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Isaac velho e cego abençoa Jacob - Govert Flinck, 1638
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"Uma vida mais longa é um recurso incrivelmente
valioso. Proporciona a oportunidade de repensar não
apenas no que a idade avançada pode ser, mas como
todas as nossas vidas podem se desdobrar."
A Organização Mundial de Saúde classifica
cronologicamente o início da terceira idade aos 65 anos
nos países desenvolvidos e aos 60 anos nos países em
desenvolvimento. Actualmente a esperança média de
vida é de 74 anos nos países industrializados e de 50
anos nos países em vias de desenvolvimento.
O envelhecimento, pressupõe alterações naturais e
gradativas ao nível físico, psicológico e social, sendo a
caraterística mais evidente a diminuição da capacidade
de adaptação do organismo face a alterações do meio
ambiente. Ao mesmo tempo que a população envelhece,
o estatuto e as atividades das pessoas mais velhas
mudam consideravelmente. Não é possível pensar no
envelhecimento como um evento isolado, dissociado de
experiências vividas ao longo da vida. É importante
destacar que é necessário observar a verdadeira
realidade.
Todos sabemos que envelhecemos a cada dia que
passa; sabemos que em determinada altura das nossas
vidas experienciamos momentos de incapacidade
podendo ser temporária ou permanente, sendo
experienciada e vivenciada de uma forma singular
dependendo de inúmeros factores e não de um grupo
específico.
Quando falamos de uma deficiência essa pode ser mais
ou menos incapacitante tendo em conta o meio em que a
pessoa vive e os recursos que possui. O período da vida
em que a pessoa adquire a deficiência, e como se
conscientiza dela, tem importância na forma como ela
enfrenta as mais variadas questões resultantes desse
acontecimento. No caso específico da deficiência visual,
para uma pessoa que possua visão, a perda deste
sentido é terrível, dada a elevada relevância a ele
atribuída na nossa vida e sociedade, sendo necessário
uma profunda reorganização na vida destas pessoas que
requerem um apoio urgente para que possam lidar com
esta perda.
São inúmeras as causas de cegueira numa fase tardia
como: a catarata, considerada a maior causa de cegueira
no mundo; o glaucoma, as diabetes e a degeneração
macular que esta relacionada à idade (DMRI), esta é a
causa mais comum de cegueira irreversível no Ocidente,
entre os 65 e 75 anos.
Cuidar da saúde ocular durante toda a vida, a fim de
prevenir problemas que possam comprometer a visão,
parece ser uma observação corriqueira ou mesmo óbvia,
mas muitas vezes passa despercebida.Muitos avaliam a
perda de visão como sendo uma característica do
envelhecimento. Lembro que essas alterações
orgânicas, que podem ocorrer no processo de
envelhecimento, extrapolam o âmbito fisiológico,
alcançando as dimensões psicológicas e sociais entre
outras.
Quando a pessoa idosa se queixa de dificuldades para
ler ou realizar trabalhos manuais, bordar, fazer tricô,
crochê, andar e fazer outras atividades que exigem uma
visão mais apurada é possível que esteja com algum
problema de visão. A perda ou a substituição de
determinados interesses/actividades rotineiras podem
ser alarmes para quem está próximo como por exemplo:
substituir o tempo/interesse que dedicava a leitura pela
televisão ou mesmo as «desculpas» para não sair de
casa.
A evolução tecnológica em geral, e das ciências
médicas em particular, permite um elevado número de
pessoas melhorar a sua acuidade visual e evitar a
cegueira. De facto, uma melhor informação da
população, associada aos enormes avanços que se
foram conquistando nos últimos anos em matéria de
diagnóstico e tratamento das doenças oftalmológicas,
possibilita hoje a prevenção e o tratamento de doenças
consideradas incuráveis há alguns anos. Embora a
oftalmologia nacional se caracterize por um elevado nível
de qualidade técnica e científica, torna-se indispensável
potenciá-lo e humanizá-lo, tendo em conta as
especificidades e os recursos locais existentes a fim de
melhorar o acesso da população aos cuidados de saúde
visual.
Apesar dos avanços, ainda persiste um vazio enorme
no acompanhamento ao utente com cegueira. Para a
saúde, este deixa de existir quando perde a visão. Torna-se
urgente que a parte médica possa estruturar o utente
idoso antes da sua condição de cegueira, oferecendo-lhe
ferramentas para iniciar o seu processo de adaptação e
reabilitação. Acredito que para a parte médica torna-se
penosa essa condição, já que para a mesma, o objectivo
é restabelecer ou manter a visão e não a sua perda, no
entanto, para que a pessoa idosa mantenha confiança
em si própria, é indispensável que ela possa confiar
naqueles que a cercam, e que sinta segurança face ao
futuro. Assim sendo, depreende-se que os que estão
mais próximos afetam o processo de adaptação e
reabilitação. É fundamental que a parte médica seja
dotada de informação e práticas que possam numa
primeira fase estabilizar o utente e familiares
respondendo a necessidades básicas de quem possui
um diagnóstico de perda progressiva de visão,
prevenindo complicações secundárias como: sofrerem
quedas; cometerem erros com medicações;
apresentarem quadros depresivos e de ansiedade; entre
outras.
Falar na deficiência visual na terceira idade pressupõe
falar também de outras perdas (auditiva; motora;
cognitiva) que inevitavelmente afectam a pessoa idosa,
resultado do próprio envelhecimento. A avaliação
funcional é de extrema importância na reabilitação, esta
permite a avaliação da capacidade funcional do utente
idoso com deficiência visual permitindo aos técnicos de
reabilitação e aos demais membros da equipa
multidisciplinar uma visão mais precisa da deficiência e
ao impacto da comorbidade (por exemplo: existindo mais
duas patologias: ser diabético e hipertenso). É
necessário também, compreender a forma como uma
situação de dependência de um membro idoso que
adquiriu a deficiência visual é assumida no contexto
familiar e que impacto tem, sobretudo para a
pessoa/familiar que assume a responsabilidade central
pela prestação de cuidados. O apoio ao nível da
informação e formação dos serviços de reabilitação
assume assim um caráter essencial, para dotar a familia
de competências necessárias. Torna-se importante que
os técnicos nas mais diversas áreas possam identificar
os fatores que propiciam e interferem na qualidade de
vida da pessoa idosa como por exemplo: (falta de)
condição funcional; (falta de) financeira; (falta de)
suporte familiar; (falta de) oportunidades; o seu
isolamento social; um ritmo e estilo de vida não
condizentes com o seu; perda de status profissional e
social; (falta de) opções de lazer; barreiras provocadas
pelo avanço tecnológico (culturais e técnicas);
dificuldade de acesso a novas informações; falta de
recursos para atender às suas necessidades e um
ambiente físico pouco acessível.
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"Pouco se investe na reabilitação da pessoa idosa e
muito menos, quando esta adquire uma deficiência
visual."
Todos os programas/respostas estão orientados
para crianças ou para pessoas em idade activa, o que
leva muitas vezes a uma acomodação por parte da
pessoa idosa e a uma aceitação no sentido de
resignação, por pensar que realmente já tenha cumprido
o seu papel social, não restando nada a fazer a não ser
ajudar os membros da sua família na medida do possível
e não atrapalhar nas rotinas diárias.
Parte das respostas para a reabilitação da pessoa idosa
com deficiência visual é prestada por Associações com
serviços específicos na área da deficiência visual, quer
no atendimento quer nas áreas de intervenção como:
Apoio social; Apoio psicológico; Habilitação/Reabilitação
(Orientação e Mobilidade, Braille, Actividades de Vida
Diária, Novas Tecnologias; Desenvolvimento e
Estimulação Sensorial – desenvolvimento de
competências cognitivas, comportamentais e
psicomotoras); Actividades culturais, lúdicas e
desportivas adaptadas. A importância de participarem
em grupos com temáticas motivacionais/interesses, de
um modo geral, apresentam modificações positivas nas
suas vidas, como a reconquista da auto-estima, a
ampliação das amizades e do leque de atividades.
Ao longo do trabalho desenvolvido com pessoas que
adquiriram a deficiência visual tardiamente, grande parte
das respostas para uma reabilitação bem-sucedida
encontram-se no contexto em que vive. Se
questionarmos uma pessoa idosa sobre onde se sente
segura, com certeza que a resposta será «em minha
casa». As características dos contextos em que se vive
podem constituir importantes riscos para a saúde e
obstáculos para a actividade e participação, mas
possuem um potencial de serem protectores e
capacitadores, estimulando comportamentos e
capacidades ou compensando dificuldades. Torna-se
necessário adaptar o ambiente à pessoa na condição de
cegueira, este processo de adaptação pode envolver
alterações no ambiente nem sempre fáceis de serem
realizadas frente a escassez de recursos financeiros e de
apoio familiar, no entanto, trabalhar em termos
reabilitativos a pessoa idosa com deficiência visual no
seu contexto habitacional é regenerar e repor a
segurança e a confiança que perdera nesse espaço.
Nada substitui o seu espaço, as suas coisas! A
segurança e a conquista na realização de tarefas
rotineiras do seu dia-a-dia fazem desenvolver novas
potencialidades, até então desconhecidas ou
inexploradas, através do treino das componentes físicas
que condicionam a funcionalidade (mobilidade, força
muscular, equilíbrio, resistência ao esforço) e do treino
específico de atividades funcionais e das actividades da
vida diária que poderão maximizar o seu desempenho
funcional/cognitivo. É importante referir que todas as
pessoas que adquirem a deficiência visual possuem um
manancial de experiências e aprendizagens e uma
memória visual de tudo o que vivenciaram com a visão.
Torna-se urgente o apoio em termos reabilitativos
diminuindo o risco de perdem aquisições e saberes que
possuem, necessitando apenas de adaptar esses
saberes a uma nova forma de os executar.
Embora a causa da perda de uma determinada função
possa nunca ser resolvida, a pessoa idosa com
deficiência visual pode adquirir maior independência no
seu desempenho funcional para as actividades básicas e
diárias compatíveis com seu estilo de vida. A
independência na realização das Actividades da Vida
Diária (AVD) é de grande importância na vida das
pessoas pois envolve questões de natureza emocional,
física e social. Estas actividades envolvem actividades
básicas (capacidade para alimentar-se, transferir-se,
vestir-se, fazer a sua higienização) e instrumentais
(preparar as refeições, lavar roupa, cuidar da casa, fazer
compras, usar o telefone, usar transporte, reconhecer e
gerir o dinheiro e os medicamentos). Cada actividade
deve ser avaliada em termos da função e acção,
procurando a identificação de rotinas anteriores,
execução actual, problemas actuais e em potencial na
pessoa idosa.
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“Acredito que a reabilitação deva ser um
processo contínuo, que deve ser
iniciado em meio hospitalar”
Independentemente da faixa etária, a dependência
pode alterar a dinâmica familiar, os papéis desenvolvidos
pelos seus membros, interferindo nas relações e no bemestar
da pessoa dependente e dos seus familiares. É
importante avaliar a motivação do idoso para participar
do processo, assim como o suporte e envolvimento de
familiares e amigos, os quais são factores fundamentais
para o sucesso do programa de reabilitação.
Voltar a se deslocar em segurança na sua habitação e
fora dela compreende várias etapas e uma condição de
saúde controlada e assegurada pela parte médica
quando existem casos que inspirem mais cuidado. Os
problemas de mobilidade atribuídos à pessoa idosa estão
normalmente relacionados com distúrbios no equilíbrio,
na marcha e na força muscular dos membros inferiores,
pelo que é muito importante ter em conta estes três
factores num programa de actividade física para pessoas
idosas com deficiência visual e na sua aprendizagem da
utilização da bengala branca para se deslocar. Cada
actividade deve ser avaliada em termos da função e
acção, procurando a identificação de rotinas anteriores,
execução actual e problemas actuais e no potencial da
pessoa idosa.
Torna-se urgente encontrar respostas na deslocação de
muitas pessoas idosas que cegaram e que não reúnem
condições quer físicas/cognitivas para se deslocarem de
bengala branca com independência. A resposta a uma
reabilitação não se encontra apenas na aquisição de
uma bengala e na deslocação com a mesma, reside na
potencialidade da pessoa voltar a restabelecer aspectos
essenciais na sua vida, esses devem ser alcançados de
uma forma consciente face à sua condição de saúde.
Para tal é necessário informar a pessoa idosa da
existência de serviços que possam apoiá-la; na procura
de actividades ocupacionais que vão ao encontro do seu
interesse; no aconselhamento e aquisição de produtos
de apoio específicos para a deficiência visual
facilitadores na realização de determinadas tarefas e
actividades da vida diária; no ensino/aprendizagem na
utilização desses produtos de apoio fazendo com que a
pessoa possa potenciá-los em diferentes actividades
tendo em conta a sua funcionalidade; na adaptação do
seu espaço habitacional de forma a organizá-lo tendo em
conta as suas necessidades; na deslocação na sua zona
de residência e fora dela.
Em suma, a falta de apoios e respostas imposta no
período da perda visual, resulta no aumento da perda
funcional, gerando um ciclo vicioso no qual a pessoa
idosa torna -se menos capaz de retomar o seu nível de
actividade anterior e com maior risco de adquirir
problemas físicos adicionais. Neste sentido, acredito que
a reabilitação deva ser um processo contínuo, que deve
ser iniciado em meio hospitalar. Asaúde deve fomentar a
articulação com associações e serviços específicos na
área da deficiência visual. A qualidade de um serviço
depende em grande escala da capacidade de perceber
que quando não possui respostas para oferecer aos
utentes que acompanha, deve encaminhar para um
serviço que possa responder as suas necessidades.
Apesar das respostas existentes na área da deficiência
visual em áreas específicas de acompanhamento
(actividades da vida diária; orientação e mobilidade;
terapias ocupacionais; formação em tecnologias da
comunicação; actividades de lazer e desporto), ainda
existe uma carência enorme nas respostas a serem
dadas a esta faixa etária, estas ainda requerem um
grande investimento envolvendo várias entidades
/associações; serviços e áreas específicas de apoio na
área da reabilitação.
Lembrar ainda que cada pessoa idosa possui a sua
história de vida, diferente de qualquer outra. O que pode
significar qualidade de vida para ela pode ser diferente e
ter um significado diferente para o seu familiar ou
profissionais. Torna-se urgente delinear estratégias de
apoio na deficiência visual nesta faixa etária. LB
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“A pessoa idosa conserva as suas
faculdades
mantendo os seus interesses vivos”. Cícero
ϟ
Cristina Almeida
é
Técnica Superior de Inserção Social na Delegação de
Lisboa da ACAPO
fonte do texto:
Revista Louis Braille
Revista especializada para a
área da deficiência visual
n.º 19 - 2016
Δ
28.Nov.2017
publicado
por
MJA
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