldade.

A memória ou o mapa espacial arquivado na mente dizem-nos, por exemplo, que se estou a passar a porta do corredor a minha sala de aula será a segunda porta à direita; se agora encontrei a caixa de electricidade fixa na parede depois de três entradas para aparcamentos, então estou em frente do talho; se localizo a tampa de saneamento a seguir ao poste, sei que cinco passos adiante está a passadeira.

Não havendo nada de concreto para localizar a passadeira ou uma porta que transpomos com frequência, o remédio é contar os passos desde o ponto de referência mais próximo até lá. Mas a contagem dos passos deverá ser o último recurso a utilizar, pois exige muita concentração e retém uma margem de erro.


A bengala

Alguns jovens rejeitam a bengala, convencidos de que com ela a sua deficiência é mais notada. A bengala dá nas vistas, é verdade. Mas dá ainda mais nas vistas, e pela negativa, andar aos encontrões a pessoas e coisas, ou sempre agarrado a alguém. A bengala é um auxiliar precioso da nossa mobilidade porque:

  • Facilita-nos a marcha em linha recta;
  • Tacteia passo a passo o pavimento em que caminhamos, dando-nos maior segurança;
  • Protege-nos de quem distraidamente se cruza connosco no caminho e dos veículos que circulam à nossa volta.

Como os nossos olhos nos dão pouca ou nenhuma informação sobre o meio circundante, e como a nossa postura erecta não nos permite ir apalpando com as mãos o chão à nossa frente, a solução é mesmo recorrer a uma espécie de prolongamento artificial do nosso braço. Essa é precisamente a função da bengala. Para a desempenhar cabalmente, o comprimento da bengala deve ser igual à altura do utilizador até ao esterno. Pegamos nela geralmente com a mão direita, indicador e polegar estendidos e os outros dedos dobrados sobre ela. De notar, desde já, que a eficácia da protecção dada pela bengala diminui perigosamente na medida em que for mal usada e em que aumentar a velocidade da marcha. De notar, também, que a bengala não protege de obstáculos situados ao nível do busto, como sejam carrinhas de caixa aberta e outros do género, com suporte relativamente pequeno no solo. Nestas situações, ou conseguimos aperceber-nos da presença deles através do ouvido, ou aprendemos a lidar com aparelhos electrónicos dispendiosos que os detectam, ainda pouco conhecidos em Portugal (como o Ultra Body Guard), ou batemos neles com maior ou menor violência. Acresce a agravante de que estas barreiras nos aparecem muitas vezes onde não as esperávamos.

A técnica mais fácil de usar a bengala é pôr o ombro para baixo, estender o braço à frente do corpo, e enquanto andamos arrastá-la pelo chão como para traçar linhas contínuas quase de um pé ao outro. Esta técnica é satisfatória aquando da locomoção em lugares conhecidos, e a melhor tanto para procurar irregularidades no piso como para subir escadas: a bengala nesta posição encontra cada degrau antes do utilizador, pelo que este se apercebe de quando vai subir o último, evitando uma subida em falso. Já que falo de escadas, cuidado com elas, particularmente a descer! É fundamental saber a tempo quando começam. Perante a suspeita de proximidade de escadas, devemos afrouxar o passo e arrastar a bengala cuidadosamente pelo chão. Assim ela sinalizará o primeiro degrau com antecedência bastante para nos evitar um susto, até para mudar de técnica, se for o caso.

Para descer escadas devemos pôr a bengala verticalmente entre os dois pés, braço estendido em frente do corpo. Chegados a um patamar, retomamos a técnica do arrastamento.

A técnica de exteriores mais completa é, contudo, o movimento pendular da bengala. Com o braço direito junto às costelas, a mão flexível faz articular o pulso e oscilar a bengala ritmadamente para a direita quando avança o pé esquerdo, para a esquerda quando o pé direito dá o passo seguinte. A oscilação pode fazer-se quer levantando a bengala, que descreve um arco de amplitude equivalente a uma linha transversal ao corpo, quer varrendo o chão, caso em que a aplicação de uma ponta rolante no fundo da bengala diminui o atrito do pavimento, e consequentemente o esforço necessário para a movimentar. Em contrapartida, uma bengala com ponta rolante torna-se menos firme, o que a desaconselha para utentes inseguros que se servem dela também como apoio. O varrimento do chão é preferível sempre que o piso seja irregular ou se receie a existência de buracos.


Conclusão

O sentido de orientação varia entre as pessoas cegas: umas têm-no muito bom, excepcional mesmo, noutras é muito mau. O educador deve avaliar a situação inicial e dosear os seus ensinamentos de harmonia com os progressos que ocorrerem. Aqueles que a natureza não presenteou com um bom sentido de orientação carecem de mais tempo e mais paciência para chegar a resultados visíveis. Andar nas nossas ruas é um desafio quotidiano. Sempre surgem circunstâncias em que é imprescindível pedir ou aceitar ajuda e é bom que o aluno se consciencialize desta verdade.

 

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Ana Maria Fontes

Julho de 2002

 

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publicado por MJA