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 SOBRE A DEFICIÊNCIA VISUAL

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Estratégias Pedagógicas para o Ensino do Violoncelo a Alunos com Deficiência Visual: A Partitura como Ferramenta Secundária

Inês Coelho


Orquestra de crianças cegas  | Museum of the APH for the Blind
 
índice
1. Objectivos
2. Audição, Imitação, Entoação e Memorização
3. Alterações feitas no instrumento e o tato
4. Adequação da luz ambiente e sensibilidade ocular
5. Improvisação
6. Sinestesia
7. Utilização do computador para ler partituras

 
1. QUAL O OBJETIVO DESTE E-BOOK?

Quando o assunto é o ensino de música a indivíduos com deficiência visual, vem de imediato à ideia a questão da leitura das partituras: “Como posso ensinar música a um aluno se este não consegue ler as pautas?”; “Se o aluno não for invisual, mas tiver baixa visão, é viável fazer uma abordagem à leitura de partituras? Como?”; “Que estratégias posso utilizar, enquanto docente de violoncelo, para ensinar o aluno a tocar o instrumento quando este não consegue acompanhar a partitura enquanto toca?”.

Estas são as perguntas que sustentaram esta investigação, para as quais são apresentadas estratégias pedagógicas como alternativa ou complemento às utilizadas convencionalmente, com especial enfoque numa fase primária da aprendizagem do violoncelo.

Aqui, são exploradas as capacidades físico-motoras e intelectuais destes alunos, tais como a audição, a memorização, o tato, a imitação, a improvisação e a sinestesia. Por ser um livro em formato digital, é passível de ser lido por voz computorizada, o que concede acesso a qualquer pessoa.

Os conteúdos abordados neste documento são fruto do meu Projeto de Investigação, no âmbito do Mestrado em Ensino de Música – variante Instrumento.

Para esta investigação foram administrados dois questionários:

- A utentes da Associação de Cegos e Amblíopes de Portugal (ACAPO);
- Aos professores de violoncelo do país.

Aferiram-se as dificuldades sentidas por deficientes visuais em contexto de aprendizagem musical, bem como pelos professores de violoncelo quando perante alunos com estas características. As estratégias aqui presentes são práticas que os professores dos utentes da ACAPO e os professores de violoncelo utilizaram. A minha experiência pessoal, enquanto professora de violoncelo de dois alunos amblíopes é também considerada para este estudo.

Faço votos para que este documento seja partilhado com todos os que procuram ajuda rápida e simplificada, especialmente num primeiro contacto com alunos que têm deficiência visual.


2. AUDIÇÃO, IMITAÇÃO, ENTOAÇÃO E MEMORIZAÇÃO

Estas estratégias poderão ser utilizadas isoladamente ou combinadas, em exercícios simples como os que se sugerem:

  • O professor toca numa corda solta, um ritmo fácil de 4 tempos em divisão binária em pizzicato e com arco. O aluno imita, na mesma corda, o ritmo que ouviu.

Ex.1   Ex.2   Ex.3

 

Quando existe uma partitura e se pretende que o aluno toque o que está escrito, é fundamental estudar com o aluno e ensiná-lo a estudar:

  • O professor canta ou diz o nome das notas, com o ritmo, de 2 compassos. O aluno canta ou diz.
  • Numa 2º vez, o professor fá-lo-á a tocar, pedindo de seguida ao aluno que repita.
  • O estudo deve ser feito sempre por pequenas secções, como de 2 em 2 compassos. Aos poucos, pretende-se juntar esses pequenos blocos de forma a construir frases.

Mas estas estratégias também poderão ser utilizadas para produzir uma sonoridade ou dinâmica pretendidos:

  • O professor toca, exemplificando, as vezes que achar necessário para que o aluno memorize.
  • Numa 2ª vez, toca no aluno e com o aluno, aproximando-se deste e auxiliando-o a sentir opeso do braço no arco e direção correta.  
  • Na 3ª vez, dá autonomia ao aluno para reproduzir sozinho o que ouviu.

Poderá, posteriormente, disponibilizar gravações áudio dos exercícios/peças que o aluno está a trabalhar:

1º: sessão de estudo, por pequenas secções, com as paragens necessárias;

2º: exercício/peça na íntegra.


3. ALTERAÇÕES FEITAS NO INSTRUMENTO E O TATO

Para um aluno com dificuldades visuais, é importante que este consiga detetar através do tato, as diferentes partes do violoncelo e do arco. Assim sugerem-se as seguintes alterações:

Colocar trastes no braço do violoncelo, para os 4 dedos da mão esquerda que pisam as cordas:

- Numa fase inicial, o aluno não terá facilidade em manter o correto distanciamento entre os dedos. É essencial que tenha pelo menos referência do 1º dedo (indicador) e do 4º dedo (mindinho), para que os restantes se ajustem naturalmente.

- Os trastes poderão ser feitos com fios mais grossos (ráfia, sediela, lã), o que permite mobilidade dos mesmos, se necessário, e conferem alto relevo, estimulando assim o tato do aluno.

 


Corretor de Arco


Corretor de arco:  É comum surgir alguma dificuldade em compreender o eixo correto entre o arco, as cordas e o cavalete. Esta ferramenta auxilia no correto posicionamento do arco sobre as cordas. Sendo um acessório dispendioso, poder-se-á improvisar e construir uma estrutura semirrígida com arames, que serão sustentados nas laterais do instrumento ou nos “f’s”.


4. ADEQUAÇÃO DA LUZ AMBIENTE E SENSIBILIDADE OCULAR

Um aluno invisual, poderá ser sensível às variações de luz do ambiente que o rodeia. Deverá assim, haver uma preocupação por parte de quem o acompanha no estudo, em adequar a luz do espaço à sua sensibilidade visual:

- Luz ligada ou desligada, consoante a preferência e tolerância do aluno;

- Persianas abertas ou fechadas consoante a preferência e tolerância do aluno.

A adequação da luz é muito importante, seja o aluno cego ou amblíope. A perceção de sombras e/ou vultos poderá variar consoante o nível de luminosidade do espaço, o que por sua vez, poderá ajudar ou prejudicar na aprendizagem, dependendo de cada situação.

Em caso de dúvida sobre como proceder, o mais sensato é contar com a opinião do aluno, que dirá se “melhorou” ou piorou” quando se liga ou desliga a luz, abre ou fecha a persiana de uma janela.


5. IMPROVISAÇÃO

Estimular a criatividade nas crianças e jovens é muito importante para o seu desenvolvimento cognitivo.

Nas aulas de violoncelo, o mote para incentivar à criatividade do aluno poderá passar pela Improvisação.

Como? Seguem três exemplos:

  • Dificuldade I: O professor define o compasso (binário, ternário, quaternário, simples ou compostos) e a quantidade de compassos. Numa corda solta à escolha do aluno, este deverá preencher os compassos definidos pelo professor com figuras rítmicas que conhece.
  • Dificuldade II: O professor define o compasso (binário, ternário, quaternário, simples ou compostos) e a quantidade de compassos. Utilizando o 1º e 2º ou 3º dedo da mão esquerda na primeira posição, o aluno deverá criar uma pequena melodia com ritmos simples.
  • Dificuldade III: O professor define o compasso (binário, ternário, quaternário, simples ou compostos) e a quantidade de compassos. Utilizando todos os dedos da mão esquerda na primeira posição ou outras que conheça, o aluno deverá criar uma pequena melodia com ritmos simples ou mais complexos (que impliquem mais destreza do arco).


6. SINESTESIA

Segundo o dicionário da Língua Portuguesa, a sinestesia é um “recurso expressivo em que se associam, na mesma expressão, sensações captadas por sentidos diferentes (visão, olfato, etc.)” A utilização deste recurso na transmissão de determinados conteúdos por parte do professor ao aluno, traduz-se num veículo de comunicação que se pode tornar muito eficaz e eficiente. A combinação de duas ou mais sensações pode tornar o diálogo mais inteligível para o aluno.Vejam-se os seguintes exemplos:

Ex.: Tocar a corda dó com um “som gorducho” (audição + tato) - ajuda o aluno a imaginar um som mais cheio, timbrado, que o incentiva a empregar o peso adequado do braço direito;

Ex.: Procura tocar estas duas notas na corda lá com um “som mais doce” (audição + paladar) - poderá facilitar ao aluno entender que as mudanças de arco deverão ser menos bruscas e mais impercetíveis auditivamente. Ao mesmo tempo, ajuda-o a compreender que o peso do braço direito deverá ser ajustado consoante a espessura das cordas;


7. UTILIZAÇÃO DO COMPUTADOR PARA LER PARTITURAS

Esta estratégia é adequada para se utilizar com alunos que tenham baixa visão mas que conseguem distinguir caracteres:

Para fazer leitura de partituras em formato digital, será imprescindível estar sensível às seguintes ações:

  • A partitura deverá ser, preferencialmente, uma edição original (as cópias tendem a perder qualidade de imagem). Na impossibilidade de ter a edição original, procurar a melhor versão da cópia da partitura e, em caso mais extremo, fazer um tratamento da imagem aumentando ou diminuindo o contraste no próprio documento;
  • Adequar a luminosidade do ecrã à sensibilidade ocular do aluno;
  • Aumentar o tamanho da pauta, garantindo a alta definição dos caracteres;
  • Estrategicamente, procurar que no ecrã apareçam no máximo 2 compassos (aliar esta estratégia à Memorização);
  • Fornecer aos Encarregados de Educação as partituras em formato digital, para que o aluno possa estudar em casa de forma mais independente.


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FIM

 

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ESTRATÉGIAS PEDAGÓGICAS PARA O ENSINO DO VIOLONCELO A ALUNOS COM DEFICIÊNCIA VISUAL: A PARTITURA COMO FERRAMENTA SECUNDÁRIA
autora: Inês Margarida Abreu Coelho
Mestre em Ensino de Música, especialização Instrumento violoncelo
Texto inserido no PROJETO DE INVESTIGAÇÃO NO ÂMBITO DO MESTRADO EM ENSINO DE MÚSICA ESCOLA SUPERIOR DE MÚSICA E ARTES DO ESPETÁCULO
2019/2020
http://hdl.handle.net/10400.22/16775
 

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12.Fev.2021
Maria José Alegre