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 Sobre a Deficiência Visual

Orientação e Mobilidade para Crianças

Vera Lúcia Felippe & João Álvaro de Moraes Felippe
 


A Orientação e Mobilidade é perfeitamente aplicável tanto a crianças, como a jovens e pessoas adultas, levando-se em consideração a maleabilidade do programa e o respeito ao princípio da individualidade. Entretanto, no caso de crianças pequenas, bebês ou ainda na fase pré-escolar, devemos também considerar algumas peculiaridades no que diz respeito à habilidade de se orientar e se movimentar no meio ambiente.

Na realidade, a orientação e mobilidade deveria iniciar-se juntamente com o atendimento da criança nos programas de educação e Intervenção Precoce. Já nesta fase, através de uma intervenção profissional com a efetiva participação da mãe e das pessoas que lidam com o bebê, alguns dos pré-requisitos da orientação e mobilidade estarão sendo desenvolvidos, tais como, a formação de conceitos, envolvendo a imagem corporal, o uso das sensações, das percepções e dos movimentos físicos através dos jogos corporais, massagens e manipulações em que serão utilizados a cabeça, o tronco e os membros através de flexões, extensões, rotações e circunduções.

À medida que a criança cresce e se desenvolve, deve ser incentivada e encorajada a aprender a explorar o mundo que a cerca. Inicialmente, a criança deficiente visual recebe as informações mais importantes através do outro, principalmente da mãe: seu cheiro quando se aproxima, sua voz quando fala ou canta o seu toque quando abraça, dá banho, troca fralda ou a massageia suavemente com as mãos.

Para a criança, o ambiente é qualquer lugar que possa conhecer e com o qual possa estabelecer algum tipo de relação mesmo que seja no colo da mãe. Um dos primeiros ambientes com o qual a criança estabelece relações é o interior do seu berço. Depois vem o quarto, o banheiro, sala, cozinha, etc. Cada um desses lugares tem características diferentes e que devem ser mostradas à criança pela verbalização, pelo enxergar (quando tem algum resíduo visual), pelo tocar, manipular, explorar tátil e cinestésicamente, ouvir e cheirar. Quando a criança adquire o comportamento verbal, a nomeação contribuirá para a formação da imagem corporal facilitando também o desenvolvimento de conceitos durante a exploração dos novos ambientes. Não devemos, porém, esquecer a citação de Cutsforth (1951) de que o conhecimento apenas pela verbalização é a irrealidade verbal do cego.


No colo

Enquanto o bebê não se locomove sozinho, ele aprende as primeiras habilidades de orientação no colo da mãe. Adapta-se aos braços de quem o segura e pode se familiarizar com aquilo que está dentro desse campo de ação. Ele pode tocar no seu berço, em mobiles e brinquedos próximos e isso irá ajudá-lo a se sentir orientado no futuro. Ele pode tocar em portas de armários, portas dos cômodos, maçanetas e trincos, acender e apagar as lâmpadas acionando os interruptores, molhando as mãos na água da pia, conhecer os odores e sons comuns ao ambiente doméstico, etc. Devemos estar atentos, pois, enquanto algumas crianças irão explorar ativamente e por iniciativa própria, outras precisarão ser encorajadas.


Os deslocamentos

A medida que a criança começa a rolar, rastejar e engatinhar, novas descobertas vão acontecendo. Todavia, situações de risco também vão surgindo o que obriga as pessoas que interagem com a criança a se preocuparem com a proteção adequada para esses deslocamentos. Proteção adequada deve ser entendida não como uma forma de se evitar que a criança conheça os riscos, mas como uma forma de se prevenir contra acidentes mais contundentes, que a fariam adquirir medos desproporcionais e perder a confiança em si mesma e nos outros.

Colocar brinquedos sonoros à frente e ao lado da criança vai ajudá-la a encontrá-los com maior facilidade. Posteriormente, é importante movimentar os brinquedos de um lado para outro, com o objetivo de encorajar a criança a se deslocar para localizá-los.

As tentativas e o sucesso de virar o corpo de um lado para o outro e encontrar o brinquedo são fundamentais para a confiança e motivação na exploração do ambiente e para os primeiros deslocamentos. À medida que aumenta a confiança e o interesse, a criança moverá livremente o corpo, rolando, rastejando e ampliando as suas possibilidades de exploração A forma de dizer que está à vontade é quando não se agita, não reclama e pode se voltar para qualquer lado para explorar. Já nessa fase, as áreas externas são fontes preciosas para novas experiências: odores variados, novas texturas e uma enorme variedade de sons, como, por exemplo, cheiro de terra e grama molhada, flores e vegetação, fumaça, churrasco, deitar, rolar, sentar e pisar na grama, na areia, na terra, os sons de veículos, buzinas, o canto dos pássaros, etc.

Após rastejar, a criança deve estar preparada para engatinhar o que trará maior liberdade para os seus deslocamentos. Ela fica de quatro e balança o corpo para frente e para trás curtindo novas sensações. Descobrindo a locomoção dessa maneira, ela passa a explorar ainda mais o ambiente, encontrando seus brinquedos no chão, descobrindo pisos diferentes, passando por baixo de móveis, localizando paredes e portas, etc. Nesse período, a criança poderá usar um bonezinho de aba dura o que garantirá melhor proteção para o seu rosto, mas todo o processo de intervenção precoce poderá ajudar quanto à percepção de obstáculos pelo reflexo auditivo. Freqüentemente, crianças com pouca ou nenhuma visão tendem a abaixar o rosto. É importante encorajá-las a olhar para frente, mantendo a cabeça erguida, o que ajudará a fortalecer os músculos do pescoço e ombros. Nessa etapa, já são introduzidos alguns procedimentos para autoproteção. A criança aprende a usar as mãos, antebraços e braços para garantir alguma proteção frontal no seu deslocamento.

Da mesma forma que foram fixados brinquedos ao berço, objetos familiares e significativos poderão ser postos em alguns pontos da casa para serem usados como pontos de referência, facilitando a orientação. Os pais e as pessoas que convivem com a criança, devem ajudá-la a descobrir alguns canais de circulação, criando caminhos, usando os móveis e sons familiares como pontos de referência, estabelecendo relações posicionais nos cômodos e entre eles. A criança estará sendo preparada para definir as primeiras rotas dentro de casa.

Ela aprenderá mais fazendo algumas coisas por si mesma, encorajada pela família, que a observa e se sente gratificada. Depois de algumas tentativas, erros e acertos, se sentirá especialmente orgulhosa de si o que favorecerá o desenvolvimento da auto-confiança, auto-estima e independência.

Uma situação que freqüentemente causa grande preocupação aos pais são as escadas. A criança gosta de subir e descer escadas engatinhando. Os pais devem ensiná-la a sentar no primeiro degrau e subir sentando em cada degrau subseqüente, deslocando-se de costas. Para descer, a criança deve sentar no primeiro degrau e proceder como na subida, mas com deslocamento de frente. A criança deve ser incentivada a subir e descer de almo-fadas, móveis e brinquedos em play-grounds, o que em muito contribuirá para o seu equilíbrio e confiança nos deslocamentos em diferentes planos. Uma sugestão é colocar um portão que impeça o acesso à escada quando fora do controle do adulto. Nessa fase, um acidente sério na escada poderá prejudicar consideravelmente todo o processo em busca da autonomia.

Finalmente a criança começa a andar. Mais madura, estável emocionalmente e com um repertório cognitivo, perceptivo e motor rico pelas experiências passadas, ela estará pronta para interagir com maior eficiência e segurança nos deslocamentos e exploração dos ambientes. Ela pode começar a usar o rastreamento com a mão nas paredes, móveis e corrimãos. É hora de verificar o ambiente quanto à segurança, eliminando os possíveis obstáculos aéreos na altura da criança, quinas e arestas perigosas, móveis quebrados, etc. A criança responderá melhor às solicitações quanto ao uso das autoproteções e método de familiarização com os ambientes.

Devemos nos reportar a Processo e Método - Ambientes Internos como referência para todas as possibilidades desse momento. Inicialmente, a criança poderá se deslocar acompanhando as paredes. Posteriormente, poderá acompanhar um adulto ou mesmo uma outra criança, o irmãozinho por exemplo, já usando alguns dos procedimentos para o guia vidente, fazendo o agarre no pulso do acompanhante. Isto facilitará para o passo seguinte, que serão os deslocamentos sem nenhum apoio de mão. Uma vez que a criança já caminha independentemente sem o apoio das mãos, já brincou de empurrar cadeiras, carrinhos de boneca, rolar rodinhas com bastão, usar o raquetão, etc, chegou a hora de se pensar na bengala.


O uso da bengala - um outro capítulo à parte

A criança está andando por toda a casa, por toda a sala de aula, por outros ambientes familiares e seguros. Como poderá se locomover para outras áreas que tenham desníveis constantes ou presença de obstáculos repentinos na altura do chão sem depender de outras pessoas?

É exatamente neste momento que a criança poderá se beneficiar da utilização da bengala longa, um simples bastão, que mesmo com todo o avanço tecnológico, ainda se traduz como o mais eficiente instrumento para dar independência à mobilidade da pessoa portadora de deficiência visual. A bengala funcionará como uma extensão tátil-cinestésica para transmitir à criança uma riqueza de informações tal e qual ela teria se caminhasse passando a mão no chão.

A bengala também será um anteparo eficiente para possíveis choques contra objetos e pessoas que se encontrem na sua linha de caminhada. O uso da bengala será o começo de uma nova etapa para a liberdade da criança. Ela deverá ser encarada como uma nova e boa amiga. A introdução precoce do uso da bengala para a criança deficiente visual tem favorecido sua melhor aceitação tanto pela criança como pela família e vai deixando de ser uma curiosidade também no ambiente escolar, com professores, funcionários e alunos encarando-a de forma mais natural e positiva.

Para crianças com visão residual bem aproveitável nas atividades acadêmicas mas sem eficiência para a percepção de desníveis e detecção de obstáculos ao nível do chão, o uso da bengala tem trazido segurança e independência. Com relação às técnicas a serem desenvolvidas com o uso da bengala, o importante a ser considerado é que inicialmente sua manipulação deverá ser feita de forma bastante simples mas com segurança. A criança aprenderá a empurrá-la à frente do corpo numa posição semelhante à técnica diagonal. Depois, ela poderá ser conduzida em movimentos constantes de varredura, com a ponteira em contato permanente com o chão, descrevendo já um arco de proteção. Neste início, uma boa estratégia é amarrar guizos ou outros pequenos objetos que produzam ruído na ponteira da bengala. Isto ajuda a manter a ponteira no chão. Devemos ter claro que aprender a usar a bengala não é diferente de aprender qualquer outra habilidade, o que requer respeito aos princípios da aprendizagem motora e ao ritmo da criança. A medida que a criança consegue dominar as manipulações preliminares, passamos a propor técnicas mais avançadas. Finalizando, perguntamos: Qual a idade ideal para a introdução da bengala na vida da criança deficiente visual? Não podemos responder. Ou responderíamos, um tanto levianamente, aos três ou quatro anos. Todavia, estaríamos cometendo a impropriedade de desrespeitarmos um princípio por nós citado diversas vezes, o da individualidade.

Cada criança tem seu ritmo, sua história e devemos respeitá-la. Ao pensarmos na bengala, devemos analisar criteriosamente cada caso. Queremos reforçar a idéia de que o uso simplesmente da bengala não é a panacéia para os problemas de orientação e mobilidade, seja da criança, do jovem ou do adulto portador de deficiência visual. Orientação e Mobilidade é uma área muito ampla, rica e fundamental no atendimento à pessoa portadora de cegueira e visão subnormal. Um programa de orientação e mobilidade, do mais simples ao mais sofisticado, deverá atender à perspectiva atual da participação efetiva e comprometida do próprio indivíduo, da família e dos profissionais em busca de uma interação saudável e provedora, facilitando o desenvolvimento da pessoa portadora de deficiência visual.
 

 

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excerto de:
Deficiência Visual - Reflexão sobre a Prática Pedagógica
autora: Marilda Moraes Garcia Bruno
colaboradores: Cecília Maria Oka, Elizete Pacheco, João Álvaro de Moraes Felippe, Mara Olympia C. Siaulys, Maria Christina M. Nassif, Tânia Regina Martins Resende, Tomázia Dirce Peres Lora, Vera Lúcia Leme Rhein Felippe
publicação: Lara Mara
São Paulo: Laramara, 1997

 

 

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7.Nov.2014
publicado por MJA