Ξ  

 

 Sobre a Deficiência Visual

Novas Ilustrações Hápticas em Livros Táteis para Crianças Cegas

Dannyelle Valente

Joel Geiger, Perkins School for the Blind - fotografia de Nicholas Nixon, 1992
Joel Geiger, Perkins School for the Blind  - fotografia de Nicholas Nixon, 1992
 
Resumo | O livros táteis illustrados são livros associando texto e imagem em relevo destinados a crianças deficientes visuais. No âmbito de uma política de inclusão fortalecida nas últimas duas décadas, estes recursos estão cada vez mais presentes nas escolas, bibliotecas e centros culturais. Uma história que associa texto e imagens desenvolve um papel essencial na aquisição de competências linguísticas e comunicacionais, desperta o prazer da leitura, além de favorecer momentos de troca entre cegos e videntes. Neste artigo, discutiremos os aspectos perceptivos e comunicacionais envolvidos na criação de ilustrações táteis para crianças cegas. Buscaremos destacar as diferenças entre dois modelos ilustrativos específicos: o modelo mais comum “ilustração visual em relevo” e um novo modelo proposto que denominamos “ilustração háptica”. A especificidade do modelo do tipo háptico está no fato de explorar experiências múltiplas de nosso corpo em contato com os objetos e o meio. Através de exemplos, buscaremos destacar de que forma estas ilustrações parecem ser mais apropriadas ao contexto perceptivo das crianças cegas, ao passo que promovem novas práticas inclusivas e novos meios de troca e interação entre cegos e videntes.


1. Introdução

Vivemos imersos em um mundo visual onde as imagens estão por toda parte: nas ruas, nas escolas, no cinema, na internet, nas telas dos telefones e nos tablets. Os videntes aprendem a interpretar estas imagens como signos de um mundo visível e ao qual foram familiarizados deste criança. Todos os dias, como explica com clareza Oliver Sacks , « nossos olhos se abrem e se deparam com um mundo que aprendemos a ver durante toda a nossa vida – pois este mundo não nos vem pronto, ele é construído constantemente por meio de experiências, categorizações, memórias e relações » (Sacks, 1999 : 20).

Considerando essa experiência prévia necessária para interpretar as imagens que nos rodeiam, podemos nos questionar de que modo uma pessoa cega pode ler com as mãos uma imagem em relevo nos museus, nos manuais escolares ou nos livros ilustrados. Que significação é atribuída às linhas e formas tocadas? O que é a representação tátil de um rosto ou de uma paisagem para alguém que nunca viu?

Cabe lembrar que as primeiras tentativas de tornar acessível o universo das imagens às pessoas cegas datam do século XIX. Estes recursos eram fabricados por profissionais que trabalhavam nos poucos estabelecimentos de ensino especializados da época, muitas vezes em um único exemplar. Entre as primeiras técnicas utilizadas, constam a estampagem em papel (gaufrage em francês) e o uso de linhas pontilhadas em relevo (Eriksson, 2008). Tratam-se das primeiras tentativas do que hoje chamamos “imagens táteis”. Tempos depois, outras técnicas de produção de relevo foram desenvolvidas e atualmente descobertas revolucionárias como a impressora 3D trazem novas expectativas para este campo.

Hoje, as imagens táteis são utilizadas, sobretudo, em três campos principais: campo artístico e cultural (reproduções táteis em museus), campo pedagógico e escolar (mapas em relevo, esquemas gráficos em biologia, em matemática, entre outros) e, por fim, o campo da literatura infantil (livros ilustrados, álbuns infantis e abecedários). É para este último campo que orientamos nossa atenção neste artigo.

As reflexões aqui apresentadas são fruto de uma parceria entre o grupo de pesquisa Semiótica das Artes e do Design da Universidade Paris 1, Panthéon-Sorbonne e a editora francesa Les Doigts Qui Rêvent (www.ldqr.org), especializada na edição de livros em braille com ilustrações para crianças cegas. Os projetos de pesquisa, iniciados em 2010, buscam avaliar a compreensão das imagens táteis por crianças cegas, questionando-se sobre como tornar estes conteúdos mais acessíveis a este público. Nos últimos anos, busca-se refletir sobre novos métodos de criação e novos modos de ilustrar em respeito aos princípios do Design Inclusivo, também chamado Design for All ou Design Universal. O Design Inclusivo trata-se de uma vertente do design criada nos anos 80 nos Estados Unidos junto aos movimentos pelos direitos das pessoas com deficiência (como o movimento Disabled People’s International, criado em 1981). Na “Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência” (Nações Unidas, 2006), o Design Inclusivo é definido como “o design de produtos, ambientes, programas e serviços a serem utilizados por todas as pessoas, na sua máxima extensão, sem a necessidade de adaptação ou de design especializado”.

Buscando aplicar estes princípios ao campo do livro tátil, a ideia é promover uma nova forma de ilustrar que se afaste dos padrões visuais para explorar outras experiências sensoriais compartilhadas por cegos e videntes. O novo modelo ilustrativo proposto, e cujas bases serão apresentadas a seguir, traz consigo uma necessária tranformação na maneira de pensar a deficiência: não considerá-la somente como uma falta ou uma anomalia, mas, ao invés disso, valorizar suas especificidades, considerando-as como um motor de inovação para todos (Houriez & al., 2013: 25; Pullin, 2009).

Para compreender os fundamentos deste novo modelo de ilustração tátil, cabe primeiramente destacar de que modo ele se difere das práticas mais comuns de adaptação de ilustrações visuais em livros para crianças cegas. Na primeira parte deste artigo, buscaremos destacar as diferenças entre dois tipos de modelo ilustrativo: «ilustração visual em relevo » e « ilustração háptica». Nesta parte, serão também apresentados resultados de pesquisas no campo da psicologia cognitiva e da semiótica acerca das especificidades da percepção tátil e da compreensão do desenho por pessoas cegas. Por fim, serão apresentados exemplos de ilustrações hápticas presentes nos livros da editora Les Doigts Qui Rêvent, buscando destacar a importância destas enquanto veículo de inclusão e de troca de experiências.


2. A problemática de criação de imagens táteis para pessoas cegas

A maior parte das imagens táteis são pensadas por videntes que tentam se colocar no lugar de alguém que não vê, buscando imaginar como os cegos podem “ler” com as mãos. Fechando os olhos e tentando se desprender por um instante de um mundo visual, onde encontram-se arraigados seus hábitos perceptivos e representacionais, eles procuram “fazer de conta”, para ter uma vaga idéia da experiência de mundo de uma pessoa cega.

Para buscar entender melhor o que acontece nesse processo, propomos ao leitor um rápido exercício. Obervando a imagem abaixo do Pequeno Príncipe (figura 1), pedimos que tente responder a seguinte pergunta:

Como tornar esta imagem acessível a uma pessoa cega?


Figura 1 - Imagem visual do Pequeno Príncipe | Descrição da imagem: O personagem do Pequeno Príncipe está em pé ao lado direito da imagem. A imagem mostra somente uma pequena parte da superfície do planeta onde ele se encontra. Frente ao personagem, há uma pequena flor. O céu é mostrado em segundo plano onde encontram-se retratados um sol e uma estrela.


Sempre que este exercicio é proposto em conferências e encontros com educatores, profissionais e estudantes, a resposta obtida é bastante semelhante. As pessoas questionadas afirmam que para esta imagem se torne acessivel, é necessario colocá-la em relevo. Como veremos a seguir, esta solução, embora necessária, só resolve uma parte do problema: o problema do acesso ao suporte. Poder ter acesso a algo nem sempre quer dizer acessibilidade. Para ilustrar essa questão, apresentamos na figura abaixo uma simulação do resultado que pode-se obter pela produção do relevo desta imagem do Pequeno Príncipe:


Figura 2 - Imagem tátil do Pequeno Príncipe | Descrição da imagem: Trata-se de mesma imagem mostrada anteriormente, onde as linhas de contorno dos elementos foram disponilizadas ao tato.


As linhas em preto correspondem as linhas de contorno da imagem reproduzidas em relevo. É incontestável que esta versão tátil do Pequeno Príncipe pode ser efetivamente “lida” com as mãos, sendo a percepção tátil capaz de distinguir a forma, o tamanho e a localização das linhas. Mas será que estas formas e linhas sentidas podem ser identificadas por alguém que nunca viu como representações do personagem Pequeno Príncipe, do sol ou da estrela?

Diferentes pesquisas foram realizadas para tentar entender o que acontece quando uma pessoa cega percebe através do tato um objeto representado no espaço bidimensional. Cabe lembrar que o tato é uma modalidade sensorial que se destaca das outras modalidades pelo fato de possuir uma dupla função sensorial e de motricidade (Heller & Gentaz, 2014; Gentaz, 2009; Hatwell, 2003; Hatwell, Streti & Gentaz, 2000; Lederman & Klatzky, 2000). A psicologia distingue o tato passivo (o contato imóvel da mão sob uma superfície) do tato ativo - igualmente chamado “sentido háptico”. O termo háptico introduzido por Révész em 1950 no campo da psicologia engloba não somente aquilo que sente a pele em contato com uma superfície mas também todas as informações cinestésicas e proprioceptivas do corpo durante o movimento de exploração.

No campo da psicologia, um debate se mantém no que se refere ao tipo de informação que pode ser apreendida pelo sistema háptico e sua diferença com relação à visão. Enquanto alguns trabalhos salientam os aspectos comuns à visão e ao tato (abordagem amodal), outros ficam mais focados nas particularidades de cada sistema sensorial. Como aponta Hatwell (2003), é de ser esperar que cada abordagem pressuponha práticas educacionais distintas e por vezes completamente opostas. Esta questão pode ser observada com clareza nos estudos norteando a compreensão de imagens e desenhos por pessoas cegas. Os estudos que defendem existir correspondências entre a visão e o tato são mais otimistas com relação à capacidade das pessoas cegas em compreender conteúdos bidimensionais. Esta é tese a defendida por Kennedy (2000, 1993), autor dos estudos mais conhecidos sobre o desenho de pessoas cegas. Apostanto em uma abordagem realista e externalista da percepção, Kennedy defende que as pessoas cegas podem explorar tatilmente as bordas e arestas visíveis dos objetos. Segundo o autor, estas linhas identificadas pelo tato são as mesmas encontradas nos desenhos de contorno de objetos tangíveis.

Entretando, resultados de testes experimentais de produção e de identificação de desenho por pessoas cegas, inclusive realizados pelo próprio autor, têm mostrado que estas pessoas tem dificuldades em compreender as regras de representação dos objetos no desenho (Valente, 2012; Vinter & Fernandes, 2010; Millar, 1991). A tese defendida por Kennedy sustentada também por autores como D’Angiulli & Maggi (2003) e Heller (2006) é que esta dificuldade não se deve a uma limitação do tato em si, mas sobretudo a um problema de interpretação. A pouca familiaridade com a representação em duas dimensões abre um grande leque de possibilidades e as pessoas cegas apresentam dificuldades em identificar somente um objeto em particular nas formas exploradas. Em pesquisa de doutorado (2012) realizada no âmbito do projeto pluridisciplinar “Imagem da ponta dos dedos”” (ANR – Agência Nacional de Pesquisa, França) abordamos estas questões sob o ângulo da semiótica e da comunicação. Através da análise de produções gráficas de jovens cegos elaboradas durante o jogo Tactilonary (jogo de desenho tátil, para mais detalhes consultar: Valente & Darras, 2013; Valente, 2012), este estudo mostrou que as pessoas cegas desconhecem os códigos de diferenciação e de categorização dos objetos no desenho. Conclui-se que a capacidade em produzir e compreender desenhos pressupõe possibilidades perceptivas específicas mas também a participação do sujeito nos diferentes processos de aprendizagem e de comunicação gráfica desencadeados na cultura visual.

Outros estudos têm também mostrado que a percepção tátil possui especificidades com relação à visão. Citemos aqui as pesquisas de Lederman & Klatsky (2000, 1990), cujos resultados experimentais mostram que o sistema háptico reconhece mais facilmente um objeto pela sua textura, seu peso ou sua temperatura. Para os autores, as propriedades formais dos objetos configuradas nos conteúdos bidimensionais parecem ter pouca utilidade para as pessoas cegas. Estas diferenças entre o mundo perceptivo visual e mundo perceptivo tátil também são apontadas com clareza nos relatos sobre pessoas cegas que passam a ver após operações (Gregory & Wallace, 1963; Sacks, 1999). Eles relatos mostram as dificuldades dos pacientes em se desprender de seus hábitos perceptivos frente a um mundo estrangeiro de aparências visuais.

A esta altura, já pode-se entender porque a solução de adaptação da imagem do Pequeno Príncipe mostrada acima resolve somente parte do problema. O conteúdo foi disponibilizado ao tato, mas as pessoas deficientes visuais somente poderão compreendê-lo se possuírem as ferrramentas interpretativas necessárias. Esse tipo de adaptação segue uma lógica que podemos representar metaforicamente através da imagem abaixo:

Figure 3 - Mão com pequenos olhos na ponta dos dedos | Descrição da imagem: imagem de mão aberta de dedos esticados


Imaginar alguém com pequenos olhinhos na ponta dos dedos é algo um tanto quanto inusitado, não é mesmo? Surpreendentemente, imagens visuais transpostas em relevo feitas para pessoas cegas com olhos na ponta dos dedos é o que não faltam hoje em dia em museus e escolas. Tratam-se de simples transposições em relevo do conteúdo visual original, pressupondo assim que o problema está somente na materialidade do suporte e que as pessoas cegas seriam capazes de ler estes desenhos como se elas pudessem “ver” com os mãos. As imagens táteis produzidas hoje seguem uma lógica preconcebida de ocularização do tato, fazendo com que, no fim das contas, nada tenham de tátil (De Almeida, Carijó & Kastrup, 2010).


3. O caso dos livros táteis: ilustrações em relevo e illustrações hápticas

Esta mesma tendência de « ocularização do tato » é observada em ilustrações táteis destinadas às crianças cegas. Dentre as técnicas mais conhecidas de adaptação neste campo, constam a técnica de termoformagem com plástico a partir de moldes, as técnicas de reprodução de linhas de contorno e a técnica de colagem de texturas. Exemplos destas ilustrações são mostrados abaixo:
 


Figura 4 - Exemplos de ilustrações táteis | Descrição da imagem: Da esquerda para a direita: 1) Ilustração do livro Kotkäppchen (A história de Chapéuzinho Vermelho), 1990, Grenzelos, Alemanha – técnica de termoformagem em plástico. 2)Ilustração do livro Ernest et Célestine: le Patchwork, 1991, Fellings, Bélgica – Imagem original à esquerda e adaptada em termogravura (linhas de contorno) 3) Ilustração do livro Roi de Misère (Rei de Miséria), 2001; Les Doigts Qui Rêvent, França – técnica de colagem de texturas


Nos três casos, trata-se de um universo visual traduzido em relevo. Nos dois primeiros, a imagem visual de origem é simplesmente duplicada em versão tátil e, no terceiro, as formas são simplesmente « coloridas » com texturas diferentes (De Almeida, Carijó e Kastrup, 2010).

Como alternativa a este tipo de prática, é possivel desenvolver um novo modelo ilustrativo que denominamos « háptico ». O sistema perceptivo háptico, como vimos acima, refere-se às sensações sensoriais e motoras de nosso corpo quando realizamos ações como subir uma escada, nadar ou andar de bicicleta.

No esquema abaixo são apresentadas duas ilustrações de casa. No modelo 1, à esquerda, a casa é representada pelo esquema gráfico visual composto por um quadrado para a parede e um triângulo para o telhado. No caso de uma criança cega que percebe esta ilustração através do tato, duas situações são possíveis: ou essa criança já teve uma experiência prévia com desenhos táteis lhe permitindo interpretar esta imagem como a representação de uma casa (situação ainda rara hoje em dia) ou, sem qualquer experiência, ela não poderá estabelecer uma relação entre as formas tocadas e um objeto percebido. Considerando que esta ilustração da casa faz parte de uma cultura figurativa e de um mundo visível desconhecido, ela só podera interpretá-la através de códigos visuais aprendidos.

No segundo modelo que chamamos «háptico », a casa é representada através da ação pertinente de entrar em casa figurado pelo conceito “porta que abre”. Através de um sistema de interação de abre e fecha acoplado à página do livro e uma maçaneta, a criança pode efetivamente abrir e fechar a porta. Na extremidade direita da porta encontram-se pequenos cortes em forma de pontas que, em contato com a superfície da página, produzem um som específico de porta abrindo. A grande vantagem desse tipo de ilustração está no fato de retratar uma experiência da casa que é a mesma para cegos e videntes. Podemos assim esperar menos diferenças interpretativas nessas duas situações.de leitura.
 


Figura 5 - Ilustração visual em relevo e ilustração háptica | Descrição da imagem: tabela com 3 imagens inseridas: uma imagem de casa e 2 imagens da mesma porta numa está fechada e noutra uma mão a abri-la.


Nas últimas décadas, o setor da literatura infantil tem se destacado pela emergência de novas propostas buscando romper com os limites dos livros ilustrados convencionais. Os novos livros « pop-up » ou os livros-jogo convidam o leitor a novas experiências de leitura por meio de narrativas originais e interativas (Boulaire, 2012 ; Fouquier, 2012). Este contexto nos parece bastante propício para a exploração de novas formas de ilustração fundamentadas em experiências hápticas. Temos a convicção que estas novas ilustrações pensadas inicialmente no contexto das crianças cegas tem um potencial de inovação no campo da literatura infantil em geral, uma vez que propõem sistemas de manipulação e surpresas sensoriais ricas para todas as crianças.


4. Exemplos de ilustrações hápticas presentes nos livros da editora Les Doigts Qui Rêvent

A editora Les Doigts Qui Rêvent tem explorado essa proposta de figurar expêriencias hápticas em seus livros. Au pays d’Amandine dine dine (No país de Amandine dine dine), primeiro livro editado em 1994, já buscava explorar novas vertentes ilustrativas baseadas em experiências do corpo. Neste livro, a criança imita passos de ginástica por meio de elásticos e brinca de gangorra no parque. Outras ilustrações do tipo háptico são encontradas também nos livros recentes Wa-Wa (i.e. expressão familiar em francês para designar « banheiro ») e Hiver Magique (Inverno Mágico). No livro Wa-Wa (2012) que trata das primeiras apreensões das crianças pequenas quando deixam de usar a fralda, a criança pode ela mesma puxar a descarga através de um cordão acoplado à pagina (ver figura 6). No livro Hiver magique, editado no mesmo ano, a criança pode « caminhar » na neve pressionando os dedos contra uma textura específica que reproduz de modo bastante fiel o barulho e a sensação dos pés caminhando sobre a neve:


Figura 6 - Ilustrações dos livros Wa-Wa e Hiver Magique | Descrição da imagem: Em WaWa (à esquerda) a criança puxa a descarga através de um cordão e em Hiver Magique (à direita) ela pode “caminhar” na neve.


O conceito de percurso e de trajetória através diferentes espaços e paisagens é uma nova estratégia explorada nos livros da editora. No novo projeto editorial La chasse à l’ours (Caça ao urso, título original em inglês : We’re going on a bear hunt), os criadores exploram uma experiência original baseada nesta ideia de percurso. Uma primeira adaptação tátil deste livro publicado em inglês em sua versão original foi realizada por Susette Wright da American Printing House for the Blind (APH). Solène Négrerie, ilustradora da editora Les Doigts Qui Rêvent trabalhou em uma segunda versão com a ajuda de dois estudantes da Escola Superior de Arte de Lorraine-Epinal (França). A ideia do projeto é fazer com que a criança se sinta realmente imersa em paisagens diversas como a floresta, o campo e a neve. Para isso, se utilizou um botão que desliza através de um elástico de uma extremidade a outra da página, imitando a trajetória do corpo através diferentes paisagens.
 


Figura 7 - Ilustrações do livro La Chasse à l’Ours | Descrição da imagem: Adaptação do livro La Chasse à l’Ours: através de um botão que desliza de uma extremidade a outra da página, nos encontramos imersos em ambientes como a floresta ou a neve.


5. Perspectivas futuras

Os novos projetos de pesquisa e desenvolvimento da editora Les Doigts Qui Rêvent buscam igualmente testar um novo método de criação de ilustrações táteis. Buscando evitar uma estratégia do tipo « projetiva » (um vidente que se coloca no lugar de uma pessoa cega), um novo método de criação participativa está em fase de teste. Tomando como base uma metodologia em Pesquisa-ação e em Design participativo trata-se de desenvolver oficinas de criação de livros ou ferramentas educativas multissensorias contando a com participação de pessoas cegas, professores, designers e artistas.

Um primeiro projeto de criação participativa sobre o tema da história em quadrinhos teve início em novembro de 2013. Foram realizados 6 encontros de experimentação multissensorial sobre o tema da história em quadrinhos com um grupo de 10 adolescentes deficientes visuais. Durante as oficinas, o grupo coordenado pela pesquisadora e a ilustradora da editora Les Doigts Qui Rêvent tinha como meta criar uma mala pedagógica multissensorial sobre o tema da história em quadrinhos para ser futuramente utilizada como recurso de mediação em bibliotecas. A mala está neste momento em fase de teste (mais informações sobre este projeto podem ser consultadas no site : https://accessibibabf.wordpress.com/2014/10/31/un-coffret-multi-sensoriel-sur-la-bande-dessinee-concu-par-et-pour-les-enfants-non-voyants/ ). Em novembro de 2014, foi iniciado um segundo projeto onde serão realizadas oficinas de criação participativa de um livro com um novo grupo de crianças cegas.

As propostas de um novo modelo ilustrativo e de novas opções metodológicas aplicadas aos projetos da editora Les Doigts Qui Rêvent buscam apontar novos caminhos e possibilidades para as práticas de adaptação no campo do livro tátil. Busca-se ir além de uma mera reprodução de padrões visuais propondo uma nova prática editorial baseada em um princípio de igualdade e de valorização das múltiplas formas de perceber o mundo.


Referências Bibliográficas

  • Boulaire, C. (2012). Faire bouger les lignes de l’album. La Revue des Livres pour Enfants, 264, 80-89.
  • De Almeida, M.C; Carijó, F.H., & Kastrup, V. (2009). Abordagem da enação no campo da deficiência visual. Informática na educação: teoria e prática, v.2, n°2, 114-122.
  • D’Angiulli, A., & Maggi, S. (2003). Development of drawing abilities in a distinct population: depiction of perceptual principles by three children with congenital total blindness. International Journal of Behavioral Development, 27 (3), 193-200.
  • Eriksson, Y. (2008). Images tactiles : représentations picturales pour les aveugles, 1784-1940, Talant : Les Doigts Qui Rêvent.
  • Foulquier, F. (2012). L’album, terrain d’aventure. La Revue des Livres pour Enfants, 264, 90-103.
  • Gentaz, E. (2009). La main, le cerveau et le toucher, Paris: Dunot.
  • Gregory, R.,Wallace, J. (1963). Recovery from Early Blindness: a case study. Experimental Psychology Society, Monograph n°2, disponível em: www.richardgregory.org, acesso em novembro de 2010.
  • Hatwell, Y. (2003). Psychologie cognitive de la cécité précoce, Paris : Dunot.
  • Hatwell, Y. , Streti, A., & Gentaz, E. (2000, Ed.). Toucher pour connaître : psychologie perceptive de la perception tactile manuelle, Paris : Presses Universitaires de France.
  • Heller, M.A., & Gentaz, E. (2013). Psychology of touch and blindness, New York: Psychology Press.
  • Heller, M. (2006). Picture Perception and Spatial Cognition in Visually Impaired People In M. Heller, M., & S. Ballesteros, S. (Ed.) Touch and Blindness: psychology and neuroscience (pp.49-71). New Jersey: LEA.
  • Houriez, S., Houriez,J., Kounakou, K & Leleu-Merviel, S. (2013). Accessibilité dans les musées: de la conception pour les enfants sourds au design for all In : B.Darras & D.Valente (Ed.). MEI 36 Handicap & Communication (pp.25-38). Paris : l’Harmattan, 25-38.
  • Kennedy, J. (2000). Recognizing outline pictures via touch: alignment theory In: M. Heller (Ed.) Touch, Representation and Blindness (pp.67-98).Oxford: Oxford University Press.
  • Kennedy, J. (1993). Drawing and the Blind, New Haven: Yale University Press.
  • Lederman, S. ; Klatzky, R. (2000). L’identification haptique des objets significatifs In: Y Hatwell, A. Streti, & A. Gentaz (Ed.) Toucher pour connaître : psychologie cognitive de la perception tactile manuelle (pp.109-128). Paris : PUF.
  • Lederman S.J., Klatzky, R., Chataway, C., & Summers, C.D. (1990). Visual mediation and the haptic recognition of two-dimensional pictures of common objects. Perception & Psychophysics, 47 (1), 54-64.
  • Millar, S. (1991). A reversed lag in the recognition and production of tactual drawings : theorical implications for haptic codind In M. Heller & Schift, W. (Ed.) The psychology of touch, (pp. 301-325). Hillsdale: LEA.
  • Pullin, G. (2009). Design meets Disability, Camgridge : The Mitt Press.
  • Révész, G. (1950). Exploring the Word of Touch: Psychology and Art for the Blind, trad. A-H. Wolff, Londres: Longmans.
  • Sacks, O. (1999). Premier Regard, Paris : Édition du Seuil.
  • Valente, D. & Darras, B. (2013). Communication graphique et cécité : étude sémiotique pragmatique de la production et l’interprétation de signes figuratifs produits par des jeunes non-voyants In B. Darras et D. Valente (Ed.) MEI 36 Handicap et Communication (pp.77-91). Paris: L’Harmattan.
  • Valente, D. (2012). Dessin et cécité : étude de la communication graphique des jeunes aveugles, Tese de doutorado em Design e Estudos Culturais, UFR Arts et Sciences de l’Art, Université Paris 1 Panthéon- Sorbonne.
  • Vinter, A., & Fernandes, V. (2010). Le dessin chez l’enfant malvoyant et chez l’enfant aveugle. Terra Haptica 1, 22-30.

 

ϟ


Dannyelle Valente  (2015).
Novas ilustrações hápticas em livros táteis para crianças cegas.
In C. Mangas, C. Freire & M. Francisco (Orgs.), Inclusão e Acessibilidade em Ação - Diferentes percursos, um rumo. Leiria: iACT/IPLeiria,
Artigo 8. Universidade Paris 1, Panthéon-Sorbonne/ Comunicação decorrente da Conferência Internacional para a Inclusão - INCLUDiT
Online, disponível em http://iact.ipleiria.pt/
https://iact.ipleiria.pt/files/ebook/index.html#a8 
 

Δ

1.Mai.2022
Maria José Alegre