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Durante o recente
Congresso sobre a
Investigação e Ensino
do Português, pude
surpreender, no teor de
algumas intervenções,
uma orientação de
interdisciplinaridade no
ensino e tratamento
da língua materna que de
há muito perfilho e
venho defendendo.
E trouxe-me também à
memória um trabalho que
realizei na
Sociedade de Língua
Portuguesa, integrado
nas comemorações
da morte de Camões, em
1980. Daí a
palavra–chave escolhida,
tematicamente tão
glosada pelo nosso poeta
maior.
Não pretendi à época
como não pretendo ao
publicá-lo hoje,
em versão actualizada,
exibir trabalho de alta
erudição, nem
sequer dar exemplo de
algo genuinamente
inovador em didáctica
ou mera exploração
cientifica. Tracei tão
somente uma espécie
de roteiro “linguístico”
(e não só ...) em que,
se não houver
descoberta, esperarei
que haja, pelo menos, o
prazer dos
reencontros felizes.
- ... as ilhas eram os
olhos azuis do mar
Sophia de Mello Breyner
(em entrevista ao ICALP,
Revista n .º 6, 1986)
Em tempo de comemorações
dos Descobrimentos em
que a
“aventura dos olhos” não
foi menor que a dos
meios e dos propósitos,
em tempo de recordar que
foram os portugueses que
em 500
fecharam o círculo do
mundo, em tempo de
lembrar a visão e a
memória do povo de que
vimos, penso que o
simbolismo – e a
eficácia – dos olhos nos
aconselha e nos impele a
uma viagem na
sua “órbita”.
O SIGNO
E partimos desde já em
direcção ao Signo e à
tríade dos
seus polos: referente,
significante e
significado.
Por escolha de uma
viagem predominantemente
“ linguística”
e também por facilidade
de método de abordagem,
começarei pela
perspectiva lexicológica
(1) do significante: e
desde logo se impõe
uma excursão pelos
dicionários (algo que os
nossos estudantes
deveriam realizar mais
assiduamente...).
Até porque, mesmo
quando, como no caso,
nos lançamos
na senda de palavra tão
prometedora, vida de
tantos poemas, há
que buscar fundo no
“reino das palavras”,
pois, como diz Drummond
de Andrade, “lá estão os
poemas que/esperam ser
escritos. [...]
Ei-los sós e mudos,
em/estado de dicionário”
Será pois um bom começo,
um dicionário
etimológico.
Assim, no Dicionário
Etimológico da Língua
Portuguesa, de
José Pedro Machado,
encontramos, sem
surpresa, a origem
latina
de olho: ÒcÔlum(m) – que
evolui nas etapas oclu
(2) > * oglu >*
oylu > *oëlu > *oëëû>
olho.
Mas se formos
suficientemente
curiosos, e procurarmos
mais
longe, descobriremos, no
Dictionnaire des Racines
de Langues
Européenes, ed. Larousse,
1949, que o étimo
primeiro radicará no
indo-europeu OK.
O que, numa pequena
viagem subsidiária, nos
informa de
que:
Ok – indo-europeu
olho
deu:
- * no sânscrito:
áksi
olhos
- * no grego homérico:
osse os dois olhos
ops,
olhar;
opsi, vista; opticos,
visual; omma, ophtalmos,
olho
- * no latim: 1.
oculus(s)
olho ou rebento em forma
de
olho; ocularis,
ocularius, ocular;
ocellus, ocelo olhinho;
oculare olhar
inoculare
inocular; introduzir
2. -ox,-ocis sufixo que
serviu para formar
certos adjectivos que
referem um “aspecto”,
uma
“aparência”: atrox de
aspecto escuro; ferox de
aspecto
pouco amistoso.
a partir do latim:
- ** francês antigo:
oeiller olhar;
avuele
(de ab-oculo) aveugle
(fr.)
- ** francês moderno: oeil,
oeillade; [...] oculaire;
monocle;
binocle; aveugle.
- ** italiano: occhio,
occhiare, occhiata etc.
- ** inglês: ocular,
inoculate
- ** espanhol: ojo, ojal,
ojeada, ojete, ojear;
inocular
- ** português: olho
(olhos); olhar, etc. óculos(s), ocular
etc.
a partir do germânico
- ** gótico: augo (forma
intencionalmente
deformada por
causa das crenças
relacionadas com o “mau
olhado”).
- ** inglês: eye olho;
ogling olhadela
- ** alemão: auge olho
- ** português: augúrio,
áugure, augurar, agoiro,
agoirar.

A Dióptrica (1637),
ilustração da época
Elucidados quanto ao
corpo da palavra e sua
origem,
prossigamos em busca do
seu significado e
aportemos aos
dicionários de sinónimos
e às enciclopédias. Não
abundam,
actualizados, os
primeiros, mas ainda
assim podemos dispôr com
utilidade de alguns, e
cronologicamente,
começamos por Rafael
Bluteau, Vocabulário
Português e Latino, na
edição de Lisboa, de
1720, que nos fornece
estas deliciosas
considerações (3):
- OLHO – “Preciosa e
mimosa parte do corpo
humano, instrumento
da vista, espelho dos
afectos d’alma, sol do
microcosmo,
e admirável órgão da
natureza, composto de dous nervos,
seis membranas ou
túnicas, três humores,
seis músculos
e muitas veias e
artérias” .(4)
-
- [..]
-
- “Nos olhos se vê
claramente a boa e má
disposição
do corpo humano, pela
afluência ou indigência
dos
espíritos animaes; com a
afluência destes
espíritos ficão
cheyos, limpos, claros e
alegres; mas por falta
delles se
fazem escuros, tristes,
até, que vacillando com
a saúde a
vista, desmayão as
forças e acaba a vida”.
-
- [...]
-
- E, citando Rodrigues
Lobo, na Corte na
Aldeia:
“Os olhos dão muito
espírito às razões,
porque como elles são as janelas da
alma, por elles se
comunica a
vida às palavras; a
assim hão-de ser claros,
alegres e
movíveis; porque os
muyto apertados e
franzidos movem
o desprezo, e os muyto
apertados e estendidos
entristecem; os muyto
abertos, pasmados e
sahidos
para fora, fazem temor;
e posto que os olhos por
risonhos
nunca perdem graça,
parece que nas práticas
graves e
de importância não
hão-de ser muito
chocalheiros”.
E no ainda tão útil
Dicionário da Língua
Portuguesa de Caldas
Aulete, podemos ler, a
propósito:
- OLHO – s. m. (anat.)
Órgão da vista situado
em órbita própria, de
forma mais ou menos
globular, ordinariamente
em
número de dois,
colocados na parte
anterior da cabeça
do homem e de quase
todos os animais. //
Órgão da
vista considerado como
indício das qualidades
ou
defeitos do espírito, do
carácter, das paixões,
dos
sentimentos: a bondade
brilha nos seus olhos.
// (Fig.)
Olhar, vista, percepção
operada pelo sentido da
vista:
Nenhum Olho mortal pode
este alcácer de ora
avante
avistar (Garrett). //
Agente que distingue,
que percebe,
que entende; agente que
esclarece; luz, clarão,
ilustração; a reflexão é
o olho da alma; vendo
pelos
olhos do espírito a
desonra e o despreso e
ouvindo a
desesperação gritar
(R. da Silva); a
geografia e a
cronologia são os olhos
da história. // Atenção,
esforço
da alma aplicado a um
objecto: têm os olhos
fixos no
seu dever, na sua
conduta. // Atenção
vigilância, cuidado,
o ladrão escapou aos
olhos da policia; os
olhos da real
benignidade (Camões);
traz o olho no criado
que o rouba.
// Ocelo. // Gota de
líquido gorduroso que
flutua sobre outro
líquido mais denso. //
Buraco ou furo em certos
objectos
por onde se enfiam
linhas ou fios. // Aro
das ferramentas por
onde se enfia o cabo; o
olho da enxada. // (Pleb.)
O orifício do
ânus. // (Gir.) Tostão
(5) // Vão nos tímpanos
dos arcos da
ponte para dar maior vasão à água. //
Abertura por onde
entra a água que faz
mover a roda dos
moinhos. // (Tipogr.)
A espessura de um
carácter de imprimir; a
abertura no e
que distingue esta letra
do c. // Poro ou buraco
que
apresentam certas massas
e especialmente os
queijos. /
/ (Arquit.) Abertura
circular ou elíptica
feita nos tectos ou
paredes dos edifícios
para lhes dar mais
claridade. // (Metal.)
O buraco da fieira por
onde passa o metal que
se quer
adelgaçar. //
(Alcanena.) Porção de
qualquer casca, que
serviu num tanque de
curtimenta. // Batoque
ou orifício na
parte superior e
anterior dos tonéis e
que serve para lhes
introduzir o líquido e
tirá-lo depois de
fermentado. // O buraco
da pedra superior ou
girante (falando da mó
dos moinhos)
por onde cai o trigo e
outros cereais para
serem reduzidos
a farinha. // O botão
que se vai desenvolvendo
na planta ou
o rebento das árvores:
Olho da couve; e sejam
guarnecidas
com Olhos de alface, ou
de chicória (Domingos
Rodrigues.
Arte de Cozinha. 1, e 1,
4, p. 5 ed., 1693).
Glosando o tema nesta
perspectiva esta poesia
anónima do
séc. XVIII que, pelo seu
“sabor” não resistimos a
citar:
Não foreis olhos de
couve
que os não como em toda
a vida?
E então não se dava
caso,
Me fizésseis golosima.
Não foreis olhos de
alface,
Com sua cebolinha?
Que aí com real e meio
Eu bem enchera a barriga
Não foreis olhos de
coifa,
Com todas suas
preguinhas?
Que eu para trás vos
deitara,
E não vos tivera à
vista.
Foreis olhos de panela,
Que eu desde muy
criancinha
Como nunca fuy mimoso
Desses regalos me rira.
Peregrinámos também por
outros dicionários que,
com maior
ou menor
desenvolvimento, se
mantêm nesta órbita
(aliás vasta,
como se viu) de
significados.
Permito-me, porque me
parece de
interesse geral,
referenciar o Grande
Dicionário da Língua
Portuguesa de António de
Morais Silva que em 1954
teve a sua
10.ª edição e que ao
artigo consagra 9
páginas (da 461 à 470),
que
de resto serve de base
aos seus congéneres
posteriores.
Ainda o Vocabulário da
Língua Portuguesa, do
Prof. Rebelo
Gonçalves, ed. Coimbra
editora, 1966, e, mais à
mão, o Dicionário da
Língua Portuguesa dos
Dicionários Porto
Editora, 6.ª edição em
1986.
Noutro precioso
auxiliar, nestas
andanças, o Novo
Dicionário
da Língua Portuguesa, de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, ed. Nova Fronteira (Brasil), 1.ª ed. 4.ª impressão, [1975]
encontramos
contemplado, obviamente,
o universo brasileiro.
Numa ronda pelas
enciclopédias,
verificamos que a
Enciclopédia VERBO, ed.
1973, se confina à
descrição anatómica
e antropológica enquanto
a Grande Enciclopédia
Portuguesa e
Brasileira, essa sim, se
espraia em definições e
contextos.
E isto porque (e isso
vai interessar-nos de
seguida) as palavras,
não vivendo isoladas,
fixam-se muitas vezes em
frases, expressões,
aforismos e adágios. E
nesta perspectiva, é a
nossa palavra-guia
fértil manancial.
Consultámos, nessa via,
para além das
supracitadas obras
de carácter geral: a
Revista Portuguesa de
Filologia e a Revista
Lusitana, outro
utensílio indispensável
nesta espécie de
trabalho,
e que, como se sabe, é
um “arquivo de estudos
filológicos e
etnológicos relativo a
Portugal” durante anos
dirigido, (e
substancialmente
alimentado) por José
Leite de Vasconcelos,
inesquecível mestre da
etnolinguística
portuguesa.
Do conjunto destas
pesquisas, pretendendo
mais dar notícia
dos caminhos que dos
achados, passo a citar
alguns exemplos
de:
1. SUBSTANTIVOS
COMPOSTOS OU LEXIAS
menina-do-olho – pupila;
menina dos cinco olhos –
palmatória
olho-branco – estado
mórbido do vinho, em que
lhe aparecem à
superfície pontos
brancos; variedade de
peixe
olho-da-rua – lugar
indeterminado para onde
se manda alguém que
se quer expulsar
olho-de-água – nascente.
Também topónimo.
Variante: olho d’água
olho-de-boi – orifício
redondo no telhado duma
casa para dar luz e ar
a um sótão; clarabóia;
lâmpada eléctrica (na
Madeira);
antiga moeda de 5
tostões; nuvem
avermelhada no
seio duma massa de
nuvens brancas,
prenunciando
vento ou chuva; negrume
no ar que precede o
tufão;
torneira de passagem nas
canalizações; buraco na
parte anterior do navio
por onde passam os
cabos.
olho-de-conta – olho
terno e lânguido
olho-de-gato – olho que
vê na escuridão;
minério, o mesmo que litronite; pedra
preciosa.
olhos-de-gato – pessoa
que tem os olhos
esverdeados ou
amarelados
Alegoria do séc. XVI
representando a
sabedoria das Nações
olho-de-lebre – casta de
uva na Estremadura
olho-de-pargo – idem em
Azeitão
olho-de-mocho – planta,
o mesmo que leituga
olho-de-perdiz – calo
pequeno e redondo que se
forma nos dedos
dos pés; qualidades de
madeira; diz-se do
toiro,
geralmente castanho, que
tem uma espécie de anel
encarnado em volta dos
olhos; figo temporão do
Algarve
olho-de-sapo –
(adjectivo) aspecto
granuloso (para certos
terrenos
ou rochas); variedade de
uva
olho-de-tigre – ágata
olho-do-céu – o Sol
olho-do-Sol – feixe de
luz que penetra pelas
aberturas ou fisgas dos
ramos das árvores
olho-marinho ou
olho-meirinho
(etimologia popular em
que meirinho
aparece por marinho) –
terreno alagadiço onde
os
animais se podem atolar;
remoinho na água do rio
(Vila Real)
olho-mau – o mesmo que
mau olhado
olho-santo – o Sol
olho traseiro ou olho do cú
– ânus
olho-verde – nome de
albafora (variedade de
peixe)
2. LOCUÇÕES ADVERBIAIS
a olho – sem peso nem
medida, aproximadamente
a olho desarmado, a olho
nu – directamente, sem
auxílio de lente
a olhos vistos –
claramente, de modo
palpável
de olhos nos olhos –
frontalmente; cara a
cara
até aos olhos –
excessivamente,
extremamente
pelos lindos olhos de...
– só por causa de; para
agradar ou lisonjear

De olhos férvem as Leys,
e
d’eftacáda,
E fão os baluártes mais
feguros,
Q’fem elles, nos trances
mais
efcuros,
Do previfto contrário hé
fobjugáda.
3. FRASES FEITAS
abrir o(s) olho(s) (6) –
acautelar-se
abrir os olhos a alguém
– ensinar, esclarecer,
ajudar a ver melhor; impôr-se a alguém
correr os olhos por –
observar rapidamente
cravar os olhos em –
fixar
custar os olhos da cara
– ser excessivamente
caro ou difícil de
conseguir
dar com os olhos em –
reparar, ver subitamente
dar de olho – piscar o
olho (no Minho)
dar nos olhos, dar nas
vistas – fazer-se notado
dar uma vista de olhos –
observar
superficialmente
deitar ou lançar o rabo
do olho – olhar
furtivamente
deitar poeira nos olhos
– pretender enganar
encher o olho – agradar
enfiar um olho pelo
outro – atrapalhar-se,
revirar os olhos em
protesto,
indignação, ignorância
etc.
entrar pelos olhos – ser
evidente
estar debaixo de olho –
estar sob vigilância ou
ao cuidado de
estar com sete olhos –
prestar a máxima atenção
fazer olhos de carneiro
mal morto – olhar
languidamente ou sem
brilho
fechar o(s) olho(s) –
dormir; morrer; fingir
que não vê ou ignorar
levantar os olhos para –
atrever-se a pretender
algo ou alguém
meter-se pelos olhos (dentro) – o mesmo
que: entrar pelos olhos
–
não oferecer dúvida
não pregar olho – não
conseguir dormir
não ser olho de santo –
não ser coisa de
importância
não tirar os olhos de –
observar fixamente
num abrir e fechar de
olhos – num ápice
olhar ou ver com bons
olhos – aprovar; ter
estima a
olhar de lado – com
desconfiança ou má
vontade
olhar para dentro –
dormir, reflectir
pôr os olhos no chão –
envergonhar-se ou
mostrar humildade
pôr os olhos em alguém –
tomar como exemplo,
observar
pôr os olhos em alvo –
revirar os olhos,
fingir-se inocente
querer a alguém como (à
menina dos) olhos, ou,
como aos seus
olhos
saltar aos olhos – ser
evidente
ser todo olhos – estar
com máxima atenção
ter olho – ser perspicaz
trazer de olho – estar
em vigilância ou com o
sentido em
um pau por um olho(7) –
grande vantagem, negócio
rendoso,
pechincha
4. ADÁGIOS
“Ao invejoso
emagrece-lhe o rosto e
incha-lhe o olho”
“Contas na mão e olho
ladrão”
“Se não dorme meu olho,
folga meu osso”
“Se não vejo pelos pelos
olhos, vejo pelos
óculos”
“Quem quizer olho são,
ate a mão”
“Os que falam com olhos
fechados, querem ver os
outros
enganados”
“Fui para me benzer,
quebrei um olho”
“O cavalo engorda com o
olho do seu dono”
“Vê-lo com o olho,
comê-lo com a testa”
“Onde a galinha tem os
ovos, lá se lhe vão os
olhos”
“Pão com olhos, e queijo
sem olhos, e vinho que
salte aos olhos”
“Graça de olhos tarde
envelhece”
“Corvos a corvos não se
tiram os olhos”
“O marido antes com um
só olho que com um
filho”
“Um olho no prato outro
no gato”
“Um olho no burro e
outro no cigano”
“Não há coisa encoberta
senão aos olhos da
toupeira”
“Os mortos aos vivos
abrem os olhos”
“Olhos que não vêem,
coração que não sente”
“A mão na dor e olho no
amor”
“Quem não é mulher,
muitos olhos há mister”
“Na face e nos olhos se
lê a letra do coração”
“Na terra dos cegos quem
tem um olho é rei”
“Olho mau a que viu
pegou malícia”
“Quando o nó se faz
piolho, com mal anda o
olho”
E continuando esta
viagem nos “mares” do
léxico creio
indispensável referir
que um signo linguístico
vive “em família”, sendo
a sua raiz responsável
às vezes, por vastas
gerações. É este o
caso. Respigada nas
obras atrás citadas (e
porque me parece
pedagogicamente
proveitoso) aqui fica
parte desta:
Olha – (ô) (do
castelhano olla:); olho
de gordura no molho ou
caldo –
«Pois havia de haver
olha sem chouriço?» (D.
Francisco Manuel de
Melo, séc. XVII)
Olha – (ó) subst. fem.– acto de
olhar estar à olha,
estar
presente numa refeição
de que não se participa
(Turquel)
olhada – o mesmo que
olhadela
olhadela – relance de
olhos
olhado – (adj.) visto;
considerado; (subst. m.)
modo de olhar,
quebranto
olhador – (adj. e s. m.)
guardador; aquele que
olha
olhadura – o mesmo que
olhadela
olhal – arco da ponte;
buraco da mó por onde
cai o grão; pequena
argola fixa em qualquer
ponto da embarcarão com
fim determinado,
(vocabulário náutico);
orifício que permite a
ligação do atrelado à
viatura motora; buraco
onde se rosca a espoleta
das granadas; peça
de borracha a que, nas
lunetas se encosta o
olho.
olhalvo – animal que tem
uma mancha mais clara
apanhando-lhe
o(s) olho(s)
olhamento – benefício ou
gratificação (Alentejo)
olhapim –
larápio; ser
sobrenatural com
aparência humana mas um
só olho no meio da testa
(Minho
olhapudo – criança com
sentido em comida
(Trás-os-Montes)
olhar – v. e subst. masc.
olhar contra o governo –
ser estrábico; Olhar
a ter em conta; Olhar
por – cuidar, proteger.
olharapa (o) – o mesmo
que olhapim
olharapo – olho(s)
grande(s)
olhe! – exclamação ou
expressão fática muito
usada para chamar
atenção do interlocutor
olheira (ou olheirada)
– réstea de sol (Beira
Alta)
olheirão – nascente
abundante de águas; olho
grande
olheiras – círculo
arroxeado à volta dos
olhos, causado por
cansaço
ou sofrimento
olheirento – que tem
olheiras
olheiro – curioso,
bisbilhoteiro, metidiço,
vigilante, informador,
atoleiro, lodaçal,
nascente
olhetado – vara da
videira que se deixa com
poucos olhos para
rebentar com mais força
olhete – diminuitivo de
olho; depressão em forma
de olho nas
articulações dos braços
e das pernas
olhibranco – o mesmo que
o olhalvo
olhica (s. m.) aquele
que espreita (Alentejo)
olhizaino – vesgo
olhizarco – que tem os
olhos azuis-claros;
cavalo que tem um olho
de cada cor
olhudo (adj.)– que tem
os olhos grandes; (subst.
m.) peixe
E ainda, partindo do
mesmo étimo inicial
latino, mas seguindo
a via erudita:
oculação
ocular
óculo/óculos

O olho vigia e exconjura
o perigo
- ornamento e talismã -
Se atendermos ao que nos
chegou, por outra via,
teremos:
auguração – o mesmo que
augúrio
augurar – predizer
auguratório
auguratriz
áugure – o que prediz ou
adivinha
augúrio – predição
agoiro – agoirar
inauguração, inaugurar
E a família pode
aumentar, por
prefixação, em exemplos
como antolhos, desolhado e
desolhar; ou composição
mirolho; zanolho
ou zarolho.
E para terminar a ronda
dos dicionários, não
deixa de ser
curiosa a “incursão” no
Dicionário Analógico
“Thesouro de vocábulos
e phrases da língua
portuguesa” de Carlos
Spitzer, ed. Liv. do
Globo,
Porto Alegre (Brasil) de
1936 que a este
propósito recenseia
abundante contribuição
em substantivos,
adjectivos e verbos nas
entradas Vista; Ver e
Falta, defeitos da vista
respectivamente
artigos n.° 298 e 299,
nas páginas 142 e 143.

A estratégia da
sedução...
O SINAL
Mas aliciante é de
facto, neste caso, a
consideração do
referente e do poderoso
campo de significações
que desenvolve
bem como o reflexo que
dele dá, não apenas a
língua, mas também
os outros sistemas de
representação com ela
conviventes.
Assim, numa consideração
puramente semiológica
são os
olhos sede privilegiada
de intenção e
significância.
Desde simples indícios:
os olhos “avinagrados”
indicam febre
ou embriaguês; os olhos
“vidrados” podem
significar “morte” – são
eles, desde logo como
órgão anatómico de
visão, fonte
privilegiada
de emissão – recepção de
sinais. Tal se descobre
em frases como:
“Abrir os olhos de
espanto”; “Os olhos
riam-se-lhe de prazer”;
“Baixou os olhos em
sinal de aquiescência”;
“O cansaço lia-se-lhe
nos olhos” “Ela bem lhe
fazia olhinhos mas ele
fingia não perceber”.
“O pai calava mas os
olhos diziam que sim”,
“Piscava os olhos,
confusa”, “Deu-lhe uma
piscadela d’olho a
desejar-lhe coragem”...
E por alguma razão se
afirma que “Os olhos são
o espelho da
alma”... ou, como no
texto duma revista
feminina, em tom
aliciador:
- “Os seus olhos dizem
tudo... ou deviam poder
dizê-lo, se
você souber dar-lhes
vida e expressão...
- Os olhos são
provavelmente a feição
mais importante do seu
rosto. Têm-lhes chamado
as janelas da alma... o
espelho do carácter...
designações poéticas mas
que não andam muito
longe da verdade.
Os olhos são a nossa
feição mais expressiva.
- Por isso lhe vimos dizer
tudo aquilo que deve
saber para os
realçar, em matéria de
sombra, lápis, pestanas,
sobrancelhas... e o
mais que adiante se
verá!”
E vamos a Eça, ouvir
melhor prosa e
surpreender Jacinto, ele
próprio em maré de
surpresas, no seu
atribulado regresso a Tormes:
- “Tentou todavia uma
garfada tímida – e de
novo aqueles seus
olhos que o pessimismo
enevoava luziram,
procurando os meus [...]
- Que delícia!” [...] “E
imóvel, com a mão
agarrada à infusa, o
Melchior
arregalava para nós os
olhos em infinito
assombro e religiosa
reverência”.
- Ou ainda, noutra pose e
com outro fito, outro
“jogo de olhos”:
- (Jacinto) “Ora com essa
instalação perfeita,
quanto me poderá
custar cada queijo?
- (Zé
Fernandes) Fechei um
olho, calculando: – Eu
te digo... [...] entre
duzentos e cinquenta e
trezentos mil réis.
O meu Príncipe recuou,
com dois olhos alegres
espantados
para mim; – Como
trezentos mil réis?”
- E finalmente
reconciliado:
“O meu Príncipe, com o
olho de dono subitamente
aguçado,
notou a robustez e
fartura das
oliveiras...”
- Eça de Queirós, A Cidade
e as Serras
Aliás, como sinal,
desde logo o vimos
aparecer nos primitivos
alfabetos dos fenícios e
dos egípcios, como o
provam as ilustrações:

Alfabetos comparados dos
signos
egípcios,
cretenses e fenícios.
ou ainda na cartilha de
João de Barros (1540):

O SÍMBOLO
Mas o olho, órgão da
percepção visual,
tornou-se naturalmente
e quase universalmente o
símbolo da percepção
intelectual.

olho
em bracelete de faraó
(945-924 a.C.)
Ponto de recepção de
imagens materiais
torna-se obviamente
em indispensável ponto
de ligação ao mundo
exterior, com trânsito
nos dois sentidos, e
também local de síntese
e de memória. Daí
se passa à noção
simbólica de Fonte e de
Essência, de
Conhecimento e Percepção
sobrenaturais. Assim,
iconicamente,
um OLHO único, aberto e
sem pálpebra é símbolo
da Essência e
do Conhecimento divino.
Inscrito num triângulo,
é, neste sentido,
um símbolo
simultaneamente cristão
e maçónico. “Na tradição
maçónica, o olho
simboliza, no plano
físico o Sol visível
donde
emanam a Vida e a Luz;
no plano intermediário
ou astral, o Verbo,
o Logos, o Princípio
creador; no plano
espiritual ou divino, o
Grande
Arquitecto do Universo”
(8).

Encontrámos, aliás, no
Dicionário da Maçonaria
Portuguesa
de A. H. de Oliveira
Marques (ed. Delta,
Lisboa, 1986, vol. II,
pág.
1049/50) a seguinte
definição simbólica para
OLHO:
“O olho inscrito
no delta ou no triângulo
luminoso, cuja origem se
encontra na arte
católica barroca,
simboliza o Sol visível,
fonte da luz e da vida;
simboliza igualmente o
Verbo, o princípio
criador, a presença
omnisciente de Deus, a
omnisciência da razão
superior, a
omnisciência do dever e
da consciência.
Correctamente desenhado,
o olho não deve ser
direito nem esquerdo,
mas sim impessoal e
abstracto”.
De facto, é assim que o
descobrimos pintado na
cúpula da
Catedral de Santiago de
Compostela, na nossa
vizinha Galiza.
É de notar que o olho é
por vezes utilizado como
símbolo do
conjunto das percepções
exteriores, e não apenas
da visão. “Para
alguns povos, aliás, o
sentido da vista é
aquele que resume, que
substitui todos os
outros. O olho, de todos
os órgãos dos sentidos
é o único que permite
uma percepção que se
possa revestir de um
carácter de
“integralidade”(9).
Para além da associação,
que a cultura islâmica
(e não
estamos assim tão longe
dela...) faz do olho
(símbolo) às noções
de magia (10), perigo,
embriaguês, pode-se
aceitar, por outra via,
e
metaforicamente, que ela
recobre também as noções
de Beleza,
Luz, Mundo, Universo,
Fecundidade, Origem e
Vida.
É curioso surpreender em
certas imagens,
fornecidas pelo
quotidiano ou procuradas
pelo poder associativo
da imaginação, a
produtividade da forma e
da simbologia do olho.
E a publicidade ou
simples registo de marca
também se
abastecem do mesmo
filão.
Limitando-se ao código
especificamente
linguístico, o anúncio
alicia:
-
Ver para crer
-
Com um proveitoso
trocadilho
fonológico/gráfico que
deixaria
S. Tomé algo confuso...
E seguindo Cristo, na
ocorrência,
proclamando
“Abençoados
os que não viram e
acreditaram” ...
concluiremos que não é
só a visão material que
traz ciência e fé...
também e paradoxalmente
a cegueira é um símbolo
ou sinal de
vidência e por toda a
História do Conhecimento
os poetas, adivinhos
sacerdotes e profetas,
vão, cegos, anunciando a
Verdade que os
olhos distraídos dos
homens não distinguem.
Homero é o exemplo
distante, mas na nossa
literatura encontramos,
sem grande esforço
de pesquisa, exemplos
como o de Afonso
Domingues,
protagonizando, com a
sua derradeira obra, o
conto de A.
Herculano,
A Abóbada, em
passos como:
“A luz dos olhos
tinha-lha de todo
apagado a velhice; mas
as
suas feições revelavam
que dentro daquelles
membros tremulos e
enrugados morava um
animo rico de alto
imaginar [...]” ou:
“[
...] e porque ceguei
arrancaram-me das
mãos o livro, e nas
páginas em branco
mandaram escrever um
estrangeiro. Loucos! Se
os olhos corporaes
estavam mortos, não
estavam os do espírito”.

Almada Negreiros -
Auto-Retrato com paleta
E – bem que já tardava!
– aportemos ao nosso
Luís Vaz de
Camões e oiçamos como
ele respondeu: A uma dama que lhe
chamou cara sem olhos
- Sem olhos vi o mal claro
Que dos olhos se seguiu:
Pois cara sem olhos viu
- Olhos que lhe custam
caro.
- De olhos não faço
menção,
Pois quereis que olhos
não sejam;
Vendo-vos, olhos
sobejam,
Não vos vendo, olhos não
são.
TEXTO LITERÁRIO
A este ponto da nossa
“viagem” bom é que nos
detenhamos
na observação da palavra
“em vida”, ou seja, do
seu comportamento
frásico e, num ângulo
mais aberto, da sua
responsabilidade no
mecanismo da
significação e na
dinâmica da emoção
estética.
Assim, e porque a nossa
palavra-chave já fez
correr rios de tinta
evocando em todas as
épocas(11) e em todos os
estilos, grandes
sobressaltos de alma e
corações destroçados...
difícil não foi
encontrar no nosso
“eterno” apaixonado
Poeta, um bom campo de
observação. Eis um
soneto da sua lírica em
que – uma vez mais –
os olhos se jogam na
sorte do amor:
- Vossos olhos, Senhora,
que competem
- Co Sol em formosura e
claridade,
- enchem os meus de tal
suavidade
- que em lágrimas de
vê-los, se derretem.
-
- Meus sentidos vencidos
se sometem
- assi cegos a tanta
divindade;
- e da triste prisão da
escuridade;
- cheios de medo, por
fugir, remetem
-
- Mas se nisto me vedes
por acerto,
- o áspero desprezo com
que olhais
- torna a espertar a alma
enfraquecida
-
- Ó gentil, cura e
estranho desconserto!
- Que fará o favor que vós
não dais
quando
- o vosso desprezo
torna a vida?
Trata-se dum texto
literário. Torna-se
óbvio à simples leitura
da mensagem – e é
directamente dela, do
seu próprio corpo
linguístico que nos vem
desde logo a sensação de
“desvio”
E não porque o
vocabulário seja
diferente, quiçá
desconhecido
ou colocado longe no
tempo, mas porque a
postura do comunicador
– o poeta – é
deliberadamente re-buscada,
intencionalmente
afastada do uso
ordinário da língua (e
não apenas porque se
trata de um texto com
quatro séculos de
vida...). De facto, o
autor assume o papel de
inventor, criador e
produtor de ideias, bem
como se responsabiliza pela
adopção de uma estrutura
textual e de
significação que ele
próprio organiza como
diferente, original e
muitas vezes até
agressivamente diversa
da norma corrente.
Por seu lado o código
literário, assegurando
uma grande
solidariedade entre
expressão e conteúdo,
utiliza uma componente
semântica que deverá ser
– se bem que não
necessariamente na
sua totalidade – comum
ao autor e aos seus
leitores. Visando um
fim estético, desde
logo, porém, a
comunicação estabelecida
deixa
o nível utilitário,
corrente e meramente
informativo para passar
ao
nível interpretativo,
intencionalmente
motivador e “segundo”.
Redobra
– digamos assim – o seu
código, transferindo-o
para o nível do
simbólico.
Assim, há uma
sobreposição de um
código “estético” ao
código
“sintáctico-semântico”.
A função poética impõe
uma revalorização total
da linguagem
corrente, um duplo
código, uma duplicidade,
e, se se quiser, uma
espécie de ambiguidade.
Mas, como diz João de
Freitas Ferreira (12)
- “Nada disto conduz
porém à insignificação
do discurso poético. Ele
obedece a uma
coerência e a uma lógica
“poéticas”. São o
contexto e a intenção
do emprego que dão o seu
sentido aos processos e
fixam, mais
ou menos, o seu alcance.
A obra é, pois, sempre
susceptível de
ser diferentemente
interpretada; ela jamais
é totalmente fechada.
A palavra poética e o
discurso literário estão
abertos a múltiplas significações, são
essencialmente
polissémicos. Todavia,
não
comunicam definindo ou
demonstrando, [...]
comunicam activando
o plano afectivo através
da sugestão”.
A mensagem literária
desenvolve um sistema
peculiar no qual
os diversos elementos
tomam a sua significação
e o seu valor a
partir das relações que
mantêm entre si. Para
além dos referentes
conceptuais comuns ao
autor e aos leitores, a
obra cria o seu
próprio sistema de
referentes textuais e
assim emerge obra
“única”
e auto-suficiente.
***
Retomemos porém Camões e
sigamo-lo ao pé da
letra.
O “enredo” não é
complicado, nem sequer
inovador: a
comovente suavidade de
uns olhos “senhores” que
paradoxalmente
se enchem de desprezo ao
contemplar o seu rendido
admirador –
que, paradoxalmente
também, porfia apesar
dos maus tratos e
cogita: se o desprezo dá
vida, que não daria a
complacência? – a
repetida história do
desencontro amoroso e da
teimosa fidelidade
do amante em êxtase,
perante a Senhora
distante e caprichosa
mas divinamente Mulher.
Renascença, do mais
puro!
E do mais perfeito
também.
Atentemos no pormenor:

Um pouco complicado,
convenhamos, e, para um
ser tão
cego de paixão, assaz
racionalizado... Bem
dizia Pessoa: “O poeta
é um fingidor...”
De qualquer modo, e
considerando o que nos
interessa, nesta
comunicação algo
desencontrada, são os
olhos o canal: olhos
que competem com o sol e
simbolicamente o figuram
como fonte
de vida e divindade;
olhos que a outros olhos
provocam lágrimas;
com que olhais (com tal
desprezo...) e me vedes
(em tal estado...).
E geram alguns outros
vocábulos, escolhidos
decerto por
associação, dentro desta
mesma esfera temática:
- claridade / escuridade
- cegos
- espertar (= despertar)

Pintura de Magritte
- Museu de Arte Moderna,
Nova Iorque
E muito provavelmente em
“meus sentidos” estará
incluída a
vista, algo idealizada
como convém a quem
contempla tanta
divindade.
Muito de conceptualista
na estranha dualidade
que se joga e
sobrevive amorosamente
num quadro extremado
como:
E porque a época
ajudava, muito também de
cultismo na
elaboração do poema.
|
EU (POETA) |
VÓS (SENHORA) |
lágrimas
sentidos
vencidos cegos triste prisão
escuridade medo ALMA
ENFRAQUECIDA O DESCONCERTO
|
sol
formosura claridade suavidade divindade desprezo
A VIDA A CURA |
|
O AMOR é um PARADOXO |
Não resisto a alinhar
uma observação que, se
não tem
directamente a ver com
olhos, tem com certeza a
ver com “o que
salta aos olhos”. Ou
seja a curiosa
distribuição do ritmo,
em cesura
interna, numa
regularidade matemática.
Assim os decassílabos escandem-se do seguinte
jeito:
Vosso olhos / Senhora /
que competem
Co sol em formosura/ e
claridade,
enchem os meus/ de tal
suavidade
que em lágrimas / de
vê-los / se derretem
Meus sentidos / vencidos
/ se sometem
assi cegos / a tanta
divindade.
e da triste prisão/ da
escuridade
cheios de medo/ por
fugir/ remetem.
Mas se nisto me vedes
por certo
o áspero desprezo /com
que olhais
torna a espreitar a alma
enfraquecida
Ó gentil cura estranho
desconcerto!
Que fará o favor/ que
vós não dais,
quando o vosso desprezo
torna a vida?
Graficamente a
representação seria:

O esquema da RIMA é:
| para as quadras: |
E para
os tercetos:
|
A
B B AA B B A |
C D EC D E |
A análise literária
completa levaria a mais
pormenores, mas
é tempo de acabar. Antes
porém seja-me permitido
que não deixe
o nosso Camões em
sofrimento e lhe
publique uma redondilha
que tem tanto de
surrealista quanto de
azougada:
MOTE
Pus meus olhos numa
funda,
E fiz um tiro com ela
às grades duma janela.
VOLTA
Uma Dama, de malvada,
Tomou seus olhos na mão
E tirou-me uma pedrada
Com eles ao coração.
Armei minha funda então,
E pus os meus olhos
nela:
Trape! quebrei-lhe a
janela!

E os olhos verdes? Que
tentação (13)...
Com,
Camões ainda
e depois, Garrett,
também em “viagem”:
- MOTE
Menina dos olhos verdes,
Porque me não vedes?
-
- VOLTAS
Eles verdes são,
E tem por usança
Na côr da esperança
E nas obras não.
Vossa condição
Não é de olhos verdes
Porque me não vedes.
-
- Isenções a molhos
Que eles dizem terdes,
Não são de olhos verdes,
Nem de verdes olhos.
Sirvo de geolhos,
E vós não me credes
Porque me não vêdes.
-
- Havia de ser,
Por que possa vê-los,
Que uns olhos tão belos
Não se hão-de esconder.
Mas fazeis-me crer
Que já não são verdes
Porque me não vêdes.
-
- Verdes não o são
No que alcanço deles;
Verdes são aqueles
Que esperança dão.
Se na condição
Está serem verdes,
Porque me não vêdes?
“O arvoredo, a janela,
os rouxinóis... àquela
hora, o fim da tarde...
que
faltava para completar o
romance?
Um vulto feminino que
viesse sentar-se àquele
balcão – vestido de
branco – oh! branco por
força... a frente
descaída sobre a mão
esquerda, o
braço direito pendente,
os olhos alçados ao
céu... De que côr os
olhos? Não
sei, que importa! É
amiudar muito demais a
pintura, que deve ser a
grandes e
largos traços para ser
romântica, vaporosa,
desenhar-se no vago da
idealidade
poética...
– ”Os olhos, os olhos...”
– disse eu pensando já
alto, e todo no
meu êxtase – “os
olhos... pretos.”
– “Pois eram verdes!”
– “Verdes os olhos...
dela, do vulto da
janela?”
– “Verdes como duas
esmeraldas orientais,
transparentes,
brilhantes, sem preço.”
Almeida Garrett, Viagens
da Minha Terra
E o olhar alonga-se até
à nossa literatura
contemporânea, e
na letra de António
Ramos Rosa, vamos VER
duma forma diferente.
VER
ao Luis Pignatelli
- De um olhar livre
se vive
Olhando a folha
abria-se
-
- Da superfície ao fundo
exactamente assim
-
- É um muro onde se vence
a inércia cega
-
- O pó que pisas
é de um astro
A terra gira
em ti
devagar.
-
- Olhos vêem dentro da
tela
-
- É uma tempestade
(mas não te abrigues)
-
- O olho faz uma pausa
na espiral que te conduz
ao silêncio
-
- Lembras-te de um jantar
antigo
-
- É a língua da pedra
-
- O olho faz-se víbora
e lambe o fogo
-
- A terra é um planeta
são os teus pés que vêem
-
- A tua mão tem olhos
-
- Abriu-se o muro de
dentro
Caminhas com teus olhos
António Ramos Rosa,
Horizonte Imediato
Publicações D. Ouixote,
1974
Mas não saberia partir
se não fôra com os olhos
mais belos
da literatura portuguesa
– olhos de homem, por
tal sinal.., – tão
definitivamente tristes,
tão definitivamente
eternos.
Senhora, partem tam
tristes
meus olhos por vós,
meu bem,
que nunca tam
tristes vistes
outros nenhuns por
ninguém.
-
- Tam tristes, tam
saudosos,
tam doentes da
partida,
tam cansados, tam
chorosos,
da morte mais
desejosos
cem mil vezes que da
vida.
Partem tam tristes
os tristes,
tam fora d' esperar
bem,
que nunca tam
tristes vistes
outros nenhuns por
ninguém.
João Ruiz de
Castelbranco,
Cancioneiro Geral
FIM
NOTAS:
(1) No que se refere à
fonologia, este signo
oferece um exemplo de
mudança
da qualidade da vogal
tónica ao pluralizar.
Olho (ô) > olhos (ó). O
que aconteceu
foi um caso de metafonia,
na passagem do latim
para o português,
incidindo
sobre a vogal tónica,
que apesar de breve, em
latim, e portanto
destinada a
manter-se aberta em
português, fechou devido
à influência da vogal
fechada
final u [Òculu(m] > ôlho.
No plural a vogal
mantém-se aberta porque
a vogal
final em latim é também
aberta: Òculos > ólhos.
(2) Com a regular queda
da vogal post tónica, a
formação do grupo cl
que,
regularmente também,
palataliza em lh, num
percurso em que se
pressupõem
as formas marcadas com *
por não aparecerem
atestadas na escrita.
(3) Referenciando, como
aliás o título da obra
indica, as palavras ou
frases às
suas correspondentes
latinas.
(4) Extremamente curiosa
é a descrição que se
segue deste órgão, à luz
dos conhecimentos
anatómicos da época e
servindo-se de uma
linguagem
veramente pitoresca.
(5) Não vigora,
obviamente, para o
actual sistema
monetário, que o aboliu.
(6) Já no Cancioneiro
Geral se lê: “E porém
sede avisado/Não v’tome
salteado/
mas abry mui bem o olho”
[I, 23]2.
(7) A este propósito,
recolhi, na Revista
Lusitana, vol. XV, p.
312 a curiosa
observação de Óscar
Pratt (in Locuções
petrificadas) de que
talvez,
primitivamente, a versão
fosse outra, uma vez que
o equilíbrio dos dois
termos
da proposição lhe parece
um pouco suspeito: um
pau em troca de um olho
(?!)
Assim sugere que olho
estará em vez de oiro (“
a peso de oiro”) e que a
modificação se teria
produzido por
contiguidade com frases
como “custar os
olhos da cara”, “dar um
olho ao diabo”, “a
menina dos olhos”, “quem
tem um
olho é rei” que giram à
volta da noção de grande
valor. “Dar pau por
oiro” seria
o ideal dos negócios
rendosos e já no
Cancioneiro Geral se
referia tal
“operação”. Pela
curiosidade não resisto
a citar:
-
“Estrangeiros partystando
levam desta nossa terra
ouro, prata,
nossas bolsas alivando
com sa paz n’fazem gerra
que n’mata
-
Levantanse as moedas
quanto mingi nossos
fruytos
temporaes
estas práticas azedas
estes nossos males muyto[s]
sam geeraes.
-
Assy como vam da nao
todolos os outros
estantes
n’despenam
levam ouro trazem pao,
nossos tratos mercadantes
desordenam.
-
Por framengos, genoeses
frorentyns e castelhanos
mal n’vindo
com seus novos antremeses
dãnos trinta mil avanos,
vam se rrindo”.
(8) J. Chevalier e ª
Cheerbrant, Dictionnaire
des Symboles, ed. robert
Laffont/
Jupiter.
(9) Cf. nota 1 pág.
anterior.
(10) “O Mau Olhado é uma
expressão muito
espalhada no mundo
islâmico,
simbolizando uma forma
de poder sobre alguém ou
alguma coisa por desejo
ou inveja e com uma
intenção perversa. Têm
olhos particularmente
maléficos:
as mulheres velhas e as
recém-casadas. São-lhe
particularmente
sensíveis:
as crianças; as
parturientes; as
recém-casadas, os
cavalos, os cães, o
leite
e o trigo” (in
Dictionnaire des
Symboles, cf. nota pág.
anterior).
(11) No Glossário do
Cancioneiro da Ajuda, de
D. Carolina Michaëlis de
Vasconcelos, refere-se
assim a presença de
Olhos(s) (in Revista
Lusitana,
Vol. 23, pág. 62).
-
Olho (oc’lu): 737; olhos
873; meus olhos 3652; os
meus olhos 737, 3811,
3829, 3856; os olhos
meus 3434; aquestes meus
olhos 3784, 3806, 5137;
estes meus olhos, 1518,
3489, 3505, 4105, 5265,
5279, 6821; estes olhos
meus 3499, 3564, 3692,
3717, esses vossos
olhos, 3505.
Curioso é também notar
que meus olhos foi forma
de tratamento no
português arcaico até,
pelo menos ao séc. XIV.
(12) in «A pedagogia do
léxico», edições Claret,
Porto, 1985, pág. 106.
(13) Segundo Luciana Stegagno Picchio, em “A
lição do texto”, Edições
70, já
na poesia galego
portuguesa este motivo
aparece. Pelo menos três
vezes: as
duas primeiras em Joham
Garcia de Guilhade e a
terceira numa cantiga de
escarnho de Joham de
Gaya. Aliás, D. Carolina
Michaëlis [CA II, 4141
celebrava
Guilhade por ele ter
sido um dos primeiros,
se não o primeiro em
Portugal, a
cantar os olhos verdes,
olhos cor do mar. Assim
poderá afirmar-se: “em
Portugal, entre a 2.ª
metade do séc. XIII (qdo
Guilhade escreveu) e a
1.ª metade
do séc. XIV, o motivo
dos olhos verdes deve
ter sido largamente
explorado”.
Maria Lúcia Garcia
Marques
é Investigadora em
Linguística e
coordenadora da Revista
do Instituto de Cultura
e Língua Portuguesa.
ϟ
Viagem à volta de uma
palavra: O(s) Olho(s)
GARCIA MARQUES, M.ª Lúcia
Revista ICALP, vol. 9,
Outubro de 1987, 15-44.
fonte:
Instituto
Camões - centro virtual
2.Jan.2012
Publicado por
MJA
|