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 Sobre a Deficiência Visual

Características da comunicação não-verbal entre o enfermeiro e o cego

Cristiana Brasil de Almeida
 

 blind person in hospital
 

índice:
INTRODUÇÃO
OBJETIVOS DO ESTUDO
REFERENCIAL TEÓRICO
METODOLOGIA
RESULTADOS
DISCUSSÃO
CONCLUSÃO
REFERÊNCIAS


1 INTRODUÇÃO

1.1 Problemática

Como afirma Hall (1986), a comunicação constitui o fundamento cultural da pessoa humana, e mais que isso, da própria vida. É também uma necessidade básica sem a qual a existência da humanidade seria impossível (STEFANELLI, 1993). Em todas as manifestações da vida a comunicação está presente e representa elemento essencial para a interação entre os seres humanos. Além disso, tem objetivos específicos: pode se prestar para as relações interpessoais, as relações de grupo, a transmissão de idéias, de ensinamentos, de convencimentos, de cultura, de lazer, entre outros (PAGLIUCA, 1996).

Etimologicamente, a palavra comunicar vem do latim communicare, cujo significado é “pôr em comum”. O processo de comunicação é um instrumento básico da experiência social. Assim, para haver comunicação deve haver compreensão, pois, desse modo, as idéias, imagens, experiências serão colocadas em comum (MENDES, 1994).

Por comunicação entende-se, também, a transmissão de estímulos e respostas provocadas por meio de um sistema completo ou parcialmente compartilhado. De acordo com Daft (1999), comunicação é todo processo de transmissão e troca de mensagens entre os seres humanos; é concebida, ainda, como um processo pelo qual a informação é trocada por duas ou mais pessoas com compartilhamento e discussão de idéias e pensamentos que influenciarão no comportamento do indivíduo. Esse processo ocorre por meio de palavras, linguagem corporal, sonoridade, tom e intensidade da voz.

Um dos objetivos básicos da comunicação é alterar as relações originais entre os seres humanos e o ambiente onde estes se encontram, influenciando os outros e a nós próprios, bem como o ambiente físico, para se tornarem agentes que se comunicam para influenciar intencionalmente.

Para haver comunicação tem de ocorrer um conjunto de, pelo menos, seis elementos, quais sejam: emissor (ou destinador), que produz e emite determinada mensagem (código), dirigida a um receptor (ou destinatário). Estes são os principais. Mas para a comunicação se processar efetivamente entre, emissor e receptor, a mensagem, isto é, a informação produzida e transmitida segundo as regras do código, deve ser realmente recebida e decodificada pelo receptor. Por isso ambos devem estar dentro do mesmo contexto (referentes situacionais), devem utilizar um mesmo código (conjunto estruturado de signos) e estabelecerem um efetivo contato por meio de um canal de comunicação. Na ausência de qualquer um destes elementos ou fatores, ocorre uma situação de ruído na comunicação, entendido como todo o fenômeno que perturba de alguma forma a transmissão da mensagem e sua perfeita recepção ou decodificação por parte do receptor (BITTI; ZANI, 1997).

É nesse processo que acontecem as relações sociais entendidas por comunicação interpessoal, onde se dão as trocas de experiências, sentimentos, emoções e descobertas do outro. Um importante aspecto da comunicação interpessoal é o estabelecimento de relações.

Como afirma Mendes (1994, p.16), “no processo de comunicação interpessoal há o desenvolvimento da personalidade humana, emergência da vida grupal e surgimento e elaboração da cultura”.

Como ressaltado, em toda situação de comunicação existem dois elementos fundamentais para a mensagem ser apreendida: o emissor e o receptor. O emissor é a pessoa que transmite aos outros a idéia, o pensamento, a informação. O receptor é o destinatário para quem a mensagem é enviada. A mensagem expressa a idéia ou pensamento mandado ao receptor, e pode ser emitida de várias formas: diretamente, em encontros pessoa a pessoa, ou indiretamente, por meio da escrita, do telefone, da televisão, entre outros. Para interpretar o significado da mensagem, o receptor decodifica os símbolos. Nesse processo de codificar e decodificar as mensagens, podem ocorrer erros potenciais da comunicação em decorrência de ruídos originados da conversão dos símbolos em significados. Quando se efetiva a perfeita comunicação entre o receptor e o emissor há uma mensagem de retorno denominada feedback. Sem este, a comunicação torna-se uma via de mão única. Assim, o feedback se configura como ajuda para a eficácia da comunicação, uma vez que possibilita determinar se o receptor a interpretou corretamente (DAFT, 1999).

Dessa forma, o processo de comunicação, por representar o sistema básico das experiências sociais, é fundamental no desenvolvimento da personalidade humana, nas interações grupais e no surgimento e elaboração cultural dos seres humanos. É o componente de informação das interações.

Basicamente, a comunicação pode ser classificada como verbal e não-verbal (STEFANELLI, 1993). Enquanto a comunicação verbal é plenamente voluntária, a não-verbal pode ser uma reação involuntária ou um ato comunicativo propositado.

Como destaca Silva (1996), a comunicação não-verbal é entendida como toda informação obtida por posições do corpo, organização dos objetos no espaço e até pela relação de distância mantida entre os indivíduos.

A comunicação não-verbal refere-se a mensagens enviadas por meio de ações e comportamentos humanos em vez de palavras, representando a maior parte das mensagens enviadas e recebidas, pelas expressões faciais, maneirismos, voz, postura e vestimenta. Esse tipo de comunicação acontece principalmente nos encontros pessoais. O pesquisador americano Mehrabian fez uma estimativa da proporção verbal / não-verbal do comportamento e concluiu que 55% da mensagem é transmitida via linguagem corporal. Ainda segundo o mesmo pesquisador, a voz é responsável por 38% das mensagens e as palavras apenas por 7%. De acordo com DAFT (1999), os pesos relativos das três fontes, na interpretação da mensagem, são reconhecidos igualmente como: impacto verbal, 7%; impacto vocal, 38%; e impacto facial, 55%.

Segundo afirmava o teórico Birdwhistell, o homem é um ser complexo e multissensorial que, de vez em quando, verbaliza (SILVA et al., 2000). Diante disso, pode-se concluir que a comunicação não-verbal exerce maior influência em relação àquilo que se deseja exprimir e que as expressões e manifestações corporais são indispensáveis para ocorrer o processo comunicativo. Muitas vezes, a comunicação não-verbal modifica a que está sendo verbalizada: as duas se contrapõem.

A comunicação se estabelece simultaneamente em diferentes níveis, do plenamente consciente ao inconsciente (HALL, 1986). A comunicação não-verbal, por exemplo, é usada, em parte, de forma inconsciente, embora se possa usá-la também de forma consciente e estratégica. Neste tipo de comunicação, utilizam-se signos não-verbais, isto é, quaisquer outros tipos de signos diferentes da língua falada ou escrita, usados para representar algum significado que não seja ele próprio. Estes signos são significativos para as pessoas que os utilizam.

De acordo com classificação estabelecida por Littlejohn (1998), os signos não-verbais podem ser categorizados da seguinte forma: cinésicos, proxêmicos e paralingüísticos.

A cinésica estuda os movimentos corporais, enquanto a proxêmica estuda a posição corporal e as relações espaciais e a paralinguagem centraliza-se no estudo do uso da voz e da vocalização. Muitos comportamentos não-verbais estão inter-relacionados numa mensagem, uma vez que raramente um único movimento do corpo, por si mesmo, comunica um significado.


1.2 Justificativa

Nos serviços de saúde, o enfermeiro deve agir como facilitador dos componentes da comunicação no intuito de atender às necessidades humanas básicas dos pacientes.

Conforme Mendes (1994), para construir os relacionamentos e propiciar compreensão, alguns componentes são necessários. Entre estes, incluem-se empatia, respeito, sinceridade, presença, audição, percepção, cuidado, revelação, aceitação, autenticidade.

Na assistência de enfermagem aos pacientes, a comunicação agirá como facilitadora para alcançar os objetivos dessa assistência (SILVA et al., 2000). Para isto, a comunicação deve ser vista no contexto de relacionamento onde ela ocorre, pois, deslocada de um contexto, esta não tem sentido. Ademais, deverá ser planejada de acordo com a clientela, cada interação e cada pessoa em particular. Conforme ressaltado por Stefanelli (1993), as técnicas de comunicação terapêutica devem ser adotadas em todo processo comunicativo, que vai desde o início do relacionamento (técnicas de expressão), ao esclarecimento do que foi mencionado pelo paciente (técnicas de clarificação) até a validação das mensagens recebidas durante o processo terapêutico por todas as pessoas envolvidas (técnicas de validação).

Portanto, com vistas à melhor comunicação com o paciente, o enfermeiro deverá estar atento a esses componentes. Deve também considerar que a capacidade de ouvir e compreender o paciente não inclui somente a fala, mas também suas expressões faciais e corporais para evitar bloqueios e interrupções nesse sentido.

Na consulta de enfermagem à clientela cega, o enfermeiro poderá adotar em sua prática essas técnicas terapêuticas, como, por exemplo, usar terapeuticamente o silêncio, uma vez que a comunicação não-verbal ocorre também nestes momentos e os gestos expressos tanto pela enfermeira como pelo cego validam as mensagens enviadas e recebidas por ambos.

Ainda nesta interação, a enfermeira é vidente e percebe tanto a comunicação verbal como a não-verbal emitida pelo cego. Entretanto deverá estar atenta à sua expressão gestual porque os signos não-verbais enviados por ela ao cego não remetem ao que ela expressa verbalmente. Já os sinais não-verbais enviados pelo cego podem ter sentido diferente para um ser vidente, pois este dependerá do contexto social e das experiências visuais ou não vivenciadas ao longo da vida. Desse modo, a deficiência visual pode dificultar a relação enfermeiro-paciente e comprometer o trabalho do profissional no referente à orientação do paciente, à adesão deste ao tratamento, à compreensão e interpretação da comunicação, entre outras. Além disso, interfere consideravelmente na comunicação enfermeiro-cego, pois a visão é sem dúvida um dos principais sentidos na recepção da comunicação não-verbal.


1.3 A Experiência no Projeto Saúde Ocular

O envolvimento com a temática saúde ocular iniciou-se no terceiro semestre da graduação em enfermagem, quando despertou-me o interesse no aprofundamento do estudo dessa área. Inicialmente, fui admitida no projeto como voluntária no intuito de conhecer as várias áreas da saúde ocular pesquisadas dentro do projeto.

Vale ressaltar que o Projeto Integrado Saúde Ocular é subsidiado pelo CNPq, existe desde 1994 e caracteriza por desenvolver estudos na área de pesquisa e extensão. É subdividido em quatro subáreas: Saúde Ocular da Criança; Saúde Ocular do Adulto; Saúde Ocular do Idoso e Educação em Saúde do Cego. Até o final da carreira acadêmica desenvolvi pesquisas relacionadas à saúde ocular do adulto, mais especificamente, do trabalhador.

Após a saída da academia, fui contratada como enfermeira para realizar consultas de enfermagem à criança com necessidades especiais, aqui incluídas as crianças com diagnóstico de cegueira. A partir desse contato com as crianças cegas decidi aprofundar os estudos na avaliação da comunicação da enfermeira com os cegos, particularmente a comunicação não-verbal. Alguns motivos justificam minha opção pela comunicação não-verbal. Entre estes, o interesse de desvendar esse tipo de comunicação com o cego. Além disso, como pessoa extremamente observadora, gostaria de entender esse processo e contribuir para a melhor atuação da enfermagem com essas pessoas. A comunicação é a base para qualquer intervenção com o paciente. No caso de pacientes com necessidades especiais, esse processo assume características também especiais. Portanto, devemos ter habilidade para nos comunicar terapeuticamente e realizar nosso trabalho de forma que as necessidades desses pacientes não se tornem barreiras para a comunicação. Para isso, é preciso enfatizar a comunicação não-verbal e usá-la adequadamente.


2 OBJETIVOS DO ESTUDO

2.1 Objetivo Geral

    -> Analisar a comunicação não-verbal do enfermeiro com o cego durante a consulta de enfermagem.

2.2 Objetivos Específicos

  1. Testar o índice de confiabilidade entre os juízes da análise da comunicação não-verbal;
  2. Classificar os sinais não-verbais segundo o referencial de Hall (1986);
  3. Verificar a associação entre as filmagens e os fatores da comunicação não-verbal;
  4. Identificar as barreiras da comunicação não-verbal entre o enfermeiro e o cego.


3 REFERENCIAL TEÓRICO

Com base na literatura específica (SMELTZER; BARE, 1999; DONDIS, 1997; PAGLIUCA, 1996), o referencial teórico abordará as seguintes questões: diabetes, cegueira e comunicação não-verbal segundo a Teoria Proxêmica de Hall (1986).


3.1 Diabetes

Como doença crônico-degenerativa, a diabetes pode comprometer o aparelho visual, mais especificamente a retina. A retina, área do olho que recebe imagens e envia informações ao cérebro, é uma estrutura localizada na parte posterior do olho, bastante vascularizada com todos os tipos de vasos (pequenas artérias e veias, arteríolas, vênulas e capilares), responsável pela visão das cores e do preto e branco por meio de células específicas que compõem este órgão, cones e bastonetes, respectivamente. Pessoas com diabetes têm propensão a complicações oculares, especificamente retinopatia, catarata e outros problemas.

Há dois tipos de diabetes: a do tipo I (também chamada juvenil ou insulino dependente), quando o corpo paralisa completamente a excreção de insulina (hormônio que torna o corpo capaz de transformar alimentos em glicose). Pessoas com esse tipo de diabetes necessitam tomar injeções de insulina diariamente. Esta forma de diabetes é mais freqüente em crianças ou jovens, mas pode ocorrer em qualquer idade. E a do tipo II (também chamada de não insulino dependente), quando o corpo ainda produz insulina, mas não o suficiente. Esta forma de diabetes normalmente ocorre em pessoas acima de 40 anos, com peso acima do normal, e, ou, histórico de diabetes na família. Qualquer pessoa pode adquirir diabetes. No entanto, as com maior propensão à doença são as seguintes: pessoas com histórico de diabetes na família, acima de 40 anos e obesas, as descendentes de afroamericanos, hispânicos ou asiáticos, e as mulheres grávidas (diabetes gestacional), e que talvez voltem a adquirir a doença quando mais velhas. A doença ocular comumente advinda com a diabetes é a retinopatia diabética, causada por mudanças nos pequenos vasos da retina. Em algumas pessoas com retinopatia diabética, as veias podem se dilatar e vazar líquido. Em outras, novas veias crescem na superfície do olho. Estas mudanças podem resultar na perda de visão progressiva até a cegueira (SMELTZER; BARE, 1999).

Existem basicamente três estágios principais da retinopatia, a saber: não-proliferativa, pré-proliferativa e proliferativa. Em sua grande maioria, pacientes desenvolvem algum grau de retinopatia num prazo médio de cinco a quinze anos do diagnóstico de diabetes. Na retinopatia não-proliferativa os pacientes têm alguns prejuízos visuais, apresentando pouco risco de desenvolver cegueira no futuro. A retinopatia préproliferativa é considerada precursora da retinopatia proliferativa mais grave. Em torno de 10 a 50% dos pacientes irão desenvolver esta forma mais severa a curto prazo. A retinopatia proliferativa causa maior ameaça à visão e é o estágio em que ocorre a perda visual. Esta é causada por hemorragia no humor vítreo (estrutura gelatinosa responsável pelo formato do olho) ou descolamento de retina (SMELTZER; BARE, 1999).

Os diabéticos devem ir ao oftalmologista anualmente, pois o médico realizará os exames necessários para detectar qualquer doença que eventualmente possa ocorrer com a visão. Atualmente existem diversos recursos cirúrgicos para casos mais complicados, mas o diagnóstico precoce pode minimizar os riscos da perda de visão.


3.2 Cegueira

A visão é um dos principais sentidos na captação de estímulos e projeções espaciais. De modo geral, ela facilita o relacionamento do homem na sociedade.

Os olhos são responsáveis por inúmeras funções desenvolvidas pelo homem, entre as quais identificar a presença de amigos bem como a natureza dos objetos e materiais ao seu redor, além da distância dos alimentos. Graças aos olhos, as pessoas percebem as características físicas de qualquer ambiente e podem se desviar de obstáculos e perigos. A maior fonte de informações dos seres humanos é a visão. Por meio dela eles se mantêm informados acerca do mundo, encontram mais facilidade no cuidado ao próprio corpo e constroem seus utensílios (HALL, 1986). Ao ver, identifica-se variado número de ações: vivenciam-se os acontecimentos de maneira direta; descobre-se algo ainda não percebido; reconhece-se algo novo e percebe-se o desenvolvimento das transformações por meio da observação atenta (DONDIS, 1997).

Conforme ressaltado por Hall (1986), o espaço físico de domínio de um cego em ambiente não familiar limita-se a um raio de seis a trinta metros. Nas suas deslocações, os cegos mais bem dotados vêem-se reduzidos a nunca ultrapassarem a velocidade de três a cinco quilômetros por hora em um ambiente familiar. Isto em caso de cegueira total.

O termo cegueira pressupõe completa perda de visão, ou seja, a visão é nula, nem a percepção luminosa está presente, o que acarreta perda ou limitação de oportunidades de participar da vida comunitária em condições de igualdade com as demais pessoas. Remete, também, às incapacidades da pessoa em relação ao meio. Desse modo, na sociedade, os portadores de deficiência encontram obstáculos que dificultam seu acesso aos serviços de saúde (PAGLIUCA; RODRIGUES, 1998).

Algumas vezes a cegueira é apenas parcial. Por exemplo, quando os indivíduos são capazes de contar dedos a uma curta distância ou de perceber vultos. A pessoa portadora de visão subnormal possui acuidade visual 6/60 e 18/60 (escala métrica) e/ ou campo visual entre 20 e 50º. Pedagogicamente, delimita-se como cego aquele que, mesmo possuindo visão subnormal, necessita de instrução em Braille (sistema de escrita por pontos em relevo) e como portador de visão subnormal aquele que lê tipos impressos ampliados ou com o auxílio de potentes recursos ópticos (CEGUEIRA...,2004).

A perda parcial ou total, temporária ou permanente de um dos órgãos dos sentidos compromete o processo de comunicação. No caso deste estudo, o interesse são as pessoas com deficiência visual. Como o cego não possui a capacidade de se comunicar pela forma visual e diante da importância desta no processo de comunicação, o enfermeiro deve estar atento para explorar os outros órgãos dos sentidos, como a audição, o paladar, o olfato, o tato, no intuito de tornar eficaz sua comunicação com este tipo de clientela (PAGLIUCA,1996).

Uma das dificuldades das pessoas cegas é a construção do esquema corporal. Elas, assim como as videntes, não constroem sozinhas tal esquema. No jovem cego congênito, há necessidade tanto do toque corporal quanto do diálogo verbal com os pais sobre o esquema corporal e a imagem do seu corpo. Conforme Telford e Sawrey (1988), se este diálogo não for bem esclarecido, devido à perda de elementos da comunicação não-verbal (posturas, gestos e expressões faciais), a imagem do corpo do cego congênito poderá ficar alterada, influenciando no seu movimento. Isto, porém, não acontece em relação às pessoas com cegueira adquirida.


3.3 Comunicação Não-Verbal

Segundo a Teoria Proxêmica de Hall (1986) Por meio da visão, o ser humano tem a possibilidade de identificar objetos, distinguir cores, formas, tamanhos e distâncias. Para Hall (1986, p.133), “a distância faz parte de um dos sistemas de coordenadas na relação de nosso corpo com outros corpos e objetos”.

A visão se apresenta como um sentido de grande importância na captação de estímulos e projeções espaciais, facilitando o relacionamento do homem na sociedade.

Enquanto as pessoas com visão poderiam atingir as estrelas, os cegos têm sua percepção limitada a um raio de seis a trinta metros. Além disso, na maioria das vezes, suas relações pessoais são comprometidas pela exclusão social, pois eles diferem do padrão de normalidade estabelecido (HALL,1986).

Embora a expressão verbal seja uma das características mais fascinantes do ser humano, a linguagem não-verbal é um elemento fundamental na comunicação com os outros.

O comportamento não-verbal e as inúmeras mensagens comunicadas por meio dele influenciam, com melhores ou piores resultados, as pessoas com quem se fala. Muitas vezes o comportamento ineficaz das pessoas está relacionado com a quase ausência de comportamentos não-verbais adequados.

Entre as comunicações não-verbais incluem-se sinais que produzimos, gestos e imagens que criamos ou percebemos. Elas acontecem por meio das mãos, da cabeça, do rosto, da boca, enfim, ocorrem pela expressão do corpo. Apesar de nem sempre a expressão não-verbal possuir a objetividade das palavras, é carregada de significados. Mais emocional e sensitivo, o não-verbal muitas vezes é o elemento de surpresa na comunicação consciente e programada. Muitos sinais de comunicação reforçam, substituem ou contrariam a fala; os gestos, a expressão facial, a postura (movimentos e inclinações do corpo), a ocupação do espaço, o toque (o tato é um sentido que substitui o olhar, principalmente quando há limitação visual). A comunicação não-verbal tem expressão própria da cultura, do ambiente social onde vigora. Ela transmite crenças, valores comuns a determinados povos ou mesmo a uma parcela da população. O que a comunicação não-verbal não domina é o mundo interior do destinatário, que interpreta, modifica, reinventa a mensagem, pois este destinatário está inserido em uma cultura própria e pode manipular esse tipo de comunicação.

Vários teóricos aprofundaram seus estudos na comunicação não-verbal, também conhecida como teoria de signos não-verbais. No caso desse estudo, optou-se pela Teoria Proxêmica de Hall (1986), que avalia a posição corporal e as relações espaciais do indivíduo como elaboração da cultura onde está inserido.

A análise proxêmica de Hall (1986) envolve oito fatores que compõem suas categorias primárias:

  1. Postura-sexo: analisa o sexo dos participantes e a posição básica dos interlocutores (de pé, sentado, deitado).
  2. Eixo sociofugo-sociopeto: o eixo sociofugo demonstra o desencorajamento da interação enquanto o sociopeto implica o inverso. Essa dimensão analisa o ângulo dos ombros com relação à outra pessoa; a posição dos interlocutores (face a face, de costas um para o outro ou qualquer outra angulação).
  3. Cinestésico: analisa o contato físico a curta distância, como o toque ou o roçar da pele, e o posicionamento das partes do corpo.
  4. Comportamento de contato: este fator analisa as formas de relações táteis como acariciar, agarrar, apalpar, segurar demoradamente, apertar, tocar localizado, roçar acidental ou nenhum contato físico.
  5. Código visual: verifica o modo do contato visual nas interações, como o olho no olho, ou a ausência de contato.
  6. Código térmico: detém-se no calor percebido pelos interlocutores.
  7. Código olfativo: analisa as características e o grau de odor sentido pelos interlocutores.
  8. Volume da voz: analisa a percepção dos interlocutores com relação ao volume e intensidade da fala utilizada pelos interlocutores.


Como evidenciam estes fatores, a proxemia estuda os vários tipos de sinais e traços distintivos relativos ao uso do espaço nas relações humanas.

Ainda segundo Hall (1986), existem quatro distâncias interpessoais:

  1. Distância íntima (varia de 0 a 50cm): é a distância em que ocorrem o contato físico, o calor humano, a transmissão dos odores e os encontros pessoais mais íntimos.
  2. Distância pessoal (50cm a 1,20m): embora seja uma distância próxima, pode não acontecer o contato físico, e os odores e o calor do corpo não serem mais sentidos.
  3. Distância social (1,20m a 3,60m): nela não há mais o contato físico, porém existe o contato visual com o interlocutor.
  4. Distância pública (acima de 3,60m): é aquela que ocorre nos comícios e conferências, não há contato visual individual (a visão é coletiva).

Birdwhistell (1970), considerado um dos mais importantes teóricos na área do movimento do corpo, é o pai da cinésica e, ao estudá-la, concentrou-se no canal visual. A cinésica interessa-se em abstrair das contínuas variações musculares, que são características dos sistemas fisiológicos vivos, aqueles agrupamentos de movimentos revestidos de significado para o processo de comunicação, e, portanto, para os sistemas interacionais de determinados grupos sociais. Entre os milhares de movimentos corporais perceptíveis produzidos num curto período de tempo, alguns deles destacam-se como funcionais em comunicação. Os movimentos corporais são chamados de cines. Cines são uma gama de movimentos ou posições vistas como se fossem um único movimento ou posição. Um movimento da pálpebra ou um gesto de mão são exemplos de cines (BITTI; ZANI, 1997).

As idéias fundamentais desta teoria interpretam a comunicação como um processo complexo e contínuo, já que utiliza multicanais sensoriais como o tato, o olfato, a audição, o paladar e a visão, necessários nas relações interpessoais para decodificar a mensagem expressa, seja verbal ou não-verbal. De acordo com a Teoria de Birdwhistell (1970), esta possui sete pressupostos básicos. São eles:

  1. Nenhum movimento corporal ou expressão corporal é destituído de significado no contexto em que se apresenta.
  2. A postura corporal, o movimento e a expressão facial são padronizados e, por conseguinte, estão sujeitos à análise sistemática.
  3. O movimento corporal sistemático dos membros de uma comunidade é considerado uma função do sistema social a que o grupo pertence.
  4. A atividade corporal visível, tal como a atividade acústica audível, influencia sistematicamente o comportamento de outros membros de qualquer grupo.
  5. Até que se demonstre o contrário, tal comportamento será considerado uma função comunicativa investigável.
  6. Os significados daí derivados são funções tanto do comportamento como das operações pelas quais ele é investigado.
  7. O sistema biológico particular e a experiência especial de vida de qualquer indivíduo contribuirão como elementos idiossincrásicos (maneira de ver, sentir, reação própria de cada pessoa) para o seu sistema cinésico, mas a qualidade individual ou sintomática desses elementos só pode ser avaliada após análise do sistema mais vasto do qual eles são parte integrante. Na opinião de Birdwhistell (1970), um ou mais canais estão sempre em utilização contínua e esses estudos devem ser contextualizados.

Numa mensagem, os comportamentos não-verbais estão inter-relacionados e, raramente, um único movimento do corpo, por si mesmo, comunica um significado (Idem, ibidem). Os signos não-verbais servem a uma variedade de funções de interação, pois a comunicação não-verbal desempenha diversas e importantes funções no comportamento social da humanidade. Conforme mostraram as investigações dos últimos dez anos, há uma notável gama de elementos não-verbais no comportamento comunicativo do homem que funcionam de maneira particularmente complexa. Atualmente, existem condições de apreciar o tipo de influência que nosso comportamento não-verbal exerce nos outros e de julgar a capacidade das outras pessoas para emitir sinais não-verbais ou para os interpretar; sabe-se que a informação fornecida pela palavra é, em certos casos, contrariada e desmentida pelos sinais não-verbais que a acompanham e que, quando não é possível a comunicação verbal, as informações são transmitidas por meio de sinais não-verbais (BITTI; ZANI, 1997).

Ao formar, por exemplo, uma idéia acerca de outra pessoa, utilizam-se, essencialmente, as informações provenientes do seu comportamento não-verbal e, para reconhecer o estado emotivo ou as atitudes interpessoais do interlocutor, presta-se atenção não só ao que ele diz como também ao seu tom de voz e à sua mímica, aos seus movimentos e gestos (Idem, ibidem).

Muitos aspectos não-verbais do comportamento social exigem complicados processos de registro, análise e reprodução. Mas a difusão das técnicas cinematográficas e videográficas, por exemplo, facilita de modo notável essa tarefa.

As funções desempenhadas pela comunicação não-verbal são múltiplas: pode-se entendê-la como “linguagem de relação”; pode-se também vê-la como principal meio de expressão e comunicação das emoções; nela há valor simbólico especial que exprime, por meio de uma linguagem corporal elementar, atitudes sobre a imagem de si próprio e do seu corpo e que participa na apresentação do eu dos outros; ela apóia e completa a comunicação verbal e desempenha uma função metacomunicativa para interpretar o significado das expressões verbais; funciona como “canal de dispersão”, pois, estando menos sujeita que a linguagem à regulamentação consciente ou à censura inconsciente, deixa passar mais facilmente conteúdos profundos da experiência do indivíduo; desempenha função de regulação da interação, tomando parte na sincronização dos turnos e das seqüências, fornecendo informações retroativas e emitindo sinais de atenção; e, finalmente, assume funções de substituição da comunicação verbal em situações nas quais não é necessário o uso da linguagem, como, por exemplo, no meneio de cabeça.

Ainda de acordo com Bitti e Zani (1997), os elementos que fazem parte do sistema cinésico são os seguintes: comportamento espacial, comportamento motor-gestual, comportamento mímico do rosto e comportamento visual.

Nas observações de Hall (1986) sobre a comunicação proxêmica, e particularmente sobre a distância entre o emissor e o receptor, determinados aspectos são enfatizados. Por exemplo, como afirma o autor, o contato corporal representa o ato ativo de tocar e ser tocado, por meio de carícias, abraços, apertos, pancadas etc. A distância interpessoal exprime a relação entre o encontro e outras atividades que possam acontecer no mesmo local. As modificações da distância interpessoal no decurso da interação podem fornecer informações sobre a intenção de iniciar, manter ou interromper um encontro. A orientação se dá no ângulo em que as pessoas se situam no espaço em relação umas às outras; a orientação é um elemento de comunicação das atitudes interpessoais, por exemplo: cara a cara e lado a lado. A postura se refere à maneira de sentar-se, andar, estar de pé, bem como revela estilos de comportamento que exprimem os papéis vividos; podem revelar ainda o estado de espírito, a confiança que a pessoa tem em si própria, ou a imagem de si mesma.

Dos vários movimentos, há alguns particularmente expressivos, como os das mãos e os da cabeça. Enquanto os acenos da cabeça são sinais não-verbais muito rápidos, mas importantes indicadores sobre o andamento da interação, os movimentos das mãos são altamente expressivos. Acerca destes sinais não-verbais têm sido promovidos estudos sistemáticos, preocupados acima de tudo com o relacionamento dos gestos com estados emocionais ou atribuindo-lhes sentido particular, ou ainda com o reconhecimento das suas funções no referente à comunicação verbal.

Ekman, Friesen e Scherer (1976), estudiosos da comunicação não-verbal, relacionam os gestos com as condições de uso, com a sua origem e com a sua codificação.

Estes autores distinguiram cinco categorias de sinais não-verbais: gestos simbólicos (ou emblemas); gestos ilustrativos; gestos indicadores do estado emocional; gestos reguladores de interação; gestos de adaptação (gestos auto-adaptativos, gestos centrados no outro, gestos de adaptação dirigidos a objetos). Segundo Bitti e Zani (1997), o comportamento motor gestual é avaliado de acordo com estes tipos de gestos.

No estudo ora desenvolvido, aprofundaram-se apenas três destas subcategorias: os gestos emblemáticos, os ilustradores e os reguladores.

Os gestos simbólicos ou emblemas são sinais emitidos intencionalmente e que possuem um significado específico capaz de ser diretamente traduzido em palavras. São gestos culturais, aprendidos, manifestados pelas diversas partes do corpo, principalmente os membros superiores e a cabeça. Estes tipos de gestos podem repetir ou substituir o conteúdo da comunicação verbal no caso de despedidas em que a pessoa acena com a mão. São exemplos desses tipos de gestos em nossa cultura: bater o pé (impaciência, raiva), mover as mãos (adeus, ansiedade, raiva), encolher os ombros (dúvida, proteção), roer as unhas (ansiedade ou medo) etc. (SILVA, 1996).

Os gestos ilustrativos ou ilustradores são todos aqueles movimentos executados pela maior parte dos indivíduos no decurso da comunicação verbal e que ilustram o que eles vão dizendo, aprendidos por imitação (complementam ou não a comunicação verbal). São gestos emitidos conscientemente e, em certos casos, mesmo intencionalmente, e variam em função de fatores étnicos e culturais (SILVA, 1996).

Os gestos reguladores de interação servem para manter o fluxo da conversação e indicam o interesse ou não da pessoa, se deseja falar, se deseja interromper a comunicação.

Como exemplos, podem ser citados: o meneio positivo de cabeça, que reforça a continuidade da fala do outro, o mover os olhos na direção da pessoa, que reforça a fala, o franzir as sobrancelhas, as mudanças de posição. Esses gestos estão em nossa consciência e são difíceis de serem inibidos (SILVA, 1996).

Ainda conforme Silva (1996), o comportamento facial enfatiza o rosto como a área do corpo de maior importância no plano expressivo e comunicativo. É o canal privilegiado da expressão das emoções: mostra as atitudes interpessoais e produz significativos sinais de interação. O rosto é, desde o nascimento, um poderoso canal de interação entre o adulto e a criança: ele é a fonte de símbolos que mais atrai o recém-nascido catalisando sua atenção e provocando uma sensação de bem-estar, base indispensável para a evolução da sociabilidade.

No homem, a mímica facial desempenha diversas funções agrupadas como: expressão das emoções e das atitudes interpessoais; envio de sinais inerentes à interação em curso e manifestação de aspectos típicos da personalidade do indivíduo. Durante a interação social, o rosto participa ativamente nas trocas interpessoais e pode assim manifestar concordância, perplexidade, atenção, interesse, indiferença, etc. A expressão facial fornece um constante comentário à produção verbal (BITTI; ZANI, 1997).

Ao analisar o código visual, Hall (1986) afirma que o olhar constitui um elemento único e primário das relações interpessoais. São numerosas as funções da interação visual: o olhar desempenha um papel importante na comunicação de atitudes interpessoais e no estabelecimento de relações; está, além disso, estreitamente ligado à comunicação verbal, no decurso da qual é utilizado para obter informações retroativas sobre as reações do interlocutor enquanto se vai falando para obter novos elementos de informação acerca daquilo que é dito.

O olhar é, enfim, usado como sinal para preparar encontros, para saudar e para indicar se a idéia expressa foi compreendida pelo outro. Estas são funções diferentes, e é por isso que o estudo do olhar se revela notavelmente complexo, dada a dificuldade de distinguir a função específica por ele ocupada em cada momento particular.

No início de um encontro, há olhares recíprocos que têm por finalidade estabelecer uma sincronia de base para o desenrolar da conversação. Durante esta, há constantes movimentos oculares, tanto do falante como do ouvinte. Aquele que fala olha o ouvinte em momentos estratégicos a fim de colher informações retroativas; lança-lhe olhares para enfatizar suas palavras, ou para ser mais persuasivo, e comunica, com o olhar “final”, que está a terminar a sua intervenção (Idem, ibidem).

No estudo de Hall sobre a comunicação proxêmica, inclui-se também o volume da voz. Segundo o autor, o volume da voz refere-se à intensidade e volume com que se fala e pode ser em forma de: tom normal, que indica tranqüilidade; sussurro, que sugere algo que não pode ser ouvido por outras pessoas, é secreto; e grito, que indica raiva, desapontamento (HALL,1986).

Na interação com um paciente cego, a enfermeira vidente deverá estar atenta para o que ela expressa tanto verbalmente como não verbalmente, pois o cego não possui a capacidade visual para perceber a gestualidade do profissional. Além disso, os gestos e maneirismos apresentados pelo não vidente podem não ter a mesma significação para uma pessoa vidente.


4 METODOLOGIA

4.1 Tipo de Estudo

Estudo exploratório, descritivo, quantitativo, que permitiu analisar a comunicação não-verbal da enfermeira com o cego com vistas a fornecer subsídios para a intervenção e, portanto, melhoria na qualidade do atendimento a esta clientela. Este tipo de pesquisa tem como objetivo principal a observação, descrição e documentação do contexto da vida a ser aprofundada. Como afirmam Polit, Beck e Hungler (2004), a pesquisa quantitativa utiliza testes estatísticos para reduzir, resumir, organizar, avaliar, interpretar e comunicar as informações numéricas.


4.2 Aspectos Éticos e Legais

O projeto foi elaborado segundo as normas que regulamentam pesquisas em seres humanos, do Conselho Nacional de Saúde, conforme a Resolução 196/96 do Ministério da Saúde (BRASIL, 1996) e submetido ao Comitê de Ética e Pesquisa da Universidade Federal do Ceará. Recebeu a aprovação na reunião do dia 27 de janeiro de 2005 com protocolo n.º 327/04. A coleta de dados iniciou-se após a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido pela enfermeira, pelo cego e seu acompanhante.

Em seguida à explicação da pesquisa e esclarecidas as dúvidas, foi perguntado ao cego e ao acompanhante, ainda na sala de espera, se aceitavam participar do estudo. Após concordarem, foi apresentado o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido que foi lido para eles e assinado pelo próprio cego, se ele estava em condições de realizar esta ação, ou pelo seu responsável. A enfermeira também recebeu as explicações referentes à pesquisa. Após o aceite em participar, foi solicitada a assinatura do Termo de Consentimento. Recolhidas as assinaturas, iniciou-se a coleta de dados.


4.3 Local

O estudo foi desenvolvido em uma unidade de saúde de referência, de nível secundário, na cidade de Fortaleza-CE, considerado referência estadual de atenção à saúde, com atendimento especializado ao diabético e ao hipertenso. Estruturalmente, esta unidade conta com serviço multiprofissional e atende pacientes em nível ambulatorial com demandas para diabetes e hipertensão, clínica médica, endocrinologia, pequenas cirurgias, odontologia, nutrição e exames complementares especializados. Fazem parte do serviço, aproximadamente, dezoito enfermeiras. Deste total, quatorze atuam mais especificamente nos ambulatórios e consultam diabéticos e hipertensos cadastrados e acompanhados na instituição. Para o estudo, optou-se por incluir apenas as enfermeiras que atendem diabéticos, pois a diabetes pode causar várias doenças oculares como catarata, glaucoma e retinopatia diabética. Justifica-se a escolha deste serviço por ter atendimento de enfermagem diário e em larga escala e por haver diabéticos cegos acompanhados na instituição.

Anualmente, o número de pessoas assistidas nesta unidade é, em média, 28.000 pacientes. A instituição, no entanto, não soube informar a quantidade de pacientes com diagnóstico de cegueira porque esse dado não está disponível estatisticamente. Mas pela observação sistemática do local no período de realização do estudo, acredita-se em relativa quantidade, já que havia pacientes cegos diariamente no serviço.

A rotina do paciente no serviço começa com a entrega do cartão de aprazamento de consultas no SAME (Serviço de Arquivo Médico Estatístico). Após a entrega, ele se dirige à sala de espera para aguardar o atendimento. A sala de espera possui capacidade para, aproximadamente, sessenta pessoas sentadas. Nela há uma televisão e dois ventiladores de teto, um bebedouro e uma balança próxima ao corredor de acesso aos ambulatórios de atendimento.

Os pacientes a serem consultados são pesados por auxiliares de enfermagem, que anotam o peso no respectivo prontuário e encaminham o paciente para as enfermeiras.

Existem cinco ambulatórios de enfermagem numa mesma sala, separados por divisórias, uma única pia e um ar-condicionado. Em cada ambulatório há uma mesa, duas cadeiras, um esfignomanômetro inserido na mesa na parte lateral por parafusos, um glicosímetro, fitas de teste e algodão, tudo disposto sobre a mesa e utilizado durante as consultas. O atendimento aos diabéticos também acontece em três ambulatórios maiores em um segundo corredor, onde a enfermeira realiza as consultas simultaneamente com o médico. Há uma sala denominada de leito-dia, localizada ao final do primeiro corredor. Nela existe uma mesa, três cadeiras para realização de consultas, dispostas próximas à porta de acesso, além de cinco leitos distribuídos ao redor da sala, onde os pacientes ficam em observação por algumas horas até obter melhora do seu estado geral de saúde.


4.4 População e Amostra

Previamente, foram contatadas quatorze enfermeiras da instituição que realizavam consultas de enfermagem a diabéticos. A pesquisadora dirigia-se ao consultório de cada uma, apresentava-se e explicava os pressupostos da pesquisa; como se desenvolveria; como se realizariam as filmagens, enfim, esclarecia todas as dúvidas pertinentes ao estudo. Destas enfermeiras, sete concordaram em participar e contribuir com o desenvolvimento do trabalho, embora apenas quatro tenham realmente participado. Após a autorização, elas assinaram o termo de consentimento.

A seleção dos pacientes diabéticos cegos foi feita por amostra de conveniência, respeitando-se os princípios éticos de pesquisa com seres humanos. Constituiu-se, portanto, de pacientes a serem atendidos pelas enfermeiras que concordaram em participar da pesquisa e sobre os quais houvesse diagnóstico médico de cegueira.

Previamente, a pesquisadora permanecia na sala de espera observando os pacientes para identificar se havia algum cego. De modo geral, o cego desempenha alguns movimentos peculiares, como: não acompanha com os olhos os movimentos das pessoas à sua frente; permanece de óculos escuros em ambientes com pouca luminosidade; o relógio de pulso é apropriado para ele, no qual a hora é percebida por meio de som emitido pelo relógio ou pelo toque; quase sempre ele está acompanhado por uma pessoa vidente, particularmente porque os cegos atendidos nesse serviço adquiriram a cegueira numa idade mais avançada, em decorrência da diabetes, e na maioria das vezes, não se submeteram a um processo de reabilitação para o domínio da marcha autônoma; durante a conversa com o acompanhante, não olha para seu rosto, mantendo-se na posição em que se encontra.

Após essa observação, a pesquisadora dirigia-se ao paciente, apresentava-se como enfermeira e perguntava se ele havia perdido a visão em virtude da diabetes e se ele saberia informar que profissional de saúde o atenderia. Se ele fosse ser atendido pela enfermeira, a pesquisadora se dirigia ao ambulatório para se certificar se ele seria atendido por uma das enfermeiras que haviam consentido em participar da pesquisa. Após estas confirmações, falava-lhe do propósito da pesquisa, do desejo de contar com sua colaboração e explicava-lhe como seria realizada a filmagem tanto para ele como para o acompanhante. Solicitava, então, a assinatura do termo de consentimento por ambos.

Conforme salientado, fizeram parte da amostra os pacientes cegos que adquiriram a cegueira em decorrência da diabetes, juntamente com seu acompanhante. Como critérios de inclusão no estudo foram aceitos somente os cegos com idade superior a 18 anos, pela questão ética e por estarem aptos a tomar decisões sozinhos.


4.5 Operacionalização da Coleta de Dados

4.5.1 O Processo de Filmagem e a Câmera Filmadora Digital

De modo particular, o processo de filmagem é usado no cinema. A palavra cinema vem do grego, kinema, e significa movimento. Cinematografia é a técnica de registrar o movimento, ou melhor, de criar e reproduzir imagens em movimento. Como consta em Salles (2005), a cinematografia nasceu pouco tempo depois da fotografia, por meio do cinetoscópio de Edison. Foi necessária, então, a confecção de uma tira fotográfica contínua que dispusesse de perfurações adequadas ao mecanismo da câmera e do projetor. A fotografia surgiu ainda na Antiguidade com os inventos e observações do homem, mas somente no final do século XIX é que ela foi inteiramente montada como se vê atualmente (FRANCO, 2005). Em 1888, o inglês George Eastman produziu a câmera Kodak no. 1. Assim, Eastman fabricou uma película de 35mm, que era a medida de largura da tira do filme e que se diferencia das atuais apenas quanto ao número e formato das perfurações, com menos perfurações por fotograma e estas arredondadas, e não retangulares como hoje. A esta medida de largura da tira da película denomina-se bitola (CINEMA..., 2005).

O ideal fotográfico e cinematográfico só foi possível tecnologicamente muito tempo depois de Platão. Todavia, pode-se considerar a invenção da fotografia como um marco revolucionário, tanto do ponto de vista estético/filosófico como do social/histórico. Portanto, a fotografia e o cinema têm raízes comuns, não apenas tecnicamente, uma vez que o cinema é uma sucessão de fotogramas, mas também filosoficamente (SALLES, 2005).

Nos dias atuais existem poucas diferenças no processo fotográfico com relação àquele utilizado no início do século, pois a imagem digital surge com as novas descobertas do homem por meio das explorações espaciais, globalização e competitividade de mercados internacionais (FRANCO, 2005). As primeiras câmeras digitais profissionais chegaram às lojas no início dos anos 1990 e em pouco tempo se tornaram acessíveis aos amadores. A imagem digital é o processo específico de transformar imagens em dados digitais. Este tipo de imagem fica mais fácil de ser entendida ao se desdobrar o processo em seus componentes básicos, ou seja, a captação de imagens com uma câmera de vídeo e sua colocação dentro de um computador; a edição, que engloba a manipulação, tratamento e modificação da imagem; e a finalização, que representa as várias formas de saída da imagem digital, como por exemplo o CD, VCD, DVD (FRANCO, 2005).

Neste estudo, a captação da imagem foi feita com a obtenção direta de imagens na forma digital, armazenando-as em minicassetes DV (sessenta minutos SP), as quais possibilitam a imediata transferência das imagens para reprodução em televisão ou computador. Em uma câmera tradicional, a imagem é gravada no filme somente; em câmeras digitais, o charge-coupled device (CCD), dispositivo de carga acoplada equivale ao filme.

Ambos, filme e CCD, registram as imagens, mas a partir de então os processos tornam-se bem diferenciados. A eliminação do filme, a imediata visualização da imagem na câmera, televisão ou computador constituem-se enormes vantagens para a filmagem digital (FRANCO, 2005).

O “coração” de uma câmera é o CCD, formado por uma matriz de fotodiodos que se carregam eletricamente ao receber o impacto da luz. O CCD é um sensor responsável pela captura das imagens. Constitui-se de um chip que suporta e transfere cargas elétricas em função da quantidade de luz que atinge suas células fotossensíveis. Ou seja, transforma fótons (luz) em elétrons (eletricidade). Posteriormente, a intensidade da corrente elétrica é interpretada por um conversor analógico/digital (A/D) e convertida em bits que descrevem os pixels da imagem. Cada fotodiodo corresponde a um pixel. O CCD captura apenas a intensidade da luz, gerando imagens monocromáticas. Para visualizar as cores capturadas, a luz é decomposta por filtros nas cores básicas: vermelho, azul e verde e depois composta digitalmente (FRANCO, 2005). Segundo Ebert (2005), os CCDs apresentam precisão na geometria e no registro, não “envelhecem”, não “queimam” e reduziram bastante o lag, isto é, aquela persistência da imagem nos pontos luminosos (“cauda de cometa”).

A escolha de câmera filmadora digital deve-se ao seu alto poder de resolutividade e reprodução de imagens mais detalhadas para a análise da comunicação não-verbal. Utilizou-se, portanto, câmera filmadora Sony, em cores NTSC, portátil, digital, com zoom de 120 velocidades, som estéreo, lux 7 (capacidade de iluminação), foco automático digital com Lente de Alta Precisão Carl Zeiss Vario-Tessar. Esta é desenhada para minimizar os reflexos sobre a lente, permitindo maior entrada de luz no CCD, e resultando em imagens com cores mais vivas e naturais e com reprodução de imagens detalhadas, peso de 400 gramas. Apesar de ser pequena, possui alta potência: conta com um CCD de 680K pixel e é capaz de gravar em ambientes totalmente escuros com a função NightShot Plus. Sua estação de Handycam fornece conexões rápidas e fáceis a uma TV para reprodução ou a um PC, editando e compartilhando o vídeo.

O tripé dobrável, ao qual se acoplou a câmera, constitui-se de fibra de carbono, de altura e ângulos ajustáveis, com peso de aproximadamente 200 gramas, ambos de fabricação japonesa.


4.5.2 O Pré-Teste

Antes do início da coleta de dados propriamente dita, realizou-se um pré-teste com a filmagem de dois pacientes com capacidade visual normal em um atendimento de enfermagem. Este procedimento serviu para testar os equipamentos, a adequação do posicionamento e a distância da câmera, o uso do tripé, como também a permanência da pesquisadora na sala e a distância dela em relação ao lócus da interação dos sujeitos do estudo. Foi utilizado, ainda, como recurso importante no processo de treinamento dos juízes da análise de dados, conforme abordado posteriormente. Este teste, no entanto, não foi usado como parte da amostra final do estudo. Na opinião de Polit, Beck e Hungler (2004), o préteste é um ensaio para determinar se os instrumentos foram formulados de acordo com o objeto de estudo e se é útil para gerar as respostas desejadas.


4.5.3 A Coleta de Dados

Após o consentimento em participar do estudo, o cego respondia a um questionário contendo os dados de identificação (nome, idade, sexo, naturalidade, tempo de tratamento para controle de diabetes, tempo de acompanhamento na instituição). Era interrogado também acerca de como adquiriu a cegueira (devido a diabetes) e do tempo em que está cego. Estas informações permitiram a contextualização do sujeito e forneceram subsídios para a interpretação da comunicação não-verbal.

Como auxiliar na coleta e análise dos dados, adotou-se o diário de campo para registrar as peculiaridades ocorridas no momento da consulta como, por exemplo, interrupções de outras pessoas entrando na sala, toque do telefone. De acordo com Duarte e Barros (2005), quando se utiliza a imagem audiovisual é interessante ressaltar o contexto da sua exibição e relacionar a imagem analisada ao papel da mensagem visual nas categorias da linguagem utilizada, referencial teórico adotado.

A coleta de dados ocorreu nos meses de fevereiro a abril de 2005 e se deu mediante uso de uma câmera filmadora que registrou toda a consulta de enfermagem entre a enfermeira, o cego e o acompanhante. Desse modo, os dados não-verbais foram arquivados para análise. A filmagem foi realizada dentro do consultório da enfermeira, e a câmera estava disposta em um local estratégico e sobre tripé fixo para poder visualizar os sujeitos do estudo.

Durante o atendimento, a pesquisadora permaneceu no consultório, em um local estratégico para não ofuscar nem fazer sombra passível de invalidar o filme e interferir na comunicação.

O tempo médio utilizado para montagem completa do equipamento era de aproximadamente cinco minutos, incluindo-se a identificação, o rebobinamento da minifita cassete DV (sessenta minutos SP) e a mensuração da distância de aproximadamente um metro e meio da cadeira da enfermeira (BERTONCELLO, 1999). Demarcou-se essa distância porque permitia abranger, na mesma cena, a enfermeira, o cego e o acompanhante. Justifica-se, também, pela importância de reduzir ao máximo a presença da filmadora, dispondo como ideal o uso de aparelhos pequenos e fora da visão do paciente (DALRROSO; GREGORY; FRANCO, 1998).


4.6 Apresentação e Análise dos Dados

4.6.1 Instrumento de Análise dos Dados

O instrumento de análise dos dados para avaliar a comunicação não-verbal da enfermeira com o cego foi elaborado a partir do referencial teórico de Hall (1986) e recebeu a denominação de Comunicação Não-Verbal Enfermeira – Cego (CONVENCE -APÊNDICE E). O CONVENCE avalia a Distância Espacial, primeira categoria ou variável, dividida em quatro subcategorias, de acordo com Hall (1986). São elas: 1. Distância, classificada em íntima, pessoal, social e pública; 2. Postura, delimitada em: de pé, sentado, deitado; 3. Eixo, identificado como: face a face, de costas, outro ângulo, sociofugo e sociopeto; 4. Contato, denominado: toque, carícia, agarrar, apalpar, segurar demoradamente, apertar, tocar localizado, roçar acidental e nenhum contato.

A segunda categoria, Comportamento Social, conforme Silva (1996), subdividiu-se em: 1. Gestos emblemáticos, classificados em bater o pé, mover as mãos e outro; 2. Gestos ilustradores: ora complementa o verbal, ora, não complementa; 3. Gestos reguladores: meneio de cabeça, mover os olhos e outro.

A terceira categoria, a exemplo da quarta e da quinta, é também baseada em Hall (1986), foi denominada Comportamento Facial, e continha: perplexidade, nojo, alegria, medo, raiva, tristeza e outro. A quarta categoria, Código Visual, englobou duas subdivisões: 1. Abertura ocular: surpresa, alegria, tristeza e outro; 2. Direção do olhar: no interlocutor ou desviado do interlocutor. A quinta, Volume da Voz, foi classificada como sussurro, grito, normal e silêncio.

Concomitantemente à coleta de dados, o CONVENCE foi enviado a três juízes para ser analisado. Escolheram-se três juízes especialistas em comunicação, doutores em enfermagem, com diversas dissertações e teses orientadas nesta linha de pesquisa, publicações em livros e periódicos, conferências ministradas em congressos, enfim, com conhecimento elaborado em comunicação não-verbal. Foram convidados, previamente, via e-mail, para participarem desse momento. Após a confirmação, foram enviados por sedex o convite formal, o CONVENCE, o projeto na íntegra e um breve resumo (APÊNDICE F) da teoria adotada na pesquisa. No prazo máximo de trinta dias, os juízes devolveram o material via email e correio com as devidas sugestões. Como não houve divergência quanto às sugestões, todas foram acatadas.

Para a análise das filmagens escolheram-se outros três juízes que concordaram em participar da pesquisa. A contribuição de cada um no estudo será ressaltada a seguir.


4.6.2 Treinamento dos Juízes da Análise dos Dados

Os juízes convidados para analisar os dados eram enfermeiros e estudantes do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem, do nível mestrado e doutorado, da Universidade Federal do Ceará. Todos são bolsistas do programa, estão envolvidos em grupos de pesquisa do Departamento de Enfermagem desde a graduação e com tempo disponível para proceder à análise dos dados. É importante enfatizar que estes juízes não possuíam conhecimento prévio no referencial proposto, mas foram treinados antes de iniciar a análise propriamente dita e avaliaram os dados coletados. O treinamento ocorreu nos meses de fevereiro a abril de 2005. A teoria utilizada na pesquisa, fundamentada em Hall (1986), lhes foi entregue no mês de fevereiro e deu-se um prazo de trinta dias para a sua leitura.

Terminado o prazo, iniciou-se a parte prática do treinamento, em março de 2005. Este foi dividido em quatro sessões: a primeira destas foi a apresentação do projeto; a segunda referiu-se à discussão do referencial adotado e do CONVENCE; a terceira e quarta sessões destinaram-se à apresentação das filmagens pré-teste para treinamento do uso do instrumento.

A primeira sessão constou da apresentação do projeto aos juízes para tomarem conhecimento do estudo e da teoria que o embasava bem como de discussão dos questionamentos feitos por eles pertinentes ao estudo. A segunda sessão relacionou-se ao aprofundamento e discussão da teoria e do instrumento de análise de dados utilizados na pesquisa. Neste momento, foram esclarecidas as dúvidas. Houve um estudo detalhado do instrumento de análise de categorização dos sinais não-verbais com exemplos práticos mostrando o tempo de avaliação de cada cena e o preenchimento do instrumento. Cada sessão durou em média duas horas. A terceira e quarta sessões referentes ao treinamento dos juízes, conforme comentado, contou com a apresentação de duas filmagens pré-teste sobre a consulta de enfermagem com pacientes videntes para capacitar os juízes no preenchimento do instrumento.

As sessões de treinamento e análise dos dados foram realizadas com todos os juízes presentes na mesma sala e no mesmo horário, conforme predeterminado no início da capacitação. As reuniões aconteceram no Departamento de Enfermagem da Universidade Federal do Ceará. Escolheu-se uma sala de aula com boas condições de luminosidade, clima agradável, cadeiras confortáveis e que pudesse ser fechada para evitar interrupções de outras pessoas bem como minimizar a presença de ruídos externos. A sala também continha uma televisão de 29 polegadas para facilitar a visualização das imagens. A importância de estarem todos reunidos justifica-se, especialmente pelo fato de se analisar a filmagem exatamente no mesmo milésimo de segundo e evitar discordâncias relacionadas ao tempo de análise das cenas.

O processo de avaliação do CONVENCE ocorreu ainda em outras duas fases: a primeira foi relacionada aos juízes da análise dos dados e a segunda ao estatístico. Os juízes da análise solicitaram inclusão de alguns itens, como outros, na categoria Comportamento Facial e na subcategoria abertura ocular no CONVENCE, e silêncio, na categoria Volume da Voz. Outra contribuição acordada unanimemente foi permitir paralisar a cena a cada quinze segundos, com vistas a avaliar e preencher o instrumento. Para facilitar a catalogação dos dados analisados, o estatístico sugeriu numerar as categorias do CONVENCE. Finalizou-se o treinamento quando a pesquisadora observou que as respostas dos juízes concordavam entre si em torno de 80%, pois este é um índice já adotado por pesquisadores como Sawada (1990), mesmo porque a subjetividade nesta linha de pesquisa jamais permite uma fidedignidade absoluta entre os juízes.


4.6.3 Orientações aos Juízes para Registros no CONVENCE

Antes de iniciar a análise das filmagens, os juízes receberam algumas orientações para facilitar os registros no CONVENCE, como: fazer uma releitura da teoria dos sinais não-verbais na comunicação de enfermagem de acordo com Hall (1986) antes de cada sessão; começar o trabalho assistindo ao filme (referente a uma consulta) completo, para tomar conhecimento da enfermeira, do paciente, do acompanhante e do contexto da situação, antes de iniciar a identificação dos tipos e categorização dos sinais não-verbais; proceder à identificação dos sinais não-verbais emitidos pela enfermeira adotando o critério de tempo de quinze segundos para transcrição da imagem em pausa; o tempo ser cronometrado pela pesquisadora para facilitar a análise; interromper a análise da filmagem diante de fadiga, cansaço; realizar a transcrição de apenas uma filmagem por dia; trabalhar em conjunto num local fechado onde não houvesse interrupções; disponibilizar o CONVENCE durante as análises.

Em virtude da subjetividade nesta linha de pesquisa, estabeleceram-se, ainda, alguns critérios de padronização durante o processo de treinamento dos juízes, como:

a) classificar apenas os sinais não-verbais emitidos pela enfermeira registrados na imagem;
b) considerar como toque quando a enfermeira o faz nos objetos que se estendem ao corpo do paciente. Por exemplo, segurar o estetoscópio e colocar o esfignomanômetro no braço do paciente;
c) preencher o instrumento com a expressão não visualizado quando não houver possibilidade de visualizar alguma parte do corpo ou rosto da enfermeira;
d) voltar a imagem a ser classificada no máximo duas vezes.

Para especificar a gestualidade de forma mais detalhada, utilizou-se a classificação adotada por Silva (1996), com base em Ekman, Friesen e Scherer (1976), que avalia os gestos humanos em cinco categorias, embora neste estudo tenham sido aprofundadas apenas três destas categorias: gestos emblemáticos, gestos ilustradores e gestos reguladores. Os gestos emblemáticos são gestos culturais aprendidos e de largo uso social, como: bater o pé (impaciência, raiva); mover as mãos lateralmente (adeus); roer as unhas (ansiedade, medo), etc. Os gestos ilustradores são apreendidos por imitação, acompanham a fala, enfatizando a palavra ou a frase, como se desenhassem a ação descrita. Por exemplo: “Ele tem uma mancha aqui”, e indica-se o local da mancha no corpo. Já os gestos reguladores são os que regulam e mantêm a comunicação entre as pessoas. Um exemplo desse tipo de gesto é o meneio positivo de cabeça, que reforça a fala do outro. O mover os olhos em direção à pessoa que fala também reforça a fala, enquanto o desvio do olhar inibe a fala do outro.

Segundo Silva (1989; 1986), a categoria Comportamento Facial avalia os sinais faciais emitidos pelo sujeito que fala. São eles:

  1. Perplexidade (surpresa) – abertura da boca e dos olhos, sobrancelhas erguidas e afastadas, músculos aparentemente contraídos;
  2. Nojo – lábio superior levantado com acompanhamento ou não do lábio inferior, sobrancelha acentuada;
  3. Alegria – pálpebras levantadas, sorriso, “olhar brilhante”, levantamento da bochecha com fechamento do olho e levantamento da boca;
  4. Medo – testa levantada com rugas horizontais, pálpebras fechando rapidamente ou abrindo-se excessivamente, rigidez, lábios finos e tensos com boca aberta ou não, tremor nas mãos, braços e pernas, palidez, grito;
  5. Raiva – testa enrugada verticalmente pela junção das sobrancelhas, olhos fechados e tensos ou abertos e firmes, boca tensa, mandíbula cerrada;
  6. Tristeza – comissura labial voltada para baixo, sobrancelha oblíqua, “olhar cabisbaixo”, choro;
  7. Atenção (interesse) – olhar na direção do objeto ou da pessoa, sorriso, meneio positivo de cabeça;
  8. Desconfiança (dúvida) – lábios em “bico”, inclinação lateral da cabeça, sobrancelhas erguidas;
  9. Impaciência (incômodo) – olhos fechados, rugas na testa, lábios comprimidos, rigidez facial, comissura labial voltada para baixo, suor frio, choro;
  10. Indiferença (desprezo) – lábio superior com um dos cantos levantados, olhar de cima para baixo.


4.6.4 Análise dos Dados das Filmagens

Esta etapa da análise dos dados ocorreu no mês de maio de 2005. A pesquisadora programava as sessões de análise com todos os juízes em conjunto e permanecia no local para controlar o tempo predeterminado (paralisar a imagem), rebobinar a fita e distribuir o material quando este acabava. Além disso, esperava todos preencherem o CONVENCE para continuar a transcrição da filmagem e não permitia comunicação entre os juízes no momento da transcrição. Os juízes assistiam ao filme e avaliavam as cenas, adequando-as nas categorias não-verbais do instrumento de análise. No primeiro momento de análise da filmagem, o filme foi apresentado integralmente a todos os juízes e após esta etapa foi analisado conforme estabelecido.


4.6.5 Análise Estatística dos Dados

A princípio os dados foram analisados em freqüência absoluta por meio de uma tabela univariada com freqüência relativa e porcentagens. Para se analisar a associação entre as variáveis e as enfermeiras, segundo Hall (1986), foram empregados os testes qui-quadrado (X2) e o de Fisher-Freeman-Halton. Os dados foram processados no programa Stats Direct (ST). A confiabilidade entre os três juízes foi feita utilizando-se o coeficiente Kappa de Cohen não ponderado, haja vista o não ordenamento das categorias estudadas e o fato de esse coeficiente levar em consideração a probabilidade de concordância decorrente do acaso. Para essa medida calculou-se o intervalo de confiança de 95% e aplicou-se o teste z para verificar a significância da confiabilidade. Fixou-se para todas as análises estatísticas inferenciais o nível de significância de 5% (GORENSTEIN; ANDRADE; ZUARDI, 2000).


5 RESULTADOS

5.1 Caracterização da Amostra

A amostra foi constituída por quatro enfermeiras, todas do sexo feminino, que concordaram em participar do estudo e assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido. Com relação às enfermeiras, apenas uma foi filmada duas vezes. Os cegos – duas mulheres e três homens – que também autorizaram sua participação, totalizaram cinco pacientes, porém dois destes não assinaram o termo. O primeiro não assinou pela falta de habilidade motora, pois perdera a visão há cerca de dois meses, e o outro pediu ao seu acompanhante para assinar por ele. Foram realizadas cinco filmagens, cada uma com um cego diferente. Todos eles estavam acompanhados por um responsável, denominados de acompanhantes, que também assinaram o termo autorizando sua participação no estudo. Estes eram o (a) esposo (a) ou o (a) filho (a) dos pacientes.

Os pacientes responderam devidamente o questionário (APÊNDICE D), que continha dados de identificação especificamente sobre tempo de tratamento de diabetes, de acompanhamento na instituição, forma e há quanto tempo adquiriram a cegueira. As enfermeiras pertenciam ao quadro de funcionários da instituição, com vínculo empregatício, e realizavam consultas de enfermagem a pacientes diabéticos há pelo menos cinco anos. As filmagens foram analisadas a cada quinze segundos, totalizando 1.131 análises de comunicação não-verbal. O tempo médio de duração das filmagens foi de dezenove minutos, variando entre quinze e vinte e quatro minutos.

A filmagem 1 durou aproximadamente dezenove minutos. A paciente 1, sexo feminino, 75 anos, é natural de Natal-RN, casada e com escolaridade no nível fundamental 1.

Há dez anos faz tratamento para diabetes e há dois é acompanhada na instituição. Adquiriu cegueira há sete anos em virtude do glaucoma. Ela foi atendida no segundo consultório do ambulatório onde se localizam os cinco consultórios, no primeiro corredor da instituição. A enfermeira iniciou o atendimento se apresentando e comunicando que realizaria uma consulta de enfermagem. Usava luvas. O ambiente estava bastante barulhento. Ela solicitou a última receita da paciente e fez anotações no prontuário. Após concluir essas anotações, perguntou a que horas a paciente havia se alimentado. Quando a acompanhante informou que havia apenas dez minutos, a enfermeira interrompeu a consulta e quase desistiu de atendê-la naquele momento pois o tempo era insuficiente para realizar a glicemia. Nesse momento, o barulho intensificou-se no consultório ao lado, e dava para ouvir uma pessoa chamando o nome de outra. Quando a enfermeira consentiu em atendê-la (informou que verificaria a glicemia ao final da consulta), tocou a paciente nos braços, orientando os locais de aplicação da insulina e a forma de rodízio nas diversas partes do corpo. Ela também reforçou as orientações para a acompanhante. Verificou a pressão arterial (PA) mesmo com o barulho da consulta na sala vizinha. Após a aferição, forneceu orientações acerca da alimentação, dirigindo-se sempre à paciente e à acompanhante. Anotou no prontuário os resultados e ainda concluiu informações sobre os hábitos alimentares, sugerindo evitar frituras, óleos, massas e açúcares na dieta.

Inspecionou e apalpou a pele, observou áreas ressecadas e orientou o uso de hidratante e a ingestão de líquidos. Apalpou os pés, tocando e perguntando se ela sentia formigamento ou dor nos pés e pernas. Recomendou o uso de calçados confortáveis. Examinou a boca e orientou a higienização da prótese e da língua. Ao final, fez o teste de glicemia. Depois, solicitou à paciente colocar o algodão no dedo que foi perfurado para estancar o sangue, mas esta sentiu dificuldade em fazê-lo. Nesse momento a sala estava muito barulhenta e ela concluiu encaminhando a paciente ao consultório médico.

A filmagem 2 durou aproximadamente 24 minutos. A paciente 2, sexo feminino, 70 anos, reside no interior do Estado do Ceará, é casada e com escolaridade no nível fundamental 1. Há vinte anos faz tratamento para diabetes e há três é acompanhada na instituição. Adquiriu cegueira há cinco anos em decorrência da diabetes. A enfermeira iniciou a consulta perguntando como a paciente estava e se tinha alguma queixa. Estava usando as luvas. Fez anotações no prontuário. Depois se apresentou e comunicou que faria a consulta de enfermagem. Anotou alguns dados e solicitou a assinatura da acompanhante. Verificou a PA, orientou quanto aos valores normais e questionou o tipo de medicação que a paciente estava tomando. Esclareceu as dúvidas da paciente acerca da insulina e dos sinais de hiperglicemia e hipoglicemia que podem aparecer se a pessoa não se alimentar em horários regulares. No momento de realizar o teste de glicemia, explicou que perfuraria o dedo anelar com uma agulha estéril para colher a gota de sangue necessária para o glicosímetro dar o resultado imediato. Anotou no prontuário. Nesse momento, o telefone da acompanhante tocou. Ela permaneceu falando aproximadamente dois minutos ao telefone enquanto a enfermeira continuava conversando com a paciente. Realizou o exame do pé e recomendou o uso de sandálias confortáveis. Interrogou sobre a alimentação. Pediu para verificar os exames e fez anotações no prontuário. Explicou os resultados e orientou quanto aos hábitos alimentares dos diabéticos. Por um momento, a paciente tocou na mão da enfermeira. A consulta foi concluída e a paciente foi encaminhada ao médico.

A filmagem 3 durou em média quinze minutos. O paciente 3, sexo masculino, 41 anos, é natural de Poranga – Ceará, com escolaridade no nível fundamental 1. Faz tratamento para diabetes há quatro anos e há um ano é acompanhado na instituição. Ficou cego há dois meses em virtude de glaucoma associado a diabetes. A consulta é iniciada com a apresentação da enfermeira e a explicação sobre como realizá-la. Tocou o dedo do paciente para que ele percebesse o local onde seria feito o exame. Chamou a acompanhante para assinar um documento. O paciente permaneceu à frente da enfermeira com a cabeça baixa, como se estivesse olhando para o chão. A enfermeira fez o teste de glicemia e colocou o algodão entre o dedo polegar e o indicador do paciente para que ele mesmo tomasse a iniciativa de pôr no dedo sangrante. Mas como este não reagiu a esta conduta, a enfermeira colocou o algodão no local. Ela relatou o resultado do exame e verificou a PA logo em seguida. O paciente continuou com a cabeça baixa, semblante triste. Ela fez anotações no prontuário e perguntou se ele estava tomando os remédios corretamente. Anotou as observações e pediu a última receita dele, que a acompanhante entregou prontamente. Orientou os locais do rodízio de aplicação da insulina, tocando o paciente para ele entender o que estava sendo dito. Saiu da sala para pegar luvas. Em seguida, examinou os pés do paciente. Nesse momento, o barulho atrapalhou a comunicação entre ambos. Percebeu um pequeno ferimento no pé e encaminhou o paciente ao consultório do pé diabético. Olhou para a acompanhante e fez anotações no prontuário. Interrogou as queixas e relatou insônia, dor nas costas e nos rins. Ela o orientou a cortar as unhas, fazer a dieta e ingerir bastante água para hidratar a pele. Ele mais uma vez falou da dor nas costas (pescoço). Ela calçou novamente as luvas, inspecionou o local e anotou as observações. Encaminhou-o novamente ao pé diabético. Examinou-lhe a boca, encaminhando-o também ao dentista. Orientou a higiene bucal e concluiu enfatizando os encaminhamentos. Nesse momento, a sala estava barulhenta, escutavam-se gritos de pessoas.

As filmagens 4 e 5 foram realizadas pela mesma enfermeira. Ambas duraram em média dezenove minutos. O paciente 4, sexo masculino, 67 anos, natural de São Gonçalo do Amarante – Ceará, é casado e cursou até o ensino fundamental 2. Há doze anos faz tratamento para diabetes e há três é acompanhado na instituição. Ficou cego há três anos em virtude do glaucoma associado a diabetes. A enfermeira começou a consulta se apresentando ao paciente e sua acompanhante. Perguntou a idade dele e anotou no prontuário. Enquanto organizava o material em sua mesa, conversou um pouco. Interrogou acerca da visão dele e continuou a arrumar seu material. Fez algumas anotações. Indagou se o paciente possuía queixas e ele relatou constipação. Ela o encaminhou à nutricionista. Perguntou a ele e à sua acompanhante sobre a alimentação e as doses de insulina. Fez-lhe alguns toques para explicar os locais de rodízio de aplicação da insulina e o interrogou acerca de remédios para controlar a pressão.

Fez anotações e continuou a conversa enquanto anotava. Conversou com a acompanhante por longo período e voltou a falar com o paciente. Orientou sobre a medicação para a PA. Nesse momento, o telefone tocou na sala ao lado, mas foi bastante perceptível e barulhento e interferiu na consulta. O paciente referiu queixas quanto ao atendimento na instituição e ela o interrompeu para aferir a PA. Ela anotou e orientou quanto à alimentação e aos sinais de hipoglicemia. Fez o exame de glicemia e o informou em relação aos valores normais esperados. Conversou com ele sobre a queixa de dor nos olhos que ele relatou no início do atendimento. Fez outras orientações e concluiu a consulta.

O paciente 5, sexo masculino, 76 anos, Canindé – Ceará, é casado e cursou o fundamental 1. Há trinta e seis anos faz tratamento para diabetes e há vinte é acompanhado na instituição. Ficou cego há dez anos em virtude da diabetes (retinopatia diabética). Nessa consulta a enfermeira estava acompanhada de duas alunas da graduação em enfermagem, estagiárias do local, mas não houve interrupções em momento algum por parte delas. A enfermeira iniciou a consulta interrogando as queixas do paciente. Ele referiu dor nas pernas e episódios de hipoglicemia. Ela explicou o que significa neuropatia para a acompanhante e as alunas. Conversou com o paciente, utilizando termos técnicos. Fez anotações e realizou a glicemia. Continuou a conversa com a acompanhante. Orientou os hábitos alimentares do paciente. Fez alguns questionamentos a ele e anotou no prontuário. A sala da consulta era o leito-dia e estava bastante tranqüila, sem interrupções. Aferiu a PA e fez as anotações.

Enfatizou as orientações acerca da alimentação, sugerindo uma revisão na dieta. Uma pessoa abriu a porta da sala e interrompeu a consulta. Ao final, ela o encaminhou ao médico, à nutricionista e despediu-se com um aperto de mão.


5.2 Apresentação dos Dados

A seguir serão apresentadas as Tabelas 1, 2 e 3. A Tabela 1 é referente aos índices de concordância entre os juízes para validação das variáveis do CONVENCE. Vale ressaltar que se dois juízes concordassem as categorias das funções não-verbais seriam validadas.

A Tabela 2 exibe a freqüência absoluta e as porcentagens das categorias dos sinais não-verbais analisadas no CONVENCE.

A Tabela 3 mostra a associação das categorias de comunicação não-verbal com as filmagens 1, 2, 3, 4 e 5, utilizando os testes qui-quadrado (X2) ou o teste de Fisher-Freeman-Halton para verificar o nível de dependência entre as variáveis cruzadas.


TABELA 1
Índice de concordância entre os juízes para cada categoria da comunicação não-verbal de acordo com Hall (1986)

CATEGORIAS

 
Kappa de Cohen
 

IC 95%

z

p


1. DISTÂNCIA
1x2   
1x3   
2x3    

0,076
0,031
0,046
0,004; 0,148
0,062; 1,124
-0,027; 0,119
2,06
0,66
1,24
0,020
0,256
0,108


2. POSTURA (100% de concordância entre os juízes)


3. EIXO
1x2
1x3
2x3

0,005
-0,015
-0,026
-0,014; 0,024
-0,038; 0,008
-0,052; 0,009
0,53
1,29
-1,89
0,931
0,217
<0,001


4. CONTATO
1x2
1x3
2x3

-0,003
0,029   
0,005
-0,010; 0,004
-0,037; 0,096
-0,001; 0,012
-0,87
0,86
1,64
0,809
0,194
0,050


5. GESTOS EMBLEMÁTICOS
1x2
1x3
2x3

0,004 
0,047
-0,001
-0,024; 0,032
-0,032; 0,127
-0,019; 0,017
0,28
1,17
0,11
0,390
0,121
0,545


6. GESTOS ILUSTRADORES
1x2
1x3
2x3

0,040
-0,071
0,017
0,016; 0,096
0,012; 0,155
-0,056; 0,022
1,41
1,67
-0,84
0,079
0,047
0,800


7. GESTOS REGULADORES
1x2
1x3
2x3

0,034
-0,032
-0,002
-0,015; 0,083
-0,075; 0,011
-0,047; 0,043
1,36
-1,46
-0,09
0,087
0,927
0,536


8. COMPORTAMENTO FACIAL
1x2
1x3
2x3

0,008
0,001
0,031
-0,001; 0,017
-0,010; 0,120
-0,021; 0,083
1,72
0,15
1,18
0,043
0,439
0,120


9. ABERTURA OCULAR
1x2
1x3
2x3

0,055
0,001
0,055
-0,026; 0,137
-0,007; 0,009
-0,026; 0,137
1,34
0,17
1,34
0,090
0,431
0,090


10. DIREÇÃO DO OLHAR
1x2
1x3
2x3

-0,020
-0,102
0,269
-0,113; 0,073
-0,195; -0,008
0,180; 0,359
-0,42
-2,13
5,88
0,663
0,983
0,001


11. VOLUME DA VOZ
1x2
1x3
2x3

-0,010
0,002
-0,097
-0,041; 0,021
-0,001; 0,006
-0,128; -0,067
-0,62
1,29
-6,32
0,734
0,098
0,999

P< 0,05 – Dependência das respostas dos juízes.


A Tabela 1 verificou o índice de concordância entre os juízes quanto à análise de dados. Como mostra esta tabela, as variáveis do CONVENCE validadas pela confiabilidade entre os juízes foram as seguintes:

― na categoria Distância Espacial, as subcategorias distância, postura, eixo, contato e contato;
― na categoria Comportamento Social, a subcategoria gestos ilustradores;
― na categoria Comportamento Facial, a própria categoria;
― e na categoria Código Visual, a subcategoria direção do olhar,
todas significativas ao nível de p < 0,05. Entre estas, a postura apresentou concordância absoluta entre os juízes.


TABELA 2
Síntese univariada de análise das categorias da comunicação não-verbal segundo Hall (1986)

CATEGORIAS

 

N.º

%


1. DISTÂNCIA ESPACIAL
 
   

1.1 Distância
 

Íntima
Pessoal
Ausente

1.030
89
12

91,0
7,9
1,1

1.2 Postura
  

Sentado
De pé
Ausente

1.112
6
13

98,3
0,5
1,2

1.3 Eixo
1.3.1 Eixo/  Posição

Outro ângulo
Face a face 
Costas
Ausente

645
445
3
38

57,0
39,3
0,3
3,4

1.3.2 Eixo/Interação

Sociopeto
Sociofugo
Ausente   

892
203
36

78,9
18,0
3,1

1.4 Contato

Nenhum contato
Tocar localizado/ Toque
Segurar demoradamente
Roçar acidental
Apertar/ Apalpar
Ausente 

943
140
19
9
3
17

83,3
12,4
1,7
0,8
0,3
1,5


2. COMPORTAMENTO SOCIAL
 
   

2.1 Gestos Emblemáticos

Mover as mãos
Não observado/Nenhum contato
Olha/Escreve no prontuário
Realiza procedimento
Mover o corpo
Bater o pé
Ausente

762
247
45
38
10
1
28

67,4
21,8
4,0
3,4
0,9
0,1
2,4

2.2 Gestos Ilustradores

Complementa o verbal
Não complementa
Ausente

566
510
55

50,0
45,1
4,9

2.3 Gestos Reguladores

Não observado/Nenhum contato
Mover os olhos
Meneio de cabeça
Olha/Escreve no prontuário
Mover o corpo
Realiza procedimento
Ausente

582
273
176
35
20
10
35

51,4
24,1
15,6
3,1
1,8
0,9
3,1


3. COMPORTAMENTO FACIAL
 
   
  Não observado/ Nenhum contato
Atenção
Alegria
Impaciência/Indiferença/Desconfiança
Perplexidade
Nojo
Raiva/Medo/Tristeza
Ausente

499
155
97
36
30
23
13
43

44,1
13,7
8,6
3,2
2,6
2,0
1,2
3,8


4. CÓDIGO VISUAL
 
   

4.1 Abertura Ocular

Não observado/Nenhum contato
Alegria
Atenção
Tristeza/Apatia/Cansaço
Surpresa
Olhos fechados
Ausente

873
53
51
28
19
18
89

77,2
4,7
4,5
2,5
1,7
1,6
7,8

4.2 Direção do Olhar

Desviado do interlocutor
Centrado no interlocutor
Ausente

597
502
32

52,8
44,4
2,8


5. VOLUME DA VOZ
 
   
  Normal
Silêncio
Sussurro
Grito
Ausente

746
365
4
1
15

66,0
32,3
0,3
0,1
1,3

       

TOTAL

1.131

100,0


Como evidenciado, a Tabela 2 enumerou as categorias da comunicação não-verbal e classificou os tipos de sinais não-verbais relacionados às análises de todas as imagens.


TABELA 3
Análise da associação das filmagens com as categorias e subcategorias da comunicação não-verbal

 

FILMAGEM

1

2

3

4

5

Teste

p

CATEGORIAS

 

n.º

%

n.º

%

n.º

%

n.º

%

n.º

%

   
1.
DISTÂNCIA
Íntima
Pessoal
224
-
100,0
-
278
7
97,5
2,5
167
2
98,8
1,2
200
25
88,9
11,1
161
55
74,5
25,5

46,73

0,001(2)
2.
POSTURA
De pé
Sentado
2
222
0,9
99,1
-
284
-
100,0
4
165
2,4
97,6
-
225
-
100,0
-
216
-
100,0

-

0,006(1)
3.
EIXO
Face a face/Sociofugo
Face a face/Sociopeto
Outro ângulo/Sociofugo
Outro ângulo/Sociopeto
4
102
37
70
1,88
47,89
17,37
32,86
7
105
42
122
2,54
38,04
15,22
44,20
5
37
72
47
3,11
22,98
44,72
29,19
-
86
11
117
-
40,19
5,14
54,67
3
87
19
99
1,44
41,83
9,13
47,60

-

0,001(1)
4. CONTATO Toque
Segurar
Tocar localizado
Roçar acidental
Nenhum contato
11
11
24
-
173
5,1
5,1
11,0
-
79,7
15
2
7
4
255
5,3
0,7
2,5
1,4
90,4
12
1
31
2
121
7,2
0,6
18,6
1,2
72,4
3
1
12
-
209
1,3
0,4
5,3
-
92,9
11
4
13
3
185
5,1
1,8
6,0
1,4
85,6

79,78

0,001(2)
5. GESTOS EMBLEMÁTICOS Mover as mãos
Outro
129
84
60,6
39,4
206
77
72,8
27,2
117
50
70,0
30,0
163
62
72,4
27,6
147
67
68,4
31,2

10,35

0,001(2)
6. GESTOS ILUSTRADORES Complementa
Não Complementa
137
75
64,6
35,4
160
118
57,5
42,4
49
111
30,6
69,4
127
93
57,7
42,3
93
113
45,1
54,9

52,93

0,001(2)
7. GESTOS REGULADORES Meneio de cabeça
Mover os olhos
Outro
40
78
94
19,0
37,0
44,5
54
61
168
19,1
21,6
59,6
22
19
125
13,2
11,4
75,3
29
74
124
12,9
33,0
55,3
31
41
136
14,9
19,7
65,4

58,91

0,001(2)
8. COMPORTAMENTO FACIAL Perplexidade
Nojo
Alegria
Raiva
Outro
4
-
4
-
203
1,9
-
1,9
-
95,7
1
-
25
-
254
0,3
-
8,9
-
90,1
1
-
-
-
164
0,6
-
-
-
98,8
18
18
17
1
169
8,0
8,0
7,5
0,4
75,1
-
5
34
6
129
-
2,9
19,5
3,4
74,1
  -0,001(1)
9. ABERTURA OCULAR Surpresa
Alegria
Outro
3
7
201
1,4
3,3
94,8
1
15
263
0,3
5,3
93,9
1
-
164
0,6
-
99,4
14
8
198
6,3
3,6
89,6
-
23
141
-
14,1
86,5
  -0,001(1)
10. DIREÇÃO DO OLHAR No interlocutor
Desviado
108
107
50,2
49,8
125
160
43,8
56,1
59
106
35,7
64,2
86
138
38,4
61,6
124
86
59,0
41,0

28,64

0,001(2)
11. VOLUME DA VOZ Normal
Silêncio
157
64
71,0
29,0
153
131
53,7
46,0
77
92
45,6
54,4
184
41
81,8
18,2
175
37
81,0
17,1

104,52

0,001(2)

(1) Teste p de Fisher – Freeman – Halton;
(2) Teste X2.


Na Tabela 3 consta a análise da associação de cada filmagem de acordo com as variáveis da comunicação não-verbal do CONVENCE. A associação é verificada pelo teste qui-quadrado ou pelo teste de Fisher-Freeman-Halton. Conforme se conclui, houve associação quando p<0,05.

Segundo demonstrou a análise estatística da Tabela 3, houve dependência, melhor dizendo, houve associação das respostas pelas filmagens, inferindo-se também que as categorias foram influenciadas por cada filmagem em virtude do valor de p ser <0,05.

As categorias da variável independente ou causal, representadas, na tabela, pelas filmagens 1, 2, 3, 4, 5, agem de maneira diferente nas categorias das variáveis dependentes ou de desfecho, ou seja, as características da comunicação não-verbal. Variável independente, no caso deste estudo representado pelas filmagens, caracteriza-se por ter efeito presumido sobre a variável dependente, categorias da comunicação não-verbal. Já a variável dependente constitui-se pelo efeito presumido da variável independente sobre o resultado (LOBIONDOWOOD; HABER, 2001). Isto aconteceu em quase todas as categorias (p= 0,001), mas não na subcategoria postura (p= 0,006). No caso de p= 0,001, existe apenas a probabilidade de 1‰ de não ocorrer associação. Quando p= 0,006, significa que há apenas 6 possibilidades em 1.000 de não existir associação.

Quanto ao eixo estabelecido entre a enfermeira e o paciente, a filmagem 3 mostrou: 44,72%, outro ângulo/sociofugo; 29,19%, outro ângulo/sociopeto; 2,98%, face a face/sociopeto e 3,11%, face a face/sociofugo. É importante observar que na filmagem 3 exatamente 44,20% das análises demonstraram desencorajamento na interação.

Segundo a análise da subcategoria contato observada na filmagem 1, não houve nenhum contato (79,7%) entre a enfermeira e o paciente. Na filmagem 2 este índice foi maior, com 90,4% das situações avaliadas. Na filmagem 3 também predominou nenhum contato (72,4%). A filmagem 4 foi a que apresentou o pior desempenho neste quesito (92,9%). Na filmagem 5 foi encontrado nenhum contato em 85,6% das observações. Conforme se conclui, em todas as filmagens em mais de 70% das análises não houve contato entre a enfermeira e o cego.

Na subcategoria gestos ilustradores, estes foram analisados com relação a complementar ou não a comunicação verbal. A filmagem 1, com 64,6% complementa os comentários verbais. A 2 correspondeu como complementação da comunicação verbal (57,5%). Na filmagem 3 muitos gestos não complementaram o verbal (69,4%). A filmagem 4 complementou o verbal (57,7%), enquanto a 5 não complementou (54,9%). Deve-se estar atento às filmagens 3 e 5. Nelas, mais de 50% dos gestos não enfatizaram o que era dito oralmente, apesar do cliente não perceber a gestualidade.

Na subcategoria direção do olhar, a filmagem 1 relacionou o olhar da seguinte forma: no interlocutor (50,2%) e desviado do interlocutor (49,8%). Na filmagem 2 o olhar estava desviado do interlocutor (56,1%, e também na 3 (64,2%). Da mesma forma, na filmagem 4, segundo demonstrado, o olhar da enfermeira estava desviado do interlocutor (61,6%).


6 DISCUSSÃO

De acordo com os dados do último censo demográfico realizado no país (IBGE, 2000), existem atualmente no Brasil aproximadamente 16.644.842 pessoas com leve ou grande dificuldade permanente de enxergar.

Os cegos, como já são conhecidos, são pessoas que possuem severa limitação visual. Neste trabalho, gostaria de ressaltar não a sua deficiência, mas a pessoa de cada um. Como pessoas, também possuem direitos, inclusive o de não serem submetidas a discriminação em virtude da deficiência. Esses direitos emanam da dignidade e da igualdade inerentes a qualquer ser humano. Enfatizando-se esse aspecto de igualdade é que têm surgido os movimentos de inclusão em todo o mundo (FÁVERO, 2004).

Conforme o princípio básico da inclusão, “é preciso tratar desigualmente os desiguais”. A inclusão preconiza que cabe à sociedade e aos ambientes em geral promover as adequações necessárias para possibilitar o pleno acesso de quem possui algum tipo de limitação física, sensorial ou mental. Essas adequações são uma espécie de tratamento diferenciado para propiciar a igualdade. Deve-se ter cuidado, porém, para tratar de forma correta essas pessoas, pois, caso contrário, pode haver grave discriminação (Idem, ibidem).

Todos têm direito à educação, saúde, trabalho, lazer, benefícios, acessibilidade, informação, entre outros. No âmbito da saúde, este é um dos direitos garantidos pela Constituição Federal Brasileira. Os níveis de saúde da população expressam a organização social e econômica do país. Este nível é um indicador final das pessoas com deficiência (Idem, ibidem).

Os cegos têm direito a um atendimento especializado também por parte dos enfermeiros, um dos principais membros da equipe de saúde. Para ser esse atendimento realmente bem-sucedido, é necessário o enfermeiro desenvolver habilidades específicas de comunicação com o cego. Desse modo, o atendimento à saúde pode ser preservado e tornado eficaz.

Com esta finalidade, o enfermeiro precisa aprofundar seus conhecimentos no atendimento a este tipo de clientela partindo do desenvolvimento de habilidades comunicativas para efetivar condutas e intervenções necessárias ao paciente. No amplo contexto da comunicação, o objeto de discussão ora enfatizado é a comunicação não-verbal.

A comunicação não-verbal, conforme já abordado por diversos autores e explicitado neste estudo, permite aos indivíduos expressar sentimentos e emoções de si mesmos de forma direta e tem as funções de complementar, contradizer e substituir a comunicação verbal (SILVA, 1996).

A expressão desses sinais não-verbais pode ser percebida constantemente, durante uma relação interpessoal, como ocorre também na consulta de enfermagem. Tornou-se, assim, imprescindível decodificar esses signos para identificar as barreiras encontradas nas interações para futuramente criar mecanismos e tornar a comunicação mais efetiva no cuidado de enfermagem ao paciente cego.

Após três meses de treinamento dos juízes, os dados foram analisados. Diante disto, como mencionado, a expectativa era de concordância em todas as categorias. No entanto, de acordo com os dados obtidos no estudo e conforme se observa na Tabela 1, houve discordâncias entre os juízes nas seguintes variáveis do CONVENCE: a categoria Volume da Voz e as subcategorias gestos emblemáticos, gestos reguladores e abertura ocular.

Pode-se inferir a discordância dos juízes com relação aos gestos emblemáticos, gestos reguladores e abertura ocular pelo grande número de respostas não observadas durante as cenas. Já o volume da voz diz respeito a uma resposta mais subjetiva, pois para um juiz a enfermeira poderia estar falando em tom normal e para outro por meio de sussurro e vice-versa. Vale ressaltar que o volume da voz sofreu influência, ainda, por ser percebido por meio da técnica de gravação das consultas e o som variou de acordo com o tipo de ambiente, visto que as gravações foram realizadas no ambiente real da consulta.

A Tabela 2 mostra uma visão geral das categorias da comunicação não-verbal partindo do referencial proposto por Hall (1986) com a freqüência absoluta e percentual das 1.131 unidades de interação emitidas pelas enfermeiras em todas as filmagens classificadas pelos juízes da análise.

De acordo com Hall (1986), as distâncias mantidas entre as pessoas em uma interação podem variar conforme a cultura e as características das pessoas (sexo, estatura). A distância considerada ideal para latinos e europeus para se manter um diálogo é diferente.

Quando a distância é muito próxima pode ser vista como uma invasão à intimidade e quando a distância é excessiva pode ser interpretada como falta de interesse. Nesse sentido, não existe um limite específico, pois este varia de acordo com a cultura e a posição.

A primeira categoria contemplada na análise da comunicação não-verbal da enfermeira com o cego foi a Distância Espacial. Nesta categoria, a subcategoria distância íntima obteve 1.030 (91%) unidades de interações, enquanto a subcategoria distância pessoal ficou em torno de 89 (7,9%) e em 12 (1,1%) a enfermeira não foi visualizada ou não apareceu na imagem.

De modo geral, ao prestar assistência ao paciente o profissional precisa estar a uma distância íntima, contudo, sem descuidar do espaço pessoal de cada um. Além disso, deve-se estar atento aos sinais de defesa, quando possíveis de serem observados. A distância íntima prevaleceu, também, em virtude do ambiente onde aconteciam as consultas favorecer, tanto ao profissional quanto ao paciente, adotar quase unicamente esta distância, pois todos os ambulatórios medem aproximadamente 3m x 2,5m, conforme se observa na figura a seguir.


Figura 1 - Layout do ambulatório de atendimento desenhado pela autora
Figura 1 - Layout do ambulatório de atendimento desenhado pela autora


Como mostra a Figura 1, o espaço favorece a distância íntima. Mas a disposição da mesa e do mobiliário em geral também pode afetar o relacionamento interpessoal. O mobiliário interfere na postura das pessoas e pode demonstrar ações de conversação, cooperação, competição, poder, defesa e ações separadas (SILVA et al., 2000).

A posição da mesa entre o enfermeiro e o paciente demonstra exatamente a ação de conversação, conforme se observa na Figura 2, de acordo com Silva (1996, p. 84). É importante ressaltar, ainda, que esta sempre estava cheia de papéis e de materiais de procedimento durante os atendimentos. Este fato pode interferir na dinâmica da relação interpessoal, já que a enfermeira se desviava constantemente do cego para alcançar os materiais dispostos na mesa.

    

 

X



X

 

 

 

 

Figura 2 - Ação de conversação.
Adaptação da autora, com base em Silva (1996)


Contudo, especialmente a enfermeira deve procurar manter uma distância que demonstre interesse (LANDEROS, 2004). Uma atitude capaz de induzir à aproximação poderá ter grande importância em um primeiro contato, quando a relação enfermeira-paciente ainda não existe (LEITE; SILVA; SCOCHI, 2004).

Quanto à distância, há dúvida: Se o ambiente não favorecesse essa distância, será que os enfermeiros ou os pacientes manteriam a mesma distância íntima? Ou escolheriam a distância pessoal, já que poderia haver outras possibilidades de mudança de posição?

Ao se analisar a subcategoria 2, postura, a sentada obteve 1.112 (98,3%) nas imagens analisadas, a de pé, 6 (0,5%) e a ausente, 13 (1,2%). Quando emissor e receptor mantêm a mesma postura significa que ambos estão em sintonia, partilhando do mesmo ritmo, grau de interesse e movimento. A postura revela, ainda, o tipo de relação estabelecida com o outro, demonstrando domínio ou submissão, territoriedade dos envolvidos, intensidade do relacionamento e tentativa de fortalecer o vínculo.

Na consulta de enfermagem a diabéticos, a postura sentada é justificada por ser uma posição confortável para realizar a anamnese, registrar no prontuário o que está sendo dito e expresso pelo paciente, fazer o teste de glicemia e verificar a pressão arterial. De acordo com Landeros (2004), a postura adequada deve manifestar disponibilidade. Neste estudo, sobressaiu a postura sentada.

A posição adotada pelo corpo reflete pensamentos e sentimentos. Como afirma Hall (1994), os verdadeiros sentimentos da pessoa humana são comunicados por meio da linguagem do comportamento. Quanto ao eixo/ posição, 645 (57%) relacionavam-se a outro ângulo, como se pode observar na Tabela 2, 445 (39,3%) na posição face a face, 3 (0,3%), de costas, e 38 (3,4%) ausente. O eixo/interação diz respeito à posição dos ombros com relação a outra pessoa. Sociofugo implica desencorajamento da interação e sociopeto denota o contrário, encorajamento (HALL, 1986). Do total de interações, 892 (78,9%) demonstraram encorajamento, 203 (18%) desencorajamento e 36 (3,1%) ausentes. Como afirma Silva (1996), em um ambiente restrito tende-se a olhar menos para o outro. Por isso a posição mais detectada durante as consultas foram ângulos diferentes entre emissor e receptor.

Na subcategoria 4, denominada contato, para 943 (83,3%) interações não houve nenhum contato, mas houve 140 (12,4%) tocar localizado ou toque, 19 (1,7%) segurar demoradamente, 9 (0,8%) roçar acidental, 3 (0,3%) apertar ou apalpar e 17 (1,5%) ausente.

De acordo com Oliveira (2002), o contato do ser humano com o mundo começa pelos sentidos, que são capazes de transmitir prazer e desprazer.

Entre todos os sentidos, a visão desempenha papel fundamental e preponderante, sendo responsável por cerca de 80% do que se pode perceber do mundo ao redor. A audição também exerce função primordial e por ela se captam os sons e ruídos. No caso dos indivíduos cegos, a audição responde por 75% das suas experiências sensórias. O olfato, embora seja o sentido menos desenvolvido, é importante na dinâmica de orientação dos cegos, pois eles diferenciam os ambientes a partir dos odores característicos de cada um (HALL, 1986).

O tato possibilita a percepção precisa das formas e texturas dos objetos que tocamos. Essa sensação não se limita somente às mãos, mas estende-se ao longo de todo o corpo humano (OLIVEIRA, 2002). De todas as sensações, a tátil é a que é experimentada de modo mais pessoal e pode ser definida como uma faculdade que a pele possui de emitir e detectar sensações. Por ser extraordinariamente desenvolvida, acredita-se ter contribuído no passado de modo decisivo para a sobrevivência do homem. Segundo Hall (1986), ela ainda continua a desempenhar certo papel nesse aspecto. Os não-videntes, por exemplo, percebem a luz do dia ou o frescor da noite pelas sensações térmicas.

Na opinião de Castro (2002), o toque pode ter diversos significados tanto para a enfermeira como para o paciente. O toque utilizado como objeto de humanização da assistência pode tornar-se fonte de apoio no sentido de minimizar o sofrimento dos pacientes e criar vínculo afetivo para proporcionar uma melhor forma de cuidado.

Ressalta-se neste estudo que, na rotina da instituição, os pacientes não são atendidos pela mesma enfermeira, tanto pela demanda de usuários do serviço quanto pelo reduzido número de profissionais de enfermagem distribuídos para o atendimento aos diabéticos. Soma-se a este fato, também, o maior número de médicos disponíveis para este tipo de consultas. Então, a possibilidade do relacionamento enfermeiro-paciente manter um vínculo afetivo é desafiadora. E quando os indivíduos não se conhecem, conseqüentemente não possuirão este vínculo. Isto impossibilita qualquer tipo de contato mais pessoal, a exemplo do toque.

Por meio deste, as emoções podem ser melhor manifestadas, pois o toque firme e seguro vale mais que as palavras (ARAÚJO et al., 2002). A enfermeira precisa estar ciente da importância deste recurso na humanização do cuidado aos clientes e deve utilizá-lo de modo eficaz, para evitar torná-lo um ato mecânico, motivo de distanciamento entre enfermeira-paciente e barreira no processo comunicativo.

A categoria 2, Comportamento Social, compreende as seguintes subcategorias: gestos emblemáticos, gestos ilustradores e gestos reguladores.

Os gestos emblemáticos são culturais, aprendidos e podem expressar diretamente o que é pronunciado verbalmente. O suporte desses gestos são as várias partes do corpo, principalmente os membros superiores e a cabeça. Segundo Silva (1996), as características próprias deste tipo de gestualidade estão presentes nas mais variadas culturas. Nesta pesquisa, o gesto mais observado foi mover as mãos (67,4%), que pode ter vários significados, como adeus, até breve, raiva.

Como afirma Davis (1979), a gesticulação das mãos emerge quando uma pessoa tem maior dificuldade para se expressar ou quando o esforço para se fazer entender é enorme.

Conforme observado no estudo ora desenvolvido, as enfermeiras gesticularam com as mãos para poder o cego entender o que estava sendo expresso em suas palavras. Entretanto, como ele não possui a capacidade visual para perceber esse tipo de comunicação, estas profissionais precisam estar atentas para explorar outras formas de comunicação.

Os gestos ilustradores são aprendidos por imitação. Acompanham a fala, enfatizando a palavra ou a frase pronunciada (SILVA, 1996). Esse tipo de gestos refere-se aos sinais emitidos pelas mãos e braços entre si. De acordo com Davis (1979), pode haver mais de 700.000 sinais diferentes. Segundo revelaram os gestos ilustradores emitidos pelas enfermeiras, 566 (50%) desses gestos complementaram a comunicação verbal e 510 (45,1%) não a complementaram.

Os gestos reguladores, como o próprio nome sugere, regulam e mantêm a comunicação entre as pessoas e orientam o emissor para que ele continue, repita, elabore, e dê oportunidade ao outro falar (Idem, Ibidem). Com relação a este tipo de gesto, foram identificados: 582 (51,4%) nenhum contato/ não observado, 273 (24,1%) mover os olhos, 176 (15,6%) meneio de cabeça, 35 (3,1%) olha/ escreve no prontuário, 20 (1,8%) mover o corpo, 10 (0,9%) realiza procedimento e 35 (3,1%) ausente. Conforme Silva (1996), o meneio de cabeça reforça a fala do outro enquanto o movimento dos olhos na direção da pessoa reforça a fala, e o desvio inibe. Esses gestos estão na periferia da nossa consciência e, portanto, são difíceis de se inibir, haja vista que os movimentos corporais são involuntários. O restante do corpo e seu posicionamento com relação a outras pessoas revelam, principalmente, o que não está consciente no indivíduo.

Após as análises do comportamento como um todo, já descrito, optou-se por aprofundar o estudo do comportamento e expressões faciais, pois a face é a parte mais exposta do ser humano e onde as emoções são mais explícitas, e mais claramente demonstradas. De acordo com Darwin, um dos primeiros estudiosos a estudar a expressão humana, este estudo é difícil em virtude de serem os movimentos, muitas vezes, extremamente sutis e de natureza efêmera. Segundo ele acreditava, os principais movimentos expressivos dos homens são inatos ou hereditários, embora, em parte, possam ser modificados pela aprendizagem ou pela imitação (DARWIN, 2000).

Ainda conforme Darwin (2000), algumas expressões podem ser facilmente reconhecidas, mas cada pessoa pode fazer um juízo diferente em decorrência da capacidade de imaginação e da forma de agir de cada um. As expressões são mais bem analisadas quando não são influenciadas pela imaginação. Ademais, os músculos faciais confundem-se bastante, são muito variáveis na sua estrutura física e dificilmente são iguais em meia dúzia de indivíduos.

Outros estudiosos confirmaram o que Darwin (1872) havia descoberto, ao estudarem as expressões faciais de crianças cegas e surdas a partir do nascimento, e observaram o sorriso, o riso, a ira e algumas outras expressões fundamentais, que demonstraram serem esses comportamentos inatos. Além disso, conforme se acredita, todas as principais expressões mímicas exibidas pelo homem de diferentes países, do ponto de vista cultural, possuem importantes semelhanças entre si (BITTI; ZANI, 1997).

A categoria 3, Comportamento Facial, procurou retratar as expressões do rosto das enfermeiras transmitidas durante as consultas, assim identificadas: em 44,1% não foi observado, em 13,7% houve atenção, em 8,6% alegria, em 3,2% impaciência/indiferença/desconfiança, em 2,6% perplexidade, em 2% nojo, em 1,2% raiva/medo/tristeza e em 3,8% ausente. A expressão facial e o contexto no qual ocorre a interação estão inter-relacionados.

Os movimentos expressivos do rosto e do corpo, qualquer que seja sua origem, são por si mesmos muito importantes para o nosso bem-estar. Eles são o primeiro meio de comunicação entre a mãe e o bebê, desde o nascimento. O rosto também é tido como o melhor “mentiroso” da comunicação não-verbal, pois é a área do corpo da qual as pessoas têm mais consciência e onde as tentativas de controle são mais constantes (SILVA, 1993,1996).

Segundo Darwin (2000), os movimentos do rosto conferem vivacidade e energia às palavras, revelando pensamentos e intenções melhor do que as próprias palavras.

Diante disto, é necessário os enfermeiros entender, na medida do possível, a fonte ou a origem das expressões manifestadas constantemente à sua volta, bem como conhecer as próprias expressões. Desse modo, poderão mais facilmente reconhecê-las no rosto dos pacientes.

Como enfatizado por Silva et al. (2000), o rosto dos pacientes torna-se o principal local a ser observado pelas enfermeiras.

Visualmente, o cego não é capaz de perceber o que o enfermeiro expressa pelo rosto. O enfermeiro, porém, pode avaliar se sua comunicação com ele é efetiva ao observar suas expressões faciais. Entretanto, a expressão facial do cego pode ser pobre em termos de comunicação, já que ele não percebe as expressões do outro. Na opinião de Barczinski (2001), existe dificuldade em comunicar essas expressões. Mas é por meio dessa compreensão que se avaliam as reais necessidades do paciente e pode-se programar um plano de ação individualizado, levando em consideração a pessoa como um todo (SILVA, 1993). Portanto, é necessário aprofundar o conhecimento em comunicação não-verbal com vistas a um relacionamento interpessoal eficaz.

Ainda segundo Silva (1989), o olhar também merece destaque na área da face humana pela variada quantidade de sinais que ele pode emitir. A categoria 4, Código Visual, possui duas subcategorias: abertura ocular e direção do olhar. O contato visual constitui outra forma de mostrar interesse e atenção e é considerado a maior fonte de informação do homem.

Por mais importante que seja sua função de coletar informações, é preciso ter cuidado, pois o poder do olhar é incalculável. Ele pune, encoraja, domina.

O olhar tem a capacidade de retratar as emoções, pois o aumento da dimensão das pupilas pode traduzir-se em interesse, surpresa, assim como a diminuição pode significar tristeza, repulsa (HALL, 1986; SILVA, 1996). Conforme Mazza (1998), o olhar pode significar inúmeras mensagens como interesse, desinteresse, encorajamento, atenção, alegria, e até definir domínio. Outra importante função do olhar é estabelecer e regular o fluxo da conversação.

Ao manter o olhar sobre o paciente, ele perceberá que há um esforço de aproximação psicológica. Para alguns pesquisadores, só existe uma base real de comunicação quando duas pessoas se olham diretamente nos olhos (SILVA, 1989). Há, porém, outra corrente de pensamento segundo a qual é importante evitar os “olhos nos olhos” do cliente para não constrangê-lo; é melhor olhar entre os olhos por ser considerado menos ameaçador (LANDEROS, 2004).

Nesse estudo, a subcategoria abertura ocular mostrou o seguinte: não observado/nenhum contato (77,2%, alegria (4,7%), atenção (4,5%), tristeza/apatia/cansaço (2,5%), surpresa (1,7%), olhos fechados (1,6%) e ausente (7,8%) dos registros.

Segundo Peto (2000), os olhos revelam, muitas vezes, o que está escondido na alma e podem despertar sentimentos emotivos como amor, simpatia, entusiasmo, cansaço.

A subcategoria direção do olhar registrou: desviado do interlocutor (52,8%), centrado no interlocutor (44,4%) e ausente (2,8%). Como afirma Leite, Silva e Scochi (2004), manter contato visual é evitar desviar o olhar com freqüência, o que não significa olhar fixamente, pois o bom contato sugere interesse em ouvir o outro.

Ainda de acordo com estes autores, desviar o olhar com freqüência sugere relutância ou desconforto em estar com a pessoa. O olhar um pouco mais intenso demonstra uma pessoa segura de si, sincera, que interage, ou seja, favorece o aprofundamento da relação interpessoal.

O enfermeiro não pode esperar que o cego reaja a um olhar, pois existe um obstáculo a impedir esse contato visual, embora não signifique que ele não esteja interagindo e em harmonia durante o atendimento (BARCZINSKI, 2001). Conforme enfatiza Landeros (2004), o enfermeiro deve concentrar-se no paciente durante a interação, sem se preocupar em arrumar papéis, preencher formulários ou dirigir-se a outras pessoas, pois essas atitudes podem revelar falta de atenção.

A quinta categoria contemplada na análise da comunicação não-verbal da enfermeira com o cego foi o Volume da Voz, resultando em: tom normal (66%), silêncio (32,3%), sussurro (0,3%), grito (0,1%) e ausente (1,3%). O tom da voz e os gestos reforçam o discurso; são uma das formas mais elaboradas da interação humana (HALL, 1994).

O ato de ouvir o outro é uma atitude de comunicação não-verbal inserida nas relações interpessoais, essencial para o maior entendimento das pessoas envolvidas no processo (BRAGA, 2004). Como afirma Oliveira (2002, p. 168), “o homem é muito mais um ser que fala do que um ser capaz de ouvir”. Ouvir, de forma eficaz, ocorre quando o receptor é capaz de discernir e compreender o significado da mensagem que está sendo emitida pelo outro (LINGUAGEM..., 2005).

Para Freire (1997), o ato de ensinar e orientar exige que a pessoa aprenda e saiba escutar. Escutar ativamente constitui uma técnica a ser aprendida e praticada principalmente pelos profissionais que lidam com o público, nesse estudo, representados pelos enfermeiros (LINGUAGEM..., 2005).

A enfermeira precisa escutar atenta e criticamente o paciente, pois assim estará se comunicando com ele positivamente. Para ouvir, é necessário ficar em silêncio, demonstrar interesse e, sobretudo, aprender a controlar sentimentos, emoções e preconceitos (SILVA, 1996).

Após comentadas as categorias e suas subcategorias, serão abordados alguns aspectos relevantes da comunicação não-verbal observados durante as consultas, quando da filmagem. Esses dados foram também contemplados na Tabela 3, que analisou a associação das filmagens com as categorias não-verbais.


• FILMAGEM 1

Conforme é possível perceber nessa filmagem, a distância entre a enfermeira e a paciente demonstrou interesse. Ressalta-se, porém, a falta de habilidade da enfermeira no início da consulta quando disse claramente que não iria atender a paciente. O motivo alegado foi a paciente ter se alimentado dez minutos antes do atendimento, haja vista o teste de glicemia não poder ser realizado em tal circunstância.

A acompanhante da paciente justificou que já estava no horário da alimentação e, como não sabia que esta iria ser atendida em poucos minutos, ofereceu o lanche. É importante observar, também, que é rotina da instituição orientar os usuários a se alimentarem nos horários adequados para evitar os episódios de hipoglicemia.

Após a explicação da acompanhante, a enfermeira verbalizou que continuaria o atendimento, e deixaria o teste de glicemia para o final da consulta.

Esse imprevisto ocorrido no início do atendimento gerou constrangimento e bloqueou a comunicação enfermeira-paciente, prejudicando, assim, o relacionamento interpessoal entre ambas. De acordo com Powell e Brady (1994), qualquer comportamento que estabeleça uma barreira entre o falante e o ouvinte é um bloqueio de comunicação. No caso mencionado, este bloqueio pode estar relacionado, também, a uma atitude da enfermeira em recusar a realização da consulta por receio ou inibição em virtude de estar sendo filmada.

A filmagem foi, então, interrompida e a pesquisadora questionou se a profissional queria desistir de participar. Todavia, esta manifestou interesse em continuar e encontrou meios favoráveis à situação. Tal tipo de barreira deve ser evitado. Para isso, é necessário, primeiramente, ouvir o paciente. Saber qual seria sua explicação por ter se alimentado, em vez de simplesmente se recusar a atender.

Ao analisar o ambiente da sala, percebeu-se o barulho em vários momentos durante a realização da consulta. Deve-se ter em mente que o ambiente é um importante fator a ser tratado quando está relacionado à comunicação entre as pessoas. O local deve favorecer a comunicação e não acarretar barreiras e dificuldades passíveis de comprometer o diálogo sério e intencional do profissional. Como afirma Benjamin (1994), o ambiente não deve parecer ameaçador, barulhento nem provocar distrações.

Com relação ao contato entre ambas, como mostra a Tabela 3, este não existiu (79,7%). Tal fato pode ser justificado porque a maioria das pessoas evita tocar em estranhos, pois os indivíduos parecem ter reações negativas quando se encontram em condições térmicas não familiares (HALL, 1986). Enfatiza-se, entretanto, a importância do toque, já que a paciente não possui o canal visual para se comunicar e o mais leve toque pode dizer algo, expressar um calor impossível de ser transmitido por palavras (POWELL; BRADY, 1994).

Ao se observar a direção do olhar, percebe-se que a enfermeira manteve o olhar na paciente (50,2%) ou desviado dela (49,8%). De acordo com Landeros (2004), o enfermeiro deve concentrar-se essencialmente no paciente durante o tempo da interação, sem se preocupar em organizar papéis, preencher formulários ou se dirigir a outras pessoas. Tais atitudes podem ser interpretadas como falta de atenção.


• FILMAGEM 2

Conforme visto, o ambiente deve proporcionar um local propício à comunicação e favorável ao desenvolvimento da consulta. Em determinado instante, no desenrolar da conversação entre enfermeira-paciente, o telefone da filha da paciente tocou e ela permaneceu falando ao telefone por cerca de dois minutos. Enquanto isso, a enfermeira continuou a consulta, mas o barulho ocasionado tornou-se uma barreira no processo de comunicação.

Deve-se estar atenta às questões externas do ambiente como interferências e interrupções, pois esses acontecimentos só servem para prejudicar o andamento da entrevista.

Segundo alerta Benjamim (1994), chamadas telefônicas, batidas à porta, secretárias que interrompem a conversa, podem destruir em segundos aquilo que enfermeiro e paciente tentaram criar num tempo considerável.

Durante o atendimento observou-se nenhum contato (90,4%). Mesmo quando aconteceu o toque, estava relacionado ao exame físico da paciente. O toque instrumental é aquele que ocorre quando se realizam os procedimentos técnicos para alterar os padrões fisiológicos e observar os sinais manifestados pelo corpo (MAZZA, 1998).

Cabe enfatizar, porém, que o ato do enfermeiro tocar de forma expressiva, genuína e sincera pode exprimir cuidados e apoio ao paciente e à sua família. Inserir esta forma de cuidado em sua assistência é importante para desenvolver habilidades próprias, inerentes ao processo de comunicação (CASTRO, 2002.

Quanto aos gestos da enfermeira, não complementaram a comunicação verbal (42,4%). Este dado revela que os gestos não são usados de forma consciente ou não são conhecidos por parte da enfermeira. A gestualidade é intrínseca à comunicação e o profissional deve aprofundar seus conhecimentos neste campo de estudo para tornar a comunicação eficaz.

No referente ao olhar, permaneceu desviado do interlocutor (56,1%) durante o atendimento, mas, como já abordado por diversos autores, deve-se evitar os olhos fixos. Isto, no entanto, não significa não olhar para o outro de forma alguma. A direção do olhar da pessoa indica o objeto da sua atenção. Tal atitude observada nessa filmagem pode ser decorrente do desconforto da enfermeira diante de uma pessoa cega, cujo comportamento ocular proporciona poucos indícios de suas intenções (DAVIS, 1979).

O rosto é a parte do corpo humano que mais comumente se olha quando se estabelece uma relação interpessoal. A expressão do rosto é mais fácil de se observar. Por meio dela surgem muitas interpretações (LINGUAGEM..., 2005). A enfermeira pode ter desviado o seu olhar do paciente apenas porque ele não olhava para ela, ou porque estava com os olhos voltados para outra direção. Outro motivo seria a pouca expressividade percebida no rosto do paciente.

Segundo exposto em Darwin (2000), os cegos congênitos possuem as expressões inatas inerentes à pessoa cega, assim como a vidente, desde o nascimento. Como exemplo de aquisição natural dessa habilidade tem-se o sorriso, a expressão de choro, entre outras observadas pelo pesquisador. Esses tipos de gestos não são apreendidos pela assimilação da imagem mental, ou por imitação.

Já os pacientes com cegueira adquirida, como são caracterizados todos os que fizeram parte dessa pesquisa, podem possuir resquícios de expressões faciais aprendidas quando sua capacidade visual era normal. Podem, ainda, não possuir mais esta habilidade de expressão como as pessoas videntes, em decorrência da perda da facilidade da comunicação corporal, uma vez que estão impossibilitados de perceber as reações da pessoa que fala (BARCZINSKI, 2001).

Devido ao comprometimento visual da paciente, a fala é um componente a ser bastante explorado pelo profissional. Durante a consulta, observou-se atitude de silêncio (46%) da enfermeira. Evidentemente o silêncio também tem significado, pois ele pode enfatizar um desentendimento, ser neutro, conter empatia, ser resultado de uma confusão, entre outros (BENJAMIN, 1994). O silêncio também pode significar o ato de escutar o que o outro tem a falar. A enfermeira deve, portanto, estar atenta a isso e propiciar a ocorrência desses momentos na relação enfermeira-paciente.


• FILMAGEM 3

Nessa consulta, segundo informações colhidas pela pesquisadora após o consentimento do paciente em participar do estudo, este ficara cego há dois meses.

Em nenhum momento a enfermeira perguntou acerca da cegueira. Tal fato pode estar relacionado à posição adotada pelo paciente e observado na análise de cada cena. A postura relaciona-se, intrinsecamente, ao modo do ser humano estar no mundo, revelando suas atitudes psicológicas, como receber e selecionar estímulos, avaliar e responder a situações (PETO, 2000). A postura adotada pelo paciente era sempre cabisbaixa, tristonha, apática.

Com esse exemplo, pode-se perceber o quanto a postura “fala” por meio do corpo.

Ao analisar esse comportamento, percebe-se que a enfermeira não conseguiu captar a mensagem não-verbal emitida pelo paciente ou esquivou-se de comentá-la com ele.

As expressões do rosto podem ocorrer em todas as pessoas, mas o seu significado pode variar de uma cultura para outra (DAVIS, 1979). São sinais de grande importância porque é pelo rosto que as emoções são detectadas.

Na opinião de Peto (2000), as expressões do corpo acompanhadas de seus ritmos podem induzir os enfermeiros a compreender o mundo desconhecido da comunicação não-verbal do paciente. Conforme Silva (1993), os movimentos e expressões corporais assim como as disposições do indivíduo no espaço retratam mensagens e representam formas de comunicação.

Durante o atendimento observou-se, ainda, o barulho, constituindo uma barreira de comunicação, como abordado anteriormente. É preciso garantir ao paciente todos os seus direitos. Ele exige respeito e esta é uma forma de se obter a cooperação necessária para um bom andamento da interação (BENJAMIN, 1994).

Outro fato percebido diz respeito ao eixo da enfermeira. Ela adotou outro ângulo/sociofugo (44,72%) na maior parte do atendimento. O eixo é avaliado pela relação dos ombros entre as pessoas do diálogo. Segundo revela o eixo sociofugo, houve desencorajamento na interação (HALL, 1986). Essa conduta pode estar relacionada à dificuldade encontrada pela enfermeira em face da limitação visual do cliente ou até pela própria filmagem constituir-se um fator de constrangimento e inibição.

Com relação aos gestos ilustradores, não houve complementação da linguagem verbal (69,4%) pela enfermeira. Portanto, torna-se imprescindível o estudo da comunicação não-verbal por parte das enfermeiras como uma maneira de se conseguir detectar as necessidades do paciente, especialmente quando este possui algum tipo de limitação sensória (SILVA, 1989).

Durante a comunicação com o paciente, o olhar da enfermeira manteve-se desviado do interlocutor (64,2%). O olhar atua, também, como controle do nível de atenção de uma pessoa, ainda que esta não seja capaz de perceber. Na interação, o enfermeiro deve-se mostrar interessado. O olhar sobre o paciente facilitará a concretização dessa intenção na consulta de enfermagem. O motivo para a enfermeira desviar o olhar talvez tenha sido a não percepção deste pelo cego, gerando, assim, falta de interesse em manter sua atenção voltada para ele.

Em todo o atendimento houve, ainda, situações de silêncio (54,4%). O silêncio é considerado uma das formas de comunicação terapêutica a ser utilizada de modo adequado como já justificado, e também abordado por Leite, Silva e Scochi (2004). O silêncio pode significar que o profissional decidiu não dizer nada, considerando isso como a atitude mais útil a ser adotada naquele momento.


• FILMAGEM 4

Nessa filmagem observou-se, durante vários momentos no atendimento, que a conversa continuava enquanto a enfermeira organizava papéis, materiais de procedimento e outros detalhes ao redor da sua mesa. Conforme Stefanelli (1993), o principal foco de atenção do enfermeiro deve ser o paciente e para isso é necessário saber ouvir. Saber ouvir é condição essencial para que a comunicação seja, de fato, efetiva.

Ouvir exige, antes de qualquer coisa, se estar despreocupado para se poder dar atenção plena. Ouvir também implica escutar o modo como as coisas são ditas, o tom usado, as expressões, os gestos empregados (BENJAMIN, 1994). Para ouvir, a enfermeira precisa perceber o que não está sendo dito verbalmente, o que está oculto. Como relata Benjamin (1994, p.68), “ouvimos com os ouvidos, mas escutamos também com os nossos olhos, coração, mente e vísceras”.

Durante o atendimento, percebeu-se o barulho provocado pelo toque do telefone na sala ao lado, causando interrupções à conversação com o paciente. Alguns fatores ambientais interferem na relação humana. Entre estes mencionam-se: mobiliário, estilo arquitetônico, decoração de interiores, condições de iluminação, cores, temperatura e ruídos adicionais ou música (PAEGLE; SILVA, 2005). Antes de iniciar o atendimento, o profissional precisa organizar devidamente o ambiente a fim de minimizar essas interrupções, e promover uma comunicação terapêutica. Nesse caso, por exemplo, o telefone tocou na sala vizinha, mas não deveria ser audível no local da consulta, pois atrapalhou o andamento e a continuidade desta. Diante disto, após o encerramento do atendimento, a enfermeira deveria se dirigir à sala e sugerir a diminuição do volume do aparelho para evitar esse constrangimento em outro momento.

Com relação ao contato estabelecido nessa interação, a maior quantidade de registro foi nenhum contato (92,9%). Como afirma Barczinski (2001), o paciente que possui uma deficiência visual, como a cegueira, necessita ser tocado para perceber e entender o que está sendo expresso pelas palavras.

O trabalho com o paciente cego exige interações especiais inerentes ao relacionamento do profissional com ele. Por exemplo, o tocar e ser tocado (BARCZINSKI, 2001). Com base nessas informações, o enfermeiro precisa avaliar constantemente suas experiências com este tipo de clientela e reavaliar suas condutas.

Ainda conforme percebeu-se, o olhar da enfermeira foi desviado do interlocutor (61,6%), o que pode revelar desinteresse e falta de atenção para com o paciente. Ao se analisar esta conduta no ângulo da enfermeira, pode-se justificá-la por sua dificuldade em lidar com uma pessoa impossibilitada de olhar para ela, ou até por não conseguir perceber que o cego é capaz de emitir outras formas de expressões não visuais.


• FILMAGEM 5

No começo desse atendimento, em virtude da presença de duas alunas da graduação, a enfermeira iniciou a consulta explicando para ambas, e também para a acompanhante, o significado de neuropatia. Essa intervenção com relação às alunas acontece apenas nesse momento e por isso a filmagem não foi invalidada, já que o objeto deste estudo é o enfermeiro e o cego.

Depois, a enfermeira dirigiu-se ao paciente utilizando termos técnicos. Para haver uma comunicação terapêutica, deve-se evitar formas ambíguas de comunicação como o uso de uma linguagem inacessível (SILVA, 1993). O enfermeiro deve ser um agente facilitador do processo de comunicação com o cego.

Conforme observado nas outras filmagens, essa consulta também foi interrompida, no caso, com a entrada de uma secretária solicitando informação à enfermeira. Uma interrupção é capaz de criar um grande obstáculo à comunicação, pois pode barrar o fluxo da conversa. A fim de evitar esses tipos de interrupções e, conseqüentemente, minimizar as barreiras comunicativas, alguns entrevistadores sugerem colocar avisos na porta como, por exemplo, “favor não perturbar”. Apesar de ser útil, essa atitude poderá inibir o próximo paciente ou torná-lo ansioso. Desse modo, é necessário mesmo comunicar e solicitar à equipe não interferir durante as consultas (BENJAMIN, 1994).

O contato ou toque também se mostrou quase totalmente inexistente (85,6%).

Desde o nascimento do ser humano, o contato é essencial. Os recém-nascidos que não recebem esse tipo de afeição física geralmente adoecem e morrem. Como afirmam Powell e Brady (1994), o toque é um dos meios mais poderosos e primordiais da comunicação humana.

Entretanto, algumas pessoas se sentem ameaçadas pelo contato, pois o consideram uma invasão do espaço e da privacidade pessoal. Na interação com a clientela cega, o enfermeiro deve valorizar o ato de tocar como um aspecto que revela a qualidade dos cuidados prestados e transmite simpatia, conforto e aceitação (LEITE; SILVA; SCOCHI, 2004).

Além de proporcionar cuidado físico ao paciente, o toque humano pode expressar mais do que qualquer discurso. Em sua prática assistencial, o enfermeiro precisa aprender a usar o toque consciente, respeitando-se o contexto cultural e a situação na qual ele ocorre.

Deverá, também, perceber as reações emocionais que o toque provoca nos cegos.

Dessa maneira, a relação interpessoal com o cego tornar-se-á mais humanizada. A utilização do toque e a atenção para o enfoque da comunicação não-verbal de si e do paciente são instrumentos eficazes para sua compreensão nas interações.

Durante o processo comunicativo, é importante ressaltar, ainda, que os gestos utilizados pela enfermeira não complementaram a comunicação verbal (54,9%). Evidencia-se com esses dados a falta de habilidade da enfermeira em emitir, receber e perceber sinais não-verbais. Faz-se necessário, portanto, o profissional destacar a importância da comunicação não-verbal bem como seu interesse em estudar o aspecto da expressividade humana.

O enfermeiro precisa se conscientizar sobre a influência da comunicação não-verbal, percebê-la como fundamental na interação humana e torná-la uma forma eficaz nas relações interpessoais. Emitir, receber e perceber a comunicação não-verbal são processos independentes, que ocorrem sem se ter, na maioria destes comportamentos, consciência do que está acontecendo, ou de sua causa. Esses processos são naturais, mas podem-se tornar habilidades (MESQUITA, 1997). Conhecimentos teóricos sobre comunicação não-verbal podem, ainda, estar intimamente relacionados à atuação profissional do enfermeiro na sociedade.


7 CONCLUSÃO

Conforme se observou no estudo, a comunicação não-verbal demonstrou mais fidedignamente as intenções, sentimentos, expressões e ações que permeiam as relações entre as pessoas.

Os resultados obtidos com este estudo, cujos objetivos foram analisar a comunicação não-verbal do enfermeiro com o cego durante a consulta de enfermagem; testar o índice de confiabilidade entre os juízes da análise da comunicação não-verbal; classificar os sinais não-verbais, segundo o referencial de Hall (1986); verificar a associação entre as filmagens e os fatores de comunicação não-verbal; e identificar as barreiras desse processo, permitiram chegar às seguintes conclusões: Para validar as categorias do CONVENCE, verificou-se o índice de concordância entre os juízes da análise de dados. De acordo com esta verificação, a categoria que obteve a confiabilidade entre os juízes foi Comportamento Facial e as subcategorias foram: distância, postura, eixo, contato, gestos ilustradores e direção do olhar.

Quanto às discordâncias entre os juízes, se relacionaram à categoria Volume da Voz e às subcategorias gestos emblemáticos, gestos reguladores e abertura ocular. Pode-se inferir a não concordância dessas variáveis nos gestos emblemáticos, reguladores e abertura ocular pelo grande número de respostas não observadas durante as cenas. Já o volume da voz diz respeito a uma resposta mais subjetiva, pois para um juíz a enfermeira poderia estar falando em tom normal e para outro poderia significar sussurro e vice-versa.

Após a classificação dos sinais não-verbais, chegou-se ao total de 1.131 imagens analisadas de acordo com o CONVENCE e segundo o referencial proposto por Hall (1986).

Na relação enfermeira-paciente, a distância íntima prevaleceu pelo fato do ambiente onde aconteciam as consultas favorecer, tanto ao profissional quanto ao paciente, adotar quase unicamente esta distância. Quanto à postura, a sentada obteve 98,3% do total de imagens analisadas.

No referente ao contato, conforme observou-se em todas as filmagens, em mais de 70% das análises não houve contato entre a enfermeira e o cego. Embora timidamente, as enfermeiras tentaram explorar o toque para o paciente poder compreender o que estava sendo abordado durante a consulta ou, ainda, se dirigiram ao acompanhante dele para fazê-lo compreender o que estava sendo explicitado.

Com este estudo percebeu-se, ainda, o quanto as enfermeiras gesticularam com as mãos na tentativa de se fazerem entender pelo cego. Porém, como ele não possui a capacidade visual para decodificar esse tipo de mensagem, esses profissionais precisam estar atentos para explorar outras formas de comunicação.

O enfermeiro precisa estar ciente da importância do toque na humanização do cuidado aos pacientes a fim de que a utilização ineficaz deste recurso não se torne um ato mecânico, motivo de distanciamento entre enfermeiro-paciente e barreira no processo comunicativo.

O contato visual corresponde a outra forma de mostrar interesse e atenção e é considerado a maior fonte de informação do homem. Embora o cego não seja capaz de perceber visualmente as expressões do enfermeiro por meio do rosto, este pode avaliar se sua comunicação com o cego é efetiva pelas expressões faciais por ele manifestadas.

Quanto à expressão facial do cego, esta pode ser pobre em termos de comunicação, pois, em virtude da cegueira, ele não percebe as expressões do outro. Estas expressões, portanto, podem ser quase inexistentes. Outras vezes, estes pacientes podem exteriorizar outros tipos de gestos para manifestar sentimentos e emoções. Diante disto, faz-se necessário resgatar a comunicação não-verbal emitida pelos enfermeiros e pacientes cegos para desenvolver a competência interpessoal.

Ainda conforme notou-se, as enfermeiras desviaram o olhar do paciente. O motivo dessa atitude talvez seja explicado pela não correspondência deste olhar pelo cego, gerando, assim, falta de interesse em manter a comunicação voltada para ele.

De acordo com a análise estatística da Tabela 3, houve dependência, melhor dizendo, houve associação das respostas pelas filmagens, podendo se inferir também que as categorias foram influenciadas por cada filmagem.

Em todas as filmagens, observaram-se interferências consideráveis, como toque do telefone, entrada de pessoas durante a consulta e barulho, no momento da interação enfermeira-paciente. Esses fatos foram interpretados como barreiras à comunicação, pois prejudicaram a andamento do atendimento. Ao mesmo tempo, evidenciaram a real condição em que são realizadas as consultas de enfermagem.

Com base nestes dados, pode-se concluir que o enfermeiro precisa conhecer e aprofundar os estudos sobre as teorias de comunicação não-verbal e adequar o seu uso ao tipo de clientela assistida durante as consultas.

Propõe-se que esses profissionais avaliem o seu comportamento, seus gestos e atitudes, enfim, sua comunicação não-verbal para as intervenções serem eficazes no caso do paciente com cegueira.

Sugere-se, ainda, que o enfermeiro aprofunde seus conhecimentos sobre o comportamento do cego a fim de decodificar os sinais não-verbais por ele emitidos, pois estes podem ser expressos de maneira diferente da usada por uma pessoa que enxerga normalmente.

É necessário, portanto, serem elaborados mais estudos nesse sentido para poder o enfermeiro se tornar um comunicador eficiente na interação com o cego.

Sobre a técnica de filmagem, gostaria de tecer algumas considerações. A técnica de filmagem utilizada na coleta de dados constituiu-se como importante ferramenta para analisar a comunicação não-verbal emitida pela enfermeira durante a consulta, registrando aspectos relevantes e que poderiam ser perdidos caso não se utilizasse essa técnica. Podem-se enumerar, ainda, algumas vantagens e desvantagens relacionadas ao uso da câmera filmadora.


Estas vantagens são as seguintes:

A filmagem fornece uma retrospectiva real do que foi trabalhado na consulta e pode ser revista a qualquer momento da pesquisa; pode documentar provas irrefutáveis da comunicação verbal e não-verbal ocorrida na consulta; ser um registro fidedigno. Além disso, possibilita ao profissional enriquecer seus conhecimentos ao rever atitudes tomadas de forma inadequada mediante reflexão sobre tais atitudes.

Com relação às desvantagens, mencionam-se: a interação paciente-enfermeiro, quando registrada por aparelhos ou observada, poderá sofrer interferências e alterar os fenômenos; outras vezes pode causar resistência do enfermeiro em face do uso da filmagem devido à sua exposição perante seus colegas de trabalho e outros enfermeiros.

Por fim, com a análise das características da comunicação não-verbal entre o enfermeiro e o cego, espera-se poder contribuir, de alguma forma, para tornar esta comunicação mais eficaz. Se o estudo ora apresentado alcançar esta finalidade, será muito gratificante e o mestrado terá valido a pena.


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Características da comunicação não-verbal entre o enfermeiro e o cego
autora: Cristiana Brasil de Almeida, 2005
Dissertação de Mestrado do PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ENFERMAGEM
Orientadora: Profa. Dra. Lorita M. F. Pagliuca
Área Temática: Saúde Ocular
Faculdade de Farmácia, Odontologia e Enfermagem
UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ, FORTALEZA

Fonte: biblioteca virtual em saúde

 

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29.Jul.2011
publicado por MJA