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 Sobre a Deficiência Visual


Os Morcegos Voam ao Anoitecer

A. A. Fair

Cego vendedor de lápis
Cego vendedor de lápis em Nova Iorque


I

O dístico da porta indicava: Cool & Lam - Investigações Confidenciais. Contudo, o cego não podia lê-lo.

O ascensorista indicou-lhe o número do apartamento e ele lá foi tacteando com a bengala, a partir da primeira porta até ao canto do corredor, contando as seguintes, pacientemente. A sua frágil silhueta acabou por recortar-se na entrada envidraçada do escritório. Parou e abriu a porta.

Elsie Brand ergueu os olhos da máquina de escrever, observou o homem magro, os óculos escuros, o tabuleiro suspenso dos ombros por correias, os lápis, as gravatas e a lata para recolher o dinheiro. Parou de percutir o teclado, mas o cego falou antes que ela tivesse oportunidade de dizer qualquer coisa.

- Mrs. Cool?

- Ocupada.

- Então espero.

- Não ganha nada com isso.

Por um momento o homem pareceu ter ficado confuso, mas logo um sorriso lhe aflorou aos lábios.

- Venho tratar de negócios... - e após um segundo de hesitação, acrescentou - e tenho dinheiro.

- Nesse caso é diferente - declarou Elsie. Pegou no telefone, reconsiderou, recuou a cadeira para trás da mesinha de dactilógrafa, rodeou-a e pediu:

- Espere um instante! - Atravessou o escritório de entrada e abriu a porta de acesso a um gabinete sinalizado com B. Cool - Particular.

Bertha Cool, à roda dos cinquenta anos e setenta e cinco quilos de frio realismo, sentada à sua secretária, na sua cadeira giratória, observou Elsie Brand com cépticos olhos cinzentos e inquiriu:

- Que se passa?

- Um cego.

- Novo ou velho?

- Velho. Vendedor ambulante, com um tabuleiro portátil, uma lata e...

- Corra com ele.

- Quer vê-la... Vem em negócio.

- Tem algum dinheiro?

- Diz que sim.

- Que espécie de negócio?

- Não disse.

Os olhos de Bertha cintilaram.

- Para que diabo está aí parada à espera? Faça-o entrar. Se vem tratar de negócios e tem dinheiro, que mais queremos nós?

- Só queria ter a certeza - respondeu Elsie, e, abrindo a porta, convidou: - Queira entrar.

A bengala tacteou o caminho através do escritório e penetrou no santuário de Bertha. Lá dentro, o homem parou inquiridoramente, virando a cabeça e ficando à escuta atentamente. Os seus ouvidos captavam o mais ligeiro ruído que Bertha fizesse. Virou-se para ela, mal conseguiu localizá-la, e disse:

- Bom dia, Mrs. Cool.

- Sente-se - convidou Bertha. - Elsie, traga-me essa cadeira para aqui, para ele se sentar. Está bem assim. É tudo, Elsie. Sente-se Mr... Qual é o seu nome?

- Kosling. Rodney Kosling.

- Muito bem, sente-se. Eu sou Bertha Cool.

- Sim, eu sei. Onde está o jovem que trabalha consigo, Mrs. Cool? Donald Lam, se não me engano?

O rosto de Bertha tornou-se duro.

- Diabos o levem! - resmungou.

- Como?... Onde está ele?

- Na Marinha.

- Oh!

- Alistou-se - esclareceu Bertha. - Eu tinha uns assuntos entre mãos e ele levantou ferro! Assinou um contrato de «guerra», como se não tivesse mais quem lhe pagasse o soldo. Fez aquilo de cabeça no ar, de assobio.

Tinha-o aqui classificado como trabalhador indispensável, numa indústria essencial, e esse danado vadio foi alistar-se na Marinha!

- Tenho sentido a falta dele - confessou Kosling, com simplicidade.

Bertha franziu o sobrolho.

- Tem-lhe sentido a falta? Não sabia que o conhecia!

Ele sorriu brandamente.

- Creio que conheço todos os «do costume».

- Que quer dizer com isso?

- A minha paragem habitual, lá em baixo, fica a meio quarteirão, em frente do edifício do Banco da esquina.

- É verdade! Agora que penso nisso, lembro-me de já aí o ter visto.

- Quase que conheço cada pessoa que passa.

- Ah! - exclamou Bertha. - Estou a perceber! E riu-se.

- Não, não! - Apressou-se ele a corrigir. - Não se trata disso. Eu sou cego de verdade. São os passos das pessoas que as denunciam.

- Quer dizer que diferencia os passos das várias pessoas, no meio da multidão?

- Certamente. Não há nada que as pessoas façam mais distintamente. O comprimento dos passos, o seu ritmo, um ligeiro arrastar de tacões, o... Ora, há dúzias de coisas. Além disso, oiço as vozes ocasionalmente, o que ajuda bastante. Por exemplo, a senhora e Mr. Lam vão quase sempre a falar, quando passam por ali, quer dizer, a senhora é que fala. De manhã, pergunta-lhe como vão as diligências que efectuou no caso em que anda a trabalhar e, à noite, insiste com ele para que apresse as coisas e obtenha resultados para os clientes. Ele pouco costuma dizer.

- Nem precisa - resmungou Bertha. - É um rapazinho esperto como nunca encontrei outro, mas é um errático! Pôr-se a andar e alistar-se na Marinha demonstra o «chalado» que há lá dentro dele. Bem estabelecido, com um ordenado rendoso, ainda recentemente associado ao negócio e vai para a Marinha!

- Achou que o país precisava dele.

- E eu acho que preciso dele! - protestou Bertha.

- Sempre gostei de Mr. Lam - afirmou o cego. Falava atinadamente e tinha consideração pelas pessoas. Aposto que, quando começou a trabalhar consigo, as coisas lhe corriam mal, não é verdade?

- Tinha tanta fome que as iniciais do cinto já se lhe gravavam na espinha. Tomei-o ao serviço, dei-lhe oportunidade de singrar numa vida decente, conseguiu ascender a sócio da firma e, depois, levantou âncora e deixou-me a ver navios!

A voz de Kosling tornou-se reminiscente:

- Mesmo quando andava na «mó de baixo», tinha sempre uma palavra agradável para mim. Quando conseguiu arranjar um pouco de dinheiro, começou a dar-me algumas moedas... mas nunca o fazia quando a senhora ia com ele. Quando mas dava, não falava comigo, como se não quisesse que eu soubesse quem ele era. Eu conheço-lhe os passos, como se estivesse a falar, mas ele pensava que me causaria menos embaraço se eu ignorasse quem me ajudava... como se um cego guardasse ainda algum orgulho! Quando um homem começa a pedir, recebe dinheiro seja de quem for que lho queira dar.

Bertha Cool endireitou-se na cadeira e cortou, asperamente:

- Muito bem! Já que falamos de dinheiro, que deseja?

- Quero encontrar uma jovem.

- Quem é ela?

- Desconheço o nome.

- Como é ela?... Oh! Desculpe-me.

- Não tem importância. Eis o que sei acerca dela: trabalha num local que se situa dentro de um círculo de três quarteirões a partir daqui. É um emprego bem remunerado.

Tem cerca de vinte e cinco anos, é esbelta, pesa cerca de 47 a 49 quilos e deve ter um metro e sessenta de altura.

- Como pode saber isso tudo? - espantou-se Bertha.

- Os meus ouvidos dizem-mo.

- Os seus ouvidos dizem-lhe onde é que ela trabalha?

- Pois dizem.

- Até apostava... Qual é o truque? - perguntou Bertha.

- Não é truque nenhum. Sei sempre que horas são porque há um relógio que as toca, ali perto.

- De que lhe serve isso?

- Ela passa por mim, entre cinco a três minutos, antes das nove. Quando passa às nove menos três, caminha apressada; quando faltam cinco minutos, vai mais devagar. Os empregos que começam às nove horas são mais bem remunerados. A maior parte das dactilógrafas entram no trabalho às oito e meia. Posso calcular-lhe a idade pela voz; qual a sua altura, pelo comprimento das passadas e o peso, pelo som da sua marcha no pavimento.

Ficaria surpreendida, Mrs. Cool, se soubesse quanto os seus ouvidos podem dizer-lhe, se aprender realmente a servir-se deles.

Bertha Cool concentrou-se um momento e sussurrou:

- Sim, creio que sim.

- Quando se fica cego - explicou Kosling -, tem-se a impressão de que fomos projectados para fora do Mundo, que não poderemos fazer parte da vida e nela perdemos o interesse; mas podemos manter esse interesse, se decidirmos ir para a frente com o que temos e soubermos aproveitar melhor o que nos resta.

Bertha Cool resolveu pôr de parte a oportunidade de discutir filosofia e voltou ao assunto de dólares e cêntimos.

- Para que quer que encontre essa moça? Não pode achá-la sozinho?

- Ela ficou ferida num acidente de automóvel, numa passagem de peões, ao atravessar a rua. Isto aconteceu às seis menos um quarto da tarde de sexta-feira passada.

Tinha estado a trabalhar até tarde, no escritório, segundo creio, e seguia apressada, quando passou por mim. Não teria dado mais do que dois passos fora do passeio, quando ouvi um chiar de pneus, um impacte e o grito de sofrimento que ela soltou. Ouvi pessoas correrem. Uma voz de homem inquiriu se ela se magoara e ela riu e disse que não, mas estava muito contundida, certamente. Ele insistiu com ela, para que fosse a um hospital verificar como ficara, mas recusou. Finalmente o homem propôs dar-lhe uma boleia. Quando ela entrou para o carro, queixou-se de estar magoada na cabeça e concordou que talvez fosse melhor ser examinada por um médico. Não voltou a passar no sábado, nem na segunda-feira. Hoje é terça e também não passou. Quero que a encontre.

-Qual é o seu interesse nela - inquiriu Bertha.

O sorriso do cego foi benigno.

- Pode considerar isso um impulso de caridade respondeu. - Vivo de caridade e... talvez essa jovem precise de ajuda.

Bertha olhou-o friamente.

- Eu é que não faço a minha vida por caridade. Isto vai custar-lhe dez dólares por dia e um mínimo de vinte e cinco dólares. Se não conseguirmos resultados, ao cabo de esses vinte e cinco dólares estarem esgotados, poderá desistir, ou decidir se quer ir para diante a dez dólares por dia. Os vinte e cinco dólares iniciais são pagos adiantadamente.

O cego abriu a camisa e desafivelou o cinto.

- Que é isso? - alarmou-se Bertha Cool. - Um striptease?

Mas o homem não se descompôs mais e explicou:

- É uma simples carteira-cinto.

Bertha observou-o atentamente, enquanto ele enfiava o polegar numa das várias bolsas que se enfileiravam no cinto. Logo que extraiu dela um maço de notas dobradas, separou uma e estendeu-a a Bertha, informando:

- É só dar-me o troco. Não preciso de recibo.

Era uma nota de cem dólares.

- Não tem mais pequeno? - gaguejou Bertha.

O cego respondeu-lhe com um simples monossílabo:

- Não.

Bertha Cool abriu a sua bolsa de mão, tirou dela uma chave, rodou-a na fechadura da gaveta da secretária e, desta, sacou um cofrezinho metálico. Depois, puxando por outra chave mais pequena, que trazia ao pescoço, suspensa por um cordão de ouro, abriu o cofre, donde extraiu sete notas de dez dólares e uma de cinco. Demonstrando certo embaraço, perguntou:

- Onde e quando deseja receber os nossos relatórios?

- Pretendo que me sejam feitos oralmente, visto não os poder ler. Basta-lhe parar perto do Banco, no passeio onde estaciono, e relatar os seus progressos. Faça-o disfarçadamente e em voz baixa. Tenha cuidado para que ninguém a oiça. Pode fingir que está a olhar para uma gravata.

- O.K.! - assentiu Bertha.

O cego ergueu-se, pegou na bengala, no tabuleiro, e explorou o caminho até à porta. Parou abruptamente, virou-se para trás e advertiu:

- Estou praticamente retirado do negócio. Se não fizer bom tempo, não irei trabalhar.

Bertha Cool, abismada, fitou Elsie Brand, abatendo a sua indignação sobre a máquina de escrever.

- E tive de engolir isto! - protestou. - O tipo arregaçou a camisa, desabotoou as calças e exibiu um cinto-carteira que parecia um pneu. Estava cheio de bolsas. Abriu uma, sacou de um molho de notas e apartou uma «das de cem». Eu perguntei-lhe se tinha mais miúdo e respondeu-me que não!

Elsie Brand parecia não achar, no facto, nada de extraordinário.

- Um tipo - continuou Bertha - que se senta num passeio, não tem que pagar renda, nem empregados, nem taxas, nem contribuições. Traz em volta dele um cinturão, que mais parece um salva-vidas, com uma fortuna, E eu é que tive de fazer-lhe o troco e tive de ir ao cofre, onde não havia mais do que cem dólares e uns níqueis. Ainda por cima - e aqui a voz de Bertha cresceu a um alto grau de emoção, imagine lá você... voltou-se ao pé da porta para dizer-me que não irá trabalhar a menos que o tempo esteja bom! Eu nunca pude ficar na cama, nessas manhãs frias ou de nevoeiro húmido e viscoso. Tenho de levantar-me e arrastar-me rua fora, patinhando nas poças, com os tornozelos ensopados...

- É verdade - concordou Elsie Brand. - Eu faço o mesmo; somente tenho de levantar-me uma hora mais cedo do que a senhora e, se tiver necessidade de trocar uma nota de cem dólares que me entreguem, não posso fazê-lo porque...

- Está bem, está bem! - cortou Bertha Cool, rapidamente, apercebendo-se de que a conversa estava a desviar-se para terreno perigoso e que Elsie poderia, casualmente, mencionar que o Governo estava a pagar às estenógrafas vencimentos mais altos. - Não interessa o resto. Vim apenas dizer-lhe que tenho de ausentar-me por uns momentos. Vou procurar uma rapariga que sofreu um acidente de automóvel.

- Vai tratar disso sozinha?

- Para que iria eu pagar a um auxiliar? - resfolegou Bertha. - Não vê que se trata de uma coisa simples?

A rapariga foi apanhada por um carro, na esquina da rua, quando ia atravessá-la, na passada sexta-feira, às seis menos um quarto. O homem que a atirou de «pantanas» levou-a a um hospital. Tudo quanto tenho a fazer é ir ao Departamento de Trânsito, verificar o acidente, tomar um autocarro até ao hospital, perguntar à moça como se sente e, depois, fazer ao homem o meu relatório verbal.

- Para que pretende ele essa informação? - interessou-se Elsie.

- Sim, pergunta bem - comentou Bertha sarcasticamente.

- Para que a quer ele? Deseja unicamente saber onde a queridinha está, para lhe mandar flores, porque ela lhe trouxe ternura e luz à sua vida! Gosta de ouvir-lhe os passos, saltitando no passeio, e sente a falta deles. Por isso paga-me vinte e cinco dólares, para desencantar-lhe a queridinha. Puf!

- Não acredita nisso?

- Não! - ripostou Bertha secamente. - Não acredito.

Não sou desse tipo. Você pode acreditar que tudo aquilo é pura e doce caridade, mas a Bertha não vai em histórias de fadas. A Bertha acredita, sim, em vinte e cinco dólares. Por essa razão vai arrumar a coisa em cerca de hora e meia. Se entretanto aparecer alguém e quiser qualquer coisa, descubra do que se trata e marque uma entrevista para depois do almoço... se pressentir que há dinheiro a ganhar. Se for alguém a solicitar uma contribuição, seja para o que for... e «estou-me nas tintas» para o que quer que seja... diga-lhe que fui para fora da cidade.

Bertha atravessou o escritório e bateu com a porta violentamente, mas antes disso tivera a satisfação de ouvir matraquear com rapidez a máquina de Elsie Brand. Contudo, no Departamento de Trânsito, teve o primeiro desapontamento. Não havia qualquer relatório referente a acidente de viação ou atropelamento naquela intersecção e data.

 

II

- Isso é uma lista dos diabos - protestou Bertha.

Então um homem atira com uma rapariga pelo ar e vocês não têm nada, aí, acerca disso!

- Muitas vezes os motoristas não comunicam os acidentes - explicou o oficial, pacientemente. - Não podemos adivinhá-los. A lei determina que os condutores o façam. Certamente que, se estiver um polícia presente, não deixa de tomar nota da matrícula do carro e de verificar se o motorista comunicou ou não o sucedido.

- Quer dizer portanto que, nessa intersecção, não havia nenhum polícia?

- Nessa intersecção, o polícia sai de serviço às cinco horas e quarenta, mas vai entrar de serviço dois quarteirões mais abaixo, onde o trânsito se acumula. Temos pouco pessoal e fazemos o que podemos.

- Escute lá - insistiu Bertha. - Eu pago os meus impostos e tenho direito a essa informação. Quero que ma prestem.

- Gostávamos muito de auxiliá-la, se pudéssemos.

- Bem, onde poderei obter essa história?

- Pode telefonar para os hospitais e inquirir se entrou algum paciente para exame médico, entre as seis e as sete horas de sexta-feira passada. Parto do princípio que a senhora pode descrever o paciente. De maneira geral.

- Não sabe o nome?

- Não.

- Bem, sempre pode tentar - sugeriu o oficial de trânsito, abanando a cabeça duvidoso.

Bertha tentou-o, enjaulada numa cabina pública, gastando relutantemente uma série de moedas. Depois de ter despendido trinta cêntimos, a paciência começara a esgotar-se-lhe. Explicara e reexplicara o que pretendia e apenas lhe respondiam: «um momento». Depois faziam uma ligação para outra secção que ela tinha de informar, no mesmo teor. Ao cabo de trinta e cinco cêntimos sem resposta positiva, já estava irascível.

 

III

O trânsito tonitruava na movimentada intersecção da esquina. Os peões, regressando do almoço, atravessavam a rua em lufadas humanas intermitentes. A campainha do semáforo fazia-se ouvir com sistemática regularidade estabelecendo os intervalos do trânsito.

Ocasionalmente, o som de claxons, de guinchar de pneus e o de arranque e aceleração de motores juntava-se ao ruído da multidão. O dia estava ensoalhado e quente e o cheiro dos escapes erguia-se, do alcatrão, em nuvens de vapor húmido.

Kosling achava-se sentado num pequeno banco, em frente do edifício bancário, com as pernas dobradas sob o corpo e com as suas bugigangas dispersas sobre o tabuleiro suspenso dos ombros pelas correias. À sua esquerda, numa caixa, alinhavam-se os lápis. De quando em quando alguém deitava uma moeda na lata. Menos frequentemente havia quem parasse e deitasse uma vista de olhos para o sortido de gravatas.

Kosling conhecia a mercadoria pelo sentido do tacto e a sua memória permitia-lhe fixar a posição dos objectos no mostruário.

- Aqui tem, minha senhora, uma linda gravata para um homem novo - proclamava, tocando numa delas, de seda, de um vermelho-vivo, atravessada por uma faixa branca cruzada de tiras negras. - E aqui está uma coisa muito bonita, em azul-escuro... e aqui outra, de magnífico efeito, que daria um belo presente. Esta, ficava muito bem com um traje de desporto...

Calou-se, quando ouviu as passadas pesadas de Bertha, aproximando-se ao longo do passeio.

- Sim, minha senhora. Creio que ficaria satisfeita com uma delas. Sim, são apenas cinquenta cêntimos. Basta deitá-los na lata. Muito obrigado.

Como não podia ver, não olhou para Bertha, que parara junto dele, mas perguntou:

- Então?

- Ainda não fizemos quaisquer progressos - lamentou ela.

O cego ficou calado, esperando que ela continuasse.

Bertha hesitou por um momento e depois decidiu dar uma explicação:

- Verifiquei os acidentes no Departamento de Trânsito e nos hospitais, mas sem resultado. Preciso de mais indicações para ir para a frente.

Num tom monótono e calmo, para não chamar a atenção dos transeuntes, o cego declarou:

- Eu já tinha feito tudo isso, antes de ir procurá-la.

- Ah, sim?! - exclamou Bertha. - Então por que razão não mo disse?

- Eu não ia pagar vinte e cinco «pacotes» por umas simples voltas! Não pensei que a senhora fosse fazer o que qualquer pessoa poderia ter feito. Pensei ter contratado um detective.

Bertha estremeceu indignada, com os olhos furiosos, mexendo os pés como se o pavimento escaldasse, e foi para o escritório.

Quando entrou, Elsie Brand fitou-a e perguntou:

- Teve sorte?

Bertha limitou-se a abanar a cabeça e enfiou no seu gabinete, batendo com a porta. Sentou-se a pensar no caso. As suas cogitações levaram-na a redigir um anúncio para ser publicado nos jornais diários:

«Pede-se às pessoas que assistiram a um acidente na esquina da Crestlake com a Broadway, na passada sexta-feira, por volta das seis menos um quarto, o favor de comunicarem com B. Cool, Edifício Drexel. Sem comprometimento, sem complicações ou implicação legal. Apenas se deseja a informação. Recompensa de cinco dólares pelo número de matrícula do automóvel que derrubou uma jovem.» Bertha recostou-se na cadeira giratória, releu o texto, consultou a tabela de preços de anúncios e, com um lápis começou a riscar palavras.

«Testemunha acidente Crestlake Broadway sexta-feira comunicar B. Cool, Edifício Drexel, 3 dólares recompensa número matrícula.

Estudou o novo texto e, com o lápis, riscou as palavras 3 dólares e substituiu-as por 2 dólares.

- É quanto basta! - murmurou. De resto, ninguém se recordaria do número da licença, a menos que o tivesse anotado, e se o fez é porque se trata do género de tipo que gosta de ser testemunha. Dois dólares chegam muito bem!

 

IV

Na tarde de quarta-feira, Elsie Brand abriu a porta do gabinete particular de Bertha Cool.

- Está ali um cavalheiro que não quis dar o nome - anunciou.

- Que quer ele?

- Diz que leu o jornal.

- Acerca de quê?

- Do acidente de automóvel.

- E depois?

- Quer receber dois dólares.

Os olhos de Bertha cintilaram.

- Mande-o cá.

O homem que Elsie Brand escoltou até ao gabinete de Bertha Cool parecia ter tentado viver neste mundo com o mínimo dispêndio de esforço. Tinha uma postura cautelosa, como se o seu pescoço, ombros, ancas e pernas receassem não poder suportar o próprio peso reduzido; até o cigarro que lhe pendia da boca, indolentemente, baloiçava enquanto falava.

- Olá - saudou. - É este o sítio onde queriam uma informação acerca de um acidente de automóvel?

- Exacto! - respondeu Bertha polidamente. - Porque não se senta? Nessa cadeira não; antes nessa, aí, que é mais confortável; traga-a aqui, para ao pé da janela, que está mais fresco. Como se chama?

O homem fez uma careta. Devia andar por volta dos trinta e poucos anos, cerca de 1 metro e 75 e pouco pesado; um andar indolente, tez amarelada e os olhos tinham um brilho descarado.

- Nem pense nisso! - retorquiu. - Não julgue que alguém vai arranjar-me implicações legais com a laracha:

«Você é uma testemunha, como está a ver!» Vai haver uma data de conversa antes que isso aconteça.

- Que espécie de conversa? - interessou-se Bertha, enquanto inseria um cigarro na sua longa boquilha de marfim.

-- O género de «paleio» que começa com a discussão de quanto há nisso para mim - respondeu o homem.

Bertha sorriu afavelmente.

- Bem, talvez eu possa arranjar as coisas a seu contento, com um bom proveito para si, se você viu aquilo que espero que tenha visto.

- Não tenha dúvidas irmãzinha, que vi tudo. Sabe como é: há pessoas que não querem servir de testemunhas e eu não as censuro; alguém embrulha-as num papel legal, elas são forçadas a ir ao tribunal, aí umas cinco vezes, e são informadas de que os advogados continuam com o processo; à sexta vez, mete-se um outro processo pelo meio e elas esperam mais dois dias até que o seu caso volte à baila; então uma data de advogados atiram-lhes com um monte de perguntas e fazem delas «gato-sapato»; quando o caso acaba, o advogado despe a toga, diz-lhes «muito obrigado» e deixa-lhes dez ou quinze dólares pelo incómodo que tiveram como testemunhas.

O «gajo» que testemunhou arranjou-lhe matéria para uma indemnização de quinze «das grandes» e o advogado embolsa metade. A testemunha é que faz de anjinho... Mas a minha mãe não teve um filho parvo.

- Estou a ver que não - respondeu Bertha elogiativamente.

- Você é exactamente o tipo de pessoa com quem gosto de fazer um acordo.

- Catita! Prà frente com o acordo!

- Bem, estou particularmente interessada em descobrir qualquer coisa acerca da identidade da...

- Um momento - interrompeu o homem. - Não comece pelo meio. Vamos voltar ao começo.

- Mas eu estou a começar pelo começo!

- Oh, não! Lá isso é que não está. Não vai com essa facilidade, irmãzinha. A primeira coisa que cá o rapaz quer saber é quanto lhe toca.

- E eu estou a tentar explicar ao rapaz do que se trata - retorquiu Bertha, com um sorriso cativante.

- Nesse caso, puxe do livro de cheques e arranje um terreno como deve ser.

- Talvez você não tenha lido bem...

- Talvez você não tenha escrito bem!

Com um fluxo de súbita inspiração, Bertha declarou:

- Escute cá, eu não represento nenhuma das partes nesse acidente.

O visitante pareceu abismado.

- Ah, não?

- Não! - Então, qual é o seu ponto de vista?

- Apenas quero encontrar a moça que ficou contundida.

Ele fez outra careta, mas com uma expressão de cínica compreensão.

- Não é nada disso - protestou Bertha. - Não me interessa nada do que venha a acontecer depois de a encontrar. Não vou encaminhá-la para qualquer advogado.

Tanto se me dá que ela processe o culpado como não, nem que receba ou deixe de receber qualquer indemnização. A única coisa que me interessa é saber onde poderei encontrá-la.

- Porquê?

- Isso é outro assunto.

- Ah, sim?

- É a verdade.

- Nesse caso, aposto como você não é o sócio com quem tenho interesse em falar.

- Você conseguiu ver a matrícula do carro que a derrubou?

- Já lhe disse que tenho todos os elementos. Oiça, irmãzinha, quando um pingo de sorte me cai no regaço, estou logo pronto, de lápis e livro de notas em punho.

Está a ver? Tenho aqui tudo: como aquilo aconteceu, o número do carro... o trabalhinho completo. - Tirara um canhenho de apontamentos e abriu-o numa página toda rabiscada que mostrou, de relance, a Bertha. - Este não é o primeiro acidente a que assisti, e não vai ser, de certeza, como foi o primeiro. Da primeira vez, deitei o pescoço de fora e contei o que acontecera. A companhia de seguros pagou dez «das grandes» ao advogado e eu não fui sequer ao tribunal. O advogado apertou-me o «bacalhau» e afirmou-me que eu era um cidadão às direitas.

Depois, raspou-se com o cliente. Eu fiquei com o aperto de mão. Ora, «bacalhauzadas» não me dizem grande coisa. Desde então, ganhei juízo. Ando com o meu livrinho e não testemunho seja o que for, antes de haver uma pequena fala com o interessado. Não se apoquente com o receio de que eu não tenha visto a coisa. Está tudo aqui escarrapachado, mesmo à mão. Está a topar?

- Estou a topar - confirmou Bertha, mas você veio ao sítio errado e está a falar com a pessoa errada.

- Como é isso?

- Um homem pediu-me que localizasse essa mulher. Nem sequer sabe o nome. Ficou, de certa maneira, preso a ela e ela desvaneceu-se-lhe da vida - explicou Bertha, com grave convicção.

O visitante tirou o cigarro da boca, sacudiu a cinza na carpete de Bertha Cool, inclinou a cabeça para trás e deu uma gargalhada.

Um lento fluxo de indignação começou a colorir o pescoço carnudo de Bertha.

- Ainda bem que você acha graça - resmungou azedamente.

- Graça? - exclamou o homem entre gargalhadas.

- É um espectáculo! Eh, rapazes! Ah! ah! ah! Ele só quer mandar um telegrama à donzelinha e não sabe o endereço! Boa piada! Você tem o número da matrícula do carro que a sacudiu?

- Não está a perceber?! - quis explicar Bertha. - O homem que a colheu ia levá-la a um hospital. O meu cliente quer saber a que hospital a levaram.

O visitante, enfiado na estofada e confortável cadeira junto da janela, estava congestionado de tanto rir.

Dobrou-se para a frente, esticou uma perna e ficou vermelho como um tomate.

- Ah! ah! ah! Você dá cabo de mim, irmãzinha! Você é um ponto!... grande ponto!

Tirou um lenço da algibeira, limpou o nariz e os olhos lacrimejantes.

- Essa é de um tipo «marar». Diga-me cá «madama» se lhe aparecem muitos desse estofo? Estou apenas interessado porque, quando a gente topa um tipo que cai tão facilmente numa dessas, há sempre a sorte de lhe sacarmos qualquer coisa!

Bertha empurrou a cadeira para trás e interveio rispidamente:

- Muito bem! Agora oiça-me, você, seu pinto espertalhão. Você tem miolos ou não? É o menino querido da sua mamã. É o «crianço» brilhante da família. É o «vivaço»! Todos os outros são trouxas! O que é que lhe deu? Olhe para si. Com um fato comprado feito, de vinte e cinco dólares, uma gravata de dólar, uma camisa com buracos onde lhe assentam as pontas do colarinho, um par de sapatos gastos, até às palmilhas... Esperto, hem? Tipo avisado! Pois desde já lhe digo que é só meio esperto, só tem a meia esperteza que lhe permite ver a luz, mas fraquinha, porque vem sempre uma sombra que a tapa.

Pois bem, Mr. Esperteza-com-calças, deixe-me agora dizer-lhe uma coisa - Bertha estava agora de pé, inclinada para a frente sobre a secretária: - Já que você é tão esperto, fique sabendo que o meu cliente é cego, um pedinte cego que se senta a uma esquina a vender lápis e gravatas. Chegou à idade de tornar-se sentimental e essa carriçazinha passa e pára alguns momentos junto dele, dá-lhe uma palmadinha nas costas e acarinha-o. Ele está apoquentado por ela não ter vindo trabalhar nem na segunda, nem na terça-feira. Pediu-me que tentasse localizá-la e porque é um velho simpático, a Bertha foi na cantiga e aceitou o frete por um quarto do preço que costuma levar a um cliente qualquer. Eu estava na disposição de dar-lhe a si um arranjinho. Se você me tivesse prestado a informação que lhe pedi, manejaria as coisas de maneira que, se um advogado lhes pagasse, você poderia embolsar qualquer coisa. Agora, já que você é um espertalhão dos diabos, vá para diante e procure sozinho esse advogado.

O visitante parara de rir. Nem sequer sorria. Fitou Bertha Cool com uma expressão esgazeada, meio angustiada, meio surpresa.

- Ponha-se a andar - ordenou Bertha. - Vá para o diabo que o carregue, daqui para fora, antes que eu o ponha na rua. - E começou a contornar a secretária.

- Eh, lá! Espere um momento, «madama»! Eu...

- Fora! - rugiu Bertha.

O homem deu um salto na cadeira, como se descobrisse subitamente que estivera sentado em cima de uma almofada de alfinetes.

- Um momento, «madama». Talvez possamos fazer realmente negócio.

- Agora, nem que o Diabo me empurrasse. Não vou sujar as minhas mãos com um espião barato, pelintra, dez-réis de gente e capacho para limpar os pés. Já que você é tão danadamente esperto, vá à procura de um advogado que queira a sua informação.

- Bem, talvez...

Bertha Cool arrancou para ele como uma avalancha.

Com a sua mão agarrada pegou-lhe num bocado de fazenda das costas do casaco, torceu-o numa rodilha e começou a levá-lo de escantilhão para a porta.

Elsie Brand viu-os, espantada, atravessarem-lhe o escritório, em marcha acelerada, na direcção da saída.

A porta bateu com violência e o vidro fosco partiu-se.

Bertha permaneceu junto dele, durante um ou dois segundos, e depois virou-se para Elsie Brand.

- Atrás dele, Elsie, toca a andar. Vamos dar uma lição a este oportunista.

- Não estou a perceber... - confessou Elsie.

Bertha passou para trás de Elsie, virou-lhe a cadeira para o lado e empurrou-a através do escritório, até meio caminho da porta, antes de a moça ter tempo de levantar-se.

- Siga-o! Descubra quem ele é e para onde vai.

Se tiver carro, tire-lhe o número de matrícula. Mexa-me essas pernas!

Elsie avançou para a porta e Bertha aconselhou:

- Espere que apanhe o elevador. Não siga no mesmo. Na rua, vá-lhe na peugada.

Depois de Elsie sair apressada, Bertha arrumou-lhe a cadeira por trás da secretária, voltou para o gabinete e, aí, enfiando um cigarro na boquilha, meteu-a entre os dentes e atirou-se para cima da cadeira giratória.

Ficou arquejando de indignação e murmurou:

- E aquele pirata que se foi enfiar na Marinha! Meu Deus, como me faz falta agora! Já tinha resolvido isto com uma perna alçada!

 

V

Elsie Brand regressou ao cabo de meia hora. - Caçou-o? - inquiriu Bertha.

Elsie abanou a cabeça. Uma expressão de desapontamento sombreou o rosto de Bertha.

- Porque não?

- Porque eu não sou Donald Lam - retorquiu Elsie.

- Não sou detective; sou apenas uma estenógrafa. Ainda por cima tive a impressão de que ele me vigiava durante todo o percurso.

- Que diabo fez ele?

- Caminhou ao longo do passeio, parou em frente do cego, nosso cliente, e deitou-lhe na lata, uma a uma, cinco moedas de prata... cinco dólares!

«O outro ia dizendo ”obrigado, irmão” a cada uma das moedas que ia ouvindo tinir e disse-o cinco vezes, muito sério, com considerável dignidade.» - Vá lá, diga o resto - impacientou-se Bertha.

- Então, atravessou a rua e começou a andar muito depressa. Estiquei as pernas, tentando acompanhá-lo. Não abrandou, até se lhe deparar um sinal de trânsito que ia fechar-se para os peões. Quando isso aconteceu, deu uma corrida e atravessou para o outro lado. Tentei ainda imitá-lo, mas o polícia que estava a meu lado segurou-me por um braço. Aproximou-se um autocarro e o homem saltou lá para dentro.

- E porque raios você não seguiu o autocarro? censurou Bertha.

- Espere aí - interrompeu Elsie. - Estava um táxi estacionado a meio do quarteirão. Fiz-lhe uma data de sinais frenéticos, até que o motorista me viu e se aproximou. Saltei lá para dentro e passámos pelo autocarro três vezes. Sempre que o ultrapassávamos, examinei os passageiros, sem conseguir descobri-lo. Por isso, mandei o motorista parar dois quarteirões à frente do autocarro, paguei a conta, saltei para a rua e tomei o autocarro nessa paragem. O nosso homem não estava lá dentro.

Com um profundo suspiro, Bertha resmungou:

- Macacos me mordam!

 

VI

Exactamente nove minutos para as nove, quando Elsie abriu a porta do gabinete particular de Bertha Cool. Procurava evidentemente esconder a sua excitação até que a porta se fechou nas suas costas.

Então, com a respiração alterada, anunciou:

- Voltou!

- Quem é que voltou?

- A testemunha que viu o acidente.

Durante alguns segundos, Bertha entregou-se a íntimas considerações, antes de comentar:

- O tipo quer entrar na coisa. É um sujo chantagista e eu não deveria dar-lhe a satisfação de recebê-lo.

Elsie Brand aguardou, sem proferir palavra.

- Está bem - decidiu-se Bertha. - Mande-o lá entrar.

O homem sorria afavelmente, quando penetrou no gabinete.

- Duro de roer, hem? - começou o homem. Escuro negócio esse em que a senhora me quis meter! Mas não há ressentimentos entre nós, pois não, Mrs. Cool?

Bertha não abriu boca.

- Tenho estado a pensar na coisa - prosseguiu ele.

- Talvez a senhora estivesse a falar verdade. Vou fazer-lhe uma proposta: a rapariga não sabe quem a contundiu e eu sou o único que está a par da coisa; mas, na verdade, a informação não me serve de nada, aqui fechada no livro de apontamentos, por isso vou dar-lhe o nome e a morada da moça, e isso não lhe custará um cêntimo; vá vê-la e fale-lhe na ideia de que tem um bom motivo para um processo de indemnização; vinte e cinco por cento é tudo quanto quero.

- Vinte e cinco por cento de quê? - inquiriu Bertha.

- De quanto se arrancar ao homem que guiava o carro. Provavelmente não tinha seguro e cai que nem pato!

- Não tenho nada com isso, como já lhe disse retorquiu Bertha.

- Bem sei. A senhora disse-me isso e eu não vim cá discutir, mas um tipo avisado vale por dois e agora sou eu que lhe digo que, se a moça está interessada em descobrir quem a virou de pernas para o ar, vai precisar de um bom depoimento testemunhal. Falarei com um advogado e arranja-se um processo que correrá que «nem canja», ’tá d’acordo?

Bertha Cool apertou os lábios até os reduzir a uma estreita linha e abanou a cabeça com firme obstinação.

- Não esteja a «reinar» comigo - riu o visitante, ’tá certo que concorda! Pode não estar agora, neste momento, interessada em meter-se num processo, mas ficará tentada, quando a coisa for para diante. Bem, sempre que quiser contactar-me, bastar-lhe-á pôr um anúncio no jornal.

- Como se chama?

- Oportunidade... Mr. John Q. Oportunidade.

- Desde já lhe digo... -começou Bertha Cool.

- Pois, pois, já sei - interrompeu-a ele, brandamente. - A rapariga chama-se Josephine Dell e vive nos apartamentos da parte sul da Figueiroa Street... e não foi a nenhum hospital.

- Porque não? - interessou-se Bertha. - O homem disse querer levá-la a tratamento.

- ’tá certo! Ia fazer isso. Queria que um médico a examinasse para ter a certeza de que não ficara ferida, mas, por qualquer razão, não o fez. O acidente ocorreu na sexta-feira, ao fim da tarde; no sábado de manhã, a moça levantou-se e sentiu-se dorida e estonteada; telefonou para o sítio onde trabalha e disseram-lhe que se deixasse ficar em casa; ficou todo o domingo de cama. Ora, sendo assim, pode muito bem arranjar uma indemnização de várias centenas de «palhaços»... só que não sabe onde ir buscá-las.

O homem ergueu-se, acendeu um cigarro, deu uma longa fumaça e, com os olhos semicerrados, fitou Bertha especulativamente.

- Está a ver onde eu quero chegar?

Bertha Cool olhou, de relance, para a porta, ia começar a dizer qualquer coisa, mas arrependeu-se e permaneceu calada.

O visitante sorriu, divertido.

- Vai fazer o velho truque de mandar ver para onde vou, mal desande, mas deixe-me que lhe diga que isso não a leva a sítio nenhum que lhe interesse; andarei por aí. Não levo nada pela informação. É o que pode chamar uma amostra gratuita, do artigo. Quando a senhora quiser a outra informação que realmente dá dinheiro, é só dizer. Muito boa tarde.

E saiu do escritório.

Em menos de dez segundos, depois de o visitante ter passado a porta, Bertha estava também pronta a sair.

Elsie Brand cobria a secretária onde tinha a máquina de escrever, quando Bertha Cool saiu do gabinete.

Olhou-a, tentada a perguntar-lhe se conseguira a informação que desejava, mas desistiu e Bertha não disse nada.

Os apartamentos Bluebonnet eram um típico edifício do Sul da Califórnia, com divisões para pessoa só ou casal, desde vinte e sete dólares e meio até quarenta dólares por mês. Dos lados tinha os tijolos à mostra, mas de frente exibia uma fachada estucada, com telhadinhos sobranceiros às portas e janelas, forrados com a convencional telha vermelha. Tinha três andares de altura e quinze metros de largo. Não possuía átrio de entrada e ao lado das caixas do correio, junto à porta, viam-se campainhas com os nomes dos locatários.

Bertha Cool correu os olhos pela lista de nomes, e deparou-se-lhe o de Josephine Dell a meio da fila. Com o seu competente e gorducho dedo indicador premiu a campainha e aproximou a boca do telefone exterior.

Uma voz de mulher nova inquiriu:

- Quem é?

- Uma pessoa que quer falar consigo acerca do seu acidente.

- Está bem - aquiesceu a voz e, segundos depois, o besouro da fechadura da porta anunciou a Bertha que podia entrar.

Não havia elevador e subiu as escadas com a lenta deliberação de conservar o fôlego e a energia, avançando cautelosamente, como se negociasse com cada degrau, parando a cada passo e dando com o corpo um balanço, sempre que puxava para si o corrimão. Conseguiu assim chegar ao patamar sem falta de ar e aí os seus dedos fechados bateram autoritariamente à porta.

A jovem que lha abriu devia andar pelos vinte e cinco anos. Era ruiva, com um nariz arrebitado, olhos sorridentes e uma boca certamente habituada a distribuir sorrisos.

- Olá! - saudou a moça.

- Olá! - retribuiu Bertha. - Você é Josephine Dell?

- Sim.

- Posso entrar?

- Entre lá.

Josephine Dell envergava um longo penteador sobre o pijama e estava em chinelas. O interior do modesto apartamento denunciava que ela devia ter estado, durante algum tempo, vivendo apenas no quarto de cama. Junto desta viam-se alguns jornais e revistas e o cinzeiro achava-se cheio de beatas de cigarro cujo cheiro se espalhava por todo o apartamento.

- Queira sentar-se - convidou a jovem. - Amanhã já tenho alta.

- Tem sido assistida? - interessou-se Bertha.

- Tenho estado sob observação médica - esclareceu Josephine Dell, rindo, e acrescentou: - Uma desgraça nunca vem só!

Bertha Cool tentou amoldar-se confortável mente numa cadeira e inquiriu:

- Aconteceu-lhe mais alguma coisa, além do acidente de automóvel?

- Então não sabe? ; - Não!

- Perdi o emprego.

- Quer dizer que a despediram por não poder ir trabalhar?

- Deus do céu! Não! Quando Mr. Milbers faleceu, os meus azares começaram. Creio que sabe o que se passou, mas, já agora, diga-me quem é a senhora e o que pretende, antes de começarmos a falar.

- Bem - explicou Bertha, não represento qualquer companhia de seguros e não posso oferecer-lhe um cêntimo, sequer.

O rosto de Josephine Dell espelhou desapontamento.

- Esperava que viesse de uma companhia de seguros!

- Pensei que esperasse isso.

- Bem vê, quando o homem me atingiu com o carro, não pensei ter ficado magoada. Reagi bem, endireitei-me, respirei fundo e decidi deixar as coisas como estavam, mas, meu Deus, não percebi que não me achava em condições de trabalhar e disse para comigo: «Não sejas piegas; não tens ossos partidos; apenas umas nódoas negras.» Bertha sacudiu a cabeça, compreensivamente.

- E depois, sabe?, o rapaz foi tão simpático! Saiu logo do carro, passou-me o braço em volta da cintura e meteu-me no automóvel antes que eu desse por isso. Começou a insistir por acompanhar-me a um hospital e eu recusei, rindo-me da ideia, mas depois pensei que talvez estivesse a propor-me isso para descargo da consciência e sua própria protecção e acedi. Começámos a tagarelar, e então, não sei porquê, convenci-me de que não ficara magoada e que não haveria qualquer motivo para reclamação por ofensas corporais. Disse-lhe que não tencionava pedir uma indemnização e ele acabou por trazer-me a casa.

Com um gesto compreensivo de cabeça, Bertha demonstrou que as confidências podiam continuar.

- Depois de pensar que tudo corria bem, comecei a sentir sintomas peculiares. Consultei um médico, e ele declarou que não era, de forma alguma, anormal as pessoas contundidas acharem-se sofrivelmente bem, durante um dia ou dois, e passado esse período começarem a sentir os efeitos dolorosos da contusão que evolui em sintomas de séria gravidade. O doutor até se mostrou optimista pelo facto de eu ter a sorte de poder permanecer aqui em casa.

Bertha tornou a anuir com a cabeça.

- Nunca falei no número de matrícula do carro prosseguiu Josephine, com uma pequena gargalhada, nem tomei nota do nome do homem, pelo que não faço a mais pequena ideia de quem seja. Não se dá o caso de desejar processá-lo, mas, se está segurado contra terceiros, certamente que eu poderia receber agora algum dinheiro.

- Sim - concordou Bertha, isso compreende-se, e, se você está interessada em descobrir quem ele é, há uma possibilidade de...

- Estava a dizer que...? - perguntou Josephine, quando Bertha interrompeu a frase.

- Nada! - cortou Bertha.

- Suponho que a senhora ia falar-me da sua ligação com o caso, não?

Bertha Cool estendeu-lhe um cartão e apresentou-se:

- Sou directora de uma agência de detectives.

- Uma detective! -exclamou a moça, surpreendida.

- Sim.

Josephine riu com simpatia.

- Sempre pensei que os detectives eram pessoas sinistras e a senhora parece-me muito humana!

- E sou.

- Porque está interessada em mim?

- Porque alguém me contratou para encontrá-la.

- Quem?

- Aposto que, nem que pensasse cem anos, seria capaz de adivinhar - desafiou Bertha, sorrindo. - Trata-se de um homem que está interessado em si. Soube que tinha sofrido um acidente e deseja saber como vai.

- Porque não me telefonou?

- Não sabe onde poderia encontrá-la.

- Quer dizer que ignora onde trabalho?

- Exactamente.

- Oh! Aposto que é o cego!

Bertha sentiu-se um pouco irritada com o facto de Josephine ter descoberto tão facilmente quem era o seu cliente.

- Como adivinhou?

- Não o teria adivinhado, se a senhora se não tivesse mostrado tão misteriosa. Ter-me-ia lembrado de outra pessoa qualquer. Não sei se sabe que penso muito nele e ainda hoje o fiz, lamentando não poder informá-lo de como me sinto. - Riu-se, e prosseguiu: - Compreende que não posso escrever a um cego, cuja direcção é o passeio em frente do Banco, não é verdade?

- Certamente! - concordou Bertha.

- Vai comunicar-lhe quanto apreciei o seu interesse, não vai?

Bertha anuiu, e Josephine insistiu:

- Diga-lhe que isso significa muito para mim e que, provavelmente, me verá amanhã ou depois, se não houver outras complicações. Ele é um «querido»!

- Parece estar-lhe muito afeiçoado - confirmou Bertha. - É um tipo realmente fora do comum... muito observador.

- Por favor, transmita-lhe da minha parte que estou bem e que lhe envio toda a minha afeição. É capaz de fazê-lo?

- Certamente! - Bertha ergueu-se da cadeira e, após uma breve hesitação, declarou: - Talvez eu seja capaz de fazer alguma coisa acerca da... bem... de uma compensação para si, mas terei de gastar algum dinheiro para descobrir quem a atingiu. Não gostaria de encarregar-me do caso, a menos que você não tenha outra maneira de consegui-la.

- Quer dizer que a senhora seria capaz de encontrar o homem que guiava o automóvel?

- Creio que sim, mas vai causar-me algumas despesas.

- Quanto?

- Ainda não sei. Talvez pudéssemos basear-nos numa percentagem sobre a quantia que vierem a pagar-lhe.

Calculando por alto, talvez metade de quanto eu puder obter da companhia, se você não o conseguir por outras vias. - É capaz de tratar de tudo isso por mim?

- Se houver um acordo com a companhia de seguros, certamente, mas se o caso for para tribunal, então seria assunto a considerar...

- Oh! Não quero ir para tribunal. O rapaz foi tão amável! Mostrou tanta consideração por mim! Quero crer que ele tenha seguro e que, se fizesse uma ideia do estado em que estou... mas, na verdade, não foi nada de grave. Só perdi três ou quatro dias de trabalho e, de resto, já tinha perdido o emprego.

- Trabalhava para um tipo que morreu?

- Sim, para Mr. Harlow Milbers.

- O seu escritório deveria ser perto do local onde o cego estaciona.

- Mais ou menos a dois quarteirões do Banco, num estúdio antiquado daquele velho edifício que faz esquina.

Mr. Milbers tinha o seu escritório lá em cima...

- Que fazia ele?

- Um trabalho de pesquisa, relacionado com uma sua preocupação particular. Tinha uma teoria acerca de que as campanhas militares seguem uma certa linha táctica e que a defesa é impotente contra a agressão, até que esta se anule por si própria, isto é, que nenhuma nação poderá manter permanentemente uma acção defensiva contra uma ameaça de agressão, visto que, quando o ataque se realiza, não há maneira de detê-lo, senão com uma agressão oposta. Por mais esforços que se empreguem, apenas se consegue atenuar o ímpeto da agressão, até que, eventualmente, a defesa se torna vulnerável e ter-se-á de atacar. Por mais poderosa que seja uma nação no começo das hostilidades, por mais longe que a levem as suas conquistas, por mais extensas que sejam as suas fronteiras... Mas você não deve estar interessada em nada disto!

- É uma teoria interessante! - comentou Bertha.

- Ele estava a escrever um livro acerca disso e ditava-me uma série de notas... Era um bom emprego.

Bertha atalhou:

- Bem, se você se decidir e desejar que eu faça qualquer coisa acerca do acidente de automóvel, comunique-me.

Penso que poderá obter entre quinhentos a mil dólares. Houve traumatismo nervoso, contusões, etc.

- Oh! Não estou interessada em nada para o traumatismo nervoso. Basta-me uma ligeira compensação para os dias em que não pude trabalhar e para pagar a conta do médico.

Bertha observou:

- -Quando receber a indemnização da companhia, temos de considerar que houve um certo número de diligências a efectuar e de pessoas envolvidas na obtenção das informações, pelo que será necessário pagar algumas despesas... Pense nisso, queridinha. Tem aí o meu cartão e poderá, em qualquer altura contactar comigo.

- É na verdade muito amável, Mrs. Cool. Sábado e domingo não contam, portanto, só perdi três dias, quando muito. Ganho trinta dólares por semana, por isso os três dias não excedem dezoito dólares e o médico só me debitou sete. Apenas quero receber vinte e cinco dólares da companhia.

Com a mão pousada no fecho da porta, Bertha aconselhou:

- Não seja «tansa»...-mas neste momento ouviu-se alguém bater à porta timidamente, Josephine Dell pediu:

- Abra, se faz favor.

Bertha abriu a porta. Um homenzinho amaneirado, à volta de cinquenta e sete, cinquenta e oito anos de idade, com um bigode grisalho-amarelado, de ombros ligeiramente curvados e olhos azuis sorriu para ela.

- A senhora é Miss Dell, não é verdade? Sou Christopher Milbers. Não toquei à sua campainha da porta da rua, porque me enganei no apartamento e abriram-ma aqui do lado. Desculpe-me. Devia realmente ter tornado a sair e perguntar-lhe se desejava receber-me. Só agora me apercebi da incorrecção... Precisava de falar consigo acerca do meu primo. Foi uma coisa tão súbita que...

- Não sou eu - esclareceu Bertha, afastando-se para o lado de forma a permitir que o homem penetrasse no compartimento. - Vim apenas falar com Miss Dell.

- Oh! - exclamou o visitante apologeticamente.

- Faça o favor de entrar - convidou Josephine Desculpe não me levantar e estar assim vestida, mas sofri um acidente de automóvel... nada de sério, mas o médico aconselhou-me a movimentar-me o menos possível.

Na verdade, quase que o conheço, Mr. Christopher Milbers, já que lhe escrevi várias cartas ditadas por seu primo.

O homem avançou, cumprimentou Josephine e interessou-se com solicitude:

- Teve então um acidente, Miss Dell?

- Coisa de pouca importância. Queira sentar-se.

- Bem, vou andando - anunciou Bertha, passando para o lado de fora da porta.

- Só um momento - pediu Josephine. - Gostaria de falar consigo um pouco mais acerca da possibilidade de se obter essa compensação. Pode esperar mais um bocado?

- Já lhe disse, minha amiga, tudo quanto sei e aconselho-a a não ser tola, quanto ao que tenciona pedir à companhia de seguros. Se realmente quer ir para a frente com o assunto, entre em contacto comigo. O número do telefone está nesse cartão.

- Fá-lo-ei e muito obrigada.

 

VII

Sentado à luz do sol matinal, com as costas apoiadas nos blocos de granito do edifício do Banco, o cego parecia ainda mais frágil do que quando Bertha Cool lhe falara, na ocasião do seu primeiro relatório. Ao aproximar-se, Bertha tentou confundi-lo, alterando o ritmo das suas passadas.

- Olá, Mrs. Cool - saudou ele, sem levantar a cabeça.

Bertha riu-se e confessou:

- Julguei poder enganá-lo, modificando a maneira de andar.

- Ninguém consegue modificar eficientemente as características pessoais dos passos. Percebi logo quem era, embora caminhando disfarçadamente. Conseguiu descobrir qualquer coisa?

- Sim, já a localizei.

- Ela está bem?

- Sim.

- Está certa disso? Não teria ficado muito contundida?

- Não, agora está perfeitamente.

- Tem a sua morada?

- Apartamentos Bluebonnet, na Figueiroa Street.

Andava a trabalhar para um homem que morreu.

- Quem era ele?

- Chamava-se Milbers e era escritor. Andava às voltas com uma teoria que ia incorporar num livro, quando morreu.

- O escritório era perto daqui, como eu previra?

- Sim, junto da esquina do próximo quarteirão, num edifício velho.

- Lembro-me do sítio... quando eu via... antes de ser cego.

Fez-se silêncio durante breves instantes e Kosling pareceu tentar recordar antigas reminiscências. Abruptamente declarou:

- Iria apostar que sei quem ele era.

- Quem?

- O patrão dela. Deve ter sido um homem de idade que usava bengala e que caminhava com um ligeiro arrastar do pé direito. Já me tenho preocupado com ele.

Foi há coisa de uma semana a última vez que o ouvi passar. Um homem que guardava o que tinha para si próprio. Durante mais de um ano passava por aqui, mas nunca me dirigiu a palavra, nem deitou uma coroa na lata. Devia ser esse Milbers. Disse-me que morreu?

- Sim.

-De quê?

- Não sei. Ela apenas me disse que ele tinha falecido, parece-me que subitamente, segundo depreendi.

Kosling sacudiu a cabeça e comentou:

- Na verdade não andava com muita saúde. Cada vez arrastava mais o pé direito e piorara nas últimas seis semanas. Contou-lhe como aconteceu ter-me preocupado com ela?

- Certamente - respondeu Bertha. - Você não pediu segredo e pensei que podia dizer-lho. Ela pensava que eu a visitara por causa do acidente de automóvel e da possibilidade de conseguir-se uma indemnização da companhia de seguros e tive de explicar-lhe como sucedeu ter sido incumbida de descobri-la. Espero não ter cometido um erro!?

- Fez muito bem. Como vamos de dinheiro?

- Quites. Você deu-me vinte e cinco dólares que é o total da minha conta, visto não ter tido despesas extras.

- Está bem, muito obrigado. E agora que já me conhece, espero que me venha falar, quando passar por aqui. Tenho sentido a ausência do seu sócio. Tem recebido notícias dele?

- Não.

- Gostaria que mas desse, quando souber alguma coisa.

- Esteja descansado que o farei. Adeus, boa sorte.

Bertha dirigiu-se para a entrada do edifício do seu escritório, subiu no elevador e ouviu Elsie Brand a matraquear na máquina de escrever. Abriu a porta e saudou:

- Olá, Elsie. Acabo... - e calou-se a meio da frase.

O homem de olhos mortiços e de cigarro pendente da boca estava sentado numa cadeira desconfortável, com as pernas cruzadas e as mãos nas algibeiras. Ao fitar Bertha readquiriu a expressão descarada e, em tom afável, inquiriu:

- Que tal correu?

- A que se refere?

- Sabe muito bem a que me refiro. Conseguiu esse acordo para sacar a massa à companhia de seguros?

- Não fui tratar disso - retorquiu Bertha.

- Pois, pois! Chegou a acordo, ou não?

- Mal foquei esse assunto.

- Vinte e cinco por cento, cá para o rapaz, está bem?

Bertha irritou-se.

- Parece que você não entende o que digo, quando falo inglês. Ficámos em que lhe daria vinte e cinco dólares pela informação. Terei de falar chinês?

Ele começou a rir e Bertha prosseguiu:

- E fique sabendo que terei de pagar-lhos da minha própria algibeira, porque ela não me encarregou de tratar com o seguro. De resto, não deseja receber uma indemnização total, mas apenas com que pagar a conta do médico e uma compensação para os dias que ficou sem trabalhar.

Não quer mais do que vinte e cinco dólares.

- É tudo quanto ela quer?

- Exactamente.

- Esteve a combinar a «coisa» com ela?

- Não estive a combinar coisa alguma.

- Talvez a companhia de seguros queira comprar o meu livro de notas.

- Porque não tenta?

- É muito possível.

- Estou convencida de que o vai tentar.

- Estou apenas a ver em que param as modas, mas não alterarei o meu depoimento. É por essa razão que não vou ter directamente com a rapariga para sacar-lhe «algum». Qualquer advogado acabaria por enrolar-me.

Contudo, se houvesse uma combinação confidencial, as coisas correriam de melhor maneira. Então, se algum «fala-barato» me perguntasse se a queixosa me dera qualquer coisa, mostrar-me-ia sincero e responderia: «apenas o que as testemunhas costumam receber».

Bertha riu cinicamente e anunciou:

- Vinte e cinco dólares é o total que ela pretende neste momento e será também o meu limite para si.

Coisa nenhuma é quanto tiro deste negócio.

- Vinte e cinco por cento - insistiu ele.

- Já lhe disse que, por enquanto, não há bolo de onde se possa tirar qualquer talhada.

- ’tá bem! Talvez as coisas mudem com o tempo.

- Diga-me cá - pediu Bertha. - Como poderei entrar em contacto consigo?

Com uma careta, levantou-se e respondeu:

- Não pode! - e saiu do escritório.

Bertha estacou junto da porta, mal esta se fechou atrás dele.

- Parece que tenho de entrar no jogo do tipo! - resmungou. - Raios o partam.

- Quer dizer que vai aceitar-lhe a proposta? - inquiriu Elsie Brand.

- Eventualmente... se não arranjar outra melhor.

- Porquê? - insistiu Elsie, com curiosidade. - Porque se vai misturar com gente desse estofo, quando não gosta dela?

- Porque há dinheiro envolvido nisto - confessou Bertha e enfiou-se no seu gabinete, mergulhando na leitura do jornal da manhã.

Ia a meio da coluna desportiva, quando o telefone interno zumbiu. Bertha levantou o auscultador e Elsie Brand perguntou:

- Pode dispensar alguns minutos a um tal Christopher Milbers? Ele diz que já esteve consigo.

- Milbers, Milbers... - repetiu Bertha, por uns segundos, até que respondeu:

- Oh! Sim, já sei quem é. Que quer ele?

- Não disse.

- Diga-lhe que entre.

Christopher Milbers ainda parecia mais apagado no gabinete de Bertha do que em casa de Josephine Dell e disse, em tom de quem se desculpa:

- Espero não vir incomodá-la.

- Que deseja? - inquiriu Bertha.

- Miss Dell disse-me que a senhora era detective.

Fiquei espantado.

- Encarregamo-nos de investigações confidenciais - esclareceu Bertha.

- A palavra detective soa muito mais romântica do que o termo investigador, não acha?

Bertha fitou-o com um olhar frio.

- Não há romantismo nos negócios. É uma profissão como outra qualquer e eu nunca descurei qualquer negócio. Que pretende?

- Gostaria de contratá-la, Mrs. Cool, mas não sei ainda quais são os seus honorários - explicou Milbers.

- Dependem da natureza da investigação e do montante do dinheiro envolvido - esclareceu Bertha, agora com o olhar denunciando agudo interesse.

- Não se importa que lhe roube o seu tempo, contando-lhe a história desde o princípio?

- Diga lá.

- Bem... o meu primo Harlow era deveras excêntrico.

- Já percebi isso.

- Era muito individualista e teimava em viver a vida à sua maneira. Não queria que o comandassem ou dominassem e as suas relações com os parentes azedaram-se com essa atitude.

Christopher Milbers uniu as palmas das mãos, abriu os dedos, juntou as pontas e virou-as para o peito. Olhou para Bertha, por cima da sua habilidade contorcionista, manifestamente ansioso por que ela tivesse abrangido o seu ponto de vista.

- Casado? - perguntou Bertha.

- A mulher dele morreu há dez anos.

- Filhos?

- Não.

- É o único parente?

- Sim.

- Quanto ao funeral, quem se encarregou disso?

- É amanhã. Estou cá a tratar dele. Só recebi o telegrama, comunicando o falecimento, na segunda-feira.

Estive fora da cidade e houve certa demora a fazer-mo chegar às mãos. Apreciei devidamente a decisão de terem-me confiado os cuidados do funeral.

Bertha começou a impacientar-se.

- Eu não percebo patavina de funerais. Por que razão me quis falar?

- Sim, já lá vamos! Estava-lhe a dizer que o meu primo era um excêntrico.

- Estava, pois.

- Entre outras excentricidades não tinha confiança na segurança económica das empresas comerciais.

A expressão de Bertha denunciou espanto.

- Cos diabos! Isso não é nenhuma excentricidade!

Isso é bom senso!

Christopher Milbers fechou os dedos e juntou os nós das falanges umas com as outras.

- Excentricidade ou bom senso, para o caso tanto faz, Mrs. Cool. O que interessa é que andava sempre com larga soma de dinheiro numa carteira de bolso. Eu próprio presenciei esse facto, além do que me escreveu uma carta informando-me de que esperava uma situação de emergência e, mais ou menos, na quinta-feira, levantou, da sua conta bancária, cinco mil dólares adicionais para aquisição de certos livros raros, na sexta-feira, à tarde.

-E então?

- Quando cheguei para me encarregar do funeral e me foram entregues os objectos que ele trazia consigo no momento da morte, examinei-lhe a carteira e o porta-chaves e...

- Deixe lá o resto. Quanto tinha a carteira?

- Só lá estavam uma nota de cem dólares, uma de vinte, e três de um dólar: nada mais!

- Oh, oh! - exclamou Bertha, interessada.

- Pode imaginar a minha preocupação!

- Naturalmente! Fez logo uma reclamação?

- Aí é que está... uma pessoa não gosta de reclamar, quando isso pode ser considerado uma acusação ainda não totalmente comprovada...

- Quer portanto que eu o certifique da irregularidade, não é assim?

- Não é bem isso. Neste momento já tenho a certeza absoluta.

- Ah, tem?

- Tenho. Miss Dell... que a senhora conhece...

- Que houve com ela?

- Tem a certeza de que o dinheiro estava na posse do meu primo.

- Como o soube ela?

- Foi secretária de Harlow durante mais do que um ano e recorda-se da ocasião em que ele lhe ditou uma carta na qual mencionava ir levantar cinco mil dólares para os trazer consigo.

- Onde está a carta?

- Tenho-a em Vermont... isto é, espero que ainda lá a tenha, pois às vezes destruo a correspondência...

- Considerava importante a correspondência que trocava com o seu primo?

- Para falar francamente, Mrs. Cool... muito importante.

- Porquê?

- Era o meu único parente vivo. Sentia-me muito ligado a ele... Sabe como é, quando uma família se vai reduzindo a um círculo estreito e só restam duas pessoas - explicou Milbers; tornando a virar os dedos estendidos, agora para Bertha Cool.

- E agora só está um vivo! - comentou Bertha acidamente.

Milbers não disse nada.

- Há quanto tempo o não via? - prosseguiu Bertha.

- Bem... já há algum tempo... há cerca de quatro ou cinco anos.

- Afinal, considerando os factos, não devia dar-se muito bem com ele!

- Ele preferia as coisas assim. Gostava de escrever mas, quanto a contactos pessoais... creio que pensava ser mais conveniente o contacto epistolar, para manter as relações familiares harmoniosas.

- Ora aí está o género de conversa adocicada que, se não é trocada em miúdos, uma pessoa não consegue entender onde se quer chegar... pelo menos até agora criticou Bertha, impaciente.

- Acontece que numa conversa oral - explicou Milbers, escolhendo cuidadosamente as palavras - surgiam, entre nós, várias divergências. Ele era obstinado quanto a certa política radical e teorias económicas. Contudo, através da correspondência é sempre possível abordar essas matérias com maior tacto e evitar certos assuntos de controvérsia. Numa conversa, já não é fácil.

- Acho que pouparia uma data do seu tempo e do meu, se fosse direito ao assunto e se chamasse pá a uma pá.

- Ora aí está! - exclamou Milbers, com ardente entusiasmo. - A senhora, Mrs. Cool, acaba de laborar no mesmo erro que muitas outras pessoas. Uma pá pode não significar uma pá. O termo pá não é mais que uma palavra genérica de comum convencionalismo que não designa qualquer objecto em particular e sim vários, para diferentes utilidades. Por exemplo, tem a pá de jardineiro, que serve para abrir a terra; a pá de pedreiro, completamente diferente, para aplicar a argamassa; a pá de padeiro, para introduzir o pão no forno, ainda mais diferenciada; a pá da hélice de um avião, completamente alheia, na sua forma física, às anteriores, todas elas pás para diversos fins e, com efeito...

- Pare lá com isso! - gritou Bertha. - É fácil de perceber o que seu primo sentia a seu respeito! Volte ao assunto!

- À pá?

- Não, ao primo. Onde vivia ele? Hotel, casa alugada, clube, ou?

- Não, Mrs. Cool, tinha casa própria mas, desafortunadamente, não era capaz de dar conta dela.

- Quem a dirigia?

- Uma governanta.

Os olhos pestanejantes de Bertha convidavam Milbers a prosseguir o seu relato.

- Uma tal Mrs. Nettie Granning, que anda aí pelos quarenta e picos, se me desculpa a expressão. Tem uma filha, Eva, e um genro, Paul Hanberry.

- Paul e Eva viviam na casa com eles? - interessou-se Bertha.

- Exactamente, Mrs. Cool. Paul era o motorista que conduzia meu primo, quando, raramente, ele ia a qualquer lado de automóvel. Segundo creio. Eva actua, tecnicamente, como assistente da mãe, lá em casa. Todos eles auferiam largos salários e, se me perguntar a minha opinião, não poderei esconder-lhe que sempre considerei o facto um arranjo ineficiente e altamente dispendioso.

- Que idade tem Eva?

- Diria cerca de vinte e cinco.

- E o marido? - Talvez dez anos mais velho.

- Que dizem eles acerca do dinheiro que se supõe ter estado na carteira do falecido?

- Ora aí é que está a dificuldade - afligiu-se Mr. Milbers. - Ainda não lhes mencionei essa falta.

- Porque não?

- Sou muito meticuloso, quanto a tudo que possa parecer uma acusação, embora reconheça que teremos de discutir o incidente.

- Pretende, por ventura, que eu averigúe a situação?

- inquiriu Bertha, animada por súbita inspiração.

- Exactamente, Mrs. Cool.

- Sou boa nisso!

- Pelo meu lado, vejo-me levado a confessar que a minha fraqueza nesse campo é deplorável.

Olhando para Milbers, especulativamente, Bertha observou:

- Sim. Imagino... se essa governanta é de um género que eu conheço!

- Exactamente - confirmou Milbers, separando os dedos para os tornar a juntar, com intervalos rítmicos Ela é precisamente desse género!

- Agora, há o caso da carta que se referia aos cinco mil dólares. Os outros cinco mil, como entram em cena?

- Como já tive ocasião de mencionar, o meu primo desejava adquirir um lote de livros raros, numa venda de emergência, e só não o fez porque se sentiu doente nesse mesmo dia. Contudo, o seu Banco confirma que lhe descontou um cheque nesse valor, além de que obtive ulterior confirmação de que ele, nesse dia, transportava consigo os habituais cinco mil, mais os destinados à aquisição dos livros, portanto dez mil... na carteira... no momento da morte.

Bertha apertou os lábios, reduzindo-os a uma estreita linha e inquiriu semicerrando os olhos:

- Diga-me agora, o senhor, como vai de finanças...?

- Que tem isso a ver com o assunto?

- Sempre me dá uma ideia do quadro geral.

Depois de um momento de cautelosa deliberação, informou:

- Tenho uma quinta, em Vermont, onde produzo açúcar e xarope que vendo pelo correio. Dá-me para viver, mas não posso dizer que tenha mais do que isso.

- O seu primo era seu cliente?

- Sim, costumava comprar-me xarope e gostava de açúcar de maçã, mas preferia que lho enviasse para o escritório em vez de para casa. De quando em quando, também lhe enviava amostras de novos produtos que ia lançando no mercado e até lhe enviei um, na semana passada. É triste pensar que já não está vivo...

- Amostras grandes?

- De maneira nenhuma. No negócio de doces, nunca se devem enviar quantidades que possam fazer o cliente enjoar-se, por excesso; somente se lhes deve dar com que adoçar a boca.

- Mandava-lhe a conta ou fazia-lhe ofertas?

- Debitava-lhe sempre a mercadoria, mas fazia-lhe um desconto de trinta por cento... e ele, ao pagar, fazia-se novo desconto de dois por cento!

Bertha ergueu a mão, espetando os dedos indicador e médio, num V, bem destacados e concluiu sarcasticamente:

- Por outras palavras, vocês eram unidos um ao outro, assim como isto!

Milbers sorriu.

- Devia ter conhecido o meu primo! Duvido que houvesse qualquer coisa a que ele fosse unido... creio que nem sequer à própria camisa.

- Agora, fale-me dessa governanta.

O rosto de Milbers tornou-se sombrio.

- É uma das coisas que me apoquenta. Indubitavelmente ela mantinha-o na sua dependência, dominando-o quanto podia. Confesso que me inspira certo receio.

- A mim, não! - afirmou Bertha. - Vamos lá.

 

VIII

Nettie Cranning, com os olhos vermelhos de pesar, apertou a mão de Bertha Cool e convidou:

- Tenha a bondade de entrar. Desculpe-me recebê-la neste estado, mas foi um terrível golpe para mim... para todos nós. Esta é a minha filha Eva - apresentou, e este o meu genro, Paul Hanberry.

Bertha invadiu a sala de entrada, com efervescente competência, apertou a mão de todos e pareceu dominar logo a situação.

Nettie Cranning devia andar pelos quarenta, dedicando cuidada atenção à sua pessoa e cultivando um maneirismo afectado que não passava de um verniz quebradiço, com que pensava poder ser tomada por senhora fina.

Sua filha Eva era uma morena, notavelmente bem-parecida, de formas longas e regulares, delgada, com delicadas sobrancelhas arqueadas, uma boca um pouco petulante e grandes olhos negros amendoados que pareciam capazes de mostrar-se emocionados se se lhes facultasse ocasião.

Paul Hanberry dava a ideia de uma nulidade masculina, ao sabor da vontade da personalidade mais forte das duas mulheres. Era de altura e peso médios, conseguindo não criar qualquer impressão favorável ou desfavorável a quem o visse à primeira vista. Tal como Bertha o descreveu na carta que enviou depois a Donald Lam, era «um tipo para quem se olha duas vezes, sem o ver».

Christopher Milbers mal entrou, tratou logo de tornar-se despercebido, passando para segundo plano, atrás do volume de Bertha Cool, como um aluno se esconde atrás da mãe, quando esta vai reclamar, junto do director da escola, terem-lhe castigado o filho.

- Muito bem, meus senhores - começou Bertha. - Isto não é o que se possa chamar uma visita de cortesia. O meu cliente aqui presente, Mr. Milbers, deseja esclarecer umas coisas.

- Seu cliente? -estranhou Mrs. Cranning, com fria reserva. - Posso perguntar se a senhora é advogada?

- Não sou - retorquiu Bertha prontamente. - Sou detective.

- Uma detective?

- Precisamente.

- Meu Deus! - exclamou Eva Hanberry admirada.

O marido decidiu-se a intervir, como a demonstrar que tinha alguma coragem.

- Que diabo de ideia é essa de meterem uma detective neste assunto?

- Porque desapareceram dez mil dólares - declarou Bertha... - O quê?

- Ouviu-me, não ouviu?

- Está por ventura a acusar-nos de termos tirado dez mil dólares? - interveio Mrs. Cranning.

- Não estou a acusar seja quem for... - especificou Bertha, acrescentando ao cabo de uns breves segundos:

- por enquanto.

- Poderia ter a amabilidade de explicar-nos exactamente o que quer dizer com isso? - pediu Eva Hanberry.

- Quando Harlow Milbers faleceu, trazia consigo, na carteira, um maço de notas no valor de dez mil dólares.

- Quem disse isso? - inquiriu Paul Hanberry, hostilmente.

- Disse eu - anunciou Christopher Milbers saindo de trás de Bertha Cool e colocando-se a seu lado -, e acontece que estou em posição de provar esta minha afirmação. Meu primo tinha a intenção de negociar a compra de um lote de livros históricos, em condições especiais. Em virtude de certas circunstâncias particulares, essa transacção deveria ser efectuada em dinheiro corrente que ele trazia consigo, na carteira.

- Nesse caso deve ter efectuado entretanto essa transacção - deduziu Mrs. Cranning-, visto que essa importância não se encontrava na carteira, quando morreu.

- Não, não se efectuou - cortou Milbers. - Ele andava sempre com cinco mil...

Bertha Cool reduziu-o ao silêncio com um gesto de mão autoritário e interrogou Mrs. Cranning: - Como sabe que ele não trazia esse dinheiro na carteira?

Mrs. Cranning olhou de relance para os seus parentes e, confusa, permaneceu calada. Eva Hanberry, depois de com eles cruzar um rápido olhar, protestou indignadamente:

- Benza-nos Deus! Ia jurar que somos responsáveis por quanto acontece nesta casa! Competia-nos ver tudo quanto um morto deixa, não é verdade?

- Tínhamos de procurar saber quem eram os seus parentes...-justificou Paul Hanberry - ou não?

- Não era dessa maneira que o descobririam observou Milbers.

Bertha interveio beligerantemente:

- Não vim aqui perder o meu tempo a ouvir argumentações.

Queremos os dez mil dólares e é tudo!

- Provavelmente guardou-os no seu quarto - sugeriu Mrs. Cranning. - Estou certa de que os não tinha na carteira. Pelo menos, não estavam lá, quando eu a examinei - concluiu, fitando o genro.

- Tenho pois razão ao afirmar que não os achei junto do corpo, na casa mortuária - sublinhou Milbers, contrariado por verificar que a táctica directa de Bertha Cool colocara os outros na defensiva.

- Bem, já temos um ponto de partida - observou Bertha. - Vamos lá ver o quarto onde ele morreu.

E quanto a outros quartos? Ele não costumava trabalhar em casa?

- Oh, céus! Certamente que se fartava de trabalhar na biblioteca - informou Mrs. Cranning. - Ficava lá até altas horas da noite.

- Vamos então dar uma vista de olhos a essa biblioteca.

Qual das divisões fica mais perto?

- A biblioteca.

- Comecemos por aí.

- O quarto de cama já foi revistado - objectou Paul. -Ele...

Mrs. Cranning fê-lo calar com um gesto de indignada desaprovação, e, em voz baixa, Eva aconselhou:

- Deixa a mãe falar.

Com considerável dignidade, Mrs. Cranning indicou:

- Queiram seguir-me - e dirigiu-se ao escritório onde se situava a biblioteca. À porta, descreveu um largo círculo com a mão, como se o seu gesto significasse que deixava a dependência ao cuidado dos visitantes e que disso ilibava a sua responsabilidade.

Subitamente, Paul Hanberry consultou o relógio de pulso, de forma a despertar a atenção geral, e informou:

- Cos diabos! Esqueci-me de fazer um telefonema!

- após o que se retirou para as traseiras da casa.

- Quase imediatamente a atitude das duas mulheres modificou-se e Mrs. Cranning, numa voz mais conciliatória, inquiriu:

- Estão absolutamente certos de que ele tinha o dinheiro consigo?

- Provavelmente, na carteira - informou Milbers.

O banqueiro foi positivo no facto de ele lá ter introduzido os cinco mil dólares que lhe entregara, na quinta-feira.

- Nettie Cranning e a filha entreolharam-se. Defensivamente, Eva lembrou:

- Ele nunca ficou só, no quarto, com Mr. Milbers.

- Não, antes de morrer - frisou Mrs. Cranning.

- Oh, mãe! - protestou Eva.

- Está bem... mas foste tu quem trouxe esse assunto à baila.

- Daí à mãe insinuar uma acusação...

Mrs. Cranning virou-se para Bertha, com um sorriso.

- Certamente Mrs. Cool compreende que tudo isto foi um grande choque para nós e uma grande surpresa.

Estamos prontos a ajudar-vos em quanto estiver ao nosso alcance.

Bertha respondeu secamente:

- Oh, certamente! E vai ficar realmente surpreendida com quanto sou capaz de averiguar.

A biblioteca era uma sala espaçosa onde se alinhavam prateleiras cheias de livros, alguns dos quais encadernados em carneira que o tempo escurecera com uma patina castanha. No centro da dependência encontrava-se uma grande mesa e, sobre esta, achavam-se dispersos vários livros abertos, uns sobre os outros. No meio, um bloco-notas e um lápis. A primeira página do bloco estava escrita numa caligrafia angular e inclinada.

Mrs. Cranning esclareceu:

- Não creio que alguém tenha mexido aqui, excepto Mr. Christopher Milbers que me pedira que olhasse por toda a casa. Está tudo exactamente da mesma maneira que ele deixou. De resto, dera ordens para que ninguém tocasse nos livros ou em qualquer outro objecto deste escritório. Deixámos tudo tal como estava. Por vezes passavam-se dias, sem que eu pudesse limpar a mesa, visto estar tão cheia de coisas em que não se podia tocar.

- Não é, de forma alguma, um lugar onde uma pessoa fosse deixar dez mil dólares - observou Bertha.

O silêncio de Mrs. Cranning demonstrava ser da mesma opinião.

- Estive a examinar as notas que estão no bloco disse Mr. Milbers. - Referem-se a uma campanha de César. Não têm qualquer conexão com o assunto de que nos ocupamos, mas o facto é que as considero deveras interessantes...

- E eu considero, Mr. Milbers - cortou Bertha afastando-se dele e começando a explorar o escritório -, que devemos concentrar a nossa atenção na pesquisa do dinheiro ou documentos, embora esteja quase convencida de que será uma busca infrutífera.

- E quanto me diz respeito, considero que a busca é meramente um preliminar necessário para se basear uma acusação - comentou Milbers.

- Contra quem e com que base? - inquiriu Eva Hanberry, com surda hostilidade.

Milbers torceu a questão, apressadamente:

- Isso fica inteiramente à discrição do detective.

- É apenas um detective privado - interveio Mrs.

Cranning. - Mrs. Cool não tem autoridade alguma.

- É a minha representante neste caso - retorquiu Milbers, tentando dar à sua declaração a maior dignidade possível.

Bertha Cool ignorou a discussão. Na pista do dinheiro tinha mais faro do que um perdigueiro atrás da caça. Dera a volta à mesa, passara uma vista de olhos aos livros e ao bloco de apontamentos, leu o que lá estava escrito, de relance, e comentou:

- Quem diabo daria um centavo por estas velharias?

Após um momento de silêncio, Milbers respondeu defensivamente:

- Meu primo estava interessado nelas.

Decorrido outro momento de silêncio. Bertha perguntou:

- Não há nenhuma pasta para guardar documentos, nesta mesa.

Aparentemente, não havia.

- Acho que devíamos passar ao quarto de dormir sugeriu Milbers.

Bertha tornou a examinar as folhas de papel cobertas de notas manuscritas e estranhou:

- Que aconteceu ao resto do trabalho anteriormente escrito?

- Foi dado, certamente, à secretária que as transcrevia à máquina. Depois Mr. Milbers relia o texto e corrigia-o. Só depois o trabalho era arquivado. Há dúzias de dossiers, devidamente datados, e...

- E estas folhas de papel, aonde ia ele buscá-las?

- Estão aqui - mostrou Mrs. Cranning, apontando uma larga gaveta. - Tinha sempre uma série de lápis afiados e papel...

Bertha examinou a gaveta e subitamente perguntou:

- Diga-me, Mrs. Cranning, porque desconfiou que foi o seu genro quem tirou o dinheiro?

- Tirou o quê?

- Os dez mil dólares.

- Eu nunca pensei uma coisa dessas, Mrs. Cool.

A senhora está a ser simplesmente insultuosa. Não posso acreditar que pense que Paul... um rapaz tão dedicado...

- Ele joga nas corridas?

Um rápido fulgor de apreensão espelhou-se no olhar que mãe e filha trocaram entre si e foi quanto Bertha desejara saber.

- Hum! Deve ser isso. Provavelmente está neste momento a telefonar para o seu agente de apostas. Vou dizer-lhe uma coisa. Se na realidade ele significa alguma coisa para as senhoras, o melhor é fazerem com que lhes diga a verdade. Se tirou a «massa», talvez tenha ganho mais do que utilizou e...

Paul Hanberry entrou nesse momento, a tempo de ouvir as últimas palavras.

- Quem é que ganhou mais do que utilizou? - perguntou acerbamente.

- Nada, querido - interveio Eva, com tão perturbada rapidez que denunciava um cúmplice e óbvio desejo de mudar o rumo da conversa.

A expressão de Hanberry alterou-se.

- Oiçam bem - declarou indignado, não pensem que podem transformar-me em bode expiatório desta coisa. Há muito que todos sabem que não passo, aqui, de um tipo supranumerário. Vocês duas têm um raio de conversa doce que não me leva. Cos diabos, até deviam ter casado uma com a outra. Suponho que nunca te ocorreu, Eva, que quando casaste comigo era de esperar que a tua mãe...

- Paul! - cortou Eva rapidamente.

Mrs. Cranning contemporizou, em voz suave:

- Não me parece serem o momento e o local adequados, Paul, para tu e Eva se entregarem a divergências domésticas.

Eva Hanberry achou oportuno desviar a atenção geral, entregando-se a uma busca intensiva na gaveta dos papéis e dos lápis.

- Apesar de tudo, ele deve tê-lo guardado aqui sugeriu, com a rapidez de alguém que pretende atrair o interesse dos presentes para um assunto, de maneira a eliminar outro. - Era, afinal de contas, nesta sala que passava quase todo o seu tempo. E é muito possível que...

- Se não se importa - atalhou Milbers, perdendo toda a sua servilidade, sou eu quem vai examinar essa gaveta.

Não lhe ligando atenção e abrindo caminho com os pesados ombros, Bertha atravessou a sala e começou a remexer os papéis.

- Está aqui uma pasta! - anunciou.

- Não é provável que ele tivesse posto aí o dinheiro, no meio de toda essa papelada - observou Milbers.

Bertha abriu a pasta e os outros aproximaram-se.

Milbers inquiriu:

- Há aí alguma coisa?

- Alguns aparos para caneta, selos de correio e um sobrescrito fechado - anunciou Bertha, apresentando-o. - Vamos lá ver o que contém. Este sobrescrito mostra-se comprometedor.

Abriu-o e retirou de dentro duas compridas folhas de papel.

- Que é isso? - interessou-se Mrs. Cranning, perante o calado interesse de Bertha Cool na leitura da primeira delas.

- Tenho nas minhas mãos - declarou Bertha, um documento datado de 25 de Janeiro de 1942; cujo conteúdo permite presumir se trate do último testamento de Harlow Milbers. Algum dos presentes tinha conhecimento da existência deste documento?

- Um testamento! - exclamou Christopher, avançando para Bertha.

- Esperem um momento - disse Paul Hamberry.- De que data disse estar datado!... De vinte e cinco de Janeiro? Por que razão... Ia apostar que...

- Ias apostar o quê, Paul - cortou Eva, num tom abrupto que significava «cala a boca».

- O papel que me fez assinar como testemunha respondeu Paul. - Não te lembras? Falei-te disso, no domingo, quando Josephine Dell saiu daqui. Ele chamou-nos a ambos, cá dentro, e pediu-nos que assinássemos qualquer coisa, como testemunhas.

Bertha Cool virou a primeira página do documento, inspeccionou as assinaturas da segunda página e confirmou:

- Não há dúvida! Assinaram duas pessoas, como testemunhas: Josephine Dell e Paul Hanberry.

- Então era isso! Era o seu testamento.

- Porque não me disseram? - protestou Mrs. Cranning, azedamente.

- Eu disse a Eva que ele nos tinha pedido que assinássemos um papel e até pensei que mencionara tratar-se de um testamento, mas Eva...

- Na verdade, nunca pensei que fosse um testamento afirmou Eva, virando-se para a mãe. - Para dizer-lhe a verdade, nem pensei muito no assunto. Lembro-me de que Paul estava a lavar o carro, quando Mr.

Milbers bateu do lado de dentro da janela e lhe pediu que viesse aqui e...

- Que diz esse testamento? - inquiriu Christopher Milbers, impaciente.

Bertha, que estivera a ler o documento, olhou para Milbers e declarou:

- Você não vai gostar disto!

- Vá lá! - disse Paul. - De que trata?

Bertha começou a ler o testamento:

«Saibam quantos lerem o presente documento que eu, Harlow Milbers, de sessenta e oito anos de idade, são de corpo e de espírito com perfeita memória, enfastiado não da Vida (que muito aprecio) mas das pessoas que insistem em viver ao mesmo tempo que eu, redijo este meu testamento e exprimo as minhas últimas vontades, nos seguintes termos:

«Tenho um único parente vivo, Christopher Milbers, meu penteadinho-de-risco-ao-meio e hipócrita primo. Não tenho, contudo, nada contra ele, a não ser o facto de que me aborrece com a sua personalidade irritante, com a mania de falar de mais acerca de coisas sem qualquer importância, com demasiada frequência, e por reprimir as suas próprias opiniões acerca de assuntos controversos, só porque mantém a esperança de receber a prova da minha bondade, quando eu morrer.

«Muito do desgosto com que antevejo a minha dissolução final é devido à imaginária previsão do vampiresco regozijo com que o meu polissilábico e loquaz parente palrará acerca da santidade da família, dos verdadeiros elos das relações pessoais e dos insondáveis trilhos da Providência, tagarelando tudo isto sem deixar de pensar, um só momento, nas vantagens materiais que lhe advirão da aprovação do meu testamento.

«Tomando todas estas coisas em consideração e compreendendo a necessidade de deixar alguma provisão ao meu amado primo, em conformidade com as convenções sociais e para não desapontar excessivamente o meu dito amado primo porque, apesar de tudo, gastou muito tempo a escrever-me longas e tedientas cartas, dou, lego e beneficio o meu mencionado primo, Christopher Milbers, com a soma de dez mil dólares ($10.000).» Bertha virou a página e, antes de recomeçar a ler a seguinte, observou os rostos dos ouvintes e disse para Milbers:

- Você estava mesmo a pedir isto!

- É um ultraje! - protestou Milbers, com os lábios brancos de indignação. - As últimas palavras de um homem que se colocou sempre a si próprio acima de qualquer crítica ou réplica, mostram-no desagradável e cruel, mas, indubitavelmente...

Bertha Cool terminou a frase, quando ele se calou, pensativo:

- ...indubitavelmente, dez mil «pacotes» são dez mil «pacotes»!

- Uma mísera bagatela, para um homem com os seus meios! - censurou Milbers. - É verdadeiramente insultante!

Bertha Cool prosseguiu na leitura do testamento:

«Para minha fiel secretária, Josephine Dell, dez mil dólares ($ 10 000). Para Nettie Cranning, minha dedicada governanta; para sua filha Eva e para seu genro Paul Hanberry, todo o resto de quanto possuo. Não quero que Christopher Milbers tenha algo que interferir nas diligências legais a efectuar junto do tribunal, pelo que nomeio Nettie Cranning única executora das disposições testamentárias.

A fim de provar o que atrás destinei (com caprichosa satisfação, já que esta distribuição postmortem me liberta dos deveres hipócritas deste mundo), firmo com a minha assinatura e selo, nesta data de vinte e cinco de Janeiro de mil novecentos e quarenta e dois e na presença de duas testemunhas que chamei para atestarem e legalizarem a minha assinatura e declararem ser este o meu testamento, desde já certificando que ignoram o conteúdo do mesmo.

(assinado) Harlow Milbers» - Vou também ler isto - continuou Bertha Cool. - É uma cláusula referente às testemunhas, redigida por baixo do texto:

«O presente documento, consistindo numa página anterior e nesta que foi executada na presença de cada um de nós, aos vinte e cinco de Janeiro de mil novecentos e quarenta e dois, por Harlow Milbers, sendo então e ali declarado como seu testamento, vai ser por nós assinado, a pedido do testador, como testemunhas, o que fazemos, estando todos presentes, nesta mesma data de vinte e cinco de Janeiro de mil novecentos e quarenta e dois.

(assinado) Josephine Dell, (assinado) Paul Hanberry.» O primeiro a quebrar o silêncio foi Paul Hanberry, que exclamou:

- Que sorte bestial! O velho deixou-nos, a nós, a propriedade! Porque raio, quando me pediu que assinasse como testemunha, não fiz a mais pequena ideia do que estava no testamento? Pensei que deixasse tudo ao primo.

- Lembra-se da ocasião em que assinou esse testamento como testemunha? - inquiriu Bertha.

- Claro que me lembro. Esqueci-me apenas de que se tratava de um testamento. A coisa passou-se aqui, na biblioteca, nesse domingo, à tarde. Ele mandara vir Josephine, para ditar-lhe umas notas, e eu estava lá fora, na rua, a lavar o carro, mesmo defronte da janela. Ela chegou-se à janela e bateu nos vidros, fazendo-me sinal para que entrasse. Quando aqui cheguei, o velho estava sentado nessa mesa, empunhando uma caneta, e disse-me:

Paul, vou assinar o meu testamento e quero que tu e Josephine o assinem também, como testemunhas, e quero igualmente que se lembrem, no caso de alguém perguntar-lhes, que não estou mais doido do que de costume... ou qualquer coisa desse género. De qualquer maneira, a ideia geral com que fiquei foi esta.

- Isto é, na verdade... A natureza deste documento constitui um grande choque para mim! - confessou Christopher Milbers. - Não consigo, de forma alguma, imaginar Harlow, o meu bem-amado primo, adoptando uma atitude destas! Contudo, mantém-se a situação de que estávamos à procura de dez mil dólares que parece terem desaparecido misteriosamente, em circunstâncias altamente suspeitas.

- Um momento! - cortou Nettie Cranning subitamente. - Não é ao senhor que compete dizer-nos isso.

Christopher Milbers sorriu com aquele tipo de sorriso superior e desdenhoso de quem vai esmagar outro mortal por meio de orgulhosa agilidade mental e observou:

- Não fiz qualquer acusação específica, Mrs. Cranning.

O facto de a senhora parecer ressentir-se com os meus comentários, indica claramente que, pelo menos, na sua própria consciência...

Foi interrompido pelo toque de campainha da porta exterior.

- Vai ver quem é - disse Mrs. Cranning para a filha, que logo foi abrir.

Christopher Milbers lamentava-se, ao recordar os termos do testamento.

- Nem quero crer! Foi deselegante! Foi injusto!

- Esqueça-se disso! - exortou Mrs. Cranning. - O senhor ficou ainda com dez mil dólares e se pensa que é uma ninharia, é porque é burro!

Paul riu-se aprovativamente mas, muito séria, Bertha declarou:

- Continuam a faltar dez mil «pacotes».

Soaram vozes no átrio e Eva Hanberry entrou com Josephine Dell.

- Olá a todos - saudou esta última, exultante. - Imaginem que acabo de conseguir um emprego delicioso!

Vou trabalhar com um homem que é funcionário do governo. Tem de voar por todo o país e vou viajar com ele. É uma espécie de investigação sobre o trabalho.

Vamos para um sítio, demoramo-nos lá um ou dois meses e, depois, voamos para outro sítio. Não acham isto a coisa mais maravilhosa que me podia acontecer?

- Espere até ter ouvido todas as notícias - disse Mrs. Cranning.

- Nem calcula! Vai receber algum dinheiro de Mr. Milbers e aposto que não o esperava.

- O quê?!

- É assim mesmo! - confirmou Paul radiante. Lembra-se de que havia um testamento que o patrão lhe pediu que assinasse como testemunha?

- Oh! Refere-se àquela vez em que você estava a lavar o carro e que eu o chamei da janela, para vir cá dentro?

- Precisamente.

- É verdade. Era um testamento...! Tenho uma leve ideia de que ele disse isso mesmo.

- Pode gritá-lo bem alto a toda a gente. Você foi contemplada com dez mil dólares.

- Com quanto? - exclamou Josephine incredulamente.

- Dez mil dólares - confirmou Paul.

Bertha Cool meteu-lhe o documento debaixo do nariz e inquiriu:

- É a sua assinatura, não é verdade?

- É sim, porquê?

- E este é o testamento que você assinou como testemunha?

- Sim.

Milbers interveio:

- Discutiremos isso mais tarde mas, entretanto, continuemos a averiguar onde param os dez mil dólares que o meu primo tinha consigo no momento da morte.

Quero saber o que lhes aconteceu.

- Um momento - cortou Paul, com um brilho matreiro no olhar. - Você quer saber onde está essa «massa», mas não tem nada que fazer barulho a esse respeito. Está a falar como se tivesse algum direito a esses dez mil dólares.

- Certamente que tenho! Sou primo dele.

- Pró diabo com o primo! Segundo o testamento, você tem direito a dez mil dólares, ora somos nós que iremos tratar disso. Não é de sua conta o que aconteceu a essa «massa» e não se esqueça de que foi Mrs. Cranning quem Mr. Milbers nomeou executora do testamento.

Asseguro-lhe que não vamos agora virar a casa de pernas para o ar à procura desses dez mil «palhaços» que você anda para aí a insinuar que roubámos. Faremos um inventário de quanto cá se encontra, ordenadamente, e, se acharmos a «massa», achámo-la e pronto! Se não dermos com ela, a perda é nossa e não sua!

Christopher Milbers fitou-lhes, atónito, os rostos, um a um, e a sua expressão reflectia crescente desapontamento.

- Você e a sua detective já fizeram aqui tudo quanto tinham a fazer - continuou Paul Hanberry.- É pois altura de «desampararem» a loja!

- Paul! - cortou Mrs. Cranning, censuradoramente.

- Não precisa de ser ordinário. De qualquer maneira, naquilo que me diz respeito, Mr. Milbers já ouviu ler o testamento e entendeu claramente: sou eu a executora.

- Esse testamento é ilegal - protestou Milbers, desesperado. - Foi produzido sob influência estranha.

Rindo às gargalhadas, Paul Hanberry desafiou motejador:

- Experimente prová-lo, se for capaz.

- É uma falsificação! - acusou Milbers.

- Tenha cuidado com o que afirma, Mr. Milbers advertiu Mrs. Cranning.

Josephine Dell interveio:

- Lamento, Mr. Milbers. Ignoro o que contém o testamento, mas quanto ao documento, posso assegurar-lhe que é absolutamente genuíno. Lembro-me de Mr. Milbers nos ter chamado, em Janeiro; era um domingo e Paul Hanberry estava a lavar o carro, do lado de fora da biblioteca. Recorda-se desse dia, Paul? Eu ouvia nitidamente o ruído da mangueira... do jacto de água batendo a chapa metálica, mesmo por debaixo da janela, do lado de fora desta sala. Mr. Milbers dirigiu-se à gaveta dos papéis e tirou duas folhas. Disse-me que desejava que eu assinasse um documento, como testemunha, e que era necessária uma outra pessoa. Perguntei-lhe quem preferia e respondeu-me que tanto se lhe dava. Então falei-lhe de si, que estava na rua a lavar o carro, e ele mandou-me bater no vidro da janela e lhe fizesse sinal para que viesse ter connosco.

- Foi isso mesmo - confirmou Paul. - E quando entrei, o velho declarou que queria fazer um testamento e desejava que eu assinasse como testemunha. Não liguei muita atenção à coisa porque... bem, sabe, como é...

nunca pensei que houvesse ali qualquer «cheta» para mim.

Os olhos de Josephine fulgiram com súbita reminiscência e declarou:

- Lembro-me até que você não lavara as mãos com que estivera a mexer no automóvel e só as enxugara e que, ao assinar, deixou uma ligeira marca de gordura no papel.

Christopher Milbers agarrou no documento e afirmou:

- Pois não está aqui qualquer marca de gordura!

Mrs. Cranning espreitou por cima do ombro dele e fez-se um silêncio de desolada tensão.

- De qualquer forma - interveio Eva Hanberry, uma marca de gordura não constitui nem anula um testamento e pode dar-se o caso de Josephine estar enganada.

- Não! - contrariou Josephine firmemente. - Não me interessa quem possa ficar prejudicado, mas tenho de dizer a verdade. Estava no papel uma nódoa de gordura, não de óleo negro, mas do que fica nas camurças de limpeza e unta as mãos das pessoas, mesmo depois de as terem enxugado num pano. Era uma nódoa quase incolor...

- Não poderiam ter limpo essa nódoa, depois? objectou Mrs. Cranning.

- Não - respondeu Josephine. - Eu própria tirei um lenço de papel da minha bolsa e limpei a nódoa, mal a vi, mas não consegui fazê-la desaparecer por completo.

- Nesse caso - sugeriu Mrs. Cranning-, ponham o papel contra a luz. É a única maneira de verificarem se havia ou não uma nódoa de gordura e se foi absorvida ao fim de todo este tempo.

Bertha Cool pegou no documento, afastou a segunda página, colocou-a contra a luz e distinguiu uma pequenina nódoa de gordura.

- Ora aí está! - apontou Josephine Dell, aliviada.

- Já me sinto melhor, pois tinha a certeza de que a nódoa existia.

- Bem! Vou dizer-lhes agora uma coisa - anunciou Bertha. - Vou mandar vir um fotógrafo e fazer cópias exactas de tudo quanto aqui está, na frente de todos os presentes. É uma prova legal, e creio que ninguém se opõe, já que Mr. Milbers tem direito a essa precaução.

- Pessoalmente - declarou Mrs. Cranning, com uma dignidade subitamente adquirida, mas procurando fazer a audiência acreditar que já nascera com ela e que não se esforçava por parecer uma «senhora», mau grado a sua relutante consciência - penso que é uma admirável sugestão, absolutamente compatível.

- Quer dizer, «recomendável» - corrigiu Eva.

Mrs. Cranning virou-se para a filha, como se a sua dignidade tivesse sido levemente arranhada por uma impertinência, e confirmou com superior tolerância:

- Eu disse «compatível», minha querida.

Bertha Cool estivera a puxar pela cabeça e argumentou:

- Não sei se sabe, Mrs. Cranning, que as testemunhas de um legado não podem ser contempladas por esse mesmo legado.

Nettie Cranning endireitou-se bruscamente, como se desse um salto, e anunciou:

- Não vamos agora ter ideias estreitas sobre o assunto. Eva, Paul e eu tomaremos conta de tudo quanto aqui existe e dividiremos as coisas da maneira que Harlow Milbers determinou no seu testamento. Não vamos perder tempo com uma data de técnicas legais. Amávamos Harlow Milbers e faremos quanto estiver ao nosso alcance para que as suas últimas vontades sejam cumpridas, não é assim, Eva?

- Sim, mãe.

 

IX

Bertha Cool, dirigindo-se para o seu gabinete, fez uma pausa para desabafar com Elsie Brand: ; - «Metemos água!» - Quer contar-me o que se passou? - animou Elsie, afastando a cadeira da secretária.

- Não! - decidiu Bertha. - Não quero falar disso a ninguém. Sou uma «tansa»! Estive metida num caso que era uma autêntica baixela de prata e saí dele sem uma colher de chumbo sequer! Toda a gente «abichou» qualquer coisa, excepto a Bertha! Como me faz falta, aqui, aquele pirata! Teria sabido tirar um trunfo daquele baralho e sacar umas fichas para a Bertha.

- Veio um postal dele, no correio da tarde - anunciou Elsie. - Está em São Francisco, onde espera permanecer dois ou três dias.

- O quê? Donald Lam está em São Francisco?

- Sim.

- Vou meter-me num avião e falar com ele.

- Não lhe serviria de nada. O postal diz que não pode ver ninguém, mas que recebe correio.

Bertha Cool avançou o queixo num gesto que denunciava ter tomado súbita e irrevogável decisão.

- Vou escrever a esse camarãozinho inteligente.

Espero que saiba o que se poderá fazer neste caso. Vai puxar pelos miolos e há-de ajudar-me. Pegue no seu bloco, Elsie, pois vou escrever a esse bastardozinho espertalhão, tintim por tintim, quanto se passou.

Passando para o seu gabinete particular, Bertha sentou-se na cadeira giratória e advertiu Elsie Brand:

- Olhe que esta carta irá por avião, registada, com entrega especial. Ponha urgente, no sobrescrito, pessoal e particular.

O lápis de Elsie Brand começou a agitar-se sobre o papel.

- Bem, vamos começar desta maneira - indicou Bertha: - Querido Donald... foi tão bom termos notícias suas e temos sentido tanto a sua falta! Bertha tem tentado ir para a frente com o negócio e feito o melhor que pode para você encontrar alguma coisa, quando a guerra tiver acabado... Espere um momento, Elsie. Acho que não devo dizer isso.

Elsie levantou os olhos do papel para consultar a expressão de Bertha.

- Na! - comentou esta. - Isso vai dar-lhe uma certa superioridade «oficial» sobre mim.

- Mas não quer que ele volte para a firma?

- Como posso eu adivinhar se ele volta, diabos o levem! - resmungou Bertha irritadamente. - O fim da guerra ainda pode levar muito tempo. Risque isso e escreva antes assim: Donald adorado... Já que deixou a Bertha desamparada, tem que arranjar-se de maneira a ajudá-la a resolver um problema... Não, Elsie, não pode ser assim. Isso soa como se eu não pudesse passar sem ele. Corte, corte isso.

Durante alguns segundos Bertha manteve-se silenciosa e pensativa. Depois, abruptamente decidiu-se:

- Escreve lá agora: Querido Donald... Bertha esteve ocupadíssima todo o dia de hoje, mas sempre arranjou algum tempo para escrever-lhe uma longa carta, pois sabe quanto carinho precisam os rapazes que estão nas forças armadas. Sentem-se isolados das pessoas que os amam e gostam que estas lhes escrevam... Aqui, Elsie, faça um parágrafo. Já basta de lamechice e vamos para diante...

Não há muito para contar-lhe a não ser que tenho continuado activa e também não quero incomodá-lo com problemas, visto você, decerto, já ter aí alguns com que se preocupar. Apenas lhe vou referir um caso em que a firma se ocupa actualmente e é deveras interessante.

Bertha parou uma vez mais, para pensar longamente e, depois, recomeçou com um sorriso de satisfação nos lábios:

- Ora aqui está a forma conveniente, Elsie. Tenho oportunidade de contar-lhe o problema que me aflige, sem me colocar numa posição subalterna de gratidão para com ele e ele, por outro lado, não deixará de fazer-me as sugestões de que careço, até aposto!

- Mas, suponha que ele não tem tempo para fazê-las!? - admitiu Elsie.

- Bem, nesse caso, porei o preto no branco acerca do que quero e ele não deixará de me mostrar uma saída.

Certamente que não vou dizê-lo desta maneira, mas sim informá-lo do que se passa e lembrar-lhe que poderia enviar-me telegramas com as sugestões que se lhe oferecerem sobre o assunto de que continuarei a esclarecê-lo por correspondência.

- Se a carta vai ser longa - observou Elsie, seria melhor que, em vez de eu estenografá-la, a senhora ma ditasse directamente para a máquina, isto se pretende que siga ainda no correio desta noite.

- Tem de ir mesmo! - decidiu Bertha, enervada.-- Em último caso, mando essa danada carta por telegrama...

Não! Vai sair muito caro! Vamos para a máquina, Elsie, e aqui tem uma fotocópia do documento que quero juntar.

Faça três cópias extras para o nosso arquivo.

 

X

O homem alto e bem vestido que falava calmamente, num tom modelado de diplomado universitário, aproximou-se da secretária de Elsie Brand.

A pasta que trazia na mão direita era de um modelo elegante, de cabedal preto e metal brilhante, e a outra mão que pousara sobre o canto da secretária parecia macia, bem tratada, de unhas cuidadosamente manicuradas e polidas.

- Mrs. Cool? - inquiriu com suave inflexão.

- Ainda não chegou.

O visitante olhou para o relógio de pulso, não para saber as horas, mas para dar a entender a sua estranheza por Bertha chegar tão tarde ao escritório.

- São nove e um quarto - comentou.

- Às vezes não vem antes das dez e meia - informou Elsie.

- Francamente?

Elsie não respondeu e o homem declarou:

- Pertenço à Companhia Inter mutual de Indemnizações.

Creio que Mrs. Cool foi a pessoa que publicou no jornal um anúncio no sentido de obter uma informação testemunhal sobre um acidente de automóvel.

Elsie fitou-o nos olhos e respondeu:

- Não posso informá-lo acerca disso.

- Quer dizer que não sabe? - inquiriu, erguendo as sobrancelhas.

- Quero dizer que não posso. Estou aqui para escrever à máquina. Mrs. Cool tem a seu cargo a actividade da firma e é ela quem dá as informações. Eu...

A porta abriu-se, de empurrão, e Bertha entrou no escritório, pestanejando com a luz ofuscante da lâmpada que iluminava o trabalho de Elsie.

- Teve já notícias de Donald? - perguntou.

Entretanto os seus olhos adaptaram-se à luz do ambiente e notaram o visitante. Este avançou para Bertha e saudou:

- Mrs. Bertha Cool, se bem presumo?

- Presume bem - confirmou Bertha. Examinou o olhar lânguido do homem e, com desembaraçada eficiência, convidou:

- Bem, diga lá que mais presume.

- Estava apenas a usar uma mera expressão coloquial - justificou-se ele. - Venho da Companhia Intermutual de Indemnizações.

- Como se chama?

- Mr. P. L. Fosdick - enunciou, rolando o nome na língua, como se recitasse algo muito agradável. Com a mão manicurada tirou da algibeira do casaco uma carteira, de onde extraiu quase automaticamente um cartão-de-visita.

Num gesto lento, estendeu-o a Bertha Cool. Esta pegou-lhe, examinou-o, passou o polegar sobre as letras em relevo que lhe proporcionaram uma agradável análise de nível financeiro e perguntou:

- Que deseja?

- Segundo creio, Mrs. Cool, tem estado a investigar um caso de acidente e procurando uma testemunha, não é verdade? A minha Companhia tem, como é natural, o seu ponto de vista próprio, no que se refere a esse facto.

- Que facto?

- Julga poder deduzir que a senhora está preparando um processo de pedido de indemnização.

- E depois? - perguntou Bertha, beligerantemente, com a sua quadrangular personalidade contrastando com o suave e paternal esplendor da do visitante. - Que há de errado nisso? Tenho o direito de preparar os processos que entender, não?

- Sim, certamente, Mrs. Cool. Por favor, não me entenda mal. Não será necessário qualquer desentendimento.

Tornava-se evidente que Bertha se recusava a convidar o homem a entrar no seu gabinete particular. Manteve-se-lhe na frente, perscrutando-o com olhos críticos.

A porta do corredor abriu-se e fechou-se e Elsie fitou Bertha significativamente. Bertha não se virou logo e o homem, num tom que pretendia ser impressivo, esclareceu :

- Pode não ser necessária qualquer acção judicial.

Pode ser possível que a Companhia Intermutual de Indemnizações que segura o condutor envolvido no acidente, aceite a responsabilidade do segurado, admitindo a sua culpabilidade e estabelecendo um acordo adequado.

Elsie Brand fez novo sinal com os olhos e, como Bertha se não virasse para a entrada, disse:

- Mrs. Cool está, neste momento, ocupada. Porque não vem um pouco mais tarde?

Desta vez o seu tom de voz alertou Bertha Cool que olhou por cima do ombro e viu, de relance, o tipo macilento que respondera ao seu anúncio, oferecendo-se para testemunha, mas recusando identificar-se, e que agora escutava muito interessado o curso das conversações.

- Venha para o meu gabinete - convidou Bertha, dirigindo-se ao representante da Companhia. Voltando-se para a testemunha declarou:

- Lamento não poder atendê-lo hoje.

- Espero de qualquer maneira - decidiu este, com um sorriso brejeiro e sentando-se confortavelmente numa cadeira do escritório.

- Mas não terei nada a dizer-lhe.

- Não faz mal, eu espero.

- Estou definitivamente desinteressada.

- ’tá bem, Mrs. Cool! ’tá bem! - aquiesceu ele complacentemente.

Pegou numa revista que estava sobre a mesinha da entrada do escritório, abriu-a ao calhar e pareceu instantaneamente muito interessado na leitura.

Fosdick abriu a porta do gabinete de Bertha, com uma galante mesura para esta passar, e, depois de fechá-la, ficou de pé, junto da cadeira perto da janela, aguardando que ela se sentasse. Bertha atirou-se para o seu poiso giratório. Como não fosse convidado a imitá-la, Fosdick, já irritado por achar-se de pé, começou a expor, num tom forçadamente amável.

- Certamente compreende, Mrs. Cool, que quando disse «ser possível» não queria significar com isso que a Companhia Intermutual de Indemnizações admita, desde já, culpabilidade do seu segurado. Estamos apenas iniciando uma conversação preliminar com vista a um futuro compromisso de desistência de reclamação. Suponho que esteja a par de que há decisões do Supremo Tribunal que anulam e invalidam um depoimento baseado em certas circunstâncias de aliciamento de testemunhas.

Bertha não emitiu uma palavra. Fosdick prosseguiu, agora mais melifluamente-, enquanto abria a pasta e dela retirava um molho de impressos:

- Tentamos ser justos, Mrs. Cool. Muita gente pensa que uma companhia de seguros é uma organização sem coração e sem alma, cujo único escopo reside em colher altos prémios, com a mão direita, e pagar compensações tão módicas quanto possível, com a mão esquerda. Aparentemente, a pessoa que Mrs. Cool representa, deve ter atravessado a rua sem ter tomado as precauções necessárias.

É até muito provável que o tenha feito sem observar a luz vermelha que interditava a passagem dos peões.

Em tribunal, natural será que a defesa alegue negligência e, sendo assim, quase certo é que mantenha essa teoria, com êxito. Contudo, é política da Companhia Intermutual de Indemnizações procurar conceder o benefício da dúvida a qualquer sinistrado num acidente cujo presumível causador fosse um seu segurado, e também evitar demandas judiciais, embora em tribunal, se a isso compelida, seja forçada a defender os seus interesses, sem dar quartel à parte contrária. Nestas circunstâncias e sem considerar o facto evidente de que o acidente não teve a menor gravidade e foi, por assim dizer, puramente nominal, a companhia de seguros oferece-lhe, generosamente, uma compensação de mil dólares, em dinheiro.

Fosdick tornou a meter os papéis na pasta, fechou-a, ajeitou-a debaixo do braço e permaneceu em frente de Bertha, na atitude de alguém que acabou de realizar um belo gesto e aguarda que aplaudam.

- Mil dólares nada significam para uma pessoa que sofreu o que sofreu a sinistrada - alegou Bertha.

- Mil dólares são uma muito generosa oferta de compromisso.

Dirigiu-se para a porta, abriu-a, parou ainda na entrada e acrescentou:

- Esta foi não só a nossa primeira proposta, mas também a última. A Companhia Intermutual de Indemnizações não acrescentará um só cêntimo que seja à oferta apresentada.

Não conseguindo reprimir por mais tempo a irritação, Bertha explodiu, erguendo-se e dirigindo-se também para a porta do gabinete:

- Muito bem! Façam lá o raio de ofertas que quiserem, mas escusam de empregar esse fraseado erudito.

Fechou-lhe a porta nas costas e voltou para a cadeira giratória. Mal se sentara lembrou-se do outro visitante.

Tornou a levantar-se, abriu a porta do gabinete e viu a do escritório fechar-se nesse mesmo momento. Notando que a cadeira onde a testemunha se sentara se achava agora vazia, perguntou:

- Onde está o «molengas»?

- Saiu logo a seguir ao representante dos seguros e alcançou-o no corredor.

O rosto de Bertha sombreou-se ao abranger o significado dessa escapada, fora do seu controle.

- Raios partam esse «alma desidratada». Já é a segunda vez que me atraiçoa e corta as voltas, mas vou travar-lhe as pernas. Vou já procurar Josephine Dell e amarrá-la a um acordo, de forma que esse tipo não possa mais meter o nariz no assunto.

Bertha agarrou no chapéu, enfiou-o firmemente na cabeça, de cabelo cinzento-prateado, e ia justamente abrir a porta de saída, quando um boletineiro fardado se preparava para entrar com um espesso sobrescrito.

- Telegrama para Bertha Coll - anunciou o rapaz.

- Para ser pago no local de entrega.

- Quem remete? - inquiriu Bertha.

O mensageiro dos telégrafos leu no seu livro de registos:

- Donald Lam, de São Francisco.

Bertha arrancou-lho das mãos, trocou um olhar animado com Elsie Brand e disse para o rapaz:

- Ela paga-lhe - e acrescentou, para Elsie: - Dê-lhe uns trocos da gaveta da escrivaninha.

Voltou para o gabinete, abriu a tarjeta-selo, ainda húmida, do sobrescrito, retirou lá de dentro a mensagem impressa e começou a ler:

«CARTA RECEBIDA TAMBÉM FOTOCÓPIA TESTAMENTO CHAMO ATENÇÃO PARA NÍTIDA MUDANÇA ESTILO LITERÁRIO DE CERTO TEXTO PRIMEIRA PÁGINA INDICANDO EXPRESSÃO PESSOA CULTA DE SENTIMENTO INDIVIDUALISTA. SEGUNDA PÁGINA CONTÉM ALGUMA MATÉRIA DUVIDOSA COPIADA DE QUALQUER OUTRO DOCUMENTO, MAS LINGUAGEM USADA EM RELAÇÃO BENEFÍCIOS PARA DELL, CRANNING E HANBERRYS DENUNCIA EXPRESSÃO PESSOA ILETRADA TENTANDO DISPOR DA PROPRIEDADE E NOMEAR EXECUTORA. ESTE TEXTO UNTUOSO SENTIMENTAL CONTRASTA COM SECA INDIFERENÇA EGOÍSTICA PRIMEIRA PARTE DOCUMENTO. INVESTIGAR PERITO ANALISTA TINTA DIFERENTE NAS DUAS PARTES DO TESTAMENTO. MUITOS CUMPRIMENTOS E FELICIDADES.
DONALD LAM»


Bertha ficou pasmada, contemplando o telegrama, e murmurou:

- Macacos me mordam! Como este bastardozinho tem miolos!

A porta abriu-se e Elsie perguntou:

- Tem resposta?

- Sim - disse Bertha com indignação. - Escreva já a Lam e pergunte-lhe que disparate foi esse de gastar dinheiro em «muitos cumprimentos e felicidades» e, ainda por cima, de mandar o telegrama à cobrança no destinatário.

 

XI

Bertha Cool premiu o polegar sobre o botão da campainha marcada com o nome de Josephine Dell, encostou o ouvido ao auscultador e aproximou o queixo do bocal telefónico, pronta a responder, mal ouvisse uma voz. Passados alguns segundos repetiu a campainhada. Como não obtivesse qualquer resultado, a sua expressão tornou-se sombria.

Quando verificou que ninguém respondia à terceira pressão do botão, resolveu tocar para o que indicava Porteira. Momentos depois, uma mulher pesadona, cuja carne não aparentava maior consistência do que um pudim de gelatina sobre um prato raso, abriu a porta e sorriu para Bertha.

- Temos alguns vagos, muito lindos - começou logo a despejar de jacto, numa voz monótona e desagradavelmente aguda. - Há um muito lindo, exposto ao lado sul, e um outro apartamento virado para o nascente. Ambos são cheios de sol e...

- Não quero nenhum apartamento - cortou Bertha.

- Vim à procura de Josephine Dell.

A cordialidade do rosto da porteira desapareceu subitamente, como se tivesse retirado uma máscara.

- Está aí uma campainha com o nome dela - apontou irritadamente. - Não sabe ler? Toque para lá.

- Já fiz. Não está em casa.

- Se assim é, não posso fazer nada - respondeu, com enfado, virando as costas.

- Espere aí! - pediu Bertha. - Preciso de algumas informações acerca dela.

- Que deseja saber?

- É realmente muito importante que eu entre em contacto com ela, muito importante.

- Não posso fazer nada para isso.

- Não poderá informar-me onde ela se encontra agora, ou para onde poderei comunicar com ela... ou como deixar-lhe um recado? Não lhe deu qualquer direcção?

- Nada. Vivia com uma outra rapariga, no mesmo apartamento, Myrna Jackson, e se alguém sabe onde a outra pára é essa Miss Jackson.

- Nesse caso, onde posso encontrar Myrna Jackson?

- Ela não está lá em cima?

- Ninguém responde à campainha.

- Então é porque também não está. Que quer que eu lhe faça? Bom dia!

Quando a mulher balofa lhe fechou a porta na cara, Bertha começou a escrever um recado nas costas de um dos seus cartões-de-visita:

Miss Dell, entre em contacto comigo imediatamente.

É muito importante. Há dinheiro para si.

Meteu o cartão na caixa do correio e ia voltar para trás, quando um táxi descreveu uma curva e parou junto ao passeio. O homem sem nome que se oferecera para testemunha do acidente saiu do carro e virou-se de costas para Bertha, enquanto consultava o taxímetro, pagava e recebia o troco.

Bertha avançou, de propósito, direita a ele e o motorista, vendo-a aproximar-se e pensando tratar-se de uma cliente para nova corrida, saiu de trás do volante, deu a volta ao táxi e veio abrir-lhe a porta.

Bertha estava a três passos do passageiro, quando este se virou e deu de cara com ela. Com evidente satisfação, Bertha dirigiu-se-lhe:

- Já esperava que você viesse fazer isto mesmo.

Não lhe vai servir de nada. Cheguei primeiro.

O rosto do homem espelhava consternação.

- Para onde vamos? - impacientou-se o motorista.

Bertha entrou no táxi e indicou-lhe a direcção do escritório. Depois, correndo o vidro, disse triunfalmente ao molengão.

- Com que então pensava que me «passava a perna», hem?

- Quanto é que eles lhe ofereceram? - perguntou ele.

- Não tem nada com isso!

- A senhora obteve esta morada por meu intermédio, na condição de não vir a representar Miss Dell no acidente - protestou o homem.

- Não tenho culpa de que uma companhia de seguros decida procurar-me para atirar com o caso para o meu regaço.

- Não acho isso correcto.

- Baboseiras! - exclamou Bertha. - Você pôs-se a jogar com um pau de dois bicos.

- Eu tenho o direito de entrar no jogo.

O motorista do táxi virou-se para Bertha e perguntou:

- Quer seguir, ou ponho a contar aos minutos?

- Estou pronta a seguir -disse Bertha recostando-se no assento.

- Alto lá! - reclamou o magricelas. - Este táxi é meu. Fui eu que vim nele.

- Não é nada! - contrariou Bertha. - Você já pagou a sua corrida.

- Conseguiu que ela assinasse um acordo? - inquiriu o homem.

Bertha dirigiu-lhe uma careta de inteira satisfação.

E então o homem meteu-se subitamente no carro, sentou-se ao lado de Bertha e declarou:

- Muito bem! Nesse caso, volto para trás. Mas hei-de falar com ela. Vamos embora.

O motorista sentou-se ao volante e Bertha disse para o intruso do lado:

- Não quero ter conversas consigo.

- Acho que deve ter.

- Eu não.

- A senhora nunca estaria metida nisto se não fosse a minha ajuda.

- Baboseiras! Eu fiz-lhe uma proposta e você pensou que podia ganhar mais, jogando por fora. Andou sempre a esquivar-se como uma enguia, para ganhar a dois carrinhos.

- Eles ofereceram-lhe mil, não foi?

- -O quê é que o faz pensar isso?

- Foi o que o representante da companhia me disse.

-- Com que então, seguiu-o à saída do meu escritório para tirar nabos do púcaro, hem?

- Desci, por acaso, no mesmo elevador.

- Já era de esperar.

- Veja lá, a senhora não me pode fazer uma coisa dessas!

- Porque não?

- Se jogar como deve ser, é capaz de arrancar mais de mil. Aposto como conseguiria dois mil e quinhentos, dentro de dez dias.

- Mil bastam-me e bastam à minha cliente - respondeu Bertha. - Vendo bem as coisas, mil «palhaços» por uma apalpadela de um guarda-lamas não são para desprezar.

- Mas ela poderia receber muito mais do que isso.

Eu vi tudo quanto se passou.

- Que falta grave cometeu ele?

- Isso é comigo e a senhora não me leva assim. Ela tem direito a uma maior indemnização. Ficou muito contusa.

- Quem lhe disse isso?

- A parceira do quarto.

- Paciência. O acordo está feito e você já não tem nada com que apoquentar-se.

- Acho que tenho o direito de ganhar alguma coisa.

A senhora não ficaria muito prejudicada se me desse uma fatia de cem dólares do bolo.

- Corte-a você, se for capaz.

- Ainda posso tentar.

- Bem, vou dizer-lhe o que farei - esclareceu Bertha. - Far-lhe-ei exactamente a mesma proposta que lhe fiz no princípio. Dou-lhe vinte e cinco dólares e você esquece todo o negócio e some-se da paisagem.

- O. K.! - decidiu ele contemporizando e recostando-se também no assento. - É o que se chama ladroeira, mas sempre é um acordo.

Bertha Cool entrou com ele no escritório e disse para Elsie Brand:

- Elsie, faça um recibo para este homem assinar:

vinte e cinco dólares, total absoluto, livre de quaisquer reclamações e de futuras pretensões resultantes de contingências de ulterior desenvolvimento do caso. Siga o formulário que consta do recibo que Donald Lam redigiu para aquele homem assinar no caso que encerrámos, há alguns meses atrás.

Elsie Brand meteu um papel na máquina, ajustou o químico ao de cópia e perguntou:

- Em que nome dirijo?

- Sei lá - disse Bertha voltando-se para o homem.

- Como se chama?

- Jerry Bollman.

- Sente-se - convidou Bertha. - Vou buscar-lhe os vinte e cinco dólares.

Entrou no seu gabinete particular, abriu a gaveta da secretária, tirou o cofre para fora, abriu-o, retirou vinte e cinco dólares, mas esperou que Elsie parasse de matraquear na máquina. Então levantou-se, voltou para o escritório de entrada, pegou no recibo que Elsie lhe estendeu e leu-o; pô-lo na frente de Jerry Bollman e disse:

- Aí tem. Assine aqui.

Ele leu o recibo e exclamou:

- Meu Deus! É como se assinasse a venda da minha alma ao Diabo!

- Mais do que isso - observou Bertha, trocista. - O Diabo não lhe dava vinte e cinco «pacotes».

- Está convencida de que é uma espertalhona danada, não está? - criticou ele, com uma careta maliciosa, pegando na caneta que Bertha lhe estendia. Assinou o recibo, com um floreado, entregou-lho com a mão esquerda e estendeu a direita para receber os vinte e cinco dólares da mão dela.

Bertha estendeu o recibo a Elsie e ordenou:

- Arquive.

- Se trabalhasse para si, até falia! - comentou Bollman olhando para Bertha.

- A maioria das testemunhas declaram o que sabem, sem qualquer interesse, só porque são pessoas decentes - retorquiu Bertha.

- Sei isso - disse Bollman azedamente, mas há muito que me curei. Agora vou-me embora e comprar um maço de cigarros. Os vinte e cinco dólares deram-me para as despesas que fui forçado a fazer e para este maço de tabaco! Talvez um dia possamos tornar a fazer negócio.

- Talvez! - respondeu Bertha, vendo-o sair, ligeiramente desconfiada com o sorriso sarcástico do homem.

Depois, virando-se para Elsie, desabafou:

- Graças a Deus, o tipo não quis dar apertos de mãos! Agora, ligue para a residência de Harlow Milbers e pergunte por Mrs. Nettie Cranning. Diga-lhe que Bertha Cool quer falar-lhe ao telefone e passe-me a ligação para o gabinete, quando a apanhar.

Foi para o gabinete, sentou-se, enfiou um cigarro na boquilha de marfim trabalhado e, quando o besouro do telefone interno soou, levantou o auscultador e saudou:

- Olá, Mrs. Cranning!

- Olá, Mrs. Cool.

Imediatamente Bertha pareceu irradiar cordialidade:

- Como está a senhora, Mrs. Cranning? Estou muito incomodada por vir aborrecê-la, mas gostava de entrar em contacto com Miss Dell imediatamente. Pensei que estivesse aí. Espero não a ter desviado dos seus afazeres...

- De maneira nenhuma - respondeu Mrs. Cranning com idêntica cordialidade. - Acontece que ela esteve aqui até há coisa de meia hora. Um homem telefonou-lhe pedindo-lhe para se encontrar com ela. Não consegui perceber quem ele era, mas sei que se tratava de qualquer coisa de muito urgente, acerca de um acidente de automóvel.

- Um homem?

- Sim.

Bertha Cool franziu o sobrolho e insistiu:

-Não ouviu realmente mencionar-lhe o nome? :

- Não... mas espere... espere um momento... Ouve lá, Eva, qual era o nome da pessoa que quis falar com Josephine? Como foi isso? O. K., obrigada. Mrs. Cool está interessada em saber - virando-se para o bocal, Mrs.

Cranning informou: - Parece que Miss Dell anotou o nome num papel... Ora aqui está o nome, Mrs. Cool.

Foi um tal Mr. Jerry Bollman. Josephine foi encontrar-se com ele a qualquer lado.

- Muito obrigado - agradeceu Bertha, desligando o telefone e correndo para a porta. A meio do gabinete compreendeu a futilidade da corrida e abrandou.

- Que aconteceu? - interessou-se Elsie.

- Diabos o levem, o porco traidor do magrizela-«molengas»!

O tipo é tão patife que devia ter ganho a medalha de ouro da patifaria! - barafustou Bertha.

- Que fez ele?

- O que fez? - respondeu Bertha chispando chamas geladas do olhar. - Esse escroque investiu vinte e cinco cêntimos num táxi, para chupar-me vinte e cinco «palhaços».

O malandro sabia onde eu tinha ido. Naturalmente seguiu-me. Como o vi sair do táxi e rondar o ninho da rapariga, pensei que ele andasse um degrau, atrás de mim, quando o estupor andava mas era dois patamares à frente.

- Não estou a perceber - confessou Elsie.

- Neste momento, o tipo está a obter a assinatura de Josephine Dell e a talhar para si uma fatia de quinhentos dólares. Pensei que o tinha ludibriado, dando a entender que saía de casa de Josephine Dell e que ela já tinha assinado um acordo comigo. Mas o grandessíssimo filho...

já devia saber que ela não estava no apartamento. Viu-me ir para lá, fingiu deixar-se burlar por mim e chupou-me a «massa». O grandessíssimo burlão!

 

XII

Os sensitivos ouvidos do cego detectaram os passos de Bertha, no meio dos outros ruídos. Não virou a cabeça na direcção dela, mas aflorou-lhe um sorriso aos lábios e saudou:

- Olá! Estava desejando que passasse por aqui. Olhe o que tenho para mostrar-lhe.

Abriu um saco e tirou para fora uma caixa-de-música, de madeira, que manuseou com extremo cuidado. Abriu a tampa e, com notável clareza e doçura de tom, a caixa-de-música começou a tocar «Campânulas da Escócia».

O rosto do velho mostrava terna comoção.

- Eu tinha-lhe dito, certa vez, que gostava destas velhas caixas-de-música, fora de moda, e que tivera, em tempos, uma que tocava as «Campânulas da Escócia».

Aposto como lhe custou bastante dinheiro. Agora não é fácil encontrarem-se estas coisas em boas condições.

Não falta uma única corda e sinto como a madeira é fina.

Não acha um encanto?

- Foi Josephine Dell quem lha mandou? - perguntou Bertha Cool.

- Certamente. Foi um portador quem ma trouxe, explicando ter recebido instruções para entregar-ma da parte de uma pessoa amiga, mas eu descobri logo quem era a pessoa amiga. E não foi tudo. Também me mandou flores.

- Flores? - estranhou Bertha Cool.

- Sim.

Bertha ia a dizer qualquer coisa, mas calou-se.

- Reconheço - continuou o cego - que é de estranhar que alguém mande flores a uma pessoa que não pode vê-las, mas, de qualquer maneira, sempre posso gozar o aroma. Penso que ela desejava mandar-me uma notazinha e serviu-se das flores, para introduzi-la no ramo, e não escreveu nada na caixa, porque esta é um objecto dispendioso e não quis que eu me apoquentasse com o que gastou por minha causa.

- Onde está a nota? - perguntou Bertha.

- Tenho-a aqui - tirou um cartão da algibeira e estendeu-o a Bertha que leu:

«Querido Amigo, Muito obrigado por ter pensado em mim e também por ter feito despesas com Mrs. Cool para me encontrar.

Envio-lhe estas flores como pequenina lembrança do meu apreço e amizade.» A nota estava assinada por Josephine Dell.

Subitamente, Bertha Cool tomou uma decisão e pediu ao cego.

- Desejava que me prestasse um favor.

- O que é?

- Que me deixasse ficar com esse cartão.

- Sabe, sempre é uma lembrança. Não posso lê-lo, mas gostava de...

- Torno a dar-lho.

- Nesse caso está bem, mas devolva-mo logo que possa. Pode mandá-lo para o «cantinho» onde vivo, na Fairmead Avenue, 1672, se não se importa.

- Certamente - prometeu Bertha afavelmente. Esteja descansado de que não me esquecerei.

Meteu o cartão na bolsa, despediu-se e apressou-se a ir mostrá-lo a um perito caligráfico que conhecia.

- Note bem o que lhe digo - começou ela acauteladamente. - Não quero que me comam por «tansa» e não pretendo que você comece para aí a fazer uma data de fotografias e um relatório com uma data de opiniões.

Desejo apenas que olhe para esta fotocópia de um testamento; uma das testemunhas que o assinou chama-se Josephine Dell. Aqui está uma outra assinatura com o mesmo nome, neste cartão. Quero somente descobrir se alguma dessas assinaturas foi falsificada. Já agora, repare na primeira e segunda páginas do testamento.

Não lhe parecem escritas numa linguagem diferente uma da outra?

O perito de caligrafia pegou nas fotocópias, como se lhes tomasse o peso e depois examinou-as cuidadosamente.

Depois, comentou:

- Humm! Dactilografadas! Parece terem-no sido na mesma máquina de escrever. Na assinatura nota-se um espacejamento desusado e um método particular de traçar o «D». O mesmo acontece no cartão. Se é uma falsificação, foi muito perfeita. Gostaria de ver o original do testamento para poder pronunciar-me com maior segurança, porque, com uma fotocópia...

- Não posso arranjar o original - lamentou Bertha.

- Tem que trabalhar a partir disto.

- Está bem. Vá para o seu escritório que depois lhe digo qualquer coisa. Será apenas uma opinião e, se tiver que jurar, em tribunal...

- Não será preciso. Só desejo uma opinião que fica entre nós.

- Então está bem.

- Venha ao meu escritório, dentro de uma hora.

- É cedo de mais.

- De qualquer maneira, telefone-me - pediu Bertha.

Foi para o escritório e uma hora depois atendeu o telefone.

- Ambas as assinaturas foram feitas pelo mesmo punho - informou o perito.

Bertha ficou pensativa.

- Está lá? - perguntou o perito estranhando o silêncio.

- Sim.

- Não a ouvia e pensei que tivesse desligado.

- Estou a pensar. Se esse testamento está O. K., fico numa «alhada»!

- Está O. K.! - confirmou o perito.

Bertha desligou e chamou Elsie Brand.

- Prepare-se para escrever uma carta para Donald Lam. Vou relatar-lhe os mais pequenos pormenores do que me está a acontecer. Há qualquer «trafulhice» em toda esta «geringonça». Estão a chover notas de mil e eu, em vez de estar a colhê-las num cesto de padeiro, já arranjei um déficit de vinte e cinco «pacotes».

Tinha Bertha acabado de ditar a carta para Lam, quando Christopher Milbers entrou no escritório.

- Olá! - saudou Bertha. - Queira entrar ali para dentro. - E virando-se para Elsie, indicou: - Vai registado por avião, com entrega especial.

Christopher Milbers encaixou-se na cadeira dos clientes, juntou as pontas dos dedos e dirigiu-se a Bertha:

- Vim fazer contas.

- Quer dizer que acabaram as complicações? Fez um acordo com eles?

Milbers arqueou as sobrancelhas.

- Acordo? Acerca de quê?

- Do testamento.

- Não vejo que acordo possa ser feito quanto ao que já me foi legado.

- Bem, porque não espera que a coisa vá até ao fim? - perguntou Bertha.

- Mas - observou Milbers - isso não iria afectar os seus honorários? Eu contratei-a para encontrar os dez mil dólares e, em vez deles, achámos um testamento.

É o que se pode chamar uma saída pelo lado.

- Estou a ver - declarou Bertha friamente.

- Creio que a senhora gastou coisa de meio dia de expediente - calculou Milbers, premindo as mãos de maneira que os dedos ficaram arqueados para trás. - Contudo, não quero deixar de ser generoso. Como não deve querer dividir um dia ao meio, estou na disposição de pagar um dia inteiro.

- Cem dólares - disse Bertha.

- Como cem dólares? Isso é ultrajante!

- Porquê?

- Porque as tarifas de qualquer outra firma de similar actividade são muito mais módicas, de resto controladas por tabelas legais... Nunca pensei numa quantia dessas... Sempre considerei que a sua conta não excederia dez dólares e até tinha preparado uma pequena surpresa para si.

Milbers tirou da algibeira um cheque passado a Bertha Cool no valor de vinte e cinco dólares. Nas costas do cheque fora dactilografado:

«Este cheque foi oferecido e aceite para total liquidação de trabalhos prestados, estabelecendo-se que nenhuma espécie de reclamação futura por parte do recepiente ao pagador será válida, a partir da data de endosso do presente cheque.» - Feito por um advogado? - interessou-se Bertha.

- Bem - confessou Milbers. - Tive naturalmente de consultar um advogado para proteger os meus interesses em relação aos factos.

Bertha sabia quando estava apanhada Pegou no cheque, examinou-o uma segunda vez e disse:

- Está bem, vou depositá-lo.

Milbers pôs-se de pé, estendeu a mão e despediu-se:

- Tive muito prazer em conhecê-la, Mrs. Cool.

Bertha apertou-lhe os dedos rechonchudos e disse-lhe sarcasticamente:

- Melhor sorte, para a próxima vez.

Quando Milbers deixou o escritório, Bertha foi entregar o cheque a Elsie Brand e ordenou-lhe:

- Ponha um pós-escrito na carta para Donald. Diga-lhe que se isto continua assim, o maldito caso leva-me a falência. Paguei vinte e cinco dólares e recebi vinte e cinco dólares! Graças a Deus que recuperei o que empatara, mas com que é que vivo?

 

XIII

VALLEJO, CALIFÓRNIA 1942 AGOSTO 29 (TELEGRAMA-CARTA PAGÁVEL DESTINATÁRIO) BERTHA COOL, INVESTIGAÇÕES CONFIDENCIAIS EDIFÍCIO DREXEL- LOS ÂNGELES CALIFÓRNIA QUANTO MAIS PENSO NO CASO MAIS TENHO IMPRESSÃO POSSÍVEL SIGNIFICADO NA MUDANÇA ESTILO LITERÁRIO DA PRIMEIRA PARA SEGUNDA PÁGINAS TESTAMENTO. OUTRA COISA NÃO COMPREENDO PORQUÊ COMPANHIA SEGUROS PROCUROU BERTHA PARA OFERECER ACORDO TANTO MAIS QUE CONHECIA IDENTIDADE SINISTRADA. VOCÊ NÃO É ADVOGADO NEM TEM ACORDO COM SINISTRADA, ASSIM NÃO HA RAZÃO PARA COMPANHIA NÃO PROCURAR DIRECTAMENTE SINISTRADA A NÃO SER DESCONHEÇA IDENTIDADE VÍTIMA. CONDUTOR AUTOMÓVEL DEVE TER INDICADO IDENTIDADE DELA. SE NÃO INDICOU HÁ QUALQUER COMPLICAÇÃO MERECENDO INVESTIGAÇÃO. CUMPRIMENTOS.
DONALD LAM

 

XIV

Bertha Cool tinha a mão espalmada em cima do telegrama, como se receasse que este lhe fugisse, quando tocou o besouro para contactar com Elsie Brand.

- Escreva-me uma carta, Elsie:

«Querido Donald.

Você tem estado tanto tempo na Marinha que até já tem a cabeça cheia de feijões. Bertha consultou o melhor perito em grafologia da cidade para que comparasse as assinaturas. São genuínas. Não lhe deve ter ocorrido que a peculiar mudança de estilos se verifica na segunda página que é, exactamente, a que contém as assinaturas.

Portanto, não pode haver nada errado nessa página, a não ser que as três assinaturas tivessem sido falsificadas.» Já escreveu isso, Elsie?

- Sim, Mrs. Cool.

- Bem, agora vou dar-lhe outra barrela: «Aparentemente, a sua estada na Marinha deixou-lhe os miolos à razão de juros. Não interessa nada à Bertha que a segunda página do testamento tenha sido falsificada, ou não, e não há a mais pequena hipótese de tê-lo sido. Admito que Paul Hanberry me parece qualquer coisa que o gato fez no tapete e não lhe confiaria sequer o meu caixote do lixo, mas Josephine Dell é catita. Quando você estiver no oceano e não tiver nada de importante em que pensar, a não ser em bombardeiros, torpedos, submarinos e minas, perceberá que o que o cliente de Bertha recebe está na primeira página. Por isso a Bertha está-se nas tintas para o que acontece na segunda. Se você persiste na intenção de debitar-me o custo dos telegramas, ao menos mande neles qualquer coisa de construtivo.

A Bertha sente a sua falta, mas a maneira como você falha redondamente nos pontos mais importantes deste caso tem o mesmo efeito que obteríamos se dissolvêssemos a nossa sociedade. Obrigada, da mesma maneira, por ter tentado ajudar. Bertha vai encarregar-se sozinha do caso.

Você agora concentre-se no inimigo. Felicidades.» Bertha amarrotou o telegrama e atirou-o para o cesto dos papéis. Depois, olhou para a bola amarrotada, tirou-a novamente para fora, alisou o papel e disse para Elsie.

- Arquive lá isto. Foi a primeira vez que aquele maroto falhou e se ficarmos com uma prova disso, por escrito, não fará mal a ninguém.

Em seguida, acrescentou num desabafo:

- O. K.! É sábado e tivemos uma semana dos diabos!

Vamos fechar a loja até segunda-feira.

 

XV

VALLEJO, CALIFÓRNIA 1942 AGOSTO 30 (TELEGRAMA-CARTA, TARIFA NOCTURNA PAGÁVEL DESTINATÁRIO) BERTHA COOL, INVESTIGAÇÕES CONFIDENCIAIS EDIFÍCIO DREXEL -LOS ANGELES CALIFÓRNIA ESCAPOU-LHE UM PONTO: A REGRA É RECÍPROCA: MUDANÇA DE ESTILOS SÓ INDICA QUE AS DUAS PÁGINAS NÃO FORAM ESCRITAS MESMA PESSOA. SE SEGUNDA PÁGINA TESTAMENTO É GENUÍNA ENTÃO ALGUÉM SUBSTITUIU FRAUDULENTAMENTE PRIMEIRA PÁGINA PROVAVELMENTE LEGADO BENEFICIANDO SEU CLIENTE FOI ALTERADO. DUAS POSSIBILIDADES A CONSIDERAR.
UMA PRÓPRIO MILBERS CONTEMPLADO SÓ COM UM DÓLAR FALSIFICOU PRIMEIRA PÁGINA TRANSFORMANDO EM DEZ MIL DÓLARES. SEGUNDA ALTERNATIVA MILBERS CONTEMPLADO SOMA MUITO SUPERIOR DEZ MIL DÓLARES NESSA PRIMEIRA PÁGINA.
NESTE CASO ALTERAÇÃO FEITA POR ALGUM DOS OUTROS HERDEIROS.
SE SEGUNDA PÁGINA É GENUÍNA ENTÃO PRIMEIRA PÁGINA FOI FALSIFICADA POR PESSOA COM FÁCIL DOM DE EXPRESSÃO LITERÁRIA. SUA DESCRIÇÃO CHRISTOPHER MILBERS PREENCHE SUSPEITA. INVESTIGOU CAUSA DA MORTE HARLOW MILBERS? INTERROGUE PESSOAS DESCREVAM SINTOMAS. VOTOS MELHOR SUCESSO SOLUÇÃO CASO.
DONALD LAM

 

XVI

Walton A. Doolittle, advogado e procurador da justiça, examinou a fotocópia que Bertha lhe entregara.

- Segundo julgo dever compreender, Mrs. Cool, a senhora pretende conhecer qual o efeito legal de uma falsificação parcial?

- Isso mesmo!

Doolittle pegou na primeira página do testamento.

- Suponhamos que esta primeira página é genuína começou Ele, e que a segunda página, contendo as assinaturas e a atestação da cláusula final, foi falsificada.

- Não há hipótese disso - disse Bertha.

- Compreendo, mas estou a considerar o problema segundo a ordem natural. Agora, note que um testamento pode ser revogado por qualquer um de vários motivos.

Um desses motivos reside na destruição do testamento, por parte do testador. Mas tenha em mente, Mrs. Cool, que se qualquer outra pessoa, não autorizada, destruiu o testamento, este não fica invalidado. Vamos portanto começar por admitir que a primeira página deste testamento é genuína e que a segunda página consiste numa falsificação. Por outras palavras, a primeira página foi extraída de um testamento genuíno, cuja parte final foi destruída, sendo-lhe junta uma segunda página, fraudulenta e falsificada.

- O doutor lembra-me o tipo que queria coçar o cotovelo com o polegar do mesmo lado - comentou Bertha. - Farta-se de andar à roda, para dizer-me o que eu já lhe disse com menos uma data de palavras.

- Quero apenas ficar certo de que a senhora compreende a situação - explicou Doolittle.

- Compreendi. Pode andar para diante.

- Nessas circunstâncias - prosseguiu Doolittle-, o testamento foi destruído, mas essa destruição não implica revogação. Portanto, o inteiro conteúdo do testamento poderia vir a ser provado por um testemunho oral, independente, se se conseguisse encontrar esse testemunho.

Agora, se a primeira página do testamento é genuína, isso constitui a melhor prova de que o seu conteúdo também é genuíno, independentemente do que consta na segunda página.

- Quer dizer que Christopher Milbers recebe dez «das grandes», não é assim?

- Exactamente.

- Muito bem! Vamos ao que interessa. Suponhamos que a primeira página foi falsificada, que é o mais provável.

- Nessas circunstâncias, é aplicável a mesma regra da lei. A destruição de uma parte do testamento não implica uma revogação parcial. O conteúdo da primeira página do testamento poderia ser provado por um testemunho independente, aquilo a que chamamos, juridicamente, testemunho oral.

- Sendo assim, se na primeira página de testamento estivessem cem mil dólares em vez de dez mil dólares, Christopher Milbers teria direito a recebê-los? - inquiriu Bertha.

- Sim, se pudesse provar que era esse o montante do legado no testamento genuíno.

- Suponhamos que podemos provar que a primeira página do testamento foi falsificada, mas nos é impossível provar quanto estava na primeira página original e genuína? - considerou Bertha.

- Nessas circunstâncias, segundo a minha opinião pessoal, todo o testamento teria de ser anulado, já que o tribunal não disporia de meios para determinar a percentagem da propriedade do testador a distribuir pelos restantes contemplados pela cláusula final.

- E se o testamento for anulado, que acontece?

- Nessas circunstâncias, admitindo que não existem quaisquer provas testemunhais do conteúdo do testamento original e genuíno, o efeito seria o mesmo que se verificaria se Mr. Harlow Milbers tivesse falecido sem testamento.

- Dessa maneira, Christopher Milbers receberia toda a propriedade, excepto os dez mil dólares legados a Miss Josephine Dell, não é verdade?

- Se ele é o único parente vivo e, portanto, o único herdeiro perante a lei, sim.

- E Nettie Cranning, Eva Hanberry e Paul Hanberry não viam nem «cheta»?

- Pois não.

- Nem mesmo provando que a página, em que lhes é legado todo o resto, é absolutamente genuína?

- Não é essa a questão, Mrs. Cool. Pela segunda página do testamento, é-lhes legada não uma quantia específica, mas, a cada um deles, um terço de um quantitativo residuário, isto é, do que restou após a satisfação dos anteriores legados. Um deles, nosso conhecido, contemplando Miss Dell, é de dez mil dólares, mas o outro é desconhecido, em virtude da falsificação da primeira página; aquele que contemplaria Mr. Christopher Milbers.

Desta maneira, supondo que o que restava da propriedade após a contemplação daqueles dois legados, se situava na ordem de três milhões de dólares, a cada um dos restantes contemplados caberia um milhão; se a cláusula residuária se referisse a um resto de três dólares, receberiam um dólar, cada um deles. Ora como o tribunal não tem meios de averiguar quanto restava da propriedade, após a distribuição dos primeiros legados (porque um deles é desconhecido, por destruído o conteúdo da primeira página), não pode atribuir os respectivos terços constantes da cláusula residuária.

- É isso o que está na lei? - inquiriu Bertha Cool, afastando a cadeira e pondo-se de pé.

- É essa a minha opinião, ou melhor, é essa a minha interpretação da lei - satisfez Doolittle. - É um ponto muito interessante que forneceria matéria para uma magnífica discussão, em processo.

- Bem - disse Bertha -, é natural que saia alguma coisa disto tudo. Se sair, farei o possível para que o doutor fique com a causa, na defesa do meu cliente.

Doolittle esboçou um sorriso gelado e disse:

- São tantos os meus clientes que me fazem essa promessa, Mrs. Cool, que achei preferível considerar o assunto sob um outro ângulo: os meus honorários de consulta são vinte e cinco dólares; entretanto, se, como sugeriu, houver qualquer seguimento que implique a minha intervenção, esses vinte e cinco dólares serão creditados para desconto nos honorários adicionais.

Bertha Cool abriu a bolsa e resmungou:

- Parece que toda a gente recebe dinheiro, neste caso, menos eu!

 

XVII

O quarteirão da Fairmead Avenue, onde se situava a morada que o cego indicara a Bertha Cool como sendo o seu «cantinho», estava ainda só parcialmente construído, com terrenos vagos e muitas casas inacabadas e, por isso, ainda não numeradas, e a ocultação de luzes imposta pelo regime de guerra obrigava o motorista do táxi a tactear o caminho, parando repetidas vezes para consultar um roteiro que tirava da algibeira.

- O 1672 deve ser muito perto daqui - disse Bertha com a cabeça fora da janela. - Algures do outro lado da rua, um pouco para além do meio do quarteirão. Deixe-me sair aqui. Posso achar melhor a casa a pé, do que a darmos voltas e mais voltas.

- Olhe que é mais conveniente procurarmo-la por este meio - aconselhou o motorista.

- E mais dispendioso - desfechou Bertha. - Deixe-me sair.

O motorista encostou o carro ao passeio, em obras; largou o volante e veio abrir a porta, para Bertha sair, aconselhando:

- Veja onde põe os pés, «madama».

Bertha tirou da bolsa uma pequena lanterna eléctrica cujo facho luminoso se projectava através de um filtro vermelho-escuro.

- Não se preocupe, mas não se vá embora. Espere por mim! - disse Bertha, acendendo a lanterna e caminhando ao longo do quarteirão, pesquisando os números, até que deu com o 1672; era um típico «bungalow», construído antes da recente urbanização local e bastante recuado em relação à avenida.

O caminho que conduzia ao bangaló fora cimentado e a todo o seu comprimento via-se um carril de ferro, do lado direito do piso, cuja superfície interior fora polida pelo repetido atrito da bengala do cego, até à porta da casa.

Bertha subiu os dois degraus de madeira que davam acesso à entrada e premiu o botão da campainha. Ouviu o timbre repercutir dentro de casa, com uma sonoridade invulgarmente potente, como se tivesse sido colocado fora da porta. Só então reparou que a porta estava parcialmente aberta, bloqueada por calços de borracha, mantendo uma fresta de cerca de três centímetros. Por isso a campainha soara com tão forte intensidade.

- Olá! Está alguém em casa? - perguntou Bertha, elevando a voz pela abertura da porta. Ninguém respondeu.

Decidiu-se a entrar e procurando um interruptor na parede, manipulou-o. Nada aconteceu e o compartimento permaneceu em total obscuridade. Então projectou o seu facho de luz vermelha para o tecto e descobriu um candeeiro de braços, com globos de vidro. Encontrou outro interruptor eléctrico que deveria acender aquele, mas tudo continuou imerso em absoluta escuridão. Bertha, sentindo-se confusa, tornou a acender a pequena lanterna portátil e subitamente compreendeu que um cego não tem necessidade de luz eléctrica. Repetiu o chamamento:

- Sou Bertha Cool. Não está ninguém em casa?

Neste momento, ouviu um movimento qualquer dentro da sala e uma sombra informe deslizou rapidamente pelo tecto e desvaneceu-se na treva. Bertha saltou para trás ao sentir algo agitar-se junto do rosto e, então, silenciosamente, um objecto poisou-se-lhe no pescoço.

Com um sacão violento e um gesto rápido do braço, Bertha sacudiu o estranho objecto. Com uma raiva resultante do terror, soltou uma enorme praga. Abruptamente, a coisa soltou-a. Por um momento, a luz irreal da sua lâmpada de pilhas iluminou um morcego de asas abertas; um morcego cuja sombra projectada na parede do quarto atingia dimensões monstruosas, lembrando um animal horrendo, ameaçador.

- Macacos me mordam! - rugiu Bertha, esbracejando furiosamente contra o morcego que, escapando-se sem dificuldade, se diluiu na sombra.

Decorreram alguns segundos, antes que o pulso de Bertha readquirisse a normalidade e ela pudesse entregar-se a um exame do aposento. Satisfeita por verificar que o quarto estava vazio, virou-se para a entrada e avançou guiada pelo foco da sua lanterna.

Foi então que notou uma mancha negra, alongada, como que escorrendo pelo sobrado. À primeira vista pareceu-lhe uma nódoa do sobrado, mas com um sobressalto que lhe acelerou o coração, compreendeu tratar-se de uma espécie de líquido, formando uma poça, depois ziguezagueando, para formar outra poça. Seguindo o curso da sinistra mancha, Bertha descobriu o cadáver.

Estava deitado de borco, com a face encostada ao chão, estendido perto da janela do quarto. Aparentemente o homem teria sido atingido a tiro, quando se achara à entrada da porta, virado para o interior do compartimento.

Imediatamente Bertha compenetrou-se da possibilidade de o assassino se achar escondido em qualquer outro quarto, esperando não ser descoberto, mas preparado para abrir caminho a tiro se a tal fosse forçado, para sair.

A sala achava-se completamente às escuras, apenas cortada pelo estreito braço de luz proveniente da lanterna de Bertha. Esta observou atentamente a área adjacente ao facho, luminoso numa áurea vermelha de semiobscuridade, mas receou dirigir aquele para todos os recantos, não fosse incidir no local onde o assassino pudesse estar oculto, pronto a disparar.

Com competente determinação, Bertha encaminhou-se cautelosamente para a porta. O seu pé esquerdo tocou num arame, embateu num objecto duro e ouviu-o mover-se, como que arrastado ligeiramente no chão. Com a luz da lanterna incidindo sobre ele, identificou um tripé sobre o qual haviam instalado uma espingarda a cujo gatilho se prendia o arame. Os passos de Bertha iniciaram uma retirada, depois uma fuga. Ecoaram rápida e pesadamente no sobrado de madeira da entrada, atravessaram a porta e martelaram o piso cimentado, enquanto o facho luminoso da lanterna se agitava, para cima e para baixo, conforme Bertha balançava os braços na corrida acelerada.

O motorista do táxi apagara os faróis. Ela sabia que ele deveria estar, algures, ali perto, e continuou correndo, olhando para trás por cima do ombro, e tropeçando, na corrida ao longo do passeio em construção.

Subitamente, as luzes do táxi acenderam-se e o motorista, fitando-a com evidente curiosidade, perguntou:

- Já acabou o que tinha a fazer?

Bertha não quis responder, nessa altura, com a voz alterada. Enfiou-se no táxi, fechou a porta e tomou fôlego. O homem ligou o motor, arrancou e descreveu uma volta em U.

- Não, não! - contrariou Bertha. - Volte para trás.

O motorista virou-se para ela, mirando-a atentamente.

- Está ali... Tenho de ir à Polícia - explicou Bertha.

- Que aconteceu?

- Está um homem morto naquela casa.

A curiosidade que os olhos do motorista haviam demonstrado transformou-se num frio assentimento, cheio de suspeita, e fixou atentamente a lanterna que Bertha ainda empunhava. Nervosamente, esta meteu-a na bolsa e ordenou:

- Não se ponha assim a olhar para mim. Onde fica a próxima esquadra?

O táxi começou a rodar rapidamente, mas Bertha notou que o motorista continuava a examiná-la pelo espelho retrovisor, mais interessado na emoção que se lhe espalhava no rosto, do que na estrada.

Quando chegaram a uma mercearia, o homem não a deixou ir sozinha ao telefone, seguindo-a e encostando-se à cabina, enquanto ela falava para o Comando da Polícia.

Esperaram ali até ouvirem a sereia do carro que trouxe ao local o sargento Sellers.

Bertha conhecia-o não só pela sua larga reputação, mas também por anteriores encontros profissionais.

Sellers não apreciava particularmente os detectives privados e sempre considerara a colaboração destes com as maiores reservas. Um dia um colega definira o seu cepticismo da seguinte maneira: «Sellers fica-se a olhar para si, mascando o charuto, com os olhos a chamarem-na mentirosa, mas com os ouvidos a ouvirem-na tagarelar, e a senhora verá como ele não abre a boca a não ser para levá-la a dar mais com a língua nos dentes.» O sargento Sellers não se mostrava apressado em dirigir-se ao local do crime, parecendo unicamente ansioso em escutar a história de Bertha, até ao seu ínfimo pormenor.

- Agora, vamos lá a ouvir isso por ordem - disse ele, passando o charuto apagado, para um canto da boca.

-A senhora foi lá para falar com o cego?

- Sim.

- Conhecia-o?

- Sim.

- Ele tinha-a procurado para encomendar-lhe uma investigação?

- Sim.

- E realizou-lha?

- Sim.

- Nesse caso, para que foi visitá-lo?

A pergunta apanhou Bertha desprevenida.

- Isso é um outro assunto.

- Que assunto?

- Queria trocar com ele algumas impressões sobre o caso.

- Mas a senhora já concluíra a missão que ele lhe confiara?

- Sim, de certo modo.

- Que quer dizer com isso? Que foi que não chegou a fazer?

- Fiz tudo quanto ele queria, mas havia um assunto para o qual eu precisava do seu auxílio. Um pormenor que desejava que ele comprovasse.

- Estou a ver - comentou Sellers, com um sorriso incrédulo. - A senhora queria que o cego a ajudasse a resolver alguns dos seus próprios problemas, não é isso?

- Queria falar com o homem - disse Bertha, readquirindo a sua costumeira beligerância, e não lhe vou dizer, a si, acerca de quê lhe queria falar. Tratava-se de um assunto completamente diferente e posso pôr as mãos no fogo, como isso é verdade. As coisas estão agora bem claras ou não?

- Claríssimas - declarou Sellers, como se acabasse de decidir-se a considerar Bertha o suspeito principal do caso. - E o cego está agora jazendo, morto, lá dentro?

- Sim.

- De bruços, com a cara no chão, não foi o que disse?

- Sim.

- Morto a tiro?

- Creio que sim.

- Não sabe?

- Não. Não fiz um exame postmortem ao corpo.

Estava lá uma pequena espingarda. Não parei para analisá-la.

Vi a coisa e pus-me a andar dali para fora.

- Acha que se arrastou ao longo da carpete, desde o ponto onde foi atingido até ao ponto onde morreu?

- Sim.

- Que distância percorreu?

- Não sei. Três ou quatro metros.

- De rastos?

- Sim.

- E morreu enquanto rastejava?

- Pode ter morrido quando já estava parado - respondeu Bertha irritada.

- Bem sei, mas achava-se na posição de arrastar-se, com o estômago sobre a carpete, não é assim?

- Sim.

- Com a cara movendo-se de um lado para o outro?

- Penso que não. Tinha a face contra o chão e eu só lhe via a parte detrás da cabeça.

- Nesse caso, como sabe que se trata do seu cego?

- Essa é boa! Pelo prédio. O cego vivia ali.

- Não virou o corpo para cima?

- Não. Nem lhe toquei. Não toquei em nada. Pus-me a andar logo dali para fora e corri a chamá-lo a si.

- Está bem - disse Sellers. - Vamos lá. Tem um táxi lá fora?

- Sim.

- É melhor vir comigo. Isso de saber que se trata do cego, quando não lhe viu o rosto, ainda torna as coisas mais interessantes.

O sargento Sellers virou-se para o motorista do táxi e perguntou:

-Como se chama?

- Harry Simms.

- Que sabe você acerca disto?

- Não sei nada. Levei esta senhora à procura da morada. Tinha um papel com o número da casa, mas não sabia onde ficava. Por causa da ocultação de luzes, não se via nada. Eu tenho um roteiro e descobri, mais ou menos, em que zona do quarteirão o número deveria ficar. Estava escuro «à brava» e ela pegou numa pequena lanterna de pilhas. Quis dar a volta com o carro, mas ela disse-me que preferia procurar a casa, pelo seu pé. Saiu do carro e demorou-se... não sei bem... aí uns cinco a dez minutos.

- Não tinha o taxímetro a contar o tempo?

- Não. Foi muito cautelosa acerca disso. Eu disse-lhe que não esperaria mais de quinze minutos, sem o pôr a contar. Se se demorasse mais do que isso, teria de pagar-me o tempo extra. Fazemos sempre isso, quando temos a certeza de que o cliente volta para o centro da cidade.

O sargento Sellers sacudiu a cabeça, concordante, e inquiriu:

- Você ficou dentro do carro?

- Sim.

- Que ficou a fazer?

- Nada. Deixei-me estar sentado à espera.

- Tem telefonia?

- Sim.

- Ligou-a?

- Sim.

- Programa musical?

- Hum-hum!

- Poderia ter ouvido um tiro?

- Não creio que pudesse ouvi-lo. À distância a que ela me mandou parar, não seria possível distinguir o som de um tiro, com a música a tocar.

Como o interrogatório tendesse a implicar Bertha cada vez mais no caso, esta protestou exasperada:

- Que raio estão para aí a dizer? Não houve tiro algum.

- Como é que sabe?

- Tê-lo-ia ouvido se o houvessem dado.

Os olhos de Sellers poisaram-se nela, satisfeitos, mas sem o mínimo sinal de simpatia. Uma ideia qualquer transmitia-lhes secreta satisfação.

- É tudo quanto sabe? - perguntou ainda ao motorista do táxi.

- É tudo.

- Chama-se Simms, hem?

- Sim, senhor.

- Deixe cá dar uma olhadela à sua licença.

O motorista mostrou-lha e Sellers anotou o número do táxi, declarando:

- Não há razão para fazê-lo voltar outra vez. Pode ir-se embora. A senhora, Mrs. Cool, vai no meu carro.

- A corrida são oitenta e cinco cêntimos - anunciou o motorista.

- São o quê? - gritou Bertha, discordante. - Marcava apenas setenta e cinco cêntimos, quando saí do carro.

- Tempo de espera.

- Não sabia que mo estava a contar.

- Lá, não lho contei, mas sim, quando telefonou à Polícia e ficou à espera que ela aparecesse.

- Pois não lho pago! - declarou Bertha indignadamente.

- Essa ideia de contar-me tempo sem me avisar...

- Que esperava que eu fizesse? Queria que ficasse aqui, sem ganhar a minha vida, fora da circulação? Foi a senhora quem me mandou parar e...

- Dê-lhe lá os oitenta e cinco - interveio o sargento Sellers.

- Eu seja danada se lhos dou! - revoltou-se Bertha.

Tirou setenta e cinco cêntimos da bolsa, estendeu-os ao motorista e declarou:

- É pegar ou largar! Comigo é assim!

O motorista hesitou por um momento, olhou para o sargento da Polícia e pegou no dinheiro. Depois de o ter bem guardado na algibeira, disse:

- Olhe, sargento. Ela esteve um bom bocado lá dentro de casa. Quando saiu, vinha a correr, mas mesmo assim demorou-se lá um grande pedaço.

- Obrigado - respondeu Sellers e, virando-se para Bertha, convidou: - Vamos lá.

Ela sentou-se ao fundo do banco de trás, com Sellers a seu lado. No da frente ia um outro homem, junto do polícia motorista. Bertha não os conhecia e Sellers não fez o menor esforço para apresentá-los.

O carro dirigiu-se para o bairro vizinho da costa, toda mergulhada na obscuridade e o motorista apagou os faróis, apenas utilizando os mínimos.

- Creio que é já no próximo cruzamento - indicou Bertha.

O carro abrandou o andamento perto da curva e Bertha anunciou:

- É ali.

Os homens saíram da viatura e Bertha perguntou:

- Eu não tenho que ir lá dentro, pois não?

- Não. Por enquanto não. Pode esperar aqui.

- Está bem, espero.

Abriu a bolsa, tirou a cigarreira e inquiriu:

- Vão demorar muito?

- Ainda não lho posso dizer - respondeu Sellers, jovialmente. - Estarei sempre a vê-la, esteja descansada.

Os homens entraram na casa e um deles voltou outra vez ao carro para buscar uma máquina fotográfica, um tripé e projectores. Alguns minutos mais tarde regressou resmungando:

- Não há sequer um cheiro de corrente naquela maldita casa.

- O homem era cego - explicou Bertha. - Não precisava de luzes.

- Mas preciso eu e venho buscar uma bateria do carro.

- Porque não usa bolbos de «flash», de disparo automático?

- Por acaso trouxe-os comigo, mas não me servem para o que quero. Não posso regular a luz como me interessa e geralmente as imagens ficam cheias de reflexos.

Momentos depois, carregando com a bateria, resmungou:

- Que raio de vida a minha!

O sargento Sellers também voltou para o carro, alguns minutos mais tarde.

- Bem, vamos entrar em alguns pormenores - propôs. - Como é que o homem se chamava?

- Rodney Kosling.

- Sabe alguma coisa acerca da família dele?

- Não, e duvido que a tenha. Pareceu-me sempre muito solitário, abandonado.

- Sabe há quanto tempo vivia aqui?

- Não.

- Vendo bem, não sabia grande coisa acerca dele?

- Pois não.

- Que queria ele que a senhora fizesse? Como sucedeu entrar em contacto consigo?

- Pretendia que eu encontrasse uma pessoa.

- Quem?

- Uma pessoa a quem ele se afeiçoara.

- Mulher?

- Sim.

- Cega?

- Não.

- Nova?

- Sim.

-Achou-a?

- Sim.

- E então que aconteceu?

- Fiz-lhe um relatório.

- Quem era a mulher? ; !

Bertha ergueu os ombros.

- Não era parente dele? Não teriam qualquer espécie de relações íntimas?

- Não.

- Está certa disso?

- Absolutamente.

- Não se daria o caso de ela estar relacionada com ele e um outro homem ter aparecido na vida dela? Não teria o cego pretendido averiguar esse caso?

- Não.

- Não está a dar uma grande ajuda, Mrs. Cool.

- Cos diabos - explodiu Bertha -, eu disse-lhe ter encontrado o cadáver, não disse? Podia ter-me posto a andar e deixá-lo a si, em palpos de aranha.

- Estou convencido que seria isso mesmo que teria feito, se não fosse a presença do motorista. Foi isso que a meteu na embrulhada. A senhora sabia, muito bem, que depois de descoberto o cadáver, aquele tipo lembrar-se-ia de que a trouxera até aqui e daria uma perfeita descrição da sua pessoa.

Bertha manteve-se num silêncio cheio de dignidade.

- Nunca lhe passou pela cabeça que esse tipo era um aldrabão? - perguntou Sellers.

- Que está para aí a dizer?

- Estou a falar do cego que nunca foi cego na vida dele.

- Ah!, isso é que era! Tenho a certeza - afirmou Bertha.

- Como é que tem?

- Por muitas coisas que me disse acerca das pessoas...

pelas deduções que fazia, a partir dos sons, das vozes, dos passos... Só um cego poderia ter desenvolvido as suas faculdades dessa maneira, e... olhe para a casa.

Não tinha luz.

- Com que então, também deu por isso?

- Certamente.

- Teve que utilizar uma lanterna, não é verdade?

- Sim.

- Mas não é seu costume andar a passear por casas alheias, pois não?

- A porta estava aberta.

- Se está a falar-me verdade, pode dar graças a Deus por o cego ter ido para casa, antes da senhora.

- Que quer dizer com isso?

- Alguém tinha montado ali uma armadilha e se qualquer pessoa tivesse entrado em casa, antes do morto, teria embatido no arame e puxado o gatilho de uma espingarda de calibre quatrocentos e dez. A moral da história é que as pessoas não devem entrar em casas alheias, só porque encontram as portas abertas.

- Isso significa que alguém conseguiu «cozinhar» um rico álibi - considerou Bertha, apreensiva.

- Bem, a senhora tem que ir lá dentro, comigo, para fazer uma identificação. Que idade é que disse que tinha o cego?

- Não disse, mas devia ter cerca de cinquenta e cinco, sessenta anos.

- Não me pareceu tão velho como isso e, de resto, os seus olhos parecem-me sãos.

- Há quanto tempo está morto?

- Há quanto tempo saiu a senhora daqui? - inquiriu Sellers, com uma careta.

- Talvez há trinta ou quarenta minutos.

Sellers aquiesceu com um movimento de cabeça e concordou:

- Bate certo. O tipo deve ter sido morto por volta dessa mesma hora.

- Quer dizer que...

- Quero dizer - interrompeu Sellers - que o homem foi morto há menos de uma hora. Se a senhora esteve lá, como disse, há coisa de quarenta minutos, isso significa que a armadilha liquidou-o, aproximadamente, na altura em que a senhora lá esteve. Não se incomode a dizer seja o que for, Mrs. Cool. Venha comigo lá dentro e olhe para o cadáver.

Bertha seguiu-o até à casa. Aparentemente, os homens da Polícia tinham acabado o seu trabalho de investigação e estavam sentados num banco de madeira, no extremo oposto da entrada. Bertha apercebeu-se da sua localização pelos dois pontos móveis, luminosos, dos cigarros.

- Venha por aqui - convidou o sargento Sellers, acendendo uma potente lanterna de cinco pilhas que transformava a escuridão numa esteira brilhante.

- Não é para aí - corrigiu, quando Bertha se virou de costas. - Vá lá, deite uma olhadela.

O corpo fora colocado sobre uma mesa e parecia ainda mais inanimado do que antes, na sua imobilidade rigidamente exposta.

Sellers fez incidir o facho luminoso, primeiro sobre as roupas do morto, depois sobre o orifício tinto de sangue, por onde a bala penetrara e, finalmente, no rosto.

A surpresa que Bertha denunciou deu ao sargento a resposta que já esperava.

- Não é Kosling, pois não? - certificou-se.

- Não.

A lâmpada de Sellers saltou do rosto do cadáver para o não menos pálido de Bertha.

- Muito bem - prosseguiu Sellers, quem é ele?

Sem pensar, Bertha respondeu exaltada:

- É um patife, um sujo troca-tintas, que dava pelo nome de Bollman. Teve a morte que merecia e você tire essa maldita luz de cima de mim, ou parto-lhe a lanterna na cabeça.

 

XVIII

Por um breve momento, o sargento Sellers hesitou e depois, desculpou-se, afastando o foco luminoso:

- Desculpe. Com que então, chama-se Bollman?

- Sim.

- Há quanto tempo o conheceu?

- Mais ou menos há uma semana.

- Ah, sim? E há quanto tempo conhece Kosling?

- Há seis ou sete dias.

- Por outras palavras, a senhora conheceu ambos, mais ou menos na mesma altura?

-Sim.

- Hoje é noite de domingo. Agora faça-me o favor de pensar com cuidado. Conheceu ambos no domingo passado?

Sim.

- Que espécie de relação há entre eles?

- Não há nenhuma.

- Mas conheceu Bollman devido ao assunto que levou Kosling a contratá-la para uma investigação?

- Bem, apenas indirectamente.

- E Bollman tentou meter o nariz na coisa?

- Não nesse assunto, mas numa outra coisa.

- Em quê?

- Em nada que esteja relacionado com Kosling e em nada que tenha contribuído para a sua morte.

- Em que foi?

-Ainda não estou certa se lho deva dizer.

- Penso que vai estar, Mrs. Cool. Que foi?

- Tratou-se de um acidente de automóvel, em que estou ainda a trabalhar, e não creio que os meus clientes desejem que eu preste informações na presente altura.

Quaisquer declarações públicas seriam inconvenientes...

- Mas não está a prestá-las ao público; está a prestá-las a mim.

- Pois é, mas acontece que os polícias têm de fazer relatórios e os relatórios são publicados nos jornais.

- Isto é um caso de homicídio, Mrs. Cool.

- Bem sei, mas o assunto de que trato nada tem a ver com o crime.

- Mas a senhora disse-me que ele era um «sujo troca-tintas» e que «teve a morte que merecia», permitindo-me deduzir que se tratava de um chantagista.

- Pois disse.

- O que a levou a dizer isso?

- Os métodos que empregava.

- Que tinham eles de especial?

- Tudo.

- Muito bem. Vamos lá para fora, conversar um bocado no carro - propôs Sellers. - Foi este o endereço que lhe deu Rodney Kosling?

- Sim.

- Há alguma coisa que lhe permita pensar que esse tal Bollman também vivesse aqui?

- Não.

- Não sabe onde ele morava?

- Certamente que não - respondeu Bertha, impaciente.

- Porque me faz todas essas perguntas escusadas?

Não lhe viu já o bilhete de identidade? Não lhe viu já a carta de condução? Não lhe viu já...

- Não, não vi e a questão é exactamente essa.

Alguém o revistou e lhe limpou das algibeiras todos os documentos de identificação. Apenas lhe deixaram o dinheiro que, aparentemente, não foi subtraído, embora tivesse sido tirado da carteira e enfiado num bolso, apressadamente.

O que desapareceu foi a carteira. A senhora não sabe mesmo nada acerca dessa carteira e desses documentos escamoteados?

- Como quer que eu saiba?

- Não sei. O que sei é que o assassínio foi cometido por meio de uma espingarda armadilhada, o que indica que o assassino pretendia abater a sua vítima, quando ele próprio estava afastado do local do crime, forjando assim um álibi irrefutável, ou, pelo menos, colocando uma data de pessoas em idênticas circunstâncias de suspeição. E o que também não há dúvida é que alguém, depois de o homem estar morto, foi fazer-lhe uma limpeza aos documentos de que era portador, porque não é de crer que a vítima, antes de ser assassinada por uma armadilha, tivesse tido o cuidado de deitar fora a sua documentação. E acontece ainda que, entre a morte do homem e o momento em que o seu corpo foi revistado, não pôde decorrer muito tempo. Ora a senhora reconhece que esteve aqui pouco tempo depois do crime.

Portanto, tenho de perguntar-lhe se sabe alguma coisa acerca do que se achava nas algibeiras do morto.

- Não, não sei.

- Bem, vamos então lá para o automóvel - tornou a propor o sargento Sellers. - Venham daí, rapazes. Charlie, você pode ficar por aqui, a tomar conta do local, da maneira do costume: ninguém poderá aproximar-se, antes de a rapaziada das impressões digitais ter terminado o seu trabalho; depois deixe a malta dos jornais meter o nariz, sem mexer em nada, e, a seguir, mande remover o cadáver. Muito bem, Mrs. Cool, venha connosco.

Durante o percurso, Bertha Cool respondeu às perguntas de Sellers, quer por monossílabos, quer com um determinado mutismo. Recusou-se teimosamente a fornecer qualquer informação acerca das suas relações com Jerry Bollman, nem do motivo que a levara a caracterizá-lo como chantagista.

Finalmente, o sargento Sellers desistiu e declarou:

- Bem, Mrs. Cool, eu não posso forçá-la a responder às minhas perguntas, mas um grande júri terá poderes para fazê-lo.

- Não, não tem. Eu tenho o direito de guardar sigilo, quanto a certas informações de natureza confidencial.

- Não me parece, da maneira como encaro este caso.

- Eu também estou a trabalhar num caso. Dirijo uma agência de detectives. As pessoas confiam-me certos problemas que, se quisessem confiar aos tribunais, iriam logo badalar à esquadra de Polícia mais próxima justificou Bertha.

- Se a senhora pensa em prosseguir com a sua actividade, no futuro, não se esqueça de que, por um lado, a Polícia pode ser de grande ajuda para uma agência de detectives privados e que, por outro lado, sem essa ajuda, pode acontecer que a agência não consiga fazer nem mais um chavo.

- Eu disse-lhe absolutamente tudo quanto sabia e que podia ajudá-lo a esclarecer o caso. As coisas de que guardei sigilo são confidenciais e não têm nada a ver com o crime.

- Eu preferia que tivesse respondido a todas as minhas perguntas e me deixasse, a mim, ser o juiz daquilo que é pertinente e relativo ao homicídio, porque é de assassínio que se trata, Mrs. Cool.

- Eu sei, mas prefiro fazer as coisas à minha maneira.

O sargento Sellers recostou-se no assento e contemporizou:

- Muito bem, vamos levar Mrs. Cool a casa - disse para o motorista. - Telefonarei para a esquadra a ordenar uma busca geral, do cego, pela Rádio. Certamente que ele poderá fazer alguma luz, quanto ao que aconteceu.

Bertha Cool manteve-se em discreto silêncio até que o sargento Sellers a depositou à porta do apartamento.

- Boa noite - desejou ele.

- Boa noite - correspondeu Bertha, mas caminhou com ostensiva hostilidade até à entrada do prédio. O carro da Polícia arrancou.

Quase instantaneamente Bertha voltou para trás e correu para a mercearia da esquina, mandou aí parar um táxi, saltou para dentro dele e ordenou ao motorista:

- Leve-me aos Apartamentos Bluebonnet, na Figueiroa Street. Não tenho tempo a perder.

Quando lá chegou premiu peremptoriamente o botão da campainha de Josephine Dell e já começava a desesperar, quando a voz da rapariga se fez ouvir.

- Quem é?

- Mrs. Cool.

- Lamento não poder atendê-la. Estou a fazer as malas.

- Preciso de falar consigo.

- Arranjei um novo emprego e estou a fazer as malas para tomar um avião ...

- Falarei consigo, enquanto faz as malas - insistiu Bertha Cool. - Não lhe tomarei mais do que alguns minutos.

- Nesse caso, suba.

O besouro da fechadura automática indicou a Bertha que a porta se abrira. Subiu e foi encontrar Miss Dell no meio de uma enorme confusão de roupas, gavetas abertas e malas de viagem. Um malão, no meio do quarto, estava já meio cheio e um saco de viagem, sobre a cama, transbordava. Havia roupa interior e alguns vestidos espalhados por toda a parte e uma caixa de cartão mostrava-se atulhada de uma miscelânea de objectos e utensílios para todos os fins.

Enfiada num pijama de seda azul, Josephine achava-se no meio de toda aquela tralha.

- Olá! - saudou ela, mal viu Bertha. - Tenho de emalar tudo isto, antes da meia-noite e não quero deixar coisa alguma, pois vou largar o apartamento. Nunca pensei o trabalho que isto dá. Vou encaixar as coisas de qualquer maneira, tomar um duche e, depois, correr para o aeroporto, para apanhar o avião da meia-noite. Não quero parecer grosseira, mas se a senhora começar a andar por aí, calculará o transtorno que me faz.

- Calculo como se sente mas não a incomodarei mais do que um minuto.

Olhou em volta, à procura de uma cadeira vaga.

Josephine Dell percebeu o que ela queria, soltou uma pequena gargalhada nervosa e, com um seco «Desculpe», correu a tirar uns casacos de cima da cadeira junto da janela.

- Vou directa ao assunto - anunciou Bertha. - Gostaria de receber quinhentos dólares, em dinheiro?

- Gostava de quê...? Mas, certamente.

- Posso arranjar-lhos.

- Como?

- Basta-lhe assinar um acordo comigo e...

- Oh, isso!

- O que é que isso tem de mal?

- É que a senhora já é a segunda pessoa que me vem com isso - riu Miss Dell, constrangida.

- Quer dizer que já assinou um acordo?

- Não.

- Quem foi a primeira pessoa?

- Uma testemunha que assistiu ao acidente. Conseguiu caçar-me para informar-me de que realmente a culpa não fora minha e que eu poderia receber uma indemnização da companhia. Explicou-me que, se eu assinasse um contrato com ele, trataria de tudo, a suas expensas, e dar-me-ia cinquenta por cento de quanto conseguisse obter, o que não seria menos de quinhentos dólares. Pensei que era, na verdade, uma oferta muito generosa.

Bertha permaneceu calada.

- Porém, sabe - prosseguiu Josephine Dell, eu não podia aceitar a oferta. Simplesmente, não podia. Respondi-lhe que tinha estado a pensar no assunto e que chegara à conclusão de que houvera no acidente muita culpa de minha parte, talvez mais ainda do que do homem que guiava o automóvel. Ele esclareceu-me que não haveria necessidade de entrar em pormenores dessa natureza, pois o que a companhia queria era arrumar o assunto e que tudo quanto eu teria a fazer seria limitar-me a cooperar...

e a meter o dinheiro na algibeira, tão fácil como isto... - e Josephine deu um estalinho com os dedos.

- E não quis fazê-lo?

- Limitei-me a rir-me para ele. Disse-lhe que o assunto estava fora de questão, porquanto, se o fizesse, sentir-me-ia como se tivesse roubado aquele dinheiro; que o homem que me tocara com o carro fora muito gentil e que eu só gastara sete dólares com o médico.

- Conseguiu saber o nome do homem que conduzia o automóvel?

- Não, não cheguei a saber. Nem sequer sei o número da matrícula do carro. Fiquei tão contundida e desnorteada naquele momento que...

A campainha da porta da rua começou a tocar e Josephine, com um olhar de exasperação, comentou:

- Deve ser alguém à procura de Myrna Jackson.

- É a sua companheira de apartamento? - interessou-se Bertha. - Eu gostava realmente de conhecê-la.

- E também uma data de pessoas.

- Onde é que ela pára?

- Só Deus o sabe! Não era o que se podia dizer uma boa parceria, a nossa. Mr. Milbers era amigo dela e sugeriu-me que poderíamos viver juntas, dividindo as despesas a meias. Eu não estava muito inclinada a isso, mas a senhora compreende como as coisas são, quando é o patrão a fazer as sugestões. Bem, tentámos viver em comum, mas ela é impossível de aturar. Deixei uma nota para ela, ontem, informando-a de que a renda teria de ser paga amanhã, isto é, segunda-feira. Disse-lhe que

tinha de fazer as malas para partir esta noite, e a senhora calcula o que essa menina me respondeu?

- O quê? - perguntou Bertha, enquanto a campainha continuava a tocar.

- Disse-me que tinha vindo cá, esta tarde, e que se tinha mudado. Conseguiu operar a mudança em muito pouco tempo, pois quase nada tinha que emalar, e deixou por pagar uma conta de cinco dólares, da limpeza do apartamento, sem entrar com a parte dela, e eu, na altura, nem me lembrei disso.

Só então Josephine foi ao telefone da portaria e inquiriu:

- Quem é? - e logo respondeu aborrecida. - Não.

Aqui fala a companheira do apartamento. Não sei onde ela está. Mudou-se esta tarde. Exactamente. Eu também me vou embora. Não, não posso ver ninguém agora. Não, não posso falar consigo. Não tenho nada que ver com as contas dela. Estou a fazer as malas, estou despida e tenho de apanhar um avião à meia-noite. Não me interessa quão importante isso é para si, nem quem o senhor é. Não sei para onde foi, nem me interessa, e tenho mais que fazer do que passar o dia a atender à porta, para falar às pessoas que andam à sua procura.

Josephine Dell desligou o telefone da portaria e postou-se no meio do quarto, com os braços caídos e uma expressão desorientada.

- Não posso preocupar-me com as relações que ela mantinha com agentes artísticos e muito menos com o que fazia com Mr. Milbers, nem com quem lhe pagará, agora, as contas. Somente me aborrece que tenha feito de mim uma tola, durante todo o tempo que aqui viveu.

Há duas semanas, desapareceu o meu diário. Depois tornou a aparecer, mas num sítio desabitual, debaixo de uns lenços, quando eu já não pensava nele. Ora, ela era a única pessoa que podia ter-lhe mexido. Sou capaz de imaginar um certo tipo de rapariga que se interessa em ler o diário de uma outra, às escondidas, mas não vi quando o fez, nem onde o fez.

- Perguntou-lhe se fora ela?

- Não. Achei que a coisa já passara e que não podia provar nada contra ela. Portanto decidira já mudar-me para um outro apartamento, mais pequeno, onde pudesse viver sozinha, afastada de problemas comuns.

Depois, mudando abruptamente de assunto, declarou:

- Só há uma coisa a fazer: acabar de emalar tudo isto de qualquer maneira. Sinto-me doente e cansada.

Vamos a isto.

Pegou ao calhar numas roupas e meteu-as no malão.

- Quer que a ajude? - prontificou-se Bertha.

- Não - e segundos depois, agradeceu: - Obrigada - mas a voz com que o fez significava que o melhor que a visitante tinha a fazer para ajudá-la era deixá-la sozinha e pôr-se a andar dali para fora.

- Que vai fazer acerca do testamento? Terá que dar o seu testemunho.

- Oh, virei cá, quando for preciso. Disseram-me que seria provável que tivesse que ir para os trópicos, o que é diferente do que fazer uma excursão de fim-de-semana; por isso levo o malão, já que deverei viver numa moradia, mas ainda não sei como o transportarei, visto que grande parte das viagens serão aéreas e será caríssimo transportá-lo de avião. Mas é tão maravilhoso pensar que...

Bertha Cool, fitando Josephine, pensativamente, interrompeu:

- Há uma coisa que poderia fazer por mim.

- O que é?

- Queria que me dissesse qualquer coisa acerca da maneira como Harlow Milbers morreu.

- Foi de repente, embora já se sentisse mal, havia dois ou três dias.

- Pode relatar-me mais qualquer coisa, acerca dos sintomas?

- Certamente... porquê? Aquilo começou uma hora depois de ter entrado no escritório. Sentiu uma grande dor de cabeça e depois sentiu-se nauseado. Sugeri-lhe que se deitasse num sofá, para ver se melhorava. Creio que dormiu durante alguns minutos, mas depois sofreu outra náusea que o acordou. Começou a queixar-se de um terrível ardor na boca e na garganta e, então, aconselhei-o a chamar o médico. Disse-me que o faria, mas que preferia já estar em casa nesse momento. Por essa razão, telefonei ao Dr. Clarge e disse-lhe que Mr. Milbers se sentia muito mal e que ia de táxi para casa; pedi-lhe, pois, que fosse vê-lo imediatamente.

- Acompanhou Mr. Milbers a casa?

Sim.

-Que aconteceu?

- Foi agoniadíssimo, no táxi, durante todo o percurso, queixando-se do estômago e dos intestinos. Vomitou e o motorista começou a protestar, convencido que Mr. Milbers estivera a beber, para festejar qualquer coisa. Quando chegou a casa, tivemos de ajudá-lo a andar e a deitá-lo na cama.

-E depois, que aconteceu?

- Chegou o Dr. Clarge, que o examinou durante cerca de meia hora e lhe deu uma injecção hipodérmica.

Mr. Milbers sentiu-se um pouco melhor, embora continuasse a queixar-se do ardor na boca e na garganta.

Depois ficou modorrento. Por volta das quatro horas, o Dr. Clarge regressou e deu-lhe outra hipodérmica, aconselhando a presença de uma enfermeira do hospital, junto do doente, para o caso de não sentir melhoras durante a noite. Deu ainda algumas instruções e receitou medicamentos, ficando de voltar a vê-lo, às nove horas da manhã do dia seguinte.

- E depois?... Que sucedeu?

- Cerca de vinte minutos após o Dr. Clarge ter saído, Mr. Milbers falecia.

- Quem estava no quarto, nesse momento? Também lá estava?

- Não estava, porque subira ao andar de cima, a fim de comer umas sanduíches e beber um copo de leite, mas ficara tão enervada que quase não tomei nada. Foi Mrs. Cranning quem ficou junto dele. Nessa altura ainda pensávamos que iria restabelecer-se.

- Que fizeram depois dele morrer? Chamaram o Dr.

Clarge?

- Sim. Tornou a examiná-lo e declarou, como era natural, que nada havia a fazer. Chamou o cangalheiro e disse-nos para avisarmos Christopher Milbers, pelo que lhe enviei um telegrama.

- E então?

- Então, com toda aquela excitação e a quantidade de coisas a fazer, já era muito tarde quando saí e tive ainda de voltar ao escritório, para fechar o cofre e as portas. Sentia-me apoquentada e exausta e foi então que me aconteceu ser apanhada pelo automóvel. Só tinha, praticamente, no estômago, uma chávena de café que tomara ao pequeno-almoço.

- Que disse o médico a respeito da causa da morte?

- Oh! A senhora sabe como são os médicos! Recitou uma série de termos científicos e pareceu satisfeito com as suas conclusões. Pessoalmente, não creio que ele tivesse dado com a doença certa. Lembro-me das palavras que empregou: perturbação gastroentérica, resultante de qualquer coisa do fígado e de uma outra causa, cujo nome terminava em «ite».

- Nefrite? - tentou precisar Bertha.

- Se quer que lhe diga, não sei ao certo. Era parecido com isso, mas o que o doutor mencionou como causa primária foi gastroenterite; o resto foi uma lengalenga que não fazia sentido para mim e também não devia fazer muito sentido para ele.

- Onde é que Mr. Milbers tomara o seu pequeno-almoço?

- insistiu Bertha.

Josephine Dell fitou-a, surpreendida.

- Porquê? Em casa dele, como habitualmente, segundo suponho. Era para isso que lá tinha Mrs. Cranning e Eva e, se mo perguntar, Mrs. Cool - acrescentou Josephine, com um sorriso desaprovador, dir-lhe-ei que, pelo preço que lhes pagava, deveriam tratá-lo nas «palminhas», em vez de obrigá-lo a esperar pelas refeições.

Contudo, são coisas que me não dizem respeito e já tudo acabou. Só me custa pensar que deixou quase tudo o que tinha àquela gente.

- Sempre lhe deixou dez mil dólares - lembrou Bertha.

- Se estava realmente na disposição de deixar a herança, praticamente, a pessoas fora da família, creio que eu tinha o direito de ser contemplada. Aturei-o muito e mereci os dez mil dólares.

- Quanto tempo trabalhou para ele?

- Cerca de três anos.

- Quanto ganhava?

- Quinhentos dólares por ano! - respondeu Josephine com algum azedume. - Parece uma compensação muito generosa, não parece? Se a senhora pudesse fazer uma ideia do que era trabalhar com ele... Bem, o que lá vai, lá vai e... por favor, Mrs. Cool, vá-se agora embora e deixe-me acabar de fazer as malas.

Bertha anunciou:

- Jerry Bollman morreu.

- Jerry Bollman? Aquele homem que fora testemunha do acidente e que me propôs um acordo?... Bem declarou Josephine Dell, fechando devagar o saco de viagem e pegando nele gentilmente, uma coisa é certa.

Tenho de partir com um único par de sapatos! - Subitamente virou-se para Bertha e inquiriu admirada: - Que diabo disse há bocado?

- Que Jerry Bollman morreu.

Josephine sorriu.

- Creio que deve estar enganada, Mrs. Cool. Falei com ele ontem à tarde e ainda me telefonou há coisa de duas horas. Agora, deixe-me ver: se eu puser estes sapatos...

- Assassinado - precisou Bertha, há coisa de uma hora.

Primeiro Josephine deixou cair um sapato; depois o outro também lhe escorregou das mãos, para o chão.

- Assassinado, há coisa de uma hora! Como aconteceu isso?

- Não sei, mas ele ia falar com o seu amigo cego...

Isso não lhe diz qualquer coisa?

- Sim, efectivamente, eu disse a Mr. Bollman que receava que a luz verde para peões tivesse mudado, quando atravessei a rua, e ele afirmou-me que conhecia uma testemunha que ouvira o som do embate, antes da campainha do semáforo. Nunca pensara que o cego pudesse servir de testemunha. Ele é um «querido», tão amável, tão terno! Sabe?, mandei-lhe um pequeno presente.

Está certa de que Mr. Bollman foi assassinado?

- Sim. Foi morto quando ia visitar o cego.

- Mas está absolutamente certa, Mrs. Cool, de que foi assassínio?

- Certíssima. Fui eu quem descobriu o cadáver.

- Já sabem quem o matou?... Já o apanharam?

- Ainda não. Andam à procura do cego.

- Que estupidez! Ele não seria capaz de fazer mal a uma mosca!

- É o que penso.

- Como lhe aconteceu descobrir o corpo?

- Fui até lá para falar com o cego.

- Gosta dele, não gosta?

- Sim.

- Também eu. Acho que é um indivíduo maravilhoso. Quando o vir, quero falar-lhe de Myrna Jackson, porque a vi a tagarelar com ele, na semana passada. Realmente é estranho eu saber tão pouco acerca da vida dela, além das suas aspirações a actriz. Quanto a esse Bollman, a senhora não acha...? Sei que não fica bem falarmos dele, agora que está morto... mas não acha que...?

- O diabo me leve, se não acho! Não me interessa nada que tenha morrido. Era um patife!

- Meu Deus! O céu é testemunha de que tenho de acabar de fazer as malas. Desculpe, Mrs. Cool, mas já lhe disse o que sinto acerca do acidente e não lhe vale de nada estar aqui, até à meia-noite, pois não mudarei de opinião.

Lenta e relutantemente, Bertha pôs-se de pé e caminhou para a porta.

- Boa noite e muita sorte no seu novo emprego.

- Muito obrigada, Mrs. Cool. Boa noite e boa sorte.

- E se pensas que eu não era capaz de arrancar uma carrada de «massa», daquela «panada» que levaste, és uma «tansa»! - resmungou Bertha, ressentida quando já ia a meio do corredor.

 

XIX

Um táxi conduziu Bertha à residência do Dr. Howard P. Rindger. Tocou à porta e, quando o próprio médico lha abriu, disse:

- Espero que ainda se lembre de mim, doutor. Eu sou...

- Oh, sim, Mrs. Cool... das Investigações. Tenha a bondade de entrar.

- Desejava consultá-lo, doutor, profissionalmente.

Ele fitou-a com um ar astuto e perguntou:

- Sente-se rija? Parece sã como um pêro.

- Oh, estou catita! Unicamente pretendo que me dê uma opinião profissional.

- Está bem, venha por aqui. Tenho um pequeno consultório cá em casa, para tratamentos de emergência.

Alguns dos meus pacientes vêm à noite. Agora, sente-se e diga-me em que posso ser-lhe útil.

- Lamento vir importuná-lo em sua casa, mas trata-se de um assunto verdadeiramente importante.

- Não me incomoda nada. Aos domingos, fico sempre acordado até tarde a ler. Vá lá, diga-me o que a preocupa.

- Preciso de descobrir qualquer coisa acerca de um veneno.

- Que quer saber?

- Há algum veneno que faça efeito, digamos, uma hora ou duas depois do pequeno-almoço, se nele foi ingerido, causando enjoo e ardor na garganta e resultando em colapso que se mantenha até sobrevir a morte?

- A que horas morreu a vítima?

- Por volta das quatro da tarde.

O Dr. Rindger abriu a porta envidraçada de uma estante e inquiriu:

- Cãibras nas barrigas das pernas?

- Não sei dizer.

- Diarreia?

- Sim, provavelmente, mas não lho posso dizer positivamente.

- Náusea persistente até ao momento da morte?

- Sim, intervalada.

- Fizeram-lhe algum tratamento?

- Sim: injecções hipodérmicas.

- Cólicas estomacais e intestinais?

- Sim. Queixava-se muito disso.

- Tez acinzentada? Transpiração?

- Pelo que sei dele, devia ter sempre a pele cinzenta!

- Ansiedade? Depressão?

- Não sei.

O Dr. Rindger correu a ponta dos dedos ao longo de uma prateleira da estante, parou sobre uma lombada encadernada e extraiu um livro intitulado Medicina Forense. Abriu-o e, depois de ler algumas páginas, fechou-o e pô-lo de lado.

- Isto é um assunto só entre nós dois, ou vou ser citado numa publicação oficial?

- É só entre os dois. Ninguém o vai citar.

- Envenenamento por arsénico - respondeu o médico.

- São esses os sintomas?

- É um caso típico. O ardor da garganta e as cólicas estomacais e do abdómen superior são peculiares desse tipo de envenenamento. Se quiser ter a certeza, verifique a diarreia, as cãibras nas barrigas das pernas, o estado de depressão e note a natureza do vomitus. No caso de envenenamento por arsénico, este terá a aparência de água de arroz.

Bertha levantou-se e, com evidente hesitação, perguntou:

- Quanto lhe devo?

- Não é nada, já que não vou ser citado literariamente, nem chamado a depor como testemunha. Se for esse o caso, terá de pagar alguma coisa - respondeu sorrindo, matreiramente.

- Desculpe tê-lo incomodado a uma hora tão tardia - disse Bertha, apertando-lhe a mão, mas tratava-se, realmente, de um caso de emergência e eu tinha de obter esta informação, hoje mesmo.

- Não tem importância. De qualquer maneira eu ainda não estaria deitado. A propósito, como está o seu sócio, Mrs. Cool... Como é que ele se chama?

- Donald Lam.

- É verdade, já me lembro. É um moço com muito interesse. Parece possuir um notável discernimento.

Fiquei deveras impressionado com as suas conclusões acerca de um caso de envenenamento por monóxido de carbono. Eu conhecia pessoalmente ambas as partes envolvidas no processo e uma delas era um indivíduo muito proeminente nos círculos médicos.

- Lembro-me disso - disse Bertha.

- Que é feito dele?

- Está na Marinha.

- Isso é esplêndido! Mas suponho que lhe faz alguma falta.

- Bem, eu cá me ia governando antes de ele trabalhar comigo - respondeu Bertha acidamente, e cá continuarei a governar-me sozinha.

- Mantêm a sociedade de pé?

- Estará à espera dele, até que volte. Raios! Espero que nada lhe aconteça. É um bastardozinho muito inteligente.

- Tudo correrá bem - vaticinou o Dr. Rindger. Muito boa noite, Mrs. Cool.

- Boa noite.

Bertha Cool regressou, preocupada, para o táxi.

- Para onde agora? - perguntou o motorista.

- Para o Metro Hotel - indicou Bertha enquanto encaixava a sua rechonchuda figura no assento do carro.

- E, para o caso de você não ter dado por isso, já estou a bordo. Levei algum tempo com a estiva, mas já embarquei.

Faça-se ao mar.

- Chegada ao Metro Hotel, Bertha Cool foi directamente às cabinas telefónicas e perguntou para a recepção:

- Têm cá um tal Christopher Milbers hospedado?

- Sim «madama». Quarto trezentos e dezanove.

- Ligue para lá, se faz favor.

Momentos depois ouvia a voz ensonada de Milbers, bocejando:

-Está lá? Sim! O que é?

- Descobri uma coisa importante para si - anunciou Bertha. - Estou aí em cima dentro de um minuto.

- Quem é que fala?

- Bertha Cool - disse e desligou.

Atravessou deliberadamente o átrio, entrou no elevador e ordenou:

- Terceiro andar.

O ascensorista olhou para ela inquiridoramente, na disposição de perguntar-lhe se estava registada no hotel, mas depois desinteressou-se. Com um ar de quem sabia exactamente o que queria, Bertha saiu para o patamar, localizou a porta 319, fez uma ligeira pausa e ia bater a sua segunda pancada na porta, quando Milbers a abriu.

- Não repare - desculpou-se ele. - Estava na cama há já uma hora e não estou correctamente vestido para receber visitas.

Vestia um roupão de seda por cima do pijama e calçava chinelas. Os seus olhos inchados de sono e o cabelo, habitualmente muito bem esticado, para tapar a careca, e agora esgadelhado e caído sobre uma orelha e pescoço, davam-lhe um aspecto caricato.

- Não são horas para estarmos com rodeios - começou Bertha -, nem para conversa fiada.

- Se me permite, Mrs. Cool, direi que considero a sua opinião, neste caso, altamente pertinente.

- Vamos ao que interessa: o seu primo deixou uma herança no valor de quanto?

- Desconheço o quantitativo total exacto, Mrs. Cool.

Isso interfere na minha situação actual?

- Sim.

- Eu avaliaria a fortuna de Harlow em cerca de um milhão, ou talvez mais.

- E a si coube-lhe uma migalha de dez mil?

- Exactamente, tal como a senhora muito bem sabe, e permita-me que lhe diga que essa notícia não justifica, pela sua relevância, que me venha acordar a meio da noite. Já tínhamos, infelizmente, conhecimento dela, em anterior encontro.

- Estou apenas a avaliar o montante da propriedade legada, antes de começar.

- A mim, o que me interessa, neste momento, não é calcular quanto os outros se habilitam a receber, mas a maneira como se combinaram para consegui-lo.

- Tanto eu como o senhor ignoramos como obtiveram aquele testamento. Pessoalmente, não acredito que seu primo tenha redigido tal coisa, de sua livre vontade. Parece claramente ter sido forçado, de qualquer maneira a escrever aquela segunda página, de forma a satisfazer os interesses de outra pessoa, ou pessoas. Provavelmente foi constrangido por qualquer espécie de chantagem.

- Isso dificilmente concorda com o testemunho de Miss Josephine Dell e de Paul Hanberry.

- Depende do argumento que utilizaram contra ele - observou Bertha. - A espécie de chantagem a que me refiro exigiria mútua cumplicidade. Essa Myrna Jackson que vivia no mesmo apartamento que Josephine Dell, fora virtualmente imposta, pelo seu primo Harlow, o que demonstra terem estreitas relações. Ora, essa mesma Myrna conhecia a governanta. Esta inter-relação desperta-me a curiosidade. Note que Myrna é, segundo depreendi, uma rapariga muito interessante e está, certamente, misturada no negócio, de qualquer maneira, e quanto a Paul Hanberry, confio tanto nele, como num gato que eu pendurasse pela cauda.

- Efectivamente, Mrs. Cool, concordo consigo, mas a senhora declarou que iria directamente ao âmago da questão e, confesso, permita-me que lho diga, que estamos francamente com rodeios.

Então, Bertha desfechou:

- Seu primo foi assassinado.

O rosto de Milbers espelhou profundo pasmo. Precisou de alguns momentos para readquirir a compostura.

Aclarou a voz, mas titubeou:

- Isso é uma acusação muito forte, Mrs. Cool.

- Pois é muito forte, mas foi envenenado. Foi-lhe ministrado veneno com o pequeno-almoço e todos os sintomas indigitam intoxicação arsenical.

- É incrível! Está certa disso, Mrs. Cool?

- Praticamente.

- Tem provas?

- Cos diabos! Ainda não, mas se nos deitarmos ao trabalho poderemos obtê-las.

- Oh! - exclamou Milbers, mudando subitamente de entonação. Pensei que me estava a dizer já ter uma prova.

- Não. Disse-lhe que estava praticamente certa de que ele fora envenenado. Mas apesar de a minha suspeita não ser mais do que circunstancial, já tenho o direito de levar o Procurador de Distrito a exumar o cadáver de seu primo e averiguar a causa da morte, quanto mais não seja, para provar que não foi o arsénico que o matou.

- Ora, Mrs. Cool - contrariou Milbers, desiludido!

Deixe-se disso. Está a andar com a carroça adiante dos bois. Gostaria que apreciasse o meu ponto de vista de que não há a menor vantagem em dar um passo, seja ele qual for, no sentido de envolver a lei numa acusação tão grave, a menos que se possuísse, já, uma prova definitiva, tangível, que eu considerasse absolutamente inamovível.

- Estou certa de arranjar uma prova, em menos tempo do que o senhor expôs o seu ponto de vista. Vou interrogar Nettie Cranning e os Hanberrys. Vai-me dar algum trabalho, mas espero, dentro de quatro ou cinco dias, ter as meadas todas juntas para atirar para o colo do Procurador de Distrito.

- Na realidade, achamo-nos numa situação fora de comum. Qual é precisamente a sua ideia, Mrs. Cool? interessou-se Milbers, preocupado.

Bertha explicou, maternalmente:

- Se eles o mataram, não podem herdar. Mesmo que só um deles o tivesse feito e os outros se tivessem limitado a esperar o resultado, nenhum deles poderá receber «cheta» daquele testamento. Sendo você o único parente vivo, achar-se-á numa magnífica posição para apanhar o bolo. E já que falamos nisso e estamos de faca na mão, dir-lhe-ei que quero uma fatia de dez por cento, depois de terminado todo o meu trabalho de detective e de lho entregar numa bandeja.

Christopher Milbers juntou as pontas dos dedos, virou-as contra o peito e fitou Bertha Cool meditativamente.

- Então? - impacientou-se Bertha.

- Estamos perante uma nova e muito peculiar situação, Mrs. Cool.

- Pois estamos! Por que razão pensa que me dei ao trabalho de vir até cá e de fazê-lo levantar da cama?

- Certamente que, se meu primo foi assassinado, tem que fazer-se justiça.

- Já agora não se esqueça do milhão de dólares que receberá, se a justiça for feita.

- Não estou a esquecer-me desse pormenor, mas...

- Mas o quê? Vamos para diante.

- E acha que vai perder, efectivamente, muito tempo para esclarecer o assunto?

- Não é o tempo que está em jogo, mas a ideia e o trabalho. Não se caça uma prova de envenenamento, no ar, como uma mosca na parede.

- No ar? Mas a senhora já tem alguns dados comprovativos, segundo depreendi.

- Alguns.

- E pretende que eu a contrate novamente, para reunir o resto?

- «Favas» para esse contrato! Quero é um acordo firme sobre a percentagem de dez por cento de quanto o meu trabalho lhe proporcionar.

- Devo anunciar-lhe - declarou Milbers -que tive, esta tarde, uma conversa muito interessante com Mrs.

Cranning e confesso que se me afigurou uma pessoa diferente daquela que me parecera no nosso primeiro contacto.

- E a filha?

- Uma mulher muito formosa e cativante. ?

- Estou a ver a coisa! E que pensa do genro?

Christopher Milbers torceu a cabeça e fez uma careta.

- Na minha opinião, é um homem deveras anti-social, em manifesta oposição ao actual esquema de entendimento e causando, de certa maneira, um desajustamento...

- Eu não precisaria de tantas palavras para defini-lo - cortou Bertha. - Bastavam-me três palavras com que explicar-lhe a filiação.

- Quero dizer que, no princípio, a minha posição era contrária à dele, mas, no presente momento, os meus contactos para negociação são estabelecidos apenas com Mrs. Cranning.

- O.K., O.K.! - interrompeu Bertha, impaciente. - Ao princípio representei-o para tratar de um pequeno caso, mas agora, se provarmos que mataram o seu primo, a coisa torna-se muito diferente.

- Assim parece.

- Pois bem, esta é a bandeja com o bolo que estou a oferecer-lhe.

- Infelizmente, Mrs. Cool, isso não altera a minha posição, em relação à propriedade.

- Como não? - inquiriu Bertha atónita.

- Acontece que toda a anterior situação se alterou.

No fim da tarde de hoje, concluí um acordo com as outras partes envolvidas no caso, acordo esse que considero altamente aceitável. Como é natural, não sou obrigado a relatar-lhe os termos específicos em que o lavrámos, mas, em virtude das circunstâncias peculiares supervenientes e na certeza de que posso contar com a sua discrição, Mrs. Cool, vou divulgar-lhe as suas bases gerais: Miss Dell receberá o que lhe foi legado; por outro lado, para se evitar um litígio judicial, que implicaria ressentimentos, recriminações, demora e sobretudo perdas para ambas as partes litigiantes, acordámos em que o quantitativo residual da propriedade, seja ele qual for, após deduzidas as despesas do funeral, taxas legais de transmissão e a parte legada a Miss Dell, seria dividido por nós quatro, equitativamente. Por outras palavras, foi-me concedido o direito a receber um quarto de toda a propriedade residual. Posso adiantar-lhe que isso representará, para mim, qualquer coisa como cem mil dólares.

Não parece tão simples à primeira vista, mas os advogados já estão a tratar das coisas e...

- Já assinou esse acordo? - inquiriu Bertha, ainda na esperança de uma negativa.

- Já todos assinámos esse acordo.

- Isso só se refere à contestação do testamento, mas, se eu puder provar que Mr. Harrow Milbers foi assassinado...

- Não, Mrs. Cool. Tente compreender a situação.

O acordo contém uma cláusula pela qual nenhuma das partes pode fazer seja o que for que venha a prejudicar os direitos de qualquer outra parte, directa ou indirectamente, privando-a ou reduzindo o seu benefício do testamento.

Não posso, portanto, violar essa disposição...

pelo menos, o espírito do acordo. Lamento, Mrs. Cool, ter de afirmar-lhe não poder acreditar que Mrs. Cranning ou sua filha, Eva, estejam envolvidas na acusação que a senhora acaba de formular, embora admita que Paul Hanberry, sem o conhecimento delas, tenha utilizado algum expediente para também ser contemplado no testamento.

No que respeita a qualquer tipo de cumplicidade das demais pessoas, isso está completamente fora de questão. Admito, Mrs. Cool, que as pessoas são impulsivas e, por vezes, bastante agressivas, mas essa suposição de que Mrs. Cranning, ou a sua filha, Eva, tenham envenenado o meu primo... não, Mrs. Cool... é absolutamente inadmissível.

- Mas suponha que Paul Hanberry o envenenou e elas só tiveram conhecimento do facto, ulteriormente, e que...

- Não, Mrs. Cool. Ainda não compreendeu a situação.

Se as autoridades iniciassem uma investigação, por sua iniciativa, as coisas seriam diferentes, mas, se qualquer das partes tomasse essa iniciativa, em relação a uma investigação dessa natureza, o acordo estabelecido teria sido violado, o que implicaria uma diferente divisão da propriedade residual. Se nada se provasse, quanto a causa criminosa da morte de meu primo, só eu seria prejudicado e, devo confessar-lhe, Mrs. Cool, que considero o acordo, no que me diz respeito, muito vantajoso.

- Estou a ver que sim! - retorquiu Bertha, rudemente. - Quando uma quadrilha de assassinos quer im- pedir uma pessoa de investigar o envenenamento de um parente...

Milbers estendeu a mão aberta, como o faria um polícia, detendo o trânsito.

- Um momento! - interveio. - Por favor, Mrs. Cool!

Eu estou apenas a referir-me à inconveniência de contratá-la para essa investigação. Contudo, se as autoridades tomarem essa iniciativa, já não poderei ser alvo de qualquer acusação de violação do acordo estabelecido com as outras partes. Agora, estabelecer eu um contrato consigo, pelo qual me responsabilizaria a entregar-lhe, a si, dez mil dólares... Não, Mrs. Cool, não posso conceber isso, nem por um momento, e estou certo de que o meu advogado me reprovaria estar a discutir esse assunto consigo.

- Tudo isso é uma maquinação imunda! Exercem chantagem sobre um tipo, até o forçarem a redigir um testamento conveniente; depois assassinam-no e, a seguir, fazem um acordo consigo, de maneira a comprometê-lo e a impedir que toda a trama seja descoberta.

É um raio de uma canalhice!

- Francamente, não penso que tenham exercido chantagem, nem tão-pouco o tenham assassinado. Para dizer-lhe a verdade, estou certo de que aquele testamento foi escrito por ele. As suas críticas eram características e, embora eu me tivesse mostrado ressentido, sei que nunca me deixaria mais do que dez mil dólares... nem um centime! E o acordo que assinei é-me muito vantajoso.

- Foram eles que vieram procurá-lo, ou foi o senhor que os procurou?

- Vieram ter comigo.

- Está visto! Roubam um homem, matam-no e, depois, com cem mil «pacotes» impedem qualquer investigação.

Raio de acordo!

- Mas, Mrs. Cool, nada a impede de expor o assunto às autoridades.

- Balelas! - exclamou Bertha, irritada. - As autoridades não se lançam numa investigação sem mais nem menos... e quanto é que eu ganho com isso?

- Evidentemente... se a senhora está na posse de qualquer prova...

- O que tenho, é comigo. Ganho a vida a vender «conhecimento de causa» - disse Bertha, erguendo-se da cadeira.

- Se a senhora tem qualquer base para uma acusação, creio que é seu dever comunicá-la às autoridades...

- Pois! Por outras palavras, você quer que eu vá tirar-lhe castanhas do lume, sem pôr os dez mil na lareira?

Vou à Polícia e ponho-lhe a si um milhão no regaço, na base de um «muito obrigado» por cento!

- Limitei-me a expor o assunto, na base dos deveres de um cidadão honesto, no conhecimento de um crime, ou mesmo na sua simples suspeita...

- Vou sair daqui e fazer um telefonema, da mercearia da esquina, enquanto você se veste.

- Não estou a compreender - disse Milbers, friamente.

- O diabo é que não está! - explodiu Bertha, rudemente.

Daqui a dez minutos, a Polícia receberá um telefonema anónimo, indicando que Harlow Milbers foi envenenado e sugerindo que verifiquem a certidão de óbito, interroguem o médico e ordenem a exumação do cadáver, para obtenção da prova. Você vem comigo, para certificar-se do meu telefonema. Então debito-lhe cinco mil dólares e você já pode voltar para a cama. Percebeu?

- Minha querida Mrs. Cool! Vejo que não compreendeu...

Bertha alcançou a porta, em duas passadas, saiu e atirou com ela, a meio do discurso de Milbers.

O táxi que a trouxera estava ainda à espera, na curva, junto do hotel, com o motorista do lado de fora. Este levou a mão ao chapéu e avisou, com um sorriso:

- O navio está à espera!

- O navio, o navio! Eu é que ainda fico a ver navios, com um milhão à vista!

 

XX

VALLEJO, CALIFÓRNIA 1942, AGOSTO 31 (TELEGRAMA-CARTA NOCTURNO PAGÁVEL DESTINATÁRIO) BERTHA COOL, INVESTIGAÇÕES CONFIDENCIAIS EDIFÍCIO DREXEL LOS ANGELES, CALIFÓRNIA CHAVE PARA RESOLVER SITUAÇÃO É FACTO COMPANHIA INTERMUTUAL INDEMNIZAÇÕES PROCURAR SOLUÇÃO ATRAVÉS NOSSA AGÊNCIA. ISSO INDICA IGNORAREM NOME E MORADA DA SINISTRADA.
DE ACORDO COM TESTEMUNHA, DELL DEU NOME E MORADA AO CONDUTOR AUTOMÓVEL CAUSADOR ACIDENTE E PERMITIU-LHE A CONDUZISSE A CASA. SITUAÇÃO PARECE IMPOSSÍVEL A MENOS QUE CONDUTOR EMBRIAGADO. MAS ISTO IMPROVÁVEL POR SEU COMPORTAMENTO POSTERIOR. TERIA DELL SAÍDO DO CARRO ANTES DE CHEGAR FRENTE DE CASA? SÓ ASSIM SE EXPLICA AMNÉSICA IGNORÂNCIA CONDUTOR. INVESTIGAR ESTE PONTO. SUGIRO FAÇA «BLUFF» COM COMPANHIA SEGUROS DIZENDO CONDUTOR TOTALMENTE EMBRIAGADO E VEJA QUE ACONTECE. POR QUALQUER RAZÃO DELL NÃO LHE DISSE TODA A VERDADE. CUMPRIMENTOS.
DONALD LAM

 

XXI

Indignada, Bertha Cool ordenou a Elsie Brand:

- Mande um telegrama ao Donald: «Sua sugestão disparatada. Falei com Josephine que disse condutor ter gentilmente levado a casa. Não vou pagar mais mensagens contendo teorias idiotas. Sugiro devote atenção exclusiva ganhar a guerra. Abandone caso. Partes fizeram acordo, deixando Bertha de fora.» - Leia-me isso, Elsie - disse Bertha, suspendendo o ditado.

Elsie leu. Então Bertha decidiu:

- Passe isso à máquina e assine o meu nome. Em seguida...

Calou-se porque, nesse momento, a porta abriu-se para dar entrada ao homem alto, circunspecto e elegante da Companhia Intermutual de Indemnizações.

- Bom dia, Mrs. Cool - saudou.

- Você, outra vez! - exclamou Bertha, surpreendida.

- Verificou-se uma muito infeliz alteração da situação, Mrs. Cool. Pode dar-me atenção, por uns momentos?

- Entre cá para dentro - convidou Bertha, passando-lhe à frente.

- Mando o telegrama? - inquiriu Elsie.

- Vá passando-o à máquina, mas não o envie, antes de eu o ler outra vez.

Fosdick, representante da companhia de seguros, sentou-se confortavelmente, colocou a pasta sobre os joelhos, rodeou-a com os braços, como se fossem um escudo para defendê-la e repetiu:

- Uma situação insólita acaba de se manifestar no caso em curso.

Bertha não tugiu nem mugiu.

- Conhece, porventura, um homem chamado Jerry Bollman? - prosseguiu ele. - um homem que...

- Que tem ele a ver com isto?

- Acontece que nos prometera obter um depoimento completo sobre o acidente, por um total de mil dólares de indemnização para a sinistrada, e que não pretendia qualquer outra importância, embora estivesse em posição de conseguir uma quantia muito superior, se disso quisesse convencer a pessoa lesada. Nesta base, afirmou poder conseguir uma declaração legal de abstenção, quanto a qualquer outra diligência no sentido de processamento judicial, ou de exigência de indemnização superior.

A sinistrada dividiria com ele essa importância de mil dólares, se assim o entendesse. Mr. Bollman parecia estar absolutamente certo de poder apresentar essa declaração, assim como de conseguir receber a sua parte, em virtude de um acordo já estabelecido com a outra parte.

Segundo declarou, estava intimamente ligado à companheira de apartamento da lesada, com quem ia casar muito em breve.

- Ah! Ele disse isso?! - inquiriu Bertha interessada.

Fosdick aquiesceu.

- Indicou-lhe nomes?

- Não. Apenas se referiu à companheira de apartamento da sinistrada, mas a sua história foi muito convincente.

-E você foi nisso?

Fosdick franziu o sobrolho. Bertha Cool prosseguiu:

- Você é muito novo. Acaba de sair de Harvard, ou de qualquer outra universidade de Direito, e isso deu-lhe um complexo de superioridade. Julga que sabe tudo, mas bem pode tirar daí a ideia.

Fosdick adoptou um ar de mártir, querendo exprimir que «o cliente tem sempre razão» e que não tencionava defender-se de tão pertinente crítica. Aparentemente desmoralizado, confessou:

- Não tenho dúvida quanto à possibilidade de Mr.

Bollman nos ter mistificado com a sua história. Infortunadamente, porém, lemos no jornal da manhã que Mr.

Bollman foi morto na noite passada. O facto é, na verdade, lamentável, no que se refere aos interesses da companhia...

- Não quanto a quem tinha de lidar com ele! observou Bertha. - Mas desde já lhe digo que essa calamidade é inconsistente. Não creio que Bollman fosse capaz de obter qualquer acordo da sinistrada. Limitou-se a dar-vos «corda» e a seguir o papagaio no ar, a ver se «abichava» alguma coisa dos laçarotes da cauda. E os senhores bem sabiam que não podiam encerrar um caso daqueles, por uns míseros mil dólares.

- Porque não?

- O vosso homem ia tão bêbado que não se apercebeu que derrubara uma linda rapariga, que lhe causara uma contusão cerebral... e a companhia queria arrumar isso com mil «pacotes»! - comentou Bertha, rindo sarcasticamente.

Fosdick retorquiu:

- Não estamos admitindo seja o que for, mas desde já refutamos essa acusação de que o nosso cliente conduziria intoxicado.

- O vosso homem - prosseguiu Bertha com trocista determinação - estava a cair de bêbado, a tal ponto que nem foi capaz de fixar o nome e a morada da rapariga que atropelou.

- Perdão, Mrs. Cool, mas a jovem ficou tão aturdida e histérica que nem consentiu que ele a conduzisse a um hospital ou a casa e nem lhe deu a mínima indicação quanto a nome e morada, quando saltou do carro para fora.

Elsie Brand entrou no gabinete e anunciou:

- Desculpe a interrupção, mas está lá fora o boletineiro e podíamos aproveitar o ensejo para enviarmos o telegrama, imediatamente. Se a senhora quisesse fazer o favor de revê-lo...

- Bertha agarrou no papel que Elsie lhe estendia, virou-o para baixo, meteu-o na gaveta e decidiu:

- Dê dez cêntimos ao rapaz dos correios. Não vou mandar ainda este telegrama.

- Dez cêntimos? - estranhou Elsie.

- Bem - concedeu Bertha, dê-lhe então quinze.

Estou ocupada e não quero ser interrompida. Expediremos o telegrama mais tarde.

Voltou-se para Fosdick e continuou:

- Para que raio vos serve andarem às voltas?

O vosso homem estava «grosso». Tão «toldado» que nem devia guiar um automóvel, naquele estado. Não só virou a beldade de pernas para o ar, mas também denunciou, tão claramente, estar incapaz de levá-la fosse onde fosse, que ela preferiu ir a pé, mesmo contusa como se achava.

Pessoalmente, dir-lhe-ia que teriam muita sorte se conseguissem sair da encrenca apenas com vinte mil e quinhentos dólares.

- Vinte mil e quinhentos!

- Digamos vinte mil.

- Mas, Mrs. Cool! Perdeu a cabeça?

- Não perdi coisa nenhuma. Sei muito bem o que um júri decidiria. Aparentemente, vocês não sabem!

«Um júri talvez atribuísse uma indemnização de cinquenta mil. Não sei... e vocês também não sabem.» - Ora, ora, Mrs. Cool, deixe-se disso! - riu Fosdick.

- A sua cliente não ficou seriamente traumatizada.

- Ai, não? O que o leva a pensar isso? Neste momento, Bertha teve a certeza de que Fosdick estava preocupado.

- Nessas circunstâncias - objectou ele, considero necessário que o nosso médico tenha oportunidade de observar a sinistrada.

- Cada coisa na devida altura - afirmou Bertha, com segurança.

- Que quer dizer com isso?

- Terá que obter uma requisição do tribunal.

- Mas nós não queremos ir para o tribunal.

- Quero dizer que, depois de o caso estar no tribunal, podem requisitar esse exame médico.

- Tem pois a intenção firme de ir para tribunal?

- Com certeza que vocês não pensam, nem por um minuto sequer, que conseguem livrar o vosso homem de sarilhos, com uma simples caixa de bombons e um cartão de boas-festas!

- Não acha, Mrs. Cool, que está sendo pouco razoável?

- Não acho.

- Oiça cá - propôs Fosdick, conciliatoriamente, suponhamos que estabelecemos um acordo em bases que, efectivamente, conferem à senhora uma justa compensação.

As lesões da sua cliente não são graves e não podem ascender àquela exorbitante quantia que mencionou, mas, por razões óbvias, não agradaria à companhia envolver-se num processo judicial. Suponha que propomos três mil dólares, a pronto e a dinheiro, agora mesmo?

Bertha inclinou-se para trás, na cadeira, e soltou uma gargalhada.

- Bem - concedeu Fosdick-, digamos cinco mil?

Bertha receou que os seus olhos traíssem o que pensava.

- Você não consegue aperceber-se do ridículo dessa proposta?

- Mas, Mrs. Cool, concordará que cinco mil dólares constituem uma enorme oferta?

- Acha?

- Quanto espera conseguir?

- O que cair na rede é peixe.

- Creio que chegou a altura de a senhora fazer uma proposta - anunciou Fosdick, pondo-se de pé. - Atingimos o nosso limite. Eu... só estava autorizado a acordar, hoje, uma entrega de três mil dólares, procedendo-se à entrega dos dois mil remanescentes, após a conclusão das negociações. Eram essas as minhas instruções. Foi da minha inteira responsabilidade que apresentei a proposta final.

- Foi muito decente da sua parte - apreciou Bertha.

- Tem o meu cartão - anunciou Fosdick, com dignidade.

- Poderá telefonar-me, quando entender conveniente aceitar a nossa proposta.

- Não perca tempo ao pé do telefone, à espera que eu lhe ligue.

- E escuso de sublinhar - finalizou Fosdick - que se trata unicamente de uma proposta de compromisso; não poderá ser utilizável em tribunal; não constitui admissão de culpa por parte do nosso segurado e, a menos que só decorra um prazo razoável, poderá ser considerada prescrita e ultrapassada.

Com elaborado carinho, Bertha sussurrou:

- O prazo que prescreva agora mesmo, se assim o entenderem. Para mim está O. K.!

Fosdick saiu do gabinete, tão imperturbável quanto possível.

Bertha Cool deu-lhe tempo a que chegasse ao elevador, após o que correu para junto de Elsie, ordenando:

- Mande um telegrama ao Donald:

- Outro?

- Sim.

Elsie pegou no lápis, pronta a estenografar. Bertha ditou:

QUERIDO DONALD. VOCÊ TEM SIDO MUITO LINDO E ÚTIL MANDANDO À BERTHA AS SUAS ESPERTAS SUGESTÕES. MEUS MELHORES AGRADECIMENTOS. DONALD ADORADO EXPLIQUE POR QUE RAZÃO TERIA JOSEPHINE MENTIDO ACERCA ACIDENTE? PORQUE TERIA SACRIFICADO BELO ACORDO MONETÁRIO SÓ PARA NÃO CONTAR EXACTAMENTE QUE ACONTECEU MOMENTO ACIDENTE? BERTHA PAGA TELEGRAMA. MONTES DE AMOR E MAIORES FELICIDADES PARA SI.


- É tudo? - perguntou Elsie. - Tudo?

- É tudo.

- E aquele outro telegrama que ficou, se não me engano, na gaveta da sua secretária? Também quer que o envie?

- Deus me valha! Não! -exclamou Bertha. - Tire-o para fora, rasgue-o em pedaços, meta-o no cesto dos papéis... E rasgue-me também o rascunho que fez dele a lápis. Eu devia estar terrivelmente zangada e fora de mim, quando ditei uma coisa daquelas. O querido Donald é, realmente, um diabinho muito esperto.

O sorriso de Elsie era enigmático, quando se informou:

- Mais alguma coisa?

- Mais nada.

 

XXII

VALLEJO, CALIFÓRNIA 1942, AGOSTO 31 (TELEGRAMA URGENTE PAGÁVEL DESTINATÁRIO) BERTHA COOL, INVESTIGAÇÕES CONFIDENCIAIS ’ EDIFÍCIO DREXEL LOS ANGELES, CALIFÓRNIA SUGIRO INTERROGUE COMPANHEIRA APARTAMENTO.
CUMPRIMENTOS.
DONALD LAM

 

XXIII

A porteira dos Apartamentos Bluebonnet abriu a porta e começou a desfiar:

- Muito boa tarde. Temos alguns apartamentos, de primeira qualidade, com... - interrompeu a ladainha, mal reconheceu Bertha Cool, e ia fechar a porta, quando Bertha a impediu, declarando:

- Um momento, por favor. Posso arranjar-lhe maneira de ganhar dinheiro.

- Diga lá - anuiu a porteira, depois de hesitar.

- Ando à procura de uma pessoa e, se me ajudar a encontrá-la, creio que o meu cliente saberá mostrar-se agradecido... com dinheiro, é claro.

- Quem? - interessou-se a mulher.

- A jovem que se mudou ao mesmo tempo que Josephine Dell.

- Refere-se a Miss Myrna Jackson?

- Sim.

- Que lhe quer?

Bertha abriu a bolsa, extraiu um cartão e entregou-o à porteira.

- Ela foi testemunha de um acidente de automóvel e eu dirijo um escritório de investigações.

- Quanto?

- Dez dólares.

- Quando?

- Logo que a encontre.

- Taça pequena, para jogo comprido!

Bertha brindou-a com o seu melhor sorriso.

- Não lhe dá muito trabalho. Diga-me apenas o que sabe acerca dela.

- ’tá bem, entre.

A porteira conduziu Bertha a um andar térreo, indicou-lhe uma cadeira, abriu um armário contendo uma fila de cartões e seleccionou um, com nomes e moradas.

- Faz exactamente um mês que veio morar para aqui - explicou. - A criada que faz a limpeza contou-me que tinham escrito um outro nome junto da campainha da porta de Miss Dell. Quando esta apareceu, perguntei-lhe quem era a outra e ela respondeu que se tratava de uma amiga que se mudara para o seu apartamento. Tive de lembrar-lhe que o contrato de aluguer só se referia a um hóspede e ela começou logo a barafustar comigo, perguntando que mal é que tinha se duas pessoas juntas gastavam mais as paredes do quarto do que se fosse só uma.

Eu achava que ela tinha razão, mas não sou eu quem faz as regras do prédio; só me cabe fazê-las cumprir. É um Banco que dirige esta coisa e, de lá, disseram-me que aumentasse cinco dólares no próximo pagamento da renda e que devia notificar a locatária com trinta dias de antecedência. Tenho uns impressos para isso, onde anoto o número do apartamento, o custo da renda e a assinatura do hóspede. Ela ficou «bera como a ferrugem», mas pagou os cinco dólares.

- Disse-lhe que se ia embora?

- Nessa altura, não. E, depois, nunca mais a vi.

Só falei com a outra.

- Durante quanto tempo morou cá Miss Dell?

- Fez ontem cinco meses.

- Chegou a conhecer, portanto, essa tal Myrna Jackson?

- Sim. Vi-a duas vezes. A primeira quando veio cá falar acerca do aumento da renda e que eu lhe disse que eram regras da casa e que eu não dirigia isto.

- E a segunda vez?

- Na noite passada. Veio dar-me a chave e explicou-me que Miss Dell ia trabalhar com um homem que andava sempre a viajar, pelo que não podia manter o apartamento. Há uma cláusula no contrato de arrendamento que obriga quem se muda a pagar cinco dólares para despesas de limpeza e Miss Jackson declarou que não ia pagar dois dólares e meio, quando só cá tinha estado quatro semanas e que a outra é que era a inquilina que vivia cá há mais tempo. Penso que as duas discutiram, uma com a outra, por causa disso e que Miss Dell entrou com quatro dólares e Miss Jackson só com um.

Fiquei com a impressão de que aquilo as deixou de «candeias às avessas». Miss Jackson entregou-me um sobrescrito com as chaves e com os cinco dólares da limpeza.

Pareceu-me uma rapariga muito agradável, atravessando algumas dificuldades, pois ambiciona seguir a carreira artística. Eu disse-lhe que se ela quisesse ficar no apartamento, pagaria menos cinco dólares, pois seria uma só locatária.

- E ela ficou?

- Não quis - respondeu a porteira, rindo. - Imagine que teve a «lata» de dizer-me que nada tinha contra mim, pessoalmente, mas que eu podia dizer ao Banco que dirige isto que não ficaria aqui, nem que fosse o único apartamento do mundo. Julgo que fez as malas e partiu esta tarde. Depois voltou, à noite, para acertar as contas com Miss Dell. A esta, nunca mais a vi...

- E Miss Jackson deixou-lhe alguma indicação do local para onde ia?

- Há nisso dez dólares para mim? - quis certificar-se a porteira.

- Sim.

- Quando eu der a morada?

- Não. Quando eu encontrar Miss Jackson.

- Como posso ter eu a certeza de que a senhora volta cá a dizer-me que a encontrou?

- Não sei - respondeu Bertha.

- Bem, arrisco. Fica no Edifício Maplehurst, na Grand Avenue. Miss Jackson é, na verdade, uma rapariga encantadora.

Disse que as regras do prédio eram injustas, mas que eu não tinha culpa disso. Agora Miss Dell era diferente.

Embirrava comigo. Se um dia precisar que eu dê informações a seu respeito, para alugar um outro apartamento, eles que venham cá falar comigo, que vão bem aviados.

- Tem alguma coisa contra ela?

- Nada de especial, mas, primeiro, foi aquela questão por causa do aumento da renda e, depois, não sei se sabe que ela trabalhava para um homem muito mais velho do que ela…. do que ela... Sabe quem era, um tipo meio Coxinho, de bengala? ’; - Sim, creio que sim.

- Pois bem, ele veio cá uma ou duas vezes. Não tenho nada de especial contra ela a não ser ter «refilado» comigo por eu cumprir as ordens do Banco. Mas nós estávamos a falar do Maplehurst... Não diga a Miss Jackson que fui eu quem lhe deu a direcção, pois ela pediu-me que não dissesse a ninguém para onde se mudava... fosse a quem fosse.

Impaciente, Bertha Cool tentou abreviar a conversa.

- Logo que consiga localizá-la, o meu cliente manda-lhe um cheque.

- Já pode mandar-me, porque a morada é essa.

- O meu cliente funciona de outra maneira. Só me paga resultados, depois de obtê-los.

- Bem, não se esqueça. Nunca diga a Miss Jackson quem lhe deu a informação.

- Disso pode estar descansada.

Com o brilho do caçador nos olhos, Bertha Cool tomou um autocarro para os apartamentos Maplehurst, na Grand Avenue. A mulher que olhava pelos apartamentos era uma ruiva angulosa, desenxabida, que examinou Bertha suspeitosamente.

Nunca ouvira falar de Myrna Jackson, na sua vida; tinha alguns apartamentos vagos e, se essa jovem fosse morar para lá, dentro de dias, poder-lhe-ia entregar uma mensagem.

Bertha Cool pressentiu que a mulher lhe mentia, mas como, de momento, nada pudesse fazer, adiou essa investigação para um futuro plano de campanha.

Os jornais da tarde anunciavam, em grandes parangonas:
 

Pedinte Cego Procurado pela Polícia.

A pedido de Bertha Cool, um tipógrafo, usando uma tinta que secava rapidamente, imprimiu uma dúzia de sobrescritos e folhas para correspondência em papel caro, com o timbre: BANCO NOCTURNO SUPERSORTEIO, S. A. R. L. Edifício Drexel, Los Angeles, Califórnia.

Bertha levou os impressos para o escritório e combinou com o ascensorista que lhe entregasse a ela, pessoalmente, qualquer correspondência que viesse para aquele endereço. Depois, já no seu gabinete particular, chamou Elsie Brand e ditou-lhe uma carta que deveria ser, posteriormente, dactilografada no papel timbrado.

Cara Miss Jackson
Na intenção de manter vivo o interesse por este Banco Nocturno, organização de investimentos cinematográficos e teatrais, foi criado um fundo para produções artísticas, com um prémio a sortear de dois em dois meses. Torna-se, contudo, necessário tomar precauções extraordinárias, na verificação de que as pessoas contempladas se tenham, efectivamente, inscrito num dos nossos agrupamentos teatrais, durante os últimos três meses. Se Miss Jackson se encontra nessas circunstâncias, teremos a honra de poder oferecer-lhe uma oportunidade que, indubitavelmente, lhe proporcionará grande satisfação. Sublinhamos, porém, que sendo a habilitação a este supersorteio integralmente gratuita, sem qualquer desembolso por parte dos concorrentes, não poderão estes aspirar a qualquer outro prémio além daquele atribuído a um único contemplado, na extracção bimensal.
Com os nossos melhores cumprimentos, :
BANCO NOCTURNO SUPERSORTEIO, S. A. R. L

 
- Agora, Elsie, assine isso - ordenou Bertha. - Não tenha receio, pois já tratei do assunto do recebimento do correio, com o ascensorista.

- Não está a utilizar, ilegalmente, os Serviços Postais, para cometer uma fraude?

- Lérias! Quando essa Myrna aparecer por aí, meto-lhe vinte e cinco dólares nas unhas, como compensação.

- E espera que ela apareça?

- Ia jurar que sim. Logo que leia a carta, vai pensar que se trata de um prémio de quinhentos dólares e que, se não vier logo reclamá-los, alguém correrá a abotoar-se com eles. Segundo creio, ela tem razões de débito financeiro para não desejar mostrar-se muito em evidência, pelo que certamente não irá levantar a lebre junto das autoridades postais e, quando eu a caçar na minha frente, você verá, Elsie, como se vai mostrar uma linda menina, mansinha como um cordeirinho.

Elsie Brand dactilografou a carta, pegou numa caneta de tinta permanente e assinou, comentando:

- Cá está... à sua ordem e responsabilidade.

- Exactamente - confirmou Bertha, com mal dissimulada relutância. - À minha responsabilidade.

 

XXIV

O sargento Sellers sentou-se confortavelmente no gabinete particular de Bertha Cool e fitou-a com um frio cepticismo que ela sentia dificuldade em enfrentar.

- Sabe onde pára esse cego, Rodney Kosling? começou ele por perguntar.

- Não faço ideia.

- É seu cliente?

- Foi. Como já lhe disse, fiz um trabalho para ele.

- Satisfatoriamente?

- Espero que sim.

- Nesse caso, se ele pretendesse outro trabalho qualquer, teria voltado a procurá-la?

- Julgo que sim.

- A circunstância de a senhora estar a trabalhar para um cego torna-se um problema peculiar. Não sabe exactamente se vai ou não tornar a lidar com ele.

- Que quer dizer com isso?

- Geralmente, um homem que é procurado pela Polícia e cujo nome vem no cabeçalho de todos os jornais e que, mesmo assim, não aparece, seria de esperar que voltasse a procurá-la para solicitar o seu auxílio. Ora, com um cego o caso é diferente porque, não podendo ler os jornais e ignorando o que se passa, a senhora não tem, para já, possibilidade de contactar com ele, como seu cliente, nem ele motivo para procurá-la.

- Provavelmente é o que está a suceder - comentou Bertha, com exagerada despreocupação, mas arrependendo-se no mesmo instante em que as palavras lhe saíam da boca.

Sellers, sorrindo, dava a entender que aquele comentário lhe agradara.

- Penso que há uma probabilidade em vinte...

- ... de ele saber que devia contactar comigo?

- Não. De ele saber que não deveria, de forma alguma, contactar consigo.

- Não vejo aonde quer chegar.

- Tente então seguir o meu raciocínio. Eliminámos quase todos os vendedores ambulantes cegos que investigámos e que andam pelas ruas com as suas bugigangas ou tocando viola, o que de resto, não sei se sabe, é um grande negócio. Caçámos quase todos, excepto uma dúzia deles que têm auxiliado a Polícia, de vez em quando, como informadores. Essa gente tem locais definidos, na cidade, onde lhe é permitido trabalhar. Quando morrem, não autorizamos que outros os substituam e assim temos conseguido limpar a cidade, ou, pelo menos, temos tentado fazê-lo.

- E depois?

- Não creio que esse cego consiga arranjar agora um sítio onde possa instalar-se com o seu negócio.

- Não faço a menor ideia. Nunca pensei nisso.

- Eles têm um pequeno clube, uma espécie de cooperativa - prosseguiu Sellers, tranquilamente. Utilizam um carro de aluguer que vai buscá-los a casa, de manhã, para distribuí-los pelos locais de trabalho, e volta, à noite, a recolhê-los, levando-os regularmente para casa da mulher do motorista que lhes fornece um belo jantar quente. Nessa rotina regular, comem, pagam e o motorista torna a repô-los nas respectivas casas.

- Deve ser isso. Se tivesse pensado no caso, também teria chegado à conclusão de que deveriam ter uma organização desse género, tanto mais que não podem guiar um carro e que lhes é difícil utilizarem os transportes públicos e pararem precisamente no local do costume. Mas, quem lhes trata das casas onde vivem?

- A mulher do motorista. Vai a casa de cada um deles fazer a limpeza, uma vez por semana. Nos outros dias eles próprios lá se vão arranjando como podem e a senhora, Mrs. Cool, ficaria espantada se soubesse como se bastam a si próprios.

- Quem é esse motorista?

- Um tipo chamado Thinwell, John A. Thinwell. Ele e a mulher têm óptimas referências. São boas pessoas e portam-se correctamente. Contaram uma história muito interessante.

- Qual?

- Que esses cegos não trabalham aos domingos.

Reúnem-se em casa dos Thinwells, sentam-se a conversar e a ouvir música no rádio e por volta das sete horas jantam, após o que o motorista torna a levá-los às casas respectivas. Ora, no último domingo, cerca do meio dia, Thinwell recebeu um telefonema de Kosling que parecia muito excitado e falou rapidamente avisando-o de que não estaria em casa, nesse dia, e que não iria ao clube. Por essa razão, Thinwell não foi buscá-lo como de costume.

Porém, como tinha de passar por lá, para recolher um vizinho, parou no local, por volta das três horas da tarde e notou que efectivamente tudo estava deserto e que a porta ficara aberta uns centímetros para o morcego poder sair e entrar, como lhe apetecesse.

- Thinwell não espreitou lá para dentro? - inquiriu Bertha.

- Ele diz que só se chegou à porta, porque achou qualquer coisa estranha que lhe atraiu a atenção. Vira o morcego de Kosling esvoaçar junto da frincha da porta e ouviu-o continuar a voar lá dentro. Ora, os morcegos só voam durante o dia se forem perturbados no seu sono diurno. Por isso se pergunta: porque andaria o morcego de Kosling a voar, às três da tarde?

- Fora incomodado - concluiu Bertha, encolhendo os ombros, perante a facilidade da pergunta.

- Exactamente - confirmou Sellers. - E quem o teria incomodado?

- Calculo, mas diga lá.

- Deve ter sido a pessoa que estava a montar a armadilha com a espingarda. Ora, isto leva-nos a outra conclusão interessante.

- Qual?

- Penso que a armadilha foi montada pelo próprio cego.

- O que o leva a admitir isso?

- Pela forma como ela fora colocada. A coisa estava tão visível como um elefante, mesmo num sítio onde poderia ser topada por qualquer pessoa que entrasse.

Depois, ao apontar a espingarda, quem o fez não agiu como alguém que tivesse vista. Estendeu um fio do gatilho ao tripé e deste, ao longo do cano, directamente ao que estava estendido perpendicularmente, para quem viesse ir embater nele. Ninguém, com vista, faria uma coisa tão mal disfarçada.

Sellers fez uma ligeira pausa, meteu um charuto apagado na boca e prosseguiu:

- Ordinariamente, quando alguém é assassinado, fazemos uma investigação junto das pessoas com quem está relacionado e, em noventa por cento dos casos, quando o motivo do crime não foi roubo, o assassino é alguém com quem a vítima tinha íntimo contacto. Ora, noventa por cento das relações de Kosling eram cegos.

Acontece que todos os seus amigos se achavam, às três e quarenta e cinco, em casa de Thinwell e não resta dúvida que a armadilha fora montada antes das três, visto o morcego andar a voar a essa hora.

- As persianas e janelas estavam fechadas? - interessou-se Bertha.

- Sim. Parece que o cego tem a mania de ter tudo sempre fechado.

- Como sabe isso.

-Disse-me Thinwell que foi lá várias vezes.

- E Kosling telefonara a Thinwell antes das três?

-Sim.

- Tê-lo-ia feito de uma cabina pública.

- Sim.

- Como diabo marcou o número?

- É fácil. A senhora não imagina como os cegos são sensitivos. Mal sabem o número, são capazes de discá-lo tão depressa como a senhora. De resto, não sabendo o número, dão a morada à empregada dos telefones e ela faz-lhes a ligação.

O sargento Sellers fez nova pausa e perscrutou friamente o olhar de Bertha. Depois continuou, calmamente:

- Temos duas teorias a considerar: uma delas, segundo a qual esse Jerry Bollman queria falar com Kosling, ou queria tirar-lhe qualquer coisa de casa, e foi até lá, encontrou a porta, deixada aberta por causa do morcego, e começou a explorar o interior...

- E a outra teoria?

- A outra leva-nos a admitir que Kosling se encontrou com Bollman e este o levou a almoçar. Depois conduziu-o a casa, levando-o provavelmente pelo braço e, chegados a casa, Bollman passou-lhe à frente, para abrir-lhe a porta e «bang»!

- Parece-me uma dedução muito razoável - assentiu Bertha.

- Também me inclino para ela, admitindo que Bollman pretendia qualquer informação de Kosling, acerca de um determinado assunto. A senhora faz alguma ideia acerca da natureza desse assunto?

Bertha hesitou e ficou calada.

- Algo que estivesse relacionado com a missão que Kosling lhe confiara, Mrs. Cool - apressou-se Sellers a acrescentar, como se pressentisse que Bertha estivera quase a morder a isca. - Qualquer coisa relacionada com uma mulher.

- Que género de mulher? - inquiriu Bertha apressadamente.

- Aí é que a senhora me deixa às escuras. Poderia ser uma mulher que estaria interessada nele, num aspecto amoroso, a menos que se tratasse de um coraçãozinho generoso e puro.

- Vá pelo puro - aconselhou Bertha. - O outro é disparate.

Sellers fez uma careta de incredulidade e Bertha inquiriu:

- E depois?

- Depois voltamos à teoria de que Kosling estava na posse de uma informação que Bollman desejava obter.

Elsie Brand entreabriu a porta do gabinete, enfiou a cabeça e interrompeu:

- Quer atender uma chamada, Mrs. Cool?

- Desculpe-me por um momento - pediu Bertha a Sellers, depois de ter apreendido um ligeiro sinal no olhar de Elsie. Pegou no telefone e escutou.

Uma empregada dos serviços centrais anunciou:

- Está na linha uma chamada de São Bernardino e pretende que seja paga na recepção.

- A resposta é simples - respondeu Bertha -, muito curta e gentil: aqui não se pagam chamadas que venham de fora.

Ia desligar quando Elsie, que estava na linha, interveio:

- Tive a impressão de que era Mr. Kosling que desejava falar-lhe, Mrs. Cool.

Bertha olhou rapidamente para Sellers, receando que ele tivesse ouvido o aviso de Elsie e, como o sargento não evidenciasse qualquer desconfiança ou interesse, anuiu:

- Ligue lá. Nessas circunstâncias, é diferente.

Ouviu um «clique» e imediatamente a voz peculiar e inconfundível do cego, certificando-se:

- É Mrs. Cool?

- Sim.

- Não permita que saibam onde estou, nem mencione nomes ao telefone, está a perceber?

- Sim.

- Tive conhecimento de que a Polícia anda à minha procura.

- Sim.

- É mau?

- Creio que sim.

- É capaz de vir ter comigo, sem que ninguém dê por isso?

- Vai ser muito difícil.

- É muito importante.

- Onde?

- Hotel Sequoia, em São Bernardino.

- Nome?

- Não sei. Não posso ler e não posso ver o registo.

Devo estar registado no meu próprio nome.

- Isso é mau - disse Bertha.

- Mas posso dar-lhe o número do quarto.

- Qual?

- Quatrocentos e vinte.

- Isso basta-me. Espere, até ter notícias minhas.

- Está bem, espero aqui.

Bertha desligou.

- Parece andar muito atarefada - comentou Sellers.

- O diabo é que anda! - resmungou Bertha, desgostosamente.

- Quando as pessoas me telefonam pedindo-me que eu pague a chamada, é sinal de que se trata de um negócio com que os tipos das contribuições não chegam a gastar tinta.

- Geralmente é assim - concordou Sellers, sorridente. - Bem, a questão é a seguinte: temos motivos para acreditar que Jerry Bollman esteve com Rodney Kosling, ontem à noite. Pode ajudar-nos nesse assunto?

- Nada posso fazer a esse respeito. Tenho as mãos atadas.

- Quer dizer que não tem qualquer informação para nos dar ou que se encontra impossibilitada, por uma questão de ética profissional, de trair as confidências de um cliente?

Bertha hesitou por um momento e respondeu:

- Creio que satisfiz todas as suas perguntas e lhe prestei toda a informação possível... que tinha, no momento em que ma solicitou.

O sargento aquiesceu, mas não esboçou o menor movimento para retirar-se. Deixou-se estar sentado a olhar para ela, calmamente.

- Bollman guiava automóvel? - inquiriu Bertha, subitamente interessada.

- Sim. Parou o carro dois blocos mais adiante da casa de Kosling. Só demos com ele na manhã seguinte.

Está registado em nome dele.

- Suponha então que Bollman conduziu Kosling a casa. Suponha que a sua teoria está certa e que Bollman recebeu o tiro que fora destinado a atingir Kosling. Que teria acontecido a este? Para onde poderia ir um cego?

- Lá no Departamento há quem pense que talvez a senhora o tenha escondido em qualquer lado.

- Pensam que fui eu!? - exclamou Bertha, incrédula.

- Pensam, sim.

- Estão «chalados»! Diga-lhes isso da minha parte.

- Está bem, digo. Mas, cá para nós, não o levou para qualquer lado, Mrs. Cool?

- Não.

- E aquela incursão, de táxi, a casa de Kosling, não era a sua segunda ida, lá, nesse mesmo dia?

- De maneira nenhuma!

- Kosling era seu cliente. Não deixaria de pedir-lhe auxílio se estivesse em apuros. Não estará a senhora a tentar protegê-lo?

- O senhor tem muita piada!

- Ai, tenho?

- Bem, não tem, mas está a tentar ter.

- Por acaso, quando a senhora foi a casa do cego, não iria a um encontro com ambos, isto é, com Kosling e Bollman? E não teria encontrado o primeiro aterrorizado por o outro ter sido atingido por um tiro da espingarda armadilhada? E não teria aconselhado o cego a fugir, pelas traseiras, e a esconder-se num local que lhe indicou?

- Oh, céus! Não.

Sellers poisou as mãos espalmadas nos braços da poltrona, ergueu-se com rapidez e fitando Bertha Cool, de sobrolho franzido, ameaçou:

- Não lhe passe pela cabeça andar a esconder criminosos procurados pela Polícia, ou mesmo apenas testemunhas de um crime. Vou agora começar a pôr as coisas a limpo e, se na varredela a encontrar a si, Mrs. Cool, entre a vassoura e a solução deste caso, não espere que eu me mostre muito sociável.

-Nunca o espero.

- Ficámos entendidos?

- Perfeitamente.

Sellers saiu e Bertha foi atrás dele. Acompanhou-o à porta e só a fechou, quando o viu entrar no elevador.

Então virou-se para trás e ordenou a Elsie Brand:

- Telefone para a garagem onde guardo o meu carro.

Depressa, Elsie.

Elsie rodou os dedos rapidamente no disco do telefone e anunciou:

- Aqui a tem, Mrs. Cool.

Bertha pegou no telefone e informou:

- Daqui fala Mrs. Cool. É um caso de emergência.

Têm aí um rapaz, de serviço, que possa vir entregar-me o carro?

- Sim, Mrs. Cool, mas porquê? Fica só a meio quarteirão do escritório.

- Pois fica, mas não quero receber o carro aqui à porta. , - Estou a perceber.

- Vou descer a rua, até à Seventh Street, e aí tomarei um autocarro da linha Oeste. Deixo o escritório neste mesmo instante. Quero que o seu empregado me apanhe na rua, seguindo lentamente, ao longo da Seventh Street. Achar-me-á, mais ou menos, entre a Grand Avenue e a Figueiroa Street. Logo que me vir, parará só o tempo de eu saltar para o banco de trás e continuará por mais dois ou três quarteirões. Então passar-me-á o volante e voltará para a garagem de autocarro. Entendeu?

- Sim, Mrs. Cool.

- É esse o género de serviço que aprecio - elogiou Bertha. - Saio já.

- O carro sairá daqui, dentro de três minutos.

- Leve cinco. Quero certificar-me de que o campo está livre e não haja desencontros.

Bertha desligou, agarrou no chapéu, enfiou-o na cabeça e ordenou a Elsie Brand:

- Feche o escritório às cinco horas em ponto. Se alguém lhe perguntar onde me encontro, responda-lhe que não sabe, que supõe que fui falar com uma testemunha.

Não esperou que Elsie dissesse qualquer coisa e correu para o ascensor. Apressadamente, palmilhou a rua até à paragem do autocarro da linha Oeste, entrou no primeiro que passou e apeou-se entre a Grand Avenue e a Figueiroa Street. Aparentemente ninguém olhou para ela, senão de relance, e não viu carros suspeitos nem transeuntes interessados nos seus movimentos. Esperou dois minutos assegurando-se de que não era seguida nem espiada, até que viu o rapaz da garagem conduzindo o seu carro, lentamente, no meio do tráfego. Fez-lhe um sinal, enfiou pela porta traseira, mal ele a abrira, de dentro, e indicou-lhe:

- Siga em frente.

O arranque do carro fê-la desequilibrar-se no encosto.

Endireitou-se e logo a seguir informou:

- Quero que volte à direita, na Figueiroa. Volte à esquerda, na Wilshire, siga em frente durante quatro ou cinco quarteirões, volte novamente à esquerda e pare a meio do quarteirão.

Enquanto o empregado cumpria as suas instruções, Bertha tirou um espelho da bolsa e começou a arranjar o rosto. Através do vidro da retaguarda vigiou, por meio do espelho, todos os carros que a seguiam, até se assegurar de que ninguém se preocupava com ela. Quando o rapaz virou à esquerda, na Wilshire, Bertha mandou-o parar, saiu do carro e disse:

- Muito bem! Agora tomo conta dele. Você vai até à Seventh Street e apanha um autocarro. Há uma paragem mesmo à esquina.

Bertha estendeu-lhe dez cêntimos mas, vendo a expressão com que ele a fitou, juntou-lhes mais vinte e cinco.

- Obrigado, Mrs. Cool.

A resposta de Bertha pareceu um rugido sufocado.

Sentou-se ao volante, puxou as saias para cima, até sentir os joelhos livres, ajustou o espelho retrovisor e esperou, atentamente, cinco minutos. Então, descreveu uma volta em U e regressou à Wilshire; virou à direita, para a Figueiroa, depois à esquerda, desenhou um oito, em volta de dois quarteirões e, finalmente, dirigiu-se à Union Station.

Arrumou o automóvel, entrou na estação, olhou em volta perscrutadoramente, e voltou para trás. Retomando o carro, desceu a Macy Street.

Já a caminho de São Bernardino, Bertha Cool estava moralmente certa de que ninguém a seguira. Chegou a Pomona, no momento em que as lojas começavam a fechar, e fez uma breve paragem, apenas para comprar uma mala barata, mas avantajada, um vestido de saia e casaco que serviria a uma mulher alta e magra, um casaco comprido de tecido leve e preço módico e um chapéu de abas largas, fora de moda. Juntou esta nova mala à que trazia no porta-bagagem e partiu.

Quando chegou a São Bernardino, teve o cuidado de certificar-se de que não era seguida, antes de arrumar o carro em frente do hotel. Tocou a buzina para chamar a atenção do bagageiro, entregou-lhe as malas, no balcão da recepção, registou-se como sendo B. Cool, de Los Angeles. Pediu um quarto interior, mais económico, e deram-lhe o 214. Estudou a sua localização e objectou não gostar dela, pelo que acabou por escolher o 381.

Explicou então que teria de fazer um telefonema para confirmar se deveria ficar ou não na cidade, pelo que desejava, entretanto, lhe guardassem na portaria a mala já usada, até saber se a faria subir ou se viria buscá-la.

Declarou desejar pagar, de qualquer maneira, um dia adiantado. Entregou o dinheiro, com visível sacrifício, guardou, cuidadosamente, o recibo e consentiu que o paquete transportasse a mala nova. O rapaz desempenhou magnificamente o seu papel, abrindo as janelas, acendendo as luzes, correndo cortinas e verificando se havia toalhas limpas nos toalheiros.

Bertha deixou-se ficar junto da cama, observando as actividades do diligente paquete e, quando este terminou o espectáculo, acercando-se dela com um sorriso de evidente intenção, não teve outro remédio senão extrair da bolsa uma moeda de dez cêntimos e espetá-la na mão do rapaz. Como o sorriso deste se mantivesse tão estendido como a mão, Bertha, após um momento de hesitação, juntou-lhe mais cinco cêntimos. Compreendendo que daquela cliente não levaria mais nada, o paquete inquiriu:

- Deseja mais alguma coisa?

- Nada. Vou tomar um banho e descansar um pedaço.

Por favor dê lá em baixo recado de que não quero ser incomodada de forma alguma, nem sequer receber telefonemas.

Pendurando do lado exterior da porta o letreiro «Não incomodar», apagou as luzes, saiu para o corredor, fechou a porta à chave e, carregando com a mala recentemente adquirida, procurou as escadas e subiu-as até ao quarto andar, imediato, onde procurou o quarto 420. Também ali estava dependurado um idêntico letreiro «Não incomodar».

Bertha bateu levemente.

- Quem é? - ouviu-se a voz de Kosling perguntar.

- Mrs. Cool.

Ouviu o tactear da bengala, o som de correr os fechos de segurança e deparou-se-lhe um Kosling mais velho e abatido, recortado na abertura da porta.

- Queira entrar.

Bertha penetrou no aposento, onde pairava o cheiro de ocupação humana. O cego fechou a porta e ela exclamou:

- Meu Deus! Abafa-se aqui dentro! Você tem todas as janelas e cortinas fechadas.

- Bem sei. Tinha medo de que alguém me visse.

Bertha dirigiu-se para as janelas, correu as cortinas, levantou os estores e abriu as vidraças.

- Ninguém pode vê-lo. Este quarto é interior.

- Desculpe - disse o homem numa voz paciente.

- É o inconveniente de ser cego. Nunca podemos saber se não haverá uma outra janela, em frente da nossa, mesmo sendo um quarto interior.

- Tem razão - concordou Bertha. - Como conseguiu saber o que se passava?

- Estava a ouvir música, no rádio, quando começaram a dar o noticiário. Foi então que soube o que sucedera.

- E o que fez?

- Telefonei-lhe.

- E esteve aqui todo esse tempo, até decidir telefonar-me?

- Sim.

- Porquê?

- Porque Bollman assim me aconselhou.

- Bollman! - admirou-se Bertha. - Muito bem, conte-me tudo o que aconteceu.

- Não tenho nada para contar. A senhora é que deve informar-me do que se passa.

- Diga-me primeiro tudo quanto sabe.

- Bem, eu tenho um motorista, isto é, não sou só eu mas somos vários a utilizarmos os seus serviços...

- Sei disso - cortou Bertha. - Comece por relatar como foi que contactou com Bollman.

- A primeira vez que veio ter comigo, não sabia quem ele era. Deitou cinco dólares na lata, um após outro e...

- Também sei disso. Conte o resto.

- Como é natural, fiquei a lembrar-me dele pelo som dos seus passos e pelo odor peculiar do seu tabaco, bastante desagradável.

- Está bem, lembrou-se dele. E depois, quando tornaram a encontrar-se?

- Ontem.

- Quando?

- Por volta do meio-dia.

- Que aconteceu?

- Veio a minha casa, por volta do meio-dia e disse-me: «Você não sabe quem eu sou, mas desejo fazer-lhe algumas perguntas. Se responder correctamente, pode fazer um bom negócio.» Ele pensava que eu não sabia quem ele era e eu não quis dar-lhe a entender que o reconhecera como sendo a pessoa que me deitara os cinco dólares na lata. Se alguém não deseja ser identificado, faço-lhe sempre a vontade. Portanto limitei-me a sorrir e perguntei-lhe:

- Muito bem, que deseja?

Então ele falou-me de si e inquiriu se eu a tinha contratado para fazer uma investigação. Naturalmente não me alarguei muito e mostrei-me vago nas respostas. Não gosto de falar nos meus assuntos privados a pessoas estranhas e eu só o conhecia por ter deitado o dinheiro daquela única vez. Respondi-lhe que se quisesse saber do que se tratava, bastar-lhe-ia pôr-se em contacto consigo.

- E depois?

- Disse-me que a jovem que me mandara um presente desejava falar comigo mas que, infelizmente, não podia deslocar-se até mim, pelo que muito apreciaria se eu pudesse ir até onde ela se encontrava. Disse-me que poderíamos almoçar juntos e que depois, me levaria ao encontro dela e, finalmente, me conduziria a casa.

- Adiante, adiante.

- Talvez a senhora não imagine como é aborrecida a vida de rotina que levamos. É um tipo especial de solidão.

Vivemos numa grande cidade, ouvimos a multidão passar por nós e conhecemos algumas pessoas pelos seus passos e vozes, quase como se as pudéssemos ver, mas, trocar algumas palavras, não é conversar. Quando nos falam, limitam-se a trocar connosco algumas expressões de simpatia. Às vezes até preferíamos que não falassem.

Bertha anuiu com um gesto de cabeça, mas lembrando-se de que Kosling não podia vê-lo, murmurou:

- Compreendo. Continue a relatar-me os factos, tão pormenorizadamente quanto puder.

- Como é natural, aproveitei essa oportunidade de quebrar a rotina e gozar um pouco de companhia humana.

Bertha, mudando bruscamente de assunto, comentou:

- Você trazia uma data de «massa» quando veio ao meu escritório. Essa actividade a que se dedica é lucrativa?

Kosling sorriu.

- Acontece que a mendicidade permite acumular alguns lucros. Não temos escrita contabilística e estamos livres de qualquer espécie de encargos comerciais, nem pagamos impostos. Ao fim de algum tempo podemos alcançar a nossa independência.

- Nesse caso, por que razão continua a ir sentar-se no seu banquinho, a mendigar, se já não tem verdadeira necessidade disso?

- Simplesmente por uma necessidade de companhia, para poder sentir-me fazendo parte das coisas que me rodeiam. Comecei a pedir quando não tinha outra alternativa. Não possuía qualquer educação ou instrução especial e não podia conquistar amigos entre as pessoas com que gostaria de conviver.

- Desculpe, Kosling, mas custa-me a crer que todo o seu dinheiro provenha da mendicidade. Houve mais alguma coisa?

- Bem, sim. Mas isso é uma longa história.

- Faça-a mais curta.

- Havia um homem que se mostrava bastante generoso comigo, alegando que eu lhe dava sorte. Certo dia deu-me algumas acções de uma companhia de petróleo do Texas. Limitou-se a enfiar um certificado dessas acções na minha lata. Eu não podia ler. Aceitei a sua palavra como verdadeira e pu-las de parte. Para falar sinceramente, ao fim de algum tempo, esqueci-me delas, até que um dia, outro homem veio ter comigo declarando que andara à minha procura, mas que eu não respondera às suas cartas. Para abreviar, parece que tinham encontrado petróleo, rios dele, nos terrenos a que o meu certificado de acções se referia. O homem fez-me uma oferta e eu não vendi. Preferi guardá-las. Isso passou a dar-me uns juros certos, todos os anos, e como não posso assinar cheques nem manipular uma conta bancária, trago sempre o dinheiro comigo. Gosto de senti-lo aqui. Quando se não é fisicamente normal, o facto de sentirmos uma avultada soma de dinheiro connosco dá-nos maior segurança. Um rolo de notas das grandes fortalece o moral.

- Estou a ver, mas falemos de Bollman.

- Fomos almoçar muito cedo. Conversámos um pouco e ele informou-me de que a rapariga que desejava falar comigo estava fora da cidade. Tinha combinado levar-me a vê-la, por volta das duas horas. Eu não tinha qualquer motivo para desconfiar dele, sentei-me no carro e deixei-me conduzir.

- Falaram acerca de quê?

- Coisas várias, filosofia, política... um pouco de tudo.

- E do acidente de automóvel?

- Mencionou-se o caso.

- Acerca do trabalho que eu fizera para si?

- De uma maneira geral. Nessa altura ele já ganhara a minha confiança.

- E quanto aos presentes que você recebeu da Josephine?

- Também lhe falei neles.

- E depois?

- Trouxe-me para aqui. Nem sequer sabia em que cidade me achava. Disse-me que precisava de fazer alguns telefonemas e pediu-me que esperasse no carro. Assim fiz. Voltou, mostrando-se muito decepcionado e explicando que só à noite, bastante tarde, ou no dia seguinte, poderia encontrar-me com Miss Dell. Acontecera qualquer coisa e ela lamentava imenso o que estava a suceder comigo.

Teríamos ainda tempo de jantar e Bollman trouxe-me para este quarto. Comemos qualquer coisa e ele despediu-se, justificando ter algumas coisas a fazer, pelo que viria buscar-me de manhã. Tenho um relógio pelo qual posso saber as horas. Tiro-lhe a lente e verifico a posição dos ponteiros com os dedos. É a única maneira que me permite avaliar o tempo, quando estou isolado. E tenho de tomar certa atenção para não confundir, por exemplo, as onze horas da manhã com as da noite. Dormi até às nove; então acordei, levantei-me e esperei; depois tomei um banho, vesti-me e tornei a esperar. Este quarto era-me estranho, pelo que tive de explorá-lo. Fixei o local de todos os objectos e houve uma coisa que me aborreceu.

Não consegui saber se as luzes do tecto estavam acesas ou apagadas. Não me recordava se Bollman as acendera, quando tínhamos entrado, ainda com luz do dia a avaliar pela hora. Ora um homem abomina estar a dar espectáculo e, como não sabia se havia um quarto fronteiro ao meu, por cuja janela pudessem observar-me, fechei as persianas e corri as cortinas. Quando achei que já era tarde, peguei no telefone e pedi que me ligassem ao quarto de Bollman. Responderam-me que não estava ninguém registado no hotel com aquele nome. Isso aborreceu-me. Não tinha comido coisa alguma, mas hesitei em encomendar o pequeno-almoço, que, de resto, é refeição que nunca tomo. Liguei o rádio, pus-me a ouvir música e creio que adormeci. Quando acordei fiquei preocupado com a ausência de Bollman. Subitamente o programa musical deu lugar ao noticiário e foi então que soube do que lhe acontecera.

Quanto a mim, não sabia que fazer.

- E decidiu telefonar-me?

- Só depois de decorridas cerca de duas horas. Sentia-me completamente perdido, abandonado.

- Nunca saiu deste quarto?

- Não, nem mandei vir comida. Limitei-me a colocar lá fora o letreiro para não ser incomodado e verifiquei que as letras, ligeiramente em relevo, estavam viradas para o exterior. A Rádio anunciava que a Polícia andava à minha procura e...

- Agora vamos a esse assunto. Por que razão você não quer que a Polícia o encontre?

- Não me importo que me descubram, mas só depois de a senhora, Mrs. Cool, ter averiguado o que realmente aconteceu. Segundo o relato da Rádio, a armadilha fora postada em minha casa, na intenção de matar-me, a mim.

- Parece que foi montada por um cego.

- Como sabe isso?

- Pela maneira como foi armada. O sargento Sellers informou-me acerca das conclusões da Polícia. Estão quase certos de que foi um cego o autor do aparelho que matou Bollman.

- Não posso acreditar que isso seja possível. Nenhum dos meus associados seria capaz de uma coisa dessas.

- E quanto a uma outra pessoa qualquer?

- Não. Os meus associados conhecem a minha casa assim como os outros que vão ao clube e que não são cegos. Um deles não tem as duas pernas e um braço.

Cegos somos só sete.

- Isso deixa seis de fora. Eles estão realmente familiarizados com a sua casa?

- Sim, todos têm lá estado e conhecem «Freddie».

- Quem diabo é «Freddie»?

- É o meu morcego domesticado.

- Ah! Já percebo. Tem-no há muito tempo?

- Há já bastante tempo. É por causa de «Freddie» que deixo a porta entreaberta.

- O sargento Sellers pensa que a armadilha foi montada por um cego. Isso deixa-nos perante seis suspeitos, não é assim?

- Suponho que sim.

- Porque teria Bollman ido a sua casa?

- Não posso fazer a menor ideia. Deve ter lá ido, mal me deixou aqui, no hotel.

- Exactamente! - aprovou Bertha, interessada. Isso explica que ele planeara tudo com antecedência.

- Com que antecedência?

- Não sei, mas certamente antes de tê-lo trazido para aqui. Arquitectara já a coisa em Los Angeles.

-Porquê?

- Só antevejo uma razão. Foi qualquer coisa que você lhe disse, em Los Angeles, que o levou a considerar importante ir a sua casa. Por isso o trouxe para longe.

Restam apenas dois objectos que me causam estranheza.

- Quais são?

- As flores e a caixa-de-música.

- Oh! Espero que nada tenha acontecido à caixa-de-música.

- Não lhe deve ter acontecido nada. Diga-me uma coisa, Kosling: falou a Bollman acerca do seu morcego domesticado?

- Não me lembro.

- O «Freddie» vive sempre lá em casa?

- Sim. É-me muito afeiçoado. Quando entro, vem esvoaçar junto do meu rosto e poisa-me no pescoço.

Gosto muito de morcegos, já que não posso ter um cão ou um gato.

- Porque não?

- Porque não podem bastar-se a si próprios e eu não posso tratar deles. Dão muito trabalho, se realmente gostamos de animais. Não devemos tê-los sempre fechados e temos o problema da sua alimentação. Depois, se se trata de um cão somos obrigados a dar-lhe algum exercício e, com o perigo do trânsito, não o podemos soltar, o que nos força a caminhar bastante. Com um gato há o problema de o deixarmos sair e... sabe como é...

com um morcego não há quaisquer dificuldades. São auto-suficientes.

Há um bosquezinho, nas traseiras, e «Freddie» vivia lá. Depois começou a entrar-me dentro de casa e a caçar-me os insectos que poisavam nas paredes, creio eu. A pouco e pouco habituou-se à minha presença e aproximou-se de mim sem receio. Um dia consegui acariciá-lo e, bem... domesticou-se, ficando a viver lá dentro, que é mais abrigado do que as árvores. Deixo-lhe a porta aberta de forma que pode ir auto-abastecer-se e viver à sua maneira, livremente. Volta sempre...

Bertha mudou de assunto, abruptamente, e inquiriu:

- Você disse a Bollman que eu conseguira localizar Josephine Dell a seu pedido?

- Sim.

- E disse-lhe que já tinha a morada dela?

- Creio que sim.

- E está certo de que também lhe disse ter recebido a caixa-de-música e o ramo de flores?

- Sim.

- E acha que isso lhe causou um interesse especial...

uma certa excitação na voz?

- Não sei. Nada lhe notei na voz e, como sabe, não podia ver-lhe a expressão do rosto.

- Mas certamente que houve qualquer coisa que o preocupou. Trouxe-o para aqui e foi a sua casa buscar qualquer coisa, ou fazer qualquer coisa. Foi então que tropeçou na armadilha que alguém montara contra si.

- Isso é o que não consigo compreender.

Bertha olhou para o tecto e resmungou:

- Raios partam esta situação dos diabos!

- A que se refere?

- A todo este negócio exasperante. Você deve estar na posse da informação que me falta.

- Qual é ela?

- Não sei e o diabo é você também não saber.

É qualquer coisa que não lhe ocorre agora, mas deve ter mencionado a Bollman...

- Sobre que assunto, mais ou menos?

- Talvez sobre o acidente de automóvel.

- Julgo já lhe ter contado tudo a esse respeito.

- Ora aí está. Você julga que me contou tudo o que disse a Bollman, mas a verdade é que ficou qualquer coisa por contar, qualquer coisa que vale uma data de dinheiro para uma data de pessoas.

- E agora, que vamos fazer? Pormo-nos em contacto com a Polícia e contar-lhes a história do princípio ao fim?

- E deixar a Polícia escarrapachar tudo nos jornais?

Nem por um instante! -contrariou Bertha alarmada.

- Porque não?

- Porque estou na pista de um negócio que me vai render cinquenta por cento de, pelo menos, cinco mil dólares... E se você pensa que vou atirar pela janela fora dois mil e quinhentos dólares, está maluquinho de todo.

- O que não vejo é que relação tem isso comigo?

- Bem sei que não vê! É a parte «chata» da coisa!

Vai ficar aqui sentado comigo, a falar... Só a tagarelar, tentando reconstituir toda a conversa que teve com Bollman... Ora comece lá.

- Mas, Mrs. Cool, eu tenho de comer qualquer coisa... Quero ir-me embora daqui para fora e não posso...

- Qual não pode! Pode, sim senhor! - cortou Bertha animosa. - Venha até ao meu quarto. Arranjei um traje de mulher com que poderá disfarçar-se. Vai sair daqui como se fosse minha mãe. Sofreu um ligeiro ataque e caminhará lentamente, apoiado no meu braço. Não precisará da bengala que irá na mala.

- Acha que serei capaz de me sair bem?

- Vamos tentar.

- Não seria melhor que todos soubessem... isto é, que eu pudesse provar que estive aqui...

- Provar como?

- No caso de a Polícia me acusar de ter morto Bollman, poderia demonstrar que estive neste hotel, enquanto o assassinaram.

Bertha juntou os lábios, emitiu um surdo assobio de desaprovação e exclamou:

- Macacos me mordam! Nem pensar!...

- Porque não?

- Esse seu álibi não tem ponta por onde se lhe pegue.

- Porque não? Ser-me-ia absolutamente impossível ter saído daqui a guiar um carro, ir a Los Angeles, matar Bollman e regressar ao hotel.

- Não, mas a armadilha que «limpou» Bollman fora lá posta com antecedência e, de resto, não precisaria de guiar um carro. Qualquer outra pessoa poderia tê-lo conduzido.

- Mas se foi Bollman quem me trouxe até cá e se partiu sozinho, quem mais poderia conduzir-me a Los Angeles?

- É nisso que tenho estado a pensar e até me arrepio, quando imagino quem o sargento Sellers acusará de ter sido o seu cúmplice.

- Quem?

- Eu! - desvendou Bertha, com o desespero nos olhos. - Dei o meu nome no registo do hotel.

 

XXV

Bertha Cool afastou-se da cadeira para onde fizera subir Kosling e recomendou:

- Agora faça por manter o equilíbrio. - Tornou a aproximar-se e, depois de uma rápida avaliação, pediu:

- Agora ponha aqui a sua mão. Essa não, a outra. Isso mesmo, segure-se, por momentos, ao candelabro. Agora aguente-se assim um só instante. Consegue manter-se, um pedacinho, nessa posição?

Gentilmente retirou as mãos das ancas do cego.

Este tranquilizou-a:

- Esteja descansada que não caio.

Bertha tornou a observar o efeito da sua obra, reconsiderou quanto ao esforço que Kosling era obrigado a fazer para sustentar-se naquela posição e decidiu:

- Não posso forçá-lo a continuar com o braço estendido dessa maneira. Espere um segundo. Vou buscar qualquer coisa onde apoiar-se.

Arrastou uma cadeira de costas altas, para junto daquela que servia de pedestal ao cego e disse-lhe:

- Dê cá a sua mão. Segure-se ao espaldar desta «calmeirona». Está firme? Agora deixe-me baixar essa bainha.

Tirou vários alfinetes de um papel dobrado, segurou-os entre os lábios pelas cabeças e começou a colocá-los em redor da saia que Kosling provava. Quando terminou a volta, deu alguns passos à retaguarda para apreciar a bainha improvisada, rente aos pés.

- Parece-me perfeito. Agora desça daí.

Ajudou-o a pisar de novo a carpete, enfiou-lhe o casaco do «tailleur», fechado quase até acima, passou-lhe um lenço em volta do pescoço para cobrir a camisa e sentou-o na borda da cama.

- Não acha que seria mais conveniente, para mim, contactar com a Polícia? - insistiu Kosling, apreensivo.

- Quando ouvi aquela notícia na Rádio, fiquei realmente sem saber que fazer, mas agora, quanto mais penso no caso, sinto que seria talvez preferível...

Denunciando certa exasperação na voz, Bertha retorquiu:

- Oiça-me com atenção, uma vez por todas: você está na posse de uma informação que vale exactamente cinco mil dólares e desses cinco mil dólares, vou arrancar dois mil e quinhentos para mim. Qualquer coisa que disse a Bollman deu-lhe a «deixa». Ele foi a sua casa e caiu na armadilha que alguém preparou para matá-lo a si. Estou danada por descobrir que raio é que Bollman lhe ouviu dizer, para se pôr em campo e ir ao encontro de uma morte que lhe não era destinada. Por outro lado, se a Polícia lhe deita as unhas, mete-o num saco de onde lhe vai ser muito difícil sair. E cos diabos, para mim, vinte e cinco mil «pacotes» são vinte e cinco mil «pacotes».

Percebeu?

- Mas não faço a menor ideia de que informação foi essa!

- Também eu não - admitiu Bertha, mas você é uma mina de oiro ambulante e, raios me partam, se não vou andar colada a si, como irmãos siameses, até conseguir pôr a coisa a limpo. Está a perceber?

- Estou a perceber, sim, mas...

- Pois bem, é tudo quanto você tem de perceber.

Agora vamos sair daqui, enquanto a maré está alta e não corremos risco de encalhar. Você é minha mãe; teve um ligeiro ataque e vamos dar um pequeno passeio. Apoia-se em mim, caladinho e mesmo que alguém lhe dirija a palavra, a sua única contribuição na conversa vai limitar-se a um doce sorriso. Fixe? Vamos a isto.

Bertha deu ainda uns retoques no conjunto, enfiou o braço de Kosling no seu e recomendou:

- Quero que siga a meu lado, tranquilamente. Não dê a ilusão que estou a guiá-lo. Ampare-se apenas no meu braço, como uma pessoa fraca das pernas. Entendeu?

- Creio que sim. Desta maneira? - tentou Kosling.

- Não. Parece que engoliu um espeto. Incline-se um bocadinho sobre o meu ombro. Ora aí está! Muito bem!

Agora vamos.

Bertha guiou Kosling através da porta e fechou-a à chave.

- Como o meu quarto fica no andar de baixo informou -, teremos de descer um lance de escadas.

É capaz de fazê-lo?

- Certamente.

- Pois, pois, mas cuidado com a saia. Desci a bainha e está apenas segura com alfinetes. Embora quase arraste no chão, é necessário que dê passos muito curtos, pois não quero que lhe vejam os sapatos. Atenção aos degraus.

Atingiram sem novidade o terceiro andar. Aí Bertha compôs o chapéu que enfiara na cabeça de Kosling, levou-o ao longo do corredor e, quando, por acaso, o ascensor parou nesse andar, antes que ela tivesse tocado a campainha, aconselhou com carinho:

- Cuidado, mãe, não tropece... - e virando-se para o ascensorista, solicitou: - Desça devagar, por favor.

O rapaz riu-se:

- Oh, «madama», esta coisa só tem uma velocidade, como a lesma.

Chegaram ao átrio e o recepcionista saudou solicitamente a «mãe» de Bertha, que, por instinto, sorriu.

O ascensorista que acumulava as funções de paquete abriu a porta do hotel, enquanto o porteiro que se achava no exterior abria a porta do carro. Bertha, cuidadosamente, ajudou a «mãe» a sentar-se, aconchegando-lhe a saia, de forma a ocultar-lhe os sapatos; deu aos amáveis servidores o benefício de um sorriso, sentou-se ao volante e arrancou.

- Para onde vamos! - perguntou Kosling.

- Para Riverside -elucidou Bertha. - Instalar-nos-emos num hotel, em dois quartos anexos.

Começava a escurecer. Bertha acendeu os faróis e abrandou a marcha. Chegados a Riverside, dirigiram-se para um dos mais velhos hotéis, onde Bertha escolheu dois quartos com casa de banho comum, registando-se como Mrs. L. M. Gushing e filha. Com extremoso carinho, enfiou a «mãe» num dos quartos, a coberto de vistas alheias e a salvo.

- Agora - anunciou Bertha, toca a falar.

Ao cabo de uma hora, quando Kosling achou que já tinha falado tudo e uma fome danada, Bertha encomendou um almoço, para dois, a ser servido no quarto. Uma hora mais tarde, saiu, procurou uma cabina pública e ligou para o hotel de São Bernardino.

- Daqui fala Mrs. Cool - informou. - O que eu receava que acontecesse, aconteceu. Minha mãe sofreu novo ataque. Não poderei, tão cedo, voltar aí. Por favor guardem a minha mala na arrecadação, até que eu possa ir buscar as minhas coisas. Já paguei a conta, adiantadamente, e podem verificar que não fiz telefonemas, nem despesas extras.

O recepcionista assegurou a Bertha que lamentava profundamente a natureza do motivo que a impedia de regressar ao hotel e fez os seus melhores votos para que a mãe se restabelecesse rápida e completamente, afirmando que não teria que preocupar-se com a segurança da mala deixada em depósito.

Bertha agradeceu-lhe, voltou para o hotel e, durante mais duas horas bombardeou Kosling com perguntas, tentando extorquir-lhe o pormenor informativo, numa monótona repetição sem resultado.

Finalmente o cego manifestou-se exausto e irritado.

- Já lhe disse tudo quanto sabia. Não tenho mais nada para relatar-lhe e vou dormir. Desejava nunca a ter visto na minha vida e nunca me ter interessado naquela rapariga. Na verdade...

Neste momento a sua voz tornou-se amargurada e Kosling calou-se como se se arrependesse antecipadamente daquilo que ia proferir.

- Na verdade, o quê? - saltou Bertha inquiridoramente.

- Nada.

- Diga lá o que estava a pensar.

- Oh! Nada, excepto que fiquei desapontado com ela.

- Com Josephine Dell?

- Sim.

-Porquê?

- Pela simples razão de que nunca mais parou junto de mim, nem sequer para me dizer «olá».

- Estava a trabalhar noutro lugar - justificou Bertha. - Enquanto Harlow Milbers viveu, ela trabalhava no velho edifício da esquina e tinha de passar por si, à ida e vinda do escritório, mas depois de o patrão morrer, creio que passou a trabalhar em casa dele, para arrumar alguns assuntos...

- Continuo a não perceber porque não veio ver-me.

- Mas mandou-lhe um lindo presente, não é verdade?

Até dois se fizermos bem as contas.

- Exactamente! Essa caixa-de-música... Ela sabia quanto isso significava para mim! Mais uma razão para permitir-me que eu lhe agradecesse pessoalmente.

- Porque não lhe escreveu?

- A minha caligrafia não é boa e não posso escrever à máquina. Tenho dificuldade em redigir com um lápis e...

- Então, porque não lhe telefonou?

- E fi-lo. Essa é que é a questão. Mas ela não quis perder tempo comigo.

- Alto lá! - interrompeu Bertha, excitada. - Aí está uma coisa que você não me tinha dito. Ela não queria perder tempo consigo?

- Sim. Telefonei-lhe e não estava. Atendeu uma mulher a quem expliquei quem eu era. Respondeu-me que Miss Dell estava ocupada naquele momento, mas que eu podia deixar-lhe qualquer recado. Disse-lhe que desejava agradecer-lhe os presentes que me enviara e que ficaria junto do telefone de onde fazia a chamada, até Miss Dell poder comunicar comigo. Dei-lhe o número.

- E depois?

- Bem, esperei, esperei, mais de uma hora! E ela não telefonou.

- Para onde foi que telefonou? Para casa dela?

- Não, para a residência desse tal Milbers, para quem tinha trabalhado.

- Como diabo descobriu esse número de telefone?

- Foi ela que mo deu.

- Quando parou para falar-lhe, na rua, uma das vezes?

- Sim.

- Não tiveram muita oportunidade para estabelecerem uma íntima amizade - comentou Bertha meditativamente.

- Falámos bastante, um com o outro, embora só trocássemos breves palavras de cada vez. Ela era um dos meus melhores momentos de alegria, senão o único que eu tinha, durante o dia e... ela sabia-o. Por isso, quando vi que não me telefonava tornei a ligar para lá, uma outra vez. A pessoa que me atendeu quis saber quem eu era e declarou-me que ela estava ocupada nesse momento. Lembro-me de ter querido fazer espírito e respondi ser um homem que nunca a tinha visto na vida e que não esperava jamais vê-la. Então chamaram-na ao telefone e ela atendeu. Eu disse-lhe:

«Olá, Miss Dell. Sou o seu amigo cego e venho agradecer-lhe a caixa-de-música que me enviou.» Mostrou-se admirada e perguntou: «Que caixa-de-música?» Expliquei-lhe que me referia à caixa-de-música que ela enviara ao seu amigo pedinte e cego. Respondeu-me que apenas me mandara flores e que estava demasiado atarefada, para perder tempo ao telefone, e desligou. Fiquei apreensivo a pensar se o acidente de automóvel não lhe teria afectado a memória e depois admiti que, por qualquer razão, simulava não se lembrar das coisas, para dar a entender a outra pessoa que estivesse junto dela que ficara amnésica. Talvez se tratasse de uma testemunha do acidente, para estabelecer um acordo, ou talvez ela já soubesse...

- Um momento - interrompeu Bertha. - Está certo de que foi ela quem lhe enviou essa caixa-de-música?

- Absolutamente! Foi a única pessoa a quem falei no assunto e referi quanto apreciava esse género de instrumentozinho.

Convenci-me de que provavelmente ficara mais afectada com o choque do que ela própria se apercebia e foi então que decidi ir ao seu encontro.

- Como soou a voz dela ao telefone? - interessou-se Bertha. - Era a sua fala habitual?

- Não. A voz parecia-me dura e entrecortada. Não me pareceu que estivesse bem, mentalmente. E a sua memória...

- Contou isso a Bowman? - cortou Bertha.

- O quê?

- Essa história do telefonema e da caixa-de-música e o facto de Josephine ter perdido a memória.

- Deixe-me ver... Sim, creio que contei.

Bertha mostrou-se muito excitada.

- Ora você recebeu a caixa-de-música depois de ela ter sofrido o acidente, não é verdade?

- Sim, um ou dois dias depois.

- E como é que o presente lhe chegou às mãos?

- Trouxe-mo um portador.

- E ele disse-lhe de que loja vinha?

- De um antiquário onde fora comprado; não me recordo do nome. O rapaz disse-me que recebera instruções para entregar-me o embrulho e que fora uma menina quem deixara um depósito para que ele fizesse o recado...

- Contou isso a Bollman? A quem mais falou nisso?

- Contei a Thinwell, o motorista que costuma transportar-me.

- Macacos me mordam! - exclamou Bertha, pondo-se de pé, num salto.

- Que aconteceu? - inquiriu Kosling, sentindo-lhe o movimento brusco.

- É preciso uma pessoa ser estúpida e não ver o que se mete pelos olhos dentro!

- Quem?

- Eu! - confessou Bertha, indignadamente.

- Não estou a perceber.

- A caixa trazia uma etiqueta, qualquer indicação da casa onde fora comprada?

- Como quer que saiba? Só tenho consciência da natureza das coisas através do tacto. É estranho que me pergunte se falei a mais alguém nesse assunto. Bollman fez-me a mesma pergunta.

- E você disse-lhe que contara o facto a Thinwell?

- Sim. Tenho um médico amigo e Thinwell sugeriu que eu devia procurar Miss Dell, pessoalmente, com esse médico para que a examinasse, mas que deveria primeiro assegurar-me se fora efectivamente Miss Dell quem me ofertara a caixa-de-música. Thinwell achava que devia ter sido outra pessoa quem ma enviara, mas eu não vejo quem pudesse ser, e não falei a mais ninguém no assunto.

- Não havia um cartão com uma nota a acompanhar a caixa?

- Não. A nota vinha com as flores. A caixa foi entregue tal e qual como lhe contei.

Bertha começou a andar para a porta, parou excitada, voltou para trás, e bocejou deliberadamente.

- Bem, afinal de contas você deve estar cansado.

Que diz a irmos repousar um pouco?

- Que foi que descobriu naquilo que eu disse que a deixou tão excitada? - perguntou Kosling, desconfiado.

- Nada. Por um momento, pensei que havia qualquer coisa, mas... - interrompeu-se para tornar a bocejar audivelmente, não passou de um falso alarme. Não sabe quanto é que ela pagou pela caixa?

- Não, mas calculo que lhe tenha saído muito cara.

É uma peça muito bonita e tem uma espécie de pintura a óleo na tampa.

- Alguém lhe descreveu o que estava pintado?

- Não, mas senti-o com os meus dedos.

Bertha soltou um outro bocejo prodigioso.

- Bem, vou para a cama. Quer ficar a dormir até tarde?

- Sim, se puder ser.

-Nunca me levanto antes das nove, nove e meia declarou Bertha. - Então, até amanhã.

Conduziu Kosling ao quarto anexo, ajudou-o a despir o trajo feminino, guiou-o através do aposento e da casa de banho, para que se familiarizasse com o local e disposição dos objectos e tirou a bengala da mala, colocando-a junto da cama do cego para que ele pudesse tê-la à mão.

Finalmente, despediu-se:

- Boa noite e durma bem. Vou também «ferrar» no sono.

Voltou para o seu quarto, fechou a porta à chave, deslizou suavemente sobre a carpete, saiu para o corredor e entrou no ascensor. Minutos depois, guiava o carro ao longo da estrada para Los Angeles.

Só quando passou por Pomona se apercebeu, subitamente, de que estava a fazer exactamente o que Jerry Bollman fizera vinte e quatro horas antes e, provavelmente, com o mesmo propósito. E, neste momento, Bollman jazia numa sepultura.

 

XXVI

A ocultação de luzes estava em vigor junto da costa.

Ao atingir o alto de um outeiro, Bertha apagou os faróis e arrastou-se à luz dos mínimos, durante cerca de um quilómetro, a trinta à hora. Parou o carro junto da curva do quarteirão onde vivia Kosling, extinguiu as luzes, desligou o motor e escutou. Nada se ouvia, a não ser os últimos ruídos da noite e o cantar dos grilos, o longínquo coaxar das rãs e outros sons misteriosos da Natureza que nunca se ouvem nas cidades populosas.

Tirou a lanterna da bolsa e, com a ajuda do pálido luar, encontrou o caminho até à casa. Experimentou a fechadura e verificou que não se abria. Com certa dificuldade centrou a luz no buraco da fechadura e notou que não havia chave do lado de dentro. A Polícia deveria ter colocado um ferrolho, ou simplesmente fechado a porta e levado a chave.

Então, decidiu-se. Tirou da bolsa um molho de chaves-mestras, que em seu poder constituía uma transgressão perigosa, e começou a servir-se dele. Quando Bertha desejava intensamente uma coisa, nada havia que a fizesse recuar. À terceira tentativa achou a chave que lhe franqueou a porta. Empurrou-a, aguardou alguns instantes do lado de fora, perscrutando o interior, e assegurou-se de que nada insinuava uma ameaça. Então, ouviu um som. O facho de luz da lanterna não descobriu algo de anormal, embora, instintivamente, ela o desviasse para o lado esquerdo no intuito de verificar se ainda lá estava a mancha sinistra na carpete. Estava.

Arrepiada, desviou a lanterna e subitamente pressentiu uma coisa que avançava na sua direcção. Tentou detectá-la com a luz, mas logo os pequeninos dedos se lhe fixaram na garganta.

Bertha saltou para trás, sacudiu os braços, em frente do rosto e levou a mão ao pescoço, onde já não encontrou coisa alguma. O seu grito irreprimível ainda mais a aterrorizou.

Teve então consciência de que tinha de recuperar a serenidade. Ouviu esvoaçar em sua volta e com a lanterna projectou, por um instante, a sombra do morcego na parede.

- «Freddie»! - exclamou. - Maldito morcego.

Percorreu todo o aposento com a luz avermelhada e certificou-se de que não havia qualquer engenho mortífero.

Mesmo assim não conseguia libertar-se da ideia de que poderia existir um perigo invisível. Tornava-se-lhe agora evidente o que teria acontecido na noite fatídica:

Bollman entrando na casa, apressado, para apoderar-se da caixa-de-música e sair de lá, antes que alguém se apercebesse da sua incursão; depois, embatendo no arame da armadilha que lhe enviara a bala fatal.

Bertha procurou controlar-se e evitar esse erro de precipitação. A casa estava bem mobilada, embora modestamente.

Kosling possuía seis confortáveis cadeiras de braços, estofadas, certamente para receber os seus amigos.

Estavam dispostas em volta de uma mesa redonda.

Na parede via-se um armário de portas de vidro, sem qualquer livro lá dentro e, sobre a mesa, também não havia revistas. Numa prateleira, junto da janela, um objecto atraiu-lhe vivamente a atenção. Avançou para ela e logo os seus dedos ávidos o seguraram. Com uma concentração quase microscópica, Bertha analisou a caixa-de-música no seu mais pequeno pormenor. A pintura da tampa fora envernizada, mas sob a camada de verniz distinguiam-se ínfimos pedacinhos de tinta que haviam já caído com o tempo. A madeira era de muito fina qualidade, o trabalho perfeitamente acabado e percebia-se que fora um objecto que alguém conservara carinhosamente, como se fora um tesouro de família. De certa maneira, até era de lamentar que tivesse vindo parar à posse de um mendigo cego.

Com a luz da lanterna a poucos centímetros da caixa, Bertha explorou-lhe a superfície exterior, onde não conseguiu encontrar qualquer marca ou etiqueta. Desapontada, abriu a tampa e, quase instantaneamente, a caixa começou a tocar a melodia das «Campânulas da Escócia», enchendo a sala com a sua suavidade.

Mesmo por debaixo da tampa encontrou o que procurava.

Fora aí colada uma pequenina etiqueta oval com o indicativo: «Britten G. Stellman, Antiguidades Raras».

Tornou a poisar a caixa no seu lugar e a tampa, ao fechar-se, extinguiu as notas musicais. Então Bertha voltou-se, dirigiu-se para a porta, mas reconsiderou, tornou atrás e, cuidadosamente, apagou as impressões digitais.

Depois virou o foco luminoso para a porta e notou que a escuridão que a envolvia dava-lhe a impressão de que vários seres invisíveis se lhe aproximavam, procurando agarrá-la. Tornou a ouvir esvoaçar e compreendeu que o morcego devia sentir a falta de companhia humana, mas Bertha decidiu que não era Kosling e que devia pôr-se a andar dali para fora, quanto antes. Correu para a porta, mas, aí, pensou que o morcego desejaria sair para a noite.

Manteve-a aberta por momentos e esperou até começar a duvidar se o bicho não preferiria ficar lá dentro. Começou, então, a emitir ligeiros ruídos com os lábios, como que a chamar um gatinho ou um pássaro e, não obtendo resultados, exasperou-se:

- Anda cá, «Freddie», meu palerma! Vai lá para fora. Vou sair e fechar a porta e se ficas cá dentro, arriscas-te a morrer de sede. «Bich-bich», «Freddie»!

Talvez por tê-la compreendido, ou simplesmente por ouvir voz humana, o morcego tornou a esvoaçar em volta da cabeça de Bertha.

- Vai-te embora - ordenou Bertha enervada, enxotando-o com a mão. - Fazes-me nervos e se tornas a poisar-me no pescoço, eu...

- Exactamente, matava-o - ouviu-se a voz do sargento Sellers concluir. - Não era isso o que faria, Mrs.

Cool? Começa agora a interessar-me, finalmente.

Bertha saltou para trás como se tivesse sido picada por um alfinete, virou-se e, à primeira tentativa, não conseguiu descobrir o lugar onde o sargento se achava escondido.

Depois viu-o encostado a uma pequena latada, ao canto da entrada exterior, com os cotovelos apoiados no carril de ferro e o queixo enfiado na concha das mãos.

No sítio onde se encontrava, Sellers parecia mais baixo meio metro de que Bertha, como uma raposa espiando um canário.

Olhando-o de cima, Bertha arvorou um sorriso de triunfo, enfrentando o sorriso confiante do sargento.

- Vá lá - desafiou ela. - «Desembuche».

- Assalto é um crime muito sério - observou Sellers.

- Isto não é nenhum assalto - ripostou Bertha.

- Ah, não? Talvez a senhora tenha em seu poder uma portaria especial ou um novo decreto do Supremo Tribunal que altere a antiga lei, mas pelo que sei, penetrar com chave falsa numa propriedade privada, como a senhora fez...

- Acontece que há uma ligeira partícula legal que parece ignorar - interrompeu Bertha. - Para que seja considerado assalto, torna-se necessário que a entrada com chave falsa tivesse por objectivo o cometimento de qualquer furto, grande ou pequeno, ou outro tipo de felonia.

Sellers pensou um momento e soltou uma gargalhada.

- Côa breca! Acredito que tem razão.

- Sei que tenho razão. Não estive associada com o melhor cérebro de Direito deste país, durante vários anos, para nada.

- Isso traz ao de cima uma questão interessante:

qual era a sua intenção ao penetrar nessa casa?

Bertha pensou com rapidez e explicou:

- Tinha de pôr o morcego cá fora.

- Ah, sim, o morcego! Admito que isso me iludiu.

A senhora deu-lhe um nome... «Freddie», se não me engano?

- Exactamente.

- Cada vez mais interessante! E veio cá para o pôr na rua?

- Sim.

- Porquê?

- Sabia que acabaria por morrer à sede, se ninguém o pusesse em liberdade.

O sargento Sellers deu a volta à pequena latada do canto, subiu as escadas de acesso à entrada e parou no mesmo piso em que se achava Bertha.

- Não pretendo fazer-me engraçado, Mrs. Cool. Limito-me a tentar ser polícia. Peço-lhe que se lembre de que não lhe faço perguntas por um mero motivo de frívola curiosidade, mas na minha capacidade de representante da autoridade.

- Sei disso. Expôs a coisa com uma data de palavras escusadas, mas percebi. Se há coisa com que embirre é um «chui» polissilábico!

Sellers riu e Bertha comentou:

- Desde que começaram a meter universitários nas Forças da Polícia, começaram a arruiná-la.

- Então, Mrs. Cool. Não foi tão mau como isso.

- Foi pior.

- Bem, não vamos, de momento, discutir em abstracto as Forças policiais. Estou interessado em morcegos e, em particular, num chamado «Freddie».

- Que quer que lhe diga acerca de «Freddie». Já lhe expliquei o que me trouxe aqui.

- Queria libertar «Freddie». Portanto sabia que ele estava lá dentro.

- Pensei que devia estar.

- Porquê?

- Kosling deixava sempre a porta aberta para que ele pudesse entrar e sair. Lembrei-me de que os inteligentes da Polícia tinham cá estado e concluí que não deixariam de fazer a asneira de fechar a porta, com ele cá dentro.

- Estou absolutamente certo de que o não fechámos aí dentro. Resta-me pois concluir que entrou depois de si, Mrs. Cool.

-Talvez.

- E que lhe meteu um grande susto. A senhora gritou e...

- O senhor também apanharia um grandessíssimo susto, se uma coisa viesse das profundezas da noite para se lhe agarrar à garganta.

- E o morcego fez-lhe uma coisa dessas?

- Fez.

- É muito interessante. Sabe, Mrs. Cool, que é o primeiro caso que conheço, em que um morcego está directamente envolvido. Creio que é a primeira vez em que ouço falar de um homem que possui um morcego domesticado.

- Não é de estranhar. É ainda muito novo.

- Muito obrigado.

- E como explica - perguntou Bertha, achar-se aí sentado à espera que eu soltasse o bicho?

- Isso - explicou Sellers -, foi uma daquelas estranhas coincidências... Tenho andado cada vez mais preocupado com a necessidade de corrigirmos a nossa teoria sobre o que aconteceu naquela noite. Inclino-me para outra, que admite a possibilidade, se não a quase certeza, de que o seu amigo Jerry Bollman teria «apertado» com Rodney Kosling, até lhe espremer uma informação, tão interessante que o levou a pensar na urgência de vir até aqui buscar qualquer coisa que pertencia ao cego. Em vez de vir cá com ele, levou-o para qualquer lado e voltou sozinho, para roubar o que queria. Obviamente, não levou nada... e, se não levou coisa alguma, isso significa que ainda cá está. O que não há dúvida é que tropeçou numa armadilha mortal que o abateu, logo que entrou; uma espingarda armadilhada por um cego, para matar outro cego.

- Continue - incitou Bertha, sarcasticamente. - Não se preocupe comigo, pois tenho «montes» de tempo.

- Então - prosseguiu Sellers, comecei a pensar se não teria sido demasiado crédulo. Estava esta tarde no seu escritório, quando a senhora recebeu um telefonema interurbano...

- Que há de notável nisso? - interrompeu Bertha.

- Nunca lhe aconteceu receber telefonemas de fora da cidade?

- Ora aí é que está - continuou Sellers, com um brilho de triunfo no olhar. - O que foi notável foi a senhora ter recusado a chamada, antes de saber quem falava, e tê-la mandado pagar, quando lhe disseram quem a fazia. E mais notável ainda se me deparou a circunstância que logo a seguir apreendi. Depois de ter desligado o telefone, Mrs. Cool, continuámos a falar de Rodney Kosling, durante um bom pedaço. Ora, a senhora dissera-me que não sabia onde ele se achava, antes de receber aquela chamada, mas não me disse que ignorava o seu paradeiro, depois de ter desligado. Usou até de uma forma peculiar, na construção da frase, quando me afirmou que «respondera a todas as minhas perguntas, com total veracidade, no momento em que lhas fizera».

Não foi assim?

O rosto de Bertha manteve-se inexpressivo e ela não confirmou nem negou.

- Pois bem, Mrs. Cool - prosseguiu o sargento Sellers, admito que não pensei no facto até depois de jantar. Só então me veio à ideia uma interessante possibilidade. Diga-se de passagem que não desejava ridicularizar-me, perante os meus subordinados, mandando um deles para aqui sem qualquer resultado e, por outro lado, não gostaria de incumbir outra pessoa de uma investigação que conduzisse a uma boa pista, quando a inspiração fora minha. E olhe, Mrs. Cool, que se tratava de uma interessante possibilidade: suponha que Bollman veio aqui para buscar qualquer coisa e que, entretanto, a senhora vinha visitar Kosling; suponha também que descobriu o que Bollman procurava e que foi a senhora quem ficou com o tal objecto. Concordará que é uma hipótese deveras interessante!

- Eu não levei nada daqui - afirmou Bertha peremptoriamente. - Não tirei nada, desta casa.

- Como compreenderá, essa é uma afirmação que teremos forçosamente de verificar - afirmou Sellers. - Embora me desgoste imenso fazê-lo, vejo-me na obrigação de pedir-lhe, Mrs. Cool, que suba para o meu carro e me acompanhe à esquadra, onde uma matrona... uma mulher-polícia, desempenhará as funções de apalpadeira e revistá-la-á. Se, efectivamente, se verificar que a senhora não tirou coisa alguma, bem... nesse caso tudo muda radicalmente de feição. Mas se, pelo contrário, se provar que a senhora levou qualquer coisa desta casa, certamente compreenderá que se tornou culpada de crime de assalto. E, na condição de uma pessoa apanhada em flagrante delito de assalto, Mrs. Cool, não poderei deixar de ordenar a sua detenção. Ficará detida até que nos preste um depoimento, muito claro, muito preciso, muito completo, acerca daquilo que a senhora anda para aí a tentar fazer.

- O senhor não pode fazer-me uma coisa dessas! protestou Bertha, indignada. - Não pode...

- Palavra que posso - respondeu Sellers, afavelmente.

- E vou fazê-lo. Se a senhora não trouxe nada consigo ao sair desta casa, suponho que não posso manter de pé uma acusação de assalto, a menos que consiga provar que entrou numa propriedade alheia com intenção de cometer uma outra espécie de felonia. Espero que tenha dado uma vista de olhos pela lei, antes de ter vindo até cá, ou não?

- Por acaso não dei.

- Isso é outra faceta do seu comportamento que teremos de verificar. Por enquanto, não sei ainda o que vou provar contra si. Apenas me limito a detê-la e penso que Mrs. Cool, como estudante de Direito, saberá que qualquer atitude ou gesto seu, tendente a interferir ou a resistir à detenção, só por si constitui crime.

Bertha Cool pensou no que Sellers acabava de expor-lhe, fitou-o nos olhos, reconheceu a inflexibilidade dos seus propósitos, por detrás da máscara sorridente, e cedeu:

- O. K., ganhou!

- Vamos deixar o seu carro arrumado onde está decidiu Sellers. - Não quero que a senhora se desfaça de qualquer objecto, no trajecto entre este local e a esquadra e, como ouvi a tilintante melodia das «Campânulas da Escócia», deduzi que a senhora examinara a caixa-de-música e lhe abrira a tampa. Torna-se evidente que o objecto que teria subtraído da caixa-de-música, seria de dimensões muito reduzidas e, portanto, muito fácil de escamotear. Por essa razão, não me levará a mal, Mrs. Cool, se eu voltar lá dentro consigo, a fim de trazer a caixinha-de-música para a esquadra.

- Pronto, apanhou-me! Vá para diante e regale-se!

- resmungou Bertha.

- Não me regalo de maneira nenhuma. Não há qualquer regozijo no que sou legalmente forçado a cumprir.

Trata-se de uma simples formalidade. E agora, como terá de caminhar lá para dentro, à minha frente, Peço-lhe que o faça de mãos no ar, de forma que eu possa vigiá-las.

Essa sua lanterna não presta para nada! Estou certo de que vai achar a minha muito mais eficiente.

Como um projector cortando as trevas, o facho luminoso da lanterna de cinco pilhas de Sellers iluminou brilhantemente o caminho, até à porta do pequeno bangaló.

 

XXVII

A matrona escoltou Bertha até à porta do gabinete do sargento Sellers e bateu com os nós dos dedos. Lá de dentro, filtrando-se através da madeira da porta, ouvia-se o tilintar melodioso das «Campânulas da Escócia».

- Entre - autorizou Sellers.

A matrona abriu e, afastando-se para deixar passar Bertha, indicou:

- Por aqui, queridinha.

Bertha fez uma pausa à entrada, virou-se, e mirou a mulheraça: ambas entroncadas, com arcaboiço de buldogue, fitaram-se hostilmente. Depois Bertha ripostou:

- Está bem, queridinha!

- Encontrou alguma coisa? - inquiriu Sellers.

- Nada - respondeu a apalpadeira.

O sargento Sellers franziu o sobrolho.

- Bem, Mrs. Cool. Não venha agora dizer que foi até lá, apenas pelo gosto da experiência.

- Esquecem-se de «Freddie» - lembrou Bertha, prosseguindo venenosamente: -Tem um cigarro? Aquela sua amiga «fanou-me» o maço de tabaco.

- Oh, desculpe. Esqueci-me de devolver-lhe os cigarros - lamentou a mulher-polícia. - Pu-los em cima daquela...

- Não tem importância, queridinha. Fique com eles, com os meus cumprimentos.

A matrona vislumbrou um olhar de Sellers e mostrou-se embaraçada.

- Devia ter-me falado neles, lá em cima, Mrs. Cool.

- Não sabia que me seria necessário fazê-lo - retorquiu Bertha. - Pensei que fosse um privilégio do seu serviço, assim como é hábito os polícias tirarem maçãs, ao passarem pelos tabuleiros das frutarias.

- Não preciso de mais nada, Mrs. Bell - disse Sellers.

A matrona lançou a Bertha um olhar fulminante e saiu calmamente.

- Sente-se - indicou Sellers, dirigindo-se a Bertha.

- Queria um cigarro, não é verdade? Aqui tem um.

Abriu um maço, ainda por encetar, e fez salientar-se um cigarro que estendeu a Bertha. Depois extraiu do bolsinho de lenço, um charuto molhado, cortou-lhe a ponta empastada, meteu-o na boca, com esforço evidente para não o acender de momento.

- ...qualquer coisa acerca da caixa-de-música começou ele.

- Que coisa?

- Pegou-lhe, abriu-a, fechou-a e largou-a. Não tirou nada lá de dentro. Aposto como pôs lá qualquer coisa.

Sellers pegou numa lente magnífica que estava em cima da secretária, segurou na caixinha com enorme cuidado e estudou-a minuciosamente, procurando uma prova de que fora «plantado» ulteriormente qualquer indício.

Como não visse nada de suspeito, estudou a pintura exterior e declarou:

- Creio que é isto - anunciou, apontando para o retrato de uma jovem que ilustrava a tampa.

- O quê?

-O retrato. Não será de uma herdeira de que anda à procura?

Bertha, sentindo-se notavelmente melhor depois da vitória verbal que alcançara sobre a matrona, recostou-se na cadeira e soltou uma gargalhada.

- Onde está a graça? - perguntou Sellers, calmamente.

- Estou a pensar nessa beleza do século dezanove.

Uma cara enfarinhada, com boquinha de morango, por cima de uma «proa» volumosa, estrangulada por um espartilho que rebentaria à primeira piada. E o senhor pensa que fiz todo aquele trajecto, desde...

- Diga, diga - incitou Sellers, quando Bertha se calou bruscamente. - Estava agora a interessar-me. Todo o trajecto desde onde?

Bertha contraiu os lábios com determinação.

- Quase que mo esteve a dizer - comentou Sellers.

Bertha teve a consciência do perigo que correra.

- Todo o percurso desde Riverside - completou ela, expirando lentamente o fumo do cigarro e alertando-se intimamente para não se arriscar a novo deslize.

Sellers olhou para o relógio que tinha sobre a secretária e murmurou, pensativamente:

- Duas horas menos dez. É muito tarde, mas isto pode ser considerado um caso de emergência.

Examinou a etiqueta colada ao interior da caixa-de-música, consultou uma lista telefónica e pegou no telefone.

- Dê-me uma linha exterior - pediu e discou um número.

Alguns momentos depois, dizia suavemente:

- Lamento imenso ter de telefonar-lhe a esta hora.

Daqui fala o sargento Sellers do Comando-Geral da Polícia e a razão do meu telefonema é a seguinte: estou a seguir uma pista importante, num caso de homicídio.

Estou a falar com Britton G. Stellman? Precisava que me informasse se se recorda de uma caixa-de-música, de estilo antigo, com uma escala de metal e um cilindro... e com uma paisagem num dos lados e um retrato de rapariga no outro; toca as «Campânulas da Escócia»...

Ah, estou a ver! Lembra-se? Muito bem. Como é que ela se chama? Josephine Dell, hem?

Durante alguns segundos, o sargento Sellers manteve-se silencioso escutando a voz que parecia uma mosca a zumbir no telefone. Depois fez um sumário das informações colhidas e pediu a Mr. Stellman que lhas confirmasse.

- Vamos lá ver se apanhei tudo bem. Essa Josephine Dell foi à sua loja há cerca de um mês, viu a caixa-de-música, disse-lhe que desejaria comprá-la, mas que não tinha dinheiro suficiente para levá-la, nesse momento.

Então deixou um depósito para que lhe reservassem a caixa, durante noventa dias. Porém, na quarta-feira passada, telefonou-lhe a comunicar que já tinha aquela quantia disponível e enviou-lha depois, por vale telegráfico.

Pediu-lhe que mandasse um portador entregar a caixa-de-música a um cego, sem qualquer outro recado que não fosse: «é um presente de uma pessoa amiga». Foi isso?

O sargento Sellers tornou a escutar o que lhe dizia o seu informador e pediu:

- Deixe-me fazer-lhe mais uma pergunta. Lembra-se de onde esse vale telegráfico fora expedido? De Redlands, hem? Mas não sabe a morada de Redlands? Ah, ela vive em Los Angeles e pensa que passou acidentalmente por Redlands. Não sabe se ela mantém qualquer relação peculiar com esse cego, se é parente...? Ela não falou nisso? Só a viu uma vez, quando pagou o depósito!

Não lhe disse onde trabalhava? Estou a ver. Bem, muito obrigado. Asseguro-lhe que a sua colaboração foi preciosa.

Sim... sargento Sellers, dos «Homicídios». A próxima vez que passar por aí irei agradecer-lhe pessoalmente.

Entretanto, se acontecer alguma coisa relacionada com essa venda, ficar-lhe-ia grato se me telefonasse.

Uma vez mais, obrigado... Adeus.

Sellers desligou o telefone, virou-se para Bertha Cool e olhou-a como se a visse pela primeira vez.

- Muito esperta!--comentou ele.

- Porquê? - admirou-se Bertha.

- Aposto que aquele telefonema que a senhora teve que pagar, esta tarde, foi feito de Redlands, não?

- Pode estar certo de que não foi - assegurou Bertha.

- Não me leva a mal que eu faça uma investigaçãozinha nesse sentido?

- Avance! Faça as investigaçõezinhas que entender.

- Receio, Mrs. Cool, que não esteja a compreender-me.

Durante a investigação que sou forçado a levar a cabo, vai-me ser necessário mantê-la, a si, num local onde possa encontrá-la, de certeza absoluta.

- Que quer dizer com isso?

- Exactamente o que disse.

- Insinua que vai manter-me sob vigilância? - perguntou Bertha indignada.

- Oh, não! - esclareceu Sellers, como se a solução escolhida fosse tranquilizante. - Isso constituiria uma despesa desnecessária para os contribuintes, Mrs. Cool. Nunca me passaria pela cabeça uma medida dessa natureza. De resto, isso causar-lhe-ia, certamente, grandes inconvenientes, não é verdade?

- Então que medida vai adoptar?

- Por outro lado, se a senhora andar por aí, a sirigaitar de um sítio para outro, causar-nos-á uma data de trabalho para a encontrarmos.

- Quer dizer que vai obrigar-me a manter-me fechada no meu escritório? - inquiriu Bertha, com crescente indignação.

- Não, Mrs. Cool! Não seria correcto. Talvez antes no meu.

- O quê - explodiu Bertha.

- Bem, penso que, se a senhora permanecer aqui mais algum tempo, será ouro sobre azul e simplificará o sistema.

- Tem pretexto legal para me manter sob custódia?

- inquiriu Bertha, com evidente hostilidade. - Não pode fazer-me isso!

- Certamente que não, Mrs. Cool. Sou o primeiro a reconhecê-lo.

- Então, como é? - desafiou ela, triunfante.

- Um momento, um momento - disse Sellers ao ver que ela se pusera de pé com a nítida intenção de ir-se embora. - Realmente não posso mantê-la sob custódia, como suspeita de um caso de homicídio, mas tenho que considerar o facto de a senhora ter assaltado uma propriedade privada, esta noite, e isso é felonia.

- Mas eu não tirei nada.

- Não podemos estar absolutamente certos disso, Mrs. Cool.

- Mas eu fui revistada.

- Pode ter-se desfeito do que tirou, durante o percurso até aqui, e pode ter tido a intenção de cometer felonia... crime frustrado. Como vê, Mrs. Cool, temos «pano para mangas» nesta matéria e há ainda um par de coisas que tenho de verificar, acerca das suas «andanças».

-Tais como?

- Por exemplo, a maneira como a senhora deixou hoje o seu escritório. Desceu apressada, tomou um autocarro na Seventh Street, seguiu nele até à Grand Avenue e desceu perto da esquina. Os dois homens que eu tinha incumbido de a seguirem convenceram-se de que se tratara de um rebate falso. A senhora seguia a pé, portanto na dependência do serviço de autocarros. Por precaução, ultrapassaram-na, e mais adiante voltaram para trás, lentamente, até que viram o seu automóvel particular rodar na sua direcção e «pescá-la» do passeio lá para dentro.

Os meus homens não puderam virar naquele ponto da artéria, mas ficaram certos, e eu também, de que a senhora acabara de operar uma «manigância» para furtar-se a qualquer vigilância... o que é suspeito, num caso de investigação de homicídio.

O sargento Sellers premiu um botão de campainha.

Momentos depois, a matrona entrava no gabinete.

- Mrs. Bell - disse Sellers -, Mrs. Cool vai ter o gosto de ficar connosco, pelo menos até amanhã de manhã. Seria capaz de proporcionar-lhe todo o conforto possível?

O sorriso da mulher-polícia denunciou um frio e malicioso triunfo.

- Será um grande prazer, sargento - e virando-se para Bertha, ordenou-lhe: - Venha comigo, queridinha.

 

XXVIII

Passos lentos e metódicos ecoaram ao longo do corredor de chapas metálicas e Bertha Cool, incandescente de indignação, como um ferro ao rubro, ouviu o tinir de um molho de chaves e a introdução de uma delas na sua fechadura. No instante imediato, a porta abriu-se e surgiu uma outra matrona, de olhar inexpressivo, que numa voz mortiça saudou:

- Olá!

- Quem é você? - perguntou Bertha.

- Uma funcionária.

- Que é que quer?

- Mandaram-me levá-la para o escritório.

- Para quê?

- É tudo quanto sei.

- Raios os partam! Não vou. Fico aqui.

- Se fosse você, não fazia isso - aconselhou a mulher.

-Porque não?

- Não lhe serve de nada.

- Deixe-os vir cá buscar-me.

- Não se iluda a si própria. São capazes de vir, se lhes der na «gana», mas se eu fosse você - tornou a matrona a aconselhar, não lhes dava esse gosto e» de resto, também podem «esquecer-se» de si, aqui...

- Muito bem. Fico onde estou.

- Durante quanto tempo?

- Até ver.

- Não ganha nada com isso. Muitas presas têm essa «birra», mas não perturbam ninguém com ela. Você não pode ficar aqui eternamente e terá de sair a certa altura e, então, vai ouvi-los rir às gargalhadas.

A funcionária falava, como se recitasse, numa voz monótona, sem timbre nem expressão de qualquer sentimento e como se receasse que ao falar se escoasse grande parte da sua já ínfima vitalidade.

- Lembro-me de uma presa - continuou, brandamente, que afirmou não sair daqui nem no dia do Juízo Final. Eles mandaram-me deixar a porta aberta para ela ir-se embora, quando quisesse. Ficou cá dentro toda a manhã e só ao meio da tarde se decidiu a sair: então, a «malta» toda recebeu-a com um «ha-ha-ha» que nunca mais acabava.

Sem uma palavra, Bertha levantou-se da tarimba de ferro e seguiu a matrona ao longo de um corredor que conduzia à porta metálica, fechada à chave, de um ascensor. Momentos depois estava num escritório, em frente de outra matrona desconhecida que examinou uns papéis e inquiriu:

- Esta é a Bertha Cool?

- Esta é a Bertha Cool, e é melhor que me dê uma boa vista de olhos, porque não será a última vez que me vê. Eu vou...

A mulher-polícia abriu um armário, tirou lá de dentro um grande sobrescrito de papel grosso e declarou:

- Estes são os seus «pertences» pessoais que lhe foram confiscados, ontem à noite, quando a «meteram dentro». Por favor, Mrs... Cool, examine-os e declare se estão aí todos.

- Vou virar este maldito lugar de pernas para o ar ameaçou Bertha. - Ninguém pode fazer-me uma coisa destas. Sou uma mulher respeitável, com um decente e honesto meio de vida, e...

- Sim, mas entretanto é favor conferir os artigos que lhe pertencem.

- Vou limpar esta cidade. Vou limpar esse sargento Sellers de uma «figa». Vou...

- Eu sei, Mrs. Cool. Sem dúvida que fará tudo isso, mas fora da minha secção. Aqui, só lhe peço o favor de verificar as suas coisas...

- Pensa que será fora da sua secção, mas quando eu começar a varrer isto tudo, verá como a coisa irá dentro de todos os departamentos. Hei-de...

- Quando tenciona levar por diante o seu processo, Mrs. Cool?

- Logo que possa contactar com um advogado.

- Muito bem. Ora a senhora não poderá contactar com um advogado, enquanto estiver cá dentro e não quiser verificar o que é sua propriedade, não será assim?

Bertha Cool rasgou o sobrescrito, espalhou as coisas sobre a secretária, abriu a bolsa e meteu-as lá dentro, com as mãos tremendo de fúria incontida.

- E agora? - inquiriu, raivosamente.

A matrona fez um sinal de cabeça à outra funcionária.

- Por aqui, «madama».

Bertha parou ainda, um instante, em frente da secretária e rugiu:

- Tenho ouvido falar de muitos ultrajes perpetrados contra os direitos de um cidadão, mas este ultrapassa...

- A senhora foi detida, na noite passada, por suspeita de assalto a uma propriedade privada, Mrs. Cool.

Ignoro se a acusação terá prosseguimento. Apenas sei que lhe foi concedida ordem de soltura, pendente de ulterior investigação.

- Estou a ver! - ripostou Bertha. - Agora ameaçam-me.

Quer dizer que se eu intentar qualquer acção judicial, vão buscar essa inventada acusação de assalto de propriedade, não é isso?

- Não sei nada acerca disso. Limito-me a transmitir-lhe o que está aqui escrito na sua ficha. E faço-o, porque é do regulamento informarmos os presos, no momento da sua soltura, quando se trata de suspeitos de crime grave. Muito bom dia, Mrs. Cool.

Bertha não arrancou.

- Sou uma mulher de negócios. Tenho muita coisa importante a fazer relacionada com esses negócios. Desviarem-me dos meus afazeres, manterem-me aqui uma noite inteira e «ferrarem-me» com uma acusação dessa natureza...

- O seu tempo é precioso?

- Certamente que é precioso e não posso perdê-lo...

- Nesse caso, Mrs. Cool, eu não perderia mais tempo aqui dentro.

- Ainda não me vou embora - refilou Bertha, furiosa.

- Quero deixar uma mensagem para o sargento Sellers. Diga-lhe que o seu truque não lhe serviu de nada.

Diga-lhe que vou pôr o seu escalpe no meu cinto e...

BOM DIA!

Bertha virou-se para a porta.

- Mais uma coisa, Mrs. Cool - disse a matrona.

- Que é?

- Não consegue bater com a porta. Pusemos uma mola automática, com essa finalidade... e muito bom dia, Mrs. Cool.

Bertha achou-se lançada para fora da porta de barras de aço, à luz intensa da manhã, como qualquer criminoso vulgar. Mas sentiu que o ar fresco matinal lhe proporcionava uma maravilhosa noção de liberdade e, quando Bertha gostava de uma coisa, gostava mesmo. Teve a sensação de que o dia lhe vaticinava os maiores êxitos, como nunca lhe acontecera.

Eram oito horas e quarenta e cinco, quando entrou no escritório. Elsie Brand abria a correspondência. Bertha enfiou no seu gabinete, como um furacão, atirou com a bolsa para cima da secretária e, numa voz tremente de fria indignação, ordenou a Elsie:

- Ligue-me para o sargento Sellers. «Estou-me nas tintas» para que ele esteja a dormir, ou na casa de banho, ou no que quer que for! Ponha-me na linha.

Elsie apressou-se a cumprir o que lhe era indicado e discou um número.

- Comando-Geral da Polícia? Desejava falar imediatamente ao sargento Sellers, por favor. É muito importante.

Sim... Fala do escritório de Mrs. Bertha Cool... Um momento, sargento. Vou ligar.

- Tenho uma coisa a dizer-lhe - começou Bertha, iradamente. - Estive a pensar nela durante imenso tempo, sentada no raio daquela cela. Quero apenas avisá-lo de que vou...

- Não vá - disse Sellers, no extremo do fio, interrompendo à gargalhada.

- Vou... - repetiu Bertha.

- Vai ficar muito quietinha - interrompeu Sellers, segunda vez, numa voz fria de onde se sumira a vontade de rir. - A senhora utilizou-se abusivamente das vantagens de uma licença concedida a uma agência de detectives e, agora, está sentada numa poltrona de dinamite.

Há muito que Donald Lam e a senhora têm andado para aí a cortar-me as voltas. Houve ocasiões em que o conseguiram e outras em que a coisa lhes correu mal comigo.

Como Lam é esperto, têm-se saído sempre bem das «enrascadas», mas agora a senhora está sozinha e meteu-se numa «alhada» superior às suas possibilidades. Foi apanhada com a «boca na botija» a assaltar uma residência.

Tudo quanto a Polícia tem agora a fazer é informar a Imprensa e a Rádio da acusação de felonia que impende sobre a vossa agência e «caçar-lhe» a licença. Depois...

- Não pense que pode intimidar-me, seu vagabundo dos diabos! - cortou Bertha, desvairada. - Só desejava ser um homem, suficientemente «calmeirão», para ir aí agarrá-lo pelos colarinhos, arrancá-lo dessa cadeira para fora e puxar-lhe as compridas orelhas para a frente dos olhos. Agora já sei como há pessoas que enlouquecem ao ponto de cometerem um assassínio. Só queria que estivesse aqui, para deitar-lhe as mãos aos «fagotes». Eu...

Bertha engasgou-se, espumando de raiva. Então a voz de Sellers soou tranquilamente:

- Lamento que se sinta dessa maneira, acerca do que aconteceu, Mrs. Cool, mas pensei ser necessário mantê-la afastada e quietinha, esta noite, enquanto procedíamos a algumas investigações. E o caso é que essas investigações tiveram, como resultado, um êxito substancial para esclarecimento do crime.

- Não dou um chavo por aquilo que vocês tenham descoberto - trocou Bertha, ainda furiosa.

- E - prosseguiu Sellers, no caso de a senhora estar preocupada e com pressa de voltar a Riverside, para buscar a sua velha «mãe» que sofreu um ataque, posso desde já poupar-lhe esse trabalho, porque a sua «mãezinha» está aqui, neste momento, no meu gabinete. Estou fazendo-o assinar um depoimento, relatando tudo quanto aconteceu. Depois disso, o Procurador de Distrito lerá este depoimento e a senhora poderá passar um novo e, desta vez, longo período de encarceramento. Espero que, com o tempo, Mrs. Cool, compreenda quanto custa desafiar a lei, desrespeitar as regras judiciais, ocultar testemunhas essenciais num processo-crime e recusar-se a colaborar com a Polícia. Lá dentro terá imenso tempo para pensar. A propósito, trouxemos o seu carro para a garagem onde costuma arrumá-lo. Da próxima vez que deseje dirigir-se a algum lado, Mrs. Cool, quando já estiver cá fora, aconselho-a a ir directamente à garagem buscar o carro, em vez de andar a saltar de autocarros, pois pode magoar-se e, embora isso não seja da minha lavra, acho que devo adverti-la de que um júri é muito capaz de convencer-se de que essas viagens curtinhas de autocarro e habilidades com um automóvel se destinam a ocultar uma intenção criminosa, tal como aconteceu quando, ontem, a senhora se dirigiu a São Bernardino.

Saiu-se muito mal, sabe? Foi mesmo muito mal! Adeus!

O sargento Sellers desligou. Desesperada. Bertha fez duas tentativas infrutíferas para poisar o telefone no descanso, até que o conseguiu.

- Que aconteceu? - espantou-se Elsie Brand, olhando-lhe para o rosto.

Mas, gradualmente, a raiva de Bertha dissipava-se.

Uma reacção emocional mostrava-a agora pálida e abatida.

- Estou numa «alhada»! - murmurou, dirigindo-se para a cadeira mais próxima e deixando-se cair no assento.

- De que se trata?

- Saí e fui buscar o cego. «Encafuei-o» num hotel e fiquei convencida de que a Polícia era incapaz de seguir-me a pista. Enterrei-me até ao pescoço! Agora que me caçaram, estou bem caçada! Aquele brutamontes, ... aquele coriáceo sargento da Polícia tem razão! Meteu-me numa barrela!

- As coisas estão assim tão más?

- Estão piores! - suspirou Bertha. - Mas, já agora, não vale a pena parar. Temos que nos manter em movimento.

É como irmos patinar para o meio de um lago e começar o degelo. Se paramos, é mergulho certo. Temos pois que pormo-nos já a andar.

- Nós? Para onde?

- Eu e agora mesmo, para Redlands.

- Porquê para Redlands? Não estou a perceber.

Bertha narrou-lhe as aventuras nocturnas com a caixa-de-música e o interrogatório de Sellers que degenerara em prisão.

- Bem! - exclamou Bertha levantando-se da cadeira com esforço evidente. - Não ferrei olho durante toda a noite. Estava como doida e nunca lamentei ter perdido peso, na minha vida, como na noite passada.

- Porquê? - perguntou Elsie.

- Porquê? Já lhe digo porquê. Estava lá uma matrona, dura como um raio, que começou parvamente a chamar-me queridinha. Era grande e ombruda como um estivador, mas antes de ter-me metido a emagrecer, era muito capaz de deitá-la ao chão e sentar-me em cima dela.

E era exactamente o que eu devia ter feito: ter-me sentado em cima daquele lombo, durante toda a noite. Estou numa «papa», Elsie, completamente desfeita! O que eu devia fazer era sair daqui e ir descansar, até as coisas se aclararem. Os tipos caçaram o cego e ele vai contar-lhes a história toda. O Sellers tinha razão, quando afirmava que eu devia deixar os negócios continuarem na antiga rotina, mas a culpa foi do Donald, sempre a bulir, com aquela cabeça espertalhona a fervilhar de ideias e a incutir-nos maus hábitos. Olhe, Elsie, vou sair daqui, emborcar um uísque e... bem, vou a Redlands.

 

XXIX

Um sol quente, abrasador, caía sobre Redlands e os laranjais verde-escuros contrastavam com o azul-claro do céu, sem nuvens, e com os picos róseos dos montes que se elevavam a três mil metros de altitude acima do nível do mar. Contudo, Bertha, roída de preocupações, não tinha oportunidade para apreciar a beleza do cenário.

Saiu do carro, lançou-se ao longo do passeio, em marcha acelerada, balançando os braços militarmente, e enfiou pelo átrio do sanatório. Numa voz ligeiramente fatigada, perguntou à enfermeira da recepção:

- Têm cá, porventura, uma Josephine Dell?

- Um momento - disse a empregada, consultando um ficheiro e dele extraindo um cartão. - Sim. Quarto particular dois-zero-sete.

- Está lá uma enfermeira?

- Não. Aparentemente a internada está apenas a completar o seu período de convalescença, em repouso.

-Obrigada - soprou Bertha e, retomando fôlego, transportou os seus setenta e cinco quilos, corredor fora, até ao ascensor, que a levou ao segundo andar. Chegada ao 207, bateu gentilmente à porta de dobradiças de mola e empurrou-a. Numa cadeira, junto da janela, viu uma jovem loira, de cerca de vinte e sete anos, de olhos azul-escuros e lábios sorridentes. Vestia um négligé de seda e lia um livro que parecia agradar-lhe, quando ergueu os olhos e viu Bertha atravessar o quarto na sua direcção.

Tinha os calcanhares apoiados numa almofada, colocada sobre a cadeira fronteira, e o livro no colo.

- Assustou-me! - disse, oferecendo a Bertha o encanto dos seus grandes olhos azuis.

- Bati - justificou-se Bertha.

- Estava «enfronhada», cheia de interesse, numa história de detectives. Costuma ler este género de literatura?

- De vez em quando - satisfez Bertha.

- Eu nunca o tinha feito, antes de entrar para o hospital. Nunca pensei que tivesse tempo para me interessar por eles, mas agora creio que me tornarei numa ardente aficionada. Acho que a investigação de um crime é uma das coisas mais interessantes, mais fascinantes do mundo, não está de acordo?

- É exactamente como diz - concordou Bertha.

- Bem, queira sentar-se. Diga-me em que lhe posso ser útil.

Bertha sentou-se numa cadeira estofada, a um canto, e perguntou:

- É Josephine Dell?

- Sou.

- E era amiga de um cego?

- Refere-se ao pedinte que estaciona, à esquina, junto do Banco? - inquiriu a jovem, sorridente.

Bertha anuiu, perscrutadoramente.

- Acho-o um «querido». Vê melhor esta vida, do que muita gente. E não é nada infeliz. Muitas pessoas que vêem perfeitamente, conhecem pior as coisas deste mundo, de que esse homem que não pode ver. Apesar de a sua existência ter ficado mais circunscrita... mais limitada, creio que consegue ser feliz, à sua maneira. Refiro-me à sua actividade psicológica, por aquilo que sei dele.

- Também o creio - admitiu Bertha, sem entu- siasmo.

Josephine Dell persistiu no assunto:

- Certamente que não recebera uma educação esmerada e era pobre e, se tivesse aprendido a ler pelo tacto, se tivesse estudado e conseguido adquirir um melhor grau de instrução... mas não pôde, coitado. Não tinha um centavo de seu.

- Compreendo.

- Mas, sabe? Depois teve sorte e fez um feliz investimento num negócio de petróleo e, agora, podia viver como lhe agradava; simplesmente, achava que isso lhe acontecera já muito tarde e que era demasiado velho...

- Também o creio - concordou Bertha, pacientemente. - Foi a menina quem lhe ofereceu uma caixa-de-música?

- Sim, mas não quis que ele o soubesse. Pretendia que ele julgasse que fora um amigo qualquer. Receava que se recusasse a aceitar um presente dispendioso de uma rapariga que precisava de trabalhar, mas agora, não tenho problemas de dinheiro. Porém, quando comecei a juntar, para pagá-la, cheguei a pensar que não poderia consegui-lo.

- Compreendo--repetiu Bertha, levemente entediada.

- Estou a ver que tenho andado despistada, todo este tempo. Diga-me uma coisa. Não sabe nada acerca de uma outra Josephine Dell que sofreu um acidente?

- Que acidente - perguntou a jovem, atónita.

- Um acidente que ocorreu na esquina, junto do Banco, numa sexta-feira, por volta das seis menos um quarto. O condutor de um automóvel derrubou essa rapariga, na passagem para peões. Na altura, ela não pensou ter ficado gravemente contundida, mas depois...

- Mas eu sou essa rapariga! -exclamou Josephine Dell, ainda mais admirada.

Bertha endireitou-se, subitamente, na cadeira, como se o espaldar da mesma a tivesse empurrado para diante.

- Você é quem?

- Sou a rapariga que foi atropelada.

- Uma de nós está «pírulas»! - murmurou Bertha.

Josephine riu, com uma gargalhada cristalina.

- Mas sou eu própria! Foi, na verdade, uma experiência nova para mim. O homem colheu-me com o guarda-lamas e derrubou-me nessa passagem. Pareceu-me uma pessoa encantadora. Naquele momento pensei não ter ficado muito magoada, mas no dia seguinte comecei a sentir-me confusa e com dores de cabeça. Chamei um médico e ele disse-me que se tratava de uma contusão cerebral, ligeira, mas que eu devia manter-me em absoluto repouso e...

- Aguente aí, um momento - pediu Bertha. - O condutor levou-a a casa?

- Assim o quis e eu consenti. Na altura, pensei que aquilo não era nada; somente um pequeno encontrão, sem importância e, embora eu tivesse atravessado quando devia, em relação ao sinal para peões... ou talvez não...

não sei bem. Talvez não tivesse reparado, com o necessário cuidado... Francamente não me lembro, ia muito preocupada, naquele dia. O homem insistiu em que devia levar-me a um hospital, para um exame médico, e como eu recusasse, ofereceu-se para me levar a casa, de qualquer modo.

Bertha Cool fitava-a como se estivesse a olhar para um fantasma.

- Depois, que sucedeu?

- Bem, o homem parecia-me muito correcto, muito cavalheiro. Contudo, ao cabo de alguns momentos de seguir a seu lado, pensei que ele tivesse bebido uns copos e, de repente, começou a mostrar-se realmente intoxicado. Começou a dirigir-me piropos desagradáveis e acabou por me apalpar as pernas. Dei-lhe uma bofetada, ele travou o carro e eu saltei para a rua e tomei um autocarro, para ir para casa.

- Não chegou a dizer-lhe onde vivia?

- Não. Só lhe indiquei a direcção que devia tomar.

- E ele não sabe o seu nome?

- Eu disse-lho, mas compreendo agora que estava demasiado embriagado para tê-lo fixado. Estou absolutamente certa disso.

Bertha fechou os olhos, com força, para tornar a abri-los escancaradamente.

- Já agora, para embaralharmos mais as coisas, diga-me se vivia nos Apartamentos Bluebonnet.

- Embaralharmos...? Não percebo! Mas é aí que eu vivo!... nos Bluebonnet da Figueiroa Street. Como é que sabe?

Bertha levou a mão à cabeça.

- Mas, que se passa? - preocupou-se Josephine Dell.

- Macacos me mordam! - exclamou Bertha. - Nem precisam de anzol, que eu vou logo no engodo! Sou mais «tansa» que um peixe!

- Não estou a perceber! - confessou Josephine, pestanejando confundida.

- Siga para diante, conte-me o resto.

- Pouco mais há a contar. Levantei-me no dia seguinte, como que desnorteada e chamei o médico. Ele aconselhou-me repouso absoluto. Eu não tinha dinheiro comigo, mas estou em vésperas de receber algum, de forma que telefonei a Mrs. Cranning, que é uma governanta e pode dispor do dinheiro para o governo da casa do meu patrão, e pedi-lhe que me adiantasse... Pressinto que estou a ser pouco explícita... Não cheguei a explicar-lhe que o meu patrão faleceu...

- Sei tudo a esse respeito - cortou Bertha. Fale-me acerca do dinheiro.

- Bem, procurei Mrs. Cranning e ela não tinha dinheiro suficiente que pudesse dispensar-me, mas disse-me que viesse para aqui, pois trataria do internamento e que depois se veria. Estou certa de que se desembaraçou esplendidamente, visto que a companhia de seguros chegou a um magnífico acordo...

- Que espécie de acordo? - interrompeu Bertha.

- Concordou com o médico em que eu carecia de completo repouso, durante um mês ou seis semanas, e que depois deveria ir para um local onde nada me preocupasse, completamente afastada das pessoas que me rodeavam, para evitar aborrecimentos. O meu patrão morreu, mas tratariam de arranjar-me outro emprego.

A companhia de seguros paga-me todas as despesas do internamento neste hospital e ainda me concede o salário de dois meses de inactividade. Quer dizer que, além disso, quando sair daqui, recebo um cheque de quinhentos dólares e a garantia de me arranjarem trabalho. Não são generosos?

- Assinou qualquer documento? - inquiriu Bertha.

- Sim, um acordo completo.

- Meu Deus! - exclamou Bertha.

- Desculpe, mas não estou a percebê-la. Tudo quanto digo parece causar-lhe confusão.

- A companhia de seguros era a Intermutual de Indemnizações?

- prosseguiu Bertha. - O agente com quem tratou chamava-se P. L. Fosdick?

- Porquê? Não!

- Quem diabo era?

- Era um automóvel clube qualquer. Não me lembro do nome exactamente, mas creio que se tratava do Segurança Autoclube. Foram eles que trataram de tudo. Recordo-me de que o agente se chamava Milbran.

- Entregaram-lhe um cheque?

- O documento do acordo foi feito em termos que correspondiam a um cheque. Isto passou-se num sábado e os Bancos estavam fechados. Mr. Milbran veio ver-me e declarou que, em virtude das circunstâncias, tinham sido muito generosos comigo. Desde já se responsabilizavam pelas despesas totais do internamento e, visto eu assinar aquele acordo, não haveria qualquer problema.

E sabe o que me contou depois de ter assinado o documento?

- Não faço ideia - confessou Bertha, cada vez mais confusa.

Josephine riu e explicou:

--Que o seu cliente estava tão bêbado que, neste momento, não se lembra sequer de ter tido o acidente.

Admite que estivera a beber imenso e que viera no carro para casa, mas não se recorda de ter passado naquela zona da cidade, nem de ter atropelado uma pessoa. Foi um choque para ele, quando lhe deram a notícia, e...

- Um momento - cortou Bertha. - Nesse caso, como conseguiu pôr-se em contacto com a companhia de seguros?

- Foi através de Mrs. Cranning.

- Já sei, mas como conseguiu ela entender-se com eles?

- Eu lembrava-me do número de matrícula do carro.

- Conseguiu anotá-lo?

- Não. Não o escrevi, na altura, mas lembrei-me dele, mais tarde, e disse-o a Mrs. Cranning. Na verdade, tinha apontado o número, mal chegara a casa e ditei-lho ao telefone.

- Você fez a coisa pior que podia ter feito! - comentou Bertha.

- Fiz? Não percebo.

- Copiou mal o número da matrícula. Foi por pura coincidência que esse número correspondia à matrícula do carro de um outro tipo que o guiava em estado de embriaguez, nesse mesmo dia e mais ou menos à mesma hora.

- Quer dizer que o homem... que o automóvel clube...

- É exactamente isso que quero dizer. Essa matrícula calhou ser de um carro guiado por um tipo que se embriagara e que admitiu poder ter atropelado uma pessoa. Quando Mrs. Cranning lhe telefonou a relatar o acidente, ele pegou na apólice do seguro e comunicou a ocorrência à companhia, que tratou do resto.

- Meu Deus! Nesse caso, esse homem não me fez nada?

- Não. Foi um outro, contra quem ninguém reclamou... por enquanto.

- Mas isso é impossível!

- Não só é possível - observou Bertha, asperamente - como tenho a certeza de que aconteceu.

- E aonde é que isso me leva? - inquiriu Josephine abismada e levemente receosa.

- Aos píncaros da Lua! - afirmou Bertha com entusiasmo.

- Não estou a perceber.

Bertha Cool abriu a bolsa, tirou um dos seus cartões da agência e entregou-lho com o seu melhor sorriso.

- Aqui tem: Cool & Lam - Investigações Confidenciais. Eu sou Bertha Cool.

- Quer dizer que é detective?

- Exactamente!

- Oh! Que excitante!

- Nem por isso.

- Mas a senhora deve ter aventuras extraordinárias, uma data de horas de trabalho violento, noites sem dormir...

- Lá nisso acertou em cheio. Tive ontem uma aventura dos diabos e passei a noite completamente em branco. Mas agora, encontrei-a.

- Tem andado à minha procura?

- Vou arranjar-lhe uma data de dinheiro. Se o fizer, você dá-me cinquenta por cento?

- Dinheiro para quê?

- Dinheiro da companhia de seguros, por ter sido atropelada por um condutor embriagado.

- Mas já o recebi, Mrs. Cool. Já assinei um acordo.

- Não da companhia seguradora do tipo que a atropelou.

Quanto é que disse que lhe pagavam?

- Refere-se a Mr. Milbran?

- Sim, a esse autoclube, para o qual assinou um depoimento.

- Disseram-me que pagariam todas as despesas com o hospital e dois meses de salário, no valor de duzentos e cinquenta dólares. Não sei quanto é que isso soma, mas calculando a cerca de dez dólares por dia de internamento, talvez chegue a seiscentos dólares, mais quinhentos dólares, em dinheiro, quando tiver alta. Meu Deus, Mrs. Cool, imagina quanto é que isso representa?

Cerca de mil e trezentos dólares!

- Muito bem. Vai agora assinar uma declaração pela qual iliba esse cliente de qualquer responsabilidade no seu acidente e liberta a companhia da obrigatoriedade de pagar-lhe qualquer indemnização, comprometendo-se a não apresentar uma reclamação ulterior. Em seguida apresenta a sua reclamação, pertinente e justa, à Companhia Intermutual de Indemnizações. Vou explicar-lhe melhor o que vai fazer: deporá essa reclamação nas minhas mãos e elas saberão arrancar uma carrada de «massa» à Intermutual.

Depois promete pagar-me metade de quanto eu conseguir obter-lhe e garanto-lhe que não será menos de dois mil dólares.

- Quer dizer dois mil dólares, em dinheiro?

- Sim, querida. Isso será a sua parte e não haja confusões.

Eu sacarei outros dois mil para mim. E refiro-me a um mínimo. Talvez possa conseguir-lhe três mil dólares, para si.

- Mas, Mrs. Cool, isso seria desonesto!

- Porquê desonesto?

- Porque já assinei uma declaração para outra companhia de seguros.

- Mas tratou com a companhia errada, seguradora do condutor errado.

- Bem sei, mas, de qualquer maneira, já aceitei esse dinheiro.

- Se o têm estado a pagar, o azar é deles.

- Não. Não posso fazer isso. Não seria correcto considerou Josephine.

- Oiça cá - insistiu Bertha. - As companhias de seguros têm montes de dinheiro. Vivem à grande. Esse homem ia a guiar um carro e tão bêbado que nem se lembra se foi ou não autor de um atropelamento. Mrs.

Cranning telefonou-lhe a informá-lo de que ele atirara com o carro para cima de si e ele acreditou. Estava seguro contra acidentes e comunicou à companhia que conduzia embriagado, tivera o azar de atropelá-la e que você ficara com uma contusão craniana e perturbações cerebrais.

Pelo amor de Deus, ponha as coisas a limpo e deixe-me andar para diante.

- Não sei que faça.

- Tome atenção. Não foi ele quem lhe causou essa contusão. O facto de você ter assinado um documento pelo qual se compromete a não apresentar qualquer reclamação contra a sua seguradora, não quer dizer nada.

Na verdade, não vai reclamar coisa alguma dessa companhia.

Se ela foi completamente «saloia» ao oferecer-lhe mil dólares para que você a não processasse, isso é lá com ela, e não a impede de receber a indemnização que lhe é devida, com razão de causa, dos cofres da companhia seguradora do tipo que, efectivamente, a atropelou.

Na fina pele da testa de Josephine Dell desenhou-se uma ruga. Um raio de sol resplandeceu no seu cabelo loiro, quando ela virou a cabeça e olhou para a janela a meditar na proposta. Por fim, tomou uma decisão, sacudiu a cabeleira, numa negativa, e respondeu com determinação:

- Não, Mrs. Cool. Não posso fazer isso. Não seria decente.

- Nesse caso, se quer ser absolutamente decente, telefone para esse automóvel clube que caiu na «esparrela» e diga que foi tudo um engano, pois forneceu, por lapso involuntário, um número de matrícula errado. Essa é a verdade.

Nos olhos de Josephine cintilou um fulgor de suspeita.

- Não creio ter-me enganado no número.

- Afirmo-lhe que errou - insistiu Bertha.

- Como é que sabe?

- Porque conheço a companhia de seguros que está actualmente preocupada com o caso.

- Muito bem, Mrs. Cool. Se está tão certa do que diz, vá para a frente, explique-me qual foi o meu erro quanto à matrícula do carro que não me atropelou e, já agora, diga-me qual a do carro que efectivamente causou tudo isto.

Bertha Cool tentou desviar a resposta.

- Tenho estado em contacto com o representante da companhia de seguros responsável pelo acidente. Ele assegurou-me que...

- Qual é o número de matrícula do carro que me atropelou? - persistiu Josephine.

- Não sei - confessou Bertha.

- Já esperava isso. Ignoro quais os propósitos que a levaram a procurar-me, Mrs. Cool, mas receio que a sua proposta não seja a que mais poderá favorecer os meus interesses. Pelo que me toca, estou absolutamente satisfeita com a actual situação.

- Mas dessa maneira não recebe o dinheiro da companhia que...

- Pois não.

- E está a receber dinheiro da companhia que não...

- Pois estou. Foi a senhora mesmo quem me disse que as companhias de seguros andam a nadar em dinheiro e que seria correcto da minha parte recebê-lo.

- Isso é o que eu faria dadas as circunstâncias, mas já que pretende respeitar a ética...

- É exactamente o que farei, dadas as circunstâncias.

- Mas, depois, reclamará junto da companhia responsável?

Josephine abanou a cabeça.

- Por favor - suplicou Bertha. - Deixe-me tratar-lhe disso. Arranjar-lhe-ia o dinheiro, tão simples como isto! - e Bertha deu um estalido com os dedos.

Josephine Dell sorriu e declarou, com uma sombra de suspeita no olhar.

- Receio, Mrs. Cool, que esteja a tentar... Bem, tenho ouvido muita coisa acerca da maneira como as companhias de seguros procuram tirar vantagem da situação em que as pessoas se encontram. Eu fiquei realmente muito admirada com a gentileza e generosidade de Mr.

Milbran. É-me lícito supor que a companhia que ele representa tenha ficado contrariada com o acordo que ele me propôs. Quem me diz a mim que a senhora não foi enviada pela administração, para tentar convencer-me a repudiar o acordo assinado? É esse o caso?

- De maneira nenhuma! - protestou Bertha. Passa-se tudo como lhe expus. Você anotou mal o número da matrícula.

- Pode dizer-me qual foi o meu erro?

- Não.

- Sabe, ao menos, um só algarismo dessa matrícula?

-- Não. Nada sei acerca do carro. Só sei acerca da companhia de seguros.

- Portanto, não sabe sequer o nome do homem que me atropelou?

- Nada sei acerca do «raio» desse homem! --retorquiu Bertha desesperada.

Josephine Dell tornou a pegar no livro e declarou:

- Lamento muito, Mrs. Cool, mas não creio que valha a pena perdermos mais tempo a discutir esse assunto. Bom dia.

- Oiça uma coisa - tentou ainda Bertha, persuasivamente. - Tem conhecimento de que Myrna Jackson anda a fazer-se passar por si? Sabe que ela...

- Tenho muita pena, Mrs. Cool, mas não quero discutir mais qualquer assunto. Bom dia!

- Mas...

- Muito bom dia, Mrs. Cool.

 

XXX

Só na quarta-feira de manhã, Bertha Cool regressou ao escritório.

- Onde é que tem estado? - interessou-se Elsie Brand.

O rosto de Bertha, recentemente bronzeado do sol, mostrou-se sarcástico.

- Tenho estado a fazer uma coisa, em que realmente sou boa.

- Que coisa?

- A pescar.

- Quer dizer que andou à pesca todo o dia de ontem?

- Sim. Fiquei tão desesperada, na segunda-feira, que me sentia em riscos de explodir. Ontem, terça, já devia andar aí com uns duzentos e oitenta de tensão sanguínea, de forma que resolvi enfiar-me no carro, deslizei até à praia e, lá chegada, aluguei uma cana de pesca.

Ao menos diverti-me. Já sabe o que aconteceu? Uma incrível combinação de circunstâncias, uma inacreditável coincidência, como não aconteceria outra num milhão.

- Qual foi?

- O homem que atropelou Josephine Dell estava bêbado. Começou com atrevimentos e ela saiu do carro.

Julgou que conseguira fixar o número da matrícula, mas enganou-se e trocou os algarismos, com tanta sorte, porém, que o condutor do carro a que pertencia a matrícula errada também ia a guiar em igual estado de embriaguez de tal maneira que, neste momento, nem refuta a acusação de tê-la atropelado. Portanto, Josephine acha-se na invejável posição de poder receber duas indemnizações, cada uma de sua companhia de seguros, mas não tem o suficiente bom senso para...

- Talvez fosse bom, primeiro, ler a carta de Donald - advertiu Elsie.

- Chegou uma carta do Donald?

- Ele próprio ma ditou.

- A si?

- Sim.

- Quando?

- Na noite passada.

- Onde?

- Aqui, no escritório.

- Está a querer dizer-me que Donald Lam esteve aqui?

- Sim. Concederam-lhe uma licença de trinta e seis horas, tomou o avião até cá e correu a ver-nos. Meu Deus!

Como lhe fica bem o uniforme! Está mais forte, ganhou peso e parece mais...

- Mas porque raio não o pôs você em contacto comigo?

- Fiz tudo quanto me era possível, Mrs. Cool. Como avisara que ia a Redlands, contei a Donald o que sabia do caso, e ele seguiu para lá, à sua procura, talvez apenas meia hora depois de a senhora ter partido. Como não podíamos adivinhar que, ontem, tinha ido à pesca... Mas não quer ler a carta?

Bertha arrancou o sobrescrito da mão de Elsie, correu para o gabinete particular, estacou à porta e disse, por cima do ombro:

- Não quero ser perturbada; não quero telefonemas, nem visitantes, nem clientes, nem NADA!

Uma vez mais vibrando de indignação, agora maldizendo a pesca, Bertha atirou-se para a cadeira, rasgou o topo do sobrescrito e começou a ler a longa missiva.

Querida Bertha:

Tenho muita pena de a não ter encontrado. Interessei-me muito pelo caso por correspondência e quando, inesperadamente, me concederam trinta e seis horas de licença, decidi vir por aí abaixo e ver se poderia ajudá-la.

Você não estava no escritório e a Elsie informou-me de que fora a Redlands, onde julgava que Josephine Dell se achasse ou tivesse estado instalada. Por essa razão, aluguei um carro e fui até lá.

Em virtude de certas circunstâncias peculiares, eu já chegara à conclusão de que Josephine Dell deveria encontrar-se hospitalizada fora da cidade. O facto de terem sido oferecidos ao cego dois presentes - um denunciando muito tacto, por parte de uma simpática rapariga, tentando alegrar um homem naquela condição, sem qualquer mensagem redigida a acompanhar a oferta, e outro, sem tacto algum, desajeitadamente acompanhado por uma nota levaram-me a pensar que poderiam existir duas Josephines Dell: uma verdadeira e outra impostora.

A conversação que manteve com a porteira dos Apartamentos Bluebonnet deveria ter-lhe despertado a suspeita de que a rapariga que aquela conhecia como sendo Myrna Jackson era a mesma a quem você entrevistara e se apressava a fazer as malas. Tente recordar-se das declarações da porteira e das que lhe prestou a rapariga, nessa noite em que se preparava para partir, e chegará a essa conclusão.

Não me foi difícil encontrar Josephine Dell, mal cheguei a Redlands. Entrei no sanatório, quarenta minutos depois de você ter saído. Disse a Miss Dell quem eu era e achei-a num terrível estado de espírito de hostilidade e suspeita, mas comecei a falar-lhe e consegui que respondesse a algumas perguntas e ouvisse as minhas explicações.

Acho que cometeu um erro, perdoe-me que lho diga, ao ter-se mostrado tão ávida e insistente. Apresentou-lhe o caso sob o seu ponto de vista e, na ânsia de defender o seu interesse nos vinte e cinco mil dólares, na ideia de que toda a gente seria capaz de aceitar duas indemnizações, uma das quais ilegítima, não cuidou em reforçar a sua proposta, de acordo com a formação moral de Miss Dell. Quando tentou corrigir a sua táctica, já era tarde.

Pelo meu lado, tentei evidenciar a faceta da injustiça que resultaria de explorar-se a generosa credulidade de algumas pessoas e uma companhia de seguros, não responsáveis pelo acidente, o que degenerava em fraude, e a honestidade de reclamar-se à companhia verdadeiramente responsável pelas consequências do acto praticado pelo seu segurado a devida e legítima indemnização.

Claro que não me esqueci de evidenciar a enorme diferença das quantias em jogo, provando assim que uma atitude justa e honesta compensa. Logo que Miss Dell começou a falar confiante e abertamente, desvendou-se-me a solução do nosso caso.

Comecei por convencer-me de que Harlow Milbers utilizava os serviços de Josephine Dell exclusivamente no escritório, como secretária, e não em sua casa. Interroguei-a acerca da ocasião em que servira de testemunha do testamento e declarou-me lembrar-se disso perfeitamente.

Explicou que a segunda testemunha não fora, de forma alguma, Paul Hanberry, mas um tal Dawson, que possui um laboratório fotográfico ao lado do escritório de Harlow Milbers, e que fora neste escritório e não na residência do patrão que haviam assinado o testamento.

Então pedi a Miss Dell que me fizesse a sua assinatura e verifiquei ser esta completamente diferente da que testemunhava o documento de que tenho a fotocópia.

De resto já deduzira a existência de fraude quando, há dias, tive a precaução de verificar, no nosso arquivo meteorológico da Marinha, qual fora o estado do tempo no dia vinte e cinco de Janeiro de 1942, uma coisa que, aparentemente, você negligenciou fazer, consultando um jornal do dia imediato ao daquela data. Se se tivesse dado a esse incómodo, examinando a coluna dedicada à meteorologia, no arquivo de qualquer dos nossos diários, ter-se-ia certificado de que, nesse dia vinte e cinco de Janeiro, estivera a chover, contínua e ininterruptamente, desde a manhã até à noite. Portanto, Paul Hanberry não poderia ter-se dado ao trabalho de lavar o carro, à mangueira e em plena rua, frente às janelas da residência de Harlow Milbers, sob um autêntico aguaceiro.

Também interroguei Miss Dell acerca dos sintomas da doença do patrão, naquele dia fatídico e obtive a confirmação de que se queixava de cãibras nas barrigas das pernas. Nestas circunstâncias, os sintomas de envenenamento por arsénico tornam-se tão evidentes que fácil será apresentar à Polícia um diagnóstico convincente.

Para abreviar, concluí que Harlow Milbers foi envenenado na manhã de sexta-feira. Viria a morrer ao fim da tarde do mesmo dia. Ao regressar a casa, Josephine Dell foi colhida por um automóvel e sofreu uma ligeira contusão cerebral. Chamou um médico, na manhã seguinte, quando sentiu sintomas anormais. Foi esse médico que a aconselhou a manter-se em repouso absoluto ou, de preferência, internar-se num sanatório. Como não tivesse dinheiro suficiente consigo, Miss Dell recorreu telefonicamente a Mrs. Cranning, admitindo que ela poder-lhe-ia emprestar algum dinheiro do governo da casa do patrão.

Posteriormente, foi mesmo falar com Nettie Cranning, à residência de Harlow Milbers, a fim de expor claramente a sua situação. Foi então que Mrs. Cranning deu provas de possuir um engenho invulgar. Em vez de telefonar à pessoa que atropelara Josephine Dell, procedeu de maneira a apoderar-se de uma fortuna. Pediu a um seu amigo pessoal, chamado Milbran, que se apresentasse a Miss Dell, como representante de uma companhia de seguros inexistente. Entretanto, convenceram Miss Dell a internar-se num sanatório fora da cidade, o que a manteria afastada de quaisquer contactos, durante um período de um ou dois meses. Isso proporcionava-lhes uma ampla oportunidade para falsificarem o testamento.

Tal como eu suspeitara e tive o cuidado de a informar por escrito, a primeira página do testamento era genuína; a segunda era completamente falsa. Lembrar-se-á de que Myrna Jackson fora viver com Josephine Dell cerca de três semanas antes do acidente. Nessa altura ainda não albergavam propósitos sinistros, mas não se esqueça de que Myrna Jackson era amiga de Mrs. Cranning e de sua filha Eva, possuindo todas elas um mesmo calibre mental e moral.

Logo a seguir à morte de Harlow Milbers, Nettie Cranning descobriu o testamento que legava ao primo do morto uma quantia de dez mil dólares. De facto, repito, essa primeira página do testamento é absolutamente genuína. Só no dia seguinte, a possibilidade de operarem uma alteração no testamento, ocorreu a Mrs. Cranning, a Eva Hanberry e a Paul Hanberry. A ideia deve ter partido, evidentemente, de Nettie Cranning. Aproveitando a convalescença de Josephine Dell, por um período aproximado de dois meses, e o seu intencional afastamento da circulação, fora da cidade e longe dos seus habituais contactos, tiveram oportunidade de substituir a segunda página do testamento, de maneira a legarem-se, a si próprios, a parte mais substancial da propriedade.

Lembrar-se-á de que cheguei a indigitar essa possibili- dade no meu telegrama.

Tornava-se apenas conveniente, para o caso de alguém ter conhecimento das intenções testamentárias de Harlow Milbers, que uma outra pessoa tomasse o lugar de Miss Dell e assinasse por ela o documento. Paul Hanberry substituiu a segunda testemunha e, provavelmente, também falsificou a assinatura do falecido Milbers.

Posteriormente, com o fito de evitarem qualquer impugnação do testamento por parte do primo contemplado e único parente vivo, Christopher Milbers, aliciaram-no com uma proposta tentadora que lhe proporcionaria um legado muito mais vantajoso do que aquele que lhe fora atribuído, bem para além de toda a expectativa.

Quanto à herdeira - a real - Josephine Dell, essa estaria afastada e alheia aos acontecimentos, durante sessenta dias. A companhia de seguros imaginária prometera arranjar-lhe um emprego, a partir do momento em que deixasse o sanatório. Sem dúvida, essa ocupação levá-la-ia para a América do Sul, ou para outro local ainda mais distante, onde jamais pudesse ouvir falar de Milbers.

O único borrão na pintura surgia agora na pessoa do homem que atropelara Josephine Dell e que, embora suficientemente intoxicado e amnésico, ao tempo do acidente, poderia, quando posteriormente sóbrio, comunicar a ocorrência à sua companhia de seguros. E foi o que aconteceu.

Contudo, coibiram-se de informar as autoridades, em virtude do estado de embriaguez do condutor, e procuraram resolver o problema mediante um acordo entre as partes, responsável e sinistrado. O único óbice residia no facto de o responsável não se recordar do nome da sinistrada.

Quando leram o seu anúncio no jornal, em busca de uma testemunha do acidente, apressaram-se em contactar consigo na esperança de poderem comunicar com a interessada e abreviarem, por um simples acordo, as possíveis implicações judiciais inerentes. É nesta altura que entra um novo personagem em cena, Jerry Bowman.

Subsequentemente, este oportunista entrou em acção e tê-la-ia suplantado, a si, na obtenção de um acordo assinado por Myrna Jackson, em nome de Josephine Dell, se a impostora não tivesse receado uma confrontação com o condutor da viatura, causador do sinistro, que certamente se recordaria da personalidade física da vítima, e também a possível imprescindibilidade da sua identificação documental. Na realidade, Myrna Jackson não poderia provar ser Josephine Dell e se o homem em causa se defrontasse com ela, desvendar-se-ia a impostura.

Um dos indícios mais significativos surgiu no facto de Josephine Dell não ter voltado a ver o cego, depois de «restabelecida», como todos a julgavam, na pessoa de Myrna Jackson. Era uma atitude de áspera insensibilidade que não se coadunava com a feição moral de Miss Dell e muito feria Kosling, sobretudo depois da diligência que fizera, demonstrativa do apreço que votava à rapariga, quando do acidente.

O seu amigo Jerry Bollman foi, neste caso, mais arguto que a Bertha. Começou a «apertar» o cego com perguntas e obteve informações que lhe cheiraram intensamente a esturro. Lembre-se que tomou a iniciativa de telefonar para a residência de Harlow Milbers a informar-se se Josephine Dell trabalhava lá, e note que o fez como uma pessoa que lhe era totalmente estranha. Isto é muito significativo, visto que não era permitido qualquer contacto com «Josephine Dell», por parte de alguém que a conhecesse. Logo que se encontrou com ela, compreendeu que não se tratava da pessoa que ele vira ser derrubada pelo automóvel e, para um oportunista como Bollman, não lhe foi difícil descobrir uma magnífica pista.

Aquilo que deduziu do seu encontro com a fictícia Miss Dell e do que conseguira depreender das informações do cego, permitiram-lhe discernir as linhas gerais e a natureza da conspiração em que aquela estava envolvida.

E agora, Bertha, ressalta um novo e magistral erro de concepção: Bollman não foi a casa de Kosling, em busca de qualquer prova ou indício, mas sim com o determinado propósito de preparar uma armadilha com a espingarda que deveria matar o cego. E isto, porque Kosling era a única testemunha capaz de desmantelar toda a maquinação.

Logo que fosse eliminado, nada se interporia entre os conspiradores e a herança. Christopher Milbers, tendo recebido a sua parte, regressaria, naturalmente, a casa, em Vermont. Quanto a Jerry Bollman, o caso era mais complexo.

O seu temperamento oportunista decidira-o a montar a armadilha mortífera, após ter conduzido o cego a São Bernardino. Logo que este estivesse isolado, Bollman correria a casa de Harlow Milbers e declararia a Nettie Cranning, a Eva Hanberry e a Paul que vinha, merecidamente, partilhar do bolo, exigindo uma choruda talhada.

E a pseudo Miss Dell, Myrna Jackson, também teria de comparticipar em qualquer acordo de compromisso e segurança. Não se esqueça, Bertha, de que havia várias centenas de milhares de dólares em jogo e que Jerry Bollman era o género de tipo para quem o valor do dinheiro estava acima de tudo.

Se eles cometessem o erro de recusar, Bollman voltaria a casa de Kosling, desarmaria o engenho homicida e servir-se-ia do cego como testemunha, já que este possuía todos os elementos esclarecedores, podendo denunciar a impostura de Myrna Jackson. Ele já desconfiara da voz da falsa Miss Dell e tivera oportunidade de confidenciar a sua estranheza a Thinwell. Procuraria o médico que examinara a verdadeira Josephine e a Polícia faria o resto. Era pois necessário que Kosling fosse eliminado.

Por sua vez, Sellers e os seus minuciosos peritos incorreram num erro magistral de raciocínio: partiram do princípio de que a armadilha fora montada por um cego, só porque não fora habilmente disfarçada, e negligenciaram analisar o facto, sob o ângulo de que fora, efectivamente, preparada para matar um cego, pelo que qualquer disfarce ou ocultação seriam prescindíveis. Quanto à morte de Bollman ninguém possui elementos concretos que permitam defini-la para além de uma simples especulação racional.

Com base nas suas informações epistolares e no relato que fez a Elsie, referente à incursão nocturna a casa de Kosling, tornou-se-me aparente que Jerry Bollman engenhara a armadilha de maneira que quem pressionasse o arame, estendido à entrada do interior da casa, provocaria a percussão do cartucho e receberia a bala em pleno peito. Ultimada a sua obra, Bollman deve ter recuado um pouco, para verificar a direcção do cano e, muito provavelmente, como sucedeu com a Bertha, o morcego começou a esvoaçar em sua volta, procurando-lhe o pescoço ou o rosto, como se habituara para receber os afagos do cego. O que realmente aconteceu dever-se-á considerar uma obra-prima de justiça poética. Bollman recuou um pouco mais, ou correu contra o arame.

Voltando ao testamento, creio existir uma possibilidade de Josephine Dell se recordar do contexto da segunda página. Isso permitirá uma reconstituição substancial da matéria constante no documento genuíno e se ela estiver na disposição de prestar um depoimento oral, aceite como prova, talvez as sentenças contra Nettie Cranning, Eva Hanberry e Paul Hanberry possam ser consideravelmente atenuadas.

O sargento Sellers «espalhou-se» redondamente, ao fixar a hora da morte de Bollman, por volta das três da tarde, partindo do princípio que os morcegos só voam à noite, a menos que tenham sido perturbados durante o dia. Ora, em casa do cego, as cortinas estavam corridas o que tornava o ambiente bastante escuro. Os morcegos, querida Bertha, não voam na escuridão, mas na semiobscuridade, num lusco-fusco. Os morcegos voam ao anoitecer.

Se Sellers tivesse sabido isto não teria errado quanto ao elemento tempo. Admitiria que Bollman montara a armadilha, depois de ter isolado Kosling em São Bernardino, e fora então por ela fulminado.

Agora tratemos da morte de Harlow Milbers. É óbvio que Nettie Cranning não poderia prever o acidente que Miss Dell viria a sofrer, depois da morte de Milbers. Portanto dificilmente se pode conceber que tenha planeado esse homicídio, no curso normal dos acontecimentos, estando as testemunhas do testamento vivas e sãs. Ser-lhe-ia, nessas circunstâncias, impraticável substituir a última página do documento testamentário.

Falando com Miss Dell, descobri que Harlow Milbers era doido por açúcar de maçã e que gulosamente apreciava o que seu primo Christopher lhe enviava da quinta de Vermont. Na manhã do dia em que morreu, recebera, no escritório, uma embalagem, vinda pelo correio. Abriu-a e comeu quase todo o seu conteúdo. Afirma Miss Dell que restou ainda um pouco desse doce, no fundo da embalagem que se encontra numa gaveta da secretária do falecido patrão.

Estou certo, Bertha, de que a análise desse resto de açúcar de maçã constituirá prova suficiente de que Christopher Milbers procurou, por esse meio, antecipar a herança do seu excêntrico primo.

Como não me foi possível encontrá-la, enquanto aqui estive, e porque urgia libertar o seu cliente, transmiti estes factos ao sargento Sellers, dando-lhe uma oportunidade de resolver dois misteriosos homicídios e de enfeitar, com mais uma pluma, o seu capacete (* No original, «cap», no sentido de chapéu de penas dos peles-vermelhas, em que cada pluma inserida representa um acto valoroso praticado. (N. do T.)). Dizer que o sargento ficou radiante é exprimir-me modestamente.

É verdade, quase me esquecia! Josephine Dell ficou verdadeiramente grata por tudo quando fizemos. Incumbiu um advogado de fazer cumprir um contrato pelo qual a nossa firma receberá metade de quanto conseguir obter da companhia de seguros. Além disso, concordou em conceder-nos uma percentagem de dez por cento do total da herança de Harlow Milbers - de que é única herdeira - desde que provemos... o que já provámos.

Penso que isto cobrirá todo o assunto e... as suas despesas. Encontrará, inclusos, os dois contratos mencionados que eu próprio redigi, para estar certo da sua legalidade.

Parece que ninguém sabe onde a Bertha pára. Vou esperar aqui, até ao último minuto possível, antes de tomar o avião de regresso a São Francisco. Tenho de estar no Quartel de Marinha de Mare Island a tempo e horas.

Compreenderá, Bertha, que estamos em guerra e que a disciplina tem de ser mantida. Embora só lho possa dizer confidencialmente e nada tenha sido ventilado pelos órgãos oficiais, tenho motivo para acreditar que estamos em vésperas de partir, o que sem dúvida alguma constituirá uma extremamente desagradável surpresa para o inimigo.

Tenho, na verdade, muita pena de a não ver, mas a Elsie entrega-lhe esta carta e espero que encontre nela matéria que lhe permita contar com a futura cooperação do sargento Sellers.

Muitos cumprimentos do Donald Lam Bertha Cool deixou cair a carta sobre o tampo da secretária, agarrou no sobrescrito e «pescou» lá de dentro, com visível emoção, os dois contratos, assinados por Josephine Dell e testemunhados por duas enfermeiras do sanatório.

- Macacos me mordam! - exclamou.

Quis tirar um cigarro, mas os seus dedos trementes procuraram-no desastradamente na caixa dos «clips».

Neste momento ouviu-se uma breve discussão no escritório exterior. A porta abriu-se de chofre, enquanto o sargento Sellers protestava:

- Que disparate, Elsie! Certamente que ela me quer ver. Meu Deus! Depois de tudo quanto fez por mim, até sinto que pertenço à firma.

Sellers parou à porta do gabinete de Bertha, com o seu vasto tronco encolhido de humilde amabilidade.

- Bertha! Quero que me perdoe! Fui um bocado rude consigo e você, agora, meu Deus, faz-me sentir como um cordeirinho. Já tinha os miolos a arder e você apagou-mos.

Deu-me a possibilidade de resolver os dois mais brilhantes casos da minha carreira e você e o seu parceirozinho «geniquento» deixam-se ficar na sombra, para que eu tenha o mérito da investigação. Quero apenas apertar-lhe a mão.

Em dois enormes passos, Sellers atravessou o gabinete e estendeu a manápula. Bertha pôs-se de pé e agarrou-lha.

- As coisas estão a correr bem? - perguntou.

- Como se tivessem sido você e o Donald a resolverem o assunto para mim. Oiça, Bertha, se houver alguma coisa que você queira do Departamento da Polícia, se eu puder ser-lhe útil em qualquer assunto... é só dizer.

Penso que compreende porque diabo... raios... vim aqui!

Então, inesperadamente, o sargento Sellers passou o longo braço em volta dos maciços ombros de Bertha, levantou-lhe o queixo com a sua mão do tamanho de um presunto e beijou-a na boca.

- Ora aqui tem! - exclamou, fitando-a e deixando-a libertar-se. - Ora aqui tem como eu me sinto!

Bertha caiu sentada na cadeira, murmurando debilmente:

- Nem preciso de anzol! Caio logo no engodo!

FIM

 

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Erle Stanley Gardner nasceu em 1889, em Maiden, no Massachusetts. Como seu pai fosse perito na exploração de minas de oiro, o jovem ERLE acompanhou-o através do território americano, desde o Klondike até à Califórnia. Foi pugilista profissional, atirador ao arco, à carabina e à pistola e velejador. Sentindo vocação pela advocacia, formou-se em Direito aos 21 anos. O notável jurisconsulto norte-americano Jerry Leisler afirmou a respeito do autor: «Gard- ner teria sido um dos maiores advogados do nosso país se tivesse prosseguido na sua carreira legal».
E. Gardner justificou o seu afastamento do foro casuístico, confessando: «Confiavam-me tantos casos que teria de ficar amarrado a um único ponto da terra; por isso comecei a escrever». E assim criou as fabulosas personagens de heróis detectivescos: Perry Mason, Douglas Selby, Gramps Wiggins, Terry Clane e outros, entre os quais – escrevendo sob o pseudónimo de A. A. Fair - Donald Lam e Bertha Cool.

A obra de ERLE STANLEY GARDNER é um testemunho indiscutível da capacidade de criação ficcionista nos domínios do raciocínio, da psicologia criminal e do comportamento do indivíduo no seio de uma sociedade em ebulição. E, nessa condição, permanecerá no património cultural internacional, como um padrão inesquecível.

 

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TÍTULO: Os morcegos voam ao anoitecer
texto integral
AUTOR: A. A. FAIR
Pseudónimo de ERLE STANLEY GARDNER
TÍTULO ORIGINAL: BATS FLY AT DUSK
by Erle Stanley Gardner, 1942
Tradução de MASCARENHAS BARRETO
COLECÇÃO: Vampiro Gigante
Livros do Brasil
Lisboa EDITORA
 
 


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24.Fev.2016
Publicado por MJA