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 Sobre a Deficiência Visual

CAMINHANDO JUNTOS

Manual das habilidades básicas de Orientação e Mobilidade

João Álvaro de Moraes Felippe

 Resultado de imagem para CAMINHANDO JUNTOS joão alvaro

 

Apresentação

Melhorar a qualidade de vida e a inclusão dos jovens com deficiência visual de todas as regiões brasileiras é nosso grande desafio nesses primeiros anos do século XXI. As crianças brasileiras têm direito à educação e participação na sociedade, não importa o lugar onde vivam. Compartilhar experiências, aquisições e conhecimentos com famílias, professores e profissionais é importante estratégia nessa luta. Dar oportunidade para que a criança com deficiência visual seja no futuro cidadão activo e participante, tenha autonomia e independência para se locomover, realizar suas actividades cotidianas, possa estudar, trabalhar, constituir família e ser feliz é nossa meta. O Prof. João Felippe e toda a equipe de Orientação e Mobilidade de Laramara mostram com este Manual seu engajamento nessa luta para a qual convidamos todos os profissionais da área de Orientação e Mobilidade.

Mara O. de Campos Siaulys Presidente da LARAMARA
Associação Brasileira de Assistência ao Deficiente Visual

 

ALGUMAS PERGUNTAS

1. O que é orientação e mobilidade?
— A orientação e a mobilidade estão presentes na vida de todos nós. A orientação é a capacidade de perceber o ambiente, saber onde estamos. A mobilidade é a capacidade de nos movimentar. A visão, normalmente, é o sentido que mais directamente colabora para a nossa orientação e mobilidade.

2. O que é Orientação e Mobilidade para a pessoa com deficiência visual?
— A Orientação para o deficiente visual é o aprendizado no uso dos sentidos para obter informações do ambiente . Saber onde está, para onde quer ir e como fazer para chegar ao lugar desejado. A pessoa pode usar a audição, o tacto, a cinestesia (percepção dos seus movimentos), o olfacto e a visão residual (quando tem baixa visão) para se orientar. A Mobilidade é o aprendizado para o controle dos movimentos de forma organizada e eficaz.

A pessoa com deficiência visual pode se movimentar:

 

1. com a ajuda de uma outra pessoa - guia vidente -

2. usando o seu próprio corpo - autoprotecções -

3. usando uma bengala - bengala longa -

4. usando um animal - cão-guia -

5. usando a tecnologia - ajudas electrónicas -

 

3. Das formas de Mobilidade, quais serão apresentadas neste manual?
— Estudaremos as três primeiras formas de Mobilidade, ou seja, Guia Vidente, Autoproteções e Bengala Longa. São as mais simples e acessíveis a todas as pessoas com deficiência visual. Devem fazer parte de todo bom programa de Orientação e Mobilidade e serão básicas para um bom apro­veitamento na utilização do Cão-Guia e das Ajudas Eletrônicas no futuro, quando for o caso.

4. Quem deve ensinar a Orientação e Mobilidade?
— Os profissionais devidamente habilitados.

5. Onde encontrar esses profissionais?
— No final deste manual apresentamos uma relação de centros que podem indicar serviços com programas de Orientação e Mobilidade no Brasil.

6. Por que um manual dirigido a quem não é profissional?
— Primeiro, porque muitas pessoas com deficiência visual nos pedem este tipo de material. Também pais, familiares e outras pessoas que convivem com deficientes visuais sempre nos pediram maiores informações sobre a Orientação e Mobilidade. Consideramos uma solicitação justa. Segundo, o fato de oferecermos um manual ilustrado, com uma linguagem simplificada, torna possível a um maior número de pessoas adotar os procedimentos mais adequados, contribuindo para a criação de hábitos saudáveis. É a participação de todos no processo de transformação. O uso do manual por outras pessoas e mesmo pelo indivíduo com deficiência visual não elimina a necessidade de se participar de um programa específico conduzido por um profissional capacitado.

7. Quando daremos nosso primeiro passo nessa caminhada juntos?
— Agora.

 


 

PRIMEIRO PASSO

Utilização do Guia Vidente

 

O uso de uma outra pessoa como guia é comum em diversas situações no dia-a-dia do deficiente visual. Apesar de ser uma forma dependente de se locomover, deve possibilitar o controle, a interpretação e a efectiva participação da pessoa cega ou com baixa visão nas decisões do que ocorre durante o seu deslocamento.

A. Posição Básica

Objectivo: Proporcionar à pessoa com deficiência visual a utilização segura, eficiente e adequada de um vidente como guia, estabelecendo uma base para o uso de outros como guias no futuro.

 

 

Procedimentos

A pessoa com deficiência visual deve segurar no braço do guia na altura do cotovelo, no punho ou mesmo no ombro, dependendo da diferença de estatura entre ambos. Esta posição garantirá ao deficiente visual interpretar as pistas dadas pelos movimentos do corpo do guia, ou seja, quando começa a caminhar, quando pára, quando se vira para a direita, para a esquerda, desvia de obstáculos ou de pessoas, quando sobe ou desce degraus. 


 

B. Troca de Lado 

Objectivo: Permitir à pessoa com deficiência visual mudar de lado por preferência pessoal, razões sociais ou por conforto e tranqüilidade, quando enfrentar situações do meio ambiente.

 

 

Procedimento

O guia ou a pessoa com deficiência visual fornece uma pista verbal para a mudança de lado. Com a mão livre, a pessoa segura o braço do guia, posicionando-se a um passo atrás dele. Soltando a primeira mão, ele rastreia as costas do guia até encontrar o braço do outro lado. Faz a troca de lado, retomando a posição básica.


 

C. Passagens Estreitas

Objectivo: Permitir a passagem, de forma cómoda, quando não é possível manter a posição básica, devido à falta de espaço para o guia e o acompanhante se posicionarem lado a lado (por exemplo, por portas, corredores estreitos, fluxo intenso de pessoas, entre mobílias e objectos, etc.).



 

Procedimentos

O guia dá uma pista verbal ou cinestésica da passagem estreita. A pessoa com deficiência visual também pode pressentir a necessidade de tomar a posição de passagem estreita antes do guia avisar. A pessoa estende o seu braço e se posiciona atrás do guia, formando coluna (em fila) com o mesmo. Ao fim da passagem estreita, a pessoa reassume a posição básica. Dependendo da situação, a pessoa deve ficar ao lado do guia, formando fileira, e andar lateralmente.

 


 

D. Aceitando, Recusando ou Adequando Ajuda

Objectivo: Permitir à pessoa com deficiência visual aceitar ou recusar, com eficiência e adequação, a ajuda de um suposto guia, dependendo da sua necessidade ou desejo.



Procedimentos

Ao sentir alguém segurar o seu braço com a intenção de conduzi-la, a pessoa com deficiência visual deve relaxar o braço, levantando-o em direcção ao ombro oposto e manter sua posição sem andar. Com a mão livre, deve segurar o punho do suposto guia enquanto verbaliza as suas intenções. Faz o desenvencilhamento. Se for necessitar de ajuda, a pessoa segura o braço do guia com a mão livre e assume a posição básica para acompanhá-lo. Caso contrário, deve dispensar a ajuda tão logo se desvencilhe.

 


 

E. Subir e Descer Escadas 

Objectivo: Permitir à pessoa com deficiência visual e ao guia subir e descer escadas com segurança, eficiência e adequação.



Procedimentos

A posição adoptada para subir e descer escadas é a básica. Nessa condição, a pessoa com deficiência visual sempre estará um degrau atrás do guia. Isto favorecerá a interpretação das pistas cinestésicas quando sobe ou desce os degraus. Ao iniciar a subida ou descida de escadas, uma breve pausa do guia, em frente ao primeiro degrau, será suficiente para que a pessoa que o acompanha faça o deslize do pé para encontrar o degrau e se posicionar. Uma breve pausa do guia também deve funcionar como pista no final das subidas e descidas (ao final das escadas e nos patamares). Quando a escada tiver corrimão, a pessoa com deficiência visual deve ter preferência de uso.

 



F. Passagem por Portas

Objectivo: Permitir à pessoa com deficiência visual passar por uma porta com segurança e eficiência, mantendo uma participação activa.
 


Procedimentos

Ao aproximar-se de uma porta, o guia dá uma pista verbal ou cinestésica e a pessoa assume a posição de passagem estreita.

 
O guia puxa ou empurra a porta e o acompanhante eleva o braço livre com a palma da mão para frente.

A pessoa com deficiência visual toca a porta e localiza o trinco.

 
Guia e acompanhante passam pela porta em posição de passagem estreita. O guia faz uma breve pausa e o acompanhante fecha a porta.

Após a passagem, ambos retomam a posição básica. 

 


 

G. Sentando-se

Objectivo: Permitir à pessoa com deficiência visual localizar e examinar um assento, sentando-se com independência e naturalidade.

 


Procedimentos

O guia conduz o seu acompanhante até a proximidade de um assento, relatando verbalmente a posição e características do mesmo.
A pessoa com deficiência visual solta o braço do guia tão logo faça o contacto com o assento. Este contacto pode ser feito com a perna ou com o guia conduzindo a mão do acompanhante até o espaldar ou braço do assento.

Estabelecido o contacto, a pessoa faz com as mãos uma pesquisa breve do assento, certificando-se da posição, das características e das condições de uso e senta-se.

No momento de se levantar, o guia estabelece o contacto ou a pessoa solicita uma pista verbal.


 

H. Sentar-se em Auditório ou Assentos Perfilados 

Objectivo: Permitir o acesso de maneira adequada quando se utiliza do guia vidente em auditórios ou assentos perfilados.

 


Procedimentos

O guia pára na fileira e dá uma pista verbal para o acompanhante.
A pessoa se alinha (em fileira) ao lado do guia e iniciam a entrada andando de lado. O guia deve entrar na frente.

A pessoa com deficiência visual deve usar a mão livre para rastrear a parte de trás dos espaldares (encostos) das cadeiras a sua frente.

Ao chegar aos assentos desejados, o guia dá uma pista verbal. O acompanhante usa a parte de trás de suas pernas para fazer o contacto com o assento. Faz uma breve pesquisa com as mãos e se senta.
Ao saírem, usam-se os mesmos pro­cedimentos da entrada, com o guia andando na frente.



SEGUNDO PASSO

Autoprotecções

O uso dos segmentos corporais (cabeça, tronco, membros superiores e inferiores) como uma forma de se proteger, estabelecer relações posicionais e direccionais, fazer contacto com objectos e pessoas deve traduzir um completo controle da pessoa cega ou com baixa visão sobre o seu próprio corpo e seus movimentos. As autoprotecções podem ser utilizadas em conjunto com outras habilidades e sistemas da Orientação e Mobilidade como o guia vidente, a bengala longa, o cão-guia e as ajudas electrónicas.

A. Protecção Inferior

Objectivo: Permitir que a pessoa com deficiência visual proteja a parte frontal e inferior do tronco, detectando objectos ao nível dos órgãos genitais e da cintura.

 

Procedimentos

A pessoa coloca o braço à frente do corpo com a mão na linha média (meio do corpo).

O dorso da mão fica voltado para frente. A mão deve ficar distante do corpo o suficiente para se antecipar as pontas dos pés durante a marcha.


B. Proteção Superior

Objectivo: Permitir que a pessoa com deficiência visual proteja a parte superior do seu corpo, detectando objectos posicionados ao nível do tórax e do rosto.

 

Procedimentos

A pessoa flexiona o braço ao nível do ombro, mantendo-o paralelo ao chão. Flexiona o cotovelo mantendo o dorso da mão voltada para frente. As pontas dos dedos e a mão dão protecção ao ombro oposto. O antebraço dá proteção ao rosto e tórax.
À semelhança da protecção inferior, a mão deve estar distante do corpo o suficiente para se antecipar as pontas dos pés durante a marcha.



C. Rastreamento com a mão 

Objectivo: Permitir que a pessoa mantenha sua orientação de forma segura, através de um contacto constante com elementos do meio; facilitar a manutenção da marcha na direção desejada; localizar um objecto específico e determinado.

 


Procedimentos

A pessoa posiciona-se paralelamente e próxima ao objecto a ser rastreado (linha-guia - superfície que indica uma direção a seguir: parede, corrimão, balcão, móveis, etc.).

Rastreia com o dorso da mão (de preferência apenas com o dedo mínimo e anular) a linha-guia. Os dedos devem estar semi-flectidos e relaxados.

Novamente, a mão deve estar distanciada de forma a se antecipar a ponta dos pés durante a marcha.

O rastreamento pode ser usado em conjunto com a protecção inferior e superior, dependendo da situação e do ambiente.

 

D. Enquadramento e Tomada de Direção

Objectivo: Permitir que a pessoa com deficiência visual possa estabelecer uma linha de marcha recta ou orientada. 

 

 

Procedimentos

A pessoa encosta a parte de trás do seu  corpo num objecto significativo no ambiente (enquadramento).
Dessa posição, a pessoa projecta uma linha recta de caminhada estabelecida a partir da linha média do seu corpo e perpendicular ao objecto usado para o enquadramento (tomada de direcção).

 

O enquadramento ainda pode ser feito com a ponta dos pés ou calcanhares e um degrau, ou com os ombros, quadril ou a lateral das pernas em um objecto (alinhamento paralelo). 

 

 

E. Localização de objectos 

Objectivo: Permitir uma busca sistemática de objectos, com segurança, eficiência e adequação.

Objectos Caídos

Procedimentos:

A pessoa pára logo que o objecto cai, procurando ouvir onde caiu.
Pela localização do som, a pessoa volta-se de frente para essa direcção. Caminha para o ponto onde julga encontrar o objecto.
Agacha-se enquanto assume a posição de protecção superior.
Inicia o processo de busca sistemática empregando movimentos circulares (leque), verticais e horizontais (grade) a partir do meio do corpo, rastreando a área com o dorso dos dedos.

 


Objectos sobre móveis (mesas, balcões, prateleiras, etc.):

 

 

Procedimentos
Estando a pessoa de frente para o móvel, em pé ou sentada, movimenta as duas mãos com o dorso voltado para frente, até contactar a borda do móvel.

A partir do ponto contactado e usando a linha média como referência, a pessoa passa a aplicar um modelo de busca (leque ou grade). 


Trincos, maçanetas e puxadores (de portas, janelas, etc.):


Procedimentos
A pessoa se posiciona de frente com a porta, janela ou portão e movimenta ambas as mãos com o dorso voltado para frente, até tocar no objecto a ser pesquisado. Deve ser usada a linha média como referência.

Uma vez contactado o objecto, a pessoa faz o deslize das mãos horizontalmente à direita e à esquerda até encontrar os batentes.

Caso a pessoa não tenha localizado o trinco, maçaneta ou puxador com o procedimento anterior, basta acompanhar os batentes ou molduras em movimentos de deslize vertical das mãos. 


F. Técnica para o Cumprimento 

Objectivo: Proporcionar à pessoa com deficiência visual uma forma eficiente e socialmente adequada para cumprimentar outras pessoas.

Cumprimentar pessoas videntes

Procedimentos: A pessoa com deficiência visual, ao chamar ou ser chamada por outra pessoa a quem deseja cumprimentar, posiciona-se de frente para ela. Estende a mão no gesto usual de cumprimento e aguarda a iniciativa por parte da pessoa vidente em segurar a sua mão.


 

Cumprimentar pessoas com deficiência visual - Procedimentos

 

   


A pessoa com deficiência visual ao chamar ou ser chamada por outra pessoa com deficiência visual a quem deseja cumprimentar, posiciona-se de frente para ela.

A primeira deve cruzar o braço direito em diagonal à frente do seu corpo. A partir dessa posição, ela vai deslocando o braço com o dorso da mão voltado para frente até tocar a outra pessoa, procedendo ao cumprimento. 

 


 

G. Familiarização 

Objectivos: Permitir à pessoa com deficiência visual se familiarizar sistematicamente, de forma segura e eficiente, com ambientes diversos.

Método do Perímetro - Procedimentos

 


A pessoa estabelece um ponto de partida (preferencialmente a porta principal de acesso ao ambiente).

A pessoa faz o enquadramento paralelo à linha da parede ou objecto (linha-guia), escolhendo arbitrariamente o lado.
Inicia o rastreamento da linha-guia circundando todo o ambiente no seu perí­metro até retornar ao ponto de partida.

Em conjunto com o rastreamento, deve ser usada a proteção superior.

Completando o primeiro contorno, a pessoa pode fazer o rastreamento em sentido contrário.

O número de repetições para o contorno dependerá do ambiente, da situação e das necessidades individuais.

 

Método dos Cruzamentos - Procedimentos

 


Após o método do perímetro, a pessoa utiliza o mesmo ponto de partida já estabelecido, faz o enquadramento com as costas e cruza para o lado oposto.

Durante este cruzamento em linha reta, a pessoa deve usar as proteções inferior e superior.

 

Atingindo o lado oposto, a pessoa faz uma pequena exploração do local.

Faz novo enquadramento de costas e procede ao cruzamento de retorno ao ponto de partida.


 

Diversos cruzamentos devem ser feitos usando os elementos presentes no ambiente (outras portas, janelas, móveis, etc.). 

 

Variações

 


Os métodos de familiarização podem ser aplicados com acompanhamento de um guia vidente, que confirmará as informações.

 

 

A familiarização também pode, e em muitas situações deve, ser feita com a utilização da bengala longa, o que garantirá maior proteção para a pessoa.

 

Observação

É importante dar oportunidade de muitas vivências utilizando os princípios da familiarização. É o momento de ter contacto directo com grande variedade de objectos, elementos e ambientes. O momento também é riquíssimo para conhecer de forma prática situações apenas verbalizadas. Bem trabalhada, a familiarização ajuda a desenvolver as condições intelectuais, motoras, sociais e emocionais, levando a pessoa com deficiência visual a buscar uma atitude positiva voltada para a independência.

 


 

TERCEIRO PASSO

- Bengala Longa -

À semelhança das autoprotecções, o uso da bengala longa também é um sistema da Orientação e Mobilidade no qual a pessoa com deficiência visual depende apenas de si mesma para se deslocar pelo ambiente. A bengala longa é um simples bastão que, mesmo com todo o avanço tecnológico, ainda se traduz como o mais eficiente instrumento para dar independência à mobilidade de pessoas cegas ou com baixa visão. A bengala funciona como uma extensão táctil-cinestésica para transmitir à pessoa uma riqueza de informações tal e qual ela teria se caminhasse passando a mão no solo. É possível desenvolver a percepção para detectar desníveis, buracos e outros obstáculos ao nível do chão. A bengala também será um anteparo eficiente para possíveis choques contra objectos e pessoas que se encontrem na linha de caminhada da pessoa com deficiência visual. A bengala longa pode ser usada em conjunto com outras formas de mobilidade, ou seja, com o guia vidente, com as autoprotecções, com o cão-guia e com as ajudas electrónicas.


HABILIDADES COM A BENGALA LONGA

 

Finalidade: Habilitar a pessoa com deficiência visual para locomover-se com segurança, eficiência e independência, tanto em ambientes familiares como desconhecidos, utilizando-se da bengala longa.


A. Vivência Pré-Bengala

Objectivo: Proporcionar à pessoa com deficiência visual diversas experiências preliminares que facilitarão a efetiva e eficiente manipulação da bengala longa, bem como a compreensão de seu uso.

Actividades Propostas:

No caso de crianças, podemos oferecer uma grande variedade de vivências, usando brinquedos de empurrar à frente do corpo, tais como carrinhos de boneca, minicarrinhos de supermercados, bastão com patinho, bastão com rodinha, carrinho com guidom e hastes para empurrar, banquinhos e cadeirinhas, raquetão feito de bambolê, espada retrátil de plástico, bengalinhas de plástico com buzina na ponta, etc.



Quanto ao jovem e adulto, vivências de locomoção usando carrinhos de feira, de supermercados, de bebé, deslocamentos empurrando uma cadeira ou carrinho de chá, o uso de utensílios domésticos como vassoura e rodo, etc.

 

Considerações e observações gerais

O uso desses brinquedos, equipamentos e utensílios ajudará na organização e atitude postural, usando a linha média do corpo como referência.

O equilíbrio e a marcha serão beneficiados em decorrência do apoio e da presença de um anteparo à frente do corpo, oferecendo segurança e aumentando a confiança para os deslocamentos.

A presença do objecto à frente do corpo preparará a pessoa para o aumento do espaço ocupado pelo seu corpo junto com a bengala. Isto favorecerá a aquisição e manutenção das relações posicionais, quando estiver usando a bengala no futuro.

Haverá o estímulo à consciência e percepção táctil-cinestésica, ao reconhecimento do que se toca através do objecto, à audição através dos sons produzidos pelo objecto no piso e no tocar em outros elementos presentes no ambiente.

A coordenação motora será trabalhada de forma dinâmica por meio dos movimentos locomotores, não-locomotores e manipulativos.


 

B. Conhecimento e Manipulação da Bengala

Objectivo: Permitir que a pessoa com deficiência visual conheça detalhadamente a bengala longa, suas partes, os vários modelos, bem como a manipule com os vários tipos de preensão, explorando todas as possibilidades de movimentação.




Procedimentos
A pessoa deve ter oportunidade para explorar diversos tipos e modelos de bengala (inteiriça, dobrável, telescópicas; de alumínio, de fibra-de-vidro; com cabos de borracha, de plástico, de madeira; com ponteira de borracha, de plástico, de nylon, com rolamento; bengalas de fabricação nacional e importadas). A pessoa deve ser estimulada e orientada a usar todas as formas possíveis para segurar e manipular a bengala. 


 

C. Colocações da Bengala Longa

Objectivo: Permitir que a pessoa com deficiência visual coloque a bengala em posições de fácil acesso e manejo, não interferindo com outras pessoas e com o ambiente de forma inadequada.

Procedimentos

Em ambientes conhecidos, a pessoa deve escolher um canto junto às paredes ou móveis para encostar a bengala em posição diagonal. Se a bengala tiver elástico no cabo ou o mesmo for recurvado, pode-se pendurar a bengala em cabides ou suportes apropriados, se presentes no ambiente.

Quando a pessoa estiver em pé, a bengala pode ser colocada verticalmente na linha média do corpo.

Se a pessoa estiver sentada, a bengala pode ser colocada entre as pernas, em diagonal e recostada em um dos ombros.

Caso a pessoa vá demorar mais tempo ou queira ficar com as mãos livres, pode colocar a bengala apoiada no chão, sob o assento, em posição paralela ou transversal aos seus pés. 

 

 

D. Andando com um Guia

Objectivo: Permitir que uma pessoa com deficiência visual utilize a bengala mesmo acompanhada por um guia, sem interferir na movimentação, garantindo maior protecção e captação de informações durante os deslocamentos.



Procedimentos

A pessoa e o guia assumem a posição básica de guia vidente.

A pessoa posiciona a bengala em diagonal à frente do corpo.

Nas passagens por portas, nas trocas de lado e nas escadas, a pessoa deve aprender a segurar a bengala juntamente com o braço do guia e usar dos mesmos procedimentos já descritos para essas situações. 

 

E. Varredura

Objectivo: Proporcionar à pessoa com deficiência visual uma exploração imediata e completa do solo na área próxima ao seu corpo.


 

Procedimentos

Determinada a direcção a seguir, a pessoa posiciona a bengala na linha média do seu corpo, na vertical, com a ponteira próxima às pontas dos seus pés. A pessoa desliza a bengala à sua frente numa linha recta. A bengala é recuada ao ponto de partida, descrevendo semicírculos concêntricos, procedendo à varredura.


 

F. Técnica Diagonal 

Objectivo: Proporcionar à pessoa com deficiência visual caminhar com independência em ambientes internos e familiares, com algum grau de protecção.

 


Procedimentos

A bengala é segura na junção entre o cabo e o corpo. O dorso da mão fica voltado para cima. O polegar fica apoiado no corpo da bengala e dirigido para a ponteira.

O braço deve estar flectido à frente do corpo. Mantém-se o cotovelo e o pulso estendidos no prolongamento do braço.

A bengala é colocada em diagonal na frente do corpo e oblíqua em relação ao piso. Com essa posição a extremidade do cabo ultrapassa a linha do ombro no lado que segura a bengala; a extremidade da ponteira deve ultrapassar a linha do ombro oposto.

Dependendo do tipo de piso e de ambiente, pode-se apoiar a ponteira no chão e conduzir a bengala em deslize, ou mantê-la suspensa (não mais do que três centímetros) e tocar a ponteira no chão a cada três ou quatro passos.

 

G. Rastreamento com a Técnica Diagonal

Objetivos: Permitir que a pessoa com deficiência visual mantenha sua orientação, por meio de um contacto constante da bengala com elementos do ambiente. Facilitar para que a pessoa mantenha sua marcha na linha de direcção desejada. Permitir que a pessoa localize um objecto específico e determinado com a bengala.

 

 

Procedimentos: A pessoa se posiciona de frente para a linha de direcção desejada, paralelamente e perto do objecto a ser rastreado, segurando a bengala na mão oposta ao objecto.

Com a bengala na técnica diagonal a pessoa pode:

a) deixar a ponteira tocar levemente o objecto;
b) tocar levemente o ponto de convergência do objecto com o solo (por exemplo, o rodapé). 


 

H. Detecção e Exploração de objectos

Objectivo: Permitir que a pessoa com deficiência visual obtenha informações seguras sobre objectos encontrados durante sua caminhada, favorecendo a sua segurança e orientação.

 

 

Procedimentos

Ao tocar o objecto, a pessoa coloca a bengala na posição vertical contra o objecto contactado. Mantendo a bengala na vertical, a pessoa desliza a mão livre através do corpo da bengala até tocar no objecto. A pessoa prossegue na exploração do objecto, usando as técnicas apropriadas de busca (grade ou leque).


 

I. Portas

Objectivo: Permitir à pessoa com deficiência visual passar por portas de forma independente e segura usando a bengala.

 

 

Procedimentos

  • Ao detectar uma porta, a pessoa deve manter o contacto e colocar a bengala na vertical.
  • A bengala deve ser movimentada lateralmente para a direita e esquerda até tocar nos batentes e/ou no trinco.
  • A pessoa desliza a mão livre pela bengala até encontrar o trinco. Abre a porta e procede à passagem, adotando a técnica diagonal com a outra mão.
  • Após a passagem, a pessoa solta ou fecha a porta manualmente e emprega a técnica de bengala mais apropriada.

 

J. Subir Escadas

Objectivo: Permitir que a pessoa com deficiência visual suba escadas utilizando a bengala com segurança, eficiência e independência.

 

 

Procedimentos

  • A pessoa localiza a escada apoiando a ponteira no primeiro degrau. A partir daí, faz o conhecimento inicial da escada usando a varredura (altura, largura, regularidade dos degraus, etc.).
  • Inicia a subida sempre mantendo a bengala um ou dois degraus à sua frente.
  • A pessoa deve escolher a forma como segurar a bengala e o posicionamento da mesma a fim de garantir protecção e eficiência (em diagonal, na vertical).
  • Atingindo o final da escada, a pessoa deve proceder à varredura e adoptar a técnica mais apropriada para dar continuidade à caminhada.

 

K. Descer Escadas

Objectivo: Permitir que a pessoa com deficiência visual desça escadas utilizando a bengala de forma segura, eficiente e independente.

 

 

Procedimentos

  • A pessoa localiza a escada, detectando o primeiro degrau. Da mesma forma que na subida, faz o conhecimento das características da escada usando a bengala em varredura.
  • Inicia a descida adoptando a bengala na posição diagonal. Dependendo da sua confiança e das características da escada, a pessoa poderá ser mais ou menos detalhista na exploração de cada degrau e na forma como fará a descida (varredura a cada degrau, ponteira em deslize ou suspensa, pés alternados em cada degrau, etc.).
  • Atingindo o final da escada, a pessoa deve proceder à varredura e adotar a técnica mais apropriada para dar continuidade à caminhada.

 

L. Técnica de Toque

Objectivo: Permitir que a pessoa com deficiência visual detecte diferenças de níveis e objectos que se encontrem no plano do solo à linha da cintura, em ambientes internos e externos, familiares ou desconhecidos.

 

Procedimentos

A pessoa segura a bengala pelo cabo de maneira que se forme um anel entre o dedo polegar e o dedo médio.

O dedo indicador, em extensão, fica apoiado na parte lateral e inferior do cabo.

A pessoa deve considerar a bengala como um prolongamento do seu dedo indicador.

A mão fica centrada com a linha média do corpo e afastado do mesmo, num ponto em que a combinação membro superior - bengala forme uma linha recta.

O dorso da mão fica voltado para fora.

 



A movimentação da bengala é determinada pela acção do punho.

Utilizando os movimentos do punho, a bengala é desloca-da para um ponto de con-tacto com o solo a três cen-tímetros, aproximadamente, além de cada ombro.

A ponteira da bengala des-creverá um arco à frente, de modo que o ponto médio desse arco será coincidente com a linha média do corpo da pessoa.



No deslocar a bengala de um lado para o outro, a ponteira deve ficar rente ao solo (no máximo, três centímetros de elevação).

A pessoa ao caminhar deve deslocar a bengala sempre para o lado oposto do pé em movimento.

Deve ser estabelecido um ritmo sincronizado entre o toque da ponteira e o apoio do calcanhar no lado oposto.

 

M. Técnica de Deslize

Objectivo: Permitir que a pessoa com deficiência visual explore detalhadamente o solo na sua frente, detectando com mais precisão diferenças de níveis e texturas do chão, objectos e áreas com muitas variações perpendiculares à sua linha de caminhada, em ambientes internos e externos, familiares ou desconhecidos.

 


Procedimentos

A forma de segurar a bengala e o posicionamento em relação ao corpo são os mesmos anteriormente descritos na técnica de toque.

A pessoa, utilizando similarmente os procedimentos da técnica de toque, mantém a ponteira da bengala em contacto permanente com o solo, deslizando-a para ambos os lados, efectuando o arco de protecção em constante varredura.



N. Rastreamento com a Técnica de Toque ou Deslize

Objectivos:

- Permitir à pessoa com deficiência visual localizar um objecto específico e determinado com a bengala.
- Facilitar para que a pessoa mantenha sua marcha na linha de direcção desejada.
- Manter contacto com o ambiente, favorecendo a orientação.

 

 

Procedimentos

  • A pessoa se posiciona de frente para a linha de direcção desejada, paralelamente e perto do objecto a ser rastreado. A bengala é mantida na posição correcta da técnica de toque.
  • Caminhando com mais cautela, a pessoa modifica a técnica de toque básica, alternando o contacto com o chão e o objecto que está sendo rastreado. Deve manter o deslocamento da bengala sempre para o lado oposto ao pé em movimento. O mesmo procedimento pode ser usado com a técnica de deslize.

 

O. Adaptação da Técnica de Deslize com as ponteiras roller (rolamento)

Objectivo: Permitir que a pessoa com deficiência visual explore detalhadamente o solo na sua frente, detectando com muito mais precisão diferenças de níveis e texturas do chão, objectos e áreas com muitas variações perpendiculares à sua linha de caminhada, em ambientes internos e externos, familiares ou desconhecidos. O uso da ponteira com rolamento impede que a bengala se enrosque nas emendas, reentrâncias, pequenos buracos e falhas da calçada, interferindo no desenvolvimento da marcha.

Procedimentos: A forma de segurar a bengala e o posicionamento em relação ao corpo são os mesmos anteriormente descritos na técnica de toque. A pessoa, utilizando similarmente os procedimentos da técnica de toque, mantém a ponteira da bengala em contacto permanente com o solo, rolando-a para ambos os lados, efectuando o arco de protecção em constante varredura.

 

 

MAIS ALGUMAS PERGUNTAS

1. Em que idade as crianças com deficiência visual devem começar a trabalhar a Orientação e Mobilidade?
— Lembramos que os conceitos da Orientação e Mobilidade estão presentes na vida de todos, a todo momento. Portanto, consideramos que a Orientação e a Mobilidade iniciam-se no colo da mãe, no berço, ou seja, o mais cedo possível, tão logo se identifique a deficiência visual. Algumas das condutas e procedimentos já devem estar presentes nos programas de intervenção precoce. Nos programas de educação especial somam-se novas técnicas e, naturalmente, procedimentos mais sofisticados vão sendo incorporados à medida que a criança se desenvolve.

2. Qual a idade ideal para a introdução da bengala na vida da criança?
— É uma pergunta difícil de responder. Vamos lembrar uma velha e boa frase: cada caso é um caso. Cada criança tem os seus interesses, suas necessidades, seu ritmo e sua história. Devemos respeitá-la. A sugestão é a mesma da resposta anterior. Quanto mais cedo melhor. As vivências pré-bengala devem ser trabalhadas tão logo a criança adquira marcha independente sem apoio. A partir do momento que ela consegue segurar e manter a bengala à frente do corpo, introduzem-se manipulações semelhantes as técnicas diagonal, varredura e deslize.

3. E se a criança não quiser usar a bengala? Se ela tiver preconceito contra a bengala?
— Uma vez avaliada e confirmada a necessidade do uso da bengala para a segurança da criança, deve-se trabalhar para que ela compreenda e se consciencialize da importância dessa utilização. Quanto ao preconceito, ele não nasce espontaneamente com a criança. Deve-se trabalhar o meio em que ela vive, mas respeitar o momento e as decisões familiares.

4. Pessoas com visão reduzida devem usar a bengala?
— Depende. Novamente lembramos o respeito à individualidade. Após uma avaliação bastante criteriosa, definiremos junto com a pessoa e com a família a necessidade ou não do uso da bengala. Geralmente são observadas as condições do uso da visão para perceber o tipo de calçada, o uso do campo visual para evitar esbarrar em objectos e pessoas, a locomoção nas variações de luminosidade, as condições de segurança na travessia de ruas e no uso dos transportes colectivos.

5. Como calcular o comprimento da bengala para cada pessoa?
— O comprimento da bengala depende de alguns factores como a estatura da pessoa, tipo físico, largura dos passos, segurança e tempo de reacção ao tocar em obstáculos. Inicialmente, usa-se a medida tomada com a pessoa em pé, numa linha vertical do solo até a extremidade inferior do osso esterno (boca-do-estômago).

6. Como estimular a pessoa com deficiência visual a utilizar todos os seus sentidos de uma forma integrada, colaborando com a sua Orientação e Mobilidade?
— Não é difícil, mas requer muito treino e prática. Pode ser conseguido por meio de jogos e actividades recreativas o que torna o aprendizado muito mais prazeiroso.

7. Como estimular a pessoa a fazer uso da visão residual para sua Orientação e Mobilidade?
— Devemos iniciar em ambientes internos onde podemos controlar melhor os estímulos. O ponto de partida é a observação do seu próprio corpo e dos seus movimentos (observação directa e através de espelhos). Depois, observar as outras pessoas e seus movimentos. A seguir, a pessoa com baixa visão deve ser orientada para aprender a:
 

  • localizar aberturas através de fontes de luz e sombra;
  • seguir em direcção a uma fonte de luz ou acompanhá-la;
  • localizar trincos de portas, puxadores de janelas, etc.;
  • localizar portas abertas e fechadas;
  • discriminar entre o escuro e claro em ambientes diversos;
  • localizar móveis e pesquisá-los visualmente;
  • localizar objectos sobre os móveis;
  • localizar objectos no chão;
  • entrar e sair de diversos tipos de ambientes, com variação de iluminação e de pisos;
  • utilizar linhas guias visualmente (contrastes no rodapé, meio-fio, paredes, etc.);
  • identificar e utilizar as pistas e pontos de referência visuais nos ambientes.


Os ambientes externos são riquíssimos em estímulos naturais para o treino do uso da visão residual. Devemos facilitar para que a pessoa aprenda de forma prática:

  • os conceitos de ruas, quadras, quarteirões, mapas, traçados, rotas específicas;
  • a ver postes, árvores, chafarizes, caixas de correio, telefones públicos, sombras e diferenças no calcetamento;
  • a acompanhar a linha de edificação, a identificar as aberturas nessa linha, as esquinas, o meio-fio, a sarjeta, os bueiros e bocas-de-lobo, os diferentes tipos de casas e edifícios;
  • a pesquisar os tipos diferentes de veículos (estacionados do mesmo lado da rua e também do outro lado; em movimento);
  • a fazer a passagem por auto-postos;
  • a identificar estabelecimentos comerciais diversos;
  • a fazer travessia de ruas (utilização de esquinas, meio-de-quadra, veículos estacionados, semáforos, passadeiras, passagens subterrâneas);
  • a ler números de casas (sistema de numeração externo da cidade);
  • a ler placas de lojas, placas de ruas e de propaganda;
  • a ler números e letreiros de autocarro;
  • a identificar e usar sinais de trânsito;
  • a usar transporte colectivo e individual;
  • a caminhar em calçadas com intenso tráfego de pedestres;
  • a usar escadas rolantes, elevadores, portas giratórias e portas automáticas;
  • a usar os mais diversos estabelecimentos (comerciais, financeiros, públicos, shopping-centers, etc.);
  • a localizar, identificar e fazer uso de pistas e pontos de referência de dentro de um veículo em movimento.
  • Vale lembrar que muitas pessoas podem fazer essas actividades usando recursos ópticos especiais como as telelupas.

  • 8. Como estimular a pessoa a fazer uso da audição para sua Orientação e Mobilidade?

    — A pessoa com deficiência visual deve aprender a:

    • orientar-se em casa pelos sons comuns;
    • identificar diversos sons em variados ambientes;
    • posicionar-se em relação a uma fonte sonora específica (de frente, de costas, com o lado direito/esquerdo);
    • caminhar (de diversas formas) de encontro a uma fonte sonora;
    • caminhar paralelo a fonte sonora;
    • identificar pessoas pelas vozes;
    • caminhar por corredores que apresentam ocasionalmente aberturas;
    • escutar paredes, aberturas, portas, janelas, esquinas, estabelecimentos comerciais, etc.;
    • usar de jogos de imitação, adivinhações, dramatizações;
    • usar discos, fitas cassetes e CDs com reprodução de variados sons.


    9. Como estimular a pessoa a utilizar o sentido tátil-cinestésico para sua Orientação e Mobilidade?

    — Uma grande variedade de exercícios, jogos e vivências podem ser realizados pela pessoa com deficiência visual para o aprimoramento do tacto e da cinestesia:

    • formar a Arca do Tesouro ou Caixa de Surpresa (caixa com uma grande variedade de objectos para serem manipulados, com variedades de cores, texturas, peso, tamanho, forma, temperatura, consistência);
    • construir e manusear mapas táteis, maquetes, modelos esquematizados, miniaturas, etc.;
    • manusear animais empalhados;
    • explorar cartazes e cartões contendo figuras com formas e contornos variados;
    • manipular tecidos, papéis, papelão, lixas, etc. com variados tipos de textura;
    • manipular barbantes, cadarços, linhas, cordinhas, cordas, elásticos e realizar exercícios de nós, laçadas, etc.;
    • manusear roupas identificando o lado direito e o avesso, etiquetas, partes de uma peça de roupa; modelar com massa (caseira, comercial), argila, barro, etc.;
    • jogos diversos: de montar, encaixar, seriar, comparar, etc. Uso de figuras geométricas bidimensionais, tridimensionais, pesos diferentes, bolinhas, palitos, feijões, pedrinhas, conchas, etc.
    • caminhar de diversas formas estando calçado, de meias, descalço, nos mais variados tipos de piso (calçamento, asfalto, terra, areia, grama, mato, barro, pedriscos, pedregulhos, madeira, folhas secas e úmidas, etc.). Caminhar acompanhando linhas-guias tátil-cinestésicas no piso; caminhar em pisos inclinados, caminhar descrevendo figuras geométricas, voltar ao ponto de partida, etc.;
    • explorar situações em que sejam solicitadas as percepções térmicas, a identificação de fontes de calor, frio, brisa, vento;
    • usar jogos que exigem a percepção tátil-cinestésica: adivinhação de objectos levemente tocados, pesca na areia (e, se possível, em situação real), jogos de bola explorando a coordenação motora;
    • brincar em caixa de areia, play-ground, parques, hortas, etc.;
    • andar de bicicleta, patins, patinete, carrinho de pedal, triciclo, skate, carrinho de rolemã, perna-de-pau, tamancão-coletivo, pedalinho, barco a remo, andar a cavalo, etc.;
    • explorar todas as possibilidades de movimentos básicos: rastejar, engatinhar, escorregar, andar, correr, pular, saltar, rolar, trepar, puxar, empurrar, balançar, agachar-se, esticar-se, curvar-se, contorcer-se, fazer preensões);
    • participar de actividades físicas, esportivas e recreativas.


    10. Como estimular a pessoa com deficiência visual a utilizar o olfacto na Orientação e Mobilidade?

    — O sentido do olfacto deve ser desenvolvido, podendo auxiliar na Orientação e Mobilidade da pessoa com deficiência visual. A identificação, discriminação, interpretação e localização de odores podem fornecer pistas no meio ambiente, facilitando a localização de estabelecimentos comerciais, e alertar para situações de risco (cheiro de gás, gasolina, fumaça, queimado), etc. O treinamento do olfacto pode ser feito por meio de exercícios com uma Caixa de Aromas (caixa com vários frascos contendo diversas essências aromáticas) e com o máximo de aproveitamento dos cheiros identificáveis nos ambientes (os odores em casa, na escola, no trabalho, na feira livre, supermercados, jardins, etc.). É preciso controlar o excesso de estímulos e o tempo de acomodação para não saturar a percepção olfativa das pessoas.

    Importante

    Os procedimentos apresentados devem ser considerados como modelos que proporcionam o máximo de proteção à pessoa com deficiência visual, se seguidos corretamente na situação e ambiente apropriados. Às vezes, são necessárias modificações visando atender às necessidades individuais.

    Vale ressaltar que todas essas vivências devem ter significado real para a pessoa. Não devem ser executadas apenas de forma repetitiva ou reprodutiva, mas com uma perspectiva de construção e transformação.

     


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    Aos pais
    O objectivo deste manual é oferecer informações simples e práticas que poderão contribuir para o desenvolvimento da Orientação e Mobilidade do seu filho com deficiência visual, cego ou com baixa visão.

    Aos parentes e amigos
    Este manual também poderá ajudá-los a estabelecer um convívio mais cooperativo com as pessoas deficientes visuais: crianças, jovens, adultos ou idosos.

    Às próprias pessoas com deficiência visual
    É desejo nosso que as informações que possam obter, contribuam para a prática real das habilidades da Orientação e Mobilidade em busca da autonomia e independência. Podem ser uma necessidade; é um direito; é um exercício de cidadania. As técnicas, procedimentos e condutas, descritos e indicados para o uso no cotidiano, resultam dos trabalhos desenvolvidos por muitos profissionais da área da Orientação e Mobilidade ao longo dos anos e, principalmente, dos próprios ensinamentos que as pessoas com deficiência visual nos passaram através da sua experiência de vida.

    A todos
    A Orientação e a Mobilidade são fundamentais para a interação do indivíduo com o ambiente. Pode ser a conquista da autonomia e um dos caminhos para a independência. Quanto mais pessoas conhecerem condutas e procedimentos adequados em relação a Orientação e Mobilidade, mais naturalidade teremos no convívio com as pessoas deficientes visuais. É desta forma que compreendemos e contribuímos para o processo de transformação e inclusão social.

     

    Estamos encerrando essa nossa primeira caminhada juntos. Desejo que ela tenha sido satisfatória como tem sido boa parte das caminhadas que faço todos os dias com as crianças, os jovens e os adultos com deficiência visual. Também é meu desejo que muitas outras caminhadas satisfatórias possam ser realizadas por você que tem a deficiência visual, ou por você que convive com alguém que tenha a deficiência visual. Às vezes são caminhadas longas e difíceis, mas a maioria delas possíveis de serem realizadas.

    Até os próximos passos,
    João Álvaro de Moraes Felippe



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    Resultado de imagem para CAMINHANDO JUNTOS joão alvaro

    João Álvaro de Moraes Felippe, natural da cidade de São Paulo formou-se em Educação Física na EEFE USP, especializando-se em Educação Física Adaptada na Universidade Gama Filho. É coordenador de programas especiais da Associação Brasileira de Assistência ao Deficiente Visual - LARAMARA. É professor da disciplina Actividades de Grupos Especiais no UniFMU.

    Ilustrações de Saulo Silveira
    LARAMARA - Associação Brasileira de Assistência ao Deficiente Visual, 2001

     

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    15.Mar.2007
    publicado por MJA