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 Sobre a Deficiência Visual

A Atenção Compartilhada em Crianças Pequenas com Deficiência Visual

Miriam Adalgisa Bedim Godoy & Maria Stella Coutinho de Alcantara Gil
 

Caleb Plummer and His Blind  Daughter Sit in His Workshop  Where He Makes and Mends Toys (scene from 'The Cricket on the Hearth) - Frederick Barnard
Cena de 'O Grilo da Lareira' de Dickens: Caleb Plummer e a filha cega estão sentados na
sua oficina onde ele faz e conserta brinquedos - desenho de Frederick Barnard

RESUMO Atenção Compartilhada (AC) é o título que se atribui à interação da criança e do adulto guiada pelo interesse por um, mesmo evento. A literatura sobre AC enfatizou a dimensão visual das interações, o que enseja o questionamento sobre, a ocorrência da AC quando se trata de crianças com deficiência visual. O objetivo deste trabalho foi identificar as, dimensões ou os componentes que caracterizam a AC de crianças com deficiência visual na literatura especializada. A, revisão sistemática da literatura foi realizada de acordo com o Protocolo Preferred Reporting Items for Systematic Reviews, and Meta-Analyses/PRISMA. Os artigos selecionados apresentavam, no título ou nas palavras-chave, os descritores elegidos:, “child blind” and “joint attention”; “blindness” and “joint attention”; “children blind” and “joint attention”; “children visual, impairment” and “joint attention”. A análise dos 20 estudos selecionados permitiu categorizar temas predominantemente, abordados em relação à interação adulto-criança com deficiência visual: Definição de Atenção Compartilhada; Limites, de Atenção Compartilhada; Características da Interação Materna. Os principais componentes destacados nas publicações, foram o tato/toque e a comunicação oral quando da interação do cuidador com a criança. As muitas descrições dos, componentes da atenção compartilhada encontradas nas publicações sobre crianças com deficiência visual dificultaram, identificar e caracterizar as dimensões comportamentais. Entretanto, foi possível elencar um conjunto de componentes, propostos pelos autores, tais como: gestos, vocalizações, movimentos corporais e expressão facial, por exemplo. A, observação e a descrição das interações entre adultos e crianças com deficiência visual aparecem como o recurso mais, apropriado para caracterizar objetivamente os componentes da atenção compartilhada nesta população.


1. Introdução

O desenvolvimento socioemocional da criança pequena, conforme defendido por Trevarthen (1984) e Carpenter e Liebal (2011), é fortemente ancorado na interação comunicativa, da mãe e/ou responsável que cuida e educa. Nessa interação, os recursos comunicativos iniciais são voz, expressões faciais e olhar (CARPENTER; LIEBAL, 2011; STERN, 1974). Na mesma, direção, Tomasello (2014; 2003) afirma que as interações adulto-bebê promovem uma sintonia, social da criança com seu cuidador, sendo requisito primordial tanto para o desenvolvimento, social quanto cognitivo (pré-linguístico).

Várias abordagens do desenvolvimento das crianças pequenas consideram que o bebê, e a criança pequena são competentes para a interação com os cuidadores desde que nascem, (BRUNER, 1975). As competências interativas dos bebês existem desde o nascimento, mas a, partir dos nove meses, ele é capaz de ampliar seu nível atencional. A atenção da criança, que, era dirigida prioritariamente para o adulto, passa a incluir objetos ou acontecimentos do ambiente. Ela segue a direção do olhar da pessoa e engloba os acontecimentos (BRUNER, 2014;, SCAIFE; BRUNER, 1975).

A atenção compartilhada (3) é, portanto, a capacidade de o bebê formar relações entre, ele, o adulto e eventos do ambiente. Esta habilidade se desenvolve gradativamente através do, contato face a face, olho no olho, isto é, o adulto por meio da fala e de suas ações mobiliza o, bebê a prestar atenção nele, relação diádica, para uma atenção mais sofisticada em que o bebê, passa a coordenar e monitorar o olhar do outro para uma situação do ambiente: relação triádica (BARON-COHEN, 2014). Dito de outra forma, a atenção compartilhada é uma habilidade, humana fluida, requintada e altamente direcionada a identificar um marco de referência comum no ambiente com outras pessoas (MUNDY, 2016).

Segundo Tomasello (2014; 2003), a participação colaborativa entre o adulto e a criança exige de seus integrantes intenções e objetivos comuns, ou seja, intencionalidade compartilhada. Esse autor argumenta que a atenção compartilhada provoca nos participantes um, esforço cognitivo e uma mobilização interna à sua concretização. Nessa interação ocorre o, compartilhamento intersubjetivo, o qual é resultante da natureza do processo de aprendizagem (TOMASELLO, 2014; TOMASELLO; CARPENTER, 2007; TOMASELLO, 2003).

Nas pesquisas empíricas e nos postulados conceituais sobre atenção compartilhada,, foram descritos componentes predominantemente visuais. Desde o início da proposição do, fenômeno e da sua conceituação, as avaliações realizadas dependiam do comportamento visual do bebê (TOMASELLO, 2014; BUTTERWORTH, 2014; SCAIFE; BRUNER, 1975). O aspecto visual da interação na atenção compartilhada também predominou nos trabalhos que discutiram, o início e as características do fenômeno realizados com crianças com desenvolvimento típico.

Os componentes mais mencionados foram: contato visual, direcionamento do olhar, alternância do olhar, movimento dos olhos, acompanhamento do olhar, seguimento do olhar, olhar, mútuo, olhar fixo, orientação visual, olhar na direção do olhar do outro, monitoramento das, intenções do outro através do olhar, mudança de direcionalidade do olhar, observar a face do, parceiro (MUNDY; NEWELL, 2007).

Diante do exposto uma questão se apresenta: seria possível identificar nas pesquisas, empíricas realizadas com crianças com DV os componentes da atenção compartilhada nos, momentos interacionais? Para Seibert, Hogan e Mundy (1982), é necessário verificar se a condição da deficiência afeta o desenvolvimento da atenção compartilhada de forma direta. Um, outro aspecto a ser verificado é se a falta de habilidade e de interações adequadas do cuidador, contribuem, de forma indireta, para limitar o desenvolvimento da atenção compartilhada. A, questão de pesquisa neste trabalho foi orientada pela centralidade da aquisição da atenção, compartilhada no desenvolvimento de habilidades que são requisitos para competências humanas, como o comportamento simbólico (TOMASELLO, 2003), e pelo interesse em caracterizar a atenção compartilhada na interação da criança com deficiência visual.


2. Objetivo

O objetivo deste trabalho foi identificar as dimensões ou os componentes que caracterizam a AC de crianças com deficiência visual na literatura especializada.


3. Método

Este foi um estudo conceitual empreendido pela revisão sistemática da literatura sobre a atenção compartilhada em crianças pequenas (4) com deficiência visual. Para o levantamento e análise da literatura foi utilizada a recomendação do PRISMA – Principais Itens para Relatar Revisões Sistemáticas e Meta Análise (GALVÃO; PANSANI, 2015) (5) . As buscas tiveram por objetivo recuperar publicações que relatassem pesquisas realizadas com participantes com deficiência visual.

Os artigos selecionados apresentavam, no título ou nas palavras-chave, os descritores:, “child blind” and “joint attention”; “blindness” and “joint attention”; “children blind” and “joint, attention”; “children visual impairment” and “joint attention”.

Os critérios de inclusão dos artigos foram os seguintes: manuscritos completos, disponíveis na íntegra online, publicados em qualquer período; pesquisas realizadas com crianças, com deficiência visual. Os critérios de exclusão foram: repetição do mesmo manuscrito em, periódicos diferentes; apenas título e/ou resumo disponíveis. Em caso de artigo publicado em, duas revistas diferentes, era mantido o manuscrito identificado em primeiro lugar. Ademais,, foi feito o levantamento da literatura publicada entre os anos 1980 e 2017.

A consulta de artigos sobre pesquisas realizadas com participantes com DV foi realizada nas bases de dados: Directory of Open Access Journals (DOAJ); Academic Search Premier - ASP, (EBSCO); Educational Resources Information Center – ERIC; Educational Resources Information, Center – ERIC (ProQuest) e Wiley Online Library. Nessas bases de dados, foram recuperados,, especificamente, os trabalhos que tratassem da deficiência visual.

Nessa busca foram encontrados quatro artigos que tratavam da deficiência visual:, dois trabalhos na Academic Search Premier - ASP (EBSCO) (N= 2); um artigo na Wiley Online, Library (N=1) e um artigo na Educational Resources Information Center - ERIC (N=1). Nenhuma, publicação foi recuperada no Directory of Open Access Journals (DOAJ) nem na Educational, Resources Information Center - ERIC (ProQuest).

Um aporte adicional e inesperado veio de um artigo de revisão dos autores Van Den, Brock, Van Eijden, Overbeek, Kef, Sterkenburg, Schuengel (2017), encontrado na busca. A publicação consistia em um levantamento sistemático de literatura, a fim de identificar os temas, que deveriam ser abordados para adaptar um instrumento às pessoas com deficiência visual, denominado Vídeo-Feedback Intervention to Promote Positive Parenting (VIPP). O instrumento, deveria nortear os cuidadores e as buscas auxiliariam o desenvolvimento de eixos a serem, abordados com vistas à intervenção precoce em crianças com deficiência visual. Para construir, o instrumento, uma etapa antecedeu a busca, ou seja, os autores tiveram contato com 13 profissionais no campo da deficiência visual para selecionar os temas relacionados à intervenção, precoce. Foram identificados seis temas essenciais, a saber: interação/comunicação, intersubjetividade, atenção compartilhada, exploração, toque e comportamentos específicos. Dentre, esses temas, os pesquisadores destacaram como imprescindíveis aos programas de intervenção os eixos: interação, intersubjetividade e atenção compartilhada. Na sequência, os estudiosos realizaram um levantamento sistemático da literatura para cada tema.

Na lista de referências do artigo de Van Den Brock et al. (2017), foram selecionados 24, textos que tratavam da atenção compartilhada. Dos textos selecionados, foram excluídos dois, duplicados e dois não localizados na íntegra online, o que resultou em 20 manuscritos.


4. Resultados

Na análise dos artigos observou-se que, frequentemente, alguns temas eram retomados nos textos. Os temas foram agrupados em três categorias denominadas: Definição de Atenção Compartilhada, Limites de Atenção Compartilhada e Interação Materna. É importante, destacar que as questões abordadas em alguns manuscritos poderiam ser classificadas em, mais de um tema.

O elenco de componentes apresentados foi organizado em função das características, específicas de atenção compartilhada dos participantes, descritas nos artigos, tais como: fala,, toque, etc. (e. g. ALS; TRONICK; BRAZELTON, 1980). Em outras publicações, os autores referiram-se às classes de ações ou respostas e deram exemplos das ações que as compunham. É, possível recuperar exemplos no caso de “diretiva materna” proposta por Campbell (2003), (“olhe”;, “preste atenção”) e Conti-Ramsden e Perez-Pereira (1999), como, por exemplo, “olhe aqui!”, “olá, docinho!” “pegue esses blocos!”.

A categoria definição de atenção compartilhada foi desmembrada entre as ações maternas e as ações infantis. Os manuscritos destacaram diferentes estratégias que as mães utilizaram para engajar a criança em cenas de atenção compartilhada. Dentre as recorrentes, destacavam-se o tato/toque e voz/comunicação (ALS; TRONICK; BRAZELTON, 1980; ROGOW, 1982; PREISLER, 1991; 1995; BIGELOW, 2003; RATTRAY; ZEEDYK, 2005; SOUSA; BOSA; HUGO, 2005; FONTE, 2013a; 2013b). As ações infantis proeminentes foram toque, expressão facial, movimento corporal e vocalizações (MEDEIROS; SALOMÃO, 2012a; 2012b; SOUZA; BOSA; HUGO, 2005; PREISLER, 1995; 1991).

Sobre os limites da atenção compartilhada, foram verificadas as restrições vinculadas, à ação materna e à ação da criança. De modo geral, as restrições maternas referiram-se à dificuldade que as mães videntes tinham em decifrar as expressões faciais e corporais do filho,, assim como o excesso de diretivas e rótulos (LOOTS; DEVISE; SERMIJIN, 2003; MOORE; McCONACHIE, 1994; TRÖSTER; BRAMBRING, 1992; PREISLER, 1991). As crianças com deficiência visual têm muita dificuldade em compreender a linguagem referente aos objetos, dificuldades, importantes de observar estados emocionais (expressões, gestos e posturas corporais) e de, envolvimento no universo compartilhado (BRANBRING; ASBROCK, 2010; DALE; SONKSEN, 2002; HOBSON; LEE; BROWN, 1999).

Nas pesquisas a respeito das interações maternas, os parâmetros de destaque foram o, tempo e a duração das cenas de atenção compartilhada (início e término das interações) e as, estratégias de mediação do adulto, como, por exemplo, feedbacks, questionamentos, direcionamento do comportamento e suporte pedagógico (MEDEIROS; SALOMÃO, 2014).

Cada uma das categorias foi examinada em relação à possibilidade de indicar componentes da atenção compartilhada. Cada artigo, examinado em relação às categorias identificadas, permitiu detalhar as respostas específicas que os autores incluíam em títulos mais gerais, de classificação dos comportamentos maternos e infantis.


5. Discussão

Os temas tratados nos estudos sobre a atenção compartilhada envolvendo uma criança com deficiência visual foram agrupados em três categorias: definição da atenção compartilhada, limites da atenção compartilhada e a interação materna.

As definições da atenção compartilhada apresentadas nos artigos analisados ancoraram-se nos elementos de seus componentes, por exemplo: voz/comunicação, toque, gesto, tátil, repetição da informação, contato corporal, solicitações, diretivas de instrução e estimulação auditiva (ALS; TRONICK; BRAZELTON, 1980; ROGOW, 1982; PREISLER, 1991; 1995; BIGELOW, 2003; RATTRAY; ZEEDYK, 2005; SOUSA; BOSA; HUGO, 2005; FONTE, 2013a; 2013b; MEDEIROS; SALOMÃO, 2012b). Os componentes propostos referem-se à topografia das respostas, bem como às categorias amplas sobre a participação dos atores da interação, sem distinguir o papel de um ou de outro.

A lacuna na definição da atenção compartilhada está na ausência de uma análise da, função que os componentes exerceriam de modo a se identificar a relação entre as condições, oferecidas por um participante da díade para o outro, e pelos eventos físicos do ambiente, mais, do que pela descrição de respostas ou ações como exemplificado. Os resultados dos estudos, empíricos sobre a atenção compartilhada que envolvem crianças com deficiência visual podem, contribuir para aprimorar a definição, quando se trata de crianças cegas ou com baixa visão.

Na literatura que investigou a atenção compartilhada da criança com deficiência visual foram descritos alguns limites para estabelecer ou promover esta competência das crianças.

Por exemplo, foram encontradas as instruções que solicitavam o emprego de recursos visuais e, parte delas era constituída por diretivas de atenção visual que são usuais para crianças videntes, mas não são apropriadas para crianças com deficiência visual.

Em relação ao uso de diretivas incluindo o acesso visual, Tadic, Pring e Dale (2009), destacaram que as mães de crianças com DV, mesmo reconhecendo a condição dos filhos,, fizeram uso de pistas verbais recorrendo ao sentido da visão como, por exemplo, “olhe o que, eu tenho aqui”. Campbell (2003) também observou o uso de elementos visuais (“olha” e “veja”), e destacou, entretanto, que as mães, ao realizarem esse tipo de diretiva, tinham o objetivo de, alertar a criança para o objeto e para explorar o objeto ou perceber os detalhes do brinquedo.

O excesso de uso de diretivas pela mãe foi correlacionado ao menor interesse da criança pelo brinquedo alvo, de acordo com Souza, Bosa e Hugo (2005), e se traduziria em menor, frequência de atenção compartilhada. Nesse aspecto, há uma divergência na literatura, pois em outras pesquisas (PEREZ-PEREIRA; CONTI-RAMSDEN, 2001; CONTI-RAMSDEN; PEREZ-PEREIRA, 1999), essa atitude da mãe foi interpretada como uma resposta funcional condizente, com as especificidades que a falta de visão da criança impõe ao cuidador.

Os resultados e discussões apresentados nas pesquisas indicaram também alguns limites da criança com DV em relação a requisitos para a atenção compartilhada: estabelecer a, permanência do objeto e atender comandos simples (p. ex., “me mostra”), o que pode estar relacionado, também, à dificuldade simbólica (TRÖSTER; BRAMBRING, 1992); atender comandos que envolvam a visão (“olhe” - “veja”) e gestos (“apontar”, “mostrar”) (PREISLER, 1991); manter e alternar a atenção entre o objeto/evento e o cuidador (TADIC; PRING; DALE, 2009); compreender a linguagem simbólica e o significado das palavras (LOOTS; DEVISE; SERMIJN, 2003; DALE; SONKSEN, 2002); compreender a relação causa e efeito; obter, manipular e aprender sobre as propriedades desse objeto (BIGELOW, 2003); partilhar as experiências sobre o objeto com o outro e atraso no desenvolvimento na tomada de perspectiva, em decorrência da dificuldade de compreender que vivemos em um mundo compartilhado (BRAMBRING; ASBROCK, 2010; HOBSON; LEE; BROWN, 1999; FARRENKOPF; DAVIDSON, 1992).

Algumas problemáticas foram identificadas em relação à idade do desenvolvimento, da atenção compartilhada em crianças com deficiência visual. Bigelow (2003) e Preisler (1991) foram unânimes em afirmar que esta chega tardiamente nas crianças com deficiência visual.

No entanto, Als, Tronick e Brazelton (1980) afirmaram que a atenção compartilhada pode ser, iniciada aos quatro meses e meio.

De acordo com Bigelow (2003), o estabelecimento da AC em crianças com DV é um, desafio. O atraso e a dificuldade que essas crianças têm para estabelecer a relação triádica têm, função importante do componente visual para este tipo de interação. Entretanto, a autora, destaca que um ambiente social rico e estruturado pode favorecer a interpretação dos sinais, perceptivos das crianças pelos cuidadores. Considera, ainda, que os adultos podem aprender, as formas como devem proceder para estimular o desenvolvimento social, cognitivo e linguístico destas crianças.

A categoria ‘interação materna’ manteve uma expressão adotada na maior parte dos, estudos, a despeito da denominação algumas vezes tratar da interação entre os adultos e a, criança com deficiência visual. Por exemplo, Moore e McConachie (1994), destacaram a importância, tanto dos pais de crianças com baixa visão, quanto dos pais de crianças cegas, descreverem as propriedades dos objetos. Os autores ressaltaram outras tendências dos pais de crianças, com DV. Esses pais fazem pedidos de ação para estimular as crianças a participarem e para, ensiná-las a usar os brinquedos de uma maneira particular; além disso, verificam a compreensão das instruções pela criança, exigindo que apresentem uma resposta ativa.

Como destacado por Mundy e Newell (2007), nos momentos interacionais maternos, o, aspecto visual (olho no olho e a observação face a face) é fortemente identificado para o, desenvolvimento da AC em crianças típicas. Em relação aos comportamentos maternos na, interação com crianças com DV, os mais frequentemente destacados nas pesquisas foram o, toque/tato e a fala/linguagem nos momentos de atenção compartilhada. Esses comportamentos foram considerados essenciais para o desenvolvimento da criança com deficiência visual, (BISHOP; BARRAGA; DENZLER; BROUSSARD, 2004). Para ampliar a capacidade interacional da, criança, outros componentes foram mencionados como relevantes: olfativo (BARON-COHEN,, 2014); gustativo e cenestésico (COLUS, 2019). Embora houvesse a recomendação em recorrer, ao toque/tato, componentes olfativo, gustativo e cenestésico, nenhum desses foram observados ou medidos em qualquer dos artigos recuperados no levantamento.

Além do recurso da linguagem, o toque desempenhou uma função precisa na interação mãe e criança com DV. Um dos trabalhos iniciais que examinaram a importância do toque, foi realizado por Als, Tronick e Brazelton (1980). Os pesquisadores orientaram a mãe a interagir, com a filha com cegueira. Nas primeiras três semanas, a criança apresentava imobilidade, rigidez corporal e rosto sem expressividade. Os pesquisadores relataram que quando a mãe deixava a criança sozinha, os movimentos dos membros superiores e inferiores eram mais bruscos.

Em situação diferente, observava-se que, quando a mãe entrava no ambiente e conversava, suavemente com a criança, a expressão corporal assumida pela criança era de reconhecimento, da voz materna e, após períodos de envolvimento com o bebê, a mãe parecia ter interpretado, os sinais da criança como disponível para a interação.

Várias outras pesquisas (FONTE, 2013ª; 2013b; PREISLER, 1991) ratificaram a importância do contato corporal na interação com a criança DV. Alguns comportamentos que envolvem, o toque materno visavam engajar a criança em cenas de atenção conjunta, tais como: a mãe, segura o bebê, acaricia o bebê, toca o corpo do bebê. O toque e a fala são recursos que mobilizam a atenção dos outros, de acordo com Fonte (2013b); argumento que se soma à compreensão apresentada por Bigelow (2003) e Baron-Cohen (2014), da necessidade que as crianças, com deficiência visual apresentam de obter informações auditivas e táteis para compartilhar a, atenção com o adulto.

A importância de se observar a postura corporal da criança com DV foi documentada por Rogow (1982), quando ressaltou que as vocalizações e expressões corporais são, sinais indicativos de estabelecimento de interação social. Quando o adulto identifica as, vocalizações e os movimentos corporais das crianças, facilita a sua resposta, o que contribui para que a criança comece a experimentar a interação com o outro e com o ambiente, (ROGOW, 1982). Os achados de Preisler (1995; 1991) são compatíveis com o postulado de Rogow (1982).

Para o pesquisador, no período de três a seis meses, os bebês são mais propensos a manifestar, atividade motora quando são abordados pelas mães, principalmente quando elas recorrem ao, canto e ao toque no corpo da criança. Em contrapartida, a resposta da criança sinaliza o maior, engajamento na atividade de atenção compartilhada (PREISLER, 1995).

Aprender a antecipar as ações para o filho é uma outra habilidade sugerida para as, mães de crianças com DV, além da capacidade observacional. Nas pesquisas de Perez-Pereira e, Conti-Ramsden (2001) e Moore e McConachie (1994), as mães das crianças com DV foram mais, proativas para iniciar e manter a atenção compartilhada quando comparadas com as mães de crianças sem DV. As mães de crianças com DV também demonstraram maior uso do contato, físico (toque) e verbal do que de mães de crianças normovisuais (RATTRAY; ZEEDYK, 2005;, CONTI-RAMSDEN; PEREZ-PEREIRA, 1999; TRÖSTER, BRAMBRING, 1994).


6. Considerações finais

Para atender ao objetivo deste estudo, encontrou-se nas publicações examinadas forte sustentação sobre a questão levantada anteriormente. A atenção compartilhada é considerada um marco importante no desenvolvimento infantil. A AC é tratada, em especial, como, condição para a aquisição da linguagem e das habilidades sociais e as definições priorizaram, o olhar e os gestos, modalidades que requisitam o sentido da visão. Diante da importância da, aquisição da criança e da ênfase aos aspectos visuais do desempenho, é imprescindível reorientar a discussão para destacar a AC na população de crianças com deficiência visual. Evidencia-se que a integração dos sistemas sensoriais no acesso da criança ao ambiente é fator de, desenvolvimento da AC, fato que precisa ser destacado para os adultos que convivem com, essa população.

Como detectado na literatura sobre atenção compartilhada, o estímulo principal para, a criança que enxerga é a visão e, secundariamente, a audição. Para as crianças com DV, as, respostas auditivas são fundamentais, assim como o perceber propiciado pela integração dos, modos de acesso ao ambiente. Dessa forma, é fundamental levar em conta os elementos que, compõem a apropriação do mundo: a preensão, em geral; os elementos cenestésicos pelo tato/, toque e verificação da temperatura e textura; sensoriais (olfato, luminosidade e paladar) e, proprioceptivos (noção da posição e orientação do seu corpo ou partes dele no espaço e força, muscular para posicioná-lo, base para o equilíbrio postural). Sendo assim, a comunicação oral, do cuidador da criança com DV, composta por comentários, verbalizações, vocalizações e perguntas, seria um antecedente ao engajamento na atenção compartilhada, e os demais elementos seriam complementares para que esta interação fosse frutífera, dinâmica e harmoniosa, entre os pares.

O refinamento da análise das publicações selecionadas poderá ser completado por, pesquisas futuras. Isso decorre do fato de, ao verificar as referências bibliográficas das publicações consideradas, termos priorizado os periódicos em lugar dos livros. Incluir esta opção em, estudos futuros pode contribuir para ampliar a discussão sobre o desenvolvimento da criança, pequena com deficiência visual.

 

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    Notas

  • 1 Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro), Doutora em Educação Especial pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), E-mail: miriamadalgisa@terra.com.br,

  • 2 Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Doutora em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP), E-mail: mscagil@ufscar.br

  • 3 Neste texto estamos mantendo a terminologia adotada pelos autores.

  • 4 Compreende-se como criança pequena o período que corresponde a primeiríssima infância – de 0 a 3 anos.

  • 5 Tradução em português da declaração “The PRISMA Statement”. Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and MetaAnalyses. Disponível em: www.prisma-statement.org,  

 

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A Atenção Compartilhada em Crianças Pequenas com Deficiência Visual: uma revisão sistemática
Miriam Adalgisa Bedim Godoy & Maria Stella Coutinho de Alcantara Gil
Benjamin Constant, Rio de Janeiro, v. 27, n. 63, e276302, 2021

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3.Jul.2022
Maria José Alegre