![A Parábola dos Cegos - Pieter Bruegel, 1568 [Parábola de Cristo segundo São Mateus 15:14: “Se um cego conduzir a outro cego, ambos cairão no fosso.”]](https://www.deficienciavisual.pt/Quadros/A%20Parabola%20dos%20Cegos-Pieter%20Bruegel-1568.jpg)
'A Parábola dos cegos' -
Pieter Bruegel - o Velho, 1568
Entender a cognição das pessoas cegas em sua
positividade,
ou seja, analisar suas singularidades para além da visão negativa
da deficiência, é um problema ao mesmo tempo teórico e político.
Como aponta Zina Weigand (2008), a representação negativa do cego
é muito antiga. Desde a Idade Média, as fábulas e o teatro profano
trazem a figura do cego bufão, desajeitado e grosseiro, bem como
do cego mendigo, geralmente acompanhado de um guia. Também é muito
comum a figura do falso cego, que explora a caridade das pessoas.
Tais personagens podem inspirar o riso, o terror, a repugnância ou
a compaixão. Muitas vezes a ausência de visão simboliza o
obscurecimento da inteligência e mesmo uma cegueira moral. De modo
geral, a cegueira vem associada a uma condição degradante, à
pobreza, a viver pedindo nas ruas e na porta das igrejas. Outras
vezes, o cego é apresentado como uma pessoa dotada de uma vidência
especial e de uma capacidade mística. Há incontáveis aplicações
metafóricas do termo cegueira no domínio do conhecimento e no
domínio moral, significando confusão do juízo, privação da
reflexão, do discernimento e da razão. Neste contexto, a pintura
de Brugel 'A parábola dos cegos', que data do século XVI, é um caso
exemplar. O quadro traz uma fileira de homens cegos, dotados de um
olhar vazio e de um andar vacilante e inseguro. Vão amparados uns
nos outro. Cegos conduzindo cegos, a impressão é que todos vão
tombar num precipício. A parábola dos cegos é a parábola de uma
conduta insensata, sob a égide do cegamento do espírito. A obra
faz referência à heresia e ao distanciamento da fé religiosa, mas
até hoje constitui uma imagem forte, que provoca arrepios e
horror. Embora seja possível perceber mudanças na representação da
cegueira na atualidade, ainda prevalece uma visão negativa, com
ênfase na deficiência.
Acreditamos que a arte e a experiência estética podem ser
fortes aliadas para a mudança desse cenário. A experiência
estética não se define pelo objeto ao qual ela corresponde – uma
obra de arte, por exemplo – nem pelo traço especial da beleza.
Também não é aquela meramente divertida ou que gera
entretenimento. A experiência estética é caracterizada por uma
certa qualidade da sensação e está mais próxima do estranhamento e
da problematização do que da mera experiência de reconhecimento.
Ela afeta, surpreende, mobiliza, espanta, faz pensar e provoca uma
suspensão na nossa maneira habitual de perceber e viver. Ela
coloca a cognição – habitualmente voltada para a vida prática, a
recognição e a solução de problemas – num estado especial,
transpondo seus limites ordinários. Pode produzir tanto interesse
e aproximação quanto afastamento e repulsa. No primeiro caso,
ficamos absortos e ocorre a fruição da experiência estética; no
segundo, nos distanciamos, buscando segurança naquilo que é
conhecido e trivial, evitando o movimento de saída de si.
A maioria dos artistas e filósofos, como é o caso de Bergson
(2006a; 2006b), Merleau-Ponty (1984), Dewey (1980) e Deleuze (s/d;
Deleuze e Guattari, 1993) concordam que a experiência estética não
ocorre apenas frente a obras de arte, mas irrompe no seio na vida,
sempre que ela deixa de ser uma banalidade. No entanto, a arte
produz, de modo especial, experiências estéticas. A arte faz ver,
amplia a percepção. De todo modo, não devemos colocar a arte num
campo de transcendência, nem a experiência com a arte num âmbito
restrito a seres supostamente especiais – aqueles que possuem
cultura, no caso dos apreciadores, ou genialidade, no caso dos
artistas. A apreciação de uma obra de arte depende menos de ter
cultura do que de uma percepção sensível. Por sua vez, as oficinas
de práticas artísticas nos campos da saúde mental, dos trabalhos
comunitários e das deficiências têm dado provas do quanto os
processos de criação podem produzir resultados surpreendentes.
A arte pode abrir caminhos e perspectivas inusitadas para
pessoas com deficiência visual, tanto cegas quanto com baixa
visão. Isto vale tanto para as que já nasceram cegas quanto para
aquelas que vieram a perder a visão precoce ou tardiamente. No
caso de pessoas com deficiência visual adquirida, ter a vida
atravessada pela perda da visão, de forma súbita ou insidiosa, é
na maioria das vezes uma experiência radical que pode produzir, em
certos casos, efeitos devastadores, que podem se prolongar por
meses e até anos.
Como relata um homem que entrevistamos: “Quando
me aconteceu esse problema da visão, foi de uma hora pra outra.
Não foi assim, de ter um pouquinho e levar um susto amanhã, não.
Foi na hora. Aí eu fiquei mais traumatizado com isso. (...) Aí eu
não vi mais. (...) Então eu fiquei muito tempo lá, fiquei uns
quatro anos jogado no sofá. O sofá chegou a ficar com um buraco
onde eu estava sentado” 2
A experiência da perda da visão pode
assumir a extensão de uma experiência de perda generalizada, ou
seja, o sentimento de que tudo foi perdido: a alegria, o trabalho,
mas também a dignidade e a autonomia, enfim, o lugar no mundo.
Mais do que perda da identidade, experimenta-se, muitas vezes, a
perda do mundo a seu redor, pois a interrupção de rotinas leva
consigo uma rede de relações e, enfim, grande parte das conexões
com o mundo. As pessoas sentem-se solitárias e atingem um grau de
extrema vulnerabilidade. Com as referências anuladas, tudo parece
liquidado (Kastrup, 2008).
Como aponta L. Vygotsk (1997), as pessoas que nascem cegas
não sofrem diretamente a experiência da perda, mas, habitando um
mundo cujos códigos sociais e demais parâmetros utilizados na vida
diária são na maioria das vezes visuais, não tardam a ter a
experiência da deficiência. A plenitude de sua vida e a amplitude
de seu território existencial depende bastante dos cuidados e da
estimulação que recebem, bem como das oportunidades que lhes são
oferecidas. Se elas são insuficientes ou ausentes, corre-se o
risco de um desenvolvimento comprometido e de uma vida às vezes
extremamente limitada (Hatwell, 2003).
Como entender a potência da arte em lançar a pessoa para
além de seus atuais limites? Como trazer à cena outras
atualizações da subjetividade da pessoa cega ou com baixa visão,
que vão além da deficiência? Como fazer perceber que a pessoa que
não dispõe da visão não cabe na crosta identitária do deficiente,
mas compreende outras virtualidades? Nosso objetivo é colocar
esses problemas, que nem sempre fazem parte dos estudos no campo
da deficiência visual e não são, de modo algum, triviais. É, em
seguida, buscar solucioná-los por meio de uma discussão teórica
que passa pela filosofia de Bergson, pelos estudos da produção da
subjetividade de Deleuze e Guattari e pela psicologia da arte e da
deficiência visual, sempre tomando como base a abordagem da
cognição inventiva (Kastrup, 2007a).
O virtual e o atual
Para entender o papel da arte na ampliação da percepção,
tanto de cegos quanto de videntes, lançamos mão do conceito de
virtual proposto pelo filósofo Henri Bergson. O conceito de
virtual visa dar conta de um real que se define como duração, em
oposição à concepção de um real pré-formado, todo feito desde
sempre. O conceito de duração aponta o caráter temporal do real –
incluídos aí a subjetividade e o mundo – sublinhando sua dimensão
criadora. Bergson formula uma ontologia criacionista, onde o
virtual é uma espécie de todo aberto, que se atualiza de
diferentes maneiras, configurando diferentes formas. Isto
significa que as formas existentes no presente só podem ser
entendidas se nos colocarmos, de saída, no virtual (Bergson, 1990,
p.111). Pensando através do par virtual-atual, Bergson dá
elementos conceituais para um entendimento da invenção e
reinvenção das formas que não se confundem com a realização de
possíveis.
Se pensarmos com o par possível|real, consideramos a
invenção e reinvenção de formas – objetivas e subjetivas – como um
processo de realização. Procurando distinguir a atualização de
virtualidades da realização de possibilidades, Gilles Deleuze
esclarece que "o processo de realização é submetido a duas regras
essenciais, aquela da semelhança e aquela da limitação" (Deleuze,
1991, p. 100). Tudo aquilo que existe no presente seria a
realização de uma das possibilidades pré-existentes num conjunto
fechado e dado de antemão. Não haveria verdadeira criação, mas
apenas limitação e seleção a partir de uma totalidade marcada por
limites que não podem ser ultrapassados.
Ao contrário, a atualização tem por regras a diferença, ou a
divergência, e a criação. Podemos dizer que a atualização de
virtualidades é um processo de diferenciação, cujo resultado não
estava dado de antemão. Nesta direção, podemos pensar atualizações
efetivamente novas, que não estavam contidas num conjunto de
possíveis pré-existentes. Quando se trabalha com o par
virtual-atual, deve-se pensar também o movimento inverso – a
virtualização – que vai do atual ao virtual. Falamos em
virtualização quando as formas constituídas se desmancham e
involuem na direção ao todo aberto de onde emergiram. Ao serem lá
relançadas e banhadas novamente na virtualidade, abrem-se a novas
transformações, continuando seu processo de criação e modificando
também as próprias condições de invenção de novas formas.
Conforme veremos, a experiência estética coloca a
subjetividade num processo de virtualização, acionando processos
de criação e de diferenciação. Nesta medida, tal experiência
promove a virtualização ou a problematização da subjetividade. No
caso das oficinas de práticas artísticas, a potência da arte não
se esgota no domínio técnico sobre uma certa matéria: argila,
música, o próprio corpo, etc. Por outro lado, na apreciação
estética, a finalidade não é o acúmulo de saber e de cultura. Em
ambos os casos, a formação profissional é uma possibilidade, mas
não é o objetivo maior da experiência com a arte. O mais
importante é que, acessando virtualidades, novas atualizações da
subjetividade podem ter lugar.
É comum que a falta da visão produza um efeito de
totalização da subjetividade. A pessoa cega é percebida, sobretudo
pelos videntes, apenas pelo limite de sua deficiência. No entanto,
há duas maneiras de lidar com o limite. A primeira é considerar o
limite como algo que não pode ser transposto. A segunda é tomar o
limite tendo em vista sua transposição. Seguindo a segunda
direção, os estudos sobre produção de subjetividade de Deleuze
(1990) e Guattari (1987; Guattari e Rolnik, 1986) convidam a um
entendimento de pessoas cegas e com baixa visão para além dos
limites de sua deficiência e da crosta identitária que constitui a
camada mais externa e endurecida de sua subjetividade. Convidam
também ao desenvolvimento de dispositivos e estratégias, no campo
das práticas artísticas e da apreciação estética, que possam
efetivamente acionar processos de reinvenção de si e do mundo,
incluindo num mesmo coletivo, comum e heterogêneo, cegos e
videntes.
A produção de subjetividades coletivas: a arte como estratégia de
alterização
Nos últimos anos, o conceito de subjetividade tem sido
objeto de uma série usos equivocados. Muitas vezes ele é
confundido com a noção de sujeito – a qual ele visa tirar de cena
–, com a noção de psiquismo – que porta uma referência psicológica
e internalista que ele não possui – e mesmo com a noção de
indivíduo – que não apenas lhe é distinta, mas mesmo antagônica.
Em seu sentido mais preciso, o conceito de subjetividade, tal como
foi formulado por Gilles Deleuze e Félix Guattari, é indissociável
da ideia de produção (Deleuze, 1992; Guattari e Rolnik, 1986;
Guattari, 1993). A subjetividade é produzida por vetores múltiplos
e heterogêneos: políticos, culturais, econômicos, ecológicos,
fisiológicos e tecnológicos, dentre outros. A novidade do conceito
de subjetividade é conferir à subjetividade um caráter de produção
e uma dimensão coletiva (Guattari, 1992; Escóssia, 2004; Kastrup,
2007a).
Muitas vezes imagina-se que dar conta da dimensão coletiva
da subjetividade é reconhecer sua constituição a partir de fatores
sociais: modelos instituídos de conduta, padrões de ação
legitimados, regras e representações sociais. De acordo com tal
perspectiva, as interações sociais modelam os indivíduos e
conferem às subjetividades características de semelhança e
identidade. Este modo de pensar caracteriza o construtivismo
social. De acordo com tal perspectiva, a subjetividade é feita de
uma espécie de estofo social, onde os laços sociais constituem o
único ingrediente na fabricação dos fatos subjetivos. Considera-se
que normas, leis jurídicas, a economia, a mídia e o mercado
proveem uma grade de construção da subjetividade. Segundo Bruno
Latour (2002), o construtivismo social tem a vantagem de superar o
naturalismo, ou seja, o realismo fundado nas leis da natureza, mas
conduz a uma falácia, pois, conferindo aos laços sociais o
estatuto de coisas, dá lugar a uma espécie de realismo social.
Latour argumenta que é o processo de sua produção que é social, e
não a matéria de que são feitos os fatos. Sublinha, então, que é
preciso distribuir melhor os papéis desempenhados pelos diversos
atores que participam desse processo, incluindo aí pessoas e
coisas.
Para Guattari (1992), a produção de subjetividades coletivas
não depende apenas de relações sociais. A mera existência de
relações sociais nada garante. Se tais relações são fundadas na
identidade, ou seja, apenas em laços familiares, em ideias comuns
ou em regras compartilhadas, as outras pessoas não chegam a
constituir elementos de alteridade. O outro não é, na verdade, um
outro, mas uma outra versão do si-mesmo. Na obra de Deleuze e
Guattari, o conceito de subjetividade coletiva é entendido em dois
níveis: o aquém e o além do indivíduo. Cito palavras de Guattari:
“o termo coletivo deve ser entendido aqui no sentido de uma
multiplicidade que se desenvolve para além do indivíduo, junto ao
socius, assim como aquém da pessoa, junto a intensidades
pré-verbais, derivando de uma lógica dos afectos mais do que de
uma lógica de conjuntos bem circunscritos” (Guattari, 1992, p.
20).
O nível aquém do indivíduo corresponde ao plano das forças,
linhas e vetores heterogêneos – políticos, econômicos,
fisiológicos, artísticos, tecnológicos, linguísticos, ecológicos,
etc. – que participam da produção da subjetividade. O nível além
do indivíduo é o nível social, aí compreendidos os grupos, as
comunidades e as instituições. O conceito de subjetividade
coletiva deve ser entendido a partir de relações de alteridade, as
quais não se limitam a relações com pessoas, mas incluem relações
com coisas e a própria relação consigo. Quanto a este último
ponto, é preciso sublinhar que a alteridade não é algo que se
encontra exclusivamente no exterior, ou seja, não se define
espacialmente, por uma lógica binária interior-exterior. Ela é,
antes, um plano que perpassa o interior e o exterior, atravessando
a subjetividade e o mundo.
A noção de alteridade encontra suas raízes na fenomenologia
de Husserl, para quem ela é a estrutura fundamental da
consciência. Segundo Natalie Depraz (1994), a alteridade é algo
que não se dá diretamente à percepção e à consciência, mas podemos
acedê-la através de uma relação consigo em que a atenção incide
sobre algo cuja percepção direta é difícil, problemática. Mesmo
assim, pode haver, através da apercepção, um devir-consciente da
alteridade que nos habita de modo inconsciente. François
Zourabichvili (2004, p. 18-19) aponta um limite da fenomenologia
pelo fato dela pensar a alteridade apenas em seu aparecer na
consciência, em seu movimento de gênese, não destacando que a
alteridade possui a potência da diferenciação da subjetividade, de
devir-outro, que aponta mais diretamente para sua inclinação
plural e coletiva.
Nem sempre acessamos a alteridade que existe em nós. Às
vezes é difícil para nós, videntes, perceber que não somos uma
identidade perfeita, que não somos iguais a nós mesmos, que a
cisão, a contradição, a ambiguidade e a incompletude nos habitam.
No entanto, somos efetivamente cindidos, contraditórios, ambíguos,
incompletos e imperfeitos. Às vezes também é difícil perceber que
a alteridade que nos habita não é a nossa fraqueza, mas a nossa
força, já que é por essa diferença interna que somos capazes de
transpor nossos limites e experimentar a fecundidade de processos
de transformação que nos lançam para além de nós mesmos. Por isso,
a experiência dessa alteridade em nós mesmos, dessa diferença
interna, é condição para a abertura à diferença do outro.
A subjetividade é coletiva pelas relações de alteridade que
estabelece consigo mesmo e com o mundo. Nesta medida, o caráter
coletivo da subjetividade não se limita a um problema teórico. A
subjetividade é mais ou menos coletiva, dependendo do modo como
ela se configura em formas concretas. Guattari afirma: “em certos
contextos sociais e semiológicos a subjetividade se individua: uma
pessoa, tida como responsável por si mesma, se posiciona em meio a
relações de alteridade regidas por usos familiares, costumes
locais, leis jurídicas. Em outras condições, a subjetividade se
faz coletiva, o que não significa que ela se torne por isso
exclusivamente social” (Guattari, 1992, p. 19-20). Podemos dizer,
então, que as subjetividades podem se orientar no sentido do
individuo ou no sentido do coletivo. A subjetividade
individualizada se define por uma identidade e se afasta do plano
virtual de onde emergiu. Preponderam relações de tipo homogêneo e
que dão lugar a experiências de recognição. Já a subjetividade
coletiva mantém ativas suas conexões com o plano virtual e busca
relações de tipo heterogêneo. A relação com a alteridade e o
encontro de diferenças produz uma tensão que é criadora. É
importante sublinhar que, por mais que uma subjetividade seja
individualizada, ela pode reconectar-se com o plano virtual. As
experiências artísticas de alterização são recursos de que
lançamos mão para viabilizar a passagem da subjetividade
individualizada para a subjetividade orientada para o coletivo.
É importante insistir que a subjetividade pode tornar-se
coletiva tanto através de relação com pessoas quanto com coisas,
ambas passando por uma relação consigo mesmo e com o plano de
alteridade onde o coletivo se faz presente em nós. Não é
suficiente relacionar-se com outras pessoas sem perceber sua
diferença. É preciso constituir o outro como outro. Por outro
lado, não ver a diferença como inferioridade depende da capacidade
de encontrar em si sua própria alteridade, ou seja, algo que está
presente como um outro em mim.
Do ponto de vista dos estudos da produção da subjetividade,
a alterização é um movimento de saída de si, ou seja, do domínio
das vivências subjetivas, da história pessoal, das preocupações
egóicas e do julgamento, enfim, da posição de recognição. Nesta
medida, o movimento de alterização constitui o encontro com uma
outra dimensão da subjetividade, que constitui seu plano coletivo
de produção. O encontro com a alteridade que nos habita é, muitas
vezes, acionado por uma experiência de estranhamento e
problematização, tal como acontece na experiência estética.
Trata-se aí de uma experiência limite, onde a polaridade
sujeito-objeto se desmancha momentaneamente. Mas tal
desmanchamento não relega tais experiências a um estatuto de mera
desconstrução, pois, mesmo considerando que elas desconstroem, em
certa medida, a subjetividade constituída, são produtoras de novos
arranjos e, enfim, de uma outra política de relação consigo e com
o mundo. Nesta direção, tomarei tanto as oficinas de práticas
artísticas quanto a apreciação estética em seu papel de
atualização de virtualidades da subjetividade.
Sobre as oficinas de práticas artísticas
As oficinas de práticas artísticas têm sido amplamente
utilizadas como dispositivos de produção de subjetividade em
campos os mais diversos. Dentre eles, podemos destacar seu lugar
na chamada reabilitação de pessoas com deficiência visual. Sua
função, muitas vezes, é apresentada como sendo a de ocupação do
tempo e de saída da ociosidade; outras vezes, é a capacitação
profissional que ganha destaque. Embora essas funções não sejam
estranhas ao dispositivo oficina, não tocam o ponto essencial. Em
nosso entendimento, o que caracteriza, em primeiro lugar, a
oficina é que ela é um espaço de aprendizagem inventiva. A
aprendizagem inventiva (Kastrup, 2007a) não se resume a um
processo de solução de problemas, mas inclui a invenção de
problemas, ou seja, a experiência de problematização. Também não
equivale a um processo de adaptação a um mundo pré-existente, mas
consiste na invenção de si e do o próprio mundo. Em segundo lugar,
as oficinas são espaços de fazer junto. Trabalha-se em grupo num
processo de criação coletiva. Em terceiro lugar, o processo de
aprendizagem inventiva se faz através do uso da arte, que envolve
o trabalho com materiais flexíveis, que, por sua vez, se prestam à
transformação e à criação. Os participantes da oficina estabelecem
com tais materiais agenciamentos, que são relações de dupla
captura (Deleuze e Parnet, 1998), se transformando ao mesmo tempo
em que transformam tais materiais.
Numa pesquisa sobre o funcionamento da atenção durante
processos de criação em portadores de deficiência visual
adquirida, numa oficina de cerâmica do Instituto Benjamin
Constant, no Rio de Janeiro, tivemos ocasião de verificar que,
além da atenção à argila, há uma dimensão da atenção que surge
como atenção a si (Kastrup, 2008). Este “lado de dentro da
experiência” surge como suporte explicativo para o fato do
trabalho na oficina produzir também efeitos notáveis de produção
de subjetividade ao mesmo tempo em que ocorre a produção das peças
de cerâmica. Neste caso, o processo de criação é, ao mesmo tempo,
um processo de autocriação. A oficina de cerâmica funciona
desenvolvendo estratégias de alterização que produzem
subjetividades coletivas na medida em que o barro, em sua dimensão
de alteridade, aciona no aprendiz experiências de estranhamento e
problematização que ocorrem no plano pré-egóico. A prática da
cerâmica aciona afetos impessoais, que não se confundem com
sentimentos e emoções subjetivas (Deleuze e Guattari, 1993). O
encontro com o barro é também ocasião para o encontro consigo
mesmo, com as forças de alteridade que habitam o próprio aprendiz
de ceramista. No processo de trabalho regular utilizam-se rotinas
cujo objetivo é criar um campo estável de sedimentação e
acolhimento de experiências afetivas inesperadas, que fogem ao
controle do eu. A regularidade dos encontros tem como efeito a
criação de uma familiaridade com tais experiências e o aprendizado
do acolhimento da alteridade em si e nos outros. É nesta medida
que as oficinas de arte são estratégias muito potentes de produção
de subjetividade.
Clara Fonseca (2005; 2006), que coordena a oficina, afirma
que dá aulas, mas não ensina nada. Não há nada a ser ensinado,
pois “está tudo já com eles”. É neste sentido que afirmamos que a
prática com a cerâmica virtualiza a subjetividade, produzindo, num
movimento de vaivém, novas atualizações. Pelo lado de dentro da
experiência, entra-se em contato com a alteridade do campo de
forças moventes que habita a subjetividade, para além das formas
aparentemente fechadas da identidade do eu. No caso dos cegos, a
experiência da deficiência, produzida num mundo cujo paradigma é
marcadamente visuocêntrico, é deslocada, dando momentaneamente
lugar a uma experiência da potência e da invenção. No caso de
pessoas que perderam a visão, o trabalho na oficina de cerâmica
coloca em marcha um longo e laborioso trabalho de reinvenção de si
e do mundo, cujos limites devem ser, dia após dia, ultrapassados.
Quando a perda da visão abre a possibilidade de desenvolvimento de
processos de criação, esta perda pode acabar por acionar processos
de reinvenção, atualizando outras virtualidades da
subjetividade 3. Virtualização e atualização são dois movimentos
inversos e, ao mesmo tempo, complementares, que se articulam numa
espécie de vaivém.
Além de possibilitar o encontro com a matéria maleável do
barro, o encontro com pessoas que mantêm diferentes relações com a
cegueira e com as professoras ceramistas, a oficina é um espaço de
aprendizagem inventiva na medida em que propicia o encontro com a
virtualidade de si, produzindo a experiência concreta de invenção
de si e do mundo.
"Na atenção a si, numa espécie de autopercepção, o sujeito
não toma a si como objeto. Não se duplica em observador e
observado, mas experimenta uma atenção direta, que o conceito de
awareness serve para nomear. Depraz, Varela e Vermersch (2003)
falam em awareness e utilizam a expressão becoming aware para
nomear esta experiência de encontro com a dimensão de virtualidade
de si. A expressão não possui uma tradução exata para o português,
aproximando-se de 'dar-se conta' ou de um ato de ciência, tal como
comparece na expressão 'tomar ciência' de alguma coisa. O termo
awareness guarda um sentido dinâmico, referindo-se a algo que
atinge a atenção de modo direto e súbito, possuindo, além do
sentido de registro, o de sua manutenção (Kastrup, 2006). Através
do trabalho com a cerâmica, pessoas que vivem a experiência da
perda da visão podem encontrar, em si mesmas, ou melhor, na
virtualidade de si mesmas, recursos para reinvenção de sua
história." (Kastrup, 2008, p. 193)

Sobre a acessibilidade a obras de arte: o papel do mediador
Uma outra entrada da arte na vida das pessoas cegas se dá
por meio do acesso a museus, exposições e centros culturais. Temos
ressaltado a necessidade de distinguir acessibilidade física e
acessibilidade cultural, bem como entre acesso à informação sobre
arte e acesso à experiência estética (Almeida, Carijó e Kastrup,
2010) 4. É imprescindível o acesso à experiência estética, mas
ainda há muito que se avançar em relação a este ponto. Há grande
necessidade de expandir e qualificar, no Brasil, as políticas
públicas, bem como as estratégias e dispositivos inclusivos para
pessoas com deficiência visual. No cenário internacional, autores
como Fiona Candlin (2003; 2004) têm ressaltado a necessidade de
desenvolver projetos e políticas públicas que efetivamente
contemplem a capacidade e a especificidade cognitiva dos
deficientes visuais. Por exemplo, a mera adaptação de uma pintura
à percepção tátil (através da equivalência entre cores e texturas)
pode não ter qualquer sentido para uma pessoa cega congênita.
Disponibilizar meia dúzia de esculturas ao toque numa sala
separada também é uma política inclusiva muito limitada.
Informações em braille sobre as obras e os artistas podem ser
muito úteis. Disponibilizar essas informações é uma estratégia
bem-vinda e mesmo necessária, mas não chega a propiciar a
experiência com a obra de arte. Temos necessidade de políticas
mais amplas e avançadas. Talvez sejamos obrigados a reconhecer que
algumas obras criadas para serem vistas não se prestam
efetivamente à percepção tátil direta. Por outro lado, a arte
contemporânea, interativa e multissensorial, pode abrir um leque
interessante de possibilidades. São questões que se colocam, que
precisam ser discutidas e fazer parte da nossa agenda 5. Para
isto, é preciso ter claro que os deficientes visuais serão os
usuários de tais serviços, o que faz deles os principais
avaliadores dos projetos de acessibilidade. Nesta medida, a
construção de qualquer programa dessa natureza deve contar com
cegos em sua equipe. Todavia, é importante ressaltar que, para que
sua participação seja realmente efetiva, eles devem não apenas
participar da avaliação dos resultados, depois do projeto pronto e
já implementado, mas de todas as etapas de sua elaboração.
Para que a ida a um museu possa dar lugar a experiências
estéticas, temos que criar condições propícias para a apreciação
das obras. A percepção estética é aberta e receptiva e, de modo
geral, requer mais tempo do que a mera experiência de recognição.
A experiência de recognição corresponde a uma resposta rápida e
automática: isto é um pássaro, isto é uma cabeça. A experiência
estética, ao contrário, implica numa suspensão. Ela consiste em se
deixar impregnar pelo objeto percebido e em mergulhar nele com
atenção, evitando a interrupção precipitada. Como acontece com
qualquer pessoa, a visita de uma pessoa cega a um museu pode ser
bastante enriquecida por um mediador qualificado. Habitualmente, a
mediação é entendida como uma ponte entre a arte e o público,
entre a obra e o percebedor, tomados como duas realidades
pré-existentes. No entanto, Mirian Celeste Martins (2005) sublinha
a necessidade de ir além de tal definição, propondo, no lugar da
metáfora da ponte, o entendimento do trabalho de mediação como um
“estar entre muitos”. De fato, há múltiplos vetores que compõem o
cenário da mediação: a obra – original ou reprodução, com seus
efeitos diversos; o artista – com seu processo de criação, sua
história, seu contexto específico e o movimento ao qual está
ligado; o público – com seu repertório pessoal e cultural; o
curador; o museólogo; a mídia; as singularidades e repertórios dos
próprios mediadores; tudo isto sem falar das circunstâncias e do
momento em que aquela mediação acontece. Acrescenta, ainda, que
todo público, em função de seu repertório, possui sempre
necessidades especiais (Martins, 2005a, p. 7).
A mediação pode acontecer em circunstâncias muito diversas.
Pode haver preparação prévia, quando a visita é previamente
programada. Neste caso, pode haver leitura de textos sobre o
artista, o movimento ao qual está ligado, pesquisa na internet,
orientada ou não, e diversas outras estratégias. O objetivo da
preparação é criar uma atitude de curiosidade, disponibilidade e
abertura para a apreciação da obra de arte. A mediação também pode
se prolongar após a visita, com discussão e troca de impressões e
de experiências. Para Martins, o objetivo da mediação é abrir
brechas para o acesso à obra, devendo ser implementada de modo
sensível, cuidadoso e fundamentado. As informações são
importantes, mas não substituem o encontro do corpo com a obra, ou
seja, a experiência direta. Enfim, a mediação é um convite a
embarcar numa viagem estética, através de questões provocadoras,
jogos perceptivos e troca de impressões, interpretações e
proposições. O que se tem em vista é a qualidade da experiência
estética e dos encontros que ocorrem no espaço dos museus,
exposições e centros culturais. Martins acrescenta: “É por isto
que uma atitude investigativa é vital. É com nosso olhar sensível
e pensante, com a pele antenada, com o corpo receptivo, que nos
deixamos capturar para o diálogo com o que o museu nos presenteia”
(Martins, 2005b, p. 14). Sublinha, por fim, que os mediadores
jamais devem fornecer chaves únicas de leitura, ainda que baseados
num livro ou manual de história da arte, nos advertindo do perigo
de colocar na voz do mediador uma interpretação que seria a única
correta. Sua conclusão é que, em última análise, mediar é “criar
espaços de recriação da obra” (idem, p. 18). Superando a metáfora
da ponte, a mediação é concebida como uma intricada rede
envolvendo uma diversidade de atores, cuja amplitude e
complexidade varia e deve ser inventada caso a caso. No caso da
mediação voltada para pessoas com deficiência visual, não há
regras pré-definidas. No entanto, é possível enumerar algumas
pistas para sua implementação, que dizem diretamente respeito à
formação do mediador.
Em primeiro lugar, é fundamental que o mediador esteja
advertido de que não existe “o cego”, mas que o campo da
deficiência visual inclui pessoas muito distintas. Há uma primeira
grande distinção entre cegos e portadores de baixa visão, que
possuem funcionamentos cognitivos distintos e, por isto, vão
exigir estratégias mediadoras diferenciadas. Existem também
profundas diferenças entre a cegueira congênita e a cegueira
adquirida e, no segundo caso, entre cegos precoces e tardios. Quem
nunca viu não possui a percepção da perspectiva e da sobreposição
de diferentes planos. Por exemplo, quando vemos uma paisagem, os
objetos distantes aparecem com um tamanho menor do que aqueles
mais próximos. No entanto, do ponto de vista da percepção visual,
a constância de tamanho é mantida. O mesmo vale para a forma e o
brilho. Para um cego congênito, cuja plataforma perceptiva é
eminentemente tátil, isto não acontece. Já a pessoa que ficou cega
mantém e utiliza sua memória visual, com uma nitidez e uma
eficiência que depende do momento em que a visão foi perdida.
Todas essas diferenças, que dizem respeito a um funcionamento
cognitivo peculiar, são significativas e têm consequências para a
percepção e a atenção mobilizada na experiência estética.
Também não devemos nos esquecer de que há pessoas cegas que
sequer foram alfabetizadas, enquanto outras têm formação superior
e mesmo diploma de pós-graduação em diferentes áreas do
conhecimento. Como qualquer outra pessoa, algumas têm interesse
por arte e outras, nem tanto. Algumas conhecem muito bem
literatura, outras gostam de ir a museus, a concertos e de
assistir filmes. Outras sequer tiveram a oportunidade de entrar em
contato com certas manifestações artísticas. Há também aquelas que
efetivamente não se interessam por este domínio como, aliás,
muitos videntes. Pensando que nossos desejos, interesses e todo
tipo de conexão com o mundo depende de um processo de produção, é
certo que a implementação de processos culturais inclusivos deve
ter em conta o problema da formação do público. O que se deve ter
no horizonte é o aumento do público com deficiência visual nos
museus, exposições e centros culturais.
É necessário também conhecer algumas das características do
funcionamento cognitivo do tato. Distinto da visão, que é um
sentido gestáltico e de apreensão imediata da forma, o tato é um
sentido que se dá por fragmentos sucessivos. Para a apreensão da
forma, a percepção háptica, que é o tato exploratório, envolve as
mãos e os braços, o que requer uma atenção sustentada e a
mobilização da memória de trabalho. Por este motivo, a percepção
tátil possui, em geral, uma velocidade mais lenta, que contrasta
com a instantaneidade da visão. Por sua vez, o tato é
especialmente sensível a materiais, texturas, peso e temperatura,
o que pode e deve ser explorado no contato com as obras de arte 6.
É preciso estar advertido de que os deficientes visuais têm
a atenção bastante voltada para os demais sentidos, sobretudo para
o tato. Cegos adquiridos, sobretudo os tardios, têm que aprender a
redirecionar a atenção que habitualmente é investida na visão
(Carijó, Almeida e Kastrup, 2008). Se uma pessoa se encontra neste
momento, sua apreciação tátil de uma obra de arte pode demandar um
tempo maior de exploração, que não deve ser apressado ou
interrompido.
Um outro item a ser observado é que jamais devemos privar um
cego da experiência estética, antecipando com palavras aquilo que
ele pode perceber diretamente. De modo geral, em qualquer
atividade de mediação, não devemos tentar substituir a experiência
por palavras. A descrição verbal e os comentários devem ser
encarados como um suplemento da experiência direta, nunca
substitutos dela. Cabe ainda sublinhar que se deve evitar qualquer
tipo de simplificação ou infantilização da mediação pelo fato das
pessoas serem deficientes visuais.
Por fim, devemos evitar o risco do visuocentrismo. Devemos
estar cientes que cegos e videntes têm diferentes maneiras de
perceber e estar no mundo, sem que a maneira vidente seja a mais
espontânea, natural ou correta. O cego não possui uma percepção
inferior, mas distinta da nossa.
Praticando a hospitalidade
Podemos dizer que as oficinas de práticas artísticas e a
arte acessível para deficientes visuais são práticas de
hospitalidade, no sentido definido por René Schérer (2000). As
práticas de hospitalidade são práticas de encontro e acolhimento
de diferença, de alteridade. A economia das práticas de
hospitalidade não é a do interesse e da contrapartida, mas sim das
trocas, dos agenciamentos, e também da oferta e do dom. Não se
busca admitir o outro em sua alteridade por tolerância ou
concessão. Trata-se de oferecer práticas de hospitalidade, o que
implica em reciprocidade. Quando nós, videntes, criamos,
juntamente com as pessoas cegas, um território de experimentação
estética, oferecemo-nos também a tais práticas. Fazemos junto,
fazemos com. Trata-se aí de uma reciprocidade fundamental, que a
ambiguidade da palavra hôte em francês expressa bem. Pois ela
designa tanto o hospedeiro, o que recebe, quanto o hóspede, o que
é recebido. O hospedeiro se inclina frente ao hóspede e se honra
em recebê-lo. Oferecer a hospitalidade, receber o outro em sua
alteridade, acolhê-lo, é também se oferecer às práticas de
hospitalidade, experimentando uma distância em relação a si mesmo,
uma distância íntima, que desloca a posição individualista que nos
faz ver o mundo e os outros a partir de nós mesmos. Tais práticas
e tais encontros são capazes de produzir nos videntes um processo
de produção de subjetividade mais aberta para a alteridade e mais
voltada para o coletivo. Pode produzir uma mudança de perspectiva,
de atitude, uma espécie de conversão a um ponto de vista da
alteridade. Trata-se de mudar o olhar sobre os outros e sobre nós
mesmos. Como afirmamos acima, a hospitalidade com o outro envolve
a hospitalidade consigo mesmo, o acolhimento da própria diferença
interna, que nos habita e constitui.
Andando pela cidade, o cego nos chama a atenção e nos faz
pensar. Podemos evitar olhar para ele, tornando-nos voluntária e
momentaneamente cegos para aquela realidade que nos lembra de
nossa vulnerabilidade e de como estamos sujeitos, em nossa
existência, aos acasos e à imprevisibilidade. Podemos também
observá-lo e perceber que, por trás de sua aparente deficiência e
fragilidade, existe uma figura de resistência, que constrói sua
vida enfrentando dia a dia um sem número de obstáculos físicos e
sociais. Quando vemos pessoas cegas trabalhando e criando em
oficinas de práticas artísticas, sempre nos surpreendemos. Numa
entrevista, Clara Fonseca (2006) conta que, na ocasião em que
criou a oficina de cerâmica no Instituto Benjamin Constant,
costumava pensar e mesmo advertia as demais professoras ceramistas
a evitarem o uso de expressões como “olha aqui” ou “veja como se
faz”. Mais tarde, afirmou, quando percebemos que eles viam, não
nos preocupamos mais com este tipo de coisa. Os cegos têm sua
própria maneira de perceber e tais expressões fazem parte de seu
vocabulário cotidiano.
Certo dia, observando o trabalho na oficina, presenciamos
uma cena curiosa. Uma peça que havia sido iniciada na aula
anterior por um dos participantes havia desaparecido. A professora
notou que a peça não estava na prateleira onde o rapaz costumava
habitualmente guardar seus trabalhos. Perguntou onde ele havia
deixado da última vez, mas ele não estava certo de tê-la guardado
no local de costume. A professora não conseguiu encontrá-la.
Outras pessoas se mobilizaram, mas ninguém conseguiu achar. Até
que o rapaz se levantou da cadeira e resolveu empreender sua
própria busca. Depois de apalpar diversas peças espalhadas pelas
muitas prateleiras da oficina, retornou todo sorridente com a peça
na mão e disse: “Eu conheço o meu trabalho” (P10). Rimos juntos da
situação inusitada, que embaralhou momentaneamente os limites
entre o ver e o não ver, entre a deficiência e a eficiência. Para
nós, pesquisadores videntes, situações como esta dão lugar a
experiências estéticas, no sentido em que provocam a suspensão de
juízos anteriores e de um suposto saber sobre a cegueira,
evidenciando também o quanto aprendemos convivendo, observando e
escutando as pessoas cegas.
Observar uma pessoa cega num museu pode ser, para os
videntes, uma experiência estética, no sentido de que também
coloca em questão o que significa ver e não ver.
Tomando um
exemplo mais comum, é difícil ficarmos indiferentes ao vermos uma
pessoa cega apreciando uma escultura através do tato. Percebendo
sua concentração e o sorriso revelador de uma descoberta
inusitada, podemos nos dar conta, às vezes pela primeira vez, de
que há uma apreciação estética para além da visão. Podemos pensar
também nos limites da própria visão e no papel da arte para sua
ampliação. Num texto em que comenta a obra de Lygia Clark, e que
tem o título curioso de “Olhar cego”, Hubert Godard (2006) afirma
que a força da arte encontra-se menos na invenção de objetos novos
do que na produção de mudanças na posição do olhar. Tais mudanças
vão justamente na direção do olhar cego, que permite a apreensão
direta de um campo de forças, desmanchando momentaneamente a
separação sujeito-objeto. Não estando mediado e limitado pela
história pessoal do percebedor, o olhar cego – que não é exclusivo
da visão, mas constitui uma dimensão de todos os sentidos –
possibilita um mergulho na experiência, permitindo captar
diretamente as forças presentes na obra de arte e atuando, por
esta razão, na produção da subjetividade. Nesta medida, podemos
concluir que as práticas artísticas e a experiência estética podem
ampliar a percepção de cegos e videntes, atualizando virtualidades
inusitadas e concorrendo para a produção de subjetividades mais
abertas para a alteridade e mais voltadas para o coletivo.
FIM
NOTAS:
-
1. As ideias aqui apresentadas foram desenvolvidas no
contexto projeto "Práticas artísticas e construção da cidadania com
pessoas deficientes visuais", realizado numa parceria entre o
Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal do
Rio de Janeiro (UFRJ), o Programa de Pós-Graduação em Psicologia
da Universidade Federal Fluminense (UFF) e o Instituto Benjamin
Constant (IBC). Agradecemos à FAPERJ e ao CNPq pelo apoio.
-
2. Entrevista concedida por um dos participantes (P6) do
projeto Atenção e invenção na produção coletiva de imagens. Apoio
CNPq (2005-2011).
-
3. Outras oficinas desta natureza ocorrem no contexto do
projeto de pesquisa "Práticas artísticas e construção da cidadania
com pessoas deficientes visuais". Cf. o texto de Laura Pozzana, bem
como o de Camila Araújo Alves, Carolina Manso, Josselem Conti,
Julia Neves, Liz Eliodoraz, Luciana Franco, Thadeu Gonçalves,
Vandré Vitorino e Marcia Moraes, ambos nesta coletânea.
-
4. Cf. também o texto de Filipe Herkenhoff Carijó, Juliana
de Moura Quaresma Magalhães e Maria Clara de Almeida, nesta
coletânea.
-
5. Cf. o texto de Viviane Sarraf, nesta coletânea. A
pesquisadora também oferece um excelente mapeamento da situação
dos museus de arte e ciência no Brasil em
www.museuacessivel.incubadora.fapesp.br.
-
6. Para saber mais sobre as características do tato cf.
Hatwell, I, Streri, A. & Gentaz, E. (Orgs) (2000) Toucher pour
connaître. Paris: PUF.
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