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 SOBRE A DEFICIÊNCIA VISUAL

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Ver e Não Ver

Eline Rozante Porto

A Dream of Motion -  fotografia de Evgen Bavcar, 1997
A Dream of Motion -  fotografia de Evgen Bavcar, 1997

 

Se eu sou algo incompreensível assim
Meu Deus é mais
Mistério sempre há de andar por aí
Não adianta nem me abandonar.
Gilberto Gil

 

Deixando meu pensamento voar e sobrevoar minha existência nos dias de hoje, percebo-me em alerta ao pensar sobre a evolução dos seres humanos, da cultura, da arte, da ciência e da tecnologia da informação e comunicação. Estes “mundos” aos quais pertenço têm mostrado um desenvolvimento aceleradíssimo e de grande eficiência, no que se refere às potencialidades que as máquinas possuem, sob as quais o ser humano tem todo o domínio de conhecimento, apropriação e utilização.

Fica claro para mim que esse desenvolvimento todo está diretamente atrelado e mantido pelo mundo científico, e o ser humano como criador, divulgador, mantenedor e utilizador dele está e se faz presente em toda essa dinâmica que visualizo como uma espiral em constante movimento, onde o todo são as partes e as partes são o todo. Como afirma Morin (2001, a):

O mundo torna-se cada vez mais um todo. Cada parte do mundo faz, mais e mais, parte do mundo e o mundo, como um todo, está cada vez mais presente em cada uma de suas partes. Isto se verifica não apenas para as nações e povos, mas para os indivíduos. (p.67)

Assusto-me, em muitos momentos da minha vida, com os fatos que vivencio e experimento e, também, com aqueles que apenas ouço e vejo de longe. Chego a sentir-me dentro de um caleidoscópio nesse mundo vida em que eu e os corpos que me rodeiam estão imbricados.

Os afazeres são muitos e os prazeres se mostram cada vez mais ligados a estes, nascendo uma desordem que busca a ordem, a organização ou mesmo a desorganização quando tento compreender a minha essência e a minha existência nos “mundos” que sou e estou presente, em que um deles é o mundo da ciência.

Vejo e sinto este mundo como um grupo de crianças livres e soltas num parque a brincar... elas chegam e vão aos poucos se familiarizando com o local, fazem um reconhecimento dos brinquedos ali existentes, observando-os e admirando-os para em seguida escolher brincar com aqueles que mais chamaram a atenção. Passado esse primeiro momento, iniciam a compreensão e a apreensão sobre o primeiro brinquedo escolhido para, posteriormente, elas fazerem a opção pelos meios de apropriação e utilização do mesmo. Seguindo ou não regras pré-fixadas e determinadas, o locus da descoberta está na criatividade e na autonomia que as crianças terão para se aproximarem e se apoderarem do brinquedo escolhido.

A ordem ou a desordem desse processo deverá conduzí-las às diversas possibilidades que elas têm para brincar com e neste brinquedo.

Porém, não podemos deixar de considerar os diversos fatores que podem interferir nesse processo como: o parque pode estar demasiadamente cheio de crianças; de repente o sol se esconde e começa a chover; o brinquedo pode parar de funcionar de repente; o tempo para elas permanecerem naquele local se encerra; uma criança pode desmaiar e precisar da atenção de todas as outras; uma criança cega se aproxima e quer brincar junto com as demais, ou um outro evento qualquer que venha a desestruturar toda a programação feita anteriormente. Enfim, é o inesperado e são os acasos que em toda e qualquer situação aparecem e se instalam sem avisar, pedindo uma outra ação diferente da estabelecida inicialmente.

O inesperado surpreende-nos. É que nos instalamos de maneira segura em nossas teorias e idéias, e estas não têm estrutura para acolher o novo. Entretanto, o novo brota sem parar. Não podemos jamais prever como se apresentará, mas deve-se esperar sua chegada, ou seja, esperar o inesperado. (Morin, 2001, a , p.30)

Frente a esse contexto, sei que se eu estivesse naquele parque agiria de uma determinada forma, se fosse você teria outras atitudes que se diferenciariam das minhas, se fosse outra pessoa as ações não seriam nem as minhas nem as suas, porque cada um, no momento da intervenção ao acaso, iria se revelar de acordo com seu modo próprio de ser e de viver as relações com o mundo. E assim as intersecções e interlocuções da essência e da existência dos seres humanos na relação com o mundo, vão acontecendo como num caleidoscópio onde as figuras, as cores e os seus respectivos movimentos vão se formando com rigor, com fidedignidade, com junção das partes para o todo e do todo para as partes de modo indissociável, com ordem, com desordem e com organização, propiciando dessa forma a evolução da espécie humana.

Pensando na evolução do ser humano me reporto à Morin (2001, a) ao retratar a evolução dizendo:

Toda evolução é fruto do desvio bem – sucedido cujo desenvolvimento transforma o sistema onde nasceu: desorganiza o sistema, reorganizando-o. As grandes transformações são morfogêneses, criadoras de formas novas que podem constituir verdadeiras metamorfoses. De qualquer maneira, não há evolução que não seja desorganizadora/organizadora em seu processo de transformação ou de metamorfose. (p.82)

Nesse processo, existem e sempre vão existir as diferentes ações dos seres humanos reveladas nas inúmeras situações, pelo fato da singularidade e individualidade serem próprias do ser humano. Isso acontece de modo indissociável, com ordem, com desordem e com organização, em que se busca a descoberta e, conseqüentemente, a compreensão dos fenômenos que se dá devido aos diversos “mundos” que surgem e se instalam.

Ao tratar dos conceitos de ordem/desordem/organização Morin (2000) explicita suas idéias para cada termo em separado. Ele identifica a ordem com a racionalidade, com a harmonia entre a ordem da mente e a ordem do mundo, com a causalidade, com o determinismo, com a objetividade e também com o controle. A desordem está associada às irregularidades, às inconstâncias, às instabilidades, às agitações, às dispersões, às incertezas, aos acidentes, aos desvios, que podem vir a perturbar a ordem e é também considerada pelo acaso e pela eventualidade. Ao falar em organização, o autor deixa claro que não pode reduzí-la à ordem. A organização ...”mantém um conjunto ou “todo” não redutível às partes, porque dispõe de qualidades emergentes e de coações próprias, e comporta retroação das qualidades emergentes do “todo” sobre as partes” (p.198).

O trinômio, ordem, desordem e organização, pode se apresentar separadamente, no entanto, constata-se estes três princípios acontecendo de maneira imbrincada e cadenciada em todos os fenômenos humanos e da natureza. Eles aparecem na evolução, no progresso e na modificação dos fenômenos, que estão presentes em todos os ambientes que o ser humano se encontra. Um desses ambientes que estou presente, buscando compreender é o mundo científico.

Passar pelo processo de conhecer e viver o mundo científico está sendo um desafio para mim, visto que em toda minha formação escolar, familiar e religiosa, fui sempre direcionada a ver e viver o mundo das coisas e das pessoas de forma separada, fechada, simplificada e padronizada diante de uma lógica formal e racionalizada. E agora, nesse processo de apreender, assimilar e transmitir conhecimentos, sinto-me no meio de um parque cheio de crianças em movimento em que o inesperado e os acasos surgem trazendo instabilidades, incertezas e desequilíbrios propondo um verdadeiro caos.

Em vários momentos na obra Teia da Vida, Capra (2001) faz diversos apontamentos sobre o caos, colocando em evidência que todo ser vivo é caracterizado por um fluxo e uma mudança contínuos no seu estado de viver, pois, se o equilíbrio se instalar em todo e qualquer processo da vida desse ser vivo, ele pode se considerar morto. O ser vivo, diante das inúmeras perturbações do sistema do caos, é capaz de coordenar, de ser flexível, de se adaptar e evoluir porque faz parte de um sistema complexo e autoorganizativo.

Volto a lembrar do ser humano que é cego e vive sua essência e existência num mundo criado e projetado para e por quem enxerga.

Voltando para minha trajetória de pesquisadora, deparo-me com inúmeras situações em que os fluxos e mudanças se fazem necessários a todo instante, e que estes não se explicam e nem têm porque se explicarem, mas mesmo assim, às vezes, me pego pensando e agindo contraditoriamente, ou seja, tento dar explicações e justificativas sobre determinada situação.

Acredito, porém, que isto também faz parte do processo de assimilação e incorporação de uma nova forma de entender, aceitar, experimentar e divulgar o pensamento científico.

O ser humano e todos os outros seres viventes são fenômenos, portanto não são passíveis nem possíveis de explicações concretas, fechadas, e fadadas de generalizações como os fatos sempre foram tratados pela ciência clássica. Pensando nisso, lembro-me dos apontamentos de Descartes e de sua importante e significativa contribuição ao mundo científico para e na época em que foram divulgados e apropriados. Separar, isolar, tornar distante o sujeito do objeto a ser investigado, era para Descartes, uma condição única e possível para se fazer pesquisa, para se fazer ciência.

Para ele o conhecimento científico era totalmente alicerçado na filosofia cartesiana como verdade absoluta. Descartes acreditava na ciência como uma estrutura matemática, em que os resultados obtidos não poderiam despertar dúvidas. Disso ele deduzia que a essência da natureza humana está no pensamento e não na matéria, concluindo que mente e corpo são separados e fundamentalmente diferentes, como apresenta Capra (1994).

No entanto, o tempo não parou, o ser humano e sua relação com o mundo evoluiu, como também a ciência tem apresentado muitas modificações no decorrer da sua trajetória histórica. Conceitos e princípios básicos como verdade, generalização, normatização, objetividade, técnica, fragmentação, certeza e explicação, têm sido amplamente discutidos e analisados sob uma perspectiva de mudança paradigmática no e do mundo científico.

A nova visão de mundo e de ciência baseia-se na possibilidade de inter-relação e interdependência entre os fenômenos físicos, biológicos, psicológicos, sociais e culturais. Já existem vários princípios formulados e aceitos por muitos estudiosos e instituições ao acomodarem a formulação do novo paradigma da realidade (Capra, 1994).

Nesse sentido, desvelar o fenômeno da corporeidade do cego significa eu acreditar nessa nova realidade científica, ou seja, acatar o novo paradigma científico: o da complexidade.

Ser corpo, refletir e falar sobre corpo sob os olhos da ciência é uma tarefa complexa se eu considerar significativo o processo dinâmico e autônomo que ele é. A noção de autonomia dos seres humanos, cegos, videntes e outros, pode ser pensada e discutida com base na biologia, na física, na sociologia, na antropologia, na cibernética, entre outras, por tratar de seres vivos que são e estão em contato constante com o mundo.

O ser humano é inseparável do meio ambiente e esse entorno humano dá-se pela natureza e sociedade. Essa relação é corporal, é subjetiva, é objetiva, é organizada, é uma mediação entre as duas dimensões da natureza – o corpo e o ambiente – o interno e o externo ou o orgânico e o inorgânico (Silva, 2001). Fazendo referência surge uma imagem na minha memória: um cego, sozinho num ponto de ônibus da sua cidade, espera tranqüilamente pelo transporte urbano. Ao perceber que o mesmo se aproxima estende o braço à frente do corpo sinalizando-o para parar. Quando a condução pára, o passageiro confirma com o motorista sobre o destino da mesma, sendo o destino pretendido o cego entra no ônibus, senta num dos bancos e acompanha o caminho com tranqüilidade até o seu ponto de desembarque.

Fabiana, cega congênita, manifesta-se dizendo que os cegos percebem o espaço de modo diferente dos videntes, pelo fato das necessidades entre ambos serem diferentes. Com isso as experiências que vão se acumulando estão intrinsecamente associadas ao modo próprio e particular de viver de todo ser humano, portanto os cegos não são capazes de adentrarem no mundo dos videntes, como os videntes não são capazes de adentrarem no mundo dos cegos (anexo 1).

Essa situação comum entre os cegos orientados para tal, muitas vezes chama a atenção das demais pessoas videntes. Surge o questionamento: como que um cego consegue ser autônomo, independente e até transportar-se de ônibus sozinho? Exprime-se aí a intersecção natureza e sociedade, em que deve-se respeitar e acreditar nas mais diversas possibilidades que os sistemas vivos possuem para estarem presentes no mundo. Por isso a necessidade de criar-se novos olhares para a corporeidade do cego.

Todo e qualquer organismo – desde a menor bactéria até os seres humanos, passando pela imensa variedade de plantas e animais – é uma totalidade integrada e, portanto, um sistema vivo. (...) Mas os sistemas não estão limitados a organismos individuais e suas partes. Os mesmos aspectos de totalidade são exibidos por sistemas sociais – como o formigueiro, a colmeia ou uma família humana – e por ecossistemas que consistem em uma variedade de organismos e matéria inanimada em interação mútua. O que se preserva numa região selvagem não são árvores ou organismos individuais, mas a teia complexa de relações entre eles. (Capra, 1994, p.260)

Maturana e Varela (1995 e 1997) explicitam que qualquer sistema de qualquer ser vivo é autônomo quando este especifica suas próprias leis e mecanismos, mantendo suas características de unidade. Estudando biologia, a partir da composição celular e as suas possibilidades de relações dentro do seu próprio sistema, mostram como essa unidade vivente é autonônoma e organizada, em que mantém o mecanismo de identidade celular que acontece como numa rede de modo circular e próprio. Denominam esse sistema de definição da organização de suas unidades de autopoiese ou de organização autopoiética.

A identidade autopoiética está atrelada à variação estrutural dos seres vivos não somente em termos da sua estrutura físico-química, mas também quanto unidade que se organiza, isto é, identidade que se autoproduz e que se conserva, aparecendo, de modo explícito na natureza, pontos de referência nas interações dos mesmos seres vivos. Possibilitando, dessa forma, a interpretação dos fenômenos pela diversidade de significados que eles apresentam, como comentam Maturana e Varela (1997).

Assmann (1998) faz alusão ao sistema autopoiéitco dizendo:

... é uma teia de processos que 1) vão produzindo, ingredientes, componentes e padrões (caóticos e ordenadores) que regeneram continuamente, através de suas transformações e interações, a própria teia que os produz e 2) constituem o sistema enquanto unidade concreta no espaço em que existe, ao especificar o domínio topológico no qual se realiza enquanto teia. Os processos autopoiéticos devem ser imaginados como multiplicidade de níveis interligados e emaranhados. (p.136)

O sistema autopoiético é uma propriedade que o ser vivo tem e é de auto-produzir-se e auto-organizar-se numa cadeia de sistemas em que a intersecção aparece e se mantém, sem intervir nas unidades concretas que são sempre interdependentes. Para ilustrar minhas idéias, utilizo as seguintes palavras de Capra (2001):

Cada um desses sistemas forma um todo com relação às suas partes, enquanto que, ao mesmo tempo, é parte de um todo maior. Desse modo, as células combinam-se para formar tecidos, os tecidos para formar órgãos e os órgãos para formar organismos. Estes, por sua vez, existem dentro de sistemas sociais e de ecossistemas. Ao longo de todo o mundo vivo, encontramos sistemas vivos aninhados dentro de outros sistemas vivos. (p.40)

Vejo alguém ao meu lado que não me vê, o cego! Um ser da espécie humana, que apresenta seu sistema autopoiético como qualquer outro ser da mesma espécie. Seu sistema celular, devido a alguma causa congênita ou adquirida proveniente de uma desordem biológica, provoca uma organização ou reorganização do próprio sistema para ele poder ser e estar presente no mundo. Ao pensar na desordem biológica vivida pelo cego, a ordem e a organização se fazem presentes ao mesmo tempo.

Por mais aguçado e preciso que o tato, o olfato, e ou a audição sejam para os cegos, jamais estes órgãos poderão desempenhar funções dos olhos, por exemplo: o tato “vê”, mas nunca será capaz de ver imagens, distâncias, perspectivas, entre outras coisas, acontecendo o mesmo com os demais órgãos.

Sacks (1995) afirma que para existir uma conexão entre o mundo visual e o mundo tátil só é possível a partir da experiência vivida (do lebenswelt).

Veiga (1983), cego, comenta que é comum a todos os cegos desenvolverem as habilidades auditivas com mais intensidade e refinamento do que os videntes, mas isso se dá pela maior observação dos estímulos audíveis do que pela acuidade auditiva.

A voz humana, esta sim: ninguém a conhece melhor que o cego. É o espelho da criatura, a expressão fisionômica, a vida interior, a própria alma, tudo das outras criaturas para ele. Nela ele sabe buscar todo o relacionamento com as pessoas de seu convívio; todas as ligações harmoniosas, sentimentais, amorosas, e até toda a repulsa com as pessoas. (Veiga, 1983, p. 34)

O neurocirurgião Sacks (1995) declara que tratar do cérebro humano propicia contatos com situações novas, inesperadas e complexas.

Situações essas que colocam o ser humano e sua natureza numa complexidade tal, impossível de ser prevista a partir do curso da vida comum. No século XVII, Willian Harvey escreveu: “Não há lugar onde a natureza exponha mais abertamente seus mistérios secretos do que nos casos que mostra vestígios de seu funcionamento fora do caminho trilhado” (apud Sacks, 1995, p.124).

Numa passagem de Damásio (1998) algumas reflexões para subsidiarem essas idéias. Sustenta-se que grande parte das interações com o meio ambiente acontecem num local delimitado pelo corpo, como exemplo, a audição é processada num lugar específico delimitado pelo corpo, o ouvido. Por conseguinte, algo que o ser humano ouve como um sinal externo, não corporal, transforma-se em sinal corporal, que será enviado ao complexo somatossensorial e motor representado por todo o corpo, como também será enviado à unidade sensorial específica (campos neurológicos que se relacionam ao órgão auditivo ou da audição). Ao ouvir, o ser humano não é limitado e fechado apenas na informação sonora recebida, ao contrário, ele percebe e sente, pela capacidade auditiva, que está ouvindo algo com seus ouvidos, ou seja, seu cérebro processará os mínimos detalhes daquilo que está estimulando seu órgão auditivo. Porém, o seu corpo como um todo também está absorvendo a informação e apresentará ações advindas dessa informação.

Possuindo ao nascer todos os órgãos dos sentidos, é natural ao ser humano criar e estabelecer correlações entre eles, a partir do contato com mundo. Esse contato possibilita a criação de sentidos e significados para os objetos e para tudo o que se apresenta diante dele. Portanto, o mundo não é simplesmente dado ao ser humano, mas sim construído a partir das experiências, classificações, memória e reconhecimento incessantes, alega Sacks (1995).

Cyrulnik (1997) admite o corpo como um ser que age e é agido no meio estruturado. O processo biológico não pára, do nascimento à morte, indicando que o organismo procura aquilo que para ele é ou será acontecimento.

Esse processo torna-o sensível às informações advindas do meio. O corpo age e é agido na sua relação com o mundo, é o mundo vivido (lebenswelt).

“... quando Virgill abriu os olhos, depois de ter sido cego por 45 anos – tendo um pouco mais que a experiência visual de uma criança de colo, há muito esquecida -, não havia memórias visuais em que apoiar a percepção; não havia mundo algum de experiência e sentido esperando-o. Ele viu, mas o que viu não tinha qualquer coerência. Sua retina e nervo ótico estavam ativos, transmitindo impulsos, mas seu cérebro não consegui lhes dar sentido;...” (Saks, 1995, p.129)

Deve-se reconhecer que o conhecimento em relação à realidade absoluta é limitado, mas é de significativa consistência a construção da realidade própria e individual que o cérebro humano é capaz de efetuar e partilhar. Pois, “nossas mentes são reais, nossas imagens são reais, nossos sentimentos em relação às imagens são reais. Sucede que essa realidade mental, neural e biológica é a nossa realidade” (Damásio, 1998, p.266).

Entendo que diante dessas considerações, a desordem e a ordem estão presentes não só no sistema biológico, como também no sistema social e cultural. Apesar de todas as dificuldades encontradas pelo cego para conviver social e culturalmente no mundo dos videntes, a convivência se dá. E isso gera a desorganização e a desestabilização de todos os sistemas fechados que se baseiam, unicamente, nas teorias explicativas da ciência clássica. Sistemas, qual o sentido dessa palavra nesse contexto estudado?

Morin (1998) mostra duas vertentes sobre a idéia do pensamento sistêmico: uma em que o sistema surge como um conjunto funcional formado pelas partes que se completam harmoniosamente atendendo as finalidades do todo; na outra a idéia de sistema tem essa complementaridade, mas também os antagonismos e as mais diversas perturbações que o fazem viver. O princípio do antagonismo não é fixo, nem estático, está conectado ao dinamismo das interações/retroações internas e externas do ser humano. Essa complementaridade cria fenômenos de crise, pelo fato de provocar a desorganização e suscitar a reorganização já evoluída.

A concepção sistêmica para Capra (1994) também concebe o mundo a partir de relações e de integração, ou seja, todos os sistemas são totalidades integradas, cujas propriedades não podem ser reduzidas às unidades menores.

A natureza do todo não pode, de forma alguma ser considerado apenas como mera soma das partes. A abordagem sistêmica enfatiza seus princípios básicos na organização de todos e entre todos os sistemas, porém estas relações são dinâmicas, flexíveis e pertencentes a um processo.

Ao apresentar algumas proposições sobre as relações existentes entre o todo e as partes, Morin (2001, a) atesta que tanto no ser humano, quanto nos demais seres vivos, estas relações são mútuas. A unidade celular contém todo o patrimônio genético do organismo; a sociedade, como um todo marca sua presença em cada indivíduo, pela linguagem, pelo saber, pelas normas e pelas obrigações. Entende-se então que tanto a célula está na sociedade, como a sociedade está na célula.

A partir dessas análises, posso dizer que se a unidade celular do ser humano é um sistema autopoiético, ele como um composto celular também o é, apresentando suas diferenças e singularidades, por ser um sistema próprio que possui sua identidade, entre os milhões de indivíduos da espécie humana que também são sistemas de identidade própria. Esse contexto remete-me à sociedade que num de seus sistemas de referência organizativa cria a possibilidade de caracterização ou classificação dos seres humanos pela cor, pela raça, pela língua, pelos padrões de normalidade, entre outros. Lembro-me então das pessoas deficientes visuais e auditivas (sensoriais), mentais e físicas. Elas todas, como qualquer outro ser humano classificado de normal, apresentam seus sistemas de identidade própria, tanto nos aspectos biológicos e físicos como nos históricos, culturais e sociais, É comum ouvir que o ser humano, ao apresentar o ouvido ou a visão comprometidos, os outros órgãos tornam-se mais sensíveis e mais inteligíveis.

Diante desses comentários observo que há um desconhecimento, por parte das pessoas, de que o cérebro é quem coordena esse processo de substituição para a percepção física e sensorial do deficiente. Essa sobrevida dos sentidos só existe devido à complexidade do corpo (Bavcar, 2001). Completando o pensamento o autor, que é cego, diz: “Para um cego, é todo o corpo que de algum modo se torna órgão da vista, pois qualquer parte do corpo pode olhar um objeto que lhe seja exterior” (p.5).

Estabelece-se, a partir dessa constatação, uma relação estreita com os sistemas autônomos mostrados por Morin (1991). Ele fala da autonomia como um sistema que cria suas próprias determinações e suas próprias finalidades na desordem, no acaso e nos processos auto-organizativos. Comenta que a autonomia humana depende das condições sociais e culturais, ou seja, para um indivíduo ser autônomo ele é dependente da sociedade, da linguagem, da cultura, da educação, bem como, do cérebro que é um produto próprio de um programa genético.

...a autonomia se fundamenta na dependência do meio ambiente e o conceito de autonomia passa a ser um conceito complementar ao da dependência, embora lhe seja, também, antagônico. Aliás, um sistema autônomo aberto deve ser ao mesmo tempo fechado, para preservar sua individualidade e sua originalidade. (Morin, 2000, p. 184)

Ao pensar no cérebro como um sistema autônomo parece simples se eu relacioná-lo com uma linha telefônica, mas é um equívoco fazer essa comparação pelo fato da existência das múltiplas e variadas conexões existentes no sistema nervoso central. Considerando o sistema visual, Maturana e Varela (1995) demonstram que, normalmente, a percepção visual é tratada como uma operação que se dá a partir da imagem formada na retina e que em seguida será transformada no interior do sistema nervoso. Entretanto, tal abordagem se desestabiliza quando compreende-se que para cada neurônio da retina projetado sobre o córtex visual, há mais de cem neurônios provindos de outras partes do cérebro, o que trará como conseqüência múltiplos efeitos que se superpõem à ação da retina. Isso mostra a interligação entre as estruturas, e não apenas uma simples seqüencialidade de fatos entre as mesmas.

Os mesmos autores afirmam que o sistema nervoso funciona de tal forma que, independente das mudanças ocorridas, estas geram outras mudanças dentro de si mesmas, em que...

... o operar do sistema nervoso é plenamente consistente com sua participação numa unidade autônoma, em que todo estado de atividade leva a outro estado de atividade nela própria, pois seu operar é curricular, dentro de uma clausura operacional. Portanto, por sua própria arquitetura, o sistema nervoso não contradiz o caráter autônomo do ser vivo, e sim o ressalta. (p. 194)

Sistemas neurais, cérebro, organismo e ambiente são temas amplamente discutidos por Damásio (1998). Ao tratar desses assuntos o autor afirma, a todo momento, existir uma relação direta e interdependente entre todos estes componentes presentes na vida de um ser humano. Toda e qualquer decisão pessoal e social do ser humano é recheada de incertezas, as quais produzem reações diretas e indiretas na sua sobrevivência. Decorre disso que o repertório de conhecimentos sobre o mundo externo (ambiente) e sobre o mundo interno (organismo) é muito vasto. O cérebro por sua vez retém e reúne os conhecimentos de forma distribuída entre as suas estruturas, os quais serão manipulados ao longo da existência do ser humano.

Relacionando esses apontamentos com o ser humano deficiente da visão, ou seja, com os cegos, é possível compreender porque um cego percebe a luz e o outro não, nas mesmas condições ambientais. O sistema nervoso nessas situações revela sua autonomia e sua auto-organização, pois os seres humanos cegos podem vir apresentar algumas semelhanças, mas as diferenças certamente vão ser predominantes ao pensar na limitação da capacidade visual.

Essas diferenças também são perceptíveis quando me deparo com dois cegos que apresentam a mesma classificação funcional. Certamente, eles apresentarão seus sistemas organizativos próprios e, conseqüentemente, suas relações com o mundo também se darão de modo individualizado.

É comum a idéia sobre o sistema nervoso de que este capta as informações do meio; porém, o que acontece é a produção de um mundo a partir da percepção de que configurações do meio são perturbações que provocam mudanças estruturais no organismo. Essas mudanças constituem atos de cognição, em que o sistema cria um mundo através do processo de viver que se dá a partir das interações com o meio ambiente (Maturana e Varela, 1995).

No âmbito da organização biológica, Morin (1998) comenta a complexidade existente no sistema de informação genética, que corresponde a um fenômeno de memória organizacional, garantindo a manutenção da originalidade, da improbabilidade e da complexidade do sistema vivo.

Considera-se, contudo, um sistema auto-organizativo que depende do exterior (ecossistema), mas detém em si a originalidade da conservação, da manutenção, da transmissão, da renovação e da reprodução, ou seja, do seu princípio generativo.

O cérebro recebe sinais do corpo, como também de partes de sua própria estrutura, as quais recebem sinais do corpo; considera-se essa uma relação indissociável que forma o organismo, afirma Damásio (1998). O organismo do ser humano, sendo composto por cérebro-corpo, é e está em interação simultânea com o ambiente como um conjunto. Essa interação produz respostas externas, chamadas de comportamentos e respostas internas, denominadas pelo autor de imagens (visuais, auditivas e somatossensoriais).

Capra (2001), ao comentar sobre o organismo, ressalta que por este ser único, individual, traça seu caminho de modo diferente por apresentar as mudanças estruturais próprias, e como conseqüência os atos da cognição de cada organismo se darão, também, de modo particular e próprio. Todo esse processo não acontece de modo linear entre causa e efeito, mas sim, a partir de mudanças estruturais na rede autopiética não-linear, permitindo que o processo de viver do organismo em seu meio ambiente tenha continuidade, e isso se dá de forma inteligente.

Com efeito, as estruturas/organizações do ser humano são improváveis em relação à probabilidade física. Pois, a originalidade da estrutura/organização do ser vivo e social, aparece na sua complexidade, na sua heterogeneidade, na sua singularidade, que é conservada, mantida, transmitida, renovada e reproduzida (Morin, 1998).

O cego, pela falta da visão, apresenta uma postura de pescoço e cabeça diferenciada da do vidente, acarretando uma má postura. Isso prevalece entre os cegos que apresentam ainda um contato restrito com o mundo, ou seja, o cego quando não possui independência e autonomia para se orientar e se mover no mundo, ele adota essa postura corporal como medida de proteção e segurança. É uma forma inteligível que o corpo do cego encontra de se auto-organizar perante as suas particularidades estruturais e o meio ambiente para viver. O cego é um organismo constituído por um sistema autopoiético, então porque ele haveria de manter uma postura igual à do vidente, se várias das suas estruturas são diferentes das do vidente?

Respondo a essa indagação utilizando algumas reflexões de Damásio (1998) ao ressaltar que o organismo, por possuir uma mente, forma representações neurais as quais poderão ou não tornar-se imagens manipuláveis no processo denominado de pensamento. Esse terá influência direta no comportamento em virtude do planejamento e escolha da próxima ação. Esse processo se dá ...”pelas representações neurais que são modificações biológicas criadas por aprendizagem num circuito de neurônios, se transformam em imagens nas nossas mentes; (...) que cada um experiencia como sendo sua” (p.116). As imagens não são somente visuais, são também sonoras, táteis, olfativas, entre outras. Portanto,

... a função global do cérebro é estar bem informado sobre o que se passa no resto do corpo, sobre o que se passa em si próprio, e sobre o meio ambiente que rodeia o organismo, de modo que se obtenha acomodações de sobrevivência adequadas entre o organismo e o ambiente (Damásio, 1998, p.116)

Um exemplo disso é pensar: como o cego congênito sonha? Fabiana (anexo 1) diz que sonha como qualquer outro ser humano, porém seus sonhos são diferentes dos sonhos de alguém que enxerga. Os videntes sonham com imagens por serem estas as representações para eles, cegos como ela sonham com suas formas de perceber o mundo, os sons, os cheiros, as sensações táteis.

Do ponto de vista da ação corporal, como um sistema complexo de relações biológicas, cognitivas, motoras, sociais e psicológicas, afirma-se que a mente é individual, é observada a partir da ação/comportamento do ser humano, é moldada nos seus conteúdos a partir do mundo circundante, é ação/pensamento, ressalta Del Nero (1997). “Somos ao mesmo tempo uma mente rica, cheia de idéias, emoções e vontades e um produto final que é sua expressão motora pública” (p. 323). Portanto, a mente não é um aparato físico e palpável como o cérebro.

Edgar Morin (1998) discute amplamente sobre a intersecção entre os sistemas do organismo e os sistemas sociais; mostra com clareza que as diferenças existentes entre eles não é a comunicação, nem a informação, nem a hierarquia, nem a divisão do trabalho, nem a especialização, pois, tudo isso acontece em ambos os sistemas. A diferença se mostra no desenvolvimento do ser humano social, dotado de um sistema neurocerebral e que através do seu comportamento é autônomo e livre para interagir com os outros. É notável então que...

O sistema nervoso e o cérebro devem ser concebidos não tanto como órgãos, mas como aparelhos organizadores dos comportamentos. É neste sentido que o cérebro é a placa giratória da relação social. (...) A questão de saber se a sociedade é biológica ou se a vida é social deixa de ter importância desde o momento em que as noções de vida e de sociedade passam a ser abertas, relacionadas, enriquecidas, aprofundadas, complexificadas. (p.99)

Nesta linha de análise, torna-se evidente que os seres humanos, ao estarem presentes no mundo vivenciam os princípios de ordem, desordem e organização, emanados das estruturas próprias, particulares e sociais.

Revelam-se assim, fenômenos auto-organizativos, tanto do ser humano para com o ambiente, como do ambiente para o ser humano.

Ao referenciar a complexidade interativa penso na linguagem fazendo parte deste entrelaçamento de mundos tão semelhantes e tão diferentes ao mesmo tempo, criando um mundo próprio e um mesmo mundo, quando as relações sociais acontecem.

E por falar em linguagem, Maturana e Varela (1995) mostram que esse sistema dos seres humanos está diretamente associado ao domínio social e da comunicação entre os mesmos, em que são produzidos fenômenos de coerência e estabilização da sociedade. A coerência da linguagem é denominada pelos autores como consciência e como a mente do ser humano. As palavras são ações que produzem a nossa (...)”história de interações recorrentes que nos permite um acoplamento estrutural interpessoal efetivo” (p.251).

Isso quer dizer que a consciência e o mental pertencem ao domínio social, e é neste que se dá a sua dinâmica a partir das interações lingüísticas, em que o ser humano seleciona o seu vir-a-ser. A linguagem permite o ser humano ser e estar nos contínuos acoplamentos interativos possíveis, e não tem o papel de dizer quem é o ser humano, pois este se apresenta em contínua transformação pelo ato de conhecer o que a própria linguagem possibilita.

A interação existente entre a linguagem e a sociedade acontece de forma regular e dependente de toda e qualquer circunstância, visando a sobrevivência individual e coletiva, surgindo aí as normas e os valores que inibem ou regulam as ações dos seres humanos (Del Nero, 1997).

Os seres humanos são os únicos organismos vivos possuidores de capacidade narrativa, proporcionada pela linguagem, que produzem relatos orais advindos dos não orais. Para Damásio (1998), esse processo não está na origem do eu não verbal mas, certamente, encontra-se na origem do eu enquanto sujeito verbal. E aí sim, haverá a possibilidade destes “eus” se interagirem com o meio ambiente se socializando de modo individual e próprio, adaptando-se a este frente as suas limitações e capacidades.

As interações entre os seres humanos acontecem através do uso da linguagem, que é autônoma e dependente simultaneamente, por depender do espírito/cérebro humano que são seus criadores, do sujeito que é o seu locutor, e das interações sociais e culturais que transmite-lhe existência e ser.

A linguagem é fundamental para a organização de qualquer sociedade por possibilitar o diálogo em todas as operações cognitivas e comunicativas que conservam, transmitem e inovam os dispositivos culturais, segundo Morin (1991, a).

Ser deficiente sensorial, especificamente da visão, parece não sofrer limitações no que diz respeito à linguagem, mas sofre. A linguagem oral do cego é e está presente na sua existencialidade, inclusive como um dos principais meios de comunicação e interação desse ser humano com o mundo.

No entanto, ela pode, às vezes, apresentar-se de modo desordenado frente à mesma linguagem desenvolvida pelos videntes. Isso devido a algumas limitações para o entendimento e compreensão de muitos vocábulos, conforme seu sentido e significado, como por exemplo alguns conceitos espaciais. O vidente apreende conceitos de distância, de tamanho, entre outros, a partir da experiência corporal vivida. O cego, por outro lado também apreende estes conceitos, porém suas experiências corporais vividas se diferem significativamente das dos videntes. Saks (1995) relata o discurso de um cego que voltou a enxergar depois de 22 anos:

“Durante as primeiras semanas [logo após a cirurgia], eu não tinha nenhum senso de profundidade ou distância; as luzes da rua eram manchas luminosas grudadas aos vidros das janelas, e os corredores do hospital eram buracos negros. Ao atravessar a rua, o tráfego me aterrorizava, mesmo quando estava acompanhado”... (p.135)

Morin (1991, a) observa dizendo que a linguagem corrente, ou seja, do dia-a-dia é muito mais complexa do que as linguagens formalizadas. Ela comporta maleabilidade, possibilitando assim a imaginação fluir pela não existência da rigidez, o que não retira o rigor do discurso, mas enriquece-o pela possibilidade da inserção da analogia e da metáfora, ingredientes necessários ao pensamento.

A partir desta contextualização da linguagem, não posso deixar de mencionar a linguagem corporal ou gestual que acompanha a linguagem oral de todo ser humano. Naquela o cego, na maioria das vezes, mostra-se bem limitado ao ser comparado com o vidente, pela impossibilidade que o primeiro tem de imitar o segundo. A relação criada pelo cego entre as linguagens oral e corporal, é ínfima por ele não sentir e não perceber que ambas se complementam.

Para o cego basta falar as palavras e estas transmitirão suas idéias e o que elas querem dizer, pois é dessa linguagem que ele se apropria e também recebe de qualquer outro ser humano durante toda a sua existência no seu mundo vida.

Porto (1995), ao discursar sobre a comunicação corporal, aponta que os gestos, as posturas, como também as expressões faciais, são estabelecidos e ou modificados em virtude do ser humano ser um ser social que se interrelaciona com o mundo, aprendendo e usufruindo das expressões corporais.

Isso acontece de modo individual e particular, pelo fato de todo ser humano viver em ambientes diferentes e contextos culturais também diferentes, o que influencia diretamente na forma como o corpo se expressa.

O cego, portanto, não poderia mostrar-se diferente em relação à sua comunicação corporal, pois as imagens para ele inexistem na sua relação com o mundo. Ele se comunica como qualquer outro ser humano, porém de modo diferente dos seres que captam as imagens pela visão. Na relação da comunicação corporal entre cegos e videntes, muitas vezes, estes estranham por não estarem habituados em dialogar considerando as diferenças existentes entre todos os seres humanos, então se assustam demasiadamente quando se deparam com cegos, com surdos, com paraplégicos, por exemplo.

Veiga (1983), cego congênito, revela em algumas passagens do seu livro, que a falta da visão vai fazer com que o cego tenha sua própria plasticidade de movimentos quando estes se associam à linguagem, e esta é e se mostra diferente dos demais seres humanos que enxergam. Isso não deixa de ser natural e comum para quem existencializa a situação. O autor, numa das passagens no livro, torna explícito alguns fenômenos que não se explicam ordenadamente, muitas vezes, causando espanto e indignação:

De mim, praticamente cego de berço, dou conta de que, já homem feito, espantei, de tal modo, uma mocinha com certo trejeito que dei ao riso, que ela, embora íntima mas desavisada, exclamou: “Você parece uma caveira quando ri!” Claro que eu não estava querendo “parecer caveira”, como nunca na vida tenho desejado parecer exatamente o que aparento nos gestos, nas atitudes e nas expressões fisionômicas. (p.10)

Esse fato revela o quanto as diferenças não são respeitadas entre os seres humanos e o quanto a padronização e a imitação dos gestos e posturas continuam em evidência. Ou ainda, como diz Baitello Jr. (2002), são as incapacidades, as lacunas, os boicotes existentes na comunicação entre os seres humanos, denominados de incomunicação. Esta tem conquistado espaços a cada dia, (...)”provocando inúmeros estragos, desfazendo e desmontando, distorcendo e deformando, semeando discórdia e gerando falsas expectativas, invertendo sinais e valores, azedando as relações e produzindo estranhamentos incômodos” (s.p.).

A linguagem só existe porque os seres humanos interagem, formando assim os sistemas sociais, que existem também como unidades para seus componentes. Os sistemas sociais humanos apresentam sua identidade própria a partir da conservação e da adaptação dos domínios lingüísticos. Dessa forma, o ser humano poderá conservar o seu comportamento, ou seja, a sua plasticidade operacional. Nota-se uma circularidade entre os sistemas sociais e os lingüísticos, pois o operar do sistema social humano acontece a partir da geração e ampliação das propriedades dos domínios da linguagem, que por sua vez é condição para a sua existência, ampliando a criatividade individual dos seus componentes (Maturana e Varela, 1995).

Ao transportar essas idéias à passagem anteriormente citada por Veiga, penso que os seres humanos necessitam dar mais atenção às suas particularidades e individualidades, como sendo uma das unidades dos sistemas sociais e históricos. Dessa forma, irão aceitar, respeitar e relevar as diferenças e identidade própria existentes entre todos os seres humanos, de modo individual e coletivo.

Deparo-me com uma assertiva de Maturana e Varela (1995) sobre o fenômeno social humano. Deixa claro a relação complexa existente com o ser humano nas perspectivas biológica e social:

A coerência e harmonia nas relações e interações entre os integrantes de um sistema social humano se devem à coerência e harmonia de seu crescimento dentro dele, numa contínua aprendizagem social que seu próprio operar social (lingüístico) define, e que é possível graças aos processos genéticos e ontogenéticos que lhes permitem sua plasticidade estrutural. (p.224)

Observa-se que o fenômeno social humano é um processo que vem acontecendo, há milhões de anos, com a hominização, em que surgem novas espécies, decorrendo o desaparecimento das precedentes e aparecendo a linguagem e a cultura, como facilitadores do processo de complexificação social. Desencadeia aí a linguagem humana, propiciando a constituição da cultura, que está intimamente inter-relacionada com a natureza neurocerebral da sociedade.

Pode-se dizer que a cultura é um sistema das comunicações interhumanas, cujas informações são consideradas pelos saberes, pelo saber-fazer, pelas normas, pelas prescrições, pelos interditos. (...) “é uma memória, transmitida de geração em geração, em que se encontram conservadas e reprodutíveis todas as aquisições (linguagem, técnicas, regras de organização social) que mantém a complexidade e as originalidade da sociedade humana.’’ (Morin, 2001, a; 1998, p.93)

Vejo a cultura como um agente de grande influência no processo de desenvolvimento da descoberta e incorporação do ser-no-mundo.

As condutas culturais, para Maturana e Varela (1995), permitem manter a invariância da história do grupo, indo de ser humano para ser humano, por meio da dinâmica da comunicação, decorrendo daí a imitação e a seleção contínua dos comportamentos intragrupais que são adquiridos ontogenicamente nos meios sociais.

Um avanço significativo pela neurobiologia é demonstrado por Damásio (1998), ao colocar em evidência as recentes preocupações dessa ciência em não reduzir os fenômenos sociais aos biológicos. Salienta que apesar da cultura e da civilização serem frutos do comportamento de seres humanos biológicos, esse comportamento surge em grupos de seres humanos que mantêm relações de interação com o meio ambiente. Portanto, o surgimento da cultura e da civilização deve-se não só aos mecanismos biológicos do ser humano, mas também às suas relações sociais.

Complementando a idéia, o mesmo autor declara que as sociedades humanas estão presas às convenções sociais e regras éticas em volta e além das estabelecidas pela biologia. Essas formas de controle externo moldam o comportamento instintivo do ser humano, de modo a possibilitar sua autoorganização no meio ambiente, com flexibilidade e assim, garantir a sua sobrevivência. Embora essas convenções e regras sejam transmitidas pela socialização e educação, de geração em geração, suspeita-se que as representações neurais da sabedoria, incorporadas pelo ser humano, e dos meios utilizados para a utilização da mesma, encontram-se ligadas às estruturas neurais dos processos biológicos inatos de regulação.

Morin (2001, a) sobre esse assunto, assevera:

O homem somente se realiza plenamente como ser humano pela cultura e na cultura. Não há cultura sem cérebro humano (aparelho biológico dotado de competência para agir, perceber, saber, aprender), mas não há mente, isto é, capacidade de consciência e pensamento, sem cultura. (p.52)

A complexidade do ser humano se revela na sua condição de ser, ao mesmo tempo, biológico e cultural. As estruturas cerebrais, os órgãos do sentido, como a visão, a audição, o tato são totalmente biológicos e, simultaneamente culturais, pois possibilitam o corpo se movimentar na sua mais misteriosa e singular forma de ser e de viver, como comenta Morin (2001). Ele alerta que se deve pensar na palavra cultura, em seu sentido antropológico, ou seja, os conhecimentos, os valores, os símbolos que orientam os seres humanos no seu modo de viver é a cultura.

O mesmo autor na obra Sociologia (1998) mostra que a cultura pode ser definida como (...) “uma esfera organizacional/informacional que garante e mantém a complexidade humana – individual e social – (...); contém tudo o que não é inato geneticamente, tudo o que não é organizado espontaneamente” (p.106). A cultura não está inscrita nos genes, mas aparece inscrita nos cérebros, e como um aparato propriamente sociológico, desempenha um papel essencial na auto-organização, na auto-reorganização, na auto-produção da complexidade social própria dos seres humanos. Permitindo e possibilitando a identidade singular de uma sociedade, ou seja, o seu modo próprio de viver, os seus usos, os seus costumes, as suas técnicas. Portanto, deve-se (...)”considerar a cultura como um sistema que faz comunicar – dialetizando – uma experiência existencial e um saber constituído” (p. 127).

Não existe uma sociedade humana sem cultura, e cada uma delas é singular na sua unidade, mas apresenta também diversidade das culturas. As culturas são, por aparência, fechadas devido sua identidade singular, mas são, simultaneamente, abertas por integrarem nelas saberes, técnicas, idéias, costumes, alimentos e indivíduos vindos de fora (Morin, 2001, a). Infere-se daí que a invariância, apontada por Maturana e Varela anteriormente, comporta a variância em sua estrutura histórica.

Dawsey (2001) faz alusão as diferentes culturas mostrando que estas, além de percorrerem caminhos diferentes de desenvolvimento, estão sujeitas a interrupções, mudanças repentinas e surpreendentes transtornos.

A cultura é considerada embrionária de todas as possíveis expressões advindas de uma sociedade ou de um grupo de pessoas, que ao revelarem o modo próprio de ser e de viver, colocam-se à mostra e à aceitação as diferenças e as diferenciações, intrínsecas e extrínsecas, na e pela transmissão das variadas culturas.

Estabelecendo um paralelo com essa idéia, me deparo com o cego, que devido a uma alteração biológica constituída no seu modo carnal de ser, o seu modo de viver é peculiar e próprio, surgindo aí uma cultura distinta da dos videntes, o que vem enriquecer o processo cultural de ambos os grupos, que, ao final, são modos invariantes de uma mesma cultura.

Esse panorama cultural conduz o meu pensamento às artes. Cinema, música, pintura, dança, teatro, são algumas das manifestações culturais e artísticas presentes no meu mundo vida, as quais saboreio por transmitirem-me prazer. Prazer pelas inúmeras e diversas possibilidades de interpretação que se dá pela separação e ligação, pela explicação e compreensão, pela análise e síntese do todo para as partes e das partes para o todo, desencadeando assim muitas incertezas que vêm desestabilizar a ordem dos meus pensamentos.

A relação do ser humano com o mundo das artes possibilita revelar o perceber a universalidade da condição humana, pois permite visualizar sua relação com o outro, com a sociedade, consigo mesmo, ou seja, com o mundo.

Leva este ser à comunicação com o mistério que está além do dizível, por transcender a dimensão poética da existência humana, ensinando o ser humano ver o mundo esteticamente (Morin, 2001).

Ao ler o título: “Evgen Bavcar: o fotógrafo cego” (reportagem da capa na Revista Benjamin Constant, 2001), fico curiosa e penso na mesma hora como pode isso? Discorrendo meus olhos pelas palavras grafadas vou sentindo a cada escrito pelo fotógrafo, filósofo e teórico da Arte, que o ser humano é um ser dotado de complexidade, impossível de ser imaginada, mas possível de ser vivida.

Como entender um fenômeno como este? A partir das descrições pode-se compreendê-lo; o que acontece é o trinômio ordem/desordem/organização apresentado na teoria da complexidade por Morin (2000). Sendo cego, Bavcar já é considerado um ser humano que foge as regras, aos padrões, ao comum, tirar fotografias então... provoca sim desequilíbrio, desestrutura, instabilidades e desentendimentos se for levado em consideração apenas a ordem lógica e racional dos fatos.

Para mim, vidente e vivente numa sociedade em que a racionalidade e a lógica das situações ainda prevalecem, este fenômeno de um cego tirar fotografias foi a forma que Bavcar encontrou na sua presentidade, para autoorganizar a sua existência, que se dá na escuridão e ao mesmo tempo na luz.

Como ele mesmo destaca: “Não podemos conceber uma arqueologia da luz sem considerar a escuridão, e sem elucidar o fato de que a imagem não é apenas alguma coisa da ordem do visual, mas pressupõe, igualmente, a imagem de obscuridade ou das trevas” (Bavcar, 2001, p. 21).

Perceber e relacionar-se com o meio ambiente não se resume apenas aos sinais diretos que o cérebro recebe de determinados estímulos. O organismo modifica-se ativamente pelo fato do corpo não ser passivo e estar sempre à busca da manutenção de um estado de equilíbrio funcional para propiciar e garantir todas as interações necessárias à sobrevivência.

Completando essa sua idéia, Damásio (1998) diz:

Mas, para evitar o perigo e procurar de forma eficiente alimento, sexo e abrigo, é necessário sentir o meio ambiente (cheirar, saborear, tocar, ouvir, ver) para que possam formular respostas ao que foi sentido. A percepção é tanto atuar sobre o meio ambiente como dele receber sinais (p.256).

Essa citação me reporta à história, contada por Sacks (1995), de um cego que aos 45 anos de idade volta a enxergar. Após adquirir a visão novamente, ele passa a se sentir totalmente perdido, inseguro, desentendido do mundo que até aquele momento ele existencializara com o corpo todo sem a visão. Situações adversas de desconfiança, medo, insatisfação, confusão e perturbação mental são descritas na história. Essa situação é decorrente do fato dele ver com os olhos, mas não saber e não compreender o que estava vendo, pois a apreensão do mundo por este ser humano, durante toda a sua vida, não se deu pela visão mas por todo o corpo.

O relato dessa história revela para mim que o ser humano vivendo sua essência e sua existência na relação com o mundo, percebe e atua, mediante o que o corpo vivencia e sente. Ao propor e executar uma mudança corpórea para um ser humano, como o caso desse cego que volta a enxergar, corre-se o risco de desorganizar e desordenar todo um sistema que, apesar de ser considerado pelos videntes como tal, demonstra-se ordenado/desordenado/organizado na sua existência e essencialidade.

Como diz Bavcar (2001),

Não sou fotógrafo, mas iconógrafo, porque a imagem captada pela máquina fotográfica, é sempre antecipada na minha cabeça, e assim constitui um ato mental. Deficiente da imagem visual, física, tento exprimir, através da máquina fotográfica, as aparições que se formam dentro de mim e que, enquanto tais se tornam um pouco as imagens da transcendência invisível. (...) não  sou fotógrafo, “mas qualquer coisa que fotografa”, porque minha deficiência não me permite o olhar físico distanciado, mas apenas o toque, a que chamo de olhar aproximado. (p.9)

 

Em se tratando da dinâmica da vida do ser humano, ela perpassa pelos diversos cruzamentos possíveis entre os domínios biológico, cognitivo, lingüístico, social e cultural que, ao se entrelaçarem, formam uma rede de imagens possíveis e intermitentes, como num caleidoscópio, dobrando e desdobrando o viver de cada e do todo humano.

Com o aumento gradativo, significativo, rico e diversificado das relações entre os seres humanos, o desenvolvimento da linguagem, da cultura, da arte e do pensamento desponta também. Ao mesmo tempo, vai se desenvolvendo a capacidade do ser humano de pensar abstratamente, tornando o mundo interior cada vez mais complexo, mais fragmentado e menos humano por perder o contato com a natureza e exacerbar-se no contato com os objetos inanimados (Capra, 2001).

Em meio à complexidade e à diversidade do ser humano, o ver e o não ver, o visível e o invisível, o visto e o não visto denotam a consonância com as possibilidades que as mesmas, complexidade e diversidade, dispõem a serem vistas... Dentro dessa complexidade corpórea e intercorpórea, habitando os planaltos do que é instigante, hospeda-se nos pântanos das impressões e passeando pelas praias da perplexidade..., a carne, o desejo e os signos constituem o corpo conforme as estações da história. ... cada corpo existe como corpo graças às dádivas, dívidas e dúvidas que dividem seu dia-a-dia com senhas e sonhos intransferíveis, irrepetíveis, intraduzíveis.” (José Lima Júnior, 2001, p.79 e 80)

FIM

 


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MOMENTO III | COMPLEXIDADE À VISTA: VER E NÃO VER
in A CORPOREIDADE DO CEGO: NOVOS OLHARES
ELINE TEREZA ROZANTE PORTO
Tese de Doutorado, defendida por Eline Tereza Rozante Porto
UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS
FACULDADE DE EDUCAÇÃO FÍSICA
PROGRAMA DE PÓS GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO FÍSICA
UNICAMP Campinas - 2002
texto integral da tese aqui.

 

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27.Nov.2019
Maria José Alegre