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 Sobre a Deficiência Visual

Futsal para cegos

Ramon Pereira de Souza
 


http://www.youtube.com/watch?v=-T5nGbISur0

 

Introdução

Muitos de nós normalmente imaginamos que cegos não podem desenvolver algumas atividades do cotidiano, do labor, domésticas e até mesmo esportivas e/ou do lazer, como andar de bicicleta, correr, nadar, entre outras. Entretanto, observando-se adaptações, é perfeitamente possível que o cego as realize, tornando-se assim mais ativo, independente e também integrado.

Especificamente sobre o futsal para cego, perguntamo-nos “como o cego pode jogar bola?”, “como ele ‘enxerga’ a bola?”, “como ele pode acertar o gol?”, “como passa a bola para o companheiro?”, “e o drible?”.

Estimamos que aproximadamente há quarenta anos, o futsal para cego vem sendo praticado por cegos no Brasil em várias de suas associações. No Instituto Benjamin Constant, esta prática também é muito antiga, tendo surgido de forma singular porque coube aos alunos a invenção espontânea de uma brincadeira denominada “gol a gol”.

Em nossa experiência de ensino no Benjamin, alunos iniciados no “gol a gol” têm geralmente apresentado um rápido aprendizado do futsal.

“Gol a gol” é um jogo armado com um número não determinado de jogadores, praticado com uma bola envolvida em um saco plástico, tendo como campo “oficial” o espaço demarcado pelas pilastras e teto do pátio do Instituto – dois metros de largura por três metros de altura – ficando os gols a dez metros de distância, onde sempre são respeitados o aviso verbal do adversário autorizando o chute e o revezamento no chute.

Dentre as atividades esportivas desenvolvidas por cegos, consideramos o futsal como uma das mais difíceis porque é a única em que o indivíduo tem que se deslocar em todas as direções em uma quadra de 40m x 20m, sem um tempo predeterminado, com ritmos variados, perante quatro “adversários”, para atingir o gol, além de ser o goleiro adversário, vidente, conforme as regras internacionais determinam.

Com a apresentação e discussão dos fundamentos básicos do futsal adaptado, objetivamos não só esclarecer aquelas questões, como também contribuir com os que desejam iniciar o ensino deste desporto para cegos.


Características do futsal para cegos

O material e o espaço adequados para a prática do futsal para cegos não diferem tanto do jogo praticado pelos videntes, o que muito facilita o trabalho. A bola deve conter guizos ou, na impossibilidade de tê-la, pode-se envolver uma bola normal em saco plástico para possibilitar a audição do ruído do seu deslocamento. É importante o uso da venda, que possibilita a homogeneização de todos quanto ao sentido visual, pois alguns cegos percebem vultos e isso pode colocá-los em vantagem sobre os demais.

A quadra deve ser cercada em toda a extensão lateral com muretas de madeira de um metro e vinte de altura, para que a bola não saia tanto de jogo. Além do mais, deve ser descoberta para evitar eco e/ou reverberação.

As Regras Internacionais de Futsal para cegos e deficientes visuais, estabelecidas pelo Comitê Internacional de Futsal da IBSA, em 1995, na cidade de São Paulo e seguidas até hoje em todas as competições nacionais e internacionais, estão disponíveis no site http://www.abdcnet.com.br/.

Quanto ao deslocamento, os videntes jogam a bola à frente ou carregam-na próxima aos pés, mas não em contato permanente. Já o cego desloca-se com a bola entre os pés, passando-a de um pé ao outro sem perder seu contato, pois se assim não o fizesse, facilitaria a retirada por outro.

No drible, os videntes utilizam o jogo de corpo ou a ginga para confundir visualmente o adversário, que muitas vezes desloca-se para um lado do jogo de corpo, mesmo sem que a bola siga aquela direção, visando muito mais o atleta do que a bola. No futsal de cegos, não há esta ginga. O drible é feito com o som da bola, quando um atleta a conduz e pára, fazendo com que o adversário se dirija àquele ponto onde a bola parou. Em seguida, o jogador com a posse da bola muda de direção repentinamente, deixando o seu adversário para trás. A mudança de direção e velocidade alternadas na condução desta bola significa, para um cego, um bom drible.

Algo é bem curioso: os goleiros têm sempre visão normal. No entanto, sua área de atuação é restrita: dois metros à frente e cinco metros de largura (um metro lateral de cada poste de gol e dois metros à frente), sendo que qualquer atuação fora desta área é punida com pênalti que, geralmente, converte-se em gol, devido à força que é imprimida na bola pelos jogadores cegos.

Por fim, o deslocamento sem bola dos jogadores em quadra é setorial. Assim, o jogador da ala esquerda atua na ala esquerda da quadra, em situação de defesa e ataque, diferindo do jogo dos videntes que mudam sempre de posição, até para confundir o adversário.


Elementos básicos à iniciação do futsal para cegos

Ao nos referirmos à iniciação ao futsal para cegos, faz-se necessário reportar-nos aos pré-requisitos que os alunos devem apresentar. Não nos preocupamos com a idade em que os alunos começarão a praticar o futsal. No entanto, todos devem ter sido iniciados anteriormente nas atividades de orientação e mobilidade e percepção auditiva, devendo apresentar segurança ao correr e saltar e noções de lateralidade, frente, trás e diagonal. A negligência a este complexo senso perceptivo motor predisporá o aluno a maiores possibilidades de choque, conseqüentemente, de se machucar e possivelmente desistir.

De fundamental importância são o aprendizado do posicionamento do corpo e a orientação durante o jogo, até mesmo por questão de segurança, pois os choques são inevitáveis e todos devem estar preparados para impedi-los, ou melhor, absorvê-los. Já a orientação deve ser para que o aluno discrimine os tipos de sons e também se habitue a dar atenção ao seu “técnico” (posicionado na lateral), ao chamador (posicionado atrás do gol adversário) e ao goleiro (no setor de defesa). Sobre o posicionamento corporal, um dos braços deve manter-se à frente do tronco, à altura do peito e a cabeça estar sempre erguida.

Outro valioso aspecto é a movimentação. Também para evitar trombadas, sugere-se que o grupo se desloque em um só bloco, sempre para o mesmo setor. Para tanto, dividimos a quadra em quatro setores (ataque esquerdo, ataque direito, defesa esquerda e defesa direita) e desenvolvemos atividades que possibilitem aos alunos essa orientação. A ordem verbal deve ser a mesma para todos da equipe.

Chamador é o elemento vidente de uma equipe de futsal de cegos, posicionado atrás do gol adversário, para melhor orientação dos chutes a gol.
A noção de espaço e tempo é essencial do mesmo modo. O aluno deve deslocar-se em diferentes ritmos (em pique, correndo, andando, trotando) e formas (frente, costas e lado), da defesa ao ataque, da defesa ao meio da quadra, do meio ao ataque, de um lado para outro e nas diagonais.

Indispensável é a estimulação auditiva. Diversos sons (movimentação de ônibus, pássaros, latidos, conversas...) poderão estar presentes durante o jogo e os alunos devem estar atentos ao barulho emi¬tido pelos guizos da bola e aos orientadores. Portanto, sugerimos que a maioria das atividades sejam desenvolvidas com a bola para que o aluno discrimine com exatidão o seu som e também a verbalização daqueles que estão fora à quadra, orientando.

Além do mais, na iniciação, para evitar choques e criar maior segurança e maturidade do indivíduo no jogo, devem ser enfatizadas as atividades analíticas. Com isto, não queremos dispensar a atividade global, até porque o futsal é um esporte coletivo. É errôneo acreditar que o cego jogue individualmente, conduzindo a bola desde sua defesa até o gol adversário.


Elenco de atividades

No futsal de cegos, há a necessidade de se observar rigorosamente uma seqüência pedagógica no ensino dos seus fundamentos, sendo isto condição primordial para a segurança dos alunos.

Descrevemos aqui exemplos de atividades que julgamos importantes para a assimilação e desenvolvimento dos fundamentos, já experimentadas em mais de dez anos de ensino no Instituto Benjamim Constant. São elas:


a) Percepção auditiva

a.1. Dispor os alunos em círculo com apenas um deles ao centro. Um dos alunos bate palmas e o que está no centro deve deslocar-se em sua direção. Aspectos importantes:

  1. o professor comanda quem irá bater as palmas para evitar a emissão de mais de um estímulo auditivo;
  2. o aluno que estiver na roda deverá posicionar-se com os braços estendidos à frente, para a prevenção de um possível choque;
  3. o estímulo poderá ser através da voz.

a.2. Correr em direção ao comando auditivo, com variação de direção (direita, esquerda, atrás), com variação de movimento corporal (com os dois pés juntos, de costas, de lado...). Observações:

  1. o professor deverá comandar a corrida para um aluno de cada vez e dar um intervalo de segurança entre um e outro;
  2. o espaço utilizado deverá ser apresentado a todos os alunos, para que se certifiquem de que não há nenhum obstáculo;
  3. todo o comando deve acabar na voz do professor, que deverá se posicionar pelo menos a cinco metros de qualquer obstáculo que esteja na direção da corrida do aluno.

a.3. Sentar os alunos formando um círculo e, utilizando-se de uma bola com guizos, fazer com que cada aluno role a bola com as mãos de um para o outro.


b) Passe

b.1. Com a turma dividida em duplas, os jogadores deverão posicionar-se um de frente para o outro, com uma bola, passando-a com o lado interno dos pés um para o outro. Aspectos importantes desta atividade:

  1. quando distribuir as duplas na quadra ou campo, dar um afastamento de pelo menos cinco metros de uma dupla para outra, para evitar choques caso a bola escape de uma das duplas;
  2. começar com uma distância pequena e depois aumentar, pois uma distância grande aumentará as chances de erro de passes, podendo desanimar os alunos.

b.2. Orientar o aluno no sentido de que a bola deverá estar em frente a seu corpo no passe parado e, para que o aluno saiba onde ela se encontra e se oriente na direção do passe, ele deverá pisá-la antes do toque para o companheiro. Observações:

  1. atentar para o apoio e o posicionamento do corpo do aluno em relação à direção da bola a ser lançada, para que o passe seja mais preciso;
  2. para “educar” a direção do passe, fazer com que o aluno aponte para o companheiro que irá receber a bola;
  3. se por acaso errar a direção do passe, pedir para apontar ou falar em que direção foi a bola, tendo como referência o companheiro.

b.3. Na mesma formação, pedir que passe a bola com partes diferentes do pé (de calcanhar, parte externa dos pés, com a direita, com a esquerda...).


c) Recepção

c.1. Na formação de duplas, ficar um de frente para o outro, passando a bola e recepcionando a bola do companheiro. Aspectos importantes desta atividade:

  1. explicar para o aluno que a recepção deve ser feita com as pernas ligeiramente afastadas, a uma distância não maior que o diâmetro de uma bola de futsal, para que haja eficiência na recepção;
  2. orientar o aluno que, para pisar na bola, deve-se antes esperar que ela toque em suas pernas;
  3. Orientá-lo para afastar as pernas, com a ponta dos pés viradas para a direita, flexionar as pernas lateralmente aproximando o joelho da perna esquerda do chão, com a perna direita semi-flexionada. Repetir o exercício para o outro lado.

c.2. Colocar o grupo em um lado da quadra, e chamar um de cada vez para o centro, lançando uma bola, para que domine e passe de volta. Aspectos importantes desta atividade:

  1. o aluno que executar a tarefa deverá ir para o lado oposto ao do início da atividade;
  2. os alunos deverão ser chamados pelos nomes, para que não se apresente mais de um jogador;
  3. orientar para que o jogador sempre posicione sua cabeça com o nariz apontado na direção da bola.

c.3. Na formação anterior, o aluno se deslocará de costas até o centro e, ao comando de um apito, ficará de frente para a bola que será lançada para que ele a domine.


d) Deslocamento

d.1. Em duplas, um de frente para o outro, orientar um aluno para que se desloque até o outro com a bola entre os pés, arrastando-os para que não perca o contato com a bola. Considerações importantes:

  1. a bola deverá estar sempre à frente do corpo e não embaixo ou atrás;
  2. a importância deste deslocamento ou a mecânica do movimento é que o jogador não perde o contato com a bola;
  3. é importante que o aluno experimente outros meios de deslocamento, como passar o pé por cima da bola ou jogá-la à frente e tentar alcançá-la e dominá-la.

d.2. Três a três, sendo dois em uma lateral da quadra e um na outra lateral, dois de frente para um; no lado em que se encontram dois alunos, um com uma bola deverá deslocar-se com ela até o companheiro à sua frente e entregar a bola. E este repetirá o mesmo exercício até o companheiro à sua frente. Atentar sobre:

  1. os trios deverão manter uma distância mínima de cinco metros um do outro;
  2. o professor deverá prestar atenção se algum aluno perde a posse de bola, para não chocar-se com o companheiro de outro trio.

d.3. Em formação de três, deverão deslocar-se em zigue-zague, conduzindo a bola. Observação: pode-se realizar o exercício variando a velocidade de deslocamento.


Considerações finais

A vida nos impõe muitas provas e uma das maiores é manter-se motivado para poder superá-las. Para o cego, sem dúvida, é uma oportunidade de desenvolver aptidões que possibilitem uma melhor orientação e mobilidade, conduzindo-o à independência em certas tarefas impostas no dia a dia, melhorando sua qualidade de vida.

Percebemos que os alunos cegos que praticam futsal não estão preocupados em simplesmente mostrar as suas capacidades como ato de exibi¬cionismo, mas estão interessados em acreditar em si próprios através da demonstração de suas habilidades motoras no desempenho do jogo de futsal.

O futsal para cegos requer de cada praticante muito esforço, educação, perseverança. Sua execução exige o deslocamento de todos (exceto do goleiro) para todas as direções, com velocidades variadas, com atenção voltada para bola, para as orientações do técnico, do goleiro e do chamador, e tudo isso diante de quatro adversários com o mesmo objetivo: dominar a bola e fazer gol.

Muitas vezes, quando nos referimos ao futsal de cegos, alguns, descrentes sobre as capacidades deles, riem e chegam até a declarar que imaginam um grande “pregobol” ou “totó”, em que os alunos ficam fixos em suas posições durante o jogo. Além de ensinar o futsal para cegos, precisamos transmitir informações para esses “descrentes”, contribuindo também para a superação das discriminações que nossos alunos têm enfrentado.


Bibliografia

  1. BORGES, C.M.F. O Professor de Educação Física e a Construção do Saber. Campinas: Papiros, 1998.
  2. BRASIL. Educação Física e Desporto para Pessoas Portadoras de Deficiência. Brasília: Mec – Sedes, 1994.
  3. FREIRE, J.B. Educação de Corpo Inteiro: teoria e prática da Educação Física. 3a edição. São Paulo: Scipione, 1992.
  4. MOSQUEIRA, C. Educação Física para Deficientes Visuais. Rio de Janeiro: Editora Sprint, 2000.
  5. TELFORD, C.W. & SAWREY, J. M. O Indivíduo Excepcional. 5a edição. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1977.


 

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Ramon Pereira de Souza é Professor de Educação Física no Instituto Benjamin Constant e especialista em Educação Especial, em Treinamento Desportivo e em Natação.

Fonte: FUTSAL Brasil
 

 

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13.Jan.2011
publicado por MJA