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 Sobre a Deficiência Visual


O Truque Que Matou Um Deus

Philip Ardagh

A morte de Balder às mãos de Hoder, o seu irmão cego
A morte de Balder às mãos de Hoder, o seu irmão cego


Balder era o mais belo dos deuses. O cabelo dele brilhava como a luz do Sol e levava a bondade, a felicidade e a sabedoria para onde quer que fosse... até começar a sofrer de pesadelos e a ter medo da morte.

Odin e Friga tinham muitos filhos, mas Balder era o preferido de Friga. Balder tinha um irmão gémeo, Hoder, que era cego e, estranhamente, de quem Friga menos gostava.

Quando soube dos pesadelos e do receio da morte que atormentavam Balder, Friga decidiu fazer tudo quanto pudesse para o proteger do mal. Percorreu o mundo fazendo com que cada animal, pedra, planta, água e doença prometessem não fazer mal a Balder.

Falou com as aves no ar, com os insectos, com as folhas das árvores... e tal era o seu poder como esposa do poderoso Ódin que todos prometeram não causar sequer um arranhão ao seu filho preferido.

Todos, excepto um raminho de visco pelo qual Friga passou ao regressar a casa. Exausta da longa viagem, Friga olhou de relance para a pequena planta pensando que mal é que aquele raminho de visco poderia causar a um deus. Achando que a resposta era que não poderia fazer mal algum, seguiu o seu caminho sem lhe pedir que prometesse não molestar Balder.

Em breve, correu a notícia de que Balder era indestrutível: que nada poderia magoá-lo ou sequer arranhá-lo, e muito menos matá-lo. E tornou-se um passatempo regular para os outros deuses atirarem coisas a Balder, num local chamado Gladsheim.

Em vez de percorrerem os céus, ou de lutarem com os gigantes, os deuses juntavam-se para atirarem todo o género de coisas a Balder. Machados, flechas, facas e rochas: tudo resvalava sem lhe tocar.

Os deuses tinham escolhido Gladsheim para essas brincadeiras porque era um lugar de paz. Isso mostrava que as armas eram arremessadas por brincadeira e não a sério. Balder tornou-se ainda mais popular e deixou de ter pesadelos.

De cada vez que era atirado um objecto que não lhe tocava, Balder atirava a cabeça para trás e ria, tão divertido como todos os outros.

Certa vez Tor foi a Gladsheim com um enorme rochedo, tão pesado que tinha dificuldade em o levantar... e ele era o mais forte de todos os deuses. Deu um passo em frente e, com um grito, deixou cair a rocha sobre a cabeça de Balder.

Se tocasse na cabeça de Balder, a rocha tê-la-ia desfeito, mas cumpriu a promessa feita a Friga e rolou indo cair no solo, junto de Balder, com um estrondo terrível. Tor atirou a cabeça para trás e juntou as suas gargalhadas às de Balder. Era na verdade uma brincadeira divertida!

Agora, Balder era ainda mais atraente do que dantes, se isso era possível.

O astucioso amigo de Tor, Loki, não achava graça. Estava habituado a ser ele o centro das atenções e sentia inveja de Balder... Por isso planeou a sua queda.

- Mas como hei-de lutar com alguém que é indestrutível? - disse para consigo.

Se alguém conhecia a resposta a essa pergunta, esse alguém devia ser Friga.

Loki disfarçou-se de velha e foi visitar a deusa. Friga não o reconheceu e recebeu-o amistosamente.

Quando Loki lhe falou de Balder e de como nada parecia feri-lo, Friga sentiu-se feliz por falar do seu filho preferido. Contou à desconhecida como viajara por todos os cantos do mundo para obter a promessa de que nada lhe faria mal.

À medida que o dia ia passando, Friga ia-se tornando cada vez mais faladora. O disfarçado Loki depressa ficou a saber aquilo de que precisava. Friga confidenciou-lhe que apenas um arbusto de visco que crescia a oeste do Valhala nada prometera, o que significava que havia qualquer coisa que poderia, possivelmente, ser capaz de fazer mal a Balder.

- Mas como poderia um ramo de visco fazer tal coisa? - exclamou ela, rindo.

- Como, na verdade? - concordou Loki.

Loki foi à procura do ramo de visco. Quando o descobriu, percebeu que devia ter crescido desde a altura em que Friga o vira. Era agora suficientemente comprido para com ele fazer uma arma útil.

Loki arrancou rapidamente as folhas e as bagas e ficou com um caule delgado e fino cuja extremidade ele afiou. Em seguida, voltou para junto dos deuses que se divertiam a atirar coisas a Balder. Nunca se cansavam disso. Era tão divertido ver mesmo a mais pesada das rochas e o mais afiado dos machados saltarem para longe dele sem lhe tocarem! Que lhe poderiam atirar mais?

Nesse dia Tor lançou-lhe o seu martelo Mjollnir. Era uma arma que todos receavam. Ninguém sobrevivera depois de ser atingido por ele. Contavam-se histórias sobre um gigante adormecido, chamado Skrymir, ter sido em tempos atingido por Mjollnir e pensar que as pancadas suaves que sentira fossem apenas folhas a cair; mas nesse caso a magia funcionara. Skrymir era, na realidade, o rei gigante Utgard-Loki, e os golpes destinados à cabeça dele eram suficientemente profundos para criarem vales nos montes invisíveis que se interpunham entre a cabeça dele e o martelo de Tor.

Mjollnir saltou para se afastar de Balder e foi cair no solo. A assistência aplaudiu, soltando gargalhadas. Entre os deuses estava sentado o irmão gémeo de Balder, o cego Hoder. Embora tomasse parte nas conversas e risse com os outros deuses, não podia divertir-se a ver os objectos serem repelidos pelo corpo do Balder. Loki abriu caminho por entre os deuses e entregou a Hoder, que se encontrava sentado, o comprido e afiado arbusto de visco.

- Toma, Hoder - disse. - Podes não ser capaz de ver o resultado, mas podes pelo menos lançar um objecto, como toda a gente. Apoia-te no meu braço para te guiar e atira este pau a Balder.

- Obrigado, Loki - disse Hoder.

Julgando estar simplesmente a tomar parte num jogo inofensivo, Hoder deixou que Loki guiasse o seu braço e lançou a seta de visco.

Como o visco não fizera a promessa feita por todas as outras coisas no mundo, a flecha não se afastou de Balder. A ponta aguçada rasgou a roupa, penetrou-lhe no coração e matou-o.

Houve um silêncio de assombro, seguido pelo som de objectos a serem atirados ao solo.

- Foste tu que atiraste a seta ao teu irmão gémeo? - perguntou um dos deuses.

- Sim, fui eu - declarou Hoder com um sorriso de satisfação. Não fazia ideia do terrível acontecimento que ocorrera. - Tenho a certeza de que Balder não estava à espera disso.

- Então não o negas? - perguntou a mulher de Balder, a deusa Nanna.

- Claro que não - disse Hoder. - Fui eu que a atirei... - Depois percebeu que havia uma grande angústia na voz de Nanna. - Porquê? Que se passa?

- O que se passa é que Balder está morto, e a flecha que o matou foi lançada por ti - disse tristemente Tor.

Horrorizado, Hoder explicou o que se passara.

- Eu queria tomar parte no jogo e Loki deu-me a flecha e ajudou-me a fazer pontaria. Mais nada... Eu não queria... - A sua voz extinguiu-se.

Ao ouvirem o nome de Loki, um grupo de deuses agarrou-o quando ele tentava afastar-se do local onde cometera o seu horrendo crime sem dar nas vistas.

- Mesmo sendo teu amigo devia matar-te imediatamente, Loki - disse Tor, pondo-se à frente dele. - Mas Gladsheim é um local de paz, por isso não haverá aqui mais mortes, hoje.

Os deuses largaram Loki, que se afastou rapidamente. Sabia que fora longe de mais e que nada havia a fazer agora. Nenhum dos deuses lhe perdoaria o que fizera.

Loki saiu de Gladsheim sabendo que a vida nunca mais voltaria a ser o que fora.

Enquanto Nanna chorava sobre o corpo do marido morto, com a flecha de visco ainda enterrada no coração, os outros deuses baixaram tristemente as cabeças, pois a lei era bem clara.

Embora soubessem que Hoder fora enganado por Loki, a mão do primeiro é que lançara a flecha que matara o deus do Sol e da felicidade. Segundo a lei dos deuses, isso significava que Hoder teria de ser punido, e a sua punição seria a morte.

A morte chegou para Hoder. Algum tempo depois, Ódin teve outro filho, Vali. A mãe dessa criança era Rind, uma fria deusa da terra do gelo. Segundo a profecia, Vali vingaria a morte de Balder.

Logo que nasceu, Vali começou imediatamente a crescer perante os olhos atónitos da mãe e da parteira. As duas viram com horror o bebé indefeso transformar-se num feroz guerreiro em poucos minutos. Era o homem cuja única missão na vida era realizar a profecia.

Na noite em que nasceu, Vali dirigiu-se a Asgard, para a casa de seu pai. Aí matou o seu meio-irmão Hoder, que fora enganado por Loki para matar Balder, seu irmão gémeo. E que arma usou Vali? Uma simples flecha. Alguns dizem que foi feita de um arbusto de visco.

Mas que sucedeu a Loki? Quem possa pensar que ele escapou ileso enquanto o inocente Balder morreu, ou quem esteja a imaginar o que terá feito Friga ao saber da morte do seu filho preferido, terá de ter paciência, pois há mais coisas para contar.

FIM

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MITO ou LENDA?
Muito antes de as pessoas saberem ler ou escrever, as histórias eram transmitidas oralmente. De cada vez que eram contadas, mudavam um pouco, acrescentando-se uma nova personagem aqui e uma mudança na trama acolá. Os mitos e as lendas nasceram dessas histórias em constante mutação.

O QUE É UM MITO?
Um mito é uma história tradicional que não se baseia em algo que realmente aconteceu e fala, normalmente, de seres sobrenaturais. Os mitos são inventados, mas ajudam a explicar os costumes locais ou os fenómenos naturais, como a trovoada, por exemplo.

O QUE É UMA LENDA?
A lenda assemelha-se muito ao mito. A diferença está no facto de a lenda poder basear-se num acontecimento que realmente ocorreu ou numa pessoa que realmente existiu. O que não significa que a história não tenha mudado ao longo dos anos.
Quem Eram os Povos Escandinavos?
Os povos do Norte, que contavam estas histórias em redor das lareiras nas noites frias de Inverno, eram os povos da Noruega, Suécia, Dinamarca, Finlândia e Islândia, embora se estabelecessem noutros sítios. Eram os Viquingues - povos guerreiros, corajosos, que viviam numa época dura, num clima cruel - e a maior parte dos seus mitos e lendas tratava de deuses que eram guerreiros valorosos. As primeiras versões foram contadas quase há dois mil anos, mas as histórias mudaram muito desde então.
 
COMO SABEMOS?
Muitas cenas dos mitos e lendas aparecem nas esculturas dos Viquingues, e existem também duas versões escritas. Chamam-se Eda Poético e Eda em Prosa. Esta última era uma colecção dos mais famosos mitos e lendas, escrita por um islandês chamado Snorri Sturluson, que viveu entre 1179 e 1241. As histórias já eram antigas quando foram passadas por Sturluson ao papel, mas é graças a ele que sabemos tantas coisas hoje.
 
DEUSES, GIGANTES & ANÕES
Em certos mitos e lendas, os deuses são imortais e vivem eternamente. Isso não sucede com os deuses escandinavos. Eles podem ser mortos. Com efeito, os mitos e lendas escandinavas predizem que um dia todos os deuses serão mortos numa terrível batalha contra os gigantes chamada Ragnarok. Indicamos em seguida algumas das personagens que encontrarão nesta história:

ÓDIN Chefe de todos os deuses. Tem só um olho, o seu trono é o Hlidskialf e possui dois conselheiros: os corvos Hugin e Munin. É um guerreiro valente, marido de Friga e pai de muitos dos deuses.
FRIGA Esposa de Ódin e mãe da maior parte dos filhos dele. O seu favorito é o simpático Balder. É a mais poderosa deusa de Asgard.
BALDER Deus da luz. O mais belo de todos os deuses e o filho favorito de Friga.
HODER Irmão gémeo de Balder. É cego. As profecias dizem que, após a terrível batalha de Ragnarok, ele e Balder nascerão de novo.
TOR Deus do trovão. Percorre os céus num carro puxado por cabras. Possui o martelo Mjollnir e o cinto Meginjardir. Tem mau génio, mas é amigo dos humanos. Um deus popular entre o povo escandinavo.
LOKI Mestre dos embusteiros, meio gigante e meio deus, amigo de Ódin e de Tor, e assassino de Balder. Por vezes muito engraçado, mas capaz de ser muito cruel.
 

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in MITOS & LENDAS ESCANDINAVAS
por Philip Ardagh
Título original: Norse Myths & Legends
1.ª edição publicada na Grã-Bretanha em 1997
Editorial Estampa, Lda
Tradução: Maria Adelaide Namorado
Lisboa, Maio de 1999
 


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5.Nov.2015
Publicado por MJA