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 SOBRE A DEFICIÊNCIA VISUAL

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Cedo para ser velho e tarde para ser cego

Cristina Almeida
 

Isaac velho e cego abençoa Jacob - Govert Flinck, 1638
imagem: Isaac velho e cego abençoa Jacob - Govert Flinck, 1638

 

"Uma vida mais longa é um recurso incrivelmente valioso. Proporciona a oportunidade de repensar não apenas no que a idade avançada pode ser, mas como todas as nossas vidas podem se desdobrar."

A Organização Mundial de Saúde classifica cronologicamente o início da terceira idade aos 65 anos nos países desenvolvidos e aos 60 anos nos países em desenvolvimento. Actualmente a esperança média de vida é de 74 anos nos países industrializados e de 50 anos nos países em vias de desenvolvimento.

O envelhecimento, pressupõe alterações naturais e gradativas ao nível físico, psicológico e social, sendo a caraterística mais evidente a diminuição da capacidade de adaptação do organismo face a alterações do meio ambiente. Ao mesmo tempo que a população envelhece, o estatuto e as atividades das pessoas mais velhas mudam consideravelmente. Não é possível pensar no envelhecimento como um evento isolado, dissociado de experiências vividas ao longo da vida. É importante destacar que é necessário observar a verdadeira realidade.

Todos sabemos que envelhecemos a cada dia que passa; sabemos que em determinada altura das nossas vidas experienciamos momentos de incapacidade podendo ser temporária ou permanente, sendo experienciada e vivenciada de uma forma singular dependendo de inúmeros factores e não de um grupo específico.

Quando falamos de uma deficiência essa pode ser mais ou menos incapacitante tendo em conta o meio em que a pessoa vive e os recursos que possui. O período da vida em que a pessoa adquire a deficiência, e como se conscientiza dela, tem importância na forma como ela enfrenta as mais variadas questões resultantes desse acontecimento. No caso específico da deficiência visual, para uma pessoa que possua visão, a perda deste sentido é terrível, dada a elevada relevância a ele atribuída na nossa vida e sociedade, sendo necessário uma profunda reorganização na vida destas pessoas que requerem um apoio urgente para que possam lidar com esta perda.

São inúmeras as causas de cegueira numa fase tardia como: a catarata, considerada a maior causa de cegueira no mundo; o glaucoma, as diabetes e a degeneração macular que esta relacionada à idade (DMRI), esta é a causa mais comum de cegueira irreversível no Ocidente, entre os 65 e 75 anos.

Cuidar da saúde ocular durante toda a vida, a fim de prevenir problemas que possam comprometer a visão, parece ser uma observação corriqueira ou mesmo óbvia, mas muitas vezes passa despercebida.Muitos avaliam a perda de visão como sendo uma característica do envelhecimento. Lembro que essas alterações orgânicas, que podem ocorrer no processo de envelhecimento, extrapolam o âmbito fisiológico, alcançando as dimensões psicológicas e sociais entre outras.

Quando a pessoa idosa se queixa de dificuldades para ler ou realizar trabalhos manuais, bordar, fazer tricô, crochê, andar e fazer outras atividades que exigem uma visão mais apurada é possível que esteja com algum problema de visão. A perda ou a substituição de determinados interesses/actividades rotineiras podem ser alarmes para quem está próximo como por exemplo: substituir o tempo/interesse que dedicava a leitura pela televisão ou mesmo as «desculpas» para não sair de casa.

A evolução tecnológica em geral, e das ciências médicas em particular, permite um elevado número de pessoas melhorar a sua acuidade visual e evitar a cegueira. De facto, uma melhor informação da população, associada aos enormes avanços que se foram conquistando nos últimos anos em matéria de diagnóstico e tratamento das doenças oftalmológicas, possibilita hoje a prevenção e o tratamento de doenças consideradas incuráveis há alguns anos. Embora a oftalmologia nacional se caracterize por um elevado nível de qualidade técnica e científica, torna-se indispensável potenciá-lo e humanizá-lo, tendo em conta as especificidades e os recursos locais existentes a fim de melhorar o acesso da população aos cuidados de saúde visual.

Apesar dos avanços, ainda persiste um vazio enorme no acompanhamento ao utente com cegueira. Para a saúde, este deixa de existir quando perde a visão. Torna-se urgente que a parte médica possa estruturar o utente idoso antes da sua condição de cegueira, oferecendo-lhe ferramentas para iniciar o seu processo de adaptação e reabilitação. Acredito que para a parte médica torna-se penosa essa condição, já que para a mesma, o objectivo é restabelecer ou manter a visão e não a sua perda, no entanto, para que a pessoa idosa mantenha confiança em si própria, é indispensável que ela possa confiar naqueles que a cercam, e que sinta segurança face ao futuro. Assim sendo, depreende-se que os que estão mais próximos afetam o processo de adaptação e reabilitação. É fundamental que a parte médica seja dotada de informação e práticas que possam numa primeira fase estabilizar o utente e familiares respondendo a necessidades básicas de quem possui um diagnóstico de perda progressiva de visão, prevenindo complicações secundárias como: sofrerem quedas; cometerem erros com medicações; apresentarem quadros depresivos e de ansiedade; entre outras.

Falar na deficiência visual na terceira idade pressupõe falar também de outras perdas (auditiva; motora; cognitiva) que inevitavelmente afectam a pessoa idosa, resultado do próprio envelhecimento. A avaliação funcional é de extrema importância na reabilitação, esta permite a avaliação da capacidade funcional do utente idoso com deficiência visual permitindo aos técnicos de reabilitação e aos demais membros da equipa multidisciplinar uma visão mais precisa da deficiência e ao impacto da comorbidade (por exemplo: existindo mais duas patologias: ser diabético e hipertenso). É necessário também, compreender a forma como uma situação de dependência de um membro idoso que adquiriu a deficiência visual é assumida no contexto familiar e que impacto tem, sobretudo para a pessoa/familiar que assume a responsabilidade central pela prestação de cuidados. O apoio ao nível da informação e formação dos serviços de reabilitação assume assim um caráter essencial, para dotar a familia de competências necessárias. Torna-se importante que os técnicos nas mais diversas áreas possam identificar os fatores que propiciam e interferem na qualidade de vida da pessoa idosa como por exemplo: (falta de) condição funcional; (falta de) financeira; (falta de) suporte familiar; (falta de) oportunidades; o seu isolamento social; um ritmo e estilo de vida não condizentes com o seu; perda de status profissional e social; (falta de) opções de lazer; barreiras provocadas pelo avanço tecnológico (culturais e técnicas); dificuldade de acesso a novas informações; falta de recursos para atender às suas necessidades e um ambiente físico pouco acessível.
 

"Pouco se investe na reabilitação da pessoa idosa e muito menos, quando esta adquire uma deficiência visual."

Todos os programas/respostas estão orientados para crianças ou para pessoas em idade activa, o que leva muitas vezes a uma acomodação por parte da pessoa idosa e a uma aceitação no sentido de resignação, por pensar que realmente já tenha cumprido o seu papel social, não restando nada a fazer a não ser ajudar os membros da sua família na medida do possível e não atrapalhar nas rotinas diárias.

Parte das respostas para a reabilitação da pessoa idosa com deficiência visual é prestada por Associações com serviços específicos na área da deficiência visual, quer no atendimento quer nas áreas de intervenção como: Apoio social; Apoio psicológico; Habilitação/Reabilitação (Orientação e Mobilidade, Braille, Actividades de Vida Diária, Novas Tecnologias; Desenvolvimento e Estimulação Sensorial – desenvolvimento de competências cognitivas, comportamentais e psicomotoras); Actividades culturais, lúdicas e desportivas adaptadas. A importância de participarem em grupos com temáticas motivacionais/interesses, de um modo geral, apresentam modificações positivas nas suas vidas, como a reconquista da auto-estima, a ampliação das amizades e do leque de atividades.

Ao longo do trabalho desenvolvido com pessoas que adquiriram a deficiência visual tardiamente, grande parte das respostas para uma reabilitação bem-sucedida encontram-se no contexto em que vive. Se questionarmos uma pessoa idosa sobre onde se sente segura, com certeza que a resposta será «em minha casa». As características dos contextos em que se vive podem constituir importantes riscos para a saúde e obstáculos para a actividade e participação, mas possuem um potencial de serem protectores e capacitadores, estimulando comportamentos e capacidades ou compensando dificuldades. Torna-se necessário adaptar o ambiente à pessoa na condição de cegueira, este processo de adaptação pode envolver alterações no ambiente nem sempre fáceis de serem realizadas frente a escassez de recursos financeiros e de apoio familiar, no entanto, trabalhar em termos reabilitativos a pessoa idosa com deficiência visual no seu contexto habitacional é regenerar e repor a segurança e a confiança que perdera nesse espaço.

Nada substitui o seu espaço, as suas coisas! A segurança e a conquista na realização de tarefas rotineiras do seu dia-a-dia fazem desenvolver novas potencialidades, até então desconhecidas ou inexploradas, através do treino das componentes físicas que condicionam a funcionalidade (mobilidade, força muscular, equilíbrio, resistência ao esforço) e do treino específico de atividades funcionais e das actividades da vida diária que poderão maximizar o seu desempenho funcional/cognitivo. É importante referir que todas as pessoas que adquirem a deficiência visual possuem um manancial de experiências e aprendizagens e uma memória visual de tudo o que vivenciaram com a visão.

Torna-se urgente o apoio em termos reabilitativos diminuindo o risco de perdem aquisições e saberes que possuem, necessitando apenas de adaptar esses saberes a uma nova forma de os executar.

Embora a causa da perda de uma determinada função possa nunca ser resolvida, a pessoa idosa com deficiência visual pode adquirir maior independência no seu desempenho funcional para as actividades básicas e diárias compatíveis com seu estilo de vida. A independência na realização das Actividades da Vida Diária (AVD) é de grande importância na vida das pessoas pois envolve questões de natureza emocional, física e social. Estas actividades envolvem actividades básicas (capacidade para alimentar-se, transferir-se, vestir-se, fazer a sua higienização) e instrumentais (preparar as refeições, lavar roupa, cuidar da casa, fazer compras, usar o telefone, usar transporte, reconhecer e gerir o dinheiro e os medicamentos). Cada actividade deve ser avaliada em termos da função e acção, procurando a identificação de rotinas anteriores, execução actual, problemas actuais e em potencial na pessoa idosa.
 

“Acredito que a reabilitação deva ser um processo contínuo, que deve ser iniciado em meio hospitalar”

Independentemente da faixa etária, a dependência pode alterar a dinâmica familiar, os papéis desenvolvidos pelos seus membros, interferindo nas relações e no bemestar da pessoa dependente e dos seus familiares. É importante avaliar a motivação do idoso para participar do processo, assim como o suporte e envolvimento de familiares e amigos, os quais são factores fundamentais para o sucesso do programa de reabilitação.

Voltar a se deslocar em segurança na sua habitação e fora dela compreende várias etapas e uma condição de saúde controlada e assegurada pela parte médica quando existem casos que inspirem mais cuidado. Os problemas de mobilidade atribuídos à pessoa idosa estão normalmente relacionados com distúrbios no equilíbrio, na marcha e na força muscular dos membros inferiores, pelo que é muito importante ter em conta estes três factores num programa de actividade física para pessoas idosas com deficiência visual e na sua aprendizagem da utilização da bengala branca para se deslocar. Cada actividade deve ser avaliada em termos da função e acção, procurando a identificação de rotinas anteriores, execução actual e problemas actuais e no potencial da pessoa idosa.

Torna-se urgente encontrar respostas na deslocação de muitas pessoas idosas que cegaram e que não reúnem condições quer físicas/cognitivas para se deslocarem de bengala branca com independência. A resposta a uma reabilitação não se encontra apenas na aquisição de uma bengala e na deslocação com a mesma, reside na potencialidade da pessoa voltar a restabelecer aspectos essenciais na sua vida, esses devem ser alcançados de uma forma consciente face à sua condição de saúde.

Para tal é necessário informar a pessoa idosa da existência de serviços que possam apoiá-la; na procura de actividades ocupacionais que vão ao encontro do seu interesse; no aconselhamento e aquisição de produtos de apoio específicos para a deficiência visual facilitadores na realização de determinadas tarefas e actividades da vida diária; no ensino/aprendizagem na utilização desses produtos de apoio fazendo com que a pessoa possa potenciá-los em diferentes actividades tendo em conta a sua funcionalidade; na adaptação do seu espaço habitacional de forma a organizá-lo tendo em conta as suas necessidades; na deslocação na sua zona de residência e fora dela.

Em suma, a falta de apoios e respostas imposta no período da perda visual, resulta no aumento da perda funcional, gerando um ciclo vicioso no qual a pessoa idosa torna -se menos capaz de retomar o seu nível de actividade anterior e com maior risco de adquirir problemas físicos adicionais. Neste sentido, acredito que a reabilitação deva ser um processo contínuo, que deve ser iniciado em meio hospitalar. Asaúde deve fomentar a articulação com associações e serviços específicos na área da deficiência visual. A qualidade de um serviço depende em grande escala da capacidade de perceber que quando não possui respostas para oferecer aos utentes que acompanha, deve encaminhar para um serviço que possa responder as suas necessidades.

Apesar das respostas existentes na área da deficiência visual em áreas específicas de acompanhamento (actividades da vida diária; orientação e mobilidade; terapias ocupacionais; formação em tecnologias da comunicação; actividades de lazer e desporto), ainda existe uma carência enorme nas respostas a serem dadas a esta faixa etária, estas ainda requerem um grande investimento envolvendo várias entidades /associações; serviços e áreas específicas de apoio na área da reabilitação.

Lembrar ainda que cada pessoa idosa possui a sua história de vida, diferente de qualquer outra. O que pode significar qualidade de vida para ela pode ser diferente e ter um significado diferente para o seu familiar ou profissionais. Torna-se urgente delinear estratégias de apoio na deficiência visual nesta faixa etária. LB

A pessoa idosa conserva as suas faculdades mantendo os seus interesses vivos”. Cícero

 

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Cristina Almeida é Técnica Superior de Inserção Social na Delegação de Lisboa da ACAPO

fonte do texto:
Revista Louis Braille
Revista especializada para a área da deficiência visual
n.º 19 - 2016

 

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28.Nov.2017
publicado por MJA