Ξ  

 

 Sobre a Deficiência Visual

A Reabilitação das Pessoas com Deficiências Visuais

Sandra Rodrigues


Homens cegos - foto de Aleksey Myakishev, 1995
 

Dada a ausência de bibliografia que nos permitisse abordar a reabilitação para pessoas com deficiências visuais em Portugal, faremos, em seguida, apenas algumas anotações sobre o enquadramento legislativo subjacente a este processo para as pessoas com deficiência em geral. Passamos depois a abordar o processo propriamente dito, concretizando-o para a população do nosso estudo, fazendo referência aos objectivos da reabilitação, à forma como se desenvolve, e ao que proporciona a quem o realiza.

Para terminar o capítulo, passaremos a apontar alguns aspectos que interferem no envolvimento e no sucesso individual, quer do processo em geral, quer das suas actividades particulares.


1. A Evolução dos Paradigmas e Modelos de Reabilitação

Tem havido uma grande evolução nos paradigmas e modelos subjacentes às concepções e atitudes sociais face à deficiência, o que se reflecte naturalmente na área da reabilitação. Passou-se, assim, de um modelo tradicional, no qual se atribuía um papel marginal às pessoas com deficiência, para um paradigma da reabilitação, que centra o problema no indivíduo e do qual resulta a necessidade de uma reabilitação conduzida e controlada por profissionais. O último paradigma a emergir é o da autonomia pessoal ou de vida independente, enfatizando-se a autodeterminação do indivíduo no seu processo de reabilitação e a importância da abolição de barreiras físicas e sociais (Puig de la Bellacasa, 1990a, 1990b, in Verdugo, 1995).

Já no que se refere ao ensino das pessoas com deficiências visuais em Portugal, o qual, em nosso entender, se relaciona com as questões da reabilitação destas pessoas, de acordo com Dias (1995), tem-se evoluído, à semelhança do que ocorreu com outros países da Europa, em três etapas. Na primeira, vigorou um modelo asilar, no qual se enquadram uma perspectiva institucional assistencialista, quer por parte da igreja, quer por parte de instituições de beneficência; uma perspectiva institucional sectorial, em que foram criados asilos para cegos com ou sem carácter educativo ou profissional; e uma perspectiva institucional escolar, tendo sido criados asilos-escola, onde era ministrada instrução primária em regime de internato. Uma segunda etapa, baseada no modelo médico-pedagógico, é caracterizada pelo facto de a integração ser iniciada em regime de externato. A última destas etapas é a do modelo educacional, caracterizado por uma política de integração das pessoas com deficiências visuais na sociedade (Dias, 1995).


Fica assim demonstrado que:

“É óbvio que se está a passar de um sistema de reabilitação em instituições, baseado na dependência da pessoa com deficiência, para um sistema aberto para a vida, em que a tónica é colocada na necessidade de lhe proporcionar a maior independência possível, e que passa pelo pleno reconhecimento do direito de ser diferente” (SNR, 1994, p. 8).

Verificamos, no entanto, que no caso das pessoas com deficiências visuais, os preconceitos e mitos sobre a visão atrasaram a evolução na prestação de serviços de reabilitação adequados, quer a pessoas sem visão, quer a pessoas com visão reduzida (Goodrich & Bailey, 2000).

Como causas que atrasam o processo de integração das pessoas recentemente cegas, e tendo em conta a realidade brasileira, Canejo (1996) indica as dificuldades de obtenção de materiais específicos para o processo de aprendizagem destas pessoas e a precariedade das instituições de reabilitação, a par da falta de informação da sociedade que conduz à estigmatização. De facto, o reconhecimento de que as barreiras criadas pela sociedade impedem os indivíduos com deficiência de atingir os seus objectivos contribuiu para a redefinição da reabilitação em geral (Baker, 1996).

No passado, não se utilizava tanto a palavra reabilitação, mas mais a expressão bem-estar, para abarcar todos os aspectos de intervenção com pessoas cegas. Esta expressão sugere que a preocupação principal era com o bem-estar material e espiritual do indivíduo (Dodds, 1993). De igual modo:

“(...) os estabelecimentos que agora se dizem ‘centros de reabilitação’ costumavam ter nomes como ‘Casas de Recuperação’, onde as pessoas que tinham cegado recentemente (normalmente por causa da guerra) se podiam simplesmente instalar e ter algum conforto e força proporcionados pelo pessoal compreensivo e pelos ares reparadores” (Dodds, 1993, p. 20).

De acordo com Silverstone e colaboradores (2000), os serviços de reabilitação para pessoas com deficiências visuais foram separados em serviços especificamente vocacionados para cegos e serviços que atendem pessoas com visão reduzida, o que parece não ser nem bem definido, nem produtivo. Assim, os autores propõem a existência de um campo que englobe todos estes serviços, o qual designam por “reabilitação da visão” (p. XII), que se sobrepõe a outros campos: educação especial, trabalho social, orientação vocacional, oftalmologia, optometria, enfermagem oftalmológica, e terapia ocupacional. Este campo possui, no entanto, os seus próprios profissionais, como por exemplo os especialistas em orientação e mobilidade (O&M) e os professores de capacidades adaptativas (Silverstone et al., 2000).

Nos Estados Unidos da América, os Serviços de Reabilitação de adultos com deficiências visuais existentes podem ser separados em cinco categorias: agências nacionais, programas estatais ou regionais, clínicas baseadas na universidade (tipicamente em oftalmologia ou departamentos optométricos), agências privadas, e médicos privados (Overbury & Collin, 2000).

Na pesquisa que efectuámos não encontrámos bibliografia que fornecesse informação sobre a reabilitação de pessoas com deficiências visuais em Portugal, o que, aliado ao nosso conhecimento informal dessa realidade, nos leva a pensar que no nosso país existe um grande atraso, e até alguma precariedade, neste campo. Limitamo-nos por isso, e antes de avançar para a descrição do processo de reabilitação de pessoas com deficiências visuais, a fazer algumas anotações sobre o enquadramento legislativo da reabilitação para pessoas com deficiências em geral no nosso país.


2. A Reabilitação para Pessoas com Deficiência: Algumas Notas sobre o Enquadramento Legislativo em Portugal

Reportando-nos à realidade do nosso país, vejamos o que, em termos legislativos, está previsto sobre a reabilitação para as pessoas com deficiência no seu conjunto, tendo em atenção que, seja qual for a natureza e a origem da deficiência, os objectivos da política de reabilitação são assegurar à pessoa a mais ampla participação na vida social e económica e a maior independência e autonomia possível (SNR, 1994).

A “Lei de Bases da Prevenção e da Reabilitação e Integração das Pessoas com Deficiência” (Lei n.º 9/89 de 2 de Maio) define reabilitação como “um processo global e contínuo destinado a corrigir a deficiência e a conservar, a desenvolver ou a restabelecer as aptidões e capacidades da pessoa para o exercício de uma actividade considerada normal” (Centro de Informação Europeia Jacques Delors, 2004).

Para tal, esta lei estabelece os seguintes princípios aos quais deve obedecer a política de reabilitação: da universalidade, da globalidade, da integração, da coordenação, da igualdade de oportunidades, da participação, da informação, e da solidariedade. A Lei n.º 9/89 define também um conjunto de medidas diversificadas e complementares, compreendidas no processo de reabilitação, nos domínios da prevenção, da informação e fiscalização, da reabilitação médico-funcional, da educação especial, da reabilitação profissional, da reabilitação psicossocial, do apoio sócio-familiar, da acessibilidade e mobilidade, das ajudas técnicas, e da cultura, desporto e recreação.

Foi recentemente lançada pelo Governo, para apreciação da Assembleia da República, a “Proposta de Lei de Bases da Prevenção, Habilitação, Reabilitação e Participação da Pessoa com Deficiência”, que revoga a Lei n.º 9/89 (Portal do Governo, 2004). Esta proposta apresenta, como objectivos da política nacional, a promoção de: (a) igualdade de oportunidades; (b) oportunidades de educação, formação, e trabalho ao longo da vida; (c) acesso a serviços de apoio; e (d) uma sociedade para todos.

Como princípios fundamentais são apontados os da singularidade, da cidadania, da não discriminação, da autonomia, da informação, da participação, da globalidade, da qualidade, do primado da responsabilidade pública, da transversalidade, da cooperação, e da solidariedade. Em suma, esta Proposta de Lei de Bases enfatiza a responsabilização do Estado na toma de um amplo conjunto de medidas, com o objectivo da concretização dos direitos e deveres que possibilitam à pessoa com deficiência uma cidadania plena. Ressalta-se a importância da consciência colectiva com vista à erradicação de estigmas e preconceitos, o contributo indispensável de um conjunto de entidades que possibilitem um trabalho em rede e a coesão social, e a necessidade de apoiar as famílias das pessoas com deficiência.

Desta abordagem, retiramos a grande complexidade que deriva do processo de reabilitação, complexidade essa que já foi assinalada por Dantas e Conceição (1996), ao perspectivarem a reabilitação como um sistema complexo, no qual:

“(...) as respostas à pessoa deficiente emergem como uma resultante da interacção entre legislação governamental, a política administrativa e o comportamento dos profissionais implicados na intervenção com o deficiente e suas famílias e ainda da dinâmica das associações de e para deficientes” (p. 19).


3. Objectivos, Formas, e Dinâmicas da Reabilitação para Pessoas com Deficiências Visuais

Os objectivos da reabilitação para as pessoas com deficiências visuais nem sempre são claramente definidos (Dodds, 1993), mas os autores que abordam o assunto referem como objectivo geral o de que o indivíduo atinja a autonomia e independência que necessite ou deseje.

A reabilitação para pessoas com deficiências visuais pode ser vista como um processo que englobaria duas componentes centrais: (a) lidar com as reacções emocionais decorrentes da cegueira, com a aceitação e adaptação à situação; (b) aprender métodos para levar a cabo um conjunto de actividades sem a visão, tais como O&M, actividades da vida diária, acesso à informação, e adaptações para o trabalho e para o lazer (Carroll, 1968; Cejudo, 1999; Dodds, 1993; Hollins, 1989).

Já Lund e Dietrichson (2001) sugerem que existem três opções possíveis nas intervenções de reabilitação destas pessoas: o treino da visão residual; a utilização de estratégias não visuais ou substituição das competências visuais (a chamada compensação); e a intervenção sobre o meio da pessoa, de modo a adaptá-lo fisicamente para que as tarefas exijam menos esforço, ou a sua necessidade seja reduzida. Esta terceira opção decorre do facto de as necessidades das pessoas dependerem frequentemente do seu meio.

De acordo com Silverstone e colaboradores (2000):

“O diagnóstico e avaliação são os primeiros passos na reabilitação: para determinar o grau e tipo de visão residual que a maioria dos indivíduos mantém, para avaliar a capacidade para outras funções sensoriais e motoras que estes indivíduos, bem como os que não têm visão ‘usável’, podem ter, para prescrever dispositivos ópticos ou para recomendar outras ajudas que auxiliem do desempenho de tarefas diárias, e para identificar questões relacionadas com o ajustamento do indivíduo e sua família” (p. XIII).

A reabilitação de pessoas com deficiências visuais pode ser levada a efeito num Centro específico para esse fim ou na própria casa da pessoa (se as suas condições físicas assim o exigirem). Apesar daqueles que vivem perto do Centro poderem deslocar-se a ele durante o treino, mais frequentemente as pessoas residem no próprio Centro, sendo que este processo dura normalmente entre 1 e 6 meses (Hollins, 1989).

Para Carroll (1968), a reabilitação deve ser total e um processo múltiplo de intervenção, dado que são múltiplas as perdas decorrentes da cegueira. Este processo deve ser levado a cabo através de um conjunto de aprendizagens, para restaurar as perdas apontadas no capítulo anterior (quando abordámos as consequências da perda da visão). Assim, a cada uma das vinte perdas então mencionadas corresponderá respectivamente um conjunto de estratégias que visam a sua restauração. O autor sugere que existem quatro fases da reabilitação que participam, em formas variáveis, em cada uma das vinte restaurações: treino dos outros sentidos que irão substituir a visão; treino da habilidade e uso dos equipamentos; recuperação da segurança psicológica; ajudar o sujeito a lidar com as atitudes da sociedade.

De forma a conseguir atingir os objectivos da reabilitação, os profissionais que trabalham nesta área podem assumir vários papéis: técnico, professor, mentor, treinador, conselheiro, psicólogo, advogado, e amigo (Dodds, 1993).

Neste sentido, é de grande importância um trabalho em equipa, ou seja, que os membros da equipa compreendam as funções e papéis uns dos outros e comuniquem eficientemente entre si (Luxton, Bradfield, Maxson & Starkson, 1997). Além disso, este deve ser um trabalho interdisciplinar, tendo a “Classificação Internacional das Deficiências, Incapacidades e Desvantagens (Handicaps)” servido como pilar de, pelo menos, um modelo que o sustente (Van Hof & Looijestijn, 1995). Aguardemos, para verificar as alterações que a “Classificação Internacional da Funcionalidade, Incapacidade e Saúde” acrescentará aos modelos de reabilitação.

Existe um conjunto de ajudas técnicas e de estratégias, que podem ser aprendidas, para a realização de tarefas como combinar a roupa, cozinhar, auto-vigilância em cuidados de saúde, O&M, adaptação de actividades de lazer, leitura, e escrita (Luxton-Gourgey, 2000). Vale a pena ressaltar, no que respeita a actividades da vida diária e de cuidado pessoal, que, apesar de todas as possibilidades já existentes, persistem muitas dificuldades por resolver. Por exemplo, ainda não se conhece um método para que uma pessoa cega averigúe, de forma independente, se uma peça de roupa está manchada ou se saiu limpa da máquina de lavar. Existe também um grande trabalho a fazer para que os utensílios domésticos possam ser utilizados por pessoas com deficiências visuais (Luxton-Gourgey, 2000).

Dada a variedade de dispositivos e adaptações possíveis para actividades da vida diária, para o cuidado pessoal, e para o lazer, vejamos apenas alguns aspectos daqueles que, segundo Canejo (1996) e Scadden (2000), são os dois problemas primários que as pessoas com deficiências visuais têm de enfrentar: o acesso à informação e a mobilidade independente.

Para aceder à informação escrita, existe actualmente uma ampla gama de possibilidades. O acesso à leitura para pessoas com cegueira é possível através da audição e do tacto, enquanto as pessoas com visão reduzida fazem uso do seu resíduo visual, por vezes combinado com um dos outros canais (Noyons, Baldewijns & Riemslag, 2000; Luxton-Gourgey, 2000).

O primeiro grande passo no sentido de possibilitar o acesso à informação escrita foi proporcionado pelo código de leitura e escrita táctil criado por Louis Braille em 1829, que recebeu o seu nome (Scadden, 2000). Este método é ainda actualmente, e apesar de todos os avanços tecnológicos, reconhecido como de primordial importância para o ensino e formação das pessoas cegas (Hertlein, 1999). Para melhor conhecer a história e a estrutura do sistema Braille, recomendamos Baptista (2000).

Face à dificuldade inicial de produção de material neste formato, a pauta e o punção facilitaram a produção do material escrito pelas próprias pessoas. As máquinas de escrita em Braille expandiram esta possibilidade, seguidas pelas imprensas Braille. Posteriormente, as impressoras Braille, controladas por computador, vieram contribuir para a produção em grande escala, até aí muito dificultada. Além deste método táctil, temos também o desenvolvimento de todo um conjunto de tecnologias áudio (Scadden, 2000).

O computador com um sintetizador de voz ou um terminal de Braille, o respectivo programa de leitura de ecrã, bem como o scanner e respectivo programa de reconhecimento óptico de caracteres, são ferramentas de trabalho que se tornaram de grande valia para as pessoas com deficiências visuais (Hertlein, 1999; Luxton-Gourgey, 2000; Noyons et al., 2000; Scadden, 2000).

Além destas ferramentas, as pessoas com visão reduzida poderão utilizar tecnologias que possibilitem o aumento da imagem ou da iluminação do meio ambiente, como por exemplo magnificadores ópticos, lâmpadas de alta luminosidade, lupas televisão ou circuitos fechados de televisão, e programas de aumento no próprio computador (Noyons et al., 2000; Scadden, 2000).

Como reconhece Scadden (2000), um melhor acesso à informação deu lugar a melhores oportunidades educativas e de emprego para as pessoas com Deficiências visuais.

No que diz respeito à mobilidade, habitualmente são referenciados o cão-guia e a bengala (Luxton-Gourgey, 2000), mas não pode ser esquecida a importância do guia humano (Carroll, 1968).

Apesar de já anteriormente terem sido utilizados vários dispositivos, a bengala branca, também designada por bengala longa, ou por bengala de Hoover, foi a mais importante ajuda à mobilidade, devendo-se a sua criação a Richard Hoover, um instrutor de reabilitação (Hollins, 1989). A sua criação e o início da sua utilização decorreram nos anos 40, durante a segunda guerra mundial (Hollins, 1989; Filippi, 1996). A bengala funciona como um prolongamento da mão ou do dedo (Luxton-Gourgey, 2000). As técnicas para a sua utilização possibilitam a percepção de desníveis e de referências, através do varrimento do solo em arco de círculo, numa distância aproximada de um passo à frente e com uma amplitude equivalente da largura das costas acrescida de uma margem de segurança (Filippi, 1996).

A grande diferença entre a bengala e o cão-guia, é que a primeira fornece ao utilizador informação ambiental directa do espaço que se encontra à sua frente, enquanto o segundo evita os obstáculos, ou indica-os ao utilizador, ajudando-o a rodeá-los se essa for a ordem (Luxton-Gourgey, 2000).

As pessoas com visão reduzida, apesar de poderem também utilizar a bengala e o cão guia, preferem uma maior iluminação e o aumento da imagem, por exemplo, com telescópio (Scadden, 2000).

A deslocação autónoma e segura das pessoas com deficiências visuais que utilizam a bengala apresenta um conjunto de dificuldades, existindo uma série de regras e técnicas que deverão ser aprendidas com um profissional especialista nesta matéria. Johnson e Petrie (1998) entrevistaram 24 pessoas com cegueira total e com visão reduzida, as quais consideraram que a sua deslocação autónoma e segura implica o evitamento de obstáculos (o aspecto mais mencionado), a orientação (definida pelos entrevistados como saber onde se encontra), e a segurança pessoal (definida como evitar situações perigosas). Outros factores mencionados foram a habilidade para atravessar a rua com segurança, não se perder, e ter a sensação de que se controla ou de que se está preparado para o inesperado.

De modo a conseguir um regresso ao mercado de trabalho, os Centros de reabilitação poderão contribuir para auxiliar a pessoa a conseguir as adaptações necessárias ao seu local de trabalho, bem como ajudá-la a tomar outras opções vocacionais, no caso destas adaptações não poderem ser concretizadas (Hollins, 1989). O autor indica ainda que muitos destes Centros oferecem treino em várias ocupações profissionais.

As pessoas com deficiências visuais estiveram impedidas durante muito tempo de aceder ao mercado de trabalho, dedicando-se à mendicidade. Quando começaram a ser nele integradas, existia um leque de opções muito restrito à sua disposição, constituído por actividades manuais, repetitivas, e pouco qualificadas, como por exemplo afinação de piano, massagem, montagem de pequenos objectos, e controlo de centrais telefónicas (Canejo, 1996; Goodrich & Bailey, 2000; Griffon, 1995; Scadden, 2000; Tuttle, 1984). Actualmente, existe ainda uma baixa taxa de empregabilidade entre os adultos em idade de trabalhar, a qual é influenciada por factores como o acesso à tecnologia, acesso aos meios de transporte, atitudes dos empregadores, desincentivos financeiros ao trabalho, e falta de formação/ orientação vocacional (Leonard, 2000).


4. Factores Relacionados com os Resultados da Reabilitação e das Componentes deste Processo

Como já tivemos oportunidade de referir no capítulo anterior, o ajustamento e a reabilitação estão intrinsecamente relacionados, daí que os factores estudados como intervenientes em ambos os processos sejam essencialmente os mesmos (ver Ringering & Amaral, 2000). Existem poucos estudos que avaliam os resultados da reabilitação para pessoas com deficiências visuais e aqueles que o fazem têm-se centrado em ganhos específicos, como por exemplo levar a cabo diferentes tarefas de mobilidade (Lund & Dietrichson, 2001). Neste ponto, abordaremos alguns dos factores que, mais directamente relacionados com o processo global de reabilitação, ou mais especificamente relacionados a componentes desse processo, intervêm nos resultados obtidos.

No que toca às características da perda da visão propriamente dita que intervém no processo de reabilitação, é sugerido, por Dodds (1993), que a pessoa totalmente cega apresenta menos problemas ao trabalhador de reabilitação, em termos de aquisição de competências, do que uma pessoa com visão residual, sendo para isso apontadas duas razões. A primeira, é que não existe necessidade de avaliar o funcionamento visual residual para decidir como proceder: ensinam-se métodos alternativos que têm sido trabalhados satisfatoriamente há vários anos. A segunda relaciona-se com a menor confiança que a pessoa com visão residual pode apresentar, face ao funcionamento de uma solução standard.

De acordo com Canejo (1996), quando a cegueira total é súbita e repentina, a reabilitação parece muito mais difícil e as pessoas podem entregar-se ao desespero.

Já a estabilidade da visão parece influenciar positivamente a continuidade de utilização e a satisfação com os instrumentos ópticos, num programa de reabilitação da visão (D'Allura, McInerney, & Horowitz, 1995, in Ringering & Amaral, 2000).

O facto de a cegueira ser congénita ou adquirida poderá causar variações ao nível das preferências pelos meios de acesso à informação escrita. As pessoas com cegueira adquirida parecem necessitar de mais tempo para dominar o Braille e preferir os livros falados (Luxton-Gourgey, 2000).

Vejamos alguns factores pessoais que afectam vários dos componentes do processo de reabilitação. No que respeita aos factores de personalidade, White, Carroll, e Martins Jr. (1990) realizaram um estudo com o qual pretenderam investigar se estes factores e as características demográficas influenciavam a aceitação ou rejeição do treino de mobilidade para adultos com cegueira adquirida. O estudo foi levado a cabo com 79 sujeitos que aceitaram o treino e 60 que o rejeitaram. Apesar de a aplicação dos resultados da investigação ser limitada a indivíduos que participaram, pelo menos inicialmente, em serviços de reabilitação vocacionais e que receberam mobilidade e avaliações de Minnesota Multifasic Personality Inventory (MMPI), podem ser avançadas duas conclusões: não foram encontradas diferenças significativas para nenhuma das variáveis demográficas, mas sim no que se refere aos perfis de personalidade dos que aceitaram e rejeitaram o treino. Os sujeitos que rejeitaram o treino apresentaram médias mais elevadas nas escalas de psicastenia, esquizofrenia, tendência psicopata, depressão, hipomania, paranóia, e infrequência.

A auto-estima parece ser um factor pessoal que interfere em, e é afectada por, muitos dos aspectos da reabilitação. Uma baixa auto-estima poderá interferir na aceitação de ajuda de outros e mesmo dos serviços de reabilitação (Dickerson, Smith & Moore, 1997) e ser mesmo uma das causas de abandono de um programa de reabilitação (Cejudo, 1999). Além disso, como resultado do domínio de tarefas quotidianas, poderá verificar-se um aumento de auto-estima e um sentimento de mais valia, pela capacidade que a pessoa sente que possui para satisfazer necessidades pessoais e para contribuir na sua própria casa (Tuttle, 1984).

Ainda no que se refere a factores pessoais, também a atribuição de resultados positivos ao próprio esforço e habilidade, a par da aceitação da incapacidade, parece influenciar uma reabilitação bem-sucedida (Dodds, Ferguson, Flannigan, Hawes & Yates, 1994).

Também a motivação, a continuidade do esforço na prática diária, e o interesse para encontrar novos objectivos específicos a atingir poderão fazer variar o êxito da reabilitação (Cejudo, 1999).

Outro conjunto de factores a salientar é o relativo a factores familiares e culturais. O apoio das famílias é ressaltado por alguns autores como de grande importância no processo de ajustamento e de reabilitação, alertando-se no entanto para o perigo da superprotecção (Cejudo, 1999; Jackson & Lawson, 1995). A utilidade e capacidade das famílias para o processo de reabilitação não deveriam ser deixadas de lado ou subestimadas (Jackson & Lawson, 1995; Vash, 1988).

A interferência de factores culturais na reabilitação verifica-se, por exemplo, ao nível das atitudes das pessoas com deficiências visuais face à utilização da bengala ou de outros dispositivos de ajuda. São muitas as pessoas que não dominam a técnica de O&M ou que se sentem bloqueadas perante a sua utilização (Filippi, 1996). Num estudo levado a cabo por Wainapel (1989), com o objectivo de averiguar as atitudes face à utilização da bengala, o autor verificou que existia um atraso no início do treino de O&M, de 1 a 2 anos depois da perda da visão, e que era comum uma resistência muito forte para iniciar o seu uso. A maioria das razões para esta relutância dizia precisamente respeito a aspectos de estigmatização da bengala. Esta era também associada a um sinal de vulnerabilidade, por exemplo, para a criminalidade. Entre outros factores, destaca-se o isolamento para explicar o atraso no início do treino. Assim, estes factores culturais e familiares conduzem a que outro significado seja atribuído à bengala, que não o de uma ajuda técnica, e como explica Corn (2000) “uma bengala branca não deveria provocar uma resposta emocional negativa, salvo que uma pessoa atribua à bengala outro significado” (p. 905).

Verificamos ainda, com base no estudo de Wainapel (1989), que o apoio social é fundamental para a iniciativa de começar o treino de O&M. O estímulo para quebrar a depressão ou o isolamento que imobilizava os indivíduos deste estudo geralmente veio de uma pessoa, a qual, como suporte, guia, ou exemplo, conduziu o cliente na direcção de procurar o treino.

Os factores culturais e sociais, a par dos familiares, dos individuais (tais como a auto-imagem e o estilo de resposta pessoal, por exemplo), e mesmo das próprias atitudes dos profissionais que prescrevem os recursos técnicos, interferem na forma como cada sujeito fará uso desses recursos (Chase, 2000). Ao referenciar as tensões emocionais com as quais as pessoas têm de lidar quando decidem utilizar dispositivos de ajuda, Corn (2000) conta um episódio que ilustra a interferência dos factores culturais e familiares na sua própria vida:

“Recordo uma ocasião, antes de ser adolescente, em que utilizava uma lupa nuns grandes armazéns para ler o tamanho de certa roupa. O adulto que me acompanhava nas compras pediu-me que não usasse a lupa, mas que me limitasse a perguntar-lhe o tamanho correcto do vestido. Tinha ‘medo do que pensavam as pessoas’, já que poderiam achar ‘que eu era estranha’. Na realidade, o problema era que o adulto queria evitar perguntas, comentários de piedade ou talvez a sua própria incomodidade ao ver ‘o que tinha que usar’ para gerir a minha vida quotidiana” (p. 904).

Finalmente, se atendermos a que, tal como referimos no capítulo anterior, o contexto cultural e as crenças espirituais determinam a forma como a pessoa atribui significado e reage perante a sua condição (Vash, 1988), facilmente compreendemos que a partir daí seja diferente o envolvimento na reabilitação (Ringering & Amaral, 2000). Assim, se uma pessoa acredita possuir a deficiência devido a castigo divino, adoptará uma postura de resignação, apresentando, em consequência, pouco envolvimento na reabilitação.

O contexto de uma reabilitação parece ter também um contributo importante para o seu sucesso. Assim, e de acordo com Hollins (1989), a reabilitação num Centro especializado terá vantagens sobre a reabilitação domiciliária, na medida em que: possibilita aos clientes a imersão total nas tarefas a aprender; poderá facilitar a aceitação da cegueira e a compreensão do potencial do processo de reabilitação, por colocar o cliente em contacto com outros em situação similar; a separação da família que isto implica poderá ser benéfico para clientes com famílias demasiado protectoras.

A propósito da importância do contexto para a reabilitação, Ringering e Amaral (2000) evidenciam o interesse da intervenção precoce, da terapia de reestruturação cognitiva, e a atitude do profissional de reabilitação. Os autores centram também a sua atenção na necessidade de se atender às especificidades de cada pessoa em função do seu contexto cultural.

Certamente que, tal como salientou Teixeira (1994), é de grande importância a relação estabelecida entre o técnico de reabilitação e a pessoa com deficiência, na medida em que este é um processo de desenvolvimento pessoal.

A importância do acompanhamento psicológico durante o processo de reabilitação foi salientado pelo Padre Thomas Carroll (1968), e outros autores reforçaram posteriormente esta importância (por exemplo, Hollins, 1989).

Alguns aspectos neste aconselhamento devem ser sublinhados, como fazer a pessoa que ficou cega compreender a diferença entre os sentimentos decorrentes da perda da visão e os da cegueira em si mesma (Hollins, 1989). O autor explica que, em virtude de muitos dos problemas anteriores à cegueira poderem continuar ou ser agravados por este stress, “o aconselhamento psicológico não poderá limitar-se, em muitos clientes, à reacção à perda de visão, mas deverá abordar a totalidade da pessoa” (p. 117).

Para terminar este ponto, vejamos alguns aspectos da utilização dos serviços de reabilitação para pessoas com deficiências visuais, que, de acordo com Cejudo (1999), parece não ser proporcional ao seu potencial para melhorar a qualidade de vida das pessoas. Estabelecendo um paralelismo com as doenças crónicas, esta questão da participação e envolvimento nos programas de reabilitação pode relacionar-se com a questão da adesão terapêutica, tão necessária para que o tratamento seja efectivo em muitas doenças crónicas, como é o caso das pessoas submetidas a hemodiálise (Devins & Vinik, 1996).

Cejudo (1999) sugere como principais causas da recusa para realizar uma reabilitação a ignorância dessa possibilidade como causa especial, seguida de causas relacionadas com:

(a) não aceitação da deficiência visual;
(b) falta de adaptação;
(c) desconfiança nos serviços;
(d) razões estéticas;
(e) conformismo; e
(f) comodidade.


A reabilitação das pessoas com deficiências visuais é então um processo que envolve diversas áreas de intervenção, para cujo sucesso contribui um conjunto de variáveis que carecem de exploração.
 

 

ϟ

A Reabilitação das Pessoas com Deficiências Visuais
-Cap 5- | excerto da obra

A Experiência da perda da visão, a vivência de um processo de reabilitação,
e as percepções sobre a qualidade de vida
Sandra Maria Ferreira Estêvão Rodrigues
Dissertação apresentada como requisito para a obtenção do grau de Mestre no âmbito do Mestrado em Psicologia da Saúde
Instituto de Educação e Psicologia
Universidade do Minho
Maio 2004
 

Δ

17.Nov.2016
publicado por MJA