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 Sobre a Deficiência Visual

Os Sentidos Que Substituem a Visão

José Espínola Veiga
 

A alegria na cegueira - Francis Picabia, 1947
A alegria na cegueira - Francis Picabia, 1947

 

O TACTO, todos sabem, é o sentido de que mais se servem os cegos. Falando a Helena Keller, Mark Twain disse-lhe que o tacto é o único sentido em que os homens são superiores aos outros animais.

Pode-se também aduzir que as informações tácteis são usadas por todo o mundo. De algum modo, toda gente busca no tacto a confirmação definitiva do que os outros sentidos informam. Todos são como São Tomé: querem tocar as coisas para melhor senti-las ou para reforçar as convicções chegadas pelos outros sentidos. Embora tendo na visão o sentido dominante, o homem procura sempre levar as mãos até onde elas podem chegar, mesmo não sendo cego.

Daí é fácil entender por que razão os cegos têm no tacto o sentido dominante.

 


   O TACTO:
  Sentido analítico
  Não fixa as sensações
  A prova do ventilador
  Só entende as três dimensões
  O erro do uso das perspectivas
  Exigências do tacto
  Nuances da comunicação pelo tacto
  O aperto de mão
  A caneta da minha professora
  A compreensão do belo
  A rugosidade e a maciez
  Minha experiência no Louvre
  O sexo pelo tacto

  O OUVIDO:
  Acuidade auditiva
  Percepção onidirecional
  Percepção permanente
  Particularidades auditivas notadas entre cegos
  A voz humana: timbre, intensidade, musicalidade, limpeza, sensualidade, espelho do comportamento mental

  O OLFACTO:
  Reconhecimento do ambiente
  Caracterização de pessoas
  Sensação de beleza no ambiente.  

 

Mas, pela mesma predominância do sentido da visão, as pessoas não compreendem muito bem o verdadeiro partido que os cegos podem tirar do tacto. Para começar, o tacto não dá a compreensão global e sintética, isso que se chama "a visualização que se obtém através da vista". O tacto compõe a imagem analiticamente, pedacinho por pedacinho, peça por peça, só se satisfazendo com as três dimensões do objecto inspeccionado.

Ele não tem, como a visão, a possibilidade de reter a sensação por uma pequeníssima fracção de tempo depois de cessado. Quem olha de frente as pás de um ventilador em movimento, vê o que aparenta ser um disco inteiriço. Com o tacto, não: quem dele se vale, se aflorar um ventilador em movimento, nunca sentirá um disco inteiro, mas sim a sucessão das hélices trepidando sob os dedos.

Por igual, a visão se contenta com as perspectivas, os desenhos, os traçados de duas dimensões para ganhar ideia do conjunto. O tacto, nunca. Não adianta recortar em papel um animal para que o cego o sinta, porque ele não terá a ideia desse animal. Só as miniaturas com as três dimensões, com a rugosidade ou a maciez inerentes à coisa miniaturizada, interessa, realmente, à inspecção táctil do cego. Que atentem bem nisto pais e professores encarregados de levar aos cegos o conhecimento das coisas deste mundo.

O tacto, talvez mais que a visão, exige a realidade das coisas para sua melhor satisfação. Ouço falar, por exemplo, de flores artificiais que se não distinguem das naturais quando vistas com os olhos. Nunca peguei flores, busco a maciez e a humidade das pétalas, a temperatura e o perfume que não encontro nas artificiais.

Nos animais, quero também a temperatura, a rugosidade, os pêlos ou as penas, as vibrações dos movimentos. Por isso é que, ao considerar os trabalhos do jardim da infância, recomenda-se levar sempre as mãos das crianças cegas às coisas naturais, antes de Ihes trazer as miniaturas, mesmo a três dimensões.

Como se vê, calor, frescura, vibração, rugosidade, maciez, aspereza, consistência, tudo são dados buscados pelo tacto. Vamos aqui à conhecida anedota da opinião dos três cegos que apalparam partes diferentes de um elefante que passou por eles: diz a anedota infeliz que o cego que apalpou as orelhas do elefante disse que o bicho era como uma ventarola; o que apalpou a pata, disse que o bicho era como uma árvore; e o que apalpou as ilhargas disse que o bicho era como uma parede. Não conheço nada mais expressivo dos erros das possibilidades do tacto de quem não vê. A aspereza das orelhas do elefante nunca levaria qualquer cego a confundi-las com uma ventarola, assim como a consistência e a rugosidade da pata e das ilhargas não dariam ao cego a ideia de árvore e de parede.

Habituado a servir-se dele constantemente, o cego tira do ato as informações mais subtis. No mais leve tocar da mão em quem está junto dele, pode determinar se é homem, mulher ou criança. Mesmo através dos sapatos, o tacto dos pés lhe indica a natureza do terreno em que ele se desloca. A lufada de vento no rosto de algum modo o informa das condições do tempo. Que dizer então do aperto de mão?

A mão, não sei que filósofo disse, é "o instrumento da alma, por excelência". Assim, o aperto de mão, que é muito para toda a gente, é tudo para o cego. Ele transmite o estado de alma, a disposição psicológica e até as intenções do indivíduo para com o cego.

Não posso furtar-me de trazer o que me deixou em criança uma professora que me deu a apertar a mão onde mantinha segura uma caneta. São provas das fixações que o tacto deixa na formação da pessoa cega.

Mas vamos desfazer mais uma confusão que aí circula sobre o tacto. O tacto não compreende o belo no mesmo sentido em que o sente a visão. O cego, melhor dizendo, aquele que nunca enxergou, não sente a beleza de um rosto feminino ou de qualquer forma através da palpação. Para aquele que nunca viu, não existe a beleza da forma no sentido em que a compreende a visão. Pode parecer penoso e triste, mas é assim. Nada da beleza, do encantamento, da sublimação interior que me vem de ouvir a música de Chopin ou de Wagner, nada nem de longe me chega pela palpação do rosto da mulher mais linda. Agrada-me, sim, a maciez da pele, como me agrada a maciez de um bom veludo. Darei conta de que o nariz é grande ou pequeno, os lábios grossos ou finos, o rosto redondo ou comprido, mas nada disso me deixará a noção de ...

Na minha primeira visita ao Louvre, quando a minha mulher me disse que estávamos diante da Vénus de Milo, parei, extasiado pela recordação de tudo que havia lido sobre essa estátua. Como estivesse muito alta para lhe chegar com as mãos, arranjei um guarda bondoso que me trouxe um caixote, onde subi para apalpá-la. Foi uma decepção: a rugosidade e a frieza da pedra, a poeira acumulada, em nada corresponderam à descrição daquela Vénus de que estava cheio o meu espírito.

Fique bem claro que me refiro aos cegos que nunca tiveram visão para acumular imagens do belo. Os que enxergaram até a idade de poderem apreciar o belo, guardaram imagens que podem ser despertadas pela simples palpação. Pode bem ser que seja um despertar subjectivo, mas não conheço verdadeiras investigações psicológicas a respeito. Sei, por exemplo, reproduzir aqui o testemunho do meu amigo, professor Fernando Magno: perdendo a visão aos quarenta anos, Hoje, numa reunião a cada um uma fisionomia ligada às vozes que vai ouvindo. Sinto-me também tentado a avançar a hipótese de que, assim como herdamos traços fisionómicos de nossos antepassados, podemos também, ao nascer, trazer deles resíduos de experiências visuais, que nos ficam servindo mesmo depois de cegos. Não acho outra explicação para tanto interesse que os cegos têm por coisas, factos e objectos puramente visuais. Um dia chegarão lá os doutores da psicologia, com proveito para toda a humanidade.

Mas voltemos ao tacto dos cegos, em outra de suas discutidas actividades ― o sexo. Sem compreender a beleza física, pode-se dizer, talvez esteja um tanto prejudicada a sexualidade entre os cegos. Mas não parece bem que assim seja. A libido nasce com todos e, de algum modo, desperta também no cego, de alguma maneira. A voz, primeiro, depois o calor, os leves contactos e as palpações mais intensas despertam nos cegos a mesma sensualidade das outras criaturas. Ncegos, Lowenfeld, entre outros, preconizam o conhecimento da diferenciação das formas femininas mesmo para crianças do jardim da infância. Os meninos e as meninas cegas das escolas mais evoluídas são logo levados ao conhecimento do rosto de homens e busto de mulheres através do tacto. Não há dúvida de que, se a criança comum faz esses conhecimentos normalmente através da visão, por que não levar a criança cega a fazê-lo através do tacto?

Resumindo, vê-se que o tacto é da maior importância na formação mental da pessoa cega. De seu constante adestramento, de seu permanente exercício, depende a maior parte da superação da privação da visão. Ele é o sentido que concretiza mais fundamente as experiências de vida do cego, evitando-lhe aquele verbalismo tão comum entre os cegos.

O verbalismo, associado à minha visita ao Louvre e às minhas considerações ousadas sobre hereditariedade psicológica, levam-me a umas considerações finais neste capítulo. Ficam um tanto fora de mas não quero perder o ensejo de fazê-las.

Na minha visita ao Louvre, não quis cansar minha mulher com a descrição permanente dos quadros dos salões de pintura. Deixei-a ir sozinha percorrer essas galerias, enquanto eu me fiquei servindo do cassete que explica em francês tudo o que se exibe. Para mim, foi uma delícia. Como? Não sei. Cego de tenra idade, nunca pude apreciar a arte da pintura. Mas gostei muito da descrição e do histórico dos quadros recitados no cassete.

Quando encontrei minha mulher, eu sabia muito mais da história dos quadros do que ela, que se não servira do cassete. Sabia mais, mas não tinha a sensação que ela trazia em si. Sabia, mas não sentia. Era o tal verbalismo de que tanto nos servimos nós, os cegos, de que tanto nos empanturram os nossos professores menos avisados.

Todas essas coisas precisam ser repensadas na educação dos cegos. Será mesmo inteiramente prejudicial esse verbalismo tão instalado na educação dos que não vêem? Ou será que esse verbalismo é, de algum modo, um vínculo que ajuda a manter as relações sociais de que tanto precisa o cego para a sua verdadeira sobrevivência.

Não temos pretensão de dar a palavra final: aqui, como quase sempre neste livro, nosso interesse principal é de suscitar cogitações, levantar ideias, despertar polémicas que melhor possam contribuir para o aperfeiçoamento dos métodos e processos de educação especial de que tanto há-de depender a futura felicidade dos cegos em todo o mundo.

"O cego tem bom ouvido". Aí está uma balela corrente que cumpre desfazer. O cego se serve mais do ouvido que qualquer outra pessoa: isto sim. Com isto, dá a impressão de ter melhor ouvido.

Mas a sua acuidade auditiva, cremos, não há de melhorar com a maior utilização do ouvido. Não raro, até as moléstias que suprimem a visão, afectam de algum modo a audição, por isto mesmo defeituosa em muitos cegos.

Todavia, não há que negar, depois do tacto, o ouvido é o sentido que mais concorre para a integração do cego neste mundo. único sentido funcionando em todas as direcções, sempre aberto a qualquer estímulo que venha do ambiente. Em determinadas circunstâncias é ele mais abrangente que a própria visão numa só direcção. Não raro, qualquer pessoa se serve dele, em certos casos, mais que da própria visão. Para atravessar uma estrada, nas proximidades da curva, você ouve o carro antes de o ver. É comum ouvir-se o avião que se não está vendo.

Por outro lado, insistimos, o ouvido capta qualquer estímulo do ambiente, em qualquer direcção, sem que nos seja preciso mover a cabeça nem que tenhamos vontade de receber o estímulo. Ouve-se o que se quer e o que não se quer ouvir, independente de abrir ou fechar as orelhas, que não abrem nem fecham como as pálpebras. O cérebro, sim, rejeita as impressões de que você não precisa ou não estava buscando, mas todas elas chegam lá.

Então, no caso do cego, privado das impressões visuais, essas impressões auditivas serão menos rejeitadas e, por isto, bem mais aproveitadas que nas pessoas normais. O cego acaba por descobrir, mais que os outros, novidades no mundo audível, sem que o seu ouvido seja melhor. Aí sim, ele maravilha os outros pelos recursos que acaba por tirar de suas descobertas auditivas. As particularidades das vozes, diferenças de ruídos, som dos próprios passos e dos passos dos outros, ruídos diferentes de objectos, campainhas, notas de música e a mais variada gama de vozes de animais, o ruído das lojas por que vão passando, o barulho de sinetas, buzinas e veículos nas ruas, tudo o liga com o mundo e lhe serve de orientação nas caminhadas sem guia.

É comum que eles desenvolvam certas habilidades auditivas, mas pela maior observação dos estímulos audíveis que por melhor acuidade do ouvido. No meu convívio com eles já encontrei os que são capazes de discernir quais as notas que você tirou de um piano calcando ao mesmo tempo as duas mãos indistintamente sobre pontos diferentes do teclado; sei dos que, ouvindo a buzina do automóvel, onota correspondem. Sei até de um, tão apaixonado pela música, que, ouvindo qualquer conjunto orquestral de clássico gravado, conheça ou não conheça a peça, é capaz de dizer em que tom está a gravação nas suas diferentes fases, e até de ir nomeando as notas musicais da melodia básica que vai ouvindo. Este "um" sou eu. Entretanto, meu ouvido nunca foi dos melhores, pois que tive perfurado um tímpano numa dessas moléstias comuns na primeira infância.

A voz humana, esta sim: ninguém a conhece melhor que o cego. É o espelho da criatura, a expressão fisionómica, a vida interior, a própria alma, tudo das outras criaturas para ele. Nela ele sabe buscar todo o relacionamento com as pessoas de seu convívio; todas as ligações harmoniosas, sentimentais, amorosas, e até toda a repulsa com as pessoas. Não foi à toa que o ilustre cego Pierre Villey chamou-a de "fononomia" Como não existem duas pessoas iguais, também não há dois gémeos iguais, ainda que da mesma placenta"; mesmo confundidos pelos que vêem, trazem sempre certa nuance de voz que os cegos observam.

O timbre, mais grave ou mais agudo; a intensidade, mais cheia ou mais fraca; a maior ou menor musicalidade, a voz mais limpa ou mais roufenha, tudo são variantes que levam o cego ao seu perfeito relacionamento no mundo das criaturas que o rodeiam. O timbre diz-lhe o maior ou o menor grau de masculinidade ou de feminilidade no homem e na mulher. A intensidade, mais forte ou mais fraca, indica-lhe certas particularidades de carácter, firmeza de convicções, e mesmo embustes, disfarces, mentiras e certos estados mentais. A musicalidade (no falar, cada pessoa tem a sua) pode mostrar-lhe o lugar em que nasceu qualquer pessoa. Os cegos costumam dar certa importância ao que chamam "voz mais limpa" ― a voz que sai mais escorreita, lisa, sem travos de rouquidão, livre, desimpedida, para eles, em geral, vozes de pessoas de mente aberta, de espírito sensível. Muito, muito mais do que você pode imaginar, sai de dentro de você, pela sua voz, para dentro de um cego. Seus sentimentos, seu estado de alma, sua lealdade, sua atitude mental para com o cego a quem você fala está saindo na sua voz muito mais do que você pensa. Sua própria sensualidade é revelada a um cego pela voz. Nem de outro modo se explica que os cegos amem, e até amem muito, criaturas de seu convívio, com verdadeira dedicação. Nem de outro modo se explica que os cegos escolham a outra metade para os seus amores, não raro amores eternos e de maior renúncia que os habitualmente conhecidos.

O cego sabe como está sendo recebido pela pessoa com quem fala pela primeira vez: a entoação dada às respostas, a espontaneidade da voz, tudo indica ao seu interlocutor cego se você é sincero ou não, se a presença dele agrada ou desagrada, se você o trata com atenção ou com indiferença, se você quer continuar a conversa ou se está desinteressado. Enfim, a voz é, em suma, o espelho da alma. Ela reflecte qualquer estado psicológico seu, qualquer alteração no seu habitual comportamento mental, qualquer atitude íntima que você, no momento, esteja adotando para com o seu interlocutor cego. A voz pode revelar ao cego tudo aquilo e até muito mais do que a sua expressão fisionómica levará ao seu interlocutor com visão. Só assim se compreende que os cegos possam encontrar tanto interesse no convívio com as outras criaturas nesse mundo, principalmente quando essas criaturas sabem dar-lhes o trato que eles esperam de toda a gente.

O olfacto também facilita ao cego melhor relacionamento com o mundo. Os odores do caminho por onde vai passando o ajudam na sua locomoção sem guia. O bom perfume, o cheiro de limpeza ou de sujeira que vem dos outros igualmente o ajudam no relacionamento.

Um velho amigo meu, privado da visão depois de adulto, servia-se muito bem do olfacto para se adaptar à penosa perda da visão na mocidade. Amante da electrónica, frequentava uma loja especializada no Rio antigo, cujo dono, muito amigo desse bom freguês, gostava de se aproximar dele sem falar, para ver se ele sabia. E o freguês cego sabia sempre. O dono da loja, maravilhado, queria saber como o freguês notava a presença dele. O freguês, embaraçado, não podia dizer: reconhecia o dono por seu mau hálito terrível.

Assim vão vivendo os cegos, adaptados ao mundo que a má sorte Ihes impôs, através do tacto, do ouvido e do olfacto, sem nem sempre saberem bem como e por que se adaptam, e às vezes não podendo mesmo explicar essa adaptação.

Também a beleza do ambiente pode chegar à imaginação do cego através do olfacto: o perfume das flores silvestres, o cheiro do capim, o aroma do matagal em flor, o cheiro emanado do chão quente ao receber chuva repentina, tudo desperta na alma do cego uma sensação de prazer, de alegria e, por que não dizer, de beleza, muito maior do que recebem as pessoas de olhos abertos nas mesmas circunstâncias.

 

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Os Sentidos que Substituem a Visão
é um excerto da obra

O que é ser cego: "a situação dos cegos em todo o mundo, corajosamente esquadrinhada e esclarecida por um cego de 75 anos, com mais de 50 consagrados ao problema da cegueira, ele próprio vitorioso nas mais diversas actividades comerciais e culturais, apesar de completamente cego desde os dois anos de idade."
Autor: José Espínola Veiga
Editora: J. Olympio, 1983

De Espínola Veiga, ler também: A Vida de Quem não Vê.
 

 

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9.Abr.2014
publicado por MJA