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 Sobre a Deficiência Visual

Nos 150 anos da morte de Louis Braille

Vítor Reino
 


4.Jan.1809 — 6.Jan.1852

 

Se é verdade que a escrita em geral condiciona e modela de certa forma a estrutura lógica e o alcance do pensamento do homem moderno, o braille em especial tende particularmente a acentuar esse fenómeno, em razão da sua perfeita adequação psicofisiológica e da impressionante harmonia que realiza com o sentido do tacto. Efectivamente, se a visão admite com maior ou menor dificuldade a coexistência de diferentes formas de representação escrita, assentes em diversos códigos e processos semióticos, o tacto, pela sua matriz eminentemente analítica e pela especificidade do respectivo campo preceptivo, exige um sistema de representação escrita único e perfeitamente ajustado ao tipo particular do seu funcionamento sensorial. O braille surge, então, inevitavelmente, como a resposta superior que só o superior engenho de um cego genial poderia proporcionar, por apenas ele possuir a vivência directa e experimentada da centralidade do tacto ria sua relação com o mundo. Não foi impunemente que o braílle se afirmou como ”meio natural de leitura e escrita das pessoas cegas”: é que, mais do que a escrita vulgar normalizada, ele justifica incontestavelmente o estatuto que lhe é conferido em tão feliz asserção.

Sem o Sistema Braille, seria hoje possível aceder à informação escrita nomeadamente através dos modernos meios de registo e síntese de voz, mas não disporíamos de um instrumento valorizador e potenciador do tacto que nos permite penetrar no âmago da palavra escrita com a eficácia do olhar e talvez com mais profunda intimidade.

Não esqueçamos que o tacto é, por excelência, o sentido da proximidade e da relação íntima, aquele que normalmente reservamos para as situações de maior envolvimento afectivo-emocional! Quem pratica ou apregoa o abandono do braille e a sua substituição por recursos assentes na audição, não imagina até que ponto está a preconizar a renúncia de algo de verdadeiramente sublime e único, de uma enorme riqueza humana e de um alcance psicológico incalculável.

As palavras eloquentes de T. V. Crammer sugerem inequivocamente a natureza quase transcendente que o braille reveste: ”Há qualquer coisa de místico, miraculoso e não inteiramente compreendido que acontece quando os dedos treinados e experientes de um leitor cego desvendam os padrões simétricos dos pontos braille que transferem para a sua mente consciente palavras, pensamentos, ideias e emoções provindos de um amigo ou de pessoas há muito desaparecidas.” De facto, o braille não constitui um mero código mais ou menos secreto que opera a transposição dos símbolos da escrita vulgar para sinais tangiveis perfeitamente dimensionados ao espaço perceptivo da polpa do dedo: é uma forma de sentir, de se apropriar, de se relacionar, de combater a indelével condição vivencial que o indivíduo cego carrega consigo; o braille possui um calor próprio, uma emoção, um afecto, uma carga profundamente humana que deriva da natureza mais intrínseca do tacto, esse sentido ainda tão insatisfatoriamente estudado e compreendido e que os olhos tendem a desvalorizar porque ele representa potencialmente uma mais-valia susceptível de ameaçar o seu domínio omnipotente e sacrossanto.

Mais do que um código ou um sistema que me permite aceder à leitura e à escrita, o braille assume para mim o papel de um prolongamento do meu próprio corpo, uma parte integrante da minha forma de estar e sentir ou percepcionar o mundo envolvente. A célula braille e a matriz básica de seis pontos que nela se inscreve configuram dalgum modo a minha relação com as coisas e as ideias, como se constituíssem uma rede, uma membrana quadriculada que se interpõe entre mim e o mundo. Para mim, o braille está na ponta dos meus dedos como se desde sempre lá tivesse estado, como se fosse uma consequencia natural de sentir e tocar, autêntica forma instintiva de perceber e enfrentar a realidade exterior. Nesta medida, o braille é para mim uma paixão constitutiva, um ”órgão vital” de apropriação do mundo, que eu não dispensaria nem em troca do mais sofisticado e eficaz processo de leitura/escrita. A Louis Braille fico a dever, mais do que o acesso ao mundo da escrita e da cultura literária e científica, a dádiva de urna Prótese” pessoal, de um modelo cognitivo-sensorial de comunicação, de um fecundo instrumento gerador capaz de conduzir a uma verdadeira estética do tacto.

Nos 150 anos da morte de Louis Braille, a mais significativa homenagem que cada um de nós pode prestar à sua memória é aceitar essa prodigiosa dádiva que nos legou, usar e abusar do seu Sistema, ajudar ois seus potenciais destinatários a superar quaisquer ideias preconceituosas ou associações de carácter estigmatizante que envolvam a imagem do braille, experimentando-o sem subterfilgios, e, acima de tudo, promover incansavelmente a sua prática que nos enriquecerá como seres pensantes e como seres sensíveis.

 

 

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VÍTOR REINO  Nascido a meio da década de 50, perdeu a visão aos seis anos em consequência de um violento acidente e descobriu a magia do braille com nove anos no Instituto Branco Rodrigues. Psicólogo no Ministério da Educação desde 1983, é membro da 'Comissão de Braille' e da 'Comissão de Leitura para Deficientes Visuais', actividades que procura compatibilizar com o estudo e a prática da Música.

 

in 'Mãos Que Lêem'
Testemunhos a Louis Braille
150 Anos da Morte de Louis Braille
Edição Comissão de Braille, 2003

 

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4.Jan.2017
publicado por MJA