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 SOBRE A DEFICIÊNCIA VISUAL

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Percursos para Pessoas com Deficiência Visual no Centro Histórico do Porto

Ivna Carolinne Bezerra Machado
 

Invisible city - escultura - Anton Parsons
Invisible city - escultura de Anton Parsons

 

    índice:

 
Visão, percepção e experiência espacial

Os sentidos desempenham diferentes funções no corpo humano e a partir dos sentidos é possível vivenciar experiências dentro e fora do corpo. Externamente podemos vivenciar as noções espaciais de distância e profundidade, a textura de objetos, os cheiros e os sons do ambiente. Internamente podemos experimentar a sensação de calma ou perturbação diante das multidões ou do excesso de sons em alto volume (músicas, máquinas, gritos, conversas, carros, buzinas e apitos), o corpo pode reagir ao frio ou ao calor de acordo com a temperatura do ambiente, o facto de não conhecer os lugares pode causar sensações de insegurança e desconforto. Todos estes e outros elementos podem fazer parte dessas experiências sensoriais (Torres & Kozel, 2010).

Para Rodaway (2002, p. 9) a experiência geográfica é multisensorial e emocional. Diante dos cinco sentidos percebe-se que muitas vezes a visão destaca-se como um elemento prioritário. Para Tuan (1890, p.7) o Homem depende de forma mais consciente da visão do que dos outros sentidos. O referido autor ainda afirma que a maioria das pessoas optaria por perder uma perna ou a audição em vez de perder a visão, demonstrando a supervalorização desta última. Para Ochaita e Rosa (1995, p.184), o tato pode ser considerado um dos sentidos mais importantes e que possibilita aos cegos a descoberta do mundo, onde “muitas das peculiaridades do desenvolvimento cognitivo das pessoas cegas podem ser explicadas em relação às características da captação e processamento da informação mediante o tato”.

Em relação aos principais sentidos do corpo humano, Tuan (1980) salienta a importância do ser humano ter olhos frontais que permitem uma visão binocular, 11 portanto uma visão abrangente. Já o tato, apresenta-se como uma experiência direta da resistência e do sentir as diferentes texturas. A audição permite uma grande experiência nos espaços, na medida em que recebemos informações além do campo visual. Para o olfato, constata-se que o Homem moderno considera que o meio ideal incidiria com a eliminação de todos os tipos de cheiros, neste caso, o termo odor teria quase sempre a relação com o mau cheiro e não simplesmente o cheiro exalado das coisas.

Acreditamos que os sentidos, do ponto de vista do reconhecimento de objetos e dos lugares, possibilitam uma melhor interpretação da paisagem. Para Sousa (2007, p.104) “Os cinco sentidos permitem perceber volumes, texturas, temperaturas, odores, cores, sons e sabores e a visão é a forma que mais utilizamos para interpretar a paisagem”.

Porém, mesmo com a utilização dos sentidos, a paisagem não será a mesma para duas pessoas. Por não se tratar de um elemento único e descritível em sua plenitude, a paisagem interpretada tem forte relação com a herança cultural de cada indivíduo. (Tuan 1980, p.7). Consideramos que desta forma, uma pessoa cega também pode interpretar a paisagem, fazendo o uso das suas experiências anteriores à cegueira ou a partir da união dos elementos sensoriais presentes.

Tuan (1980) ao formular o conceito de topofilia como o estudo da relação afetiva criada através da interação entre o ser humano e o ambiente físico envolvido, deixa claro que a interpretação da paisagem dar-se-á sob a óptica de cada individuo, levando em consideração as suas experiências anteriores.

Para Sousa (2007, p.111):
Por meio dos sentidos, o homem é capaz de relacionar-se com o mundo material e com seus iguais e a partir da observação, percebemos que a paisagem possui uma dimensão espacial que sofre as intervenções humanas e altera-se, adequando-se às necessidades humanas, sendo, então, concebida e vivenciada por este. Isso ocorre na paisagem urbana, nas artes, na economia. (...)

Numa perspetiva do turismo, Urry (2002, p.1) considera que o olhar turístico é construído a partir das diferenças, sendo esse olhar construído entre o que o turista é, e aquilo que o turista gostaria de ser ou ter. Ainda para Urry (2002, p. 13) o caráter desse olhar é fundamental para o turismo, a partir das exemplificações dos diferentes olhares, mas também podemos interpretá-lo de forma não literal, sendo o olhar aquilo que o turista procura encontrar e não aquilo que vê de facto.

A forte presença das viagens de curta duração em cidades, demonstram que as pessoas dedicam cada vez menos tempo para conhecer os lugares que visitam, desta forma, o turismo acaba por ser uma passagem efêmera. Por outro lado, algumas experiências mais intimistas nas cidades, valorizam as formas de sentir os lugares. Essas experiências podem ser vivenciadas em diferentes contextos e cidades. Para Kanashiro (2003, p.156) “É cientificamente comprovado que os sentidos dos seres humanos (...), enquanto receptores sensoriais de mensagens do ambiente e envio de sinapses, são igualmente transmissores de experiências emocionais”. Neste sentido, as cidades podem ser vivenciadas a partir dos diferentes sentidos do corpo humano. Por exemplo, ao passar pelas ruas de diferentes lugares, podem ouvir os diferentes sons: das falas e dos sotaques dos moradores, dos animais, dos elementos que constituem a natureza (vento, chuva, mar) e até mesmo o som do trânsito local. Para aguçar o paladar podem experimentar bebidas ou pratos típicos confecionados nos restaurantes frequentados pelos próprios moradores. Para o tato podem sentir a textura, a maciez ou a dureza dos diferentes objetos e monumentos espalhados pelas cidades e os diferentes materiais que constituem os pisos (passeios, ruas, estradas). Com a visão podem apreciar a vista dos miradouros, ver as diferentes formas de construção, as cores dos prédios e das casas, a luz natural e artificial, as distâncias e a paisagem como um todo. Para o olfato, os cheiros podem vir do mar, dos rios, das pastelarias, dos diferentes restaurantes, das flores e até das pessoas que circulam nas cidades.

Para Silva (2001) citado por Kanashiro (2003, p. 159):
ver, cheirar, ouvir, passear, deter-se, recordar, representar são atributos que devem ser considerados em cada cidade. Porém, não qualquer cidade, mas aquela vivenciável, isto é, uma coleção de fragmentos de lugares de cidades vivenciadas, percebidas por todos os sentidos humanos.

Mesmo com a valorização da visão para a interpretação da paisagem, muito se tem estudado sobre a valorização da paisagem sonora na Geografia. Sendo assim, a paisagem sonora é um conjunto de elementos sonoros dos lugares, também entendidos como componentes da cultura do local, incluindo as falas (sotaques), as músicas e os sons da natureza (Gaspar, 2001; Waterman, 2006). Ainda neste sentido Tuan (1983, p.16) revela que “As pessoas identificam subconscientemente as fontes de ruído, e a partir dessa informação constroem o espaço auditivo”. Para Rodaway (2002, p.86) o campo sonoro é geralmente caracterizado por um único som no entanto, a sobreposição de vários sons de diferentes fontes e lugares num determinado espaço produz a paisagem sonora.

Quanto à perceção no meio ambiente, Ingold (2000, p.245), ao tratar a visão e a audição, estabelece que de todas as implicações do contraste entre a visão e a audição, o mais coerente tem sido a noção de que a visão produz um conhecimento do mundo exterior que é racional, individual, analítico e atomístico, uma vez que é viciada pela experiência subjetiva de luz. A audição, por outro lado, uma vez que se baseia na imediata experiência do som, produz um tipo de conhecimento que é intuitivo, sensato, sintético e holístico. A visão produz um conhecimento que é indireto, com base em conjecturas a partir dos dados limitados e disponíveis na luz. Ingold (2000) conclui que, enquanto nós, nunca podemos estar certos do que vemos, não há nenhuma dúvida sobre o que ouvimos.

Quanto à discussão sobre a substituição ou desenvolvimento superior de algum sentido a partir da deficiência de outro sentido, Ingold (2000) acredita que uma pessoa cega não desenvolve a audição com superioridade em detrimento da falta de visão. Esse tema já discutido por Vygotsky (1934/1997) e Warren (1994) citado por Batista e Enumo (2000), revela que regra geral não se constata uma superioridade com relação ao tato e a audição em pessoas cegas, trata-se muitas vezes da atenção que o indivíduo dispensa durante a realização de atividades em razão da própria valorização dos sentidos e de suas funções no desenvolvimento humano.

A visão compreendida como uma faculdade desenvolvida a partir da relação entre o órgão ocular e os feixes de luz, representa a capacidade de interpretar ações e diferenciar objetos, desde que trabalhada em conjunto com os órgãos que atuam no desenvolvimento cognitivo. A ausência, incapacidade ou dificuldade de realizar a função visual não impede o desenvolvimento cognitivo dos indivíduos, desde que acompanhados de forma adequada, recebendo estímulos nas diferentes áreas de aprendizagem. A generalização na forma de atuar com os deficientes visuais é errada, pois existem diferenças desde comportamentais, idade de aquisição até o grau da deficiência. Desta forma cada indivíduo vai reagir de forma diferente aos estímulos.

A perceção e as experiências são idealizadas por esse estudo, como duas atividades interligadas, onde a perceção acontece a partir da experiência e a experiência será compreendida a partir da perceção. Para Rodaway (2002, p. 10) existem pelo menos duas constatações importantes para a palavra perceção, sendo a primeira a recepção de informações através dos órgãos dos sentidos e a segunda seria a perceção como elemento cognitivo. Já a experiência espacial está presente em diferentes momentos e contribui para a construção da memória sócio-espacial promovendo uma relação de proximidade entre o Homem e o meio.

A capacidade de perceber e diferenciar cores, sons, cheiros, sabores e texturas, pode ser entendido como uma forma de perceção. Neste caso, a palavra “perceção” não estaria relacionada com a construção de um pensamento, mas sim com um dado adquirido a partir dos efeitos sentidos e decodificados em detrimento de uma ação.

Jorge (2011) considera que o termo perceção corresponde ao momento em que o indivíduo percebe o fenómeno de um objeto. Para melhor clarificar as ideias de perceção, Jorge (2011, p.13) considera que:
A percepção envolve captar e participar das qualidades objetivas de algum fenômeno misturadas aos elementos da memória, do raciocínio realizado, da emoção sentida, e essas qualidades objetivas dos sentidos como filtros da alma também se misturam aos elementos subjetivos de cada indivíduo. (...) a percepção se refere ao produto dos processos psicológicos, implicando significados, relações, contextos, julgamentos, experiências passadas, memória.

Sendo assim a perceção seria o resultado final da relação entre o fenómeno em ação e os elementos que estão ligados intrinsecamente a cada indivíduo, como as suas experiências e memórias.

Partindo para uma abordagem mais específica no que diz respeito à visão, perceção e à importância das experiências espaciais, segundo Rodaway (2002, p. 115) a geografia visual permite a experiência geográfica através da localização e orientação no espaço, para além das relações espaciais e caracterização dos lugares. Segundo Nunes e Lômonaco (2008) a perceção do espaço pela pessoa cega, acontece através do conjunto das sensações táteis, cinestésicas e auditivas em conjunto com as experiências mentais passadas já construídas. Tuan (1980, p.14) pondera que a perceção é uma atividade e considera que os órgãos dos sentidos são pouco eficazes quando não são utilizados de forma ativa, ou seja, “Nosso sentido tátil é muito delicado, mas para diferenciar a textura ou dureza das superfícies não é suficiente colocar um dedo sobre elas; o dedo tem que se movimentar sobre elas. (...)”. Entendemos aqui que a perceção dificilmente acontecerá de forma estática (sem movimento), sem ação ou reação, sendo a experiência espacial um forte elemento para a experiência tátil. Neste sentido Rodaway (2002, p.41) revela a geografia do toque como uma capacidade do corpo para se deslocar através do ambiente e manipular objetos.

As experiências das pessoas com deficiência visual quando aliadas a atividades turísticas, envolvem uma série de fatores internos e externos. Os fatores internos têm a ver com as próprias motivações do viajante, a sua capacidade de mobilidade, autoconfiança e organização para a realização da viagem. Já os fatores externos, envolvem as estruturas físicas e a preparação dos profissionais que trabalham diretamente com o público (Yau, McKercher & Packer, 2004). Para Small, Darcy e Packer (2007) citado por Richards, Pritchard e Morgan, (2010), a apreciação visual é parte da experiência turística, mas é apenas um elemento diante dos outros sentidos envolvidos. Quanto às dificuldades de proporcionar experiências táteis para turistas cegos em museus, Urry (2002, p.156) reforça que o museu pode ser considerado um lugar inquietante para pessoas com deficiência visual, visto que esses lugares são preparados para experiências essencialmente visuais, excluindo as experiências táteis.

Para qualquer indivíduo, uma boa experiência turística leva em consideração um conjunto de informações fundamentais, por exemplo: para onde ir, como chegar, o que fazer, como se deslocar, onde dormir e onde comer. Fica evidente que ao dominar as informações sobre os lugares a sensação de conforto e segurança aumenta. Imaginemos uma situação hipotética, ao chegar numa cidade desconhecida, à noite, sem saber o meio de transporte que o leve seguramente ao seu destino final. Pode gerar-se uma situação de desconforto e insegurança. Para uma pessoa com deficiência visual os transtornos podem começar antes mesmo da viagem, pois em muitos casos há dificuldade de obter informações em formato acessível e que apontem as acessibilidades existentes.

Para uma pessoa cega ou com baixa visão as experiências turísticas não se resumem à apreciação sonora dos lugares. Mais importante que a narração de histórias, são as experiências táteis, porém uma experiência não anula a outra. Do ponto de vista dos sentidos a realização de percursos em ambientes externos, por exemplo, vias públicas, podem aguçar os sentidos do corpo em diferentes formas. Para a orientação das pessoas com deficiência visual é importante indicar pontos de referência. Ao passar por uma rua descrevê-la citando as principais características, como: rua com grande concentração de restaurantes ou lojas de artesanato, rua com importância histórica, dentre outras. Ao passar por praças a descrição das atividades habitualmente realizadas naquele ambiente, como o encontro de idosos para jogar cartas, xadrez ou apenas conversar, a presença das mães com seus filhos para brincar nos baloiços, a variedade de árvores e plantas e a disposição dos bancos. Todos esses elementos favorecem a orientação e a construção do espaço na memória e imaginação das pessoas.

Neste sentido, para Tuan (1983, p.14):

O paladar, o olfato, a sensibilidade da pele e a audição não podem individualmente (nem sequer talvez juntos) nos tornar cientes de um mundo exterior habitado por objetos. No entanto, em combinação com as faculdades ‘espacializantes’ da visão e do tato, estes sentidos essencialmente não distanciadores enriquecem muito nossa apreensão do caráter espacial e geométrico do mundo.

As experiências turísticas tornam-se completas na medida em que as pessoas com deficiência visual podem tocar nos diferentes elementos que compõem o mobiliário urbano, sentir os cheiros mais evidentes e ouvir o que se passar ao redor. A insistência na valorização dos sentidos durante atividades turísticas e recreativas tem como objetivo desmistificar a ideia preconcebida de que o turismo é uma atividade exclusivamente visual e deve ser tratada como uma experiência multissensorial. Para Tuan (1983, p.9):

Experiência é um termo que abrange as diferentes maneiras através das quais uma pessoa conhece e constrói a realidade. Estas maneiras variam desde os sentidos mais diretos e passivos como o olfato, paladar e tato, até a percepção visual ativa e a maneira indireta de simbolização.

O termo experiência pode ser aplicado em diferentes contextos, desde a realização de uma atividade como um todo, até às experiências vivenciadas em cada momento da atividade.

Dificilmente damos conta do papel fundamental exercido pelo nosso sistema sensorial. A criação de um percurso turístico que atue como um “instigador” dos sentidos, que pode ser vivenciado por pessoas que apresentem ou não qualquer deficiência ou dificuldade sensorial, revela-se como uma forma intimista de vivenciar os lugares, perceber o papel que os sentidos têm no corpo humano e demonstrar um elevado nível de autoconhecimento. Os movimentos do corpo, as experiências espaciais, a descoberta de novas sensações e novos lugares, ou a experiência de (re)viver os lugares contribuem para o crescimento do ser no mundo.

 

Turismo para os deficientes visuais

[...] Analisar as experiências vividas pelos turistas com deficiência visual permitiu a constatação de dificuldades recorrentes entre pessoas diferentes e em diferentes lugares do mundo. Desta forma, reunimos trechos importantes de estudos feitos por diferentes autores, que nos permite verificar quais as principais dificuldades enfrentadas por um turista cego ou com baixa visão. Para Richards, Pritchard e Morgan (2010, p.1100) “Any tourism experience is a constellation of tiny, individual and collective experimental moments and emotions, which build into an overall impression and, later, a memory."

Os autores citados anteriormente ainda reforçam nos seus estudos a ideia de que as experiências turísticas para os deficientes visuais são fundamentais e que os fatores pessoais, sociais e ambientais permitem a interação com o ambiente e resulta em diferentes experiências.

Em relação à incapacidade e às experiências que o turismo pode proporcionar, verificamos que para Yau, McKercher e Packer (2004, p.946):

Living with a disability poses unique challenges and can influence participation in many activities. Tourism is one activity that many people with disabilities feel must be sacrificed as it requires an orchestrated cooperation of physical, mental, and social capabilities, which are often adversely affected or compromised by a disability.

Um estudo elaborado pelos autores referidos acima identificou, num grupo de 52 pessoas sendo 28 com dificuldades de locomoção (utilizadores ou não de cadeira de rodas) e 24 com deficiência visual, cinco fases normalmente vivenciadas para se tornar um viajante ativo. A primeira fase identificada como: pessoal – aceitação e reintegração.

Nela alguns participantes relatam que a busca por fazer uma viagem não acontece durante a reabilitação. Demonstram que a rápida aceitação do estado de deficiência deve-se principalmente ao apoio familiar. A segunda fase é denominada reconexão – exploração para um futuro viajante. Aqui os participantes relatam as experiências ao tentar andar sozinhos na cidade onde vivem e passam por alguns constrangimentos ao tentar realizar algumas tarefas do quotidiano, acabando por demorar mais tempo do que uma pessoa sem deficiência. Já a terceira fase tem a ver com a análise da viagem – busca de informações. Mostra que para um viajante com deficiência, as barreiras começam mesmo antes do início da viagem. Para tanto, eles fazem a pesquisa em sites com informações sobre o hotel, transporte e ainda precisam acreditar que aquelas informações são verdadeiras, pois muitas vezes percebem que se trata de propaganda enganosa.

A quarta fase é, finalmente, a viagem física – compensação e compromisso.

Nesta os participantes relatam uma série de barreiras enfrentadas, mostrando como alguns locais não estão preparados para receber pessoas que utilizam cadeira de rodas ou são deficientes visuais. Mostram ainda as diferentes estratégias que utilizam durante a viagem. A quinta e última fase corresponde à experimentação e reflexão – gostos diferentes de viajar. Apresenta mais uma vez as experiências, sejam elas boas ou más, que podem influenciar em uma próxima viagem. Desta forma os autores concluem que para os participantes esse complexo processo de cinco fases envolve: iniciativa pessoal, avaliação de suas próprias capacidades, organização da viagem, gestão pessoal e reflexão de suas experiências.

O estudo apresentado revelou-nos diferentes falhas existentes durante todo um processo de viagem. A partir das experiências vivenciadas pelos turistas com deficiência, é possível estabelecer as principais alterações necessárias na prestação de serviços ou na reestruturação de caráter físico das diferentes estruturas envolvidas no setor turístico. Para percebermos essas experiências, conforme indicado inicialmente, apresentamos pequenos trechos que retratam algumas vivências. No primeiro caso, segundo Richards, Pritchard e Morgan (2010, p.1105)

“(…) She talks of how she shuffles her feet to feel the different textures on the ground, tilts her head to maximize the vision in her left eye and reaches out to find handrails and door knobs by scanning her surroundings.”

Verificamos aqui a capacidade de estimular os sentidos do corpo para diferentes situações e o esforço necessário para superar a incapacidade visual. Num segundo caso Richards et al., (2010, p.1109) “The thing is they have a wonderful menu and they will read it out to you… there are nine varieties of a simple thing. Just something at the beginning would be sufficient for me”. Neste caso verificamos que o simples ajuste na escrita do menu tornaria a experiência mais acessível. Essa escrita poderia ser em Braille, letras em tamanho grande ou o contraste das cores. Desta forma promoveria a independência do turista deficiente visual, sem a necessidade de ter o constrangimento de pedir ao empregado de mesa a leitura de todos os itens do menu para o cliente fazer a sua escolha.

Um estudo realizado na Austrália, escrito por Small, Darcy e Packer (2012, p.945) concluiu que:

The participants´ tourist experiences were related to their feelings of inclusion or exclusion. The findings revealed two main themes. The first theme focuses on the ways inclusion\exclusion were experienced. This theme comprises four sub-themes. Rather than a binary of inclusion or exclusion, the participants in the study identified a continuum comprising a set of conditions that reflected degrees of inclusion and exclusion. The second theme relates to how tourist managed these experiences.

O referido estudo chamou-nos a atenção para a estratégia de subdivisão das dificuldades enfrentadas por turistas com deficiência visual. Primeiramente identificando, a partir das experiências, quais os momentos considerados de inclusão ou exclusão e posteriormente sinalizando como os turistas gerem as suas próprias experiências. Conforme indicado na citação acima, o primeiro tema abrange quatro subtemas: Access to information, Wayfinding, Knowledge and attitudes of others e Travelling with a guide dog.

O primeiro subtema trata de dificuldades quando as informações não estão apresentadas em formato adequado, por exemplo, quando um restaurante não disponibiliza a opção de menus com letras impressas em formatos maiores ou outros formatos alternativos. O subtema “Encontrar os caminhos” (No contexto do estudo, Wayfinding tem a ver com a forma de encontrar o caminho para se chegar a determinado lugar e as dificuldades de locomoção encontradas por deficientes visuais em locais não familiares.) trata da necessidade que os turistas com deficiência visual têm de se deslocar em locais desconhecidos e da necessidade de indicações claras para ter acesso aos locais pretendidos. Apresentam como alternativa os indicadores de superfície de pisos táteis. O terceiro subtema tem a ver com as atitudes de outras pessoas para com os deficientes visuais, retratando a ignorância de pessoas do público em geral e de pessoas que prestam serviços, por exemplo, as hospedeiras de bordo que não conseguem agir naturalmente com os deficientes visuais, mostrando ignrância e inaptidão. Em alguns casos, as pessoas pensam que os deficientes visuais possuem uma deficiência adicional e muitas vezes falam mais alto ou muito devagar, por pensarem que não serão compreendidos. Por fim, o quarto subtema trata alguns itens indispensáveis para um Cão-guia durante uma viagem, pois além do espaço necessário ao cão, são necesários equipamentos adicionais: comida, prato e colchonetes.

O estudo ainda revelou que mesmo com a legislação em vigor a permitir a entrada de Cães-guia em diversos locais, ainda é possível verificar casos de discriminação, na Austrália, por exemplo. O segundo tema Tourists´management of their tourist experiences, relata como os turistas com deficiência visual, gerem as suas experiências turísticas. Desde o grande esforço para a preparação e organização até a consciência de que a paciência é um pré-requisito importante para uma boa viagem, pois muitas vezes a viagem pode não ocorrer como planeado.

Small, Darcy e Packer (2012, p.947) concluem que:

The person with vision impairment knows the tourist setting through a range of senses, with a focus on the auditory and tactile. This body moves across and through spaces, often unfamiliar, resulting in the physical sensation of increased anxiety and at times injury as the person comes into contact with unanticipated physical objects.

Neste sentido, reafirmam a importância dos outros sentidos do corpo para os deficientes visuais, principalmente a audição e o tato. Apontam que quando o corpo se move em locais desconhecidos ou que não estejam familiarizados, pode resultar numa sensação de ansiedade ou até mesmo provocar lesões ao entrar em contato com objetos inesperados.

De acordo com as experiências indicadas anteriormente, poderíamos-nos questionar qual seria a relevância dessas informações. Assim como Germ and Schield (1997) citados por Yau, McKercher e Parcker (2004, p.947) acreditamos que através de uma melhor compreensão das experiências turísticas de pessoas com incapacidade, a sociedade estaria mais ciente das necessidades dessas pessoas e a indústria turística usaria este conhecimento para ser capaz de fornecer serviços mais abrangentes e sem barreiras à medida das necessidades das pessoas com incapacidade. Consideramos agentes da indústria do turismo: o Ministério do Turismo, órgãos municipais, redes hoteleiras, agências de turismo, postos de turismo, museus, restaurantes e outras estruturas das cidades. A sensibilização desses agentes poderia resultar na diversificação de roteiros e ou rotas urbanas já existentes, por exemplo: rota das camélias, rota dos azulejos, rota do românico, rota do barroco, rota dos Judeus. Porém, essas rotas, inicialmente não atendem ao público com deficiência. Como planear roteiros para os deficientes visuais? Será que é preciso um novo roteiro ou reestruturar os já existentes? Um bom roteiro requer desde as informações dos locais a serem visitados até indicações de como deslocar-se, informações escritas em Braille ou em tamanhos grandes.

Acreditamos que a reestruturação de modelos já existentes facilita e otimiza o trabalho, aproveitando o que já foi feito anteriormente pelos órgãos competentes.

O estudo das experiências de pessoas com deficiência também envolve o entendimento do conceito de turismo acessível. Só o facto de perceber as necessidades encontradas durante as viagens não elimina futuras experiências negativas. Neste caso, procuramos entender o que é o turismo acessível e como ele pode ser aplicado no meio urbano. A partir do documento elaborado pela OMT que trata do turismo acessível para todos, destacamos alguns pontos fundamentais. Primeiramente, a sua definição diz que o turismo acessível envolve um processo de colaboração entre as diferentes partes interessadas. Permite às pessoas que necessitam de alguma forma de acesso facilitado, incluindo pessoas com mobilidade reduzida, deficientes visuais, deficientes auditivos e ou dificuldades de cognição, possam aceder aos locais, produtos, serviços e ambientes turísticos de forma independente e com equidade e dignidade. Outra questão que nos chamou a atenção tem a ver com a aplicação de infraestruturas e serviços, no que diz respeito à acessibilidade para todos.

O documento é bem claro ao afirmar que as recomendações indicam medidas adequadas para assegurar que as pessoas com deficiência tenham acesso, em igualdade de condições com os demais. Pode acontecer em diferentes ambientes e em instalações abertas ao público ou de uso público, em áreas urbanas e até em zonas rurais e costeiras.

As medidas estabelecidas para a acessibilidade estão contidas numa cadeia turística que está envolvida por alguns elementos, são eles: agentes ou agências de turismo, informação e publicidade (preparação, informações e reservas), ambientes urbanos e arquitetura, modos de transporte e estações, alojamento e restauração, atividades culturais (museus, teatros, cinemas) e outras atividades e ou eventos turísticos. Dentro destes elementos, destacamos as medidas indicadas para as atividades culturais, especificamente os museus e outros edifícios de interesse, as medidas ressaltam a importância de resolver os problemas de acessibilidade ao equipamento, seja com instalação de elevadores ou rampas de acesso. Quanto às informações no interior dos museus, devem levar em conta pessoas com deficiência auditiva ou visual, fornecendo as informações de forma escrita e também em formato de áudio. Outro elemento fundamental envolve a capacitação dos funcionários para acolher e servir todos os visitantes sem qualquer distinção, incluindo a comunicação com pessoas com deficiência auditiva. Ainda neste contexto, ressaltam que o turismo acessível para todos não é apenas a facilidade de acesso a pessoas com deficiência em espaços públicos e ou privados, mas também envolve a criação de ambientes dotados com desenho universal e que apoiam as pessoas com deficiências temporárias, famílias com crianças pequenas, idosos e até mesmo um ambiente seguro para os próprios funcionários do local.

Para facilitar o acesso em diferentes espaços e em diferentes situações durante a prática do turismo é preciso ter consciência do que é o turismo acessível, embora, já tenhamos visto não se tratar de uma questão exclusivamente de acessibilidade de forma física, alguns autores definem as suas conceções de acessibilidade e as suas prioridades, Michopoulou e Buhalis (2013, p.230) consideram quanto à acessibilidade em ambientes físicos que:

People with different impairments are faced with a variety of barriers. Examples of physical barriers include steps, stairs, and heavy doors for people with mobility impairment; inadequate lighting, poor color contrast, lackof tactile guide paths for visually impaired people; and a lack of induction loops and alternative fire alarm signals (e.g., vibration pad or flashing lights) for people with hearing impairments. These barriers make tourism experiences less accessible for people with disabilities or, in some cases, suggest that they cannot practice tourism at all.

Os autores mostram algumas barreiras que podem interferir em todo o processo da prática do turismo. A questão dos degraus, das escadas, as portas pesadas e tantos outros casos, dificultam a acessibilidade aos locais de interesse. Vale ressaltar que não se trata apenas de deficientes físicos, pessoas com mobilidade temporariamente reduzida: mulheres grávidas ou com carrinhos de bebe, idosos com bengalas ou pessoas em idade adulta que estão com alguma parte do corpo imobilizada, podem sofrer dificuldades ao tentar acessar prédios ou monumentos, caso não estejam devidamente acessíveis.


A cidade do Porto

Este capítulo tem como objetivo apresentar a cidade do Porto com elementos mais específicos como o turismo, a importância do Centro Histórico e as políticas de acessibilidade presentes na cidade do Porto. Dividimos este capítulo em três subcapítulos, o primeiro subcapítulo, intitulado: A cidade do Porto e o turismo, apresentando o importante papel do turismo para a cidade do Porto, a diversificação da oferta de roteiros e qual o cenário atual de projetos, investimentos, prémios e destaques da cidade. O segundo com o título O Centro Histórico do Porto e a classificação da UNESCO, onde apresentamos o Centro Histórico e suas principais características, dentre elas a sua classificação como Património Mundial da Humanidade e alguns elementos a considerar quanto à legislação patrimonial. No terceiro subcapítulo intitulado pensando o Porto a partir da sua acessibilidade, destacamos as principais intervenções realizadas na cidade do Porto com relação à acessibilidade e as ações da Provedoria Municipal dos Cidadãos com Deficiência.


A cidade do Porto e o turismo

A cidade do Porto ocupa uma área de cerca de 4000 ha, entre os paralelos 41º8’ N e 41º11’N e entre os meridianos 8º33’W e 8º41’W Greenwich. Segundo Monteiro (2001, p.4). a cidade “desenvolveu-se sobre uma plataforma ligeiramente inclinada para o oceano Atlântico cujas altitudes oscilam entre os 0m e os 160m”. Desta forma não podemos considerar uma cidade totalmente plana. Em seu amplo trabalho sobre a cidade do Porto, Fernandes e Vasconcelos (2002, p. 229) consideram que:

O porto afirma-se com a reconquista cristã, que se opõe à expansão mulçumana, e toma como seu senhor o Bispo D.Hugo (em 1114), (...) Socialmente a cidade do Porto está marcada pela proibição dos nobres nela residirem, ou mesmo pernoitarem, o que facilita a consolidação do poder do bispo. Por outro lado, o estabelecimento dos franciscanos e dominicanos, se fixam a ocidente, na margem direita do Rio da Vila (1233-38), (...).

Mesmo com as grandes disputas de território entre a Igreja e a Coroa portuguesa, o processo de crescimento do espaço urbano deve levar em consideração que a muralha exerceu um papel importante na estruturação da cidade, “pela fundamental importância das vias radiais e pelas características marcadamente geomórficas dos arruamentos, que resultam da progressiva urbanização de antigos caminhos.” (Fernandes e Vasconcelos, 2002, p. 231). A contextualização histórica da cidade do Porto tem a sua devida importância, porém decidimos explorar de um modo geral os aspectos históricos mais recentes e a caracterização do clima do município.

Em termos populacionais, segundo Porto Vivo (2005, p.3):

A grande área metropolitana do Porto é centro económico de uma região que influencia o grande noroeste peninsular português e galego assim atingindo um universo de 7 milhões de pessoas. A aglomeração metropolitana tem mais de 1,2 milhões de habitantes, a Baixa 70.000 e o Centro Histórico cerca de 13.000.

Outra característica importante destacada pelo Porto Vivo (2005, p.4) ressalta que o Porto “É, por natureza, capital do vinho – Porto, Douro e Verde (...) O que há de diferente e valioso na região passa necessariamente pelo Porto”. A junção de diferentes produtos estratégicos, equipamentos urbanos, localização geográfica e outros fatores, fazem do Porto a segunda cidade mais importante do país. O clima, por exemplo, é um fator a considerar para quem escolhe um destino para visitar. Neste sentido, quanto ao clima da cidade do Porto. Segundo Monteiro (2001, p.6):

Localizada, geograficamente, numa área, frequentemente, influenciada pela acção moderadora do mar, a cidade do Porto, reflecte, ao longo do ano, uma diversidade de mosaicos climáticos que, em média, se caracterizam por uma oscilação térmica entre os 20°C em Julho e Agosto e os 9°C em Dezembro e Janeiro e ocorrência de precipitação em cerca de metade dos dias do ano.

Outras duas características climáticas da cidade tem a ver com a duração do período do verão e do inverno. Os dias mais quentes do ano começam a partir do final de Junho e duram até o final de Agosto. Os períodos mais frios, tem início no final de Novembro e prolongam-se até o final de Fevereiro (Monteiro, 2001). Essas informações são imprescindíveis muitas vezes para a utilização no planeamento de propostas de atividades na cidade, para os dias em que o tempo estará favorável à realização de atividades ao ar livre, como por exemplo, ir à praia, fazer caminhadas pela cidade, participar de festivais de verão, feiras, dentre outros. [...]


Percursos para pessoas com deficiência visual no Centro Histórico do Porto

A proposta destes percursos tem como principal objetivo atuar como um exemplo da possibilidade que pessoas cegas e com baixa visão devem ter no acesso universal às vias públicas e aos diferentes espaços e monumentos.

Para a elaboração dos percursos, como já referido na metodologia deste estudo, levamos em consideração a área do Centro Histórico que corresponde à classificação de Património Mundial. A partir do mapa turístico oficial distribuído pelos postos de turismo definimos pelo menos seis critérios para a montagem dos percursos, incluindo a seleção das ruas. Os critérios são: tempo do percurso; distância percorrida; pontos de interesse; qualidade pedonal; ponto de partida e chegada e formato do percurso.
 

Mapa A
Mapa A: Mapa Centro Histórico do Porto com delimitação do Percurso I – Azul e II - Vermelho. Fonte: Elaboração própria a partir da Base do mapa do Posto de turismo - Câmara Municipal do Porto.


Inicialmente definimos que o tempo ideal para cada percurso não deveria ultrapassar 4 horas e a distância percorrida seria de aproximadamente 3 quilómetros. Para a escolha dos pontos de interesse levamos em consideração os patrimónios históricos e culturais, igrejas, praças, miradouros, lojas de artesanato e souvenir e restaurantes temáticos.

Definimos que as ruas seriam escolhidas de acordo com a qualidade pedonal, ou seja, as ruas que apresentassem uma menor quantidade de barreiras físicas como; escadarias, desníveis muito acentuados e passeios estreitos. Para os pontos de partida e de chegada, consideramos importante a escolha de pontos de referência significativos, como a estação de comboios de São Bento, pelo seu importante papel histórico e de confluência de transportes e a Catedral/Sé pela sua proximidade com o posto de turismo, a possibilidade de uma bela vista sob a cidade e a facilidade de transportes. Com relação ao formato do percurso, entendemos que o formato circular torna-se adequado ha medida em que indicamos o ponto de partida e de chegada em locais de grande oferta de transportes públicos e privados. De referir que todos os critérios têm como objetivo proporcionar, na medida do possível, conforto e segurança para os turistas com deficiência visual, porém algumas ruas ainda apresentam pontos críticos e devem ser percorridas com atenção.

Os percursos não incluem a entrada nos monumentos, com a exceção do Miradouro da Vitória no Percurso I. Entendemos que a entrada nos monumentos levaria a outros desdobramentos do estudo, como por exemplo, a discussão sobre a acessibilidade em ambientes internos, públicos e privados, não correspondendo ao nosso estudo, que analisa o ambiente externo, nomeadamente a acessibilidade em vias públicas.

A indicação da direção do início dos percursos pode ser entendido como um elemento facilitador e gera um ponto de referência para o deslocamento do deficiente visual. Ao mesmo tempo em que os dois percursos apresentam pontos coincidentes, salientamos que cada percurso contém a suas peculiaridades. Para a apresentação dos percursos fazemos uma divisão em dois temas; no primeiro, intitulado, Caminhos a seguir, indicamos as direções, ruas e pontos de interesse a percorrer. No segundo, intitulado experiências proporcionadas, indicamos algumas experiências que podem ser apreciadas pelos turistas com deficiência visual e que demonstram a relevância de percursos para este público. Para uma melhor visualização apresentamos os mapas (Mapa A e B) que indicam a delimitação dos percursos e apresentamos algumas imagens para exemplificar algumas situações citadas no decorrer do texto.
 

Mapa B
Mapa B: Delimitação dos Percursos I (azul) e II (vermelho) – Centro Histórico do Porto

 

Percurso I – (Mapa B):

Caminhos a seguir: a proposta é que o percurso tenha início na Estação de comboios de São Bento localizado na Avenida de D. Afonso Henriques, seguir em direção a Igreja dos Congregados e virar a esquerda em direção à Torre dos Clérigos na Rua dos Clérigos, seguir em frente até chegar à Rua da Assunção; O próximo ponto é o Centro Português de Fotografia (antiga Cadeia da Relação). Para continuar o percurso basta seguir a Rua de São Bento da Vitória, passar pelo Mosteiro de São Bento da Vitória, pela Igreja de Nossa Senhora da Vitória, seguir em frente e entrar no Miradouro da Vitória, um local de propriedade privada, mas que se encontra aberto para a apreciação da paisagem. O percurso continua na Rua de São Miguel, ao virar à esquerda passar por um trecho da Rua das Taipas e ao seguir em frente continuar na Rua do Belmonte. Virar a direita na Rua de Ferreira Borges e passar pelo Mercado de Ferreira Borges, Instituto dos Vinhos do Douro e Porto, Palácio da Bolsa e Estátua do Infante na Praça do Infante D. Henrique. Atravessar a Rua do Infante D. Henrique, passar pela Igreja de São Nicolau, seguir em frente e virar à direita na Rua da Alfândega e passar em frente à Casa do Infante. Seguir em frente e virar à esquerda e passar pelos Cais da Estiva e Ribeira, passar pela Praça da Ribeira. Seguir em frente na Rua de São João, virar a direita na Rua de Mouzinho da Silveira e terminar o percurso no topo da Rua junto à entrada da estação de Metro – São Bento.

Experiências proporcionadas: com a realização deste percurso o turista terá diferentes experiências dependendo da altura do ano e sentirá as diferenças que existem ao longo do caminho e a atenção a alguns detalhes. Ao começar pela estação de comboios de São Bento, poderá sentir o cheiro das castanhas assadas, sentir um grande fluxo de pessoas e carros a passar. Na Rua de Assunção é preciso ter em atenção a passagem do Elétrico. Ao sair da Rua de Assunção e ao entrar na Rua de São Bento da Vitória é preciso ter cuidado, pois não há limites bem definidos quanto ao que é passagem de veículos ou de peões. A entrada no Miradouro da Vitória tem como principal característica levar ao turista uma experiência única de apreciação da paisagem. Neste ponto é possível ter um panorama do encontro entre a cidade do Porto e a cidade de Vila Nova de Gaia, que estão separadas pelo Rio Douro. Neste espaço é preciso ter atenção a falta de condições de segurança, pois o terreno encontrase desnivelado e o muro de proteção tem pouca altura. Ao continuar o percurso e descer pela Rua de São Miguel, Rua das Taipas e Rua do Belmonte proporcionam-se momentos de experiência com os residentes. O som de músicas em alto volume em algumas casas, algumas senhoras a conversar através das suas janelas, os cachorros a ladrar, as gaivotas a levantar voos rasantes em busca de comida, revelando algumas características daqueles que residem neste lugar. Descer a Rua de Belmonte pode ser considerado uma aventura ou simplesmente um ponto de perigo eminente e a atenção deve ser redobrada, pois as ruas são extremamente estreitas e não permitem a circulação de pessoas que seguem em sentidos opostos, sendo muitas vezes necessário desviar e sair do passeio seguindo pelas vias por onde passam os carros. Na Rua de Ferreira Borges, para além dos pontos de interesse a Praça do Infante D. Henrique é um ponto estratégico, pois a presença de árvores, relvado e bancos são opções de descanso. Na travessia da Rua do Infante D. Henrique o turista terá a oportunidade de atravessar por uma passadeira com sinalização tátil, a única existente por todo o percurso. Após a passagem pela Rua da Alfândega, a chegada ao Cais da Estiva e da Ribeira pode ser considerada um dos pontos mais relevantes do percurso.

Neste ponto o turista poderá ouvir o som e sentir a brisa do rio, perceber a movimentação das pessoas e ouvi-las nas esplanadas a beber e comer. O cheiro de sardinha assada, de iscas fritas, pode proporcionar uma agradável experiência ao olfato e ao paladar. Neste ponto também é preciso redobrar a atenção, pois não existe sinalização ou qualquer barreira entre o passeio e o Rio Douro. Para finalizar o percurso a subida pela Rua de São João pode ser considerada cansativa devido a sua inclinação. A passagem pela Rua de Mouzinho da Silveira em direção à estação de Metro – São Bento leva a conhecer a grande e variada oferta de lojas de artesanato local e nacional, alguns bares e pequenos restaurantes. A rua também apresenta uma pequena inclinação, porém por apresentar um passeio de largura generosa, proporciona uma passagem confortável e sem grandes obstáculos físicos.

De um modo geral, o Percurso I apresenta um nível médio e elevado de dificuldade para a sua realização, pois algumas ruas apresentam uma inclinação considerável e ao subí-las pode gerar o cansaço de alguns turistas, dependendo de fatores como idade ou condições físicas. O tempo médio para a realização de todo o percurso é de 4 horas.

 

Percurso II – (Mapa B)

Caminhos a seguir: a proposta é que o percurso tenha início na Catedral/Sé onde a paisagem pode ser apreciada no Miradouro em frente ao Pelourinho. Para dar continuidade ao percurso, descer a Avenida de D. Afonso Henriques e seguir em direção a Estação de comboios de São Bento, em seguida virar na Rua de Mouzinho da Silveira e seguir em frente até virar à esquerda na Rua de São João. Seguir até a Praça da Ribeira. Ao chegar no Cais da Ribeira virar a esquerda e seguir em direção a Ponte Luis I. Indicamos a travessia da Avenida Vimara Peres até chegar ao Funicular dos Guindais. No topo do Funicular atravessar a Rua de Saraiva de Carvalho, passar pelo Largo 1.º de Dezembro, próximo à Igreja de Santa Clara, seguir em frente até chegar ao ponto final na Calçada de Vandoma.

Experiências proporcionadas: com a realização deste percurso o turista terá a oportunidade de passar por pontos de interesse relevantes. No ponto inicial, Catedral/sé para além da apreciação visual já indicada no Miradouro em frente ao Pelourinho o turista poderá através de experiências táteis, verificar a espessura e rugosidade das escadarias e da parede externa da Catedral e verificar o material utilizado para a construção destes monumentos históricos. Ao descer pela Avenida de D. Afonso Henriques pode vivenciar um passeio agradável, por conta da extensa largura do passeio. Descer pela Rua Mouzinho da Silveira, conforme sinalizado no Percurso I, é agradável devido à largura do passeio, a diversidade de lojas de artesanato e pequenos restaurantes. Após a descida da Rua de São João e chegada a Praça da Ribeira, também sinalizado no Percurso I, é possível sentir no Cais da Ribeira a brisa do Rio Douro, experimentar a diversidade da culinária portuguesa nos diversos restaurantes que estão presentes nos Cais da Ribeira e dos Guindais. Para dar continuidade ao percurso a experiência de subir no Funicular dos Guindais pode proporcionar mais um momento de apreciação da paisagem. O funicular desempenha um importante papel de auxílio na deslocação dos turistas, evitando maiores esforços físicos, tão necessários para subir até chegar novamente ao ponto de partida. Com a chegada ao topo do funicular dos Guindais, o turista ainda passa pelo Largo 1º de Dezembro, onde encontra árvores e bancos, sendo interessante para paragem e possível descanso. Ao seguir a Rua de Saraiva de Carvalho em direção a Catedral chegará na Calçada de Vandoma. Com o fim do percurso o turista poderá descer novamente a Avenida de D. Afonso Henriques e verificar as diferentes opções de transportes disponíveis no Centro Histórico.

De um modo geral, o Percurso II apresenta um nível fácil de dificuldade para a sua realização, a maior parte das ruas são percorridas descendentemente e dependendo do ritmo de cada turista, o tempo aproximado para a realização de todo o percurso é de 3 horas.

A ideia de propor dois percursos tem como finalidade oferecer ao turista a possibilidade de escolher o percurso mais adequado para as suas necessidades. Essa escolha pode acontecer a partir da análise de algumas variáveis como: o tempo disponível e os pontos de interesse do turista.

A proposta de percursos que não considera a entrada nos monumentos não é inédita, algumas empresas especializadas em turismo oferecem percursos nas cidades onde os guias turísticos descrevem os monumentos e explicam a história da cidade, desta forma, conseguem apresentar ao turista que não dispõe de tanto tempo e pretende passar pelo maior número de pontos de interesse. Se o ponto for realmente do interesse, o turista poderá voltar àquele local em outro momento. Se o turista não tiver um guia turístico, também pode utilizar guias impressos ou aplicativos. Para um turista deficiente visual, a não entrada nos monumentos pode acarretar a falta de interesse pelo percurso, porém, a experiência pode se tornar positiva se houver material disponível que auxilie tanto na deslocação pelas ruas como dentro dos monumentos.

Os percursos aqui apresentados têm como diferencial a proposição de experiências mais intimistas. Sabe-se que uma pessoa cega ou com baixa visão, utiliza a audição como forma de orientação no espaço. Durante todo o percurso a atenção do turista com deficiência visual é sempre redobrada, em muitos casos, por não estar familiarizado com o local visitado. A ideia destes percursos é também chamar a atenção para que o turista possa refletir e aproveitar cada momento. Em determinados locais, por exemplo, Miradouro da Vitória ou no terreiro da Catedral/Sé, as pessoas têm uma vista privilegiada da cidade, acreditamos que uma pessoa cega deve conhecer esses locais, e que estes estejam adaptados para recebê-las. Essa adaptação pode acontecer com a colocação de placas em alto-relevo com a caracterização da paisagem ou a descrição de alguns elementos em Braille. Mesmo sem a possibilidade de ver a paisagem, as pessoas com deficiência visual também podem senti-la, ouvindo o som de aves ou sentindo o vento no rosto.

Para além das experiências no Miradouro ou em pontos altos da cidade, durante os percursos é possível perceber as diferentes dinâmicas no Centro Histórico. Ouvir o sotaque peculiar das pessoas que moram na baixa do Porto, sentir o cheiro de castanha assada ou de sardinha em diferentes alturas do ano, ouvir o barulho dos barcos a passar pela ribeira, ouvir o burburinho de tantos turistas juntos na praça da ribeira, o “pregão” (espécie de grito das mulheres a tentar chamar a atenção dos clientes para comprar o seu artesanato.) Para além destas experiências podem degustar um bom vinho ou saborear uma boa comida típica, obtendo uma experiência positiva do lugar.


Considerações finais

O interesse pelos estudos relacionados com o turismo para as pessoas com deficiência visual partiu de uma inquietação, onde percebemos a existência de pessoas que não conseguem ter acesso aos diferentes serviços e bens culturais por conta de barreiras de acessibilidades em vias públicas e ambientes internos. Esta dissertação teve como principal objetivo propor percursos turísticos para pessoas com deficiência visual no Centro Histórico da cidade do Porto, nomeadamente nas vias públicas. Com a finalidade de tornar esses percursos acessíveis, consideramos legítima a realização do diagnóstico das barreiras encontradas durante os mesmos, sendo os resultados encaminhados em forma de proposta aos órgãos responsáveis pela manutenção das vias públicas da cidade do Porto.

Quando decidimos trabalhar o turismo para pessoas com deficiência visual, estávamos cientes de algumas dificuldades que poderíamos enfrentar. A escassa bibliografia em português e inglês ligadas diretamente às experiências turísticas deste público específico, fez-nos perceber um campo de estudos ainda por crescer. Para este estudo decidimos trabalhar com algumas questões que consideramos fundamentais para o entendimento deste processo, dentre elas a deficiência visual e o turismo, o planeamento nas cidades e as políticas públicas de acessibilidade. Em termos mais específicos trabalhamos a cidade do Porto e o seu Centro Histórico.

Para o referencial teórico entendemos que a deficiência num dos sentidos seria o indicativo para percebermos a importância que os sentidos têm na construção da relação entre o Homem e o meio em que vive. Essa relação pode acontecer desde experiências quotidianas até às experiências turísticas, envolvendo as sensações do corpo humano em diferentes ambientes, recebendo estímulos de diferentes fontes, através dos sons, do toque, do cheiro, do sabor e de elementos visuais. (Tuan, 1980; Kanashiro, 2003; Sousa, 2007; Torres & Kozel, 2010).

Quanto à importância da experiência turística para pessoas com deficiência visual, os elementos analisados vão desde o estudo e diagnóstico das barreiras enfrentadas pelos deficientes até ao direcionamento destes estudos para o investimento assertivo por parte da indústria do turismo. Os estudos reforçam a ligação tanto para o desenvolvimento económico, como para a criação de uma sociedade inclusiva, através da diminuição de barreiras físicas, tecnológicas e psicológicas. (Yau, McKercher & Packer, 2004; Richards, Pritchard & Morgan, 2010; Small, Darcy & Packer, 2012).

Neste estudo os dados estatísticos internacionais e nacionais serviram para percebermos de certa forma a dimensão da deficiência visual no mundo e em Portugal.

A OMS afirma a existência de 245 Milhões de pessoas com deficiência visual no mundo. Já em Portugal, de acordo com o INE, existem aproximadamente 27 mil pessoas que afirmam não conseguir “Ver”. A partir destes dados também foi possível estudar como o turismo tem sido desenvolvido em termos de políticas e promoção da acessibilidade de alcance mundial e nacional.

Com relação ao planeamento das cidades, ficou evidente com o passar das décadas as transformações no que diz respeito às formas e visões de planear as cidades. (Partidário,1999). Já as políticas públicas de acessibilidade em Portugal, ainda aparecem como casos excepcionais, quando deveriam ser apresentados como regras. Verificou-se o atual investimento na elaboração de planos de acessibilidade nas cidades, mas a aplicação destes ainda pode ser considerada pouco significativa.

A escolha da cidade do Porto e do seu Centro Histórico para a realização deste estudo deve-se principalmente a alguns fatores como a importância turística da cidade e o seu crescimento recente, bem como a sua relevância histórica e importância económica no cenário regional e nacional. O facto de residir nesta cidade também foi um fator importante para a tomada de decisão, pois facilitou o trabalho de campo num território já conhecido. Com relação ao que foi estudado sobre a cidade, demos prioridade a alguns elementos históricos e uma breve caracterização da sua localização.

Destacamos o Centro Histórico, principalmente quanto à sua classificação como Património Mundial da Humanidade, atribuída pela UNESCO.

A ideia de propor percursos para pessoas com deficiência visual, ficou ainda mais evidente quando percebemos que na cidade do Porto a oferta de percursos e de serviços para este público ainda é precária. Como forma de ligação entre o estudo empírico e a parte prática, definimos que a Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal (ACAPO) seria a associação ideal para o apoio e desenvolvimento dos objetivos estabelecidos, por se tratar de uma associação de referência pelo seu trabalho com as pessoas com deficiência visual em Portugal.

Para nortear a nossa pesquisa o cumprimento dos procedimentos metodológicos estabelecidos foi fundamental. O levantamento bibliográfico, a definição da área de estudo e o contato com as instituições de interesse, possibilitaram o aprofundamento do estudo e o retorno de profissionais da temática envolvida, qualificando o estudo proposto como uma iniciativa positiva e importante para o desenvolvimento e requalificação urbana, para além da oportunidade de sensibilizar as pessoas quanto às barreiras enfrentadas pelos deficientes visuais.

As visitas de reconhecimento da área de estudo foram importantes para conhecer a mesma e posteriormente elaborar a proposta dos percursos, tendo por base os critérios anteriormente explicados. Com os percursos definidos, realizamos visitas mais constantes para a verificação das barreiras existentes em toda a sua extensão. As visitas foram necessárias, para o possível surgimento de barreiras ainda não identificadas.

Em termos de entrevistas, consideramos que a aplicação de entrevistas semiestruturadas permitiu a fluidez das conversas e a obtenção de dados qualitativos.

Algumas entrevistas não foram referidas no decorrer da dissertação, pois as mesmas tinham como finalidade perceber questões mais práticas do dia a dia de uma pessoa com deficiência visual, não interferindo diretamente na construção e análise do percurso.

Durante as entrevistas e leituras mais aprofundadas, percebemos que a definição de termos a utilizar na tese e no próprio tratamento com as pessoas cegas e com baixa visão, seria relevante. No início tratávamos os cegos como invisuais, porém o termo cego foi apresentado como a forma mais adequada e aceite pelas pessoas cegas, visto que não há qualquer constrangimento para a utilização do mesmo. Esta situação é semelhante no Brasil, mas pode variar noutros contextos geográficos. Ainda quanto à metodologia, definimos que seria importante a conversa com os deficientes visuais da ACAPO com a finalidade de perceber quais as experiências em termos de atividades turísticas e realização de percursos. Por uma série de fatores administrativos da ACAPO a conversa aconteceu de forma tardia no desenvolvimento desta investigação, por tanto, por uma questão de tempo hábil para a conversa, realizamos um focus group, reunindo 8 associados. Em termos de dados obtidos, consideramos positivo e os mesmos foram utilizados para a construção de um perfil básico do grupo. Porém, acreditamos que a realização de vários focus group com outros grupos de associados da ACAPO poderia gerar novas perspetivas diante de um mesmo assunto.

Em relação ao teste dos percursos, também por uma questão de tempo disponibilizado pela ACAPO, conseguimos realizar apenas o teste completo do Percurso I (mais extenso). O segundo percurso (Percurso II) possui apenas o teste das ruas que coincidem com o Percurso I. Entendemos que a não realização do teste do Percurso II, não invalida a proposta, pois as condições físicas encontradas em ambos os percursos são similares. O teste permitiu a confirmação de alguns elementos já identificados a priori e a identificação por parte do grupo de barreiras ainda não identificadas. Durante a realização do teste, nomeadamente no Miradouro da Vitória, evidenciamos a proposta de um percurso mais intimista, valorizando momentos de apreciação da paisagem ao fazer sentir os sons e os cheiros ao redor daquele lugar. Desta forma evidencia-se que as experiências podem ser vividas através dos diferentes sentidos (Rodaway, 2002).

Em termos de dificuldades ao longo da pesquisa, conforme já referido, o escasso material bibliográfico pode ser considerado um elemento desfavorável para a construção e análise do estudo. Para a realização das entrevistas a Provedoria Municipal dos Cidadãos com Deficiência não apresentou dificuldades e mostrou-se disponível para o esclarecimento de possíveis dúvidas. A ACAPO também se mostrou aberta para o apoio e disponibilização de informações, sendo a única dificuldade a efetivação da discussão com os seus associados e a marcação da data para o teste dos percursos. Apesar de não ter construído mapas mais sofisticados, acreditamos que os mapas aqui apresentados conseguem transmitir de forma fiável as ideias propostas, reafirmando que se podem utilizar ferramentas simples e acessíveis na construção destes materiais de apoio.

De uma forma geral a combinação entre o aprofundamento das leituras, as conversas estabelecidas com diferentes profissionais, a realização do focus group e o teste do percurso, permitiram a visualização e o diagnóstico, ainda que de forma local, das barreiras que as pessoas com deficiência visual enfrentam nas vias públicas, neste caso as vias que fazem parte do Centro Histórico do Porto. A partir destas constatações, torna-se imprescindível o encaminhamento deste diagnóstico às autoridades competentes, representadas aqui pela Provedoria Municipal dos Cidadãos com Deficiência da cidade do Porto, visto que um dos seus papéis encontra-se na intermediação entre as necessidades dos cidadãos com deficiência e a efetivação de ações nomeadamente no que se refere à requalificação de vias públicas.

Durante a criação da proposta dos percursos, tivemos que optar pela análise das vias públicas, excluindo a análise quanto à acessibilidade dos ambientes internos (museus, igrejas, restaurantes), esta decisão teve como base a constatação de que não haveria tempo suficiente para o levantamento e diagnóstico de qualidade do ambiente interno e externo. Sendo a análise do ambiente externo uma prioridade no que diz respeito às possibilidades de requalificação, por depender dos órgãos públicos, enquanto que as requalificações dos ambientes internos dependem dos proprietários de cada estabelecimento.

Torna-se fundamental referir a importância da continuidade deste estudo.

Poderíamos indicar o desenvolvimento de outros estudos com a aplicação desta mesma temática porém em outras cidades, não somente nos centros históricos, bem como a realização de estudos comparativos ou estudos que combinem a análise de ambientes internos e externos, dentre outros. Em termos de metodologia poderíamos considerar a realização de mais focus groups com um mesmo grupo ou diversos grupos de pessoas com deficiência visual, a realização de vários testes de percursos ou atividades em conjunto com os deficientes visuais, a analise das dificuldades existentes nos percursos a partir das diferentes condições climáticas no decorrer de um determinado ano e por fim a análise de empresas especializadas em turismo acessível. Ao encaminhar este estudo para um futuro pesquisador, é preciso salientar que para a aplicação do estudo feito é necessário a união de esforços dos órgãos competentes e dos cidadãos, por tanto, a sensibilização para com as pessoas, torna-se fundamental para o sucesso de uma pesquisa.

 

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excerto de:

'Turismo e Acessibilidade para os Deficientes Visuais: proposta de percursos no Centro Histórico do Porto, Portugal'.
autora: Ivna Carolinne Bezerra Machado
Universidade do Minho | Instituto de Ciências Sociais (2014)
Tese de Mestrado | Mestrado em Geografia
Área de especialização em Planeamento e Gestão do Território
Trabalho efectuado sob a orientação do Professor Doutor João Carlos Vicente Sarmento e co-orientação do Professor Doutor Christian Dennys Monteiro de Oliveira

fonte do texto e imagens: http://repositorium.sdum.uminho.pt/

 

 

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22.Jun.2018
Maria José Alegre