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 SOBRE A DEFICIÊNCIA VISUAL

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Sobre Formação de Professores no Uso das Tecnologias Educacionais Específicas

Angela Antelo Tesch

Sobre Formação de Professores no Uso das Tecnologias Educacionais Específicas

 

  1. O Professor como Agente Essencial no Processo de Inclusão
  2. A Formação voltada para o Aluno com Necessidades Educativas Especiais
  3. A Formação em Tecnologias Específicas ao Aluno Cego ou com Baixa Visão
  4. Barreiras na Formação dos Professores

 

1. O Professor como Agente Essencial no Processo de Inclusão

O aluno com deficiência visual existe em todos os níveis de ensino e está inserido nas classes regulares. Esta deficiência traz limitações importantes de acesso ao conhecimento, assim o uso de recursos tecnológicos e ferramentas específicas garantem a equiparação de oportunidades ao processo de ensino-aprendizagem frente aos alunos videntes.

Para que estas oportunidades de acesso e conhecimento sejam garantidas, é necessário que os professores estejam preparados para o uso desses recursos diferenciados em sala de aula. Desta forma, o ambiente educacional se torna inclusivo de fato, com professores preparados e seguros de suas ações pedagógicas com alunos satisfeitos portando as ferramentas necessárias para o melhor desenvolvimento acadêmico.

Portanto, neste capítulo será discutida a formação dos professores para o trabalho voltado para os alunos com necessidades educativas especiais e na área da tecnologia específica para o aluno cego ou com baixa visão, possibilitando uma maior reflexão sobre a prática com o objetivo de difundir a importância desta formação para os profissionais da área de educação.


2. A Formação voltada para o Aluno com Necessidades Educativas Especiais

No Brasil, a discussão sobre a inclusão teve início durante a década de 1990. A partir daí, começaram os debates relacionados à política de inclusão na escola regular e consequentemente a formação do professor, agente fundamental no processo de inclusão.

A Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva criada pelo Ministério da Educação se refere a inclusão como “uma ação política, cultural, social e pedagógica, desencadeada em defesa do direito de todos os alunos de estarem juntos, aprendendo e participando, sem nenhum tipo de discriminação”. (BRASIL, 2008, p. 1).

Muito se tem discutido em relação à formação do professor. Este profissional é o elemento-chave no processo de inclusão e deve ter sua formação focada no assunto. O conhecimento adquirido precisa estar de acordo com a realidade vivida para fazer sentido. A preparação do professor necessita ser coerente para que o conhecimento teórico seja de fato aproveitado na prática, para que o processo de inclusão seja efetivo para o aluno em termos de aprendizagem.

A inclusão, agora tão comentada na escola, dá oportunidade de educação a todos. Propõe uma nova perspectiva à escola e faz com que os profissionais da área de educação assumam a função de gestores da educação (Candau, 1997), sendo fundamental a formação desse profissional de maneira mais pontual, centrada e específica.

Em relação à inclusão e a educação especial, foram implementadas políticas de formação de professores para o atendimento deste público em especial. Assim, a Resolução CNE n.02/2001 apresenta dois tipos de professores para trabalhar com as necessidades educativas especiais: os capacitados e os especializados (Brasil, 2001). Neste mesmo documento é definido as competências de cada um desses profissionais.

Os professores capacitados são aqueles que trabalham em salas de aula regular com o aluno com necessidades educacionais especiais e que comprovadamente tiveram a formação específica em educação especial no nível médio ou superior. As competências esperadas do professor capacitado segundo a Resolução CNE n.02/2001 (Brasil, 2001, p. 5) são:

“perceber as necessidades educacionais especiais dos alunos e valorizar a educação inclusiva; flexibilizar a ação pedagógica nas diferentes áreas de conhecimento de modo adequado às necessidades especiais de aprendizagem; avaliar continuamente a eficácia do processo educativo para o atendimento de necessidades educacionais especiais e atuar em equipe, inclusive com professores especializados em educação especial.”

Como a formação dos professores capacitados pode ser realizada tanto a nível médio como superior, a qualificação destes pode ser feita através de disciplinas específicas que contemplem as necessidades educativas especiais, preparando este profissional para exercer as competências a ele destinadas junto ao aluno com deficiência.

Os professores especializados planejam e organizam as dinâmicas pedagógicas que serão desenvolvidas pelos professores capacitados que atuam junto aos alunos com necessidades educativas especiais. A formação dos professores especializados deve ser em nível superior ou em especialização segundo a LDBEN (Brasil, 1996).

São considerados professores especializados aqueles que identificam as necessidades educacionais especiais, definem e implementam estratégias pedagógicas relacionadas a flexibilização e adaptação curricular, a criação de alternativas para o atendimento dessas especificidades e apoio ou orientação ao professor capacitado que atua nas classes regulares inclusivas.

Para atuar como professor especializado em educação especial, o profissional deve segundo a CNE 02/2001 (Brasil, 2001, p. 5), ter “formação em cursos de licenciatura em educação especial ou em uma de suas áreas, preferencialmente de modo concomitante e associado à licenciatura para a educação infantil ou para os anos iniciais do ensino fundamental; complementação de estudos ou pós-graduação em áreas específicas da educação especial, posterior à licenciatura nas diferentes áreas de conhecimento”.

Esta mesma resolução ressalta que a formação do professor poderá ser feita de forma continuada quando estes profissionais já se encontram atuando, e que esta é de responsabilidade dos municípios não tendo o número de horas pré-estabelecido.

De acordo com Garcia (2004), a resolução CNE 02/2001 define o trabalho que deve acontecer nas escolas. Com a política de inclusão, os professores especializados devem estar dentro das escolas orientando o que deve ser aplicado ao aluno com deficiência ou necessidade educativa especial pelo professor capacitado.

O Ministério da Educação desenvolve a formação de professores para a educação inclusiva junto aos municípios. A idéia é formar multiplicadores que desenvolvam ações com o objetivo de modificar o sistema educacional no país, tornando-os, de fato, inclusivos. Correia (2004) destaca que a política de inclusão não se trata apenas de inserir indivíduos com deficiência na rede regular, ela se constitui como uma “ideologia” a partir do recebimento de todos os alunos e suas individualidades no ambiente educacional.

Para Lück (2014), deve-se reforçar a necessidade que alguns alunos têm à atenção diferenciada e a responsabilidade do professor com sua formação e sua competência na forma com que cada aluno aprende, pois os recursos diversificados existentes para uso em sala de aula são apenas instrumentos que podem melhorar a dinâmica de ensino, mas essa potencialidade está intimamente ligada a forma como esta é utilizada na aprendizagem do aluno. A formação dos professores está focada para o ensino de indivíduos uniformes, mas a escola que queremos é aquela preparada para as diferenças, as individualidades dentro de um mesmo grupo.

Pesquisas referentes à educação vêm sendo desenvolvidas frequentemente. Uma delas, relacionada à qualidade da educação nos países da América Latina de Carnoy (2009), apresentou as características das práticas pedagógicas que promovem êxito na aprendizagem dos alunos. Essas práticas de sucesso são bem planejadas, ativas mantendo a atenção dos alunos, orientadas e passíveis de possíveis ajustes, com bom gerenciamento de tempo e inclusivas.

Já no Congresso Internacional Icsei 2013 (ICSEI, 2013) foi afirmado que, dentre outras condições, o fato dos professores serem mais seguros e confiantes promove maior respeito por parte dos alunos. Para que o profissional esteja seguro diante das situações diversas que a rotina escolar apresenta, é necessária formação específica e continuada.

Importante que a formação dos professores que pretendem trabalhar com alunos com deficiência se dediquem às potencialidades destes alunos. Isto garante a transformação do papel da escola e do professor envolvido neste tipo de relação de ensino-aprendizagem, seja ele professor capacitado ou especializado.


3. A Formação em Tecnologias Específicas ao Aluno Cego ou com Baixa Visão

Houve um tempo em que os deficientes visuais só podiam contar com o Sistema Braille para o acesso a leitura e escrita. Este sistema ainda é utilizado e considerado de fundamental importância para os alunos cegos assim como os materiais ampliados e com alteração de contraste e cor são importantes para quem tem baixa visão. No entanto, a escola não pode mais se defender das inovações disponíveis e necessita estar aberta para um mundo de máquinas e recursos que vão muito além dos livros didáticos. A escola precisa ser de emancipação, precisa ser uma escola de qualidade para todos e a tecnologia é um bom meio de se chegar a esse objetivo.

Como afirma Kearsley (1996, p.4), “se queremos ver a tecnologia ter mais impacto nas escolas e nas organizações de treinamento, precisamos ter como nossa principal prioridade a preparação de bons professores.”

Um dos problemas enfrentados pelos professores é que eles recebem atualmente a mesma formação de décadas atrás, sendo pouco ou nada preparados para o uso das tecnologias educacionais. Esta discussão é antiga, mas mantém-se atual no sentido do problema não ter sido sanado mesmo nos dias atuais.

“O professor, na maioria das vezes, é preparado para o ensino de ontem e não para o de amanhã, e se por acaso for preparado para o ensino de amanhã, logo se verá impedido de utilizar o seu preparo ao deparar-se com a realidade de seu primeiro emprego. A partir de então seu crescimento profissional é, na melhor das hipóteses, problemático. (...) É claro que os sistemas não se modernizarão sem que todo o modo de formação de professores passe por uma completa revisão, dinamizado pela pesquisa pedagógica, torne-se intelectualmente mais rico e estimulante, e vá além da formação pré-serviço, para tornar-se uma contínua renovação profissional para todos os professores.” Coombs (1976, p.238).

É necessário que se forme o professor da maneira que desejamos que seja sua atuação. Preparar estes profissionais através de recursos convencionais para o trabalho com novas tecnologias não parece funcionar bem. Adequar realidade e formação são um desafio que precisa ser discutido, avaliado e proposto a fim de garantir o trabalho mais seguro e adequado por parte do professor e um aprendizado mais efetivo pelo aluno.

Dessa forma, a formação do professor deve ser prático e instrumental para que ele seja capaz de melhor lidar com as tecnologias e com alunos que historicamente foram excluídos do ambiente escolar. A formação do professor no uso das tecnologias educacionais específicas para o aluno deficiente visual é necessária e urgente. O professor é o agente fundamental no processo de inclusão, é o gestor da educação e sua formação, segundo propõe o governo brasileiro, deve ser utilitarista e baseada na prática. (Michels, 2006) A formação do professor para a educação especial é o elemento essencial para a mudança da escola que se deseja inclusiva.

“Cabe à escola não só assegurar a democratização do acesso aos meios técnicos de comunicação os mais sofisticados, mas ir além e estimular, dar condições, preparar as novas gerações para a apropriação ativa e crítica dessas novas tecnologias. É função da educação formar cidadãos livres e autônomos, sujeitos do processo educacional: professores e estudantes identificados com seu novo papel de pesquisadores, num mundo cada vez mais informacional e informatizado”. Belloni (1995, p.143)

O uso das tecnologias educacionais exige formação específica para que o professor seja capaz de criar estratégias de uso e avaliar o trabalho realizado simultaneamente, transformando o ambiente educacional em um espaço mais dinâmico e prazeroso para todos os alunos independente de suas necessidades individuais. Assim, a escola será aquela que desejamos, onde o professor tem uma formação inicial e continuada e os alunos sejam preparados para se tornar cidadãos autônomos frente ao conhecimento proposto e os recursos disponíveis. Não existe como o professor resolver situações complexas sem uma formação adequada, no entanto o saber utilizar os recursos tecnológicos educacionais o faz desempenhar sua função de maneira mais criativa e interessante.

Existem pesquisas que colocam a tecnologia como elemento chave de uma nova pedagogia. (Pretto, 1996). Sua inserção na sala de aula deve ser crítica e reflexiva, utilizada como um meio facilitador que exige preparo do professor em sua técnica de ensino e planejamento.

Para Borges (2002), professor do Núcleo de Computação Eletrônica da UFRJ responsável pela criação do Sistema DosVox, deve-se promover treinamentos e produzir publicações na área da tecnologia específica para o deficiente visual para que este assunto seja amplamente divulgado e de conhecimento do abrangente. Ele ressalta que a tecnologia existe e é de simples aplicação, sendo necessário o domínio de uso por parte dos envolvidos na utilização dos recursos, viabilizando melhor aproveitamento das ferramentas disponíveis. Os deficientes visuais necessitam de uma educação adaptada à sua realidade e o uso das tecnologias pode diminuir as barreiras existentes durante este processo.

A formação específica do professor para o trabalho com tecnologias educacionais é importante para os alunos deficientes visuais e sua relação com os profissionais regentes. Segundo (Borges, 2002) a execução e avaliação das atividades propostas podem ser realizadas de maneira muito similar para os alunos cegos e videntes com o auxílio do computador.

Quando não existe formação, uma parcela do potencial de uso do computador se perde. Muitos recursos não são utilizados e o acesso pleno a ferramenta pode ser minimizado levando o aluno ao uso incorreto ou fragmentado dos programas disponíveis.

Barreto (2004) afirma que o trabalho docente vem sendo “reconfigurado” a medida que as tecnologias se tornam presentes no dia-a-dia escolar, sendo este fato motivo de discurso freqüente na área pedagógica.

Para Santarosa (2007), As tecnologias podem ser as mediadoras que facultam o desenvolvimento humano. Neste sentido, o uso das tecnologias em sala de aula tem um papel significativo, mas para que este recurso seja de fato uma ferramenta facilitadora do aprendizado e da comunicação na escola, os alunos precisam saber utilizá-lo com autonomia e os professores estarem aptos a desenvolver seu trabalho com o recurso específico, do contrário, o computador será apenas uma máquina sem grande utilidade. A formação específica é o que dá oportunidade ao aluno e ao professor de aproveitar ao máximo os mecanismos existentes com autonomia e a garantir a igualdade nas situações de aprendizagem na escola, evitando circunstâncias onde o deficiente visual para ter acesso a qualquer conteúdo dependia de uma pessoa, geralmente um voluntário ou parente, para a realização de leituras diversas.

Para o deficiente visual, o uso da tecnologia a partir de recursos sonoros é a base para o contato com o mundo virtual e todas as alternativas e oportunidades de conhecimento que ele pode oferecer. No entanto, pelo menos a principio, esses alunos precisam de profissionais capacitados para ensinar o manuseio das ferramentas disponíveis. É o professor que irá apresentar e favorecer o uso da tecnologia por esses alunos. É na escola, principalmente no atendimento educacional especializado, que esses alunos se tornarão autônomos frente ao recurso tecnológico. É a partir dos ensinamentos de um professor com formação em tecnologia específica para o deficiente visual que os alunos cegos ou com baixa visão terão a chance de usufruir do computador, do mundo virtual e de todas as possibilidades que este cenário oferece.

Pesquisa recentemente apresentada a cerca dos desafios da formação de professores para o uso das tecnologias assistivas com a deficiência visual (Pretti et al, 2014), afirma que uma das maiores dificuldades com alunos deficientes visuais na sala regular é a falta de formação dos professores. Nos resultados da pesquisa, foram relatadas que a resistência ao uso das tecnologias tem íntima relação com o entendimento referente à deficiência e as mudanças nas práticas pedagógicas comumente utilizadas. Essa resistência, segundo a pesquisa, se dá pela falta de conhecimento no assunto, pelo não entendimento das questões tanto tecnológicas como da própria deficiência, pelo não saber como proceder a frente a situações tão específicas.

O acesso à aprendizagem pelos alunos com deficiência visual, segundo Santos (2007), é limitado. Para que esta aprendizagem seja realizada de forma efetiva, com diminuição das barreiras impostas pela deficiência, é necessário planejamento e uso de recursos alternativos.

A formação do professor deve se apropriar dos novos saberes e técnicas, e estas devem ser inseridas nas instituições de ensino de modo a equiparar as oportunidades para todos os que estão inseridos no processo de ensino-aprendizagem. É a partir do conhecimento, do domínio das novas tecnologias, que a educação desses alunos se tornará mais autônoma. O desafio é ter profissionais capacitados para o trabalho qualificado com os alunos deficientes visuais.


4. Barreiras na Formação dos Professores

Para Guevara e Rosini (2008), a formação do professor para a utilização dos computadores, quando realizada de forma adequada, auxilia na melhor prática educativa, provendo não somente informação, mas conhecimento. Mas, segundo Campelo (2010), as instituições de ensino que formam professores, em sua maioria, mostra maior interesse e preocupação em manter a questão técnica e deixam o a parte pedagógica em segundo plano.

O modelo de ensino conservador também reflete na formação do professor atual frente às novas tecnologias. Torna-se necessário que este profissional reconheça os atuais recursos como um facilitador no processo de ensino-aprendizagem, sabendo que se utilizada com adequação, favorece e contextualiza o conteúdo auxiliando para todos. Neste panorama, torna-se necessária mudança de paradigma educacional, onde o professor se atualize e reconheça a tecnologia como um recurso disponível a seu favor. Moura e Santos (2012).

Propostas já existentes na formação de professores em tecnologia para o aluno deficiente visual foram discutidas anteriormente nas ações promovidas pelo Ministério da Educação (MEC), mas estas ainda não atendem a todos, sendo ainda o início de trabalho que deve ser ampliado.

FIM


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excerto de
FORMAÇÃO DE PROFESSORES: TECNOLOGIA EDUCACIONAL PARA O ALUNO DEFICIENTE VISUAL
Angela de Oliveira Antelo Tesch
MESTRADO EM EDUCAÇÃO
Área de Especialidade Educação e Tecnologias Digitais
Dissertação Orientada pelo Professor Doutor Fernando Antônio Albuquerque Costa
INSTITUTO DA EDUCAÇÃO
UNIVERSIDADE DE LISBOA
2015

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28.Jun.2020
Maria José Alegre