Sobre a Deficiência Visual  
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CRESCIMENTO, APRENDIZAGEM E DESENVOLVIMENTO
DA CRIANÇA VISUALMENTE INCAPACITADA:
DO NASCIMENTO À IDADE ESCOLAR


Carol Halliday


Blind school children during an outing in Brooklyn Botanical Gardens of Fragrance - foto de Lisa_Llarsen


 
Prefácio
CAPÍTULO I     Incapacidade Visual: Uma Descrição
CAPÍTULO II    Crescimento Infantil: Uma Comparação
CAPÍTULO III   Seqüências de Desenvolvimento: Um Contraste
CAPÍTULO IV   A Criança Visualmente Incapacitada: Prontidão Escolar
CAPÍTULO V    A Criança com múltiplas deficiências: problemas adicionais de prontidão
CAPÍTULO VI   Materiais Educacionais: Fontes
Agradecimentos
 


PREFÁCIO

Este livro tornou-se possível graças ao Instructional Materials Reference Center da American Printing House for the Blind, um serviço para professores, outros profissionais e pais de crianças visualmente incapacitadas em idade pré-escolar. Seu objetivo é ter valor prático no que diz respeito ao cuidado, treinamento e instrução da criança desde o nascimento até sua entrada num programa escolar.

O enfoque, ao escrever este livro, foi eclético no sentido de ser uma tentativa para reunir e integrar o conhecimento atual de líderes nos campos do desenvolvimento da criança e da incapacidade visual. Neste último campo, o autor se apoiou, principalmente, nos escritos de Fraiberg e suas colegas (1964, 1968, 1969), Norris, Spaulding e Brodie (1957), Lowenfeld (1964) e Barraga (1964) e, em menor extensão, em Kurzhals (1966, 1968 a & b), Maxfield e Buchholz (1957) e Murray (1965, sem data). No primeiro campo, o do desenvolvimento da criança, o autor tem uma dívida com Gesell e seus colegas (1940, 1965), Maier (1965) e Watson e Lowrey (1962). A publicação de Kirk, Karnes e Kirk (1968) também foi muito útil. O leitor interessado está convidado a aprofundar-se nas idéias desses líderes em seus trabalhos originais.

Por tratar de considerações gerais sobre crianças ainda não matriculadas nas escolas, este estudo coloca ênfase no comportamento e realização, evitando abordagens arbitrárias baseadas em idade cronológica. As informações estão organizadas de acordo com seqüências de estágios de desenvolvimento, comuns às crianças em geral. Essas seqüências podem ser vivenciadas pela criança visualmente incapacitada também, embora possam ocorrer em níveis de idade que variam grandemente. No entanto, o desenvolvimento, tanto da criança vidente quanto da criança visualmente incapacitada, depende de certos estímulos em tempo adequado.

A necessidade deste livro é evidente para aqueles que trabalham com a criança incapacitada em idade pré-escolar. Até bem recente, pouca atenção foi dada aos processos de aprendizagem durante a primeira infância, tempo em que o cuidado com as crianças, em condições normais, é principalmente conduzido no lar. A responsabilidade cai pesadamente sobre os pais porque a criança ainda não está preparada para um programa formal, Devido à falta de pesquisas nessa área, os pais têm que realizar a tarefa sem os auxílios instrucionais. Se por ventura, uma incapacidade estiver envolvida, a tarefa torna-se mais árdua; com a criança que apresenta múltiplas incapacidades a tarefa torna-se quase insuperável.

Tendo em vista o fato deste livro ser dirigido aos leitores relacionados com crianças através da experiência ou da educação formal, as informações básicas foram elaboradas somente naqueles aspectos mais relacionados à criança visualmente incapacitada.


Este livro, de maneira específica:

  • Descreve a criança visualmente incapacitada em termos das necessidades básicas compartilhadas com outras crianças; em seguida, relaciona suas necessidades especificas às suas características particulares e meios de funcionamento, uma das quais é sua imperfeição de visão.
  • Apresenta, em forma de esboço, certas seqüências de desenvolvimento pelas quais as crianças em geral passam, antes de sua entrada num programa escolar formal.
  • Discute, em termos específicos, os auxílios especiais necessários para a criança visualmente incapacitada contornar ou minimizar seus problemas visuais, enquanto desenvolve mais completamente outros modos de aprendizagem e vivência.
  • Proporciona uma lista e descreve materiais educacionais especialmente adequados para a criança visualmente incapacitada à medida que ela se desenvolve e aprende.
  • Proporciona uma lista de nomes de organizações e serviços mais importantes que podem fornecer auxílios e Informações sobre crianças visualmente incapacitadas; catálogos e bibliografias de livros pertinentes ao assunto e uma lista de outros recursos a ele relacionados.


CAPÍTULO I
INCAPACIDADE VISUAL: UMA DESCRIÇÃO

As definições tradicionais de cegueira e visão reduzida têm sido baseadas em medidas de acuidade visual e/ou na restrição do campo visual. Ambas as definições têm sido estabelecidas, tomando como base o que uma pessoa de visão normal pode ver a uma determinada distância. Em sua grande maioria, essas definições foram elaboradas para permitir a confirmação da incapacidade de visão em situações legais e econômicas. Recentemente, as definições têm-se tornado mais harmônicas com a situação real de vida. Por exemplo, do ponto de vista educacional a criança cega é atualmente considerada como a criança que aprende através do Braille e de outros meios relacionados com pouca ou nenhuma visão residual. A criança com visão reduzida é aquela que tem visão útil para propósitos educacionais, sendo, porém, limitada na extensão em que se fazem necessários alguns recursos especializados.

Abordando o assunto de maneira técnica, o grau de eficiência visual nem sempre pode ser determinado de maneira precisa. Os exames médicos podem, tão somente, determinar as deficiências de tecido e de estrutura, e, nesse caso, proporcionam uma medida limitada e condicionada. Os testes de acuidade visual podem ser realizados e os seus resultados numericamente descritos em termos tanto de visão para perto, como de visão à distância, quando uma criança alcança um certo nível de habilidade e pode fornecer respostas adequadas. Entretanto é possível que não se obtenha a verdadeira acuidade visual da criança ou os níveis de funcionamento visual que ela é capaz de atingir.

A avaliação do comportamento visual é muito afetada por fatores como a habilidade da criança permanecer sentada quieta, de prestar atenção, para seguir direções, para entender e usar palavras. Uma medida inexata pode resultar da falha em reconhecer a quantidade de visão em cada olho, como também da habilidade da criança para a fusão das imagens recebidas pelos dois olhos. Uma medida incorreta pode também resultar de elementos periféricos na sala onde o teste visual está sendo conduzido, tais como a presença de um estranho ou de um ambiente não familiar.

A obtenção do resultado correto do teste não é a única dificuldade envolvida. Mesmo quando as medidas de acuidade podem ser acuradamente obtidas, pode-se não saber o histórico total dos problemas de visão da criança. Por exemplo: crianças com acuidades idênticas em leitura, terão variações consideráveis no verdadeiro funcionamento visual. Vários fatores explicam esta situação. Um deles é o fato de que, pelo menos, algum grau de melhora no uso efetivo da visão residual pode ser ensinado. Por outro lado, a motivação adequada para ver, tanto quanto possível, deve ser encorajada e desenvolvida. Freqüentemente, como indicam os atuais relatórios de programas educacionais para crianças visualmente incapacitadas, existem crianças legalmente cegas capazes de ler letras impressas de vários tamanhos. Finalmente, o funcionamento individual da criança vem sendo sistematicamente afetado pelas crescentes tentativas de colocar as crianças em programas educacionais apropriados às suas necessidades (por exemplo: um programa específico para a criança que possui mais de uma incapacidade). O método de colocação baseado somente em resultados de acuidade visual, obviamente não satisfatório, felizmente, está tornando-se menos utilizado.

Um problema freqüente e inadequado no diagnóstico da incapacidade visual é o pronunciamento muito precoce em relação à habilidade de ver da criança. A mãe, quando se lhe diz que seu filho é "cego" (um termo que é lamentável por razões legais ou práticas, e que, freqüentemente é utilizado quando a criança ainda possui uma quantidade substancial de visão), pode não saber quais os objetos que ele pode ver e deve ser encorajado a explorar visualmente. Relativamente, poucas crianças possuem cegueira total, isto é, incapacidade visual absoluta para distinguir o dia da noite. Mesmo aquelas com menor quantidade de visão, podem ser auxiliadas a desenvolver este grau através do uso, e, dessa maneira, aprenderem a utilizar quanta visão possuem com eficiência sempre crescente. Se tais crianças não receberem alguma estimulação visual e não forem auxiliadas a utilizar a visão residual que possuem, sua habilidade visual deteriorar-se-á.

Um grande cabedal de conhecimentos sobre os problemas de percepção visual em crianças, já indica claramente a necessidade de cuidados, baseados nas necessidades individuais de cada uma delas. Por exemplo, crianças com tais problemas podem experimentar tipos sutis de dificuldades de aprendizagem. Podem evidenciar uma coordenação olho-mão pobre, baixa habilidade para distinguir e organizar detalhes, fraca discriminação figura-fundo e falha visual em seguir um alvo. A necessidade principal dessas crianças é a educação para o uso eficiente da visão. Com essa educação, elas irão reduzir ao mínimo seus defeitos funcionais, quaisquer que sejam as causas. Muitos dos auxílios essenciais para a criança com pouca ou nenhuma visão, não serão necessários para a criança cujos problemas são perceptivos. A visão que ela possui, se treinada adequadamente, permite-lhe observar movimentos largos, posturas e expressões faciais, assim como a perceber, suficientemente, tamanhos, formas e cores distintas. O conteúdo, qualidade e exatidão da informação visual obtida por uma certa criança pode, naturalmente, ser determinada somente pela aprendizagem da própria criança, enquanto experimenta cada nova situação. A necessidade de auxílios mais específicos constatada através de perguntas e observações diretas devem auxiliar a proporcionar atendimento mais adequado à criança. Tal atendimento pode ser mais bem organizado através de pesquisa em literatura existente sobre crianças com incapacidades perceptivo-visuais, ou de organizações que tratam diretamente desse problema.

Em resumo, uma definição médica formal não é a única nem é o critério final para determinação da incapacidade visual de uma criança. Em acréscimo à consideração médica, é preciso pensar na criança em termos do seu grau de visão funcional. Programas educacionais efetivos estão expandindo esses níveis de funcionamento visual. Os resultados de tais programas apontam a necessidade de esforços adicionais nessa direção e contestam a prática de classificação das crianças, somente com base em um diagnóstico médico ou no resultado do teste de acuidade visual. As crianças visualmente incapacitadas são normalmente consideradas como aquelas que demonstram através de suas ações e funcionamento geral, que aprendem de maneira mais eficiente por outros meios, que não o visual, ou que é preciso implementar, suplementar, ou substituir sua aprendizagem visual através do tato e da audição.

Tendo em vista as considerações precedentes, este estudo está voltado para a necessidade de auxílios específicos durante a primeira infância, para dois grupos básicos:

  1. crianças com nenhuma visão;
  2. crianças com pouca visão (aquelas que vêem luz ou objetos grandes à curta distância ou objetos pequenos trazidos próximos aos olhos), mas, cuja visão pode ser utilizada e pode provavelmente ser educada para uma crescente eficiência funcional.


CAPÍTULO II
CRESCIMENTO INFANTIL: UMA COMPARAÇAO

Entre as características típicas de todas as crianças, desde o nascimento, estão as necessidades, os sentimentos e as potencialidades para o seu crescimento. Todas elas necessitam: serem amadas e retribuírem o amor; serem capazes de confiar nas pessoas e coisas que possuem significado para elas; serem capazes de desenvolver confiança em si mesmas, serem cuidadas e cuidar dos outros. Precisam estar aptas para movimentar-se livremente e exercitar seu corpo a fim de obter a melhor saúde possível. Precisam aprender de todas as maneiras: através de seus sentidos, do brinquedo, do trabalho, da exploração, de ensaio e erro e do ensino. Precisam sentir-se realizadas e responsáveis; precisam crescer, aprender e desenvolver-se dentro dos limites do bom-senso comum; precisam desenvolver um auto-respeito feliz e firme. Todas as crianças são acessíveis para se desenvolver física, emocional, social e intelectualmente.

Toda experiência afeta a criança. Qualquer pessoa pode auxiliá-la a reter mais precisamente aquilo que aprendeu antes, pode abrir-lhe novos horizontes, encorajá-la e auxiliá-la a tornar-se a cada dia uma pessoa cheia de vida e mais feliz. De qualquer maneira, as crianças precisam ser auxiliadas a viver como pessoas receptivas, responsáveis, cordiais e crescentemente auto-suficientes.


A Criança Visualmente Incapacitada

As crianças designadas pelos termos "deficiente visual", "incapacitada visual", "cega", e "com visão reduzida", têm incluído desde as que nada enxergam até as que podem ver relativamente bem, mas que confundem o que vêem, devido às mudanças ou distorções do seu mecanismo visual. Sem considerar, no entanto, a maneira de enxergar, todas as crianças são parecidas em termos de necessidades básicas, sentimentos e processos de crescimento. Além do mais, ela não é só uma criança, mas uma criança individual. Sua incapacidade visual é uma diferença adicional, mais um traço distinto que faz dela um indivíduo. Um comentário faz-se necessário em relação ao uso dos termos "incapacidade" e "deficiência". O primeiro termo refere-se ao fato físico de diferença, de limitação; o segundo reflete as ramificações psicológicas da incapacidade, as quais são aprendidas de outros e não são inerentes à incapacidade.

Certamente, as crianças que não vêem ou vêem parcialmente, possuem uma visão do ambiente diferente daquelas que enxergam por padrões comuns. Meninos e meninas que são incapacitados visuais:

  1. Precisam familiarizar-se sistematicamente com o seu ambiente - com as pessoas e coisas que os cercam e com elas próprias. O que é aprendido casualmente através da visão pela criança vidente, precisa ser ensinado conscienciosamente quando a visão é limitada.
  2. Precisam ter oportunidade de conhecer, compreender e desenvolver seus corpos através de movimentos físicos e exercícios.
  3. Precisam ser encorajados a utilizar qualquer visão que têm.
  4. Precisam formar idéias sobre outras pessoas, como elas estão reagindo, como estão sentindo e o que estão fazendo, mais através de suas vozes do que de expressões faciais, gestos ou contatos "olho para olho".
  5. Precisam desenvolver uma compreensão de que existem certas coisas que não podem ser tocadas (nuvens, flocos de neve, fogo).
  6. Precisam estar freqüentemente em companhia de outras pessoas (tanto adultos como crianças), para conhecê-las e serem por elas conhecidas, a fim de expandir suas experiências e suas personalidades.
  7. Precisam aprender em tempo adequado, a realizar coisas por si mesmas, como todas as crianças aprendem.
  8. Precisam ser ensinados, através da compreensão sempre crescente daqueles que os cercam, a conhecer o mundo corretamente, apesar de sua incapacidade visual.

Enquanto a criança visualmente incapacitada cresce e se desenvolve, surgem dúvidas. As pessoas que vivem com a criança, compreendê-la-ão cada vez melhor, mas mesmo assim podem ficar algumas dúvidas. Os pais devem reconhecer que têm muitas informações sobre seus filhos através de suas experiências em comum. O registro daquilo que a criança aprendeu (quando fez algo por si mesma, quando disse pela primeira vez determinada coisa) e também um registro de questões sobre seu comportamento, são valiosos para a sua educação, principalmente quando seus pais conversam com outras pessoas sobre seus filhos. Auxiliará também no acompanhamento das realizações da criança, bem como a reconhecer as suas necessidades específicas de ajuda.

Os pais e outras pessoas que trabalham com a criança, precisam desenvolver as seguintes habilidades: observar a criança, reconhecer como ela aprende, avaliar como e o que ela vê, observar o que ela realiza bem e descobrir onde ela necessita de auxílio especial. O conhecimento crescente da criança e sua compreensão devem ser combinados com um enriquecimento de conhecimentos de técnicas e outros auxílios possíveis. Sempre que possível, deve haver consultas entre pais e profissionais. Os pais de várias crianças visualmente incapacitadas podem colaborar (não só em bases da deficiência, mas em bases de suas necessidades semelhantes), obtendo resultados encorajadores e frutíferos. Os exames periódicos de tipo "check-up" são necessários, paralelamente aos exames oftalmológicos regulares, conforme a condição visual particular de cada criança.


Os Primeiros Anos da Infância

Os primeiros anos da infância foram sempre considerados importantes, mas recentemente, esta importância tem sido muito enfatizada. Escreve-se muito sobre a inteligência, a maneira de aprender da criança, o impacto do clima emocional, principalmente quando se trata de criança muito jovem. A inteligência não é simplesmente herdada, mas é desenvolvida no convívio com seu ambiente. É muito importante para a criança ser amada de uma maneira construtiva, desde o seu nascimento, e aprender a retribuir esse amor. Deve haver orientação e disciplina deixando algumas decisões a seu cargo, mas não a deixando abandonada a si mesma, enquanto não esteja apta para isso. A criança deve ter muitas oportunidades de se movimentar, de fazer exercícios e de usar seus sentidos para reconhecer o seu ambiente. Existem certas seqüências na aprendizagem durante a primeira e segunda infância as quais seguidas, tornam a criança apta a aprender muito mais. Parece que há épocas "ótimas" para as crianças aprenderem alguma coisa mais rápida e facilmente. O fator mais importante é que a criança sinta-se aceita, estimulada e apreciada no seu lar; isto e as idéias que ela possui a seu próprio respeito, têm grande influência sobre sua vida de adulto.

Em geral, à medida que a criança cresce, existem certas atividades que ela pode executar melhor em termos do desenvolvimento de seus músculos e ossos, de sua maturação neurológica, de sua experiência e de seu crescimento emocional e intelectual. Sabe-se que a criança sozinha não é capaz de se desenvolver até atingir o seu potencial mais alto. Geralmente, quanto mais ela aprende, mais ela é capaz de aprender e mais pronta torna-se a continuar sua aprendizagem e seu desenvolvimento. Desde a infância, as crianças devem ser encorajadas a ouvir, cheirar, saborear, sentir, ver e usar os músculos para se desenvolverem em todas essas áreas. Devem se movimentar, estar com outras pessoas e aprender a fazer coisas. Isto exige que os pais de crianças visualmente incapacitadas mostrem a elas "como fazer", o que ocorre, em menor escala, com os pais de qualquer criança. Precisa-se conversar muito com as crianças para que elas aprendam que as palavras causam e descrevem ações e reações, e que as palavras ajudam-nas a conhecerem-se a si mesmas e às outras pessoas.

Como já foi mencionado, pensa-se hoje em dia que existe uma certa ordem em como a criança cresce e aprende emocional, física, intelectual e socialmente. Esta ordem é afetada pelas pessoas em sua volta, pelo ambiente e pelo "eu" biológico com o qual a criança nasceu. Em qualquer criança pode haver um crescimento mais rápido em uma parte do seu ser do que em outra. Na seqüência geral de crescimento e aprendizado, cada criança difere bastante da outra, numa determinada idade cronológica. As comparações pela idade tornaram-se, então, inúteis e até erradas. O conceito que a criança tem sobre si mesma é tão importante quanto a sua rapidez de crescimento, maturidade e desenvolvimento. É importante lembrar que o conceito que as crianças têm a seu respeito é geralmente o resultado das idéias que as pessoas do seu ambiente têm sobre elas. É importantíssimo que se aceite a criança como uma personalidade completa e não apenas como uma criança incapacitada visual.


Como as Crianças Aprendem

Os princípios que seguem permitem uma faixa de referências a qual organiza os processos básicos de aprendizado e desenvolvimento. Não estão em ordem de ocorrência em tempo e nem de importância; geralmente estão Inter-relacionados de tal forma que uma separação, em uma seqüência distinta seria impossível. Alguns dos exemplos dados, ou princípios específicos poderiam servir de ilustração para outros princípios. É com estes pensamentos que devemos considerar esta abordagem sobre os caminhos pelos quais a aprendizagem e o desenvolvimento se processam.

Em geral, uma criança aprende e se desenvolve:

• De maior envolvimento corporal - Para menor envolvimento corporal. Exemplo: No inicio a criança tenta alcançar um objeto com o corpo todo. À medida que cresce torna-se capaz de alcançá-lo usando somente o braço e a mão. O resto do corpo será usado de maneira crescente e voluntariamente, somente quando se torna necessário, para alcançar o problema especial.

• De grande uso muscular - Para pequeno uso muscular: Exemplo: A criança que aprende a tirar sua roupa, geralmente está apta a tirar a camisa ou o chapéu, antes que seja capaz de desabotoar-se.

• Do familiar - Para o desconhecido: Exemplo: A criança que conhece um cachorro será mais receptiva a respeito de outros cachorros em outros ambientes.

• De tarefas simples - Para tarefas complicadas: Exemplo: A criança aprende primeiro a colocar uma caixa dentro da outra; depois pode continuar com três, quatro, etc.

• De assuntos imediatos - Para assuntos remotos: Exemplo: No inicio a criança aprende a esperar "um momentinho" antes do seu passeio. Depois aprende a esperar períodos mais longos. Com algumas experiências a este respeito ela saberá o que significa quando se diz, de manhã, que o passeio será realizado depois do "sono".
• De períodos curtos de atenção - Para períodos longos de atenção.

• De um assunto - Para vários assuntos: Exemplo: No começo a criança aprende a realizar coisas simples que a mãe lhe pede para fazer. Com prática e tempo, aprende a seguir uma série de ordens ("guarde seu carrinho e depois lave suas mãos e sente-se à mesa"). A criança aprende cada vez mais e vê uma relação entre um passo e outros, o que lhe permite a concentração da atenção por períodos mais longos de tempo.

• De pensar sobre si mesma como centro do mundo - Para pensar em outros: Exemplo: As crianças estão muito ocupadas em aprender sobre si mesmas, seus sentimentos, como usar seus corpos e como conseguir a atenção e a ajuda de outros. À medida que a criança se desenvolve, a sua autoconsciência e maior experiência capacitam-na a compreender melhor os pontos de vista, interesses e sentimentos de outros.

• De coisas “vividas” – Para coisas “pensadas”: Exemplo: O mundo da criança é de início muito concreto; existem as coisas que ela pode ver, sentir, cheirar, ouvir e fazer. Suas reações e ações neste mundo são igualmente concretas. À medida que ela cresce aprende a falar, a - usar palavras que a ajudam a pensar e expressar idéias abstratas. Com, o desenvolvimento de sua capacidade de linguagem, seus pensamentos tornam-se mais profundos e têm um papel mais importante nas suas interações com o mundo.

• Do uso de palavras como rótulos - Para o uso de palavras que organizam e possibilitam pensamentos: Exemplo: As primeiras palavras de uma criança são simplesmente o nome das coisas ou das pessoas. Mais tarde, ela aprende que Mamãe, Papai e Jimmy são pessoas e que cadeira, cama e mesa, são móveis. Deste modo, começa a organizar o mundo em torno de si em categorias verbais que ela guarda na memória e usa quando conversa com os outros, a respeito de seu mundo.

• De frases com uma palavra - Para pensamentos expressos – idéias. Exemplo: As crianças começam a usar uma palavra como bola, para expressar várias coisas: pedindo para encontrá-la, desejando brincar com ela, gostando dela. À medida que seu vocabulário aumenta, e as palavras tornam-se mais significativas elas expressam pensamentos mais profundos e aumentam sua habilidade de pensar.

• De fazer - Para sentir - Para simbolizar. Exemplo: Uma criança muito jovem FAZ tudo. Aprende, pensa e experimenta seu mundo, participando dele com todo o seu corpo ou com suas partes principais. Por exemplo, de inicio se lhe mostra como se joga a bola, colocando-a em sua mão e auxiliando-a a movimentá-la. Quando a criança cresce, ela observa e reage com seus sentidos e através de seus músculos "sente", aquilo que experimenta. A criança começa a se interessar pelas características da bola (forma, cor, aparência), ou pelas observações e aprendizado de como jogar, ela mesma, com a bola. Mais tarde ainda, a palavra "bola", usada em uma sentença, pode despertar-lhe o desejo de brincar com ela. Começa a perceber que a bola é redonda e que outras coisas no mundo também são redondas. Com o passar do tempo, compreenderá que existem várias espécies de bolas. Finalmente, ela pensará simbolicamente e usará esta e outras palavras de maneira simbólica.

• De um campo dependente - Para um campo independente. Exemplo: - As crianças começam a interessar-se somente pelas coisas que se encontram perto delas ou imediatamente aparentes. Não estão aptas a imaginar o que vai acontecer mais adiante, ou visualizar um objeto que não está em sua frente. À medida que se desenvolvem tornam-se capazes de pensar sobre o que não está no seu ambiente. Planos podem ser realiza dos para o dia seguinte; um brinquedo pode ser selecionado, mesmo que não esteja "Avista", e os pensamentos podem ser focalizados em algo que, no momento não está presente.

• De análise - Para síntese: Exemplo: - É muito mais fácil para a criança no início desarmar um brinquedo do que colocar as "peças" juntas. É um estágio mais avançado reconhecer ou sintetizar o brinquedo através de suas peças. É mais avançado ainda, imaginar as conseqüências de uma experiência baseada nas suas causas (exemplo: comer balas demais pode resultar em sentir-se doente).

• De separar ou desfazer fisicamente - Para juntar ou fazer fisicamente. Exemplo: No inicio a criança aprende a tirar meias, chapéu, abrir uma fechadura. Depois, com mais habilidade requerida, aprende a vestir-se e a trancar uma porta.

• De esboços - Para detalhes. Exemplo: - A criança observa primeiro a aparência geral de um objeto ou idéia. Ela poderá verificar que as formas gerais de dois objetos pode transformá-los em "bolas", porém pode não perceber que são de tamanhos diferentes. Pode ouvir e compreender a primeira parte de uma sentença, mas esquece o significado da última. À medida que ela cresce e aprende, é capaz de perceber e reagir a mais do que a um detalhe. Por exemplo, ela pensará que sua bola é redonda, feita de borracha e grande, enquanto outra é redonda, de madeira e pequena.

• De identificação - Para comparação. Exemplo: - Quando a criança aprende a reconhecer um objeto como um todo e os detalhes que o compõem, ela começa a comparar um objeto com outro ou um detalhe com outro. Pode verificar as diferenças e semelhanças e é capaz de fazer sua escolha para atender a um propósito particular.

• De reconhecimento de diferenças - Para o reconhecimento de semelhanças. Exemplo: A criança aprende, de início, a perceber como as coisas são diferentes. Por exemplo, ela verifica que duas cadeiras são diferentes pela aparência, e não percebe que são semelhantes porque se pode sentar nelas e porque possuem quatro pernas e um encosto. Aprende a escolher um objeto de três que não são como os outros dois, antes que consiga escolher aqueles dois, dos três, que são semelhantes.

• De reconhecer - Para reproduzir: Exemplo: Antes que a criança possa reproduzir ou copiar algum objeto, tem que aprender de inicio os seus traços principais. Não se pode exigir que ela faça um modelo de barro de um objeto ou descreva-o, sem que conheça este objeto através de suas próprias experiências.

• De reconhecer opostos - Para determinar vários tipos de relacionamentos: Exemplo: De inicio as crianças pensam e agem em termos de "ou... ou". Elas compreendem as palavras "grande" e "pequeno", mas não os vários graus entre estas duas palavras. Com o tempo, aprendem que tamanho é relativo e que muitas outras coisas também dependem, no seu significado, dos objetos com os quais estão sendo comparados.

• De ordenar ao acaso - Para ordenar em uma dimensão - Para ordenar em várias dimensões: Exemplo: A criança inicia simplesmente colocando alguns objetos juntos. Mais tarde ela aprende a colocar estes objetos numa certa ordem, conforme o tamanho (do grande para o pequeno). Mais tarde ainda, aprende a colocá-los em ordem, baseando-se em mais de uma característica (altura e espessura). Quando o seu vocabulário e a linguagem se desenvolvem aprende a ordenar abstratamente.

• De categorizar - Para estabelecer hierarquias: Exemplo: A criança aprende a agrupar sua volta numa certa ordem. Faz isto também com os seus pensamentos conscientemente. Aprende que há maçãs de várias espécies, mas que todas são chamadas de maçãs. Aprende que as maçãs são frutas e que podem ser comidas. Aprende que existem muitas espécies de frutas. Algumas podem ser comidas, outras não. Neste processo, a criança não só agrupa os seus conhecimentos em ordem, mas aprende a determinar cada objeto que ela conhece de acordo com sua importância relativa.

• De perceber um objeto através de seus sentidos - Para conhecer seu uso - Para dar-lhes nome e determinar seus usos: Exemplo: Aprendendo a respeito de uma xícara, a criança percebe de inicio que ela é algo liso, com "asa” e de uma certa cor e tamanho. Mais tarde diferencia os vários usos (beber e despejar). Muito mais tarde agrupa xícaras com outros utensílios para comer, ou com um jogo, ou com um objeto de plástico ou de cerâmica.


Outras referências importantes:

Os seguintes aspectos demonstram claramente como a criança aprende e se desenvolve. A menos que se indique o contrário, estes aspectos são comuns a todas as crianças:

1. A maneira dos adultos sentirem-se a respeito de suas crianças, e o realismo das metas que pretendem para elas, são muito importantes. O âmbito e o grau das realizações de adultos visualmente incapacitados, hoje em dia, indicam que a perda visual não é mais um limite aos objetivos de vida de um individuo. Embora a incapacidade visual apresente certas dificuldades, os pais e outras pessoas serão capazes de considerando a individualidade da criança, prepará-las para a vida conforme suas capacidades.

2. As crianças, para aprender, necessitam de encorajamento e de desafios, porém não devem ser pressionadas.

3. É muito importante que as crianças tenham oportunidades de ouvir, tocar, ver, saborear, cheirar e sentir através de seus músculos. Deste modo começam a conhecer seu ambiente e sentem-se seguras nas expectativas deste ambiente. A criança com incapacidade visual geralmente precisa ser propositadamente auxiliada a experimentar o que a criança vidente experimenta de maneira casual.

4. O brinquedo é um instrutor de grande valor para as crianças. Através de jogos, as crianças ficam conhecendo materiais novos, aprendem a criar e construir, a simular e a dramatizar algumas das coisas que as preocupam, além de se entreterem com outras crianças.

5. As crianças se interessam pelas pessoas e coisas mais próximas de si. Lentamente o seu ambiente aumenta e elas ficam curiosas a respeito das coisas afastadas. Para a criança deficiente visual é extremamente necessário mostrar-lhe o mundo, encorajar a sua curiosidade e seu desejo de fazer descobertas.

6. Devem ser dadas oportunidades para as crianças observarem os adultos no trabalho doméstico. Deste modo, os jovens aprendem sobre a responsabilidade e as realidades da vida. Aprenderão que trabalho traz prazer e satisfação e que deve sempre ser bem executado. Deve-se estar sempre atento para chamar a atenção da criança para o seu ambiente, pois ela é incapaz de observar muito, por si mesma.

7. É importante que as crianças não tenham muitas experiências de aprendizagem de uma só vez. Elas necessitam de oportunidades para repetir palavras, ações e atividades até que se sintam à vontade com elas. Às vezes, a diferença entre uma criança ocupada e encorajada a progredir e uma da qual se exige demais, é muito pequena. Se a criança está se desenvolvendo independentemente e apreciando a vida em geral, e se as pessoas de seu ambiente estão calmas e descontraídas, é sinal de que o objetivo final e total de sua educação está sendo bem orientado.

8. O uso da linguagem é muito importante. Crianças progridem na organização de suas idéias e pensam através das palavras que estão utilizando. Vocabulário e formas de expressão desenvolvem-se com a experiência e o uso; a experiência e o uso de palavras desenvolvem-se com ampliação do vocabulário e de formas de expressão. A linguagem que se usa com a criança, contribui muito para este processo. Principalmente quando se trata de urna criança com incapacidade visual, esforços especiais e repetidos devem ser feitos para que as palavras tenham um significado real para ela. Uma criança, por exemplo, precisa saber sobre o fogo, mas nunca colocar suas mãos nele; deve ser auxiliada a experimentar diferentes aspectos do fogo, e a maioria deles através de palavras utilizadas para descrevê-lo. Este conhecimento desenvolve-se durante um longo período, através da interpretação verbal sobre o fogo e os diferentes aspectos experimentados. O calor, o som, o cheiro, as mudanças provocadas por ele, tudo tem uma grande influência para a compreensão do que é o fogo. As palavras devem ser escolhidas de modo a não confundir a criança e apresentadas de modo a que ela possa compreender o seu ambiente.

9. As crianças aprendem melhor quando ouvem e observam a maneira de realizar uma nova ação; então, elas realizam a atividade por si mesmas, falando sobre, ela enquanto a estão realizando. A criança com incapacidade visual depende muito mais deste método de aprendizagem. Por exemplo, ela precisa agir e ouvir enquanto se lhe mostra como usar uma ferramenta ou um instrumento. Ela provavelmente perceberá melhor colocando sua mão sobre a do adulto que está segurando a ferramenta, ou o adulto segura sua mão na ferramenta enquanto vai mostrando como realizar a tarefa. Ao mesmo tempo, deve-se dar descrições verbais do que está sendo realizado. O fato das crianças falarem sobre as ações que estão desenvolvendo, irá auxiliá-las no domínio da execução.

10. Insiste-se cada vez mais no fato que existe uma certa ordem na aprendizagem e no desenvolvimento das crianças. Certas coisas se aprendem mais facilmente depois que outras já estão bem compreendidas. Uma criança pode não se interessar por um carrinho no primeiro contato. Mais tarde, é possível que tente usar o carrinho para vários empreendimentos e queira saber tudo a seu respeito. Parece existir uma época "certa" para aprender, que varia de criança para criança (os gráficos sobre desenvolvimento demonstram isto). Se a criança não realiza uma certa atividade ao primeiro contacto, não quer dizer que posteriormente não consiga realizar essa mesma atividade. Tentativas em períodos diferentes são necessárias para que a aprendizagem ocorra. As crianças começam com pensamentos e ações mais simples para atingir os mais complexos.

11. É de importância vital para todas as crianças, orientação em geral, inclusive compreender ordens e direções que lhes permitirão tornarem-se independentes. Isto é imperativo, principalmente para a criança que possui uma limitação. A tendência natural do adulto é fazer para a criança. Esta tendência natural, geralmente, é tão forte, que necessita de um esforço real e concentrado, para que seja controlada. Se a. criança deve crescer como um ser humano saudável e produtivo, precisa ser auxiliada a desenvolver meios (habilidades, conhecimentos e atitudes) que tornem isto possível. Dentro dos limites do bom senso, cada pessoa deve ter conhecimento das coisas que o tornam autoconfiante e capaz de manejar seu ambiente e ainda necessita saber quando procurar auxílio de outros. Isto é imprescindível para a criança limitada visualmente que durante toda sua vida deverá reconhecer e avaliar, honestamente, sua necessidade de pedir ajuda em determinadas situações. Ela precisa aprender a pedir este auxilio, de modo a conservar seu auto-respeito e, por outro lado, deverá estar atenta para oferecer ajuda aos outros, em situações onde suas habilidades podem ser maiores. Conta-se de um menino de doze anos, com limitação visual que, acampando com os colegas da mesma idade, deliciava-os durante uma chuva torrencial, saindo à noite para fechar as janelas de lona. Ficavam contentíssimas porque o menino não precisava utilizar uma lanterna para enxergar o que estava fazendo; portanto ambas as mãos estavam livres para o trabalho necessário! É preciso que a criança limitada visualmente aprenda a cuidar-se pessoalmente e a compartilhar tarefas caseiras, embora isto possa significar um grande esforço para ela e para os outros. Se ela não aprender gradativamente a ser independente, tornar-se-á um adulto menos eficiente por causa disso. Aqueles que conviverem com ela perceberão sua dependência e inadequação e pensarão tratar-se de um resultado de sua limitação visual, enquanto que esse resultado é, em grande parte, devido à falta de experiências e orientação adequadas.


CAPÍTULO III
SEQÜÊNCIAS DE DESENVOLVIMENTO: UM CONTRASTE

Os padrões de crescimento e aprendizagem das crianças podem ser estudados como guias para formar prognósticos razoáveis para elas. O estudo dos padrões atuais é especialmente válido quando lembramos que somente os limites externos de desenvolvimento são formados por hereditariedade. Dentro destes limites podem ocorrer muitas variações, dependendo das experiências de cada criança em seu ambiente.

Geralmente, enquanto a criança caminha para a maturidade, desenvolvem-se certos padrões de crescimento. Esses são os mesmos, em muitos aspectos, para a maioria das crianças, mesmo que elas possuam ou não problemas de visão. O quanto esses padrões se desenvolvem rápida ou extensivamente, depende da individualidade. Uma comparação com outras crianças dificilmente poderá ajudar. Será muito melhor para uma determinada criança que ela seja auxiliada a progredir no nível que pareça confortável e ainda de interesse para ela. Na mesma medida em que os padrões podem ser um auxilio, os desvios deles não devem causar alarme.

Uma observação cuidadosa das atitudes e do comportamento da criança pode dissipar os temores de que a mesma não esteja funcionando em nível e ritmo adequado. Uma criança feliz, independente e responsável, geralmente, indica um progresso correto de crescimento.

Os padrões de crescimento e desenvolvimento a serem considerados estão nas áreas física, pessoal e social (incluindo cuidados pessoais), intelectual e emocional.


Crescimento e desenvolvimento físico

Na medida que as crianças amadurecem e aprendem a usar seus corpos de vários modos mais complexos, certas diretrizes devem ser consideradas:

• Quando as crianças ainda são bem pequenas, suas atividades envolvem todo o seu corpo. Gradualmente, tornam-se aptas a utilizar uma e depois, várias partes do corpo. Um bom exemplo é o jogo de bolas. Isto de início envolve um amontoado de atividades totais do corpo; mais tarde, os movimentos do corpo tornam-se mais específicos.
• As crianças aprendem a utilizar primeiro os grandes músculos que lhes permite alcançar e agarrar os objetos. Eventualmente tornam-se aptas para pegar os objetos com a mão inteira, depois com os dedos, aumentando, então, o uso refinado da atividade muscular.
• A criança desenvolve-se seguindo o esquema "da cabeça aos pés". Ela aprende a erguer a cabeça, a mantê-la firme, aprende a usar os braços e o tórax de uma maneira total, aprende a puxar o corpo ao longo da superfície, engatinhar e usar os pés e as pernas para andar.
• À medida que a criança aprende a controlar a sua cabeça enquanto está deitada de costas, isto é, quando sua cabeça se conserva na mesma linha de seu corpo, ela se muda de uma fase unilateral para uma fase unilateral simétrica. Isto significa que, por algum tempo, está se exercitando com as duas mãos e os dois braços ao mesmo tempo e da mesma maneira. Ações unilaterais mais avançadas vêm posteriormente, depois de muita prática com as bilaterais. Ainda mais tarde, a criança demonstra uma preferência para usar um lado de seu corpo mais do que o outro.
• As primeiras atividades das crianças envolvem o uso de muitos músculos. À medida que crescem fisicamente, são capazes de usar menor número deles e envolver somente aqueles necessários para realizar uma determinada tarefa.

A criança que tem uma limitação visual necessita mais do que as outras de sentir o prazer de se movimentar e saber "como se movimentar no espaço, de maneiras diferentes. Muitas vezes é preciso mostrar-lhe especificamente como se movimentar. Ela pode não enxergar o suficiente para ver como isso é feito. Deste modo estas atividades devem ser executadas bem perto da criança para que ela perceba como são feitas. Às vezes será necessário ”ver com as mãos” para obter uma noção de como é executada uma certa atividade.

Deve-se mostrar às crianças os ambientes onde elas passam mais tempo, de modo que os conheçam bem. Existem algumas maneiras de ensinar habilidades motoras e movimentos do corpo, porém o importante é que a própria criança se movimente, explore e seja curiosa. Técnicas mais refinadas dê "orientação e mobilidade" deverão ser aprendidas posteriormente.

A criança que não sabe se movimentar e utilizar seu corpo terá um mundo limitado e nunca se sentirá segura no seu ambiente. Quando a criança aprende a utilizar seu corpo e se sente segura no seu uso, torna-se mais feliz e autoconfiante.

A seqüência do desenvolvimento físico evolui nas linhas gerais pelas quais a criança se desenvolve fisicamente, obedecem ao que comumente ocorre dentro de cada grupo. Sabe-se que a criança pode se encontrar em diferentes níveis nos vários grupos, ao mesmo tempo. Não se menciona a idade porque o progresso contínuo é de importância primordial e não o ponto exato do tempo em que um certo estágio de funcionamento é alcançado. Esses princípios prevalecem em todas as seqüências de desenvolvimento, a não ser quando o contrário for indicado.

Nas seqüências estabelecidas a seguir os comentários específicos, a respeito de crianças cegas e deficientes da visão são colocados numericamente (quando possível), para se comparar com aqueles do mesmo número no lado esquerdo da página. É evidente, porém, que às vezes não há uma separação definida.

Deve se destacar o fato de que a criança com limitações da visão pode eventualmente progredir através dos estágios que levam ao desenvolvimento motor dos músculos grossos (grandes músculos), entretanto, irá alcançá-los de maneira mais vagarosa que a criança vidente. Pesquisas recentes demonstram que a visão inicia o processo de coordenação motora grossa, quando a criança atinge a idade de quatro ou cinco meses. Acredita-se que a criança com limitações visuais coordena o processo muscular grosso através da audição e somente quando atinge a idade de dez meses. É possível que este processo possa eventualmente ser acelerado e varia de criança para criança. O que se pode afirmar, atualmente, é que a coordenação ouvido/mão se desenvolve mais tarde do que a coordenação olho/mão. Considerando-se o que foi dito, é compreensível que a criança visualmente incapacitada tenha uma média de desenvolvimento diferente em certas áreas.


SEQÜÊNCIAS PELAS QUAIS AS CRIANÇAS SE DESENVOLVEM FISICAMENTE:
COMENTÁRIOS ESPECÍFICOS PARA A CRIANÇA VISUALMENTE LIMITADA

1. A – Deitada de bruços ou de costas, a criança:

- permanece de bruços ou de costas.

- levanta a cabeça quando deitada de bruços.

- balança a cabeça quando sentada, segurada ou apoiada.

- rola da posição de bruços para as costas e vice-versa
- levanta a cabeça quando deitada de costas

1. B – Para a criança com limitação visual a posição de bruços não é, naturalmente, a mais confortável, ou a mais interessante, pode até prejudicar sua respiração ou dificultar seus movimentos, principalmente pela falta do estímulo visual o qual faz com que o levantar da cabeça seja intencional. Isto não significa que a criança visualmente limitada não deva deitar-se de bruços; ela necessita realizar isto (principalmente para poder, eventualmente, engatinhar). De preferência, a criança deve ser motivada a manter sua cabeça levantada e a movimentar-se, enquanto nesta posição. Pequenos objetos que emitem sons devem ser pendurados sobre a cama, onde ela possa alcançá-los e fazê-los soar, O seu rosto pode dirigir-se diretamente para a face de sua mãe, enquanto as duas conversam. Deve ser encorajada, de diversas maneiras, a deitar-se de bruços e de costas e nessas posições, levantar cada vez mais a cabeça, para ir obtendo sucesso gradativo.

2 A - Sentada: A Criança:
- senta-se com apoio;
- senta-se sozinha, por curtos períodos, em superfícies planas, inclinando-se para frente e apoiando-se nas mãos;
- senta-se na cadeira;
- senta-se independentemente e prontamente em qualquer lugar;
- senta-se sozinha em cadeirinha de criança

2 B - Sentar-se também depende de encorajamento e apoio, mas geralmente pode ser aprendido na mesma fase da criança vidente. A criança incapacitada visual pode necessitar de orientação para aprender a sentar-se (a "perceber" o que significa essa nova posição) através do apoio de travesseiros ou do corpo de outra pessoa. Oferecendo à criança algum motivo para sentar-se, ela terá vontade de fazê-lo. Esses motivos podem incluir: proximidade da mãe, proximidade ao rosto da mãe (suas palavras); jogos no colo da mãe; habilidade de se movimentar num espaço maior e de alcançar mais longe; habilidade de emitir sons.

3 A – Movimentando-se: A Criança:
- movimenta-se em superfícies planas;
- engatinha e se levanta apoiando-se na grade;
- anda de lado segurando-se na grade;
- fica de pé, com auxilio;
- consegue ficar de pé sozinha e anda segurando-se com uma das mãos;
- anda sozinha, um pouco insegura;
- anda livremente pela casa e quintal, com pouca ajuda (mais tarde na vizinhança imediata);
- consegue correr bem;

3 B - Deve-se tomar cuidado com o uso que o bebê visualmente incapacitado, faz do "quadrado". A tendência sempre foi a de deixar o bebê no "quadrado" por extensos períodos de tempo, pois se pensava ser um lugar seguro e confortável para ele. Certamente, na vida de qualquer bebê, há lugar para um "quadrado". Quando ele começa a movimentar-se o "quadrado" pode ser uma área suficientemente limitada para a criança começar a explorar, antes de se aventurar em área maior. Torna-se interessante, para a exploração e para a experiência, guarnecê-lo com diferentes tipos de objetos para que ela possa brincar e explorar. Também oferece um apoio para as primeiras tentativas de ficar em pé e de andar, O "quadrado" pode servir de ponto de referência para a criança que se encontra fora dele, e sendo grande o suficiente, pode ser relativamente fácil de ser encontrado pelo bebê visualmente limitado, quando começa a mover-se. Tão logo forem alcançados esses objetivos, deve-se deixar de lado o "quadrado".

Geralmente, a criança que é visualmente limitada irá engatinhar, porém, só depois que inicia a coordenação ouvido/mão (habilidade de se referir à fonte de um som). Esta coordenação raramente se desenvolve antes do final do primeiro ano de vida. Quando o bebê mostra interesse em engatinhar (apoiando-se nas mãos e joelhos, por exemplo), pode ser encorajado a engatinhar em direção a sons, tais como, um brinquedo que emite sons e que esteja próximo de seu alcance.

A criança visualmente limitada ficará de pé e depois andará com auxílio, tal como qualquer criança. Este período de aprendizagem é uma oportunidade a mais, para expandir o conhecimento de seu ambiente. Pode-se mostrar à criança, os detalhes de seu ambiente e as mudanças que ela encontra quando se movimenta de um lugar para o outro. É necessário dar à criança, tempo para explorar e observar. Quando ela estiver apta para andar por si mesma, vários fatores precisam ser considerados. Além dos problemas de equilíbrio e o desafio de uma nova postura com que se defronta ao iniciar essa nova etapa, a criança com visão limitada terá menor número de informações acessíveis para guiá-la de um lugar para o outro, obtidas menos casualmente, que as outras crianças.

Ela poderá adquirir habilidades e ganhar confiança, mas necessitará de mais tempo até que isso se realize. À medida que ela cresce e as coisas são mudadas ocasionalmente de lugar, são úteis os comentários em relação às novas posições. Embora ocorram colisões e quedas, como acontece também com as crianças videntes, um tapinha nas costas ou um comentário, juntamente com um encorajador "tente novamente", dará à criança a coragem de fazer outros esforços. Ao melhorar sua autoconfiança e suas habilidades, ela inicia a organização do ambiente em sua mente, a ponto de mover-se de um lugar para o outro com um objetivo e através do uso eficiente da memória. Quando a criança visualmente limitada movimentar-se de um lado para outro, irá necessitar de auxilio para tornar-se ciente de perigos: o que são, o que ocasionam, como lidar com eles. Deve-se-lhe ensinar que, alguns locais são para brincar e outros não; que uma pequena "grade" pode significar o início da escada, onde poderá encontrar o corrimão. Ela aprenderá que os dedos podem ficar presos nas rodas do velocípede e que este pode tombar. Ela aprenderá tudo isto, mas provavelmente, será necessário fazer várias demonstrações.

4 A - Utilizando escadas: A Criança:
- engatinha para subir a escada, descendo-a sentada;
- sobe e desce as escadas sozinha, colocando os pés juntos em cada degrau;
- sobe (e mais tarde desce) um degrau após outro, alternando os pés desce e sobe rapidamente como um adulto.

4 B - É preciso mostrar à criança visualmente incapacitada como subir e descer escadas. De inicio uma pessoa pode ir subindo um degrau ou dois ao lado da criança, para encorajá-la e auxiliá-la na exploração e compreensão do que está acontecendo através da repetição dessas ações. Mais tarde, para descer as escadas, segue-se a mesma orientação, apenas envolvendo alguns passos inicialmente. Se seus pés forem colocados, um por vez, no degrau, com a posição da mão ajustada no corrimão, seu trabalha será facilitado. Esta maneira detalhada de "mostrar à criança como fazer" pode ser seguida no ensino de jogos de bola, saltos, etc...

5 A - Movimentando-se de outras maneiras, que não o andar: A Criança:
- pula quando apoiada
- pula sozinha no lugar;
- pula do primeiro degrau da escada, com auxilio; depois sozinha;
- fica sobre um pé só, balançando-se vários segundos
- pula com um pé só;
- pula com os dois pés;
- pula, utilizando pés alternados
- tenta saltos enormes e aprecia acrobacias (o equilíbrio e o ritmo tornam-se cada vez melhores)

5 B - Às vezes, as crianças visualmente incapacitadas são observadas despendendo períodos de seu tempo a balançar o corpo para frente e para trás, ou repetindo constantemente certos movimentos. Estes "maneirismos" são algumas vezes, e erradamente, denominados de "ceguismos". É uma denominação falha, pois muitas crianças que não são visualmente limitadas, desenvolvem tais maneirismos e muitas crianças que são visualmente limitadas, não os desenvolvem. Tais ações e movimentos resultam do fato da criança não ter o que fazer, ou não saber o que pode fazer. Muitas pessoas perguntam se brinquedos, tais como o cavalo que parece uma cadeira de balanço, não encoraja os "maneirismos". Este não deveria ser o caso, se a criança que está usando tais brinquedos tivesse muitas oportunidades para utilizar vários tipos de jogos e uma vasta variedade de experiências. Quando a criança sabe como se mover objetivamente pelo ambiente, controlando seus movimentos e utilizando seu corpo de maneira que a interesse terá poucas razões para adotar “maneirismos”.

6 A - Alcançando e pegando objetos: A Criança:
- traz objetos à boca para explorá-los, quando lhe são dados;
- alcança as coisas, agarra-as (primeiro com ambas as mãos, mais tarde, com uma).
- O agarrar com palma/dedo desenvolve-se para o agarrar com polegar/dedos

6 B - Algo precisa interessar a criança antes que ela esteja motivada para alcançar e agarrar as coisas. A criança visualmente limitada necessita do tipo de motivação que faça sentido para ela. Objetos deverão ter som e superfície que induza à investigação. Enquanto é natural para a criança vidente, no início, agarrar com ambas as mãos (ação necessária para aumentar o desenvolvimento do bom uso das mãos), a criança que é visualmente incapacitada, geralmente necessita de ter as coisas colocadas em suas mãos ou precisa ter as mãos colocadas sobre os objetos. Deve haver brinquedos adequados a seu alcance. Os "quadrados" ou situações semelhantes podem ser adaptados com algo que emita sons. Inicialmente, a criança esbarraria nestes objetos sonoros por acidente. Mais tarde a criança irá agarrá-lo intencionalmente. A criança que já se senta deve ter à sua volta e de fácil alcance, vários de seus brinquedos favoritos. Portanto, "ver" pode ser arquitetado e "achar" pode ser ensinado. Os brinquedos devem ser interessantes ao tato bem como ao ouvido (às vezes devem ser também para o "sentido-de-movimento" e ao olfato). Próximo ao final do primeiro ano de vida, ocorrerá a coordenação ouvido/mão se experiências adequadas concorreram para o seu desenvolvimento. Então, a capacidade da criança alcançar pode ser dirigida para um som particular e o agarrar já terá se desenvolvido até ao ponto em que o polegar e os dedos podem trabalhar juntos para pegar e segurar um objeto.

7 A - Brincando com brinquedos e materiais que envolvem o uso dos grandes músculos: A Criança:
- empurra e puxa brinquedos, objetos e móveis;
- utiliza um carrinho para empurrá-lo e carregá-lo de coisas;
- anda em brinquedos de rodas que podem ser movimentados com os pés;
- começa a andar num triciclo;
- utiliza a balança, escorregador e outros equipamentos do "playground";
- usa patins, cordas de pular, patinetes

7 B - A criança visualmente limitada, tal como a vidente, irá apreciar as mesmas atividades e brinquedos que envolvem o uso dos grandes músculos, mas seus interesses provêm de outras fontes que a visual. Por exemplo, ela estará mais atenta ao som. O esforço muscular envolvido nas ações relacionadas nessas atividades pode exceder ou tomar o lugar da experiência visual. Os meninos e meninas' que não enxergam irão "olhar com as mãos” ou os que enxergam mal irão "olhar bem de perto". Por exemplo, eles irão "ver" os pedais do velocípede e como são utilizados, colocando seus pés sobre os pedais, sendo orientados no movimento de "pedalar", bem como os explorando com as mãos. Naturalmente, as atividades para a criança visualmente limitada requerem precauções. Essas crianças necessitam limites firmes, seguros e sensíveis, dentro dos quais funcionem. A criança totalmente cega pode andar de velocípede, mas necessitará de auxilio para conhecer os locais onde estas atividades podem ser desempenhadas sem perigo, bem como, algumas pistas para saber onde se encontra. Ela precisa saber, por exemplo, que o rangido das correntes dos balanços significa que ela precisa estar alerta para evitar colisões. As crianças que enxergam de perto, porém não de longe, necessitam auxilio para elaborar um guia de ação (onde andar mais devagar, onde correr livremente e onde usar cautela).

8 A - Brincando com bolas grandes: A Criança:
- reage à bola através de algum tipo de movimento;
- mais tarde, corre para a bola, toca, chuta, bate;
- pega a bola entre as pernas, mais tarde com as mãos, no chão, no ar
- arremessa a bola
- chuta a bola
- empurra a bola;
- joga a bola na direção solicitada
-joga e chuta, cada vez com mais habilidade.

8 B - O jogo de bola pode ser unia atividade agradável e benéfica para quase todas as crianças, desde que a bola seja do tamanho adequado para ser manejada pelas mesmas. São necessárias bolas desde as do tipo "vôlei" até bolas de praia, cada vez maiores. A criança enxergando ou não, pode brincar com a bola e explorar suas possibilidades. Num local restrito, tal como num canto ou no centro de um pequeno espaço definido, a bola pode ser rolada, golpeada para saltitar, chutada e então recuperada novamente. Algumas vezes, pode-se colocar na bola algo que emita sons, para facilitar e tornar mais interessante a sua localização. Pode-se colar na bola um guizo ou colocar dentro da bola de borracha vários sinos e então vulcanizar. Já existem algumas bolas para comprar, que possuem guizos, ou um outro ruído, embora muitas destas não pulem do chão a uma altura suficiente. Parte do prazer no jogo de bolas envolve os aspectos sociais e estes também devem ser considerados dentro do jogo. "Como fazer" irá depender, em parte, do nível de funcionamento da criança em termos de sua habilidade física e controle, assim como da sua habilidade para entender e utilizar-se da palavra falada. A maturidade de seus amiguinhos também é um fator a considerar.


CRESCIMENTO E DESENVOLVIMENTO PESSOAL E SOCIAL

A criança inicia a vida precisando de muita atenção, cuidado e amor. O mundo move-se à sua volta e focaliza-se nela. Ela toma e recebe daqueles que lhe estão mais próximos. Ela dá, também, através de suas ações e expressões físicas e verbais. À medida que cresce e adquire mais experiência, acrescenta conhecimentos em todas as áreas. Aprende a conhecer e manejar seu corpo, seus pensamentos e sentimentos, e as pessoas que estão à sua volta. Partindo de um ambiente limitado, seu mundo se expande. Iniciando com uma grande preocupação por si mesma, suas próprias -necessidades e desejos, ela vai aumentando seu interesse pelas outras pessoas.

A criança começa a construir sua autocompreensão, com base nas coisas que ela aprende a fazer por si mesma, nos sucessos que experimenta e na forma como sente os sentimentos dos outros em relação a ela. Se seu sentimento sobre si mesma é bom, e se sente que pode confiar naqueles que estão à sua volta, começa a considerar aqueles que a rodeiam e sentir que eles são importantes.

A primeira consideração, a se pensar no desenvolvimento da criança como um ser pessoal e social, deve ser dada às suas preocupações quanto a tudo que lhe é imediato e familiar, que lhe interessa e a torna autoconsciente. Em seguida, deve ser dada consideração aos relacionamentos com sua família e vizinhança e às maneiras pelas quais sua comunidade se apresenta a ela e assume importância crescente.


SEQUÊNCIAS PELAS QUAIS AS CRIANÇAS GERALMENTE SE DESENVOLVEM COMO SERES PESSOAIS
COMENTÁRIOS ESPECÍFICOS EM RELAÇÃO À CRIANÇA LIMITADA VISUALMENTE
RELAÇÕES PESSOAIS: FAMILIARES E DE VIZINHANÇA.


1 A – Em relação à interação geral com os outros:

A criança:

- tem um sorriso parcial espontâneo;
- sorri e ri alto em resposta aos outras
- pede atenção pessoal;
- freqüentemente chora quando as pessoas, principalmente os pais, saem do quarto, deixando-a sozinha;
- responde às expressões faciais dos outros;
- imita expressões faciais e gestos;
- brinca de dar tapinhas e acena "até logo" e mais tímida com estranhos do que com a família;
- começa a mudar o seu comportamento de acordo com as reações emocionais dos outros;
- está apta a repetir ações que fazem os outros rirem;
- tenta obter atenção através de ruídos, etc.;
- começa a reclamação de certos direitos;
- procura aprovação dos adultos pelo comportamento adequado;
- mostra sinais de afeto, piedade, culpa;
- tenta fazer os outros rirem através de seus atos;
- tenta agradar os adultos, obedece a ordens, responde à aprovação ou desaprovação;
- mostra interesse na família, e em suas atividades;
- aprecia ter pequenas responsabilidades caseiras;
- torna-se mais resistente à autoridade; o impulso para agradar os adultos diminui;
- aprecia levar recados fora de casa;
- pode guardar os brinquedos, objetos pessoais, pendurar roupas;
- está cada vez mais ajustada para conseguir deixar os pais;
- anda pela vizinhança independentemente, embora seja necessário tomar cuidado ao atravessar as ruas;
- protege os irmãos menores embora não seja capaz de cuidar deles;
- aprecia excursões e saídas com a família;
- fica mais sensível às reações doe outros;
- responde negativa-mente às pressões, torna-se rude ou fica de mau-humor quando criticada ou punida;
- pode auxiliar com pequenas tarefas e responsabilidades no quintal e no pátio;
- pode levar recados com responsabilidade por pequenas somas de dinheiro;
- pode andar sozinha ou ir com um amiguinho para a escola, igreja, loja, mesmo quando tem que atravessar as ruas;

1 B – O contato "olho-a-olho" entre os pais e a criança somente existe em quantidades mínimas, quando existe, e isso fará muita falta principalmente no início. No entanto, quando já se sabe que a criança visualmente limitada irá rir, sorrir, chorar e responder à voz e ao tato, todos os tipos de contato que não o visual, devem ser estimulados e apreciados. Embora a criança com incapacidade visual não possa ver como o outro está se sentindo pela sua face ou "olhar", tanto a voz quanto a maneira geral podem lhe proporcionar algum significado. Carregar a criança quando é ainda bebê, abraçá-la, tocá-la enquanto se desenvolve, irão fazê-la sentir-se desejada, apreciada, necessária e amada. Falar com ela irá auxiliá-la, de maneira crescente, a compreender-se e sentir-se parte do mundo à sua volta.

O bebê visualmente incapacitado terá um efeito importante naqueles à sua volta, começando por sua própria família. Perguntas de amigos e estranhos, comentários esparsos, críticas mesmo rudes, tanto provindas de falta de compreensão, como de falta de consideração, serão dirigidas aos pais e freqüentemente à própria criança. Estes acontecimentos podem levar os pais a questionar o valor de seus esforços, e a sentir que eles estão esperando muito de seu filho. Eles, tanto quanto os pais de todas as outras crianças, precisam perseverar em seus esforços para compreender como seu filho aprende e pode tornar-se mais eficiente na construção do seu eu.

A criança visualmente limitada necessita de mais auxílio do que a criança vidente, para tornar-se uma pessoa capaz e responsável. Necessita estar ativamente envolvida com sua mãe enquanto esta trabalha na casa. É necessário que se diga à criança o que sua mãe está fazendo. É necessário "mostrar" e dar tempo para que a criança realmente "veja". É preciso dar também tarefas simples para que ela execute. Ela pode aprender a pegar seus próprios brinquedos, a colocá-los de lado, a colocar suas roupas num determinado canto, quando as retira; pode auxiliar a lavar pratos, a arrumar a mesa, a arrumar sua própria cama; pode auxiliar nos trabalhos do quintal. Tais atividades irão permitir à criança sentir-se um membro útil dentro do lar.

A criança que é visualmente limitada necessita mais do que o auxilio comum para encontrar outras crianças e aprender a brincar com elas. De início, seu contato com elas deve ser mais planejado. Ë difícil para ela iniciar esse contato, já que a visão, nesse sentido, é muito importante. Em segundo lugar, é natural que, de início, os pais sintam-se superprotetores em relação à criança. No que se refere à sua segurança, ela deve receber a sua parte e ser tratada honestamente. A consciência dessas preocupações permite que se proporcionem ocasiões para que a criança visualmente limitada esteja com os outros, aprecie e sinta prazer em sua companhia, assim como desenvolva habilidades crescentes para procurar essas atividades por si mesma.

2 A - Em relação ao brinquedo (através do qual as crianças interagem com os outros e ficam conhecendo o seu ambiente):

A Criança:

- brinca com suas mãos e dedos, segura os brinquedos e brinca com o chocalho;
- distrai-se sozinha por alguns minutos;
- golpeia os brinquedos;
- responde à música;
- examina brinquedos, movimenta-os de um lugar para o outro;
- aperta, entre os braços, bonecas e animais de pano, carregando-os por todos os cantos;
- aprecia brincar com areia, lama, água; gosta de colocá-los em vasilhas; mais tarde começa a moldá-los;
- de início brinca sozinha, depois desenvolve uma percepção das outras crianças, mas ainda não brinca com eles;
- inventa maneiras de superar alguns obstáculos (tais como portas fechadas);
- evita perigos simples;
- começa a reivindicar certas posses;
- mostra ou oferece brinquedos para outros, como meio de contato social
- aprecia brincar junto de outras crianças, realizando a mesma coisa, porém não brinca de maneira cooperadora;
- empenha-se em brinquedos imaginativos (tais como colocar a boneca para "dormir", “alimentar" animaizinhos de pano);
- inventa brinquedos, quando lhe são dados materiais interessantes;
- auxilia a guardar os brinquedos, pode carregar objetos que se quebram;
- realiza a sua parte e compartilha do brinquedo com outras crianças;
- geralmente tem idéias muito complicadas para serem efetivadas;
- brinca cooperativa-mente com os outros, espera sua vez, compartilha, embora não o faça sempre;
- prefere crianças a adultos;
- prefere brincar em grupo, mas geralmente tem um amiguinho especial;
- pode gabar-se e exagerar, perante outras crianças;
- com orientação especial, irá evitar interromper o brinquedo ou conversa de outras crianças;
- gosta de cantar, dançar, ouvir discos;
- participa de cantorias e brinquedos de dramatização;
- gosta de vestir-se com roupas de adultos;
- ajusta-se prontamente a situações de grupo, aprende a cooperar, conhece os direitos dos outros;
- brinca com jogos ativos de natureza competitiva, como brincar de "pegador";
- aceita a supervisão do adulto, está mais interessado em cumprir ordens e regras;
- fica excitada pela competição;
- empenha-se em brinquedos mais brutos e de trambolhões, aprecia acrobacias, ginástica, atividade física;
- procura e encontra seus próprios amigos;
- é mais agressiva, independente no grupo, discorda mais das outras crianças, pois agora possui suas próprias idéias;
- inicia a diferenciação nos interesses de brinquedo, em termos de sexo;
- aprecia muito dramatizar e "fingir de";
- torna-se mais sensível às reações dos adultos;

2 B – Existem alguns pontos específicos a serem registrados em relação ao brinquedo da criança visualmente limitada. Enquanto a criança ainda está no berço, os brinquedos que fazem barulho e são interessantes ao tato devem ser pendurados sobre a cabeça do bebê e à sua volta no berço. Seus movimentos de mãos, pés e corpo irão provocar sons e dar-lhe sensações, quando tocarem nos objetos que estão pendurados. Isto irá motivar a criança para investigar o ambiente à sua volta. Quando a criança derruba um brinquedo (por exemplo, o chocalho com o qual está brincando) e o adulto está na proximidade, deve auxiliá-la a procurá-lo (em termos adequados ao seu nível de funcionamento), até que, eventualmente, ela aprenda que as coisas que caem, simplesmente não desaparecem, mas podem ser procuradas e achadas.

A criança visualmente limitada necessita aprender a seguir um som. Quando ainda é bem pequena, pode ser auxiliada a virar-se na direção de um determinado som. Enquanto se desenvolve, pode aprender (com auxilio) a alcançar algo, pela direção do som. Através de muitos contatos com objetos e seus sons, pode aprender que certos sons e objetos "andam" juntos. Posteriormente, ela começará a desenvolver prazer ou rejeição em relação a materiais e atividades, assim como as outras crianças o fazem. Ao escolher brinquedos para a criança visualniente limitada é importante selecionai' aqueles que sejam interessantes para o tato, sensação muscular, audição e cheiro, e a qualquer resíduo visual, que porventura a criança possua. Algumas vezes um brinquedo pode ser adaptado para melhor servir às necessidades da criança. A adição de uma textura diferente (ou um guizo, como foi mencionado antes, pode ser adequada. Embora existam muitos brinquedos que possam ser comprados ou feitos em casa, a criança visualmente limitada, tal como as outras crianças irá apreciar objetos caseiros, tais como panelas ou potes. Caixas de papelão, papel encerado, bandejas de gelo, colheres velhas e latas podem se tornar excelentes objetos de brinquedo. Quando possível, deveriam ser escolhidos brinquedos que servem a vários objetivos. Não só podem ser utilizados durante muito tempo, como também permitem à criança que os usa, verificar que várias atividades podem ser realizadas com os mesmos objetos. Por exemplo, uma tampa de panela pode ser rolada, batida. Mais tarde, a panela pode ser usada com uma colher, resultando barulhos especiais. A criança visualmente limitada durante seu desenvolvimento, pode aprender a encontrar seus próprios brinquedos e guardá-los quando termina a brincadeira. Dessa maneira, desenvolve-se sua capacidade de distrair-se e manter-se ocupada. Além de necessitar de brinquedos próprios e lugares para guardá-los, ela necessita possuir outras coisas que lhe darão oportunidade de sentir-se mais valorizada como pessoa. Possuir seu próprio cabide para pendurar o casaco ou a toalha, cada um deles em lugar de fácil acesso, é de grande valor para a criança. Sua própria porção no armário ou gavetas para colocar suas roupas, que foram marcadas comi um botão ou outra marca de fácil identificação, são importantes para aprender a assumir responsabilidades.

As crianças geralmente gostam de brincar de "casinha" e realizar tarefas do lar. Através dessas atividades elas adquirem conhecimentos básicos. A criança que é incapacitada visualmente não é diferente, mas necessita de maior número de atividades conscienciosamente planejadas, para observar o que está envolvido em tarefas como; escovar, lavar pratos, lavar roupas, varrer, usar ancinho, etc.: Precisa ser encorajada a acompanhar os adultos quando realizam estas tarefas. Necessita oportunidades incontáveis para compreender o que está sendo feito e o porque dessas ações.

Brinquedo com bonecas, no senso comum (a boneca utilizada e tratada como pessoa) aparece naturalmente para a maioria das crianças videntes em idade tenra. Objetos reais muitos pequenos sejam bonecas ou carrinhos, têm pouco significado para crianças visualmente limitadas muito jovens. Elas não são capazes de perceber com seus dedos, o que estes pequenos objetos representam. Isto porque as idéias dos objetos reais não ficam muito claras até que os mesmos tenham sido observados diretamente várias vezes. Para a criança com visão limitada, o início precoce de brinquedos com carros e bonecas, provavelmente, possui valores e significados bem diferentes daqueles usuais para a maioria das crianças videntes. Por exemplo, sentir uma boneca, sua forma e o som que emite, provavelmente será prioritário no inicio, para depois começar a "alimentá-la", colocá-la para "dormir", etc...

Uma quantidade razoável de barulho, poeira e desordem deve ser esperada, e mesmo desejada, no que concerne à criança com limitação visual (especialmente razoável em termos da criança, embora se tenha que considerar também os sentimentos da família). A criança informa-se de certos objetos e materiais, principalmente através dos ruídos que emitem. A fim de levá-la a conhecer tais materiais como lama, areia, água, neve, folhas secas, tinta.s, etc., ela terá que senti-los e cheirá-los. Utilizar velhas roupas e usar "aventais" e certos objetos para evitar sujeiras, como jornais e toalhas de papel irão auxiliá-la a fazer com que essas experiências necessárias e valiosas, sejam muito mais toleradas pelos outros, em seu lar. Certas coisas que as crianças videntes aprendem a imitar através da observação visual, terão que ser introduzidas às crianças com limitações visuais, pelos adultos que estão à sua volta. Em alguns casos, podem ser necessárias muitas atividades práticas. Essas atividades incluem: como girar o trinco para abrir uma porta, abrir e fechar gavetas, carregar, apoiar o que está sendo carregado, guardar as coisas, abrir a porta, pegar objetos que caíram, despejar líquidos em recipientes, etc. uma tentação no trato com crianças visualmente limitadas exagerar o uso de discos, rádio e televisão. Elas provavelmente mostrarão interesse neles, desde cedo, como o fazem as outras crianças. Os adultos em sua volta, não conhecedores dos danos que disso possam resultar, podem supressor a criança deixando-a sozinha em sua cama ou quadrado, com o som constante da música ou voz humana através de meios de comunicação artificiais à sua volta. Discos selecionados, particularmente, podem trazer prazer e ao mesmo tempo ensinar; mas escolhas pobres ou o uso indiscriminado podem causar mais prejuízos do que bem. O uso constante do rádio, TV, ou discos pode ser uma experiência altamente irreal. A criança visualmente incapacitada, especialmente, necessita algo mais que este tipo passivo de "entretenimento". Para ela é vital ter muitas ocasiões de conhecer seu ambiente, mostrado pelo adulto, de maneira ativa e concreta.


HABILIDADES DE CUIDADO PESSOAL

A aquisição de habilidades de cuidado pessoal é de grande importância para qualquer criança. Existe uma certa confiança em si, que a criança obtém, quando percebe que pode "tomar conta" de suas necessidades básicas. É essencial que esta autoconfiança, baseada na realidade, aumente em direções positivas. A criança visualmente limitada pode ter o mesmo sentimento de autoconfiança, apreciado e partilhado pela criança vidente. Para adquiri-lo, necessita, de seus pais e dos que a rodeiam, de um maior planejamento, e de um esforço mais consciente. O uso inteligente de palavras em termos de relacioná-las a ações e coisas pode aumentar o desenvolvimento da linguagem e permitir vários tipos de aprendizagem simultaneamente.


1 – Em relação à Comida

Comentários específicos para a criança visualmente limitada

A criança:

- necessita alimentar-se à noite, além da alimentação durante o dia; mais tarde, somente durante o dia;
- reconhece a mamadeira, aumenta a atividade quando a vê; mais tarde, segura-a;
- movimenta a boca para pedir comida;
- alimenta-se sozinha de bolachas, biscoitos (mastiga com ruídos;
- esfrega a colher e coloca-a na boca para lambê-la;
- mastiga e engole comida sólida;
- tenta alimentar-se sozinha com a colher;
- usa a colher, algumas vezes derramando um pouco;
- discrimina alimentos de outros objetos;
- alimenta-se direito com a utilização da colher; inicia o uso do garfo;
- serve-se sozinha;
- aprecia escolher os alimentos que come;
- alimenta-se à mesa com a família, sem exigir muita atenção;
- usa a faca para espalhar manteiga, etc.
- utiliza maneiras adequadas à mesa.

1 – A criança com deficiência visualmente limitada necessita de auxílio para reconhecer a mamadeira. A repetição de algumas palavras semelhantes cada vez que se coloca a mamadeira em sua boca ou mãos, irá encorajar tal reconhecimento. Ela ficará alerta quanto ao tom de voz e à mamadeira em gera]; embora ainda não compreenda bem as palavras, colocar suas mãos na mamadeira, irá ajudá-la a associar este objeto com o leite que está tomando.

É extremamente importante que a criança visualmente limitada fique no colo de sua mãe (ou seja acariciada) enquanto está tomando leite na mamadeira. Dessa maneira, desenvolve-se um relacionamento terno e o ato de receber alimento fica ligado a esse bom relacionamento. Se a criança não enxerga e não vai para o colo da mãe, a mamadeira parece não ter origem e vir do ar. Na maior parte dos casos, a criança com incapacidade visual pode aprender a mastigar e progride para alimentar-se de sólidos, tal como qualquer outra criança. Deve ser lembrado, porém, que ela não pode observar o que os outros estão fazendo e deve ser ajudada a dar certos passos básicos. Tão logo a criança comece a sentar-se, os alimentos que podem ser comidos com as mãos devem ser colocados em sua bandeja, onde ela possa procurá-los e pegá-los. Os alimentos podem também, ser colocados em suas mãos e, quando a criança os leva a boca devemos incentivá-la com aplausos (mesmo abraços).


Em relação ao beber

A Criança:

- bebe da xícara ou copo;
- segura a xícara ou copo, enquanto está bebendo;
- bebe da xícara ou copo, segurando por si (com ambas as mãos, geralmente derrubando um pouco;
- pode segurar um copo pequeno com uma só mão;
- bebe do copo ou xícara sem auxílio; recoloca-os sobre a mesa;
- pode beber água sem auxílio (pode verter de urna vasilha, pode limpar o liquido que se esparrama por fora do copo ou xícara);

Para aprender a usar a xícara, suas mãos terão que ser colocadas, de início, sobre a xícara vazia e depois com um pouco de liquido dentro, a fim de que ela Possa explorá-la e conhecê-la. Posteriormente suas mãos deverão ser colocadas sobre as mãos de outra; pessoa para que ela aprenda a segurar a xícara, levá-la à boca e colocá-la na bandeja ou outra superfície. A época adequada para iniciar o uso da colher é determinada pela habilidade demonstrada pela criança em agarrá-la e movê-la de uma maneira mais ou menos dirigida. Nessa ocasião, deverá ser mostrado à criança como manejá-la através dos movimentos necessários, com as mãos de adultos sobre as suas. Esta instrução, como sucede em todas as outras, deve ser dada aos poucos, de uma maneira suave e tranqüila. Não há necessidade de pressionar a criança, pois a sua aprendizagem pode ser prejudicada. A instrução pode recomeçar mais tarde. É preciso lembrar-se que a "sujeira" é necessária na aprendizagem de cada criança, e isto é mais verdadeiro, ainda, para a criança deficiente visual. Ela precisa estar apta a experimentar, a explorar, a aprender através de meios que tenham sentido para ela, principalmente através do tato e da sensação. Os alimentos precisam ser explorados com os dedos e precisam ser conhecidos em seus estados diferentes (crus, cozidos, amassados, etc.).
De outra maneira, como poderão ser vistos? Sem a visão para guiar as atividades manuais, faz-se necessária uma prática mais intensa através de perguntas e investigação.


2 - Em relação aos hábitos de toilette:

A Criança:

- apresenta movimentos de intestinos cada vez mais regulares
- começa a esperar num tempo mais regular para ser levada ao banheiro;
- conta quando está molhada;
- acorda durante a noite, grita quando precisa ser trocada;
- geralmente avisa quando necessita ir ao banheiro (quase nunca se suja);
- geralmente não se molha quando levada para dormir na mesma hora que os pais;
- faz esforços definidos para tirar ou empurrar calças que não estejam abotoadas;
- raramente tem acidentes de toilette quando é ocasionalmente lembrada;
- vai sozinha ao banheiro, embora necessite de auxílio com a limpeza, após a evacuação;
- vai sozinha ao banheiro, embora precise de um lembrete, de vez em quando;
- em geral já se cuida sozinha quando precisa ir ao banheiro durante a noite

2 - Em relação aos hábitos de toilette, a criança que é visualmente limitada irá necessitar de maiores oportunidades para "ver" com suas mãos as tarefas envolvidas nessas atividades. Precisa "ver" onde está se sentando, o que está usando; suas mãos sobre as de outrem podem perceber quando está sendo despida. Outras mãos sobre as da criança podem mostrar-lhe como ajudar a abaixar a roupa e segurar o papel com objetivos de limpeza. É preciso que haja consciência de alguns pontos perigosos, como por exemplo, o assento do vaso sanitário. Este muitas vezes é tão alto, que a criança sente-se suspensa no espaço porque seus pés não se encostam ao chão, enquanto está sentada. Deve-se, então, providenciar um arranjo mais baixo ou um suporte para os pés. Provavelmente virá o tempo em que a criança visualmente limitada começa a investigar seus movimentos de intestino ou urina, "vendo" com seus dedos. Isto é natural, desde que a visão não Lhe permite conhecer de outra forma. Uma resposta objetiva (real) sobre o assunto, por parte do adulto, é essencial. Permita à criança que observe, por um curto espaço de tempo, e depois lhe explique, em poucas palavras, que estas são coisas que o corpo não necessita, por isso são expelidas. Essa explicação dar-lhe-á a compreensão inicial que ela necessita. Quando suas mãos forem lavadas, após essa observação, a criança já estará pronta para outros interesses.


3 – Em relação ao vestir-se:

A Criança:

- Coopera passivamente quando está sendo vestida;
- facilita a tarefa da pessoa que a está ajudando, mantendo-se quieta ou estendendo o braço ou a perna;
- tira meias e sapatos;
- coopera ativamente no vestir-se;
- pode tirar luvas, meias, chapéu, e abre zíperes;
- auxilia no vestir-se colocando peças simples
- retira casacos, peças simples; coloca sapatos e desabotoa-se;
- sabe vestir o casaco quando este é colocado na posição certa;
- discrimina a parte da frente e das costas das roupas;
- pode vestir-se e despir-se apenas com pouco auxílio; coloca as roupas e fecha difíceis tipos de fechos;
- pode amarrar sapatos;
- veste-se e despe-se sem auxílio;
- está mais consciente de seu próprio corpo; aprecia a privacidade;
- dá nós, amarrando os sapatos.

3 - A criança visualmente limitada irá necessitar de mais motivação, coragem e instrução do que a criança vidente, ao aprender como se vestir, O próprio cuidado atento por parte do adulto em despir e vestir a criança, irá despertar o seu interesse. As mãos do adulto sobre as da criança, auxiliando-a a tirar o chapéu, meias, abaixar as calças, etc. dar-lhe-ão as primeiras noções de como executar essas atividades. "Colocar" (vestir-se) virá um pouco mais tarde, mas segue o mesmo processo. As ações que necessitam movimentos menores e mais exatos (como desabotoar, abotoar, abrir e fechar zíperes), virão mais tarde. São tarefas que irão necessitar de prática primeiro com botões e zíperes bem grandes, depois com outros menores.


4 - Em relação ao lavar-se:

A Criança:

- tenta lavar as mãos
- pode lavar e enxugar as mãos (necessitará de auxílio);
- enxuga suas próprias mãos;
- lava e enxuga a face e as mãos, escova os dentes (com pouco auxilio);
- ajuda o adulto quando lhe está dando o banho;
- toma banho sozinha;

4 - Lavar as mãos sozinha, depois a face e mais tarde, todo o corpo, é aprendido pouco a pouco, da parte mais fácil para a mais difícil. Primeiro é obtida uma limpeza mais limitada e 'superficial. As habilidades mais complexas são desenvolvidas mais tarde. Quando se pensa na tarefa de lavar as mãos, por exemplo, torna-se evidente, que muitas coisas estão envolvidas: água, sabão, toalha, ensaboar, lavar e secar, O adulto auxiliará a criança a molhar e ensaboar a mão. Espalhar o sabão, enxaguar' e enxugar devem ser mostrados com as mãos do adulto sobre as da criança. Depois ela deverá aprender de onde vem a água, onde está o sabão, a toalha, e colocá-los de volta no mesmo lugar.


5 - Em relação ao dormir:

A Criança:

- pede água ou quer ir ao banheiro para atrasar a hora de dormir;
- pode inventar uma rotina complicada na hora de dormir, para demorar mais;
- arranja desculpas com o mesmo objetivo;
- geralmente dorme a noite inteira;
- são comuns os pesadelos, mas geralmente sabe contar o que a importunou;
- apronta-se para ir para a cama, mas gosta de ter a mãe ou outro adulto por perto;
- vai para a cama sozinha, mas aprecia que alguém a cubra e gosta de ter uma "conversinha".

5 - Embora a criança visualmente incapacitada não possa ver o claro e o escuro, ela aprende o ciclo do dia e da noite através das atividades e palavras da sua família. Às vezes teme-se que ela durma demais. Observa-se, entretanto, que a criança que sabe que o seu mundo é um lugar interessante e alegre, deseja tomar parte nele através de horários certos de acordar e dormir, independente de ser ou não visualmente incapacitada.


CRESCIMENTO E DESENVOLVIMENTO INTELECTUAL

Vários estudos indicam que as crianças começam a desenvolver o sentido de objetividade durante a primeira infância. Esse senso de objetividade é semelhante à maneira mais simples de pensar; é a resposta a um estimulo (ao som, visão, cheiro, tato, gosto, movimento). À medida que as crianças crescem, o estímulo e a resposta serão dirigidos para experiências tanto abstratas como concretas.

Hoje em dia sabe-se mais do que anteriormente sobre as formas de aprendizagem das crianças, embora muito ainda tenha que ser estudado. Parece ser relativamente certo que as crianças aprendem:

- utilizando todas seus sentidos (às vezes juntos, às vezes combinados, dois ou mais; geralmente uni sentido predomina).
- fazendo - depois de observarem os outros durante um certo tempo.
- através da linguagem - ouvindo os outros falarem a respeito do que sentem, pensam e fazem.
- brincando - quando têm oportunidade de "agirem" como adultos, utilizando maior número de músculos e solucionando maior quantidade de problemas; tornando-se mais sociáveis através de perguntas e investigações.
- realizando coisas cada vez mais complicadas - em termos de uso músculos, envolvimento emocional, processos de pensamento, e, com o auxilio e encorajamento dos adultos.


SEQÜÊNCIAS PELAS QUAIS AS CRIANÇAS SE DESENVOLVEM INTELECTUALMENTE

COMENTÁRIOS ESPECÍFICOS EM RELAÇÃO À CRIANÇA VISUALMENTE LIMITADA.

1 – Linguagem:

A Criança:

- emite pequenos sons com a garganta; gira a cabeça na direção do som;
- sorri socialmente;
- ri em voz alta;
- aumenta a variedade de sons emitidos, mostra interesse ativo nas variedades de sons;
- escuta sua própria voz;
- vocaliza quando chora ("m-m-m");
- "fala" com os brinquedos;
- inicia vocalmente a aproximação social;
- imita sons que ouviu;
- combina sílabas;
- presta atenção a seu próprio nome, a "não, não;
- contraria pequenas ordens;
- imita algumas palavras familiares;
- usa algumas palavras com sentido correto;
- reage positivamente às ordens (apanhará um objeto familiar quando solicitada);
- conversa com a linguagem dos bebês;
- compreende algumas palavras e geralmente reage a ordens, tais como: "venha cá";
- aponta para certas partes do corpo (orelha, olho, nariz, etc.) e para objetos familiares;
- escuta por períodos curtos de tempo, ritmos, canções e repetições de sons;
- inicia a olhar, de preferência, livros com gravuras;
- diz "bola" e executa 'duas ordens;
- indica necessidade e desejos;
- usa cada vez menos a conversa "não verbal";
- aumenta o vocabulário, começa a usar pronomes ("meu", ''minha'');
- elabora sentenças de duas ou três palavras para expressar uma idéia;
- compreende ordens e pedidos simples;
- conversa consigo mesma e com bonecas;
- pergunta o nome das coisas;
- escuta estórias simples (aprecia aquelas que já lhe são familiares);
- usa nomes de objetos familiares;
- fala por sentenças curtas, usa plurais, tempo passado dos verbos, preposições, pronomes pessoais;
- refere-se a si mesma como "eu", pode identificar o sexo e conhece seu próprio nome;
- obedece a duas ordens preposicionais;
- movimenta as gravuras de um livro;
- utiliza facilmente a linguagem para contar estórias ou para relacionar uma idéia, um sentimento, desejos ou problemas;
- escuta e é capaz de entender verbalmente uma discussão;
- fala de maneira compreensível para a família e também para outros;
- sabe o nome correto de uma ou mais cores;
- obedece a cerca de cinco ordens preposicionais
- pergunta sem parar;
- fala de coisas imaginárias;
- geralmente mistura fato e fantasia;
- fala nomes feios e fanfarroneia-se;
- aumenta o vocabulário embora as palavras possam ser utilizadas um tanto erradamente;
- faz perguntas sobre significados;
- conhece e nomeia quatro cores;
- executa três ordens;
- pode contar uma história longa, que lhe é familiar;
- pode contar quatro itens;
- compreende algumas palavras abstratas;
- aprecia que leiam histórias para ela; aprecia olhar os livros;
- interessa-se por números;
- usa palavras de ligação como "e” para encompridar sentenças;
- percebe erros na linguagem dos outros
- torna-se apta a usar gírias;
- sabe usar o telefone;
- conhece as estações do ano e os intervalos básicos das horas;
- pode reconhecer as diferentes moedas;
- pode dizer a diferença entre dois objetos similares;
- conta acima de dez;
- pode escrever seu próprio nome e algumas outras palavras;
- é capaz de distinguir esquerda da direita, tomando-se como ponto de referência;


1. A linguagem, para a criança visualmente limitada é ainda mais importante do que para as outras crianças. Depois que a linguagem básica é aprendida, ela poderá vir a substituir a visão, transformando em pensamento, as experiências da criança, desde que as mesmas sejam realmente importantes. À medida que se desenvolve a compreensão da linguagem, desenvolve-se também a habilidade de aprender sozinha através de palavras e de pensar através delas.

Alguns pais são naturalmente mais "faladores" que outros. Os meninos e meninas com incapacidade visual necessitam ouvir conversas; em caso contrário eles ficam tolhidos de participar do mundo ao seu redor. Se os pais e familiares são muito quietos e costumam falar mais por gestos do que ppr palavras devem fazer esforço especial no sentido de falar mais com o objetivo de comunicar-se com a criança que é visualmente limitada. Enquanto a criança ainda é bebê, o assunto da conversação não é importante, porém, dá-lhe segurança, afeto e possibilidade de reconhecer vozes familiares. Mais tarde a própria criança pode conversar, e falar sobre suas experiências.

Nomes de objetos e ações podem ser ditos a criança assim que ela os encontra ou as realiza. Desta forma sua compreensão e vocabulário desenvolvem-se e ela aumentará gradativamente sua capacidade de realizar ações e responder perguntas.

Desde que a criança vê pouco ou não vê, não poderá perceber os sentimentos das pessoas pelas expressões faciais ou atitudes, por isso, comentários em relação a sentimentos, atitudes e expressões faciais são importantes. Desta forma a criança começa a perceber que o mundo envolve coisas que não podem ser tocadas e começa a compreender o que são sentimentos. Inicialmente qualquer palavra "faz" comunicação verbal com a criança, desde que é essencialmente a expressão de afeto que ela ouve. Mais tarde a criança começa a perceber o significado das palavras, e neste ponto é importante que as palavras escolhidas relatem precisamente as experiências e ações. Os jogos têm valor não somente pelo contato físico entre pais e filhos mas também introduzem palavras relacionadas a objetos e ações. Falar sobre como a experiência ocorre é essencial. O mesmo ocorrerá quando se falar sobre um brinquedo (como é, como parece ao tato, seu som, seu cheiro e o que faz). As ações descritas verbalmente enquanto a criança está tomando banho ou quando lava suas mãos, tornam tais experiências muito mais significativas para ela.

Muitas vezes as pessoas tem dúvidas se devem, na presença de seu filho, usar palavras referentes à visão. Palavras como ver e olhar são comuns para a maioria das pessoas e certamente devem ser usadas livremente. À medida que a criança se desenvolve, ela necessitará saber que as pessoas vêem e olham de maneiras diferentes: algumas usando suas mãos e dedos, outras usando seus olhos. As palavras, tais como cego e deficiente visual, devem ser ditas, desde que usadas corretamente, Se a criança possui algum resíduo visual, ela não é cega, mas deficiente visual.

O mundo real das crianças visualmente limitadas é, de inicio, apenas aquilo que seus braços e mãos podem alcançar. A criança vidente "f ala" com o brinquedo que ela vê, embora este possa estar fora do alcance de suas mãos. A criança visualmente limitada pode não estar ciente de que um brinquedo está perto, a menos que esteja ao alcance de suas mãos e que ela possa tocá-lo. Isto é razão suficiente para que se coloque uma certa variedade de brinquedos numa área onde a criança, deficiente visual possa alcançá-los para que se anime a explorar o seu ambiente. Se meninos ou meninas com limitação visual possuem alguma visão, é importante descobrir de que maneira esse resíduo pode ser útil na aprendizagem. Se a criança enxerga cores, deve aprendê-las; se pode enxergar gravuras nos livros, deve ser auxiliada para aprender o que mostram as gravuras (começando das ilustrações mais simples). Se a criança possui um resíduo visual muito pequeno, ou nenhum, livros simples podem ser feitos para estimular seu interesse. Os livros, de início, devem ter somente duas ou três páginas com chapas duras feitas de caixas de papelão. Em cada página deve ser colocado um objeto real, interessante ao tato (algodão, luva, uma forma) - À medida que a criança cresce, esses livros feitos em casa podem ser mais elaborados.

As palavras podem ser utilizadas para ensinar idéias aritméticas, mas a instrução verbal da criança precisa ser acompanhada pela experiência de contar objetos reais. Primeiro pode perceber quantas mãos ou pés possui; depois quantos dedos em cada mão, quantos polegares, etc. Mais tarde poderá contar cadeiras, brinquedos e outros objetos.

Habilidades relacionadas com dinheiro e telefone, podem ser ensinadas quando a criança já possui um bom controle dos dedos, bem como a consciência da sua utilidade. Demonstrações repetidas de seu uso irão acelerar o processo de aprendizagem.


2 - Coordenação motora fina (mão-olho, mão-ouvido-olho):

A Criança:

- pode fechar os punhos, agarra firmemente ao contato;
- deixa cair imediatamente os brinquedos colocados em suas mãos;
- observa somente os objetos no seu foco de visão, segue o objeto até a altura do meio do corpo;
- escuta a campainha, reduzindo sua atividade geral;
- entrelaça as mãos na altura do meio do corpo;
- pode seguir com os olhos um objeto que se movimenta vagarosamente;
- movimenta os braços quando vê um brinquedo dependurado;
- aproxima-se de objetos; arranha e aperta, utilizando ambas as mãos;
- agarra com as palmas das mãos e segura pequenos objetos
- observa os objetos que tem nas mãos; leva-os à boca;
- enquanto sentada, olha da mão para o objeto;
- tenta reaver objetos que caíram;
- utiliza uma das mãos para aproximar-se e agarrar o objeto;
- alcança o objeto que está próximo;
- bate, sacode, brinca com o objeto;
- transfere o brinquedo de uma das mãos para a outra;
- é capaz de soltar bruscamente o objeto;
- gira a cabeça para a direção de um som especial;
- distrai-se sozinha durante uns quinze minutos ou mais;
- demonstra preferência a certos objetos ou materiais;
- segura e toca espontaneamente a campainha;
- deixa voluntariamente cair o objeto;
- usa o dedo indicador e em seguida agarra com o polegar e os outros dedos;
- examina brinquedos e objetos com os olhos e as mãos;
- aprecia colocar e tirar objetos dentro de uma caixa;
- brinca com séries de objetos;
- tenta construir uma torre de dois cubos;
- propositadamente, movimenta brinquedos de um lugar para outro;
- mostra interesse definido em trabalhar com partes móveis de objetos;
- aprecia brincar com superfícies de círculos colocando-as numa prancha de modelar;
- aprecia livros de gravuras;
- brinca com blocos;
- imita coisas simples que vê os outros fazerem;
- coloca bolinhas numa garrafa
- faz torre com dois cubos ou de copos;
- coloca e tira seis cubos de um copo;
- começa a imitar pincelada e a rabiscar espontaneamente;
- no inicio, vira várias páginas do livro de uma só vez, depois, uma por vez;
- arma um brinquedo de três peças;
- constrói torre de três a quatro cubos;
- despeja bolinhas da garrafa;
- trabalha numa tábua com três formas;
- imita o barulho de trem;
- aprecia investigar e brincar com pequenos objetos, tais como pedrinhas; com objetos grandes que podem ser jogados ou nos quais pode-se carregar coisas;
- aprecia brincar com material mole como o barro;
- pode cortar desajeitadamente com uma tesoura;
- imita atividades domésticas como cozinhar, pendurar as roupas;
- brinca com blocos, coloca-os em linha, enche carrinhos com eles;
- constrói torre de seis a sete blocos;
- imita golpes circulares e verticais;
- vai buscar e carrega objetos familiares;
- segura o lápis com os dedos;
- começa a preferir o uso de uma determinada mão;
- pode construir uma ponte com três cubos;
- dá nome a seu próprio desenho;
- copia círculos, tenta fazer uma' cruz, está mais consciente das semelhanças e diferenças;
- começa a combinar algumas cores;
- explora objetos de várias texturas;
- explora objetos seguindo um plano;
- empurra trens, carros, imitando atividades reais;
- recorta com tesoura;
- às vezes, tenta desenhar figuras simples;
- faz casas para bonecas;
- modela formas simples com barro;
- faz dois degraus com cubos;
- desenha um homem com duas partes;
- pode traçar uma linha mais longa;
- copia uma cruz;
- conta três objetos, apontando-os corretamente;
- constrói um portão com cinco cubos;
- tenta fazer formas e lhes dar uma aparência;
- constrói casa com blocos;
- utiliza lápis e crayon, livremente, faz desenhos simples, em geral reconhecíveis;
- aprecia recortar com tesoura;
- constrói degraus com cubos;
- desenha um homem reconhecível;
- pode colocar um círculo e pintá-lo dentro de seu contorno;
- copia um triângulo;
- conta dez objetos corretamente;
- pode aprender jogos simples;
- desenvolve interesses diferentes nos jogos (menino, menina);
- gosta de criar e fazer coisas usando as mãos;
- começa a usar ferramentas simples com algum auxilio;
- constrói três degraus com os cubos;
- desenha um homem com pescoço, mãos, roupas;
- copia o número 1;


2 - Se a criança é cega, mão e olho não trabalham juntos. Ao contrário, ouvido e mão precisam aprender a funcionar em equipe.

Essa coordenação pode ser alcançada, mas só através de muita experiência e, numa época posterior do desenvolvimento infantil.

O resíduo visual de uma criança deve ser utilizado ao máximo, e pode ser suficiente para permitir-lhe desenvolver a coordenação mão-olho em certas situações e a certas distâncias. De grande importância para a aprendizagem da criança é o seu relacionamento com o adulto, a quantidade de tempo e os interesses que compartilham. A criança incapacitada visualmente mais do que as outras, necessita de auxilio consciente durante os primeiros períodos de desenvolvimento. Necessita ser estimulada a observar especialmente através de sons, sensações táteis, odores e movimento. Deve aprender a ter curiosidade pelo mundo que a rodeia. Os brinquedos devem ser colocados no seu berço, numa mesa de brinquedo onde ela possa sentar-se com vários objetos interessantes; no quadrado onde ela possa brincar, todos servem a esse objetivo. De início, mantém e sacode um chocalho e está ciente da relação entre o movimento de sacudir e o som resultante. Aí começa a desenvolver-se a coordenação mão-olho. Quanto mais essa coordenação for desenvolvida, mais a criança estará apta a progredir, do manuseio de brinquedos simples para o uso completo de brinquedos, e, desse ponto, para operações mais complexas, tais como o uso adequado das mãos para comer, uso de instrumentos musicais simples, etc.

Já foi dito que as crianças com limitação visual necessitam auxilio definido ' para aprender a controlar a posição de sua cabeça, levar as mãos em conjunto à cintura, apertar as mãos e mexer com os dedos das duas mãos em conjunto.

Há algumas técnicas úteis para ensinar a criança nessa aprendizagem. Por exemplo, a cabeça dirigida na direção de um som distante, capacita a criança a focalizar melhor a atenção; as mãos da criança sobre a mamadeira, acompanhada de explicações auxiliam-na a incorporar essa atividade em seu repertório. A criança que aprende a procurar objetos que caíram e é encorajada a brincar "jogos de colo" com o adulto que a carrega, tem várias oportunidades para aprender.

As pessoas que possuem muita prática nesse campo dizem que as crianças visualmente incapacitadas, na mesma medida que as crianças videntes, irão usar a boca para explorar objetos, caso tenham tido experiência suficiente através da sensação e do tato. O uso da boca é um bom início para as crianças aprenderem certas características do que está sendo explorado. Ao crescerem, outras características vão influenciar o interesse nos objetos, tais como, a sensação, a maneira como afeta seus músculos, o som e cheiro e também a ação a ser realizada com ele. Quando as crianças têm seus interesses despertados por meios não visuais, devem ser firmemente encorajadas a conhecer o seu ambiente através de sua exploração concreta. À medida que a criança vai experimentando os objetos, o seu conhecimento deles amplia e ela irá mostrar preferência por alguns deles e por determinados brinquedos. Certas coisas dar-lhe-ão uma sensação melhor ou mais interessante; outras poderão fazer barulho; ou cheirar, ou permitir ações que tenham uma atração especial. Isto não significa que não se deva apresentar à criança novos objetos, nem que se deixe de ajudá-la a descobrir novas maneiras de utilizar objetos velhos. A mistura de velhos e novos será a melhor maneira de ensiná-la.Os objetos reais precisam ser bem significativos para a criança visualmente incapacitada durante um certo tempo, até que o mesmo objeto, em réplica ou miniatura, possa ter para ela, o mesmo significado. Por exemplo, um menino ou uma menina terão que possuir várias experiências com um carro real, antes que o pequeno objeto em suas mãos possa ser, significativamente, chamado de carro.

Este ponto aplica-se a certos tipos de atividades envolvendo construção. A criança visualmente limitada irá necessitar de várias experiências com uma bola ou um bloco ou um carro antes que possa brincar com barro e dar forma a uma bola ou a um carro, captando seus traços principais. Ela pode apreciar formas (começando com circulo e quadrado), através da observação do tipo de material com os quais são feitos, do seu odor, do som que fazem quando caem ao chão, se podem ser rolados, etc. Mais tarde, começam a surgir idéias de redondo e quadrado. Em seguida vem a habilidade de encaixar formas numa prancha.

Mais tarde, a criança desenvolve uma compreensão crescente de que existem outras coisas que, também, são redondas e quadradas. Os blocos não podem ser utilizados para construir uma casa, uma cidade, uma rua, mas podem ser muito apreciados pelo movimento que permitem, pela sensação tátil, pelo som que fazem quando batidos um no outro ou quando caem e, finalmente, para serem contados e carregados. Todas as crianças ouvem falar de giz, lápis e tintas de pintura e devem experimentá-los. Esses materiais podem ser agradáveis e. interessantes à criança, se a ênfase for colocada no conhecimento desses materiais através do uso dos músculos envolvidos no seu manuseio, na sua sensação tátil e seus odores associados. Quando a tinta seca, poderá ser sentida. Os traços com "crayon" podem dar, no papel, sensações diferentes. Sobre o papel ondulado, "moldes" (círculos, quadrados, corações) podem ser pregados, depois coloridos e recortados em volta.

Quando retirados os moldes, os traços de crayon são interessantes para os dedos e se a forma era bastante simples, pode até ser reconhecido pelos dedos.

Crianças videntes, depois de alguma prática, podem perceber visualmente, as diferenças e semelhanças das coisas. Elas começam a agrupar coisas e pessoas, de várias mineiras. Aprendem porque se usa uma meia, e que ela pode ser de vários tamanhos e formatos; que é feita de materiais diferentes, que é uma peça de roupa, etc. Aprendem sobre as diversas formas: tamanho, cor, aparência; aprendem que os objetos aparecem às vezes só, e, às vezes, fazem parte de muitos outros objetos; que eles podem servir a vários propósitos. A criança visualmente limitada aprende, também, tudo isso. No entanto, ela irá depender do tato, do olfato, da audição e dos movimentos, para perceber corno as coisas se apresentam, as suas diferenças, semelhanças, para o que servem e como devem ser memorizadas para referências futuras.

A criança vidente depois de ver e brincar com um circulo, por exemplo, e após usar bem seus braços e dedos para manejar um lápis de cor, poderá fazer um bom desenho de círculos ou colocará bem uma figura no papel. Sua coordenação mão-olho melhora através do uso; este é somente um exemplo. A coordenação mão-olho é de especial importância devido ao seu relacionamento com a escrita e leitura futuras. O menino ou menina que não vê precisa ser auxiliado a desenvolver a coordenação mão-ouvido, como também o uso de mãos e dedos. Para isto é necessário um interesse muito ativo por parte dos adultos que lidam com a criança. É necessário mostrar à criança como usar suas mãos e dedos para trabalharem corretamente. Ela necessita também de auxilio para relacionar os sons às suas causas. Somente através de muita prática e esforço pode uma criança deficiente visual alcançar o grau de habilidade comparável àquele da criança vidente. Ela poderá, no entanto, alcançá-lo se não tiver outros problemas principais de aprendizagem e se for devidamente auxiliada.

Se a visão de uma criança é utilizável, porém não boa, o uso coordenado dos olhos e mãos ou ouvidos e mãos, ou todos os três, terá que ser exercitado por ela e pelo adulto que a educa. Em certas atividades e com certos objetos sua visão pode ser útil. Em outras situações, talvez não.


CRESCIMENTO E DESENVOLVIMENTO EMOCIONAL

À medida que a criança cresce e se desenvolve física, pessoal, social e intelectualmente, também cresce no aspecto emocional, O seu reconhecimento do ambiente, das pessoas e coisas existentes nele, assim como a reação do ambiente à sua pessoa, irão determinar, em grande extensão, como ela irá funcionar como pessoa. Em relação às outras áreas de desenvolvimento, os primeiros anos são cruciais para a vida emocional da criança.

Um ponto vital a ser considerado é que a criança afeta e influencia os pais e adultos, da mesma maneira como eles a afetam e influenciam. Quando os pais ficam sabendo que seu filho é visualmente limitado sofrem um grande choque. Os primeiros pensamentos, provavelmente, serão os de que ele será uma criança "imperfeita", que não poderá aprender, que será eternamente dependente e que irá perder muitas das belezas e alegrias da vida. Eles podem sentir tanto a falta de contato visual, que os outros contatos normais de prazer com a criança, ficam prejudicados. Os pais e outros adultos que possuem tais sentimentos precisam ser auxiliados a perceber (através de suas próprias experiências, da literatura sobre o assunto, de consulta profissional, etc.) que a sua criança é uma pessoa com habilidades que podem e devem ser desenvolvidas, e com capacidade para sentir e pensar. O adulto também deve auxiliar a criança e a si mesmo, a fim de obter um inter-relacionamento adequado, através do qual o desenvolvimento pessoal e emocional da criança é apoiado e aumentado.

Uma das primeiras necessidades das crianças é a sensação de segurança nas suas famílias e entre os objetos do seu ambiente. Essa sensação aparece na medida em que as crianças reagem, ao sentirem-se amadas, amparadas e encorajadas. Elas precisam de uma disciplina firme que lhes permita realizar o que estejam aptas a fazer, que lhes dê orientação e normas de vida. Elas reagem melhor quando se lhes mostra e explica o que devem fazer, em vez de o que não devem fazer. As crianças também necessitam de auxílio para se tornarem cada vez mais capazes de realizar as coisas por si mesmas e pelos outros. É necessário que a criança visualmente limitada, aprenda que existem certas ocasiões nas quais ela sempre precisará de auxilio (do ponto de vista de segurança, da melhor utilização do tempo e de senso comum). Isto é, simplesmente, um enfoque realista da vida. As crianças precisam aprender a ser independentes ao máximo de suas capacidades, mas não além dos limites do bom senso. Não é agradável sentir-se inadequado e incapaz de realizar as coisas, mas nem a criança, nem o adulto, devem dar muito valor a desafios e desprezar cuidados justificados. Naturalmente não devemos igualar "desafios desnecessários" com o evitar frustrações. Aqueles que estudam os problemas da aprendizagem acreditam que um "suficiente" número de frustrações leva as crianças a desejarem experimentar o que é novo, diferente, e mais complicado. As crianças necessitam de liberdade para errar e necessitam de orientação para aprender através desses erros. É imperativo que todas as suas frustrações, sejam colocadas dentro de metas razoáveis e que as crianças sintam-se apoiadas, compreendidas e guiadas, inteligentemente, por aquelas pessoas que têm mais significado para elas. Quando a criança encontra apoio e compreensão, pode tolerar frustração sem sentir medo, e estará predisposta para outras aventuras de aprendizado.

Um ponto a mais precisa ser enfatizado. Em geral as crianças agem da maneira como aqueles que estão à sua volta esperam que elas o façam. Naturalmente, isto não significa que a criança que não vê possa enxergar, ou que a criança com urna só perna possa andar como se tivesse duas, só porque alguém assim o deseja ou espera. Significa, porém, que, se os adultos aprendem tudo a respeito de uma determinada criança e pensam em várias maneiras de ensiná-la, esta criança progredirá mais do que se sua incapacidade visual fosse usada como uma barreira arbitrária ao desenvolvimento e à aprendizagem.

Repetindo, a criança aprende a seu respeito do mesmo modo que os adultos pensam a respeito dela.


SEQÜÊNCIA GERAL PELAS QUAIS AS CRIANÇAS SE DESENVOLVEM EMOCIONALMENTE

COMENTÁRIOS ESPECÍFICOS EM RELAÇÃO À CRIANÇA VISUALMENTE LIMITADA

Observe que as seqüências seguintes são colocadas de modo diferente das anteriores. Acredita-se que as crianças se desenvolvem mais ou menos na ordem aqui apresentada.

1-2. O total egocentrismo que existe na época do nascimento expande-se lentamente até o reconhecimento do ambiente e das outras pessoas. É essencial que a criança sinta confiança no seu mundo durante os primeiros anos de vida. Isto deve começar através de suas relações com a mãe ou com outro adulto que cuide dela. Com este apoio, ambos podem solucionar as frustrações que a criança tem que experimentar a fim de crescer e aprender. Os cuidados da mãe para com a criança irão depender em grande escala, do apoio que ela recebe das outras pessoas da família, especialmente do pai.

A Criança:

- deseja e necessita conforto físico;
- necessita um comportamento seguro por parte da pessoa que cuida dela;
- grita de fome;
- reage assustada;
- chora, muitas vezes sem lágrimas;
- chora diferentemente por diversas causas (fome, antes de dormir, medo), vocaliza a alegria, sorri, ri em voz alta, mostra reconhecer rostos familiares;
- reage a expressões faciais;
- diminui o choro, porém freqüentemente ainda chora quando a pessoa encarregada de seus cuidados deixa o quarto
- chora facilmente, à menor provocação (mudança de posição, retirada de um brinquedo, som desconhecido)
- brinca sozinha, contente
- agita os braços e as pernas quando frustrada;
- imita expressões faciais e gestos;
- demonstra medo ou acanhamento para com estranhos e carinho cada vez maior para com a família;
- demonstra mudança emocional, trocando rapidamente do choro para a risada;
- procura atrair a atenção através de barulho, choramingo, etc.;
- começa a variar o seu comportamento de acordo com as reações emocionais de outras pessoas;
- aprecia brincadeiras e jogos simples;
- chora mais freqüentemente quando irritada ou com pequenas frustrações, endurece na resistência; pode apresentar “crises temperamentais se as coisas vão mal”;
- é consciente das outras crianças, interessadas nela, mas não brinca com elas;
- começa a reclamar certas coisas como de sua propriedade


1 - O bebê pode e precisa sentir e "ouvir" o amor dos outros por ela, mesmo que possa enxergar um pouco. Os seus sentimentos existem e. são reais, mesmo que esteja faltando a sua capacidade de enxergar. À medida que os membros de sua família, ou outros que estejam perto dele, tornam-se sensíveis às suas reações, a interação se tornará mais significativa.

2 - Se o bebê for prematuro e tiver que permanecer algum tempo num hospital em uma incubadora, sem ser quase segurado no colo, ou tocado, ele deverá ser ensinado a apreciar carinhos e principalmente a sentir-se "segurado" no colo. De início, poderá demonstrar um desprazer real, mas é essencial que aprenda desde cedo, a alegria de um relacionamento agradável, de modo que possa desenvolver a primeira compreensão de "eu-você" e "eu-objetos ao meu redor".

3-6. À medida que se desenvolve social, física e emocionalmente, a criança aprende que seu comportamento é só seu. Torna-se cada vez mais apta a exercer controles. Aumenta seu desejo de explorar o seu mundo, de aprender a realizar e conseguir, de solicitar e prestar auxílios de vários tipos. Começa a perceber que seu autocontrole pode ser desenvolvido sem perda da auto-estima e começa a compreender que a incapacidade em uma área, não a torna deficiente em todas as outras áreas. Neste período, muito mais do que em outros, ela necessita de uma disciplina firme, que previna situações que estão além de suas forças e a proteja. Precisa ir gradualmente, obtendo sua individualidade, orientada firmemente pelos pais no sentido de escolhas, decisões e tarefas para as quais ainda não esteja apta a resolver.

A Criança:

- demonstra um crescente equilíbrio emocional;
- decresce o número de reações emocionais violentas;
- usa simbolicamente o tom de voz;
- fica orgulhosa quando consegue realizar habilidades motoras;
- pode mostrar timidez em ações e expressões faciais;
- apresenta medos, principalmente auditivos.

3 - À medida que as crianças visualmente limitadas se desenvolvem, são mais vulneráveis a certos “perigos comuns” e possibilidades de danos (físicos e psicológicos). Estes terão que lhes ser apontados com mais cuidado do que os seriam para crianças normais. O que pode ou não pode ser feito, até onde a criança pode ou não pode ir, deve ser mostrado com palavras e ações que tenham sentido para a criança. Por exemplo, a criança' pode aprender que ela não deve jogar bola dentro de casa, mas pode rolá-la. Poderá aprender que, quando um forno estiver quente, não é para ser tocado, porém localizado cuidadosamente. A criança pode aprender a perceber mudanças de temperatura, odores e sons produzidos ao se cozinhar. Quando se brinca na rua, deve aprender onde acaba o quintal e onde começa a rua. O fato de não correr na casa, abrindo e fechando todas as portas para evitar contusões desnecessárias, são medidas de segurança que ela pode aprender.

- pode ter medo, quando os pais saem;
- brinca perto de outras crianças, mas não ainda cooperativamente;
- procura o elogio dos adultos;
- começa a apreciar o brinquedo em grupo e cooperativo;
- torna-se mais independente e menos chorosa do que anteriormente;
- apresenta atitude ritualista em muitas atividades (ao vestir-se, arrumar os brinquedos, ir para a cama);
- torna-se mais amiga e deseja agradar, mas pode ter ciúmes dos irmãos;
- ri enquanto brinca com bom humor, em relação a atividades musculares e jogo verbal;
- apresenta um crescente controle emocional;
- apresenta menor número de "medos" do que anteriormente e agora, esses medos são, em especial, visuais (em relação ao grotesco, ao escuro, e a animais);
- aprecia receber responsabilidades caseiras;
- torna-se consciente de perigos comuns e como evitá-los, reage a eles.

4 - Os sentimentos da criança sobre si própria, são baseados na avaliação do que ela sente que pode fazer, no que ouve de outras pessoas sobre o que ela pode executar. Mais essencial para a criança cega do que para as outras crianças, é aprender a cuidar de suas necessidade corporais e compartilhar das responsabilidades caseiras. Uma vez que ela e seus pais, e depois outras pessoas da família e vizinhança, começam a ver o que ela aprende através de um ensino paciente e cuidadoso, maior número de atividades podem ser "descobertas" e incorporadas no seu aprendizado.

5 - Mais do que outras crianças, a criança deficiente visual, irá necessitar de lugares que sejam dela mesma: um lugar para seus casacos, um lugar para guardar outras roupas, um lugar para os brinquedos, o lugar de sua cama, etc. Isto é particularmente importante para ela, a fim de que possa encontrar as coisas por si, ter a responsabilidade de guardá-las, e iniciar a ter um senso de ordem e do que pode esperar de seu ambiente. A criança também desenvolve esse senso de ordem, do que esperar, através das ações e atitudes dos adultos em relação a ela e dos regulamentos que esperam que ela siga.

6 - O amor e o respeito de um pelo outro, que dão a qualquer membro de uma família, força e apoio, fazem o mesmo à criança deficiente visual. A disciplina que lhe dá limites pelos quais viver, permite-lhe ainda a liberdade que ela está apta a manejar. Esse tipo de disciplina é importante para qualquer um da família. A criança deficiente visual irá desenvolver-se como uma pessoa integral, através desse amor, respeito e disciplina, acrescidos da compreensão daquelas coisas, da vida que mais têm significado para ela.

7-9 - À medida que a criança se torna mais segura de si mesma e apta a acreditar em si e nos outros à sua volta, o seu ambiente também progride de várias maneiras. Para citar apenas alguns exemplos seus contatos e compreensão do ambiente crescem através da linguagem, mobilidade, interação com crianças e adultos, habilidades perceptivas, jogos e responsabilidades assumidas na estrutura familiar. A criança progride em seu controle emocional e começa a desenvolver sua própria consciência, que lentamente, mas de maneira firme, vai suplantando a dos adultos que controlaram e orientaram o seu comportamento.

A Criança:

- brinca em nível de cooperação com as outras crianças;
- argumenta bastante, mas geralmente como parte do jogo e num desejo de experimentar o uso de novas palavras 'e novas ações
- pode ser egoísta, impaciente;
- fica orgulhosa de seus sucessos;
- tem um humor algo barulhento e exagerado;
- gosta de aparecer e ostentar;
- é tagarela;
- é agressiva tanto física como verbalmente;
- pode ser rude e tratar os brinquedos descuidadamente;
- ainda tem medo (como antes), mas se diverte quando fica ligeiramente "assustada" em jogos com adultos;
- possui sentimentos firmes sobre o "eu", o "meu”, sobre o lar e a família
- começa a distinguir-se dos outros e a encarar outras pessoas como seres;
- demonstra uma autocrítica rápida e superficial;
- demonstra percepções mais adequadas da realidade;
- demonstra que seu mundo está se ampliando e que seus sentidos estão funcionando melhor; está mais móvel, mais sociável e com crescente independência; utiliza-se cada vez mais da linguagem;
- desenvolve cada vez mais a própria consciência, em vez de depender só da regra de conduta dos pais;
- está se tornando ciente das diferenças entre os sexos;
- mostra maior interesse nos amiguinhos e no brinquedo em grupo;
- procura e encontra seus próprios amigos;
- sente-se cada vez mais responsável por si e por crianças menores (apesar de sentir-se, algumas vezes, insegura, por seus desejos de independência-dependência);
- está ansiosa para fazer as coisas sozinha;
- pode reagir negativa-mente; quando pressionada, pode resmungar ou ser rude;
- pode usar palavrões ou gíria;
- é mais sensível às outras pessoas, em especial, às reações dos pais.7. Como já foi mencionado, o conhecimento da criança com limitação visual sobre as outras crianças e seu contato com elas precisa ser encorajado, principalmente, quando se trata de filho único. O desejo de conhecer outras pessoas, de estar com outras pessoas, de brincar, depende em larga escala da observação das atividades pessoais e sociais dos outros. A criança visualmente limitada tem que, primeiro, aprender a perceber a presença da outra pessoa. Colocá-la em contato com outras crianças, para que ela "as toque" e contar-lhe sobre as outras crianças, é um bom início. Deve-se ensiná-la a estender a mão e a dirigir a cabeça na direção de onde vem a voz. Um apertar de mãos pode dar à criança uma "sensação" sobre a outra pessoa.

Seja criança ou adulto, este é um bom início de conhecimento. Virar a cabeça na direção da pessoa que está falando dá a criança possibilidade de ouvir melhor e demonstra uma reação social de atenção.

8 - Quando a criança incapacitada visual já estiver na idade adequada para compreender que as pessoas "vêem" de maneiras diferentes, sua situação visual, poder-lhe-á ser explicada para satisfazer sua necessidade atual. A história sobre a criança que perguntou ao pai de onde ela veio pode servir de exemplo. O pai, em seu pensamento clássico começou a explicar à criança os fatos da vida entrando em muitos detalhes sobre o assunto. Depois de longos minutos acabou a "lição". A criança soltou um grande suspiro e comentou que ela só queria saber onde ela tinha nascido. Isso bem pode ser a situação da criança visual-mente limitada quando surge a questão do “ver”. Aqueles que estão com ela e a conhecem melhor devem basear suas respostas no nível de compreensão da criança, no momento.

9 - Já foi dito que os pais devem formar uma equipe bem integrada, quando um membro da família possui uma limitação. O trabalho em equipe é essencial em qualquer grupo e deveria incluir, também, as crianças. Há muito mais o que pensar e coordenar quando um desafio especial, tal como uma limitação visual, aparece no seio de uma família. Dúvidas, atos desconhecidos, frustrações e tristezas podem ser solucionadas com tempo e esforço. No entanto, para que isso seja possível, é necessário que toda a família esteja envolvida, e de uma maneira construtiva.


CAPÍTULO IV
A CRIANÇA VISUALMENTE INCAPACITADA: PRONTIDÃO ESCOLAR

O momento exato na vida da criança, no qual ela é considerada "pronta" para a escola é, geralmente antecipado com prazer. Se os adultos, ao redor da criança demonstram pensamentos positivos sobre seus dias escolares, é provável que a criança queira iniciar logo as aulas. O sucesso escolar da criança e de sua vida ao redor da escola, vai depender de uma série de fatores independente da idade em que ela começa a freqüentar a escola e do tipo de programa no qual esteja matriculada. Toda criança precisará de certas atitudes, maneiras de trabalhar, capacidades e habilidades. Entre estas:

* saber usar bem os grandes músculos;
* escutar atentamente;
* seguir instruções e ordens, entender palavras que designam localização e direção;
* movimentar-se por si mesma;
* trabalhar da esquerda para a direita;
* dizer o que é semelhante e diferente, no que diz respeito a sons, formatos e texturas;
* usar significativamente as palavras;
* cuidar de si mesma;
* usar bem a musculatura fina;

Também são muito importantes as características emocionais e sociais. Entre estas estão:

* sentir-se bem consigo mesma;
* gostar das coisas que está fazendo;
* trabalhar com outras pessoas;
* trabalhar para os outros;
* trabalhar só;
* agüentar uma tarefa por períodos de tempo cada vez maiores;
* tentar coisas novas com boa vontade

As crianças que conseguiram atingir essas atitudes, capacidades e habilidades mencionadas acima, estão bem encaminhadas para um bom e completo envolvimento na vida escolar.


PRONTIDÃO PARA A LEITURA

Tendo em vista que vivemos numa sociedade altamente centrada na leitura, a menção do fator prontidão escolar traz preocupações profundas sobre o aprendizado da leitura pela criança visualmente limitada. Dependendo do grau de visão, a criança aprenderá a ler pelo sistema Braille (o que significa que usará seu tato para ler pequenos pontos em relevo) ou lerá através da letra impressa em tinta. A habilidade de usar eficientemente os dedos para a leitura em sistema Braille pode ser desenvolvida com a prática. De início isso implica em fazer as coisas com todo o corpo, depois com os braços, as mãos e os músculos grossos e finalmente, utilizar os músculos finos que fortalecem os dedos, tornando-os mais flexíveis e sensíveis.

A criança que possui visão suficiente para ver letras impressas em tipos ampliados, precisa também de atividades físicas para tornar-se "pronta para ler". Necessita desenvolver um grau satisfatório de coordenação mão-olho.

Algumas crianças podem na verdade, nunca aprender a ler. Isso é especialmente verídico nos casos de crianças que possuem outros problemas, além dos problemas da visão. No entanto, existem poucas crianças com problemas tão graves que não possam aprender nada. Fora os assuntos acadêmicos, outros aprendizados incluem: atividades de lazer, passatempos, exercícios, cuidar de si, habilidades caseiras, atitudes positivas sobre si mesma e em relação aos outros. O desafio específico está em se encontrar o melhor caminho pelo qual essas crianças possam progredir. Elas poderão ser auxiliadas a realizar muito mais do que o tradicionalmente aceito, se, de início, forem identificadas e se utilizarmos todas as suas áreas de possíveis progressos. Para essas crianças, muitas das habilidades e capacidades necessárias para a leitura podem e devem ser desenvolvidas, mesmo que uma leitura efetiva nunca possa ser obtida. Todos os aspectos considerados necessários para a leitura, em geral, são favoráveis para auxiliar a criança a viver uma vida feliz e saudável.


PROGRAMAS DE ENSINO

Geralmente é aceito, o principio de que toda criança visualmente limitada pode aprender alguma coisa; portanto, o programa educacional deve ser planejado para cada criança. Houve uma época, não muito remota, quando a maioria das crianças com limitações (particularmente da audição, visão, emocionais, intelectuais e aquelas pertinentes à paralisia cerebral), ou não possuíam escolas para freqüentar, ou automaticamente eram matriculadas em escolas residenciais. Atualmente, em todos os Estados, já existem várias possibilidades de escolha, no sentido de recursos educacionais, para a maioria das crianças com necessidades especiais. No entanto, apenas iniciamos a enfrentar o desafio de prover suficientes e variados programas que realmente sirvam às necessidades locais e regionais de todas as nossas crianças. Freqüentemente os auxílios são oferecidos tarde demais. Os programas mais eficientes promovem serviços consultivos aos pais, desde o momento em que se descobre que a criança possui uma limitação.

Em relação à escola maternal e jardim da infância, a criança que é incapacitada visualmente pode, em geral, participar dos programas comuns existentes, desde que algumas orientações especiais sejam proporcionadas. Uma professora bem preparada e conhecedora do desenvolvimento infantil e da aprendizagem é requisito especial para todas as crianças. Para crianças com mais idade, muitos Estados oferecem classes dentro da estrutura escolar, que proporcionam programas especiais para as crianças que deles necessitam. Algumas escolas oferecem auxílio especial para crianças com limitações, matriculando-as em classes "regulares" desde que sua escolaridade, conhecimento e desenvolvimento assim o permitam. As escolas residenciais ainda atendem crianças em vários estados através de seus serviços especializados. No entanto, o papel dessas escolas está sofrendo mudanças, à medida que aumenta a preocupação da educação de crianças que possuem múltiplas deficiências. Existem, também, outros programas; seus tipos, sua qualidade e seus objetivos variam de Estado para Estado. A fim de se obter dados sobre os recursos educacionais para uma determinada criança, deve-se iniciar os contatos com os recursos existentes desde a fase em que a criança ainda é bebê.

A criança que está "pronta" para a escola, já ultrapassou certas etapas de desenvolvimento e de aprendizagem. Quando a criança ainda não atingiu o "esperado", ao alcançar a idade escolar, há certos fatos que podem ocorrer. Primeiro, a escola em questão pode solicitar que os pais mantenham a criança no lar, orientando para que lhe sejam dadas maiores oportunidades de experiência e aprendizagem. Nesse caso, a orientação precisa ser dada aos pais, a fim de que eles possam proceder acertadamente. Em geral, a educação no lar é mais adequada quando a criança tem muito que aprender em cada área. Segundo, a escola pode admitir a criança, e anotar cuidadosamente em que nível ela se encontra dentro de cada área de seu desenvolvimento e, a partir daí, planejar seu programa para que receba atenção especial para o seu amadurecimento naquelas mais deficientes. Em qualquer dos casos, o seguimento das mesmas etapas de desenvolvimento é de grande importância.

Os "programas escolares" assim como os "programas no lar" precisam compartilhar da responsabilidade e da oportunidade de educar a criança como um todo, desde o inicio de sua infância, a fim de obter melhores resultados. O conhecimento atual mostra que os anos mais propícios para o início da aprendizagem são aqueles que vão até a idade de seis anos. A recente legislação federal nos EE.UU. (Public Law 90-538, "Handicapped Children's Early Education Assistance Act") apoia esse ponto de vista. Os fundos do "Office of Education" estão sendo colocados à disposição da televisão para se atender a educação de pré-escolares através desse meio de comunicação. Os estados estão começando a se preocupar com a educação de crianças a partir dos três anos de idade . O Estado de Illinois, por exemplo, possui legislação que dá obrigatoriedade aos programas educacionais entre as idades de três a vinte e um anos para os portadores de limitações visuais, auditivas, físicas ou múltiplas.

Assim como os pais, os educadores precisam também observar e aprender com as crianças e estarem cientes de suas individualidades. Quando uma criança entra na escola, o programa deve permitir à professora conhecê-la globalmente, como um indivíduo, determinando como e em que níveis ela reage. As seqüências de crescimento e desenvolvimento, e o conhecimento geral da maneira de aprender da criança fornecem as diretrizes para que as professoras escolham objetivos específicos para cada criança, bem como atividades e materiais que permitam alcançar esses objetivos. As necessidades das crianças variam. Uma criança pode necessitar auxilio para aprender a locomover-se. Outra pode estar extremamente limitada no uso e significado da palavra. Uma terceira pode não saber alimentar-se adequadamente. Uma quarta criança pode fazer uso deficiente das mãos e apresentar problemas no ajustamento emocional. Uma quinta pode ter uma combinação de todas essas necessidades.

Auxiliar cada criança a viver mais completamente e a atingir de maneira progressiva, os objetivos estabelecidos pela escola e pela sociedade, é uma exigência dos primeiros anos escolares. Isto torna necessário um currículo de conteúdo altamente individualizado, que cubra amplamente todas as áreas de desenvolvimento consideradas importantes. O uso de "materiais educacionais" apropriados, tanto quanto possível às necessidades de desenvolvimento da criança, é o mais indicado. Até o início da leitura, em muitos casos a mesma espécie e qualidade de material é adequada para uso, tanto no lar como na escola.


CAPÍTULO V
A CRIANÇA COM MÚLTIPLAS DEFICIÉNCIAS: PROBLEMAS ADICIONAIS DE PRONTIDÃO

As crianças que nascem com uma incapacidade, freqüentemente possuem outras adicionais. As estatísticas revelam que isso acontece, no mínimo, a um terço dos casos daquelas que nascem com uma limitação grave. Está se tornando menos comum, encontrar crianças que sejam somente, visualmente limitadas. Por exemplo, crianças cujas mães tiveram rubéola durante a gravidez podem sofrer perda auditiva ou cardíaca, juntamente com os problemas visuais.

As crianças com múltiplas deficiências são mais difíceis de serem descritas e categorizadas. Suas potencialidades e deficiências são altamente individualizadas, embora o termo "múltiplas deficiências" não seja adequado para defini-las. São essenciais as avaliações periódicas de cada criança, feita por pessoal profissional, assim como os programas seqüenciais de aprendizagem. Os centros de avaliação infantil e os programas de atendimento direto, vagarosamente estão se desenvolvendo, embora ainda não correspondam às necessidades sempre crescentes. Uma literatura que começa a se expandir, demonstra certa compreensão e preocupação que aumentam dia a dia.

Os primeiros anos de vida, que são tão importantes para todas as crianças, são cruciais para aquelas que possuem múltiplas deficiências. A estas, é preciso proporcionar o melhor estudo diagnóstico e orientação, pois, desde o momento em que são identificadas, precisam ser estimuladas, encorajadas e ensinadas até que seja obtida uma ajuda profissional. A pessoa que trabalha com essas crianças deve compreendê-las, conhecer como elas aprendem, o que elas desejam fazer, quais são as suas necessidades; somente assim, poderão encorajar o seu desenvolvimento. Uma jovem mãe com muito pouca formação acadêmica, estava obtendo grande sucesso em educar seu filho de quatro anos, que possuía múltipla deficiência. Para alguns, seu sucesso era mesmo impressionante. Na realidade, isto era o resultado de sua intuição. O enfoque no seu filho revelava compreensão, o que era essencial para um bom ensino. Ela simplesmente reconhecia que, com seus múltiplos problemas, seu filho, certamente, funcionaria como um retardado. Ela também reconhecia que ele podia aprender, se auxiliado para isso, através de etapas seqüenciais logicamente simples. Afirmou que encarava seu filho em termos de áreas principais de aprendizagem (isto é, cuidar-se de si, mobilidade, uso das mãos). Primeiro refletia sobre o que ele estava conseguindo obter, depois pensava no que ele poderia fazer em seguida, com seu auxílio. O resultado era que seu filho estava progredindo de uma maneira, que poucos haviam sonhado ser possível.

Muitas crianças com múltiplas deficiências passam muito tempo inútil, durante seus primeiros anos, em hospitais. Para qualquer criança, isso pode significar horas de solidão e pouco o que fazer, mesmo com adultos bem intencionados. A hospitalização pode significar que a criança ficará mais isolada porque seus meios sensoriais não estão sendo estimulados e sua fala ficará limitada. Para essa criança, o fato de não ser estimulada por longos períodos de tempo, longe do ambiente familiar, com pouca ou nenhuma compreensão do "porque", causa um prejuízo real a um ser já prejudicado. As estadas em hospitais deveriam ser consideradas, somente quando absolutamente necessárias, e, assim mesmo deveriam ser planejadas previamente e tornadas tão interessantes e agradáveis quanto possível. Novas situações, pessoas não familiares e a relativa negligência em arrumar coisas para fazer, podem ter efeito cumulativo, traumático, sobre as crianças com múltiplas deficiências.

Outro problema ao qual essas crianças são altamente susceptíveis, é o da medicação, que mesmo apropriada quando originalmente prescrita, tornou-se excessiva ou muito prolongada. Por exemplo, o "enfoque de medicamentos" é menos necessário quando são oferecidos programas orientados educacionalmente (que objetivam "toda" a criança) e que atingem as crianças em seus vários níveis de funcionamento. As crianças que são colocadas sob medicação, por uma razão ou outra precisam ser reexaminadas regularmente para determinar se suas prescrições são as mais desejáveis e eficientes. Um conhecimento crescente de medicações, drogas e tratamentos relacionados, levam a um contínuo refinamento e uso seletivo.

É encorajador notar que para crianças com graves deficiências auditivas e visuais (em geral, chamadas "cegas-surdas"), um esforço maciço no diagnóstico e educação está sendo desenvolvido. Uma rede de centros regionais (sistemas adequados de serviços) para esse fim, está sendo instalada pelo país, com fundos e interesses federais. Informação pertinente pode ser obtida de fontes locais, departamentos estaduais de educação e o United States 0ffice of Education (Bureau for the Education of the Handicapped). O esforço central contínuo precisa ser o de identificar precocemente, avaliar cuidadosamente e orientar eficientemente a todas as crianças com qualquer tipo de necessidade especial.


CAPÍTULO VI
MATERIAIS EDUCACIONAIS: FONTES

Embora muito do que se segue já tenha sido mencionado, é conveniente considerar nesse contexto particular, alguns pontos em relação a materiais educacionais. Tais materiais serão encontrados em muitos lares, sob a forma de objetos caseiros. Entre aqueles que conduzem à aprendizagem, temos os potes, panelas e outros utensílios de cozinha, lençóis velhos e cobertores, pedaços de madeira, martelos e pregos grandes, e coisas que se encontram no quintal, como areia e lama. Esses materiais do ambiente são, em grande parte, adequados a todas as crianças durante os primeiros anos de vida. Até que a criança esteja funcionando a um nível de dois anos de idade, não é necessário comprar muitos brinquedos ou objetos para ela.

A seleção de material adequado para um dado menino ou menina deve ser baseada no nível de desenvolvimento da criança levando-se em consideração o que o seu próprio lar possui ou pode proporcionar. Enquanto a criança se desenvolve e vai adquirindo um certo número de experiências, revela preferências e pode selecionar muito dos objetos com os quais já se familiarizou.

Ao comprar materiais para a criança com limitação visual, devem ser procurados os aspectos que lhe permitam uma experiência completa. Esses aspectos devem ser considerados em termos de peso, textura, som, movimento, aparência e possíveis usos. Se a criança possui alguma visão residual, os aspectos visuais do objeto também devem ser considerados. Certos aspectos do material, como, por exemplo, brilho, precisam ser evitados. Existem jogos ou brinquedos para comprar que podem ser montados, de uma ou de várias maneiras, e que por isso têm um significado maior para a criança com limitações visuais. Por exemplo, uma superfície com textura diferente colada sobre outra, pode tornar-se muito interessante para a percepção tátil.

Como regra geral, uma criança irá beneficiar-se com poucos brinquedos, porém bem selecionados, cada um oferecendo uma experiência de aprendizagem diferente. Particularmente, no inicio, uma criança deve estar apta a explorar cada brinquedo ou material recebido e deve ter chance de usá-lo por várias vezes. Um lugar precisa ser reservado para os seus brinquedos, de maneira que ela possa pegá-los quando assim desejar, recebendo ainda bastante encorajamento para isso, à medida que cresce.

A criança visualmente limitada, pode aprender, desde o início, que certos lugares da casa e do quintal são para brincar e trabalhar, enquanto outros não servem para tal. Poderá aprender como e onde guardar as coisas. O sentimento de ser um membro participante da família pode começar a se desenvolver, através dessa maneira simples, porém importante de educar.

Quando uma criança é colocada inicialmente diante de um brinquedo ou objeto, deve-se colocá-lo em suas mãos e auxiliá-la a distinguir os seus diferentes aspectos. Somente passar a mão pela superfície não é suficiente. Se o objeto é do tamanho da mão, deve ser segurado pela criança a fim de permitir-lhe sentir sua leveza ou peso. Necessita perceber suas características de textura com a superfície interna da palma das mãos e pelos dedos. Necessita ser examinado mais detalhadamente com o polegar e os dedos de uma ou ambas as mãos. Deve ser cheirado, examinado nas suas possíveis partes móveis, e olhado, se a criança possui alguma visão. A criança bem jovem irá mesmo explorar o gosto e sentir o material com seus lábios, língua e dentes. Se o objeto a explorar é maior que o tamanho da mão, pode ser analisado através dos exames acima mencionados, mas pode ser necessário mais tempo e contato para verificá-lo por inteiro. Em geral, um exame do objeto em seu todo, com as mãos e dedos, seguido de um exame mais detalhado das partes separadas, e um outro exame completo, poderá ser um bom início para muitas crianças. A criança visualmente limitada, especialmente no início, necessitará de ser ensinada a observar as coisas. À medida que se desenvolve, a criança tornar-se-á mais apta a realizar isto por si mesma de maneira significativa e aprenderá a elaborar certas modificações de acordo com as suas necessidades.

Quando se mostra um objeto pela primeira vez a uma criança visualmente limitada, torna-se importantíssimo o uso de palavras adequadas, juntamente com demonstração física. As palavras escolhidas para dizer o que a criança pode compreender, irão ensiná-la a conhecer o objeto em suas mãos, assim como irão contribuir para o desenvolvimento de seu vocabulário. Ajuda-la-ão a adicionar novas experiências àquelas já adquiridas e fazê-la sentir a participação e a preocupação do adulto com a sua pessoa.

Muitos brinquedos apreciados por crianças videntes podem também ser apreciados pela criança com visão limitada, embora, talvez, por razões diferentes. Durante o primeiro ano de vida, esse fato pode ser especialmente reconfortante para os pais de um menino ou menina com visão limitada. Comprar brinquedos que seus amigos compram para seus filhos faz os pais sentirem que seus filhos são, em primeiro lugar, crianças e, depois que têm limitações. É importante que os pais não se tornem bloqueados pelo medo de que o "tipo errado" de brinquedo vá parar nas mãos de sua criança; ao contrário precisam ser auxiliados a compreender "quando" sua criança usa algo de uma "maneira diferente" e quais seus objetivos e prazeres em realizar tal coisa. Não há dúvida que os materiais educativos devem ser cuidadosamente selecionados, e os adultos podem tornar-se habilidosos na escolha de brinquedos. Quando as diretrizes adequadas forem compreendidas e usadas, a responsabilidade parecerá menos aterradora.

Os materiais educativos agrupados na lista que se segue, estão mais ou menos em ordem, de acordo com o grau de dificuldade da tarefa envolvida (em termos de atenção desejada, uso muscular, coordenação mão-ouvido-olho, etc.). Entretanto, deve haver muitas falhas, tanto em termos de interesse como de capacidade quando se considera cada criança individualmente. Dentro de cada categoria, deve-se pensar em termos de se iniciar pelos materiais mais simples, fáceis e grandes e, daí, para os mais difíceis e refinados. É preciso estar bem ciente que isso não é uma lista no sentido literal de progressão. Por exemplo, "livros" em termos da criança utilizá-los para a leitura, irão exigir um nível mais avançado de realização. Considerando o interesse da criança, nos livros que são lidos para ela por outras pessoas, no entanto, é óbvio que se requer um nível de realização muito mais elementar. Alguns materiais como bonecas, por exemplo, podem ser agradáveis e proporcionar entretenimento para uma criança bem jovem, devido a certas qualidades de formas, tamanho, textura, etc, porém, só mais tarde evocarão interesse como representativos de parceiros da vida real.


Materiais Educativos para a criança visualmente incapacitada:

* brinquedos de berços para serem vistos, tocados, cheirados e ouvidos;
* para encorajar o controle da cabeça e o sentar-se:
* para encorajar o uso das duas mãos juntas na parte central do corpo e o agarrar de uma maneira crescentemente refinada;
* para morder;
* para sentir através do agarrar; para apreciar através de segurar; para explorar tatilmente;
* para produzir som; para fazer com que coisas diferentes aconteçam;
* para encorajar o "alcançar" e a mobilidade através do engatinhar, do ficar de pé, do andar;
* para sentar-se, montar, movimentar-se;
* para desenvolver algum trabalho do polegar;
* para carregar, para retirar ou colocar dentro de alguma coisa (objetos de diferentes tamanhos, texturas, sons, pesos e formas);
* para encorajar diferentes formas de seguir direções com movimentos do corpo (ex. discos, jogos de ritmo, etc.).
* brinquedos como barro, lama, areia, tintas para dedos, água; coisas para espalhar, rolar, modelar, cheirar, sentir;
* objetos com partes móveis que se separam e que podem ser colocadas juntas novamente, que desenroscam e enroscam;
* coisas relacionadas com "brinquedo de faz-de-conta" (por exemplo, vestir e brincar de casinha);
* materiais para serem colocados em ordem, por uma dimensão ou outra;
* com partes que devem ser discriminadas, combinadas principalmente pela forma, tamanho, textura, peso, posição, cor); julgadas semelhantes ou diferentes; contadas;
* para construção (blocos, jogos de construção);
* para que se dê um significado, devido a seu tamanho de miniatura e sua semelhança com objetos reais (bonecas, carros);
* materiais como tesouras, pastas, crayons, pinturas;
* livros e outros materiais diretamente relacionados à leitura;


Escolha de material educacional

Muitos dos materiais produzidos para as crianças de visão normal podem ser usados eficientemente pela criança visualmente limitada. Não é possível avaliar e indicar produtos ou relacionar todas as organizações e companhias que fabricam bons materiais.

São muitas as organizações que dedicam grandes esforços para atender as necessidades das crianças. Seus catálogos, enviados quando solicitados, oferecem uma grande variedade de materiais que podem ser escolhidos com segurança e economia.

Muitas organizações produzem discos para crianças que são adequados, também, às crianças com limitação visual. Um grande número de companhias de discos possui uma linha de produção para as crianças em idade pré-escolar (Capitol, Columbia, Decca, Folkways, RCA Victor). Quando os discos, televisão e rádio são empregados como meios objetivos e seletivos de educação, e não como um recurso para deixar as crianças passivas por longos períodos de tempo, podem ser amplamente usados na aprendizagem e para estimular novos interesses e atividades.

Os livros infantis contêm inúmeras variedades em termos de assunto, tamanho, ilustrações, vocabulário, objetivos, etc. A seleção de livros para uma determinada criança deve ser feita em termos de suas necessidades individuais, tal como para a criança vidente. A criança com visão reduzida aprecia o colorido das páginas, talvez até mesmo as suas formas quando mostradas a ela, à medida que a leitura é feita. As crianças que vêem um pouco mais podem apreciar maiores detalhes das ilustrações quando solicitadas a participar da leitura. A maioria dos livros para estas crianças deve ser escolhida por suas qualidades de motivação na criança. Certamente, alguns desses materiais são selecionados principalmente pelos seus significados e aspectos auditivos.

Para as crianças cegas, os livros feitos em casa, mencionados anteriormente são muito significativos. Eles interessarão, entretanto, a todas as crianças. Certas organizações imprimem livros em caracteres braille e a tinta, lado a lado. Tendo em vista que em muitos casos, o vocabulário é de tal forma que contém palavras que nem mesmo o recém alfabetizado pode compreender, esse tipo de livros é mais interessante aos deficientes visuais atingidos mais severamente. Antes de tudo, é importante que a criança pré-escolar ouça a leitura, sempre mais e mais, para que bem cedo descubra os enormes valores e prazeres advindos dessa atividade.

 

AGRADECIMENTOS

Este livro reflete o interesse, o conhecimento e os esforços de muitas pessoas que, durante doze meses, contribuíram grandemente com seus estudos, para o esclarecimento dos problemas de compreensão e de trabalho com crianças visualmente incapacitadas.
Pela generosa, colaboração com conhecimentos e materiais, agradecimentos especiais são devidos a: Dra. Grace Napier, Mel Weishahn, Sra. Ina Kurzahls, Sra. Jane Wegeholft, Sra. Virginia Murray e Sra. Betty Wommack.
Vistas particularmente frutíferas e entrevistas com profissionais, tornaram-se possíveis através do: Demonstration and Research Center for Early Education, Georgy Peabody College, Nashvilie, Tennessee; New Nursery School Research Project, Colorado State College, Greeley, Cobrado; Utah School for the Blind, Ogden; Texas School for the Blind, Austin; Project Head Start Styles, Department of Psychology, University of Louisville, Louisville, Kentucky; Delta Gamma Foundation for Visualiy Handicapped Children, St. Louis, Missouri Inc.
Em março de 1969, uma comissão composta pela Srta. Barbara Dorward, Sra. Kay Horton, Sra. Ina Kurzahls e Robert Winn reuniu-se na qualidade de consultoria a fim de determinar as diretrizes para o desenvolvimento deste livro e relacionar materiais educacionais.
Destacamos entre aqueles que deram o seu tempo e esforço para a leitura deste trabalho, criticando construtivamente e sugerindo aperfeiçoamentos: Dra. Natalie Barraga, Sra. Dorothy Bryan, Srta. Freda Henderson, Sra. Ina Kurzahls e Dr. Carson Nolan.
Aqueles que deram consultoria relacionada à incapacidade de visão são: Dr. S. O. Ashcroft, Dra. Natalie Barraga, Srta. Dorothy Burlingham, Sra. Selma Fraiberg e colegas, Sra. Ina Kurzahls, Srta. Pauline Moor e Sra. Virgínia Murray.
Além das fontes relacionadas, inúmeras e valiosas cartas informativas e outros contatos relacionados a todos os aspectos deste estudo, fizeram deste livro, o resultado de um verdadeiro esforço coletivo.
O esforço total foi realizado sob o patrocínio de fundos do Bureau of Education for Handicapped, U. S. Office of Education, Grant OEG-2-6-062289-1582(607). Este projeto, 272036 tornou-se possível devido à Lei 88-164, Titulo III.

Carol Halliday

FIM


Titulo da edição original norte-americana:
THE VISUALLY IMPAIRED CHILD GROWTH, LEARNING AND DEVELOPMENT [INFANCY TO SCHOOL AGE]
March 1970
Tradução de:
ANA AMÉLIA DA SILVA, JUREMA LUCY VENTURINI e TERESINHA FLEURY DE OLIVEIRA ROSSI
para a FUNDAÇÃO PARA O LIVRO DO CEGO NO BRASIL, 1975

Fonte: Portal do DV

 

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Publicado por MJA
[26.Nov.2013]

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