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 Sobre a Deficiência Visual

 

Viagem à volta de uma palavra: O(s) Olho(s)

Maria Lúcia Garcia Marques


Durante o recente Congresso sobre a Investigação e Ensino do Português, pude surpreender, no teor de algumas intervenções, uma orientação de interdisciplinaridade no ensino e tratamento da língua materna que de há muito perfilho e venho defendendo. E trouxe-me também à memória um trabalho que realizei na Sociedade de Língua Portuguesa, integrado nas comemorações da morte de Camões, em 1980. Daí a palavra–chave escolhida, tematicamente tão glosada pelo nosso poeta maior.

Não pretendi à época como não pretendo ao publicá-lo hoje, em versão actualizada, exibir trabalho de alta erudição, nem sequer dar exemplo de algo genuinamente inovador em didáctica ou mera exploração cientifica. Tracei tão somente uma espécie de roteiro “linguístico” (e não só ...) em que, se não houver descoberta, esperarei que haja, pelo menos, o prazer dos reencontros felizes.
 

... as ilhas eram os olhos azuis do mar
Sophia de Mello Breyner
(em entrevista ao ICALP,
Revista n .º 6, 1986)


Em tempo de comemorações dos Descobrimentos em que a “aventura dos olhos” não foi menor que a dos meios e dos propósitos, em tempo de recordar que foram os portugueses que em 500 fecharam o círculo do mundo, em tempo de lembrar a visão e a memória do povo de que vimos, penso que o simbolismo – e a eficácia – dos olhos nos aconselha e nos impele a uma viagem na sua “órbita”.


O SIGNO

E partimos desde já em direcção ao Signo e à tríade dos seus polos: referente, significante e significado.

Por escolha de uma viagem predominantemente “ linguística” e também por facilidade de método de abordagem, começarei pela perspectiva lexicológica (1) do significante: e desde logo se impõe uma excursão pelos dicionários (algo que os nossos estudantes deveriam realizar mais assiduamente...).

Até porque, mesmo quando, como no caso, nos lançamos na senda de palavra tão prometedora, vida de tantos poemas, há que buscar fundo no “reino das palavras”, pois, como diz Drummond de Andrade, “lá estão os poemas que/esperam ser escritos. [...] Ei-los sós e mudos, em/estado de dicionário” Será pois um bom começo, um dicionário etimológico.

Assim, no Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, de José Pedro Machado, encontramos, sem surpresa, a origem latina de olho:  ÒcÔlum(m) – que evolui nas etapas oclu (2) > * oglu >* oylu > *oëlu > *oëëû> olho.

Mas se formos suficientemente curiosos, e procurarmos mais longe, descobriremos, no Dictionnaire des Racines de Langues Européenes, ed. Larousse, 1949, que o étimo primeiro radicará no indo-europeu OK. O que, numa pequena viagem subsidiária, nos informa de que:

Ok – indo-europeu olho deu:

* no sânscrito: áksi olhos
* no grego homérico: osse os dois olhos ops, olhar; opsi, vista; opticos, visual; omma, ophtalmos, olho
* no latim: 1. oculus(s) olho ou rebento em forma de olho; ocularis, ocularius, ocular; ocellus, ocelo olhinho; oculare olhar inoculare inocular; introduzir 2. -ox,-ocis sufixo que serviu para formar certos adjectivos que referem um “aspecto”, uma “aparência”: atrox de aspecto escuro; ferox de aspecto pouco amistoso.


a partir do latim:

** francês antigo: oeiller olhar; avuele (de ab-oculo) aveugle (fr.)
** francês moderno: oeil, oeillade; [...] oculaire; monocle; binocle; aveugle.
** italiano: occhio, occhiare, occhiata etc.
** inglês: ocular, inoculate
** espanhol: ojo, ojal, ojeada, ojete, ojear; inocular
** português: olho (olhos); olhar, etc. óculos(s), ocular etc.


a partir do germânico

** gótico: augo (forma intencionalmente deformada por causa das crenças relacionadas com o “mau olhado”).
** inglês: eye olho; ogling olhadela
** alemão: auge olho
** português: augúrio, áugure, augurar, agoiro, agoirar.
 

Diagrama da Percepção Visual -  Descartes, 1646
A Dióptrica (1637), ilustração da época


Elucidados quanto ao corpo da palavra e sua origem, prossigamos em busca do seu significado e aportemos aos dicionários de sinónimos e às enciclopédias. Não abundam, actualizados, os primeiros, mas ainda assim podemos dispôr com utilidade de alguns, e cronologicamente, começamos por Rafael Bluteau, Vocabulário Português e Latino, na edição de Lisboa, de 1720, que nos fornece estas deliciosas considerações (3):

OLHO – “Preciosa e mimosa parte do corpo humano, instrumento da vista, espelho dos afectos d’alma, sol do microcosmo, e admirável órgão da natureza, composto de dous nervos, seis membranas ou túnicas, três humores, seis músculos e muitas veias e artérias” .(4)
 
[..]
 
“Nos olhos se vê claramente a boa e má disposição do corpo humano, pela afluência ou indigência dos espíritos animaes; com a afluência destes espíritos ficão cheyos, limpos, claros e alegres; mas por falta delles se fazem escuros, tristes, até, que vacillando com a saúde a vista, desmayão as forças e acaba a vida”.
 
[...]
 
E, citando Rodrigues Lobo, na Corte na Aldeia: “Os olhos dão muito espírito às razões, porque como elles são as janelas da alma, por elles se comunica a vida às palavras; a assim hão-de ser claros, alegres e movíveis; porque os muyto apertados e franzidos movem o desprezo, e os muyto apertados e estendidos entristecem; os muyto abertos, pasmados e sahidos para fora, fazem temor; e posto que os olhos por risonhos nunca perdem graça, parece que nas práticas graves e de importância não hão-de ser muito chocalheiros”.
 

Le Faux Miroir-Rene Magritte-1928


E no ainda tão útil Dicionário da Língua Portuguesa de Caldas Aulete, podemos ler, a propósito:

OLHO – s. m. (anat.) Órgão da vista situado em órbita própria, de forma mais ou menos globular, ordinariamente em número de dois, colocados na parte anterior da cabeça do homem e de quase todos os animais. // Órgão da vista considerado como indício das qualidades ou defeitos do espírito, do carácter, das paixões, dos sentimentos: a bondade brilha nos seus olhos. // (Fig.) Olhar, vista, percepção operada pelo sentido da vista: Nenhum Olho mortal pode este alcácer de ora avante avistar (Garrett). // Agente que distingue, que percebe, que entende; agente que esclarece; luz, clarão, ilustração; a reflexão é o olho da alma; vendo pelos olhos do espírito a desonra e o despreso e ouvindo a desesperação gritar (R. da Silva); a geografia e a cronologia são os olhos da história. // Atenção, esforço da alma aplicado a um objecto: têm os olhos fixos no seu dever, na sua conduta. // Atenção vigilância, cuidado, o ladrão escapou aos olhos da policia; os olhos da real benignidade (Camões); traz o olho no criado que o rouba. // Ocelo. // Gota de líquido gorduroso que flutua sobre outro líquido mais denso. // Buraco ou furo em certos objectos por onde se enfiam linhas ou fios. // Aro das ferramentas por onde se enfia o cabo; o olho da enxada. // (Pleb.) O orifício do ânus. // (Gir.) Tostão (5) // Vão nos tímpanos dos arcos da ponte para dar maior vasão à água. // Abertura por onde entra a água que faz mover a roda dos moinhos. // (Tipogr.) A espessura de um carácter de imprimir; a abertura no e que distingue esta letra do c. // Poro ou buraco que apresentam certas massas e especialmente os queijos. / / (Arquit.) Abertura circular ou elíptica feita nos tectos ou paredes dos edifícios para lhes dar mais claridade. // (Metal.) O buraco da fieira por onde passa o metal que se quer adelgaçar. // (Alcanena.) Porção de qualquer casca, que serviu num tanque de curtimenta. // Batoque ou orifício na parte superior e anterior dos tonéis e que serve para lhes introduzir o líquido e tirá-lo depois de fermentado. // O buraco da pedra superior ou girante (falando da mó dos moinhos) por onde cai o trigo e outros cereais para serem reduzidos a farinha. // O botão que se vai desenvolvendo na planta ou o rebento das árvores: Olho da couve; e sejam guarnecidas com Olhos de alface, ou de chicória (Domingos Rodrigues. Arte de Cozinha. 1, e 1, 4, p. 5 ed., 1693).

Glosando o tema nesta perspectiva esta poesia anónima do séc. XVIII que, pelo seu “sabor” não resistimos a citar:
 

Não foreis olhos de couve
que os não como em toda a vida?
E então não se dava caso,
Me fizésseis golosima.

Não foreis olhos de alface,
Com sua cebolinha?
Que aí com real e meio
Eu bem enchera a barriga

Não foreis olhos de coifa,
Com todas suas preguinhas?
Que eu para trás vos deitara,
E não vos tivera à vista.

Foreis olhos de panela,
Que eu desde muy criancinha
Como nunca fuy mimoso
Desses regalos me rira.


Peregrinámos também por outros dicionários que, com maior ou menor desenvolvimento, se mantêm nesta órbita (aliás vasta, como se viu) de significados. Permito-me, porque me parece de interesse geral, referenciar o Grande Dicionário da Língua Portuguesa de António de Morais Silva que em 1954 teve a sua 10.ª edição e que ao artigo consagra 9 páginas (da 461 à 470), que de resto serve de base aos seus congéneres posteriores.

Ainda o Vocabulário da Língua Portuguesa, do Prof. Rebelo Gonçalves, ed. Coimbra editora, 1966, e, mais à mão, o Dicionário da Língua Portuguesa dos Dicionários Porto Editora, 6.ª edição em 1986.

Noutro precioso auxiliar, nestas andanças, o Novo Dicionário da Língua Portuguesa, de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, ed. Nova Fronteira (Brasil), 1.ª ed. 4.ª impressão, [1975] encontramos contemplado, obviamente, o universo brasileiro.

Numa ronda pelas enciclopédias, verificamos que a Enciclopédia VERBO, ed. 1973, se confina à descrição anatómica e antropológica enquanto a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, essa sim, se espraia em definições e contextos.

E isto porque (e isso vai interessar-nos de seguida) as palavras, não vivendo isoladas, fixam-se muitas vezes em frases, expressões, aforismos e adágios. E nesta perspectiva, é a nossa palavra-guia fértil manancial.

Consultámos, nessa via, para além das supracitadas obras de carácter geral: a Revista Portuguesa de Filologia e a Revista Lusitana, outro utensílio indispensável nesta espécie de trabalho, e que, como se sabe, é um “arquivo de estudos filológicos e etnológicos relativo a Portugal” durante anos dirigido, (e substancialmente alimentado) por José Leite de Vasconcelos, inesquecível mestre da etnolinguística portuguesa.

Do conjunto destas pesquisas, pretendendo mais dar notícia dos caminhos que dos achados, passo a citar alguns exemplos de:


1. SUBSTANTIVOS COMPOSTOS OU LEXIAS

menina-do-olho – pupila; menina dos cinco olhos – palmatória

olho-branco – estado mórbido do vinho, em que lhe aparecem à superfície pontos brancos; variedade de peixe

olho-da-rua – lugar indeterminado para onde se manda alguém que se quer expulsar

olho-de-água – nascente. Também topónimo. Variante: olho d’água

olho-de-boi – orifício redondo no telhado duma casa para dar luz e ar a um sótão; clarabóia; lâmpada eléctrica (na Madeira); antiga moeda de 5 tostões; nuvem avermelhada no seio duma massa de nuvens brancas, prenunciando vento ou chuva; negrume no ar que precede o tufão; torneira de passagem nas canalizações; buraco na parte anterior do navio por onde passam os cabos.

olho-de-conta – olho terno e lânguido

olho-de-gato – olho que vê na escuridão; minério, o mesmo que litronite; pedra preciosa.

olhos-de-gato – pessoa que tem os olhos esverdeados ou amarelados Alegoria do séc. XVI representando a sabedoria das Nações

olho-de-lebre – casta de uva na Estremadura

olho-de-pargo – idem em Azeitão

olho-de-mocho – planta, o mesmo que leituga

olho-de-perdiz – calo pequeno e redondo que se forma nos dedos dos pés; qualidades de madeira; diz-se do toiro, geralmente castanho, que tem uma espécie de anel encarnado em volta dos olhos; figo temporão do Algarve

olho-de-sapo – (adjectivo) aspecto granuloso (para certos terrenos ou rochas); variedade de uva

olho-de-tigre – ágata

olho-do-céu – o Sol

olho-do-Sol – feixe de luz que penetra pelas aberturas ou fisgas dos ramos das árvores

olho-marinho ou olho-meirinho (etimologia popular em que meirinho aparece por marinho) – terreno alagadiço onde os animais se podem atolar; remoinho na água do rio (Vila Real)

olho-mau – o mesmo que mau olhado

olho-santo – o Sol

olho traseiro ou olho do cú – ânus

olho-verde – nome de albafora (variedade de peixe)


2. LOCUÇÕES ADVERBIAIS

a olho – sem peso nem medida, aproximadamente

a olho desarmado, a olho nu – directamente, sem auxílio de lente

a olhos vistos – claramente, de modo palpável

de olhos nos olhos – frontalmente; cara a cara

até aos olhos – excessivamente, extremamente

pelos lindos olhos de... – só por causa de; para agradar ou lisonjear
 


De olhos férvem as Leys, e d’eftacáda,
E fão os baluártes mais feguros,
Q’fem elles, nos trances mais efcuros,
Do previfto contrário hé fobjugáda.

 

 

3. FRASES FEITAS

abrir o(s) olho(s) (6) – acautelar-se

abrir os olhos a alguém – ensinar, esclarecer, ajudar a ver melhor; impôr-se a alguém

correr os olhos por – observar rapidamente

cravar os olhos em – fixar

custar os olhos da cara – ser excessivamente caro ou difícil de conseguir

dar com os olhos em – reparar, ver subitamente

dar de olho – piscar o olho (no Minho)

dar nos olhos, dar nas vistas – fazer-se notado

dar uma vista de olhos – observar superficialmente

deitar ou lançar o rabo do olho – olhar furtivamente

deitar poeira nos olhos – pretender enganar

encher o olho – agradar

enfiar um olho pelo outro – atrapalhar-se, revirar os olhos em protesto, indignação, ignorância etc.

entrar pelos olhos – ser evidente

estar debaixo de olho – estar sob vigilância ou ao cuidado de

estar com sete olhos – prestar a máxima atenção

fazer olhos de carneiro mal morto – olhar languidamente ou sem brilho

fechar o(s) olho(s) – dormir; morrer; fingir que não vê ou ignorar

levantar os olhos para – atrever-se a pretender algo ou alguém

meter-se pelos olhos (dentro) – o mesmo que: entrar pelos olhos – não oferecer dúvida

não pregar olho – não conseguir dormir

não ser olho de santo – não ser coisa de importância

não tirar os olhos de – observar fixamente

num abrir e fechar de olhos – num ápice

olhar ou ver com bons olhos – aprovar; ter estima a

olhar de lado – com desconfiança ou má vontade

olhar para dentro – dormir, reflectir

pôr os olhos no chão – envergonhar-se ou mostrar humildade

pôr os olhos em alguém – tomar como exemplo, observar

pôr os olhos em alvo – revirar os olhos, fingir-se inocente

querer a alguém como (à menina dos) olhos, ou, como aos seus olhos

saltar aos olhos – ser evidente

ser todo olhos – estar com máxima atenção

ter olho – ser perspicaz

trazer de olho – estar em vigilância ou com o sentido em

um pau por um olho(7) – grande vantagem, negócio rendoso, pechincha


4. ADÁGIOS

“Ao invejoso emagrece-lhe o rosto e incha-lhe o olho”

“Contas na mão e olho ladrão”

“Se não dorme meu olho, folga meu osso”

“Se não vejo pelos pelos olhos, vejo pelos óculos”

“Quem quizer olho são, ate a mão”

“Os que falam com olhos fechados, querem ver os outros enganados”

“Fui para me benzer, quebrei um olho”

“O cavalo engorda com o olho do seu dono”

“Vê-lo com o olho, comê-lo com a testa”

“Onde a galinha tem os ovos, lá se lhe vão os olhos”

“Pão com olhos, e queijo sem olhos, e vinho que salte aos olhos”

“Graça de olhos tarde envelhece”

“Corvos a corvos não se tiram os olhos”

“O marido antes com um só olho que com um filho”

“Um olho no prato outro no gato”

“Um olho no burro e outro no cigano”

“Não há coisa encoberta senão aos olhos da toupeira”

“Os mortos aos vivos abrem os olhos”

“Olhos que não vêem, coração que não sente”

“A mão na dor e olho no amor”

“Quem não é mulher, muitos olhos há mister”

“Na face e nos olhos se lê a letra do coração”

“Na terra dos cegos quem tem um olho é rei”

“Olho mau a que viu pegou malícia”

“Quando o nó se faz piolho, com mal anda o olho”


E continuando esta viagem nos “mares” do léxico creio indispensável referir que um signo linguístico vive “em família”, sendo a sua raiz responsável às vezes, por vastas gerações. É este o caso. Respigada nas obras atrás citadas (e porque me parece pedagogicamente proveitoso) aqui fica parte desta:

Olha – (ô) (do castelhano olla:); olho de gordura no molho ou caldo – «Pois havia de haver olha sem chouriço?» (D. Francisco Manuel de Melo, séc. XVII)

Olha – (ó) subst. fem.– acto de olhar estar à olha, estar presente numa refeição de que não se participa (Turquel)

olhada – o mesmo que olhadela olhadela – relance de olhos

olhado – (adj.) visto; considerado; (subst. m.) modo de olhar, quebranto

olhador – (adj. e s. m.) guardador; aquele que olha

olhadura – o mesmo que olhadela

olhal – arco da ponte; buraco da mó por onde cai o grão; pequena argola fixa em qualquer ponto da embarcarão com fim determinado, (vocabulário náutico); orifício que permite a ligação do atrelado à viatura motora; buraco onde se rosca a espoleta das granadas; peça de borracha a que, nas lunetas se encosta o olho.

olhalvo – animal que tem uma mancha mais clara apanhando-lhe o(s) olho(s)

olhamento – benefício ou gratificação (Alentejo)

olhapim – larápio; ser sobrenatural com aparência humana mas um só olho no meio da testa (Minho

olhapudo – criança com sentido em comida (Trás-os-Montes)

olhar – v. e subst. masc. olhar contra o governo – ser estrábico; Olhar a ter em conta; Olhar por – cuidar, proteger.

olharapa (o) – o mesmo que olhapim

olharapo – olho(s) grande(s)

olhe! – exclamação ou expressão fática muito usada para chamar atenção do interlocutor

olheira (ou olheirada) – réstea de sol (Beira Alta)

olheirão – nascente abundante de águas; olho grande

olheiras – círculo arroxeado à volta dos olhos, causado por cansaço ou sofrimento

olheirento – que tem olheiras

olheiro – curioso, bisbilhoteiro, metidiço, vigilante, informador, atoleiro, lodaçal, nascente

olhetado – vara da videira que se deixa com poucos olhos para rebentar com mais força

olhete – diminuitivo de olho; depressão em forma de olho nas articulações dos braços e das pernas

olhibranco – o mesmo que o olhalvo

olhica (s. m.) aquele que espreita (Alentejo)

olhizaino – vesgo

olhizarco – que tem os olhos azuis-claros; cavalo que tem um olho de cada cor

olhudo (adj.)– que tem os olhos grandes; (subst. m.) peixe


E ainda, partindo do mesmo étimo inicial latino, mas seguindo a via erudita:

oculação
ocular
óculo/óculos


O olho vigia e exconjura o perigo - ornamento e talismã -


Se atendermos ao que nos chegou, por outra via, teremos:

auguração – o mesmo que augúrio

augurar – predizer

auguratório

auguratriz

áugure – o que prediz ou adivinha

augúrio – predição

agoiro – agoirar

inauguração, inaugurar


E a família pode aumentar, por prefixação, em exemplos como antolhos, desolhado e desolhar; ou composição mirolho; zanolho ou zarolho.

E para terminar a ronda dos dicionários, não deixa de ser curiosa a “incursão” no Dicionário Analógico “Thesouro de vocábulos e phrases da língua portuguesa” de Carlos Spitzer, ed. Liv. do Globo, Porto Alegre (Brasil) de 1936 que a este propósito recenseia abundante contribuição em substantivos, adjectivos e verbos nas entradas Vista; Ver e Falta, defeitos da vista respectivamente artigos n.° 298 e 299, nas páginas 142 e 143.
 


A estratégia da sedução...


O SINAL

Mas aliciante é de facto, neste caso, a consideração do referente e do poderoso campo de significações que desenvolve bem como o reflexo que dele dá, não apenas a língua, mas também os outros sistemas de representação com ela conviventes.

Assim, numa consideração puramente semiológica são os olhos sede privilegiada de intenção e significância.

Desde simples indícios: os olhos “avinagrados” indicam febre ou embriaguês; os olhos “vidrados” podem significar “morte” – são eles, desde logo como órgão anatómico de visão, fonte privilegiada de emissão – recepção de sinais. Tal se descobre em frases como: “Abrir os olhos de espanto”; “Os olhos riam-se-lhe de prazer”; “Baixou os olhos em sinal de aquiescência”; “O cansaço lia-se-lhe nos olhos” “Ela bem lhe fazia olhinhos mas ele fingia não perceber”. “O pai calava mas os olhos diziam que sim”, “Piscava os olhos, confusa”, “Deu-lhe uma piscadela d’olho a desejar-lhe coragem”... E por alguma razão se afirma que “Os olhos são o espelho da alma”... ou, como no texto duma revista feminina, em tom aliciador:

“Os seus olhos dizem tudo... ou deviam poder dizê-lo, se você souber dar-lhes vida e expressão...
Os olhos são provavelmente a feição mais importante do seu rosto. Têm-lhes chamado as janelas da alma... o espelho do carácter... designações poéticas mas que não andam muito longe da verdade. Os olhos são a nossa feição mais expressiva.
Por isso lhe vimos dizer tudo aquilo que deve saber para os realçar, em matéria de sombra, lápis, pestanas, sobrancelhas... e o mais que adiante se verá!”


E vamos a Eça, ouvir melhor prosa e surpreender Jacinto, ele próprio em maré de surpresas, no seu atribulado regresso a Tormes:

“Tentou todavia uma garfada tímida – e de novo aqueles seus olhos que o pessimismo enevoava luziram, procurando os meus [...]
Que delícia!” [...] “E imóvel, com a mão agarrada à infusa, o Melchior arregalava para nós os olhos em infinito assombro e religiosa reverência”.
Ou ainda, noutra pose e com outro fito, outro “jogo de olhos”:
(Jacinto) “Ora com essa instalação perfeita, quanto me poderá custar cada queijo?
(Zé Fernandes) Fechei um olho, calculando: – Eu te digo... [...] entre duzentos e cinquenta e trezentos mil réis. O meu Príncipe recuou, com dois olhos alegres espantados para mim; – Como trezentos mil réis?”
E finalmente reconciliado: “O meu Príncipe, com o olho de dono subitamente aguçado, notou a robustez e fartura das oliveiras...”
Eça de Queirós, A Cidade e as Serras


Aliás, como sinal, desde logo o vimos aparecer nos primitivos alfabetos dos fenícios e dos egípcios, como o provam as ilustrações:
 


Alfabetos comparados dos signos egípcios, cretenses e fenícios.

 

ou ainda na cartilha de João de Barros (1540):

 

 

O SÍMBOLO

Mas o olho, órgão da percepção visual, tornou-se naturalmente e quase universalmente o símbolo da percepção intelectual.
 


olho em bracelete de faraó (945-924 a.C.)

Ponto de recepção de imagens materiais torna-se obviamente em indispensável ponto de ligação ao mundo exterior, com trânsito nos dois sentidos, e também local de síntese e de memória. Daí se passa à noção simbólica de Fonte e de Essência, de Conhecimento e Percepção sobrenaturais. Assim, iconicamente, um OLHO único, aberto e sem pálpebra é símbolo da Essência e do Conhecimento divino. Inscrito num triângulo, é, neste sentido, um símbolo simultaneamente cristão e maçónico. “Na tradição maçónica, o olho simboliza, no plano físico o Sol visível donde emanam a Vida e a Luz; no plano intermediário ou astral, o Verbo, o Logos, o Princípio creador; no plano espiritual ou divino, o Grande Arquitecto do Universo” (8).
 


Encontrámos, aliás, no Dicionário da Maçonaria Portuguesa de A. H. de Oliveira Marques (ed. Delta, Lisboa, 1986, vol. II, pág. 1049/50) a seguinte definição simbólica para OLHO:

“O olho inscrito no delta ou no triângulo luminoso, cuja origem se encontra na arte católica barroca, simboliza o Sol visível, fonte da luz e da vida; simboliza igualmente o Verbo, o princípio criador, a presença omnisciente de Deus, a omnisciência da razão superior, a omnisciência do dever e da consciência. Correctamente desenhado, o olho não deve ser direito nem esquerdo, mas sim impessoal e abstracto”.

De facto, é assim que o descobrimos pintado na cúpula da Catedral de Santiago de Compostela, na nossa vizinha Galiza.

É de notar que o olho é por vezes utilizado como símbolo do conjunto das percepções exteriores, e não apenas da visão. “Para alguns povos, aliás, o sentido da vista é aquele que resume, que substitui todos os outros. O olho, de todos os órgãos dos sentidos é o único que permite uma percepção que se possa revestir de um carácter de “integralidade”(9).

Para além da associação, que a cultura islâmica (e não estamos assim tão longe dela...) faz do olho (símbolo) às noções de magia (10), perigo, embriaguês, pode-se aceitar, por outra via, e metaforicamente, que ela recobre também as noções de Beleza, Luz, Mundo, Universo, Fecundidade, Origem e Vida.

É curioso surpreender em certas imagens, fornecidas pelo quotidiano ou procuradas pelo poder associativo da imaginação, a produtividade da forma e da simbologia do olho.

E a publicidade ou simples registo de marca também se abastecem do mesmo filão. Limitando-se ao código especificamente linguístico, o anúncio alicia:
 

Ver para crer
 

Com um proveitoso trocadilho fonológico/gráfico que deixaria S. Tomé algo confuso... E seguindo Cristo, na ocorrência, proclamando

“Abençoados os que não viram e acreditaram”

... concluiremos que não é só a visão material que traz ciência e fé... também e paradoxalmente a cegueira é um símbolo ou sinal de vidência e por toda a História do Conhecimento os poetas, adivinhos sacerdotes e profetas, vão, cegos, anunciando a Verdade que os olhos distraídos dos homens não distinguem. Homero é o exemplo distante, mas na nossa literatura encontramos, sem grande esforço de pesquisa, exemplos como o de Afonso Domingues, protagonizando, com a sua derradeira obra, o conto de A. Herculano, A Abóbada, em passos como:

“A luz dos olhos tinha-lha de todo apagado a velhice; mas as suas feições revelavam que dentro daquelles membros tremulos e enrugados morava um animo rico de alto imaginar [...]” ou:

“[ ...] e porque ceguei arrancaram-me das mãos o livro, e nas páginas em branco mandaram escrever um estrangeiro. Loucos! Se os olhos corporaes estavam mortos, não estavam os do espírito”.
 


Auto-retrato com paleta - Almada Negreiros, 1926
Almada Negreiros - Auto-Retrato com paleta
 

E – bem que já tardava! – aportemos ao nosso Luís Vaz de Camões e oiçamos como ele respondeu: A uma dama que lhe chamou cara sem olhos

Sem olhos vi o mal claro
Que dos olhos se seguiu:
Pois cara sem olhos viu
Olhos que lhe custam caro.
De olhos não faço menção,
Pois quereis que olhos não sejam;
Vendo-vos, olhos sobejam,
Não vos vendo, olhos não são.


TEXTO LITERÁRIO

A este ponto da nossa “viagem” bom é que nos detenhamos na observação da palavra “em vida”, ou seja, do seu comportamento frásico e, num ângulo mais aberto, da sua responsabilidade no mecanismo da significação e na dinâmica da emoção estética.

Assim, e porque a nossa palavra-chave já fez correr rios de tinta evocando em todas as épocas(11) e em todos os estilos, grandes sobressaltos de alma e corações destroçados... difícil não foi encontrar no nosso “eterno” apaixonado Poeta, um bom campo de observação. Eis um soneto da sua lírica em que – uma vez mais – os olhos se jogam na sorte do amor:
 

Vossos olhos, Senhora, que competem
Co Sol em formosura e claridade,
enchem os meus de tal suavidade
que em lágrimas de vê-los, se derretem.
 
Meus sentidos vencidos se sometem
assi cegos a tanta divindade;
e da triste prisão da escuridade;
cheios de medo, por fugir, remetem
 
Mas se nisto me vedes por acerto,
o áspero desprezo com que olhais
torna a espertar a alma enfraquecida
 
Ó gentil, cura e estranho desconserto!
Que fará o favor que vós não dais quando
o vosso desprezo torna a vida?


Trata-se dum texto literário. Torna-se óbvio à simples leitura da mensagem – e é directamente dela, do seu próprio corpo linguístico que nos vem desde logo a sensação de “desvio” E não porque o vocabulário seja diferente, quiçá desconhecido ou colocado longe no tempo, mas porque a postura do comunicador – o poeta – é deliberadamente re-buscada, intencionalmente afastada do uso ordinário da língua (e não apenas porque se trata de um texto com quatro séculos de vida...). De facto, o autor assume o papel de inventor, criador e produtor de ideias, bem como se responsabiliza pela adopção de uma estrutura textual e de significação que ele próprio organiza como diferente, original e muitas vezes até agressivamente diversa da norma corrente.

Por seu lado o código literário, assegurando uma grande solidariedade entre expressão e conteúdo, utiliza uma componente semântica que deverá ser – se bem que não necessariamente na sua totalidade – comum ao autor e aos seus leitores. Visando um fim estético, desde logo, porém, a comunicação estabelecida deixa o nível utilitário, corrente e meramente informativo para passar ao nível interpretativo, intencionalmente motivador e “segundo”. Redobra – digamos assim – o seu código, transferindo-o para o nível do simbólico.

Assim, há uma sobreposição de um código “estético” ao código “sintáctico-semântico”.

A função poética impõe uma revalorização total da linguagem corrente, um duplo código, uma duplicidade, e, se se quiser, uma espécie de ambiguidade.

Mas, como diz João de Freitas Ferreira (12)

“Nada disto conduz porém à insignificação do discurso poético. Ele obedece a uma coerência e a uma lógica “poéticas”. São o contexto e a intenção do emprego que dão o seu sentido aos processos e fixam, mais ou menos, o seu alcance. A obra é, pois, sempre susceptível de ser diferentemente interpretada; ela jamais é totalmente fechada. A palavra poética e o discurso literário estão abertos a múltiplas significações, são essencialmente polissémicos. Todavia, não comunicam definindo ou demonstrando, [...] comunicam activando o plano afectivo através da sugestão”.

A mensagem literária desenvolve um sistema peculiar no qual os diversos elementos tomam a sua significação e o seu valor a partir das relações que mantêm entre si. Para além dos referentes conceptuais comuns ao autor e aos leitores, a obra cria o seu próprio sistema de referentes textuais e assim emerge obra “única” e auto-suficiente.

***

Retomemos porém Camões e sigamo-lo ao pé da letra. O “enredo” não é complicado, nem sequer inovador: a comovente suavidade de uns olhos “senhores” que paradoxalmente se enchem de desprezo ao contemplar o seu rendido admirador – que, paradoxalmente também, porfia apesar dos maus tratos e cogita: se o desprezo dá vida, que não daria a complacência? – a repetida história do desencontro amoroso e da teimosa fidelidade do amante em êxtase, perante a Senhora distante e caprichosa mas divinamente Mulher. Renascença, do mais puro! E do mais perfeito também.

Atentemos no pormenor:
 

 

Um pouco complicado, convenhamos, e, para um ser tão cego de paixão, assaz racionalizado... Bem dizia Pessoa: “O poeta é um fingidor...” De qualquer modo, e considerando o que nos interessa, nesta comunicação algo desencontrada, são os olhos o canal: olhos que competem com o sol e simbolicamente o figuram como fonte de vida e divindade; olhos que a outros olhos provocam lágrimas; com que olhais (com tal desprezo...) e me vedes (em tal estado...).

E geram alguns outros vocábulos, escolhidos decerto por associação, dentro desta mesma esfera temática:

- claridade / escuridade
- cegos
- espertar (= despertar)



Le Faux Miroir - Rene Magritte, 1928
Pintura de Magritte - Museu de Arte Moderna, Nova Iorque
 

E muito provavelmente em “meus sentidos” estará incluída a vista, algo idealizada como convém a quem contempla tanta divindade.

Muito de conceptualista na estranha dualidade que se joga e sobrevive amorosamente num quadro extremado como: E porque a época ajudava, muito também de cultismo na elaboração do poema.
 

EU (POETA)
VÓS (SENHORA)
 
lágrimas
sentidos vencidos
cegos
triste prisão
escuridade
medo
ALMA ENFRAQUECIDA
O DESCONCERTO
sol
formosura
claridade
suavidade
divindade
desprezo
A VIDA
A CURA

O AMOR é um PARADOXO


Não resisto a alinhar uma observação que, se não tem directamente a ver com olhos, tem com certeza a ver com “o que salta aos olhos”. Ou seja a curiosa distribuição do ritmo, em cesura interna, numa regularidade matemática. Assim os decassílabos escandem-se do seguinte jeito:
 

Vosso olhos / Senhora / que competem
Co sol em formosura/ e claridade,
enchem os meus/ de tal suavidade
que em lágrimas / de vê-los / se derretem

Meus sentidos / vencidos / se sometem
assi cegos / a tanta divindade.
e da triste prisão/ da escuridade
cheios de medo/ por fugir/ remetem.

Mas se nisto me vedes por certo
o áspero desprezo /com que olhais
torna a espreitar a alma enfraquecida

Ó gentil cura estranho desconcerto!
Que fará o favor/ que vós não dais,
quando o vosso desprezo torna a vida?


Graficamente a representação seria:
 


O esquema da RIMA é:
 

para as quadras: E para os tercetos
A
B
B
A

A
B
B
A


C
D
E

C
D
E


A análise literária completa levaria a mais pormenores, mas é tempo de acabar. Antes porém seja-me permitido que não deixe o nosso Camões em sofrimento e lhe publique uma redondilha que tem tanto de surrealista quanto de azougada:


MOTE
Pus meus olhos numa funda,
E fiz um tiro com ela
às grades duma janela.

VOLTA
Uma Dama, de malvada,
Tomou seus olhos na mão
E tirou-me uma pedrada
Com eles ao coração.
Armei minha funda então,
E pus os meus olhos nela:
Trape! quebrei-lhe a janela!



E os olhos verdes? Que tentação (13)...

Com, Camões ainda e depois, Garrett, também em “viagem”:
 

MOTE
Menina dos olhos verdes,
Porque me não vedes?
 
VOLTAS
Eles verdes são,
E tem por usança
Na côr da esperança
E nas obras não.
Vossa condição
Não é de olhos verdes
Porque me não vedes.
 
Isenções a molhos
Que eles dizem terdes,
Não são de olhos verdes,
Nem de verdes olhos.
Sirvo de geolhos,
E vós não me credes
Porque me não vêdes.
 
Havia de ser,
Por que possa vê-los,
Que uns olhos tão belos
Não se hão-de esconder.
Mas fazeis-me crer
Que já não são verdes
Porque me não vêdes.
 
Verdes não o são
No que alcanço deles;
Verdes são aqueles
Que esperança dão.
Se na condição
Está serem verdes,
Porque me não vêdes?


“O arvoredo, a janela, os rouxinóis... àquela hora, o fim da tarde... que faltava para completar o romance? Um vulto feminino que viesse sentar-se àquele balcão – vestido de branco – oh! branco por força... a frente descaída sobre a mão esquerda, o braço direito pendente, os olhos alçados ao céu... De que côr os olhos? Não sei, que importa! É amiudar muito demais a pintura, que deve ser a grandes e largos traços para ser romântica, vaporosa, desenhar-se no vago da idealidade poética...

– ”Os olhos, os olhos...” – disse eu pensando já alto, e todo no meu êxtase – “os olhos... pretos.”
– “Pois eram verdes!” – “Verdes os olhos... dela, do vulto da janela?” – “Verdes como duas esmeraldas orientais, transparentes, brilhantes, sem preço.”
Almeida Garrett, Viagens da Minha Terra

E o olhar alonga-se até à nossa literatura contemporânea, e na letra de António Ramos Rosa, vamos VER duma forma diferente.
 

VER

ao Luis Pignatelli

De um olhar livre
se vive
Olhando a folha
abria-se
 
Da superfície ao fundo
exactamente assim
 
É um muro onde se vence
a inércia cega
 
O pó que pisas
é de um astro

A terra gira
em ti
devagar.
 
Olhos vêem dentro da tela
 
É uma tempestade
(mas não te abrigues)
 
O olho faz uma pausa
na espiral que te conduz ao silêncio
 
Lembras-te de um jantar antigo
 
É a língua da pedra
 
O olho faz-se víbora
e lambe o fogo
 
A terra é um planeta
são os teus pés que vêem
 
A tua mão tem olhos
 
Abriu-se o muro de dentro
Caminhas com teus olhos

António Ramos Rosa, Horizonte Imediato
Publicações D. Ouixote, 1974

 

Mas não saberia partir se não fôra com os olhos mais belos da literatura portuguesa – olhos de homem, por tal sinal.., – tão definitivamente tristes, tão definitivamente eternos.


Senhora, partem tam tristes
meus olhos por vós, meu bem,
que nunca tam tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.
 
Tam tristes, tam saudosos,
tam doentes da partida,
tam cansados, tam chorosos,
da morte mais desejosos
cem mil vezes que da vida.
Partem tam tristes os tristes,
tam fora d' esperar bem,
que nunca tam tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.

João Ruiz de Castelbranco, Cancioneiro Geral

FIM


NOTAS:

(1) No que se refere à fonologia, este signo oferece um exemplo de mudança da qualidade da vogal tónica ao pluralizar. Olho (ô) > olhos (ó). O que aconteceu foi um caso de metafonia, na passagem do latim para o português, incidindo sobre a vogal tónica, que apesar de breve, em latim, e portanto destinada a manter-se aberta em português, fechou devido à influência da vogal fechada final u [Òculu(m] > ôlho. No plural a vogal mantém-se aberta porque a vogal final em latim é também aberta: Òculos > ólhos.

(2) Com a regular queda da vogal post tónica, a formação do grupo cl que, regularmente também, palataliza em lh, num percurso em que se pressupõem as formas marcadas com * por não aparecerem atestadas na escrita.

(3) Referenciando, como aliás o título da obra indica, as palavras ou frases às suas correspondentes latinas.

(4) Extremamente curiosa é a descrição que se segue deste órgão, à luz dos conhecimentos anatómicos da época e servindo-se de uma linguagem veramente pitoresca.

(5) Não vigora, obviamente, para o actual sistema monetário, que o aboliu.

(6) Já no Cancioneiro Geral se lê: “E porém sede avisado/Não v’tome salteado/ mas abry mui bem o olho” [I, 23]2.

(7) A este propósito, recolhi, na Revista Lusitana, vol. XV, p. 312 a curiosa observação de Óscar Pratt (in Locuções petrificadas) de que talvez, primitivamente, a versão fosse outra, uma vez que o equilíbrio dos dois termos da proposição lhe parece um pouco suspeito: um pau em troca de um olho (?!) Assim sugere que olho estará em vez de oiro (“ a peso de oiro”) e que a modificação se teria produzido por contiguidade com frases como “custar os olhos da cara”, “dar um olho ao diabo”, “a menina dos olhos”, “quem tem um olho é rei” que giram à volta da noção de grande valor. “Dar pau por oiro” seria o ideal dos negócios rendosos e já no Cancioneiro Geral se referia tal “operação”. Pela curiosidade não resisto a citar:

“Estrangeiros partystando
levam desta nossa terra
ouro, prata,
nossas bolsas alivando
com sa paz n’fazem gerra
que n’mata

Levantanse as moedas
quanto mingi nossos fruytos
temporaes
estas práticas azedas
estes nossos males muyto[s]
sam geeraes.

Assy como vam da nao
todolos os outros estantes
n’despenam
levam ouro trazem pao,
nossos tratos mercadantes
desordenam.

Por framengos, genoeses
frorentyns e castelhanos
mal n’vindo
com seus novos antremeses
dãnos trinta mil avanos,
vam se rrindo”.

(8) J. Chevalier e ª Cheerbrant, Dictionnaire des Symboles, ed. robert Laffont/ Jupiter.

(9) Cf. nota 1 pág. anterior.

(10) “O Mau Olhado é uma expressão muito espalhada no mundo islâmico, simbolizando uma forma de poder sobre alguém ou alguma coisa por desejo ou inveja e com uma intenção perversa. Têm olhos particularmente maléficos: as mulheres velhas e as recém-casadas. São-lhe particularmente sensíveis: as crianças; as parturientes; as recém-casadas, os cavalos, os cães, o leite e o trigo” (in Dictionnaire des Symboles, cf. nota pág. anterior).

(11) No Glossário do Cancioneiro da Ajuda, de D. Carolina Michaëlis de Vasconcelos, refere-se assim a presença de Olhos(s) (in Revista Lusitana, Vol. 23, pág. 62).

Olho (oc’lu): 737; olhos 873; meus olhos 3652; os meus olhos 737, 3811, 3829, 3856; os olhos meus 3434; aquestes meus olhos 3784, 3806, 5137; estes meus olhos, 1518, 3489, 3505, 4105, 5265, 5279, 6821; estes olhos meus 3499, 3564, 3692, 3717, esses vossos olhos, 3505.

Curioso é também notar que meus olhos foi forma de tratamento no português arcaico até, pelo menos ao séc. XIV.

(12) in «A pedagogia do léxico», edições Claret, Porto, 1985, pág. 106.

(13) Segundo Luciana Stegagno Picchio, em “A lição do texto”, Edições 70, já na poesia galego portuguesa este motivo aparece. Pelo menos três vezes: as duas primeiras em Joham Garcia de Guilhade e a terceira numa cantiga de escarnho de Joham de Gaya. Aliás, D. Carolina Michaëlis [CA II, 4141 celebrava Guilhade por ele ter sido um dos primeiros, se não o primeiro em Portugal, a cantar os olhos verdes, olhos cor do mar. Assim poderá afirmar-se: “em Portugal, entre a 2.ª metade do séc. XIII (qdo Guilhade escreveu) e a 1.ª metade do séc. XIV, o motivo dos olhos verdes deve ter sido largamente explorado”.

 

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Viagem à volta de uma palavra: O(s) Olho(s)
GARCIA MARQUES, M.ª Lúcia
Revista ICALP, vol. 9,
Outubro de 1987, 15-44.

[Maria Lúcia Garcia Marques é Investigadora em Linguística e coordenadora da Revista do Instituto de Cultura e Língua Portuguesa.

Fonte: Instituto Camões - centro virtual
 


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[2.Jan.2012]
Publicado por MJA