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 Sobre a Deficiência Visual

Atividades de Vida Diária

Prof. Tomázia Dirce Peres Lora
 


Christine Ha, de 33 anos - cega - venceu a 3.ª edição do MasterChef USA. Uma doença rara, a neuromielite óptica, fê-la perder 90% da visão.
 


Os preconceitos sociais e a própria atitude das pessoas cegas têm contribuído através dos tempos, para a formação dos estereótipos da cegueira. Essa caracterização dos portadores de problemas visuais, aos quais se atribuem comportamentos, reações, vocações especiais, variando de grau e intensidade segundo o nível de desenvolvimento cultural e de civilização, em muito tem contribuído para retardar o desenvolvimento adequado dos programas de educação e de reabilitação. O estigma da cegueira pode existir tanto no próprio indivíduo como no público em geral, cabendo aos profissionais que atuam no campo especializado a responsabilidade de orientação e esclarecimento às famílias e à comunidade para uma postura adequada frente ao problema.

Atualmente o trabalho desenvolvido com pessoas portadoras de problemas visuais, congênitos ou adquiridos, tem como objetivo principal sua integração na sociedade, verificando-se um esforço muito grande no sentido de tirá-las da marginalidade em que foram colocadas, consideradas muitas vezes como incapazes de realizarem as mínimas atividades comuns exigidas pela vida diária. No entanto, a integração dos indivíduos cegos na sociedade só será possível se lhes forem dadas condições adequadas para o seu crescimento e desenvolvimento, compatíveis com a sua capacidade de realização.

A dificuldade na execução das atividades da vida diária (AVD) é, sem dúvida, um dos grandes prejuízos acarretados pela cegueira, e, se não for devidamente considerada, levará o indivíduo a contínua dependência. O desenvolvimento das habilidades necessárias para a realização das atividades cotidianas constitui um dos aspectos mais importantes de um programa de educação ou reabilitação, pois pouco adiantará a pessoa cega adquirir inúmeros conhecimentos teóricos ou habilidades, se não souber desempenhar-se adequadamente das atividades comuns exigidas para a participação em qualquer grupo, estando altamente comprometida sua aceitação e conseqüente integração social.


Educação e reabilitação

A realização das atividades de vida diária é extremamente importante, tanto para a criança como para o adulto, visto que a cegueira pode atingir o indivíduo em qualquer fase da vida. Para que as Atividades de Vida Diária possam ser adequadamente desenvolvidas, tanto na educação como na reabilitação, torna-se necessária a distinção dos dois processos.

"A palavra reabilitação tem, infelizmente, certas implicações semânticas, sendo entendida por muitos como uma maneira mecânica de abordar determinada enfermidade, com a finalidade de restaurar no indivíduo o grau de funcionalidade anterior à moléstia. Estritamente falando, é absurdo usar-se a palavra reabilitação em se tratando de surdez ou cegueira congênita; seria apropriado falar-se em habilitação. A distinção entre ambas é que reabilitação envolve a capacidade de alguém para retornar a uma vida que já viveu, ao passo que a habilitação é fazer com que alguém se desenvolva para enfrentar bem a vida que tem para viver". (H. Robert, 1960).


Atividades de vida diária na educação

O conjunto de realizações envolvidas nas Atividades da Vida Diária constitui a parte mais importante do estilo de vida de uma pessoa, motivo pelo qual o aluno deficiente visual deverá ser devidamente orientado em todos os aspectos que ela envolve, sendo necessário que a família, os professores e a sociedade de um modo geral considerem a criança deficiente como aquela à qual devem ser dadas oportunidades de aprendizado, a fim de que seu desenvolvimento físico e mental se processe de modo harmonioso. Se em lugar de cercearmos a criança deficiente com cuidados excessivos, procurarmos fazer com que ela consiga adquirir confiança em si mesma, sem dúvida estaremos adotando uma atitude que só poderá reverter em resultados positivos. Geralmente, os pais ou responsáveis atrasam o desenvolvimento de certas habilidades básicas por julgarem que a criança é incapaz de aprender, restringindo suas atividades e experiências de tal modo que, quando chegam à idade escolar, não estão preparadas para participar de um novo ambiente. A criança não deve ser privada de fazer as coisas por si mesma no momento em que o seu desenvolvimento físico o permitir. Se ela for bloqueada, estaremos não só impedindo o seu aprendizado, como também contribuindo para dificultar que mais tarde se torne uma pessoa ajustada e auto-suficiente. Portanto, o início das práticas das AVD não deve fugir aos padrões estabelecidos para as crianças comuns, que, até atingirem um desempenho satisfatório, passam também por experiências, por vezes frustradoras, como vestir-se e abotoar suas roupas de forma errada, calçar sapatos trocados, derrubar alimentos ou líquidos à mesa, sujar as roupas, etc. Estes mesmos direitos e liberdade de ação devem ser oferecidos à criança cega para que consiga adquirir o controle sobre si mesma e sobre o ambiente que a cerca.

O desenvolvimento dos sentidos através de experiências sensoriais múltiplas é parte do processo educacional, sendo imprescindível para a realização das AVD. A criança deverá aprender a reconhecer os diferentes utensílios usados na cozinha, para limpeza e arrumação da casa, peças do vestuário, materiais para higiene, para toalete e outros. A criança poderá tomar contato com as várias atividades realizadas normalmente na dinâmica da vida de qualquer indivíduo, através de brincadeiras orientadas, contribuindo muito para isso os diferentes joguinhos em miniaturas existentes no mercado, como, por exemplo, jogos de copa, cozinha, acessórios de toalete, dormitórios, ferramentas, transportes, roupas de bonecas e muitos outros.

A programação geral da escola também deve ser aproveitada para aplicação das AVD, tais como, hora do lanche, compras na cantina, comemorações de aniversários, festividades gerais, vestir e desvestir roupas para as aulas de educação física e outras atividades; a própria necessidade fisiológica da criança deve ser aproveitada para utilização dos sanitários de forma mais conveniente. Ainda na infância deve ser iniciada a utilização do tato por extensão através do talher, para que a criança possa reconhecer os alimentos sem tocá-los associando o odor dos mesmos; deve ainda lhe ser dada oportunidade de servir-se de alimentos ou líquidos de diferentes temperaturas, a fim de evitar que, quando adulta, tenha receio de lidar com coisas quentes. Face às dificuldades que certas tarefas envolvem, o tempo necessário para o seu domínio, além dos estragos por vezes ocorridos, muitos pais acham mais cômodo fazer tudo pela criança, sem perceber com isso o grande prejuízo que estão acarretando a seus filhos.

A iniciação nas AVD sem dúvida começa no lar, devendo ser a escola a complementação deste. O professor além de suas funções específicas terá que orientar a família em certos aspectos, principalmente pelo fato de que a maioria desconhece as possibilidades de seus filhos, nem sabe também a forma correta de auxiliá-los. Não basta dar à criança a orientação adequada para a realização de determinada tarefa, ela necessita de ajuda para a execução e repetição da experiência em conjunto, repetição da mesma com supervisão, para que possa executar com segurança e desembaraço.

O ato de vestir-se, por exemplo, constitui uma dificuldade devido à variedade de cores e acessórios que deverão ser combinados, exigindo a participação de terceiros; no entanto, o ato de despir-se não constitui tanto problema, se bem que a criança deverá ser orientada para estar atenta quando tira suas roupas, pois deverá fazê-lo com certa ordem para poder encontrá-las mais tarde.

Se as AVD forem realizadas de acordo com o desenvolvimento físico e mental da criança, teremos no futuro um adulto auto-suficiente e adaptado à realidade da vida. Deve ser lembrado que, para o desenvolvimento das AVD, podem ser utilizados materiais comuns, sendo necessário, no entanto, maior repetição, concretização e objetividade no ensino.

A análise dos aspectos colocados nos leva a concluir que um processo educacional bem orientado deve proporcionar ao aluno condições plenas de funcionamento, que o conduzirão à efetiva participação na comunidade; no entanto, a educação mal orientada deixará lacunas que fatalmente levarão o aluno à necessidade de submeter-se futuramente ao processo de reabilitação.


Discussão e aplicação de técnicas

1. Cuidados pessoais e higiene

A criança cega ou portadora de visão subnormal, tanto quanto a criança comum, precisa saber da importância dos cuidados pessoais e higiene para a aceitação de qualquer indivíduo num grupo; crianças sujas, mal cheirosas ou descabeladas, causam má impressão e dificultam a aproximação de outras.

O ensino dos vários aspectos que envolvem os cuidados pessoais e de higiene deve respeitar as etapas do desenvolvimento, pois não podemos exigir da criança cega atividades que uma criança comum, conforme a idade, ainda não está apta a realizar. No entanto, não podemos esquecer que certas atividades constituem pré-requisitos para outras. Por outro lado, deve ser enfatizado, não só no que se refere a este aspecto, mas em todas as tarefas relacionadas às atividades da vida diária, que o exercício cotidiano do potencial e habilidades da criança melhora seu desempenho.

Várias são as atividades que a criança cega ou portadora de visão subnormal deve aprender quanto aos cuidados pessoais e de higiene. Destacaremos apenas algumas, sugerindo procedimentos ou cuidados que devem ser tomados ao orientar a criança, lembrando que todas as vias sensoriais devem ser estimuladas, e que qualquer pista pode ser importante para facilitar a compreensão e concretização da tarefa. Por outro lado, diferentes tarefas podem ser introduzidas dependendo do nível de interesse e desempenho do aluno, sendo papel do professor orientar a família para que as mesmas sejam vivenciadas no lar, de forma natural ou lúdica e que a criança sinta prazer em realizá-las.


1.1. Lavar as mãos

Realizar junto com a criança todas as etapas necessárias para que a atividade se efetive, desde a localização da pia, torneira e sabonete, até a finalização da tarefa, deixando que a criança faça sozinha as etapas que já domina, até a realização independente.


1.2. Pentear-se

Usar pente ou escova fazendo a criança sentir os movimentos que devem ser feitos para desembaraçar e arrumar o cabelo; fazê-la conhecer o tipo de penteado que usa, bem como de outras pessoas, sugerindo alternativas do mesmo, conforme tipo e comprimento do cabelo.


1.3. Escovar os dentes

Verificar com a criança a forma que melhor se adapta para colocar a pasta na escova. Segurar a escova de tal modo que as cerdas fiquem entre os dedos indicador e polegar, que servirão de guia para colocação da pasta. Colocar a pasta no dedo indicador e passá-la para as cerdas da escova.

Poderá ser utilizado um modelo de arcada dentária em gesso ou outro material odontológico para melhor compreensão das partes a serem escovadas e da movimentação correta da escova. Orientar a criança quanto aos cuidados necessários para abrir o tubo de pasta; onde colocar a tampa para encontrá-la posteriormente; a força necessária para apertar o tubo de forma que a pasta não se espalhe pelo banheiro.


1.4. Vestir-se: cuidado e seleção de roupas

Como todas as atividades da vida diária, deverá ser respeitado o nível de desenvolvimento em que a criança se encontra. Muitas atividades não poderão ser realizadas na classe, porém os chamados Quadros para AVD, em muito contribuem para verificar a realização do aluno ou iniciá-lo na atividade.

As atividades devem ser iniciadas com peças ou materiais grandes e fáceis de serem manipulados no início. Exercitar na própria roupa ou em separado os movimentos para abotoar, fechar zíper, colchetes de pressão ou gancho.

  • Dar laço (poderão ser utilizados para este aprendizado cordões de cores ou texturas diferentes).
  • Calçar meia (dividir a tarefa em diferentes etapas de acordo com a dificuldade da criança).
  • Calçar sapatos (chamar a atenção para que a criança perceba que os sapatos têm pé direito e esquerdo, vivenciando com ela para sentir o desconforto quando estão trocados).
  • Chamar a atenção para a frente, costas, direito e avesso das peças (bainhas e costuras).
  • Orientar para que as roupas sejam guardadas em lugares predeterminados para que possam ser encontradas mais facilmente.
  • Ao tirar uma roupa, verificar se a peça está do lado direito e se for vesti-la posteriormente, dobrá-la para que não fique toda amassada.

Quando se trabalha com adolescentes ou adultos poderão ser introduzidas tarefas como:

  • Pregar botões (enfiar a agulha, dar nó na linha).
  • Fazer bainhas de saias ou calças.
  • Lavar e passar roupa.
  • Organização de gavetas, armários, guarda-roupa, etc.
  • Orientação para combinação de cores.
  • Orientação quanto ao uso de acessórios.
  • Seleção da roupa conforme o local (esporte, social, etc.).
  • Conhecer o n° do manequim que usa (colarinho, calça, vestido, sapato, meia, etc).


2. Arranjo da casa: limpar, arrumar a cama, lavar roupa, etc.

As atividades referentes a este item são mais apropriadas para adolescentes e adultos, porém podem ser iniciadas em sala de aula, à medida que a criança tenha condições de realizá-las para que sejam intensificadas no lar:

  • Arrumar mesas na sala de aula (disposição das carteiras ou decoração para festas de aniversário).
  • Tirar o pó dos móveis existentes na sala de aula.
  • Arrumar material no armário ou gavetas.
  • Manter organizados seu material, na sala de aula ou local de estudo.
  • Ajudar a pôr e tirar a mesa, aproveitando ocasiões festivas ou o refeitório da escola.
  • Lavar xícaras, copos, pratos ou talheres que porventura possam ser usados na sala de aula, enxugá-los e guardá-los nos devidos lugares.
  • Conhecimento e identificação de material comum de limpeza (treinamento sensorial).

Poderá ser sugerido aos pais que orientem os alunos maiores em tarefas referentes a:

Arranjo da casa: pôr e tirar mesa de café ou jantares, colocar cadeiras e pequenos móveis em seus devidos lugares, arrumar objetos sobre os móveis (arranjo de flores, enfeites, etc.), recolher objetos fora de seus respectivos lugares (arrumar passadeiras ou tapetes, cinzeiros ou outros objetos).

Limpeza: varrer, tirar pó ou lustrar móveis, lavar banheiro, cozinha, jardim, etc.., lavar louça, enxugá-la e guardá-la nos respectivos lugares, lavar e/ou encerar o chão (esfregar, passar rodo, passar pano, enceradeira, etc.), arrumar guarda-roupa, armários, gavetas, etc., orientar o uso adequado de materiais de limpeza, limpar vidros, portas, geladeira, etc.

Arrumar a cama: pôr e tirar lençóis, colchas, cobertores e fronhas nos travesseiros, virar periodicamente o colchão, orientar sobre a troca periódica dos lençóis, dobrar cobertores e pijama, guardando-os nos devidos lugares.

Lavar roupa (iniciar com peças pequenas e não muito sujas, aumentando progressivamente).

  • orientar sobre as partes que podem estar mais sujas, nas diferentes peças do vestuário, como colarinho das camisas ou blusas, punhos, frente, costas, joelho das calças, assento, etc
  • se houver condições, ensinar o uso da máquina de lavar roupa
  • ensinar a usar o ferro elétrico
  • passar roupa (pequenas peças no início, progredindo conforme o interesse ou necessidade).


3. Preparo de refeições simples

Cuidados especiais devem ser tomados quanto a:

Lidar com o fogão ou forno, panelas e líquidos quentes (sugerir no início, preparo de alimentos que não se alteram se misturados frios e depois levados ao fogo, como por exemplo fritar um ovo: colocar o óleo na frigideira, abrir o ovo num pires, colocá-lo na gordura, pôr o sal e ligar o fogo, orientando-se pelo barulho da fritura).

Cremes: misturar ao leite todos os ingredientes e levar ao fogo mexendo até engrossar, condimentos (pimenta, sal, açúcar, etc), cuidado para não trocá-los ou colocar em excesso; deverá ser orientado a sentir a quantidade ao pegar.

Conhecer e saber usar as medidas geralmente empregadas no preparo de refeições (colher de sopa, chá ou sobremesa, xícara, copo, quilo, gramas, etc, inclusive metade da medida).

Iniciar com atividades simples, mesmo com adultos, e progredir gradativamente conforme o interesse e o desempenho

Conversar com a criança sobre:

  • diferentes classes de alimentos como verduras, frutas, legumes, carnes, cereais e outros
  • exemplificar os que podem ser comidos crus e os que precisam ser cozidos
  • os que acompanham pratos salgados e doces
  • como são preparados os alimentos triviais como café, chá, arroz, feijão, saladas, legumes, sopas, sucos, vitaminas, etc
  • aproveitar todas as oportunidades possíveis para concretizar as informações fornecidas para a criança, podendo ser utilizada a copa e a cozinha da escola, as comemorações de aniversários, quermesses, etc
  • simular compras na feira ou supermercado, visando o preparo de determinada refeição.

Ao se trabalhar com adolescentes ou adultos, além dos aspectos levantados, poderá ser sugerido o preparo real de refeições simples como lanches, patês, vitaminas, sucos, saladas, sopas, etc.


4. Técnicas para alimentar-se

A atividade de comer corretamente constitui uma tarefa difícil e geralmente provoca certa tensão sobre as pessoas cegas, principalmente para os adultos que desejam adquirir uma conduta socialmente correta. Ao comer, a visão fornece ao indivíduo uma útil informação no que se refere à comida propriamente, os complementos, as operações necessárias e os procedimentos específicos, como cortar um pedaço grande em pequenas porções, enfim, as pessoas videntes comem com a boca, com as mãos, os acessórios e com os olhos.

A visão permite à pessoa que come observar os outros e imitá-los. É comum a um hóspede vidente, inseguro quanto à forma de comer certo alimento observar seu anfitrião e imitá-lo. A visão permite ainda à pessoa que come tentar manter-se no ritmo do grupo, retardando-se ou acelerando ao verificar um desequilíbrio.

Embora o contato do ser humano com os alimentos seja essencial para a sobrevivência, a implicação social não pode ser esquecida. Um indivíduo que tem hábitos inadequados à mesa, evidencia que sua educação nesta área foi descuidada, no entanto a acusação da sociedade é para a própria pessoa e não para seus professores, os instrutores ou familiares. A orientação para comer de forma correta, como qualquer aprendizado, deverá obedecer às etapas de desenvolvimento da criança, às características do meio onde vive, sendo imprescindível a participação e colaboração da família.


Sugestões Gerais

Estabelecer um ponto de referência na mesa, isto é, um objeto que tenha localização exata e conhecida em relação aos demais que devem ser encontrados. Este procedimento é mais freqüente quando a refeição é servida em bandeja.

Manter continuamente contato com a mesa, para evitar virar, bater ou derrubar objetos, podendo ser utilizada para isto a técnica de guiar-se com a mão.

Durante a refeição é aconselhável curvar o tronco levemente para frente, mantendo a face sobre o prato, evitando desta forma que caia alguma coisa fora do mesmo quando o garfo é levantado.

Os alimentos podem ser reconhecidos pelo aroma, pela sensação de quente ou frio, pelo sabor ou pelo tato através do garfo. Ter sempre em mente onde são colocados os talheres. O peso do talher indica a quantidade de alimento que foi apanhado.

Durante as refeições, os alimentos podem ser apanhados pelo processo de golpe, ou seja, inserir a ponta do garfo no alimento e suspender. Este processo é mais indicado para os alimentos sólidos como carne, batata, salada, etc; ou pelo processo de mergulho, que consiste em mergulhar a ponta do garfo para baixo do alimento nivelando o garfo e depois levantando-o. Este segundo processo é mais usado para massas, cremes, arroz, ervilhas, verduras e alimentos leves.

Manter o prato sempre bem colocado, usando uma das mãos ou pressionando-o com o talher.

Nas situações onde se torna mais difícil apanhar o alimento, pode ser usado um empurrador, como a faca, um pedaço de pão ou biscoito, que auxiliam a colocar o alimento em posição de ser apanhado e levado à boca.

Os alimentos a serem servidos podem ser empurrados contra os lados da travessa ou tigela.

Durante a refeição, é necessário verificar constantemente a localização dos alimentos e empurrá-los para o centro do prato se for o caso, evitando que caiam para fora.

Ambas as mãos precisam ser intensamente usadas pela pessoa cega para orientar-se e tomar contato com os alimentos.

Se necessário poderão ser feitas perguntas do tipo:

  • O que está no prato?
  • O alimento está cortado?
  • Onde estão localizados os alimentos? Os talheres?
  • Há molho, creme, purê, saladas, etc?
  • A salada está temperada?
  • Onde está o sal, pimenta, etc.?


Aproximação da mesa

Ao aproximar-se da mesa poderá ser utilizada a técnica guiando-se com a mão. Colocar uma das mãos sobre o espaldar da cadeira, e com a outra localizar a cadeira, o assento, certificando-se de que a mesma não está ocupada, bem como, verificando sua forma e posição.


4.1. Orientação quanto aos alimentos no prato

Sugerir ao aluno que use a borda do prato como ponto de referência e tome contato com os alimentos, utilizando a ponta do garfo em posição perpendicular. Inserir o garfo nos alimentos relembrando a posição dos mesmos conforme as horas num relógio.

Identificar os alimentos pela textura, cheiro, sabor ou consistência

Virar o prato para colocar os alimentos que devem ser cortados na posição correspondente às 6 horas, principalmente a carne.

Os alimentos poderão ser colocados no prato nas seguintes posições:

  • carne: entre 6 e 8 horas.
  • legumes: entre 12 e 13 horas.
  • batata: entre 9 e 12 horas, etc.


4.2. Cortar alimentos

Processo (com garfo)

Poderá ser utilizada a borda do prato como ponto de referência, localizando o alimento com a ponta do garfo.

Ajeitar o prato com a mão e estimar o tamanho do pedaço a ser cortado, pressionando o garfo sobre o alimento, puxando a porção maior com a faca ou um pedaço de pão. Se houver resistência, há indicações de que a porção não foi suficientemente cortada ou está grande

Levar o pedaço cortado à boca pelo processo de golpe. Este processo é mais indicado para alimentos moles como peixe, bolo de carne, tortas, omeletes, etc.

Processo (com a faca):

Localizar com a faca a borda do prato e em seguida a ponta do alimento a ser cortado. Inserir a ponta do garfo no alimento.

Usando o garfo como ponto de referência, deslocar a faca para trás do garfo; começar a cortar de um lado e do outro em movimentos semelhantes a uma meia lua, ou seja, ao redor do garfo.

Empurrar a porção maior com a faca, porém levemente, e pelo processo de golpe, levar o alimento à boca.


4.3. Passar manteiga

No início poderá ser necessário segurar todo o pedaço de pão ou bolacha na palma da mão, colocando a manteiga no centro e movendo a faca em todas as direções. A localização do pão e da manteiga deve ser feita pela técnica da exploração, para evitar esbarrões desagradáveis.

Fazer com a faca uma estimativa da manteiga a ser retirada. Pegar o pão já cortado e passar a manteiga.


4.4. Uso de condimentos

Os condimentos poderão ser localizados pela técnica de exploração.

Deverão ser identificados molho, sal ou pimenta; o sal poderá ser reconhecido pelo peso maior ou barulho ao balançar o saleiro; a pimenta poderá ser reconhecida pelo aroma. Para dosar seu uso poderão ser colocados na palma da mão e depois sobre os alementos.

Colocar açúcar: colocar o açucareiro próximo da xícara, localizar a borda da mesma e despejar o açúcar.


4.5. Servir-se de líquidos

Para não deixar transbordar o líquido da xícara ou copo poderá ser colocado o dedo indicador dentro do recipiente, ou orientar-se pelo peso ou ruído.


4.6. Localização dos utensílios

Depois do uso: Depois de usados os utensílios, travessas, copos, xícaras, etc, devem ser colocados nos mesmos lugares para nova utilização, por exemplo:

- faca de pão e manteiga sobre o prato
- faca de refeição sobre a borda do prato
- colher de molho e todas as outras utilizadas para servir devem ficar dentro dos respectivos vasilhames e lugares apropriados.


4.7. Frangos e alimentos com ossos ou espinhos

Através das técnicas de cortar com a faca (item 4.2), localizar o alimento no prato e tentar cortá-lo


5. Reparos simples no lar

A pessoa cega que foi sempre estimulada e participante das atividades gerais do lar, poderá aprender a fazer reparos simples como:

  • Rocar uma lâmpada.
  • Arrumar o fio de um aparelho eletrodoméstico.
  • Colocar e retirar cortinas.
  • Reparar cadeiras, gavetas, portas de armários, etc. (colar, pregar, serrar, etc.).
  • Substituir parafusos, borrachas de torneiras, dobradiças de portas, vidros quebrados, etc.
  • Desentupir encanamentos e outras atividades pelas quais tenha interesse ou tenha aprendido.


6. Planejamento e organização do orçamento

Para que a pessoa cega ou de visão subnormal possa na idade adulta planejar e organizar seu orçamento, é necessário que ela tenha passado por algumas experiências. Um indivíduo que foi submetido a um tratamento protegido, educação segregada ou que só tenha tido vivência de ambientes institucionalizados, poderá encontrar sérias dificuldades quando tiver necessidade de planejar e organizar seu orçamento.

É oportuno mencionarmos que esta é mais uma atividade que será gradativamente desenvolvida ao longo de um processo educacional integrado. A participação do aluno em seu ambiente de origem, o conhecimento dos problemas diários enfrentados por qualquer família de nível econômico pouco privilegiado, os apertos por que passam para a compra de alimentos, roupas, calçados, etc, o conhecimento dos preços de tais objetos, a determinação das prioridades e demais aspectos envolvidos diariamente na dinâmica de um lar, constituirão experiências de inestimável valor. Por outro lado, o não-conhecimento de tal dinâmica poderá concorrer para a formação de uma falsa visão da realidade, onde tudo lhe é dado à mão e nada cobrado, desconhecendo por vezes as dificuldades por que passam seus familiares, não atribuindo o devido valor às coisas, sem distinção do que é prioritário ou supérfluo.

O indivíduo portador de cegueira ou visão subnormal poderá ser auxiliado no planejamento ou organização de seus gastos, de acordo com seu padrão sócio-econômico e cultural, dentro de bases reais e objetivas que devem ser sedimentadas a longo prazo. No entanto caberá a ele decidir sobre a aplicação do seu orçamento, devendo também ser alertado quanto a possíveis explorações de terceiros.

Na sala de aula, algumas atividades e exercícios podem ser realizados em função destes aspectos, através de situações problemas em que alguns são chamados a discutir e apresentar sugestões para possíveis soluções. Atividades como levantamento de preços em supermercados, pequenas compras na cantina da escola tendo em vista uma certa quantia de dinheiro a ser gasta, poderão constituir um bom exercício, assim como a discussão sobre a escolha de diferentes tipos de compras de material ou objetos considerados prioritários. O cuidado e adequada utilização do material e equipamentos escolares, também concorrem para a formação do senso de responsabilidade e economia, que são condições indispensáveis para o equilíbrio de qualquer orçamento.


7. Organização, identificação e rotulagem dos itens usados em AVD

É imprescindível para a pessoa portadora de problemas visuais manter seus pertences, de um modo geral, organizados e, se possível, rotulados para facilitar sua identificação, evitar enganos que poderão ser danosos, e conseguir um melhor desempenho.

Desde pequena a criança deverá ser orientada e estimulada na execução de atividades desta natureza; a localização, identificação, ordem e cuidado com suas coisas, a arrumação das gavetas, armários, etc, devem ser preocupação constante do professor e da família; somente através da auto-atividade se conseguirá que a criança adquira o hábito de organização e ordem, que é indispensável para a execução das diferentes atividades envolvidas na vida diária.


8. Cultivo das boas maneiras

O cego vive no mundo dos videntes, e dentro dele precisa desempenhar seu papel com a consciência de seus deveres e obrigações, devendo de sua parte esforçar-se para que seja respeitado e considerado útil, situando-se no tempo e no espaço em relação ao meio em que vive. No entanto, só conseguirá uma posição social se for devidamente orientado para a integração e vida em sociedade, o que só será conseguido através de uma atuação adequada e convencionalmente aceita pela maioria das pessoas.

Uma boa educação deverá se preocupar com o cultivo das boas maneiras, no que se refere ao respeito às outras pessoas, direitos e deveres de cada um, controle de si mesmo, reconhecimento de suas limitações, honestidade, pontualidade, ordem, limpeza, cortesia e confiança em si mesmo. Desde muito cedo devemos ensinar a criança a:

  • Como deve fazer um cumprimento.
  • Que ao entrar numa sala deve bater à porta.
  • Que ao falar deve voltar o rosto para o interlocutor.
  • Que ao bocejar, espirrar, tossir, deve colocar a mão ou o lenço no rosto desviando das pessoas que estão à sua volta.


8.1. - Mímica

É comum aos cegos a quase ausência de expressões faciais e conseqüentemente gestos e expressões corporais. A orientação específica, tanto pelo professor como pela família, poderá minorar esses aspectos.

Os portadores de deficiência visual precisam saber que os videntes, em muitas ocasiões, expressam seus pensamentos através de gestos, movimentos da cabeça, ombros, braços, etc, sendo por vezes tão eloqüentes, que não necessitam de palavras para tornar clara a mensagem.

No entanto a criança cega nunca deverá se fazer de vidente, mas sim, tanto quanto possível, utilizar de forma natural gestos e expressões aprendidas. É necessário, pois, que lhe sejam ensinadas as expressões mais comuns, possíveis de serem aprendidas e que lhes serão úteis em muitas ocasiões.

Todo o comportamento será mais adequado, espontâneo e natural se for constantemente utilizado, sem receio de demonstrar seus sentimentos interiores e expressões gestuais, tais como as sugestões a seguir:

  • Cumprimentar as pessoas inclinando um pouco o corpo, mostrando uma fisionomia agradável.
  • Em certas situações de grupo, por vezes é mais indicado um alô geral, podendo ser inadequado dar a mão a todos.
  • Na afirmação ou negação, movimentar adequadamente a cabeça, com a ênfase do sim ou do não.
  • O apontar as pessoas, as coisas e a si próprio, quando conveniente, deverá ser ensinado.
  • Treinar bater sobre a mesa com os dedos juntos (tamborilar).
  • Ensinar a impor-se com gestos das mãos ou dos dedos, nas expressões: mais ou menos, positivo, negativo, etc.
  • Como colocar a articulação do indicador e qual a posição exata da mão ao bater à porta.
  • Como balançar os ombros, levantá-los e deixá-los cair, próprios das expressões "não sei, ou sei lá..."
  • Como movimentar adequadamente os braços ao caminhar.
  • Como bater palmas de forma correta e como se pode fazer com as mãos o sinal de chamar alguém.
  • Como dar até logo, ou cumprimentar com um oi, etc.

Todos esses gestos devem estar ligados às palavras, expressões do rosto e postura adequada, e devidamente contextualizados para que sejam executados com o máximo de naturalidade. Prestar atenção para que não sejam exagerados, para que os movimentos sejam delicados, não notadamente forçados. Lembrar que, quanto mais relações a criança tiver, conseqüentemente, na vida adulta, tanto mais notadas serão suas expressões faciais e gestuais, facilitando sua aceitação em diferentes grupos; portanto, é necessário que as realize de forma adequada.

 

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excerto de
Deficiência Visual - Reflexão sobre a Prática Pedagógica
Autora: Marilda Moraes Garcia Bruno
Colaboradores: Cecília Maria Oka, Elizete Pacheco, João Álvaro de Moraes Felippe, Mara Olympia C. Siaulys, Maria Christina M. Nassif, Tânia Regina Martins Resende, Tomázia Dirce Peres Lora, Vera Lúcia Leme Rhein Felippe
Publicação: Lara Mara
São Paulo: Laramara, 1997.

 

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11.Nov.2014
publicado por MJA