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 Sobre a Deficiência Visual

Caminhar sem Medo e sem Mito

Sonia B. Hoffmann & Ricardo Seewald

Umizato - Oda, 1832


Prefácio
 
O documento apresentado pela Dr.ª Sónia Hoffmann e pelo presidente da ADEVIS-NH Ricardo Seewald, reflecte uma boa síntese dos elementos fundamentais sobre a Orientação e Mobilidade para informação dos familiares, técnicos, público em geral, e em particular para as pessoas com deficiência visual.
A importância da Orientação e Mobilidade está muito bem focalizada e de uma maneira que facilmente é entendida por todos e, reforço por todos, pois na verdade não diz respeito só ao deficiente visual mas a todos, isto é, técnicos, familiares e outros.
Uma ideia central é apontada, isto é, a falta de conhecimento leva a que a pessoa com deficiência visual seja reconhecida como irremediavelmente incapaz.
No entanto, como é descrito no texto, se houver uma boa informação das capacidades do deficiente visual, em vez de basear a caracterização na incapacidade e se a intervenção for em tempo útil, a pessoa com deficiência visual torna-se um ser com um manancial imenso de capacidades. Esta atitude positivista da sociedade deve ser transmitida à criança, ao jovem, ao adulto cego, dando oportunidades para que se desenvolva plenamente no meio dos outros onde o movimento ocupa elemento fundamental desse processo.
Outro aspecto referido é a seriedade como deve ser encarada a Orientação e Mobilidade e a sua complexidade. De facto, a naturalidade e lógica das técnicas de Orientação e Mobilidade pode levar os menos atentos a pensar que se trata de uma área simples e como tal, qualquer pessoa sem sólida formação para o efeito, a pode administrar. A este respeito os autores sublinham a opinião de Carroll, uma técnica incorrecta é mais nociva, do que a não possuir.
Dos benefícios nomeados por Hoffmann muito bem descritos gostávamos de realçar a "Privacidade" que vulgarmente não é citada ou simplesmente desprezada. Este aspecto, confere à pessoa, o ser pessoa, ter direito ao seu mundo, mundo, onde guarda seus tesouros. É a partir dele que constrói sua personalidade e comportamento perante os outros. Como sabemos a privacidade na pessoa com deficiência visual está fragilizada e como tal devemos sempre que possível oportunizar situações para fortalecer essa mesma privacidade. Neste aspecto os autores do documento traçam uma estratégia correcta.
Fala-se muito que o deficiente visual tem, que se adaptar, relacionar, integrar, participar, isto é, ultrapassar todas as barreiras arquitectónicas, humanas e sociais, mas se tal facto é verdade, nunca terá sucesso se outros também não se adaptarem, relacionarem, integrarem-se, participarem.
O crescer, desenvolver, educar a pessoa com deficiência visual tem de ser um processo partilhado por todos.
Aos autores obrigado.
José Alberto Moura e Castro


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As pessoas normalmente atribuem ao portador de deficiência visual uma dependência constante da sua ajuda e vigilância, com poucas habilidades principalmente para o seu deslocamento no ambiente de forma autônoma e segura. Este pensamento acontece muitas vezes não somente com crianças e, tampouco, é provindo apenas daqueles que enxergam, porque diversos portadores de cegueira ou visão subnormal consideram-se, na grande maioria dos casos, inaptos ou incapazes para esta actividade.

Os motivos para esta concepção parecem estar directamente vinculados ao desconhecimento, à dúvida e ao medo culturalmente construídos no que diz respeito às potencialidades e habilidades de alguém com perda ou diminuição da sua visão. Esta atitude pode ser observada desde o momento em que são rotuladas como cegas aquelas pessoas que apresentam visão subnormal, com uma demonstração clara de que para muitos todos aqueles que possuem alteração visual são impreterivelmente cegos. Além disto, o comportamento protetor ou descrédito procedente dos pais, familiares e comunidade pode gerar uma extensa e profunda problemática para a construção e desenvolvimento do indivíduo com deficiência visual, especialmente em sua fase infantil.

A rede de entraves prolifera-se de forma cumulativa e cíclica, produzindo lentamente danos no corpo e na personalidade do indivíduo e prejuízos nas relações interpessoais, nem sempre reversíveis. Esta realidade, no entanto, pode ser minimizada ou evitada se uma acção interventiva eficiente e adequada acontecer dentro de um tempo suficiente por parte da família, profissionais, comunidade e o próprio portador do comprometimento visual.

Assim, a criança cega ou com visão reduzida poderá lidar muito mais com as dificuldades próprias e peculiares da infância do que com uma sobrecarga de problemas e tabus adicionada pelos receios, incertezas e preconceitos do adulto. O mesmo certamente acontece com o adolescente e com o adulto, pois as dificuldades características destas fases serão enfrentadas e resolvidas sem o estresse da preponderância da sua condição de deficiente visual. Isto é: Mariana antes de ser cega, é uma criança; Marcelo, um jovem acima da sua deficiência visual e Pedro, um adulto apesar da sua visão reduzida.

O movimento representa uma importante acção interventiva para a concretização destas possibilidades e torna-se um elo significativo entre a organização, conhecimento e valorização do portador de deficiência visual e das demais pessoas que com ele convivem. Este processo, se adequadamente conduzido e entendido, irá provavelmente ocorrer de forma recíproca porque a pessoa em movimento age e interage com seu ambiente, explora e descobre o mundo, estabelece comunicações e intercâmbios, elabora conceitos e atitudes e constrói o conhecimento.

Desta forma, os benefícios que o movimento desencadeia no indivíduo com algum comprometimento visual vão para além daqueles de origem fisiológica, estética ou motora: raciocínio, afetividade, emoções, postura social e ética são igualmente conhecidos e assimilados com e no movimento, em suas diversas formas. O caminhar é, para aqueles que não apresentam uma deficiência motora impeditiva, um movimento natural no ser humano. Contudo, este movimento espontâneo nem sempre está presente de modo natural e simples porque, muitas vezes, o portador de deficiência visual pode encontrar-se desorientado e sem referências para a realização do mesmo ou, então, não ter o conhecimento desta possibilidade corporal e o desenvolvimento desta habilidade.

Sua orientação no espaço, seja em relação ao ambiente, objectos e pessoas que nele estejam presentes, assim como dos possíveis trajetos, é algo marcante. A criança, o adolescente ou o adulto com deficiência visual têm plena capacidade para desenvolver habilidades motoras e mentais desde que a ele sejam oferecidas informações e oportunidades para aprendizagens e vivências, ou seja, desde que a ele seja possibilitada uma vida sem preconceitos, tabus ou fantasias, gerado muito mais na imaginação dos outros do que nas suas reais dificuldades.

Um dos mais importantes tabus, até aqui mantidos pelas pessoas que enxergam, é o de que uma criança cega ou com visão subnormal deve permanecer protetoramente limitada a um espaço físico seguro, livre de qualquer possibilidade de arranhões, quedas, tropeços, batidas ou qualquer outro risco, como se este não fosse o dia-a-dia de uma criança com ou sem comprometimento que brinca, explora o ambiente, se conhece e reconhece nas actividades. Todos os pais e profissionais ficam muito preocupados em dar à criança condições para engatinhar, dar os primeiros passos e se movimentar em seu quarto. Mas, quando chega o momento em que esta criança quer conhecer por si mesma, como as outras crianças, outros ambientes e outras actividades, surge o medo, a proteção e pronto: a criança com deficiência visual aprende a ter medo do mundo porque os adultos lhe ensinam este medo e, sem perceber, as prejudicam porque incutem nelas o receio, a passividade e a falta de iniciativa, que certamente vão lhe dificultar seu pleno desenvolvimento, felicidade e realização.

Quando chega este estágio, muitos pais e profissionais ficam pensativos, consideram que deveriam ter assumido outra postura e comportamento com estas crianças desde a infância, porém, do dia para a noite ninguém modifica situações que deveriam ter sido resolvidas em outra época, em outro momento e que, no presente, somente atrasos e prejuízos sinalizam esta omissão. As comparações certamente começam a acontecer porque os reflexos da superproteção ou da indiferença as distanciam muito mais das outras crianças, uma vez que estas deixam suas casas para ingressar na escola, na comunidade, na igreja, no clube e em tantos outros ambientes sociais e não são isoladas. Esta comparação não acontece somente a partir dos pais e dos profissionais: pior, as próprias crianças, adolescentes e adultos se comparam e percebem que algo limitativo existe, um algo que elas não entendem e que talvez lhes pareça intransponível porque nelas foi paulatinamente instalado a restrição, o receio de ousar algo, modelando suas atitudes, movimentos e ideias.

Pais e profissionais parecem subitamente dar-se conta que um dia poderão afastar-se temporária ou permanentemente destes indivíduos, que necessariamente precisam dar continuidade a sua existência de alguma forma. Então, passam a dotar comportamentos e desejam que magicamente os atrasos e os prejuízos acumulados durante a infância e a adolescência sejam transformados em habilidades e capacidades. Surge então repentinamente a reglete e o punção, a bengala e todos os afazeres da vida diária, como que se até este dia nada disto existisse e como que se a realização de actividades não tivessem sua construção ao longo do tempo! A escrita e leitura braille, a organização espacial e o deslocamento do indivíduo no ambiente requerem o desenvolvimento de habilidades específicas e, de modo algum, estão sujeitas somente à idade ou ao momento da vontade dos pais e dos profissionais, porque a confiança no seu corpo e no potencial que possui são gradativamente conquistados pela criança, pelo adolescente e pelo adulto.

É comum o processo de Orientação e Mobilidade ser confundido com a aprendizagem apenas do uso da bengala, quando tal processo envolve tantas outras estratégias e recursos.


Mas então o que é Orientação e Mobilidade?

Orientação e Mobilidade (O.M.) é uma actividade motora e pode ser definida como um processo amplo e flexível, composto por um conjunto de capacidades motoras, cognitivas, afetivas e sociais e por um elenco de técnicas apropriadas e específicas, que permitem ao seu usuário conhecer, relacionar-se e deslocar-se de forma (in)dependente e natural nas mais diversas estruturas, espaços e situações do ambiente.

As estratégias e recursos mais utilizados na Orientação e Mobilidade são o guia-humano, a auto-proteção, a bengala e o cão-guia.

O método dependente de locomoção ou locomoção com o guia-humano é empregado quando a pessoa com deficiência visual:

  • está, momentânea ou permanentemente, impossibilitada física, psicológica ou socialmente de utilizar a bengala;
  • está na fase inicial da aprendizagem das técnicas de OM e da locomoção independente;
  • encontra-se em situações nas quais somente o uso da bengala não é recomendado ou, então, em condições eventuais como, por exemplo, travessia de uma rua movimentada, estrago ou extravio da bengala, acomodação em cinema ou teatro.

Este método oferece à pessoa portadora de cegueira ou visão subnormal, quando o guia é hábil e conhecedor das estratégias, a condição imediata de locomoção segura e eficiente no espaço e favorece, a ela, a captação de informações sobre este ambiente. No entanto, é importante que o guia-humano considere-se e seja considerado apenas como uma extensão dos sentidos tátil e cinestésico do indivíduo comprometido visualmente, com excepção da sua actuação na fase infantil porque ele tem também a função de apresentar e nomear o mundo e seus objectos para a criança. Em nossa opinião, guia-humano e indivíduo cego devem adotar um comportamento que não venha subestimar, supervalorizar ou sobrecarregar com funções e responsabilidades a qualquer um deles e, também, que as pessoas que se disponham a servir como guias realizem um treinamento em OM, pois existem técnicas específicas para diferentes comportamentos e situações.

As técnicas de auto-proteção permitem ao indivíduo cego o deslocamento autônomo dentro de um espaço conhecido, não assegurando a detecção de mudanças de níveis no ambiente. Com a utilização da própria mão e antebraço, o indivíduo aprende a realizar a proteção do seu rosto, porção superior e porção inferior do seu tronco em relação a possíveis obstáculos, acidentes e perigos. Neste treinamento, são incluídas técnicas para a própria proteção do indivíduo e, inclusive, para a proteção de outras pessoas, especialmente em relação a outras pessoas com deficiência visual, como, por exemplo, utilizar, sempre que possível, o trajeto pelo seu lado direito.

A bengala longa, símbolo universal da deficiência visual, identifica seu usuário como portador de cegueira ou visão subnormal , podendo ser considerada um auxílio e sinalizador efetivo e eficiente de locomoção independente. Combinada com as técnicas específicas de mobilidade e as do seu funcionamento, a bengala representa para uma pessoa com deficiência visual, entre outros benefícios, a extensão dos seus sentidos tátil e cinestésico, segurança, proteção e meio informativo sobre a natureza e condições do solo e de alguns obstáculos do ambiente.

Autores referem também que o uso da bengala estimula o intelecto de uma pessoa portadora de deficiência visual, pois lhe obriga a raciocinar sobre a forma de resolução dos problemas que possam ocorrer durante seus deslocamentos.

A bengala não tem uma função ortopédica ou de sustentação, mas de proteção, orientação e detecção das informações ambientais captadas por sensações táteis e percebidas pelos receptores localizados na mão do indivíduo cego, sendo enviadas ao seu cérebro. Portanto, a bengala longa (ou de Hoover, seu criador) ou a articulada têm a função de aumentar o alcance da perna e do braço de um indivíduo cego. Seu material é geralmente formado por uma liga de alumínio e o seu comprimento compreende a distância, na linha vertical, entre o solo e a base do osso do peito chamado esterno. É importante que esta medida seja adoptada sempre que uma nova bengala seja adquirida, pois se não for respeitada a altura deste instrumento em proporção a altura do portador de deficiência visual, graves comprometimentos nos músculos e articulações podem acontecer.

O treinamento no uso das técnicas específicas da bengala pressupõe o treinamento na utilização de todos os sentidos remanescentes e deve ser ensinado por um instrutor ou professor especializado em suas técnicas, pois, de acordo com Carroll (1968), seu uso se tornará mais nocivo do que a falta da mesma, se não houver uma orientação correcta. Além disto, acreditamos que um profissional habilitado terá melhores condições de realizar uma avaliação e, nela, detectar alterações que talvez não estejam directamente relacionadas à mobilidade do indivíduo mas que, de alguma forma, prejudiquem esta actividade.

A introdução da bengala na vida de uma criança, adolescente ou adulto pode acontecer de maneira formal ou informal, dentro de brincadeiras ou actividades pedagógicas específicas, uma vez que nem sempre estes indivíduos estão motora e emocionalmente preparados para o seu uso. Muitas vezes, uma criança precisa de um instrumento que ainda não deve possuir as características da bengala utilizada pelo adolescente ou pelo adulto, pois necessita de uma base de sustentação maior: tal como quando as crianças caminham com os seus pés mais afastados para terem maior equilíbrio.

Em outras situações, o fato da pessoa se deparar com buracos, árvores e outros obstáculos, pode fazer com que ela desista de utilizar a bengala, se ela não estiver bem estimulada, estruturada emocionalmente e com domínio das técnicas da OM, porque a frustração e o constrangimento gerados pelas colisões, intromissões e situações imprevistas parecem ser elementos que deixam uma pessoa confusa, insegura e desmotivada.

O cão guia representa outro recurso de OM, mas exige do seu usuário idade própria, conhecimentos prévios de OM e condições para a realização dos cuidados e manutenção da sobrevivência, saúde e higiene do cão. O uso deste recurso não é recomendado para crianças, pois a tendência para brincadeiras com este animal é intensa nesta fase e a criança tem dificuldade para entender que o cão está ao seu lado para desenvolver um trabalho de orientação e facilitação da sua mobilidade e não para brincar.

As principais funções dos recursos e instrumentos de mobilidade, como prolongamentos da sensibilidade de uma pessoa com deficiência visual, são de proporcionar a ela um deslocamento sem colisões ou quedas e, no caso específico da bengala, de percepção e antecipação daquilo que se encontra em seu trajeto. A participação da família neste processo é de grande importância, pois no ambiente familiar a criança, o adolescente e o adulto vivenciam as experiências próprias da sua realidade com maior naturalidade e destreza. Especificamente em relação à bengala, acreditamos que ela deva fazer parte dos brinquedos de uma criança para que, no dia-a-dia, ela tome contacto com este instrumento, se familiarize com ele e o inclua em seu esquema corporal.

A aprendizagem e uso da Orientação e Mobilidade pode trazer ao indivíduo muitos benefícios para sua qualidade e estilo de vida, desde sua fase infantil.

Alguns destes benefícios, nomeados por Hoffmann (1999), são os seguintes:


1. Independência

Este efeito é atingido através da efetiva aprendizagem e manejo de todas as técnicas de OM, embora o recurso do guia-humano esteja categorizado como "locomoção dependente". Mesmo com a utilização das técnicas da locomoção independente (bengala), todo usuário terá, em algum momento, a necessidade de solicitar, receber e/ou dispensar o apoio de um guia: o conhecimento global da OM lhe oferece a condição e segurança para esta atitude, principalmente dentro das suas conveniências e não apenas daquelas do guia-humano, garantindo, assim, sua independência.

Cabe salientar que o efeito positivo da independência não está restrito à aquisição da capacidade do indivíduo com deficiência visual em realizar atividades com a maior autonomia locomotora possível: ele influencia diretamente o seu bem estar geral e a sua capacidade em interAgir no e sobre o ambiente, em qualquer faixa etária.

É importante destacar que, de acordo com a idade em que o ensino da OM for introduzido (etapa infantil, adolescência ou idade adulta), a independência será conquistada com maior ou menor rapidez, intensidade e gradação.


2. Segurança

A observação e a experiência indicam que o indivíduo portador de deficiência visual se encontra, justamente pelo comprometimento sensorial, mais propenso a defrontar situações de constrangimento, perigo, acidente ou choque durante seus deslocamentos. O uso adequado das técnicas da bengala, de proteção e/ou do guia-humano podem efetivamente reduzir a probabilidade destes riscos.

Com referência à bengala, como instrumento de proteção, ela ultrapassa a função de evitar colisões do seu usuário com obstáculos ambientais, principalmente quando estes obstáculos são terrestres ou se encontram em uma altura correspondente à distância entre a base da bengala (ponteira) e a sua porção superior. Ela também possibilita ao indivíduo modificar a direção, o tipo e o ritmo do movimento pelo controle mental de sua resposta a um estímulo ambiental, através do tempo de reação.

Vista como um instrumento de orientação, a bengala longa ou articulada pode também ser considerada um instrumento que permite ao indivíduo sentir-se seguro com o seu uso, pois, através dela, a estabilidade de sua orientação é mantida.

Isto pode significar que os recursos utilizados na OM oferecem ao portador de deficiência visual a possibilidade dele realizar, em várias situações, atividades que envolvam deslocamentos com o sentimento de estar protegido contra possíveis choques e/ou acidentes.

Contudo, no caso específico da bengala, é importante ressaltar que a motivação de uma pessoa cega para seus deslocamentos deve ter maior intensidade do que o seu receio de enfrentar obstáculos.


3. Auto-Confiança

O domínio e o manejo dos recursos da OM oportunizam ao portador de deficiência visual a diversificação e qualificação das experiências locomotoras e, assim, o exercício das suas habilidades motoras e cognitivas. Esta ação provoca o auto-conhecimento e a vivência da dicotomia confronto-resolução, possibilitando o desenvolvimento da confiança e segurança em suas competências e (re)ações corporais e intelectuais, bem como a constatação das suas limitações ou possibilidades frente ao ambiente que o circunda e as pessoas que nele se encontram.

Quanto ao uso específico da bengala, seu usuário encontra neste instrumento a possibilidade de realizar, por si só, seus deslocamentos no ambiente com mais freqüência, proteção e segurança.

O somatório destes favorecimentos ocasiona, de forma gradual, a (re)aquisição e o desenvolvimento do sentimento de auto-confiança.


4. Integração

A utilização das diferentes técnicas de OM para uma locomoção segura, orientada, produtiva e coerente, oportuniza ao portador de deficiência visual a possibilidade de participar, ativa e efetivamente, nos vários níveis e estruturas do ambiente. Com a frequência, sistemática e espontaneidade das participAções, ele torna-se mais próximo e envolvido com os acontecimentos, pessoas e situações que o rodeiam, qualificando sua interAção.

Entretanto, esta integração será mais ou menos intensa e agilizada se as pessoas envolvidas no processo, normovisual e portadora de deficiência visual, estiverem conscientes e predispostas a "enxergar" e "vivenciar" suas diferenças e possibilidades. Isto torna o seu processo integrativo mais fortalecido, consistente e plurilateral.


5. Contato Social

Considerando que o contato social pode ser estabelecido nas mais diversas situações e níveis do ambiente, entendemos que o trânsito diário do indivíduo com deficiência visual, principalmente com a bengala, provoca uma aproximação natural de outras pessoas e, assim, a possibilidade do estabelecimento de interrelações comunicativas verbais a partir da sua necessidade em solicitar informação ou auxílio até a sua manifestação de comentário ou sugestão, por exemplo.

No entanto, estes intercâmbios lhe oportunizam muito mais do que a probabilidade de ampliação das relações sociais, mas também a chance do aperfeiçoamento das habilidades comunicativas, do (re)conhecimento e fortalecimento das (re)ações e sentimentos próprios ou alheios e do amadurecimento social.

Porém, é imprescindível enfatizar que sem um manejo efetivo, lógico e inteligente do recurso bengala, o portador de deficiência visual poderá distanciar-se ou evitar sua aproximação de outras pessoas devido o desenvolvimento de uma possível auto-suficiência. Por outro lado, a dificuldade de aproximação e relacionamento social poderá ocorrer mesmo com o usuário da bengala, pois, muitas vezes, ele não tem o conhecimento da presença de outra ou determinada pessoa no ambiente: fato que normalmente não acontece na presença de um guia-humano treinado.


6. Privacidade

A privacidade é um elemento necessário para que a individualidade possa ser mantida. Em função do comprometimento visual, o portador desta deficiência está mais sujeito a interferências ou dependências de pessoas normovisuais na elaboração e no desempenho das atividades simples e complexas da sua vida diária.

No entanto, a utilização exclusivamente da bengala poderá reduzir ou anular tais intervenções quando as atividades estiverem relacionadas apenas à locomoção porque, além de proporcionar autonomia em seus deslocamentos, o uso efetivo deste instrumento torna possível ao indivíduo a elaboração e a execução de determinadas ações e atitudes sem a necessidade de justificativas, divulgação, explicações ou constrangimentos.

Ressaltamos, contudo, que a privacidade de um portador de deficiência visual não é mantida apenas por suas autonomias de locomoção e comportamentos: é determinada também por sua personalidade. Neste sentido, é importante a observação da existência de uma relação entre privacidade e uso da OM na etapa infantil, uma vez que desde as idades mais baixas a individualidade e o espaço próprio vêm sendo construídos pela criança através da aprendizagem do mover-se motora e cognitivamente, da tomada de decisões, da auto-organização e do conhecimento e estruturação da sua conduta ética diante dos próprios atos e dos comportamentos e ações de outros elementos encontrados no seu ambiente circundante.


7. Noção de Distância

A aprendizagem e uso efetivos das técnicas de OM, especialmente o guia-humano e a bengala, possibilitam ao indivíduo com deficiência visual o conhecimento dos diferentes conceitos espaciais, o estabelecimento da sua posição e a estimativa da sua distância ante os elementos do ambiente e destes entre si.

Além da possibilidade de orientação espacial, esta noção de distância (comprimento, altura e largura) oferece ao indivíduo informações sobre a dimensão da continuidade ou da irregularidade da superfície ambiental (o reconhecimento da largura ou profundidade de um buraco, por exemplo): isto permite deslocamentos com maior segurança, objetividade e determinação.


8. Noção de Tempo/Espaço

A utilização da OM traz aos seus usuários, na realização das atividades da vida diária, importante contribuição para sua compreensão e elaboração dos conceitos e relações têmporo-espaciais existentes nas ações e elementos do ambiente.

A apreensão, organização e avaliação destes conceitos e relações podem ser adquiridas e desenvolvidas tanto com o uso das técnicas do guia-humano quanto de proteção e bengala. No entanto, é importante ressaltar que as diferentes técnicas de OM podem, em muitas situações, oportunizar ao seu usuário o (re)conhecimento ou alcance dos elementos no ambiente dentro de diferentes intervalos de tempo: a chegada em um ponto no "longe", por exemplo, será realizada provavelmente com mais rapidez, se o portador de deficiência visual utilizar adequadamente a técnica do guia-humano em lugar da técnica da bengala ou desta em oposição ao não uso de qualquer outra.

Além disto, a utilização das técnicas de proteção e/ou da bengala possibilita deslocamentos e apropriações mais rápidos e precisos do que aqueles realizados com o receio e a desorientação características do portador de deficiência visual que deveria ser, mas não é usuário da OM. Isto acontece inclusive pela possibilidade dele obter uma apreensão, imediata ou não, da disposição e relação dos elementos no espaço e de sua ordenação no tempo.

A partir daí, o indivíduo é capaz de estruturar correlações deste tempo com a distância e disposição dos elementos no ambiente (no qual se inclui) e, assim, agilizar a realização ou a compreensão dos acontecimentos em sua vida.


9. Equilíbrio Corporal

Com a finalidade de garantir a orientação, direção e firmeza em seu deslocamento, o usuário dos recursos da OM tem a necessidade de solicitar as potencialidades da sua musculatura (estática e dinâmica), coordenação e memória muscular para a manutenção da postura, linha gravitacional, abertura adequada da base de sustentação e a objetividade dos movimentos. Desta forma, podemos observar que a organização corporal contínua e cíclica é necessária, gerando-se recíproca e (in)diretamente o equilíbrio.

A realização sistemática de deslocamentos e explorações com frequência, qualidade e confiança obtidos pelo uso das técnicas de OM resulta melhor estabilidade no portador de deficiência visual.

Relativamente ao uso efetivo da bengala ou do guia-humano, é importante enfatizar que esta estabilidade é um efeito indireto uma vez que tais recursos não têm a função de apoio ou sustentação, mas de orientação.


10. Oportunidade de Emprego

Ao contrário do pensamento de muitas pessoas, o uso das técnicas de OM (especialmente a bengala) apresenta uma relação direta com a possibilidade de facilitação ou melhoria (em quantidade e qualidade) na obtenção, acesso e exercício de uma atividade profissional pelo indivíduo com deficiência visual.

A justificativa não está somente no fato da sua condição em realizar deslocamentos mais independentes, mas também no provável aumento da sua capacidade adaptativa funcional aos horários ou modificações de percursos. Além disto, com o domínio e uso da bengala, ele pode apresentar maior diversificação na forma de seus deslocamentos, sem a necessidade do embaraço ou inconveniência de solicitações permanentes ou dependência exclusiva da disponibilidade de outra pessoa para sua condução ao ambiente de trabalho.

Contudo, a ausência de uma OM independente não implica ou nem sempre indica um impedimento para a obtenção de emprego (no mercado formal ou informal de trabalho) por este indivíduo; porém, salientamos que a dependência total de um guia ou a falta de segurança para realizar os deslocamentos pode ser motivo de restrição da qualidade e quantidade das suas chances profissionais.


11. Conhecimento Real dos Objetos

É comum encontrarmos entre os portadores de deficiência visual um conhecimento e compreensão teórica ou imaginária dos objetos ambientais (nem sempre distantes) fundamentado na descrição e nos conceitos de outras pessoas, sendo, por isto, muitas vezes distorcido.

O manejo e a aplicação adequada da OM podem lhe auxiliar na exploração do ambiente e na aproximação física dos objetos, facilitando seu conhecimento e reconhecimento real destes pela oportunidade de coletar elementos que o auxiliam na organização e estruturação do seu conhecimento e do funcionamento do sistema que o envolve. Com isto, a necessidade de conhecimentos exclusivamente descritivos fica restrita aos objetos que realmente ofereçam dificuldades na compreensão e na exploração da forma e dimensão pelo toque ou movimento, como o entendimento do céu e mar, por exemplo.

Relativamente ao uso da bengala, este conhecimento também pode ocorrer pela possibilidade dela própria (quando possível e necessário) ser utilizada como instrumento de exploração e conhecimento das dimensões e superfície ocupada pelo objeto.

Convém salientar que, na fase infantil, o (re)conhecimento dos diferentes objetos ambientais contribui para a ampliação e amadurecimento de conceitos, relações e formas, assim como para o fortalecimento e o enriquecimento das áreas intelectual, afetiva e motora de qualquer criança. Para aquela cega congênita, esta possibilidade assume proporções ainda maiores, tanto em importância quanto em necessidade.


12. Poder econômico

Oportunidade de emprego, poder econômico e uso efetivo das técnicas de OM, especialmente a bengala, podem estar forte e reciprocamente vínculados. Isto porque a manutenção ou a melhoria do poder econômico é conseqüência direta do exercício de uma atividade profissional, os quais, por sua vez, podem produzir modificações culturais, emotivas e sociais na pessoa visualmente comprometida.

No entanto, observamos que a melhora ou permanência da situação financeira não representa apenas a possibilidade da aquisição de bens, mercadorias e serviços necessários a sua subsistência, estilo ou qualidade de vida: significa também a viabilidade da obtenção de instrumentos e recursos, adaptativos ou não, que facilitem o desempenho das atividades culturais, educativas, profissionais, recreativas e esportivas. Estas possibilidades ampliam sua oportunidade de participação, conquista e sucesso nos diversos espaços sociais e nos vários aspectos do seu desenvolvimento global.

Cabe salientar, porém, que sua melhoria no poder aquisitivo pode ocorrer não apenas em função do desempenho profissional: muitos são os casos em que a utilização da bengala permite ao indivíduo a dispensa de retribuições ou pagamentos a outras pessoas ou serviços para a execução de tarefas que envolvam a locomoção.

Hoffmann (1998) também refere que o processo de desenvolvimento da motricidade, da elaboração de conceitos e valores, assim como das interações com o ambiente retroalimenta-se e se fortalece na relação interativa OM-habilidades motoras, intelectuais e portadora de deficiência visual. A partir deste entrosamento, modificações, facilitações e novas necessidades adaptativas podem ocorrer na evolução desta criança, favorecendo sua integrAção com seu ambiente imediato ou distante.


Esta autora apresenta possíveis facilitações ou melhorias que o ensino das técnicas de OM, durante a etapa infantil, possa causar no desenvolvimento da criança.


1 - Desenvolvimento dos Movimentos Corporais

A criança com deficiência visual, ao deslocar-se pelo ambiente com o auxílio das diferentes técnicas de OM, apresenta melhores condições e maiores oportunidades para realizar movimentos com segurança, motivação, diversificação e objetividade.


2 - Desenvolvimento da Noção Espacial

Os deslocamentos (in)dependentes com as técnicas de OM podem proporcionar à criança com deficiência visual possibilidades de experienciar e vivenciar várias situações que, provavelmente, facilitam a aquisição e a elaboração dos conceitos espaciais (de distância, de profundidade, de lateralidade).

Em conseqüência, ela poderá amadurecer e ampliar sua capacidade e entendimento para estabelecer a disposição e a relação existente nos e entre os diversos elementos do ambiente.


3 - Postura

A oportunidade de realizar movimentos e deslocamentos possibilita à criança com deficiência visual o desenvolvimento e a aquisição de habilidades, hábitos e modelos posturais em diversas situações e condições.

Ainda que existam referências de que a bengala possa causar danos posturais e musculares ao seu usuário, se este instrumento for utilizado com a técnica, material e comprimento corretos é assegurado que não existe este perigo.


4 - Relações Sociais

A utilização das técnicas de OM oferece à criança cega congênita a oportunidade e a condição de participar efetivamente da rotina ou de acontecimentos eventuais no seu ambiente familiar, escolar ou comunitário, com segurança, orientação e eficiência.

Esta participação poderá qualificá-la como companheira, torná-la conhecida e aprofundar e/ou ampliar suas relações sociais.


5 - Conhecimento Real dos Objetos

A aproximação da criança visualment comprometida dos objetos ambientais, através dos recursos de OM, pode lhe oferecer a condição de conhecê-los, quanto possível, de maneira concreta e não apenas teórica, retendo suas formas e características, com

Além disto, ela terá a oportunidade de, por seus deslocamentos no ambiente, descobrir e explorar novos objetos, exercitando e organizando sua curiosidade, disciplina e crítica.


6 - Desenvolvimento da Afetividade

Contatos e interações são estabelecidos com o ambiente a partir do momento em que a criança desloca-se, de forma dependente (guia-humano) ou independente (bengala), dos quais ela pode coletar (in)formações, elementos referenciais ou modelos de como organizar e ajustar seus próprios sentimentos e reações em relação a si e aos demais elementos do ambiente, pessoas, animais e natureza.

O aumento progressivo e a maturidade destas interrelações podem qualificar seu comportamento e, até mesmo, influenciar na formação e expressão da sua personalidade mais ou menos extrovertida.


7 - Desenvolvimento das Relações de Tempo

As experiências e as vivências da criança portadora de cegueira ou visão subnormal no seu ambiente, por seus deslocamentos seguros e orientados, possibilitam a ela o desenvolvimento de sua capacidade de (re)conhecer, estabelecer e avaliar intervalos de tempo. Assim, ela terá maior autonomia e condição para organizar e administrar conscientemente suas ações e linguagem dentro dos conceitos, por exemplo, de antes-depois, passado-presente-futuro, cedo-tarde, rápido-lento.

Hoffmann (1998) ainda indica outras melhorias que podem ocorrer no desenvolvimento global da criança portadora de deficiência visual através da aprendizagem e utilização das técnicas de OM:


- independência;
- equilíbrio;
- auto-confiança e auto-estima;
- maiores oportunidades educacionais;
- integração;
- expressão corporal e
- condicionamento físico.

Por tudo que foi ouvido até agora, podemos facilmente compreender que existe uma nova forma de compreender a cegueira ou a visão subnormal de qualquer indivíduo e que um conjunto de alternativas está à disposição destas pessoas, das suas famílias e dos profissionais para que a facilitação da orientação e dos deslocamentos do indivíduo com deficiência visual aconteça.

O importante, antes da escolha destas possibilidades, é não negar o comprometimento visual da criança, do jovem ou do adulto seja ele tu mesmo, teu filho ou teu cônjuge. A aceitação do indivíduo como ele se apresenta é importante para que, juntos, decisões para a continuidade da sua vivência como cidadão e participante da sociedade possam ser tomadas.

O fato de alguém apontar o caminho, mostrar as possibilidades e acompanhar o início de uma nova etapa de vida não significa superproteção, porém, o excesso de cuidados, de exigências ou de limitações pode sufocar o desenvolvimento e o bem-estar de qualquer indivíduo.


Bibliografia:

  • CARROLL, Thomas J. Cegueira: o que ela é, o que ela faz e como conviver com ela. São Paulo [s.n.] 1968. 351p.
  • HOFFMANN, Sonia B. Orientação e mobilidade: um processo de alteração positiva no desenvolvimento integral da criança cega congênita - estudo intercultural entre Brasil e Portugal. Porto Alegre, 1998. xiv, 182f. il. Dissertação (Mestrado) - Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Escola de Educação Física. Mestrado em Ciências do Movimento Humano, 1998.
  • HOFFMANN, Sonia B. Benefícios da Orientação e Mobilidade: estudo intercultural entre Brasil e Portugal. Benjamin Constant, Rio de Janeiro, ano 5, n.14, p.11-16, dez. 1999.


 

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Fonte:  REDE SACI (2001)
 

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Fevereiro 2011
publicado por MJA