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 Sobre a Deficiência Visual


Ver e Não Ver

Oliver Sacks

Self-Portrait During the Eye Disease I - Edvard Munch, 1930
Self-Portrait During the Eye Disease I - Edvard Munch, 1930

 

Uma criança deficiente representa um tipo de desenvolvimento qualitativamente diferente e único. [...] Se uma criança cega ou surda atinge o mesmo nível de desenvolvimento de uma criança normal, ela o faz de outra maneira, por outro percurso, por outros meios; e, para o pedagogo, é particularmente importante estar ciente da singularidade desse caminho pelo qual ele deverá guiar a criança. Essa singularidade transforma o negativo da deficiência no positivo da compensação. Vygotsky
 

No início de Outubro de 1991, recebi o telefonema de um pastor aposentado do Centro-Oeste, falando-me do noivo de sua filha, um homem de cinqüenta anos chamado Virgil, que era praticamente cego desde a mais tenra infância. Tinha densas cataratas e também fora diagnosticado como portador de retinite pigmentosa, uma doença hereditária que devora as retinas vagarosa porém implacavelmente.

Sua noiva, Amy, entretanto, cujo diabetes exigia exames regulares dos olhos, levara-o recentemente ao seu oftalmologista, o Dr. Scott Hamlin, que lhes dera novas esperanças. Após escutar atentamente a história, o Dr. Hamlin não teve tanta certeza de que Virgil sofresse de retinite pigmentosa. Era difícil saber, naquele estágio, porque as retinas já não podiam ser observadas sob as espessas cataratas, mas Virgil ainda podia ver luzes e sombras, a direção de onde vinha a luz, e a sombra de mãos movendo-se diante de seus olhos, portanto era óbvio que não havia destruição total da retina. E a operação de catarata é uma cirurgia relativamente simples, feita com anestesia local e riscos cirúrgicos muito pequenos.

Não havia nada a perder ― e possivelmente muito a ganhar. Amy e Virgil iam se casar em breve ― não seria fantástico se ele pudesse ver? Se, após quase uma vida cego, sua primeira visão fosse a de sua noiva, do casamento, do padre, da igreja! O Dr. Hamlin havia concordado em operá-lo, e a catarata do olho direito fora removida quinze dias antes, segundo me informou o pai de Amy.

Milagrosamente, a operação foi bem-sucedida. Amy, que iniciou um diário no dia seguinte ao da operação ― o dia em que os curativos foram removidos ―, escreveu na primeira página:

“Virgil pode VER! [...] Todo mundo no hospital em lágrimas, primeira vez que Virgil enxerga em quarenta anos. [...] A família dele excitada, chorando, não podem acreditar! [...] O milagre da vista restaurada inacreditável!“.

Mas no dia seguinte, ela notou alguns problemas:

“Tentando se adaptar à visão, é difícil passar da cegueira à visão. Tem que pensar mais depressa, ainda não é capaz de confiar na visão. [...] Como um bebê aprendendo a ver, tudo é novo, excitante, amedrontador, está incerto sobre o que significa ver”.



At first sight / À Primeira Vista - filme americano de 1999, realizado por Irwin Winkler, que conta a história de Virgil
 

A vida de um neurologista não é sistemática, como a de um cientista, mas lhe fornece situações novas e inesperadas, que podem se transformar em janelas, passagens para a complexidade da natureza ― uma complexidade que não se pode prever a partir do curso da vida comum.

“Não há lugar onde a natureza exponha mais abertamente seus mistérios secretos”, escreveu William Harvey, no século XVII, “do que nos casos em que mostra vestígios de seu funcionamento fora do caminho trilhado.” É certo que esse telefonema ― sobre a restauração da visão na idade adulta, em um paciente que havia sido cego desde a tenra infância ― sugeria tal coisa. “Na verdade”, escreve o oftalmologista Alberto Valvo, em Sight restoration after long-term blindness, “o número desses casos que chegaram ao nosso conhecimento nos últimos dez séculos não passa de vinte.”

Como seria a visão nesse paciente? Seria “normal” a partir do momento em que foi restaurada? É o que se imagina de início. É a noção do senso comum ― que os olhos se abrirão, as crostas cairão e (nas palavras do Novo Testamento) o cego “receberá” a visão.

 

Christ Gives Sight to One Born Blind- Laura James
Christ Gives Sight to One Born Blind - Laura James


(nota 1: Há um indício de algo mais estranho, mais complexo, na descrição que Marcos faz do milagre de Betsaida, já que nela o cego viu primeiro “homens como árvores marchando” e apenas posteriormente teve a visão completa-mente restaurada (Marcos 8:22-6).

Mas será que foi assim tão simples? Não é necessária a experiência para ver? Não é preciso aprender a ver? Não estava bem a par da literatura sobre o assunto, embora tivesse lido com fascínio a história formidável do caso publicado no Quarterly Journal of Psychology, em 1963, pelo psicólogo Richard Gregory (com Jean G. Wallace), e sabia que tais casos, hipotéticos ou reais, atraíram a atenção de filósofos e psicólogos por centenas de anos. O filósofo do século XVII William Molyneux, cuja mulher era cega, colocou a seguinte questão a seu amigo John Locke: “Suponhamos que um homem nascido cego, e agora adulto, a quem é ensinado distinguir o cubo da esfera pelo tato, volte a ver: [será que poderia agora] pela visão, antes de tocá-los [...] distinguir e dizer qual é o globo e qual é o cubo?”. Locke considerou o problema em seu Essay concerning human understanding, de 1690, e decidiu que a resposta era não. Em 1709, examinando mais detalhadamente o problema e toda a relação entre a visão e o tato, em A new theory of vision, George Berkeley concluiu que não havia necessariamente conexão entre o mundo tátil e o da visão ― que uma conexão entre os dois só poderia ser estabelecida com base na experiência.

Foram necessários vinte anos para que essas considerações fossem testadas ― quando, em 1728, William Cheselden, um cirurgião inglês, removeu as cataratas dos olhos de um menino de treze anos, nascido cego. A despeito de sua grande inteligência e juventude, o menino esbarrou em profundas dificuldades com as mais simples percepções visuais. Não tinha a menor idéia de distância. Não tinha a menor idéia de espaço ou tamanho. E se confundia estranhamente com desenhos e pinturas, pela idéia de uma representação bidimensional da realidade. Como previra Berkeley, ele conseguia dar sentido ao que via apenas gradualmente e enquanto fosse capaz de conectar as experiências visuais com as táteis. O mesmo ocorreu com muitos outros pacientes nos 250 anos desde a operação de Cheselden: quase todos experimentaram as mais profundas confusões e perturbações lockianas.

(Nota 2: A remoção (ou, como era feito no início, o deslocamento ou “rebaixamento” do cristalino com a catarata) deixa o olho com uma hipermetropia pronunciada, precisando de uma lente artificial; as lentes espessas usadas nos séculos XVIII e XIX, e na verdade até muito recentemente, reduziam significativamente a visão periférica. Assim, todos os pacientes operados de catarata antes do advento das lentes de contato e do implante de lentes tinham dificuldades ópticas significativas a enfrentar. Mas eram apenas os cegos de nascença ou de infância que tinham a dificuldade lockiana específica de não conseguir entender o que viam)

E, ainda assim, fui informado de que bastou remover o curativo do olho de Virgil para que ele visse seu médico e sua noiva, e risse. Não há dúvida de que viu algo — mas o quê? O que significava “ver” para esse homem antes privado da visão? Em que espécie de mundo ele foi jogado?

Virgil nasceu numa pequena fazenda do Kentucky logo após a deflagração da Segunda Guerra Mundial. Parecia um bebê bastante normal, mas (segundo sua mãe) já tinha uma visão fraca desde pequeno, esbarrando por vezes em coisas, parecendo não vê-las. Aos três anos, ficou muito doente com uma enfermidade tripla ― uma meningite ou meningoencefalite (inflamação do cérebro e suas membranas), pólio e febre da arranhadura do gato. Durante essa doença aguda, sofreu convulsões, ficou praticamente cego, com as pernas e a respiração parcialmente paralisadas, e após dez dias entrou em coma. Ficou em coma por duas semanas. Quando saiu, parecia, segundo sua mãe, “uma pessoa diferente”; mostrava uma curiosa indolência, displicência, passividade, não parecia em nada o menino impetuoso e travesso que havia sido.

A força nas pernas voltou no ano seguinte, e seu peito ficou mais robusto, embora nunca completamente normal. Sua visão também se recuperou de forma significativa ― mas agora suas retinas estavam seriamente comprometidas. Nunca ficou claro se as lesões da retina haviam sido causadas inteiramente por sua doença aguda ou quem sabe, em parte, por uma degeneração retiniana congênita.

Aos seis anos, as cataratas começaram a se desenvolver nos dois olhos e tornou-se evidente que ele estava ficando cego de novo. No mesmo ano, foi mandado a uma escola para cegos, onde acabou aprendendo a ler em braille e tornou-se versado no uso de uma bengala. Mas não era um aluno destacado; não era audaz e agressivamente independente como alguns cegos.

Demonstrou uma impressionante passividade ao longo de todo o tempo que passou na escola ― como, na realidade, desde que adoecera.

Ainda assim, Virgil terminou a escola e, quando tinha vinte anos, decidiu deixar o Kentucky e procurar uma especialização, um trabalho e uma vida própria numa cidade em Oklahoma. Tornou-se massagista terapeuta e logo encontrou um emprego na Associação Cristã de Moços. Era obviamente bom no que fazia, e altamente respeitado, e a ACM estava satisfeita em mantê-lo no quadro permanente, dando-lhe uma pequena casa do outro lado da rua, onde vivia com um amigo, também empregado pela ACM. Virgil tinha muitos clientes ― é fascinante ouvir os detalhes táteis com que pode descrevê-los ― e parecia tirar um verdadeiro prazer e orgulho de seu trabalho. Assim, à sua maneira modesta, Virgil ganhou a vida: tinha um emprego fixo e uma identidade, era auto-suficiente, tinha amigos, lia jornais e livros em braille (embora menos, com os anos, à medida que livros em fita começaram a aparecer). Era apaixonado por esportes, em especial beisebol, e adorava ouvir os jogos no rádio. Tinha um conhecimento enciclopédico sobre jogos, jogadores, resultados e números do beisebol. Em mais de uma ocasião, teve namoradas e atravessou a cidade de ônibus para encontrá-las. Mantinha uma ligação estreita com a família, e em particular com a mãe ― recebia regularmente cestos de comida da fazenda e mandava cestos de roupa suja para lavar. A vida era limitada, mas estável a sua maneira.

Foi quando, em 1991, encontrou Amy ― ou melhor, reencontraram-se, já que tinham se conhecido bem havia vinte anos ou mais. A formação de Amy era diferente da de Virgil: vinha de uma família culta de classe média, cursara a universidade em New Hampshire e tinha um diploma em botânica. Trabalhara em outra ACM na cidade, como professora de natação, e encontrara Virgil numa exposição de gatos em 1968. Namoraram por um tempo ― ela tinha vinte e poucos, ele era alguns anos mais velho ―, mas então Amy decidiu fazer pós-graduação em Arkansas, onde conheceu seu primeiro marido, e perdeu o contato com Virgil. Por um tempo, manteve o seu próprio viveiro de plantas, especializando-se em orquídeas, mas foi obrigada a abrir mão do negócio quando passou a sofrer sérios ataques de asma. Divorciou-se do primeiro marido poucos anos depois e voltou para Oklahoma. Em 1988, sem mais nem menos, Virgil lhe telefonou e, após três anos de longas conversas telefônicas entre os dois, finalmente se reencontraram, em 1991. “De repente, era como se vinte anos não tivessem passado”, disse Amy.

Ao se reencontrarem, a esta altura de suas vidas, ambos sentiram certo desejo de companhia.

Talvez com Amy isso tenha tomado uma forma mais ativa. Via que Virgil estava paralisado (era assim que ela sentia as coisas) numa vida vegetativa e apática: indo para a ACM, fazendo suas massagens; voltando para casa, onde, cada vez mais, ouvia os jogos no rádio; saindo pouco e conhecendo cada vez menos pessoas com o passar dos anos. Ela deve ter sentido que recobrar a visão, assim como o casamento, o arrancaria dessa existência indolente de solteiro, abrindo uma nova vida para ambos.

Virgil era passivo nisso como em muitas outras coisas. Fora mandado a meia dúzia de especialistas ao longo dos anos, e todos foram unânimes em recusar-se a operá-lo, sentindo que muito provavelmente não tinha mais nenhuma função retiniana útil. Virgil parecia aceitar esse fato com serenidade. Mas Amy discordava. Já que era cego, ela dizia, não tinha nada a perder, e havia uma possibilidade real, remota, mas quase demasiado excitante de imaginar, de que ele pudesse realmente recuperar alguma visão e, após quase 45 anos, ver outra vez. E, assim, Amy insistiu na cirurgia. A mãe de Virgil, temendo o transtorno, era categoricamente contra (“Ele está bem do jeito que está”, dizia). Por sua vez, Virgil não se posicionava sobre a questão; parecia satisfeito em acatar o que quer que decidissem.

Por fim, em meados de Setembro, chegou o dia da cirurgia. Removeram a catarata do olho direito de Virgil e colocaram uma lente; o olho foi tapado com um curativo, como de costume, por 24 horas. No dia seguinte, o curativo foi retirado, e o olho de Virgil foi afinal exposto, descoberto, ao mundo. A hora da verdade tinha chegado finalmente.

Será que tinha? A verdade da coisa (como concluí mais tarde), se menos “milagrosa” do que sugeria o diário de Amy, era infinitamente mais estranha. O momento dramático ficou por vir, demorou-se, cedeu. Nenhuma exclamação (“Estou vendo“) escapou dos lábios de Virgil. Parecia estar fitando o vazio, desorientado, sem foco, com o cirurgião a sua frente, ainda com o curativo na mão. Foi só quando o cirurgião falou ― dizendo: “Então?” ― que um olhar de reconhecimento atravessou o rosto de Virgil.

Depois ele me disse que, nesse primeiro momento, não fazia a menor idéia do que estava vendo. Havia luz, movimento e cor, tudo misturado, sem sentido, um borrão. E então, do meio da nódoa veio uma voz que dizia: “Então?”. Foi nesse instante, e somente nesse instante, ele disse, que finalmente se deu conta de que aquele caos de luz e sombra era um rosto ― e, na realidade, o rosto de seu cirurgião.

Sua experiência foi praticamente idêntica à do paciente de Gregory, S. B., que ficou acidentalmente cego na infância e recebeu um transplante de córnea quando já estava com mais de cinqüenta anos: Quando os curativos foram removidos [...] ele ouviu uma voz vindo da sua frente e de um dos lados: virou-se na direção da origem do som e viu um “borrão”. Compreendeu que aquilo devia ser um rosto. [...] Parecia crer que não saberia que aquilo era um rosto se não tivesse ouvido previamente a voz, sabendo que as vozes vêm de rostos.

Nós que nascemos com a visão mal podemos imaginar tal confusão. Já que, possuindo de nascença a totalidade dos sentidos e fazendo as correlações entre eles, um com o outro, criamos um mundo visível de início, um mundo de objetos, conceitos e sentidos visuais. Quando abrimos nossos olhos todas as manhãs, damos de cara com um mundo que passamos a vida aprendendo a ver. O mundo não nos é dado: construímos nosso mundo através de experiência, classificação, memória e reconhecimento incessantes. Mas quando Virgil abriu os olhos, depois de ter sido cego por 45 anos ― tendo um pouco mais que a experiência visual de uma criança de colo, há muito esquecida ―, não havia memórias visuais em que apoiar a percepção; não havia mundo algum de experiência e sentido esperando-o. Ele viu, mas o que viu não tinha qualquer coerência. Sua retina e nervo óptico estavam ativos, transmitindo impulsos, mas seu cérebro não conseguia lhes dar sentido; estava, como dizem os neurologistas, agnósico.

Todos, incluindo Virgil, esperavam algo mais simples. Um homem abre os olhos, a luz entra e bate na retina: ele vê. Como num piscar de olhos, nós imaginamos. E a própria experiência do cirurgião, como a da maioria dos oftalmologistas, era com a remoção de cataratas de pacientes que quase sempre haviam perdido a visão tarde na vida ― e tais pacientes têm, de fato, se a cirurgia é bem-sucedida, uma recuperação praticamente imediata da visão normal, já que não perderam de forma alguma a capacidade de ver. Assim sendo, embora tenha havido uma cuidadosa consideração cirúrgica da operação e de possíveis complicações pós-operatórias, houve pouca discussão ou preparação para as dificuldades neurológicas e psicológicas que Virgil poderia encontrar.

Removida a catarata, ele pôde ver cores e movimentos, ver (mas não identificar) grandes objetos e formas e, espantosamente, ler algumas letras na terceira linha da tabela-padrão de Snellen para exame de vista ― a linha correspondente a uma acuidade visual de 20/100 ou um pouco mais. Mas ainda que sua melhor visão fosse de cerca de 20/80, faltava-lhe um campo visual coerente, porque sua visão central era fraca, sendo quase impossível para o olho fixar-se em pontos específicos; seguia perdendo-os, fazendo movimentos de busca ao acaso, encontrando-os, e então perdendo-os de novo. Era evidente que a parte central ou macular da retina, especializada em alta precisão e fixação, mal funcionava, e era apenas a área paramacular à sua volta que tornava possível uma visão tal como a dele. A própria retina tinha uma aparência malhada, como se tivesse sido comida por traças, com áreas de maior ou menor pigmentação ― ilhotas intactas ou relativamente intactas em alternância com áreas atrofiadas. A mácula era degenerada e pálida, e os veios sangüíneos de toda a retina mostravam-se estreitados.

Os exames, pelo que me disseram, sugeriram traços ou resíduos de uma antiga doença, mas nenhum processo de enfermidade atual ou ativa; e, sendo assim, a visão de Virgil, do jeito que estava, podia permanecer estável para o resto de sua vida. Era de se esperar, além do mais (já que o pior olho fora operado primeiro), que seu olho esquerdo, que devia ser operado no período de algumas semanas, tivesse uma retina em estado consideravelmente melhor que a do direito.

Não pude ir a Oklahoma logo ― minha vontade era pegar o primeiro avião depois daquele primeiro telefonema ―, mas me mantive informado sobre o progresso de Virgil nas semanas seguintes, em conversas com Amy, com a mãe de Virgil e, é claro, com o próprio. Também conversei longamente com o Dr. Hamlin e com Richard Gregory, na Inglaterra, para saber que tipo de testes eu devia levar, já que pessoalmente nunca tinha visto um caso parecido, nem conhecia ninguém (à exceção de Gregory) que o tivesse. Juntei algum material ― objetos sólidos, figuras, desenhos, ilusões visuais, vídeos e testes de percepção especiais, concebidos por um colega fisiologista, Ralph Siegel; liguei para um amigo oftalmologista, Robert Wasserman (havíamos trabalhando juntos anteriormente no caso do pintor daltônico, e começamos a planejar a visita.

Sentíamos que era importante não apenas testar Virgil, mas ver como se comportava na vida em geral, dentro e fora de casa, do lado de fora, em ambientes naturais e situações sociais; era crucial também que o víssemos como uma pessoa, trazendo sua própria história de vida ― suas inclinações, necessidades e expectativas particulares ― para essa passagem crítica; que conhecêssemos sua noiva, que tanto insistiu na operação, e com quem sua vida estava agora tão intimamente associada; que dirigíssemos nossos olhares não apenas para seus olhos e capacidades de percepção, mas para a totalidade do teor e padrão de sua vida.

Virgil e Amy ― agora recém-casados ― nos receberam à saída do desembarque no aeroporto.

Virgil era de estatura mediana, mas muito gordo; movia-se lentamente e tinha a tendência de tossir e ofegar ao menor esforço. Não era, estava claro, um homem completamente saudável.

Seus olhos erravam de um lado para o outro, à procura de movimentos, e quando Amy nos apresentou ― Bob e eu ― a ele pareceu não nos ver de imediato ― olhou na nossa direção, mas não exatamente para nós. Tive a impressão, momentânea porém forte, de que na realidade não olhava para nossos rostos, embora tenha sorrido, rido e escutado com atenção.

Lembrei-me do que Gregory observara em seu paciente S. B. ― que “ele não olhava para o rosto de um interlocutor, e não se dava conta de expressões faciais". O comportamento de Virgil não era por certo o de um homem de visão, mas também não era o de um cego. Era, antes, o comportamento de alguém mentalmente cego, ou agnósico ― capaz de ver, mas não de decifrar o que estava vendo. Ele me lembrou um de meus pacientes agnósicos, o Dr. P. (o homem que confundiu sua mulher com um chapéu), que, ao me receber, em vez de olhar para mim de uma maneira normal, tinha de repente estranhas fixações ― pelo meu nariz, minha orelha direita, descendo até meu queixo, e de volta ao meu olho direito ― sem conseguir ver, “apreender” meu rosto como um todo.

Caminhamos pelo aeroporto apinhado, Amy segurando o braço de Virgil, guiando-o até o estacionamento onde tinham deixado o carro. Virgil adorava carros, e um de seus primeiros prazeres após a cirurgia (assim como com S. B.) tinha sido observá-los da janela de sua casa, apreciar seus movimentos e identificar suas cores e formas ― as cores, sobretudo. Por vezes, ficava desorientado com as formas. “Que carros você está vendo?”, perguntei enquanto atravessávamos o estacionamento. Ele apontava para todos os carros por que passávamos.

“Aquele é azul, aquele é vermelho — uau! Aquele é dos grandes!” Ele achava algumas formas surpreendentes. “Olhe aquele lá”, exclamou uma vez. “Tenho que olhar de perto!” E, curvando-se, ele o tocou — era um Jaguar V-12, sinuoso e aerodinâmico — e confirmou suas formas discretas.

Mas eram apenas as cores e as formas gerais que ele percebia; teria passado direto por seu próprio carro se Amy não estivesse com ele. E Bob e eu ficamos impressionados pelo fato de Virgil só olhar, só prestar atenção visualmente, quando chamado ou quando lhe apontavam algo — não espontaneamente. Sua visão podia ter sido restaurada em grande parte, mas era óbvio que o uso dos olhos, o olhar, estava longe de ser natural para ele; continuava com muitos dos hábitos e comportamentos de um cego.

(Nota 3: Não se vê, sente ou percebe em isolamento — a percepção está sempre ligada ao comportamento e ao movimento, à busca e à exploração do mundo. Ver não é suficiente; é preciso olhar também. Embora tenhamos falado, no caso de Virgil. sobre uma incapacidade perceptiva, ou agnosia, havia igualmente uma falta de capacidade ou de impulso para olhar, para agir com a visão — uma ausência de comportamento visual. Von Senden menciona o caso de duas crianças cujos olhos ficaram tampados desde a mais tenra idade e que, quando as vendas foram retiradas aos cinco anos, não tiveram nenhuma reação, não tinham nenhum olhar, pareciam cegas. Fica o sentimento de que essas crianças, que construíram seus mundos com outros sentidos e comportamentos, não sabiam como usar os olhos. O ato de olhar — como uma orientação, um comportamento — pode até desaparecer naqueles que ficam cegos já em idade madura, a despeito do fato de terem sido “olhadores” durante toda a vida. Muitos exemplos espantosos disso são dados por John Hull em seu livro autobiográfico Touching the rock. Hull viveu como um homem normal, com visão, até seus quarenta e poucos anos, mas cinco anos após tornar-se completamente cego perdeu a própria idéia de “encarar” as pessoas, de “olhar” para seus interlocutores.)

O percurso do aeroporto à casa deles foi longo, através do coração da cidade, e nos deu a chance de conversar com Virgil e Amy e observar as reações dele a sua nova visão.

Manifestamente, gostava do movimento, olhava o espetáculo em permanente mutação pelas janelas do carro, e o movimento dos outros veículos na estrada. Detectou um motorista vindo à toda atrás de nós e identificou carros, ônibus (gostava particularmente dos escolares, amarelos-vivos), caminhões de dezoito rodas e, uma vez, numa estrada secundária, um vagaroso e barulhento trator. Parecia muito sensível — e intrigado — aos grandes sinais e anúncios de néon, e gostava de identificar as letras quando passávamos. Tinha dificuldade de ler palavras inteiras, embora com freqüência as deduzisse corretamente a partir de uma ou duas letras ou do estilo do anúncio. Havia outros que ele podia enxergar, mas não ler. Foi capaz de ver e discernir as cores cambiantes das luzes dos sinais de trânsito ao entrarmos na cidade.

Ele e Amy nos contaram sobre outras coisas que ele vira desde a operação e sobre algumas confusões inesperadas que podiam ocorrer. Vira a Lua; era maior do que esperava.

(Nota 4: O paciente de Gregory também se surpreendeu com a Lua: esperava que o primeiro quarto de Lua tivesse a forma de uma fatia, como um pedaço de bolo, e ficou pasmo e entretido ao descobrir, em vez disso, um quarto crescente.).

Em certa ocasião, ficou confuso ao ver “um avião gordo” no céu — “petrificado, sem se mexer”. Era um dirigível. Eventualmente, tinha visto pássaros; eles o faziam pular, às vezes, se chegavam muito perto. (É claro que não vinham tão perto, Amy explicou. Virgil simplesmente não tinha o menor senso de distância.) Recentemente, passaram boa parte do tempo fazendo compras — havia os preparativos do casamento, e Amy queria exibir Virgil aos outros, contar sua história a vendedores e lojistas que os conheciam, deixá-los ver a transformação de Virgil com os próprios olhos.

(Nota 5: Robert Scott, sociólogo e antropólogo do Instituto de Estudos Avançados do Comportamento em Stanford, tem se interessado especialmente pela reação social aos cegos, e o desprezo e a estigmatização tão freqüentemente conferidos a eles. Também fez palestras sobre “curas milagrosas”, a extravagância da emoção que pode acompanhar a recuperação da visão. Foi o Dr. Scott que, alguns anos atrás, enviou-me uma cópia do livro de Valvo.).

Foi divertido; a televisão local levou ao ar uma reportagem sobre a operação de Virgil, as pessoas o reconheciam e vinham cumprimentá-lo. Mas supermercados e outras lojas também eram densos espetáculos visuais de objetos de todo tipo, com freqüência em embalagens vistosas, e serviam como um bom “exercício" para a nova vista de Virgil. Entre os primeiros objetos que reconheceu, apenas um dia após tirarem o curativo, estavam rolos de papel higiênico em prateleiras. Apanhara um pacote e o entregara a Amy para provar que podia ver. Três dias após a cirurgia, foram a um hipermercado e Virgil enxergou prateleiras, frutas, enlatados, pessoas, corredores, carrinhos — tantas coisas que ficou amedrontado. “Tudo corria junto”, disse. Teve de sair da loja e fechar os olhos por um momento.

Apreciava paisagens ordenadas, dizia, de montes verdes e grama — sobretudo depois dos espetáculos visuais sobrecarregados e excessivos das lojas —, embora lhe fosse difícil, segundo Amy, conectar as formas visuais dos montes com os montes reais em que caminhava, e não tivesse senso algum de tamanho ou perspectiva.

(nota 6: A sensação em si não tem “marcadores” para tamanho e distância, que precisam ser aprendidos com base na experiência. Assim, tem sido relatado que pessoas que viveram a vida inteira em densas florestas tropicais, com um horizonte de não mais que alguns metros à frente, quando colocadas em paisagens amplas e vazias podem chegar a esticar os braços e tentar tocar as montanhas com as mãos; não fazem idéia da distância das montanhas. Helmholtz (em Thought in rnedicine, um relato autobiográfico) descreve como, aos dois anos de idade, caminhando por um parque, viu o que achou ser uma pequena torre com uma balaustrada no alto e manequins ou bonecos pequeninos andando por trás do parapeito. Quando perguntou à mãe se ela podia alcançar um deles para ele brincar, ela exclamou que a torre ficava a um quilômetro de distância e a duzentos metros de altura, e que essas pequenas figuras não eram manequins, mas pessoas lá no alto. Bastou dizer isso, escreve Helmholtz, para que ele de repente se desse conta da escala de tudo, e nunca mais cometesse tal erro perceptivo — embora a percepção visual do espaço como tema nunca tenha deixado de exercitá-lo (ver Cahan, 1993). Poe conta, em “O escaravelho de ouro”, uma história inversa: como o que parecia ser uma enorme criatura cheia de articulações num morro distante acaba se revelando um pequeno inseto na janela. Uma experiência pessoal, a primeira vez que fumei maconha, me vem á cabeça agora. Olhava para minha mão contra o fundo de uma parede lisa. Ela parecia escapar de mim, ao mesmo tempo em que mantinha o mesmo tamanho aparente, até começar a parecer enorme, uma mão cósmica, através de parsecs do espaço. Provavelmente, essa ilusão tornou-se possível, entre outras coisas, pela falta de marcos ou contextos para indicar o tamanho e a distância real, e talvez por algum distúrbio da imagem corporal e da central processadora de visão.)

Mas o primeiro mês com a visão fora predominantemente positivo: “Cada dia parece uma grande aventura, enxergando mais pela primeira vez a cada dia”, Amy escrevera, sintetizando, em seu diário.

Quando chegamos em casa, Virgil caminhou por conta própria, sem bengala, até a porta da frente, tirou a chave do bolso, segurou a maçaneta, destrancou e abriu a porta. Era impressionante — não poderia ter feito isso de primeira, ele disse, era algo que vinha praticando desde o dia seguinte à cirurgia. Era o seu show. Mas ele dizia que, em geral, caminhar era “assustador” e “confuso” sem o tato, sem sua bengala, com suas noções incertas e instáveis sobre o espaço e a distância. Por vezes, superfícies e objetos pareciam avultar-se, estar em cima dele, quando na realidade continuavam a uma grande distância; por outras, confundia-se com a própria sombra (todo o conceito de sombras, de objetos bloqueando a luz, era enigmático para ele) e parava, ou dava um passo em falso, ou tentava passar por cima dela. Degraus, em particular, apresentavam um risco especial, porque tudo o que podia ver era uma confusão, uma superfície plana, de linhas paralelas ou entrecruzadas; não conseguia vê-los (embora os conhecesse) como objetos sólidos indo para cima ou para baixo num espaço tridimensional. Agora, cinco semanas depois da cirurgia, sentia-se com freqüência mais incapaz do que se sentira quando era cego, e perdera a confiança, a facilidade de movimento que possuíra então. Mas tinha a esperança de que tudo isso entrasse nos eixos com o tempo.

Eu não tinha tanta certeza; todos os pacientes descritos na literatura médica enfrentaram, após a cirurgia, grandes dificuldades na apreensão do espaço e da distância — por meses, até mesmo anos.

Tinha sido o caso mesmo com o paciente extremamente inteligente de Valvo, H. S., que havia enxergado normalmente até os quinze anos, quando seus olhos foram danificados por uma explosão química. Ficou totalmente cego até receber um transplante de córnea 22 anos mais tarde. Mas, a partir daí, enfrentou sérias dificuldades de toda espécie, que ele registrou, minuciosamente, em fita: Durante as primeiras semanas [após a cirurgia], eu não tinha nenhum senso de profundidade ou distância; as luzes da rua eram manchas luminosas grudadas aos vidros das janelas, e os corredores do hospital eram buracos negros. Ao atravessar a rua, o tráfego me aterrorizava, mesmo quando estava acompanhado. Sinto-me muito inseguro ao andar; na realidade, tenho mais medo agora do que antes da operação.

Ficámos na cozinha, nos fundos da casa, onde havia uma grande mesa de pinho branco. Bob e eu despejámos todos os nossos objetos de testes — tabelas coloridas, tabelas de letras, desenhos, ilusões visuais — sobre a mesa e preparamos a câmera de vídeo para registrar o exame. Assim que nos instalamos, o gato e o cachorro de Virgil apareceram para nos receber e examinar — e Virgil, nós notamos, teve alguma dificuldade em estabelecer qual era qual. Esse problema cômico e embaraçoso persistia desde que voltara para casa após a cirurgia: ambos os animais eram, por coincidência, preto-e-brancos, e ele continuava a confundi-los — para a tristeza dos dois — até poder tocá-los. Por vezes, disse Amy, ela o via examinando o gato cuidadosamente, olhando para sua cabeça, suas orelhas, patas, seu rabo, e tocando ao mesmo tempo cada parte. Observei a mesma coisa no dia seguinte — Virgil tocando e olhando para Tibbles com extraordinária concentração, correlacionando o gato com o gato. Ficava fazendo a mesma coisa, segundo Amy (“Você poderia achar que uma vez seria suficiente”), mas as novas idéias, os reconhecimentos visuais, continuavam escapando à sua mente.

Cheselden descreveu uma cena espantosamente semelhante com seu jovem paciente na década de 1720: Um detalhe apenas, embora possa parecer frívolo, devo relatar: tendo com freqüência esquecido qual era a gata, e qual o cão, envergonhava-se de perguntar; mas ao pegar a gata, que conhecia pelo tato, foi observado olhando fixamente para ela e, em seguida, colocando-a de volta ao chão, dizer: Então, bichano, hei de reconhecer-te em outra ocasião. [...] Ao ser informado sobre o que eram as coisas [...] ele comentava com cautela que poderia vir a conhecê-las de novo; e (como disse) tomar conhecimento, e mais uma vez esquecer, milhares de coisas num dia.

Os primeiros reconhecimentos formais de Virgil após a remoção do curativo foram de letras na tabela de acuidade visual, e decidimos testá-lo, primeiro, com a identificação de letras. Não conseguia enxergar claramente o texto comum de jornal — sua acuidade continuava apenas em cerca de 20/80 —, mas percebeu prontamente letras com mais de 0,85 centímetros de altura.

Aqui, saiu-se relativamente bem, em grande parte, reconhecendo todas as letras de uso mais corrente (as maiúsculas, pelo menos) com facilidade — assim como havia sido capaz de fazer desde que o curativo fora removido. Como era possível que tivesse tanta dificuldade em reconhecer rostos, ou o gato, tanta dificuldade com as formas em geral, com o tamanho e a distância, e contudo tão pouca, relativamente, para reconhecer as letras? Quando lhe perguntei sobre isso, disse-me que aprendera o alfabeto pelo tato na escola, onde usavam letras em três dimensões, ou recortadas, para ensinar aos cegos.

Fiquei impressionado e me lembrei de S. B., o paciente de Gregory: “Para nossa grande surpresa, ele era capaz até de dizer a hora a partir de um grande relógio na parede. Ficamos tão impressionados com isso que, de início, não acreditamos que pudesse ter sido cego antes da operação”. Mas em seus dias de cegueira S. B. usara um grande relógio de caçador, sem o vidro, dizendo a hora pelo tato, e aparentemente fizera uma transferência, para usar o termo de Gregory, “modal cruzada” instantânea do tato para a visão.

Virgil, ao que parecia, também devia estar fazendo apenas uma transferência desse tipo.

Mas se por um lado Virgil era capaz de reconhecer com facilidade letras separadas, por outro não conseguia amarrá-las — não podia ler ou mesmo ver as palavras. Achei isso enigmático, já que ele dissera que usavam não apenas braille, mas inglês com letras tridimensionais ou em alto-relevo na escola — e que aprendera a ler com total fluência. De fato, ainda era capaz de ler com facilidade as inscrições em monumentos de guerra ou lápides pelo tato. Mas seus olhos pareciam se fixar em letras específicas e ser incapazes de um movimento livre, de uma passada de olhos, necessária para a leitura. O mesmo ocorreu com o alfabetizado H. S.: Minhas primeiras tentativas de ler foram penosas. Podia pinçar letras separadas, mas me era impossível ler palavras inteiras; consegui fazê-lo apenas depois de semanas de esforços exaustivos. Na verdade, era-me impossível lembrar todas as letras juntas, após tê-las lido uma a uma. Também não me era possível, durante as primeiras semanas, contar meus próprios cinco dedos: tinha a sensação de que estavam todos lá, mas.., não era possível para mim passar de um ao outro enquanto contava.

Outros problemas se manifestaram ao longo do dia. Virgil pinçava detalhes incessantemente — um ângulo, uma quina, uma cor, um movimento —, mas não era capaz de sintetizá-los, de formar uma percepção complexa com uma passada de olhos. Esta era uma das razões por que o gato, visualmente, era tão enigmático: via a pata, o focinho, o rabo, uma orelha, mas não conseguia ver tudo junto, o gato como um todo.

Amy anotou em seu diário como mesmo as conexões mais “óbvias” — visual e logicamente — precisavam ser aprendidas. Assim, ela nos contou, poucos dias após a operação, “ele disse que as árvores não se pareciam com nada na Terra”, mas em 21 de outubro, um mês depois da cirurgia, ela escreveu: “Virgil finalmente deu unidade a uma árvore — agora sabe que o tronco e as folhas se juntam para formar uma coisa só”. E em outra ocasião: “Estranhamento de arranha-céus, não consegue entender como ficam de pé sem cair".

Muitos dos pacientes — ou talvez todos — na situação de Virgil tiveram dificuldades semelhantes. Uma dessas pacientes (descrita por Eduard Raehlmann em 1891), embora tivesse tido uma pequena visão anteriormente á operação e segurado cachorros com freqüência, “não fazia a menor idéia de como a cabeça, as patas e as orelhas eram conectadas ao animal”. Valvo cita seu paciente T. G.: Antes da operação, eu fazia uma idéia completamente diferente do espaço e sabia que um objeto só podia ocupar um único ponto tátil. Sabia [...l também que, se houvesse um obstáculo ou degrau ao fim de uma varanda, esse obstáculo surgia após certo período de tempo, ao qual eu estava acostumado. Depois da operação, por vários meses, não podia mais coordenar as sensações visuais com a velocidade do meu passo. [...] Tinha que coordenar a visão e o tempo necessários para cobrir a distância. Achava isso muito difícil. Se o passo fosse muito lento ou muito rápido, eu tropeçava.

Valvo observa: “A dificuldade real aqui é que a percepção simultânea de objetos não é algo habitual para aqueles acostumados a uma percepção seqüencial através do tato”. Nós, com a totalidade dos sentidos, vivemos no espaço e no tempo; os cegos vivem num mundo só de tempo.

Porque os cegos constróem seus mundos a partir de seqüências de impressões (táteis, auditivas, olfativas) e não sendo capazes, como as pessoas com visão, de uma percepção visual simultânea, de conceber uma cena visual instantânea. Efetivamente, se alguém não consegue mais ver no espaço, a idéia de espaço torna-se incompreensível — mesmo para pessoas muito inteligentes que ficaram cegas relativamente tarde na vida — essa é a tese central da formidável monografia de Von Senden, que é vigorosamente transmitida por John Hull em sua notável autobiografia, Touching the rock, quando fala de si, do cego, como “vivendo (quase que exclusivamente) no tempo”. Com o cego, ele escreve: este sentido de estar num lugar é menos pronunciado. [...] O espaço é reduzido ao seu próprio corpo, e a posição deste é conhecida não pelos objetos que passaram por ele, mas pelo tempo que esteve em movimento. [...] Para o cego, as pessoas não estão lá se não falam. [...] As pessoas estão em movimento, são temporais, vêm e vão. Aparecem do nada; desaparecem.

Embora Virgil pudesse reconhecer letras e números, e também pudesse escrevê-los, confundia as letras mais parecidas (“A” e “H”, por exemplo) e, certa vez, escreveu algumas ao contrário.

(Hull descreve como, após apenas cinco anos de cegueira, aos quarenta anos, suas próprias memórias visuais se tornaram de tal forma incertas que ele já não sabia para que lado estava virado um “3” e tinha que traçá-lo no ar com os dedos. Dessa forma, o numeral era guardado como um conceito tátil-motor, mas não mais visual.) Ainda assim, o desempenho de Virgil impressionava para um homem que não tinha enxergado por 45 anos. Mas o mundo não consiste apenas em letras e números. Como se sairia com objetos e imagens? Como se sairia com o mundo real?

Suas primeiras impressões ao retirarem o curativo foram especialmente de cores, e parecia ser a cor, sem analogias no mundo do tato, o que mais o excitava e encantava — isso ficou muito claro pela maneira como falava e pelo diário de Amy. (O reconhecimento das cores e do movimento parece ser inato.) Era às cores que Virgil aludia continuamente, o inesperado cromático de novas visões. Comera salada grega e esparguete na noite anterior, contou-nos, e o esparguete o surpreendeu: “Linhas brancas e esféricas, como linha de pescar”, disse. “Pensava que seriam marrons.

Ver a luz, a forma e os movimentos, ver as cores sobretudo, havia sido algo completamente inesperado e teve um impacto físico e emocional quase que chocante, explosivo. (“Senti a violência dessas sensações”, escreveu H. S., o paciente de Valvo, “como uma explosão na cabeça. A violência da emoção [...] era análoga à emoção muito forte que tive ao ver minha mulher pela primeira vez e quando, saindo de carro, vi os grandes monumentos de Roma.”) Percebemos que Virgil distinguia facilmente uma grande quantidade de cores e as combinava sem dificuldade. Mas, confuso e de uma maneira atabalhoada, por vezes dava nomes errados às cores: chamou, por exemplo, amarelo de rosa, mas sabendo que se tratava da mesma cor da banana. No começo ficamos na dúvida se ele tinha uma agnosia ou anomia de cor — falhas na associação ou definição das cores são conseqüência de lesões em áreas específicas do cérebro.

Mas as dificuldades dele, ao que nos parecia, vinham simplesmente da falta de aprendizado (ou do esquecimento) — do fato de que a cegueira prematura e prolongada o impedira por vezes de associar as cores aos seus nomes ou o levara a esquecer algumas dessas associações que havia feito. Essas associações e as conexões neurais que as sustentam, inicialmente fracas, ficaram soltas em seu cérebro, não por alguma lesão ou doença, mas simplesmente por falta de uso.

Embora Virgil acreditasse ter memórias visuais, incluindo memórias de cor, do passado remoto — em nosso percurso do aeroporto falou de ter crescido na fazenda em Kentucky (“Vejo o riacho correndo entre as plantações”, “pássaros nas cercas”, “a velha casa grande branca”) —, eu não conseguia saber se estas memórias eram genuínas, imagens visuais em sua mente, ou meras descrições sem imagens (como as de Helen Keller).

Como se saía com as formas? Aqui as coisas ficavam mais complicadas, porque tinha se exercitado nas semanas após a cirurgia, correlacionando a aparência e o tato. Nenhum desses exercícios foi necessário com as cores. Primeiro, foi incapaz de reconhecer qualquer forma visualmente — mesmo as mais simples, como o quadrado ou o circulo, que identificava imediatamente pelo toque. Para ele, um quadrado tocado não correspondia em nada a um quadrado visto. Esta era a sua resposta à questão de Molyneux. Por essa razão, Amy havia comprado, entre outras coisas, um quadro de madeira para crianças, com grandes blocos simples — quadrado, triângulo, círculo e retângulo — a serem encaixados nos buracos correspondentes, e fez Virgil se exercitar com o brinquedo diariamente. A princípio, ele achou a incumbência impossível, mas, após um mês de prática, tornou-se absolutamente fácil. Ele continuava com a tendência de tocar os buracos e as formas antes de encaixá-las, mas quando o impedimos de fazê-lo ele conseguiu arrumá-las espontaneamente apenas pela visão.

Evidentemente, objetos sólidos apresentavam uma dificuldade bem maior, porque sua aparência era muito variável; e grande parte das últimas cinco semanas fora dedicada à exploração destes, de suas inesperadas vicissitudes de aparência quando vistos de perto ou de longe, ou semi-encobertos, ou de diferentes pontos e ângulos.

No dia em que Virgil voltou para casa, após a retirada dos curativos, a casa e o que havia em seu interior eram ininteligíveis para ele, e teve de ser guiado pelo caminho no jardim, pela casa, em cada quarto, e apresentado a cada cadeira. Em uma semana, com a ajuda de Amy, estabeleceu um fio condutor — uma linha de referências seguindo o caminho no jardim, através da sala de estar até a cozinha, com outras, sempre que necessário, até o banheiro e o quarto. No começo, era somente a partir dessas referências que conseguia reconhecer o que quer que fosse — embora isso tenha exigido uma boa dose de interpretação e inferência; assim, aprendeu por exemplo que “uma brancura à direita”, vista quando vinha em diagonal da porta da frente, era na realidade a mesa de jantar na outra sala, embora a esta altura nem “mesa” nem “sala de jantar” fossem conceitos visuais claros. Se se desviasse desse fio, ficava completamente desorientado.

Então, cuidadosamente, com a ajuda de Amy, começou a usá-lo como base para a casa, fazendo pequenos desvios e excursões para ambos os lados, de forma que pudesse ver os cômodos, perceber suas paredes e móveis de diferentes ângulos, e construir um sentido de espaço, de solidez e de perspectiva.

Conforme Virgil explorava os cômodos da casa, investigando, por assim dizer, a construção visual do mundo, veio-me a imagem de um bebê movendo a mão de um lado para o outro diante de seus olhos, balançando a cabeça, virando-a de um lado para o outro, em sua construção primal do mundo.

A maioria de nós não faz a menor idéia da enormidade dessa construção, já que a desempenhamos inconsútil e inconscientemente, milhares de vezes todos os dias, num piscar de olhos. Mas não é assim com um bebê, como não era assim com Virgil, e também não o é, digamos, com um artista que deseja experimentar suas percepções elementares renovadas, como pela primeira vez. Cézanne escreveu certa vez: “A mesma coisa vista de um ângulo diferente fornece um tema de estudo do mais alto interesse e tão variado que creio poder passar meses ocupado sem mudar de posição, simplesmente curvando-me mais à direita ou à esquerda”.

Atingimos a constância perceptiva — a correlação de todas as diferentes aparências, as modificações dos objetos — muito cedo, nos primeiros meses de vida. Trata-se de uma enorme tarefa de aprendizado, mas que é alcançada tão suavemente, tão inconscientemente, que sua imensa complexidade mal é percebida (embora seja uma conquista a que nem mesmo os maiores super-computadores conseguem começar a fazer face). Mas para Virgil, com meio século esquecendo todos os engramas visuais que construíra, o aprendizado, ou reaprendizado, dessas modificações demandava horas de uma exploração consciente e sistemática a cada dia. Este primeiro mês, então, foi cena de uma exploração sistemática, pela vista e pelo tato, de todas as pequenas coisas da casa: frutas, legumes, garrafas, latas, faqueiros, flores, os enfeites sobre o consolo da lareira — mexendo e remexendo nelas, observando-as bem perto de si e depois de longe, com o braço esticado, tentando sintetizar suas várias aparências num sentido de objeto único.

(Nota 7: Houve problemas semelhantes com o paciente de Gregory, S. B., que nunca deixava de “se impressionar pela maneira como os objetos mudavam de forma conforme andava em volta deles. [...] Olhava para um poste de luz, contornava-o, analisava-o de um ângulo diferente e pensava por que parecia ao mesmo tempo diferente e igual”. De fato, todas as pessoas que acabam de recobrar a visão têm dificuldades radicais com as aparências, sentindo-se subitamente imersas num mundo que, para elas, pode ser um caos de aparências instáveis, evanescentes, em permanente modificação. Podem sentir-se completamente perdidas, à deriva nesse fluxo de aparências, que para elas ainda não está firmemente ancorado no mundo dos objetos, no mundo do espaço. As pessoas que acabam de recuperar a visão, e que antes dependeram de outros sentidos, são derrotadas pelo próprio conceito de “aparência”, que, por ser óptico, não tem analogia nos outros sentidos. Nós que nascemos no mundo das aparências (e de suas eventuais ilusões, miragens e enganos) aprendemos a dominá-lo, a nos sentir em casa nele, mas isso é extremamente difícil para alguém cuja visão é recente. O filósofo F. H. Bradley escreveu um livro célebre chamado Appearance and reality (1893) —mas para os que acabam de recuperar a visão, a princípio, aparência e realidade não têm qualquer conexão).

Apesar de todas as amolações que podem decorrer dos esforços para ver, Virgil se empenhou nisso com espírito esportivo, e aprendeu com perseverança. Agora, tinha poucas dificuldades em reconhecer as frutas, as garrafas, as latas na cozinha, as diferentes flores na sala, e outros objetos comuns na casa.

Objetos a que não estivesse habituado eram muito mais difíceis. Quando tirei um aparelho de medir a pressão de minha maleta médica, ele ficou completamente sem ação, sem a mínima idéia do que se tratava, mas o reconheceu imediatamente quando lhe permiti tocá-lo. Objetos em movimento apresentavam um problema especial, já que mudavam de aparência constantemente.

Mesmo o seu cachorro, ele me disse, parecia tão diferente a cada momento que ele se perguntava se era de fato o mesmo cachorro.

(Nota 8: Quando Virgil disse isso, lembrei-me de uma descrição no conto de Borges “Funes, o memorioso”, em que a dificuldade de Funes com conceitos termos gerais a coloca numa situação semelhante: Não lhe era apenas difícil compreender que o termo genérico cão abrangesse tantos indivíduos díspares e de diferentes formas e tamanhos; aborrecia-o também que o cão às três e catorze (visto de perfil) tivesse o mesmo nome que o cão às três e quinze (visto de frente).).

Ficava absolutamente perdido diante de movimentos rápidos nas fisionomias dos outros. Tais dificuldades são quase universais entre cegos de infância que voltam a enxergar. O paciente de Gregory, S. B., continuava sem conseguir reconhecer os rostos das pessoas, ou suas expressões, um ano depois de seus olhos terem sido operados, a despeito de ter uma visão elementar perfeitamente normal.

E quanto às figuras? Recebi, nessa área, relatos contraditórios sobre Virgil. Diziam que adorava ver televisão, acompanhar tudo o que ia ao ar — e, com efeito, um enorme televisor ficava na sala, um emblema da nova vida de Virgil como uma pessoa que vê. Mas quando o submetemos a figuras imóveis, fotografias em revistas, não teve o menor sucesso. Não conseguia ver as pessoas, nem os objetos — não compreendia a idéia de representação. S. B., o paciente de Gregory, tinha problemas semelhantes. Diante de uma foto de Cambridge Backs, mostrando o rio e a King’s Bridge, Gregory nos relata: Não entendeu nada. Não percebeu que a cena era de um rio, e não reconheceu água ou ponte.

[...] Até onde entendemos, S. B. não fazia a menor idéia de que objetos estavam na frente ou atrás de outros em nenhuma da fotos coloridas. [...] Ficamos com a impressão de que via pouco além de fragmentos de cor.

O mesmo ocorreu, mais uma vez, com o jovem paciente de Cheselden: Pensávamos que ele logo saberia o que representavam as figuras [...] mas percebemos em seguida que tínhamos nos enganado; pois, cerca de dois meses após suas cataratas terem sido removidas, descobriu de repente que representavam corpos sólidos, o que até então tinha percebido apenas como planos de cores variadas, ou superfícies diversificadas com uma variedade de tintas; mas mesmo então ficou não menos surpreso, achando que as imagens teriam a mesma textura da coisa que representavam, [...] e perguntou qual era o sentido enganoso, o tato ou a visão?

As coisas também não melhoravam com as imagens em movimento na tela de TV. Conhecendo a paixão de Virgil por escutar jogos de beisebol, achamos um canal com uma partida em andamento. A princípio, parecia que a estava acompanhando visualmente, porque podia dizer quem estava rebatendo a bola, o que estava acontecendo. Mas bastou desligarmos o som para que ficasse perdido. Ficou claro que ele próprio percebia pouco além de faixas de luz, cores e movimentos, e que todo o resto (o que parecia ver) era interpretação, desempenhada rápida e talvez inconscientemente, em consonância com o som. Não tínhamos a menor certeza de como seria com um jogo ao vivo — parecia-nos possível que pudesse assistir e desfrutar de boa parte dele; era na representação bidimensional, pictórica ou televisiva, da realidade que ele continuava completamente à deriva.

Virgil já havia passado por duas horas de testes e começava a ficar cansado — tanto visual como cognitivamente, como costumava ocorrer desde a operação —, e, uma vez cansado, via cada vez menos, e tinha cada vez mais dificuldade de entender o que via.

(Nota 9: Devido a seu esgotamento a esta altura, não podíamos testá-lo com as ilusões visuais que tínhamos trazido. Era uma pena, porque “ver" ou “não ver” ilusões visuais abre um caminho objetivo e comprobatório para o exame das capacidades visuais-construtivas do cérebro. Ninguém explorou essa abordagem com mals profundidade que Gregory, e seu relato detalhado das respostas de S.B. às ilusões visuais é portanto de grande interesse. Uma das ilusões visuais consiste em linhas paralelas que, aos olhos normais, parecem divergir por causa do efeito das linhas divergentes a elas superpostas; nada desse efeito “gestáltico” se deu com S. B., que viu as linhas absolutamente paralelas — uma falta de “influência” semelhante foi observada com outras ilusões. Particularmente interessante foi a resposta de S. B. a figuras reversíveis, como cubos e escadas desenhados em perspectiva, normalmente percebidos em profundidade e invertendo sua configuração aparente de tempos em tempos; as figuras não se invertiam para S. B., que também não via a profundidade. Também não havia flutuação do plano com figuras ambíguas. Aparentemente, não “via” mudanças de distância/tamanho nas ilusões visuais, como também não experimentou o chamado efeito em cascata, o habitual efeito de percepção do movimento a posteriori. Em todos esses casos, a ilusão é “vista” (mesmo se a mente sabe que a percepção é ilusória) por todos os adultos com visão normal. Muitos desses efeitos ilusórios também podem ser demonstrados em crianças pequenas, em macacos e mesmo na “criatura” artificial de Edelman, Darwin IV. Que S. B. não tenha conseguido “vê-las” ilustra o quão rudimentares eram suas capacidades cerebrais de construção visual, em conseqüência da falta efetiva de uma experiência visual primordial).

De fato, nós mesmos estávamos ficando impacientes e queríamos sair após toda uma manhã de testes. Nós lhe perguntamos, como última tarefa antes de darmos uma volta de carro, se estava disposto a fazer alguns desenhos. Sugerimos de início que desenhasse um martelo (foi o primeiro objeto que S. B. desenhou). Virgil concordou e começou a desenhar, trêmulo. Guiava o movimento do lápis com a outra mão, que estava livre (“Só faz isso porque agora está cansado”, disse Amy). Depois, desenhou um carro (muito alto e antigo); um avião (sem a cauda: teria sido complicado fazê-lo voar); e uma casa (plana e grosseira, como o desenho de uma criança de três anos de idade).

Quando finalmente saímos, era uma luminosa manhã de Outubro e Virgil ficou ofuscado por um minuto, até colocar um par de óculos verde-escuros. Mesmo a luz comum do dia, ele disse, parecia-lhe demasiado clara, resplandecente; sentia que via melhor sob uma luz totalmente baixa.

Perguntamos a ele aonde gostaria de ir, e depois de refletir um pouco ele disse: “Ao zoológico”. Nunca tinha ido a um zoológico, disse ele, e estava curioso para saber a cara de vários animais.

Amava animais desde sua infância na fazenda.

O mais impressionante, assim que chegamos ao zoológico, era a sensibilidade de Virgil para o movimento. Ficou sobressaltado de início por um curioso movimento empertigado, que o fez sorrir — nunca vira nada parecido. “Que é isto?”, perguntou.

“Um emu.” Ele não estava muito seguro sobre o que era um emu, por isso pedimos que o descrevesse para nós. Sentiu dificuldade e a única coisa que pôde dizer é que era da mesma altura que Amy ela e o emu estavam lado a lado nesse momento —, mas que seus movimentos eram totalmente diferentes dos dela. Ele quis tocá-lo, apalpá-lo inteiro. Se o fizesse, pensou, o veria melhor. Mas tocar, infelizmente, não era permitido.

Sua atenção foi fisgada em seguida por um movimento saltitante nas proximidades, e ele imediatamente concluiu — ou melhor, presumiu — que devia ser um canguru. Seu olho acompanhou de perto os movimentos do canguru, mas não conseguiria descrevê-lo, ele disse, a menos que pudesse tocá-lo. A esta altura, já estávamos colocando em questão exatamente o que ele podia ver — e o que, efetivamente, queria dizer com “ver”.

Pareceu-nos que, no geral, se conseguia identificar um animal, era ou por seu movimento ou através de um único dado específico — assim, era possível identificar um canguru porque saltava, uma girafa pela altura, ou uma zebra por suas listras — mas não podia formar uma impressão de conjunto do animal. Também era preciso que o bicho estivesse definido com precisão contra um fundo; não pôde identificar os elefantes, a despeito das trombas, porque estavam a uma distância considerável, na frente de um fundo cinza-azulado.

Por fim, fomos à jaula do gorila; Virgil estava curioso em vê-lo. Não conseguiu enxergá-lo de todo enquanto o gorila permaneceu semi-escondido entre algumas árvores, e quando ele finalmente saiu para o espaço aberto Virgil pensou que, embora se movesse de uma maneira diferente, parecia igual a um homem grande. Felizmente, havia uma estátua de bronze de um gorila em tamanho natural na seção dos macacos, e dissemos a Virgil, que desejava ardentemente tocar em todos os animais, que podia, na falta de outra coisa, pelo menos examinar a estátua. Ao fazê-lo rápida e minuciosamente com as mãos, ganhou um ar de segurança que nunca havia mostrado ao examinar o que quer que fosse com os olhos. Ocorreu-me — talvez isso tenha ocorrido a todos nós nesse momento — o quanto tinha sido hábil e auto-suficiente como um cego, o tanto de naturalidade e facilidade com que havia experimentado o seu mundo com as mãos e o quanto estávamos agora, por assim dizer, forçando-o contra o que lhe era natural: exigindo que renunciasse a tudo o que lhe vinha com facilidade, que passasse a perceber o mundo de uma maneira inacreditavelmente difícil para ele, e estranha.

(Nota 10: Anteriormente, Virgil tinha detectado o som distante do rugido dos leões em sua jaula, ficou com os ouvidos ligados e virou-se de repente na direção deles. “Ouçam!”, ele disse. “São os leões — estão alimentando os leões.” Nós não tínhamos ouvido nada e, mesmo quando Virgil chamou nossa atenção, achamos o som muito fraco e não soubemos dizer de onde vinha. Estávamos impressionados pela qualidade da audição de Virgil, sua atenção, agudeza e orientação auditivas, o quanto era proficiente com a escuta. Tal agudeza e alta sensibilidade auditiva ocorrem em muitos cegos, mas sobretudo nos cegos de nascença ou de infância; parecem acompanhar a constante concentração da atenção, afetos e capacidades cognitivas nessas esferas e, com isso, um hiperdesenvolvimento dos sistemas auditivo-cognitivos do cérebro).

Seu rosto pareceu se iluminar com o entendimento enquanto tocava a estátua. “Não parece em nada com um homem”, murmurou. Uma vez examinada a estátua, ele abriu os olhos e virou-se para o verdadeiro gorila de pé à sua frente, dentro da jaula. E agora, de um jeito que teria sido impossível antes, descreveu a postura do macaco, a maneira como as juntas dos dedos tocavam o solo, as pequenas pernas arqueadas, os grandes caninos, a enorme ruga na cabeça, apontando para cada característica enquanto falava. Gregory escreve sobre um episódio maravilhoso com seu paciente S. B., que nutria um interesse de longa data por ferramentas e máquinas. Gregory o levou ao Museu de Ciência em Londres para ver a grande coleção: O episódio mais interessante foi sua reação ao admirável torno de corte em rosca mantido num compartimento especial de vidro. [...] Nós o levamos até o compartimento, que estava fechado, e lhe pedimos para nos dizer o que havia no interior. Ele foi totalmente incapaz de dizer qualquer coisa sobre o objeto, à exceção de que achava que a parte mais próxima era uma manivela. [...] Pedimos em seguida ao auxiliar do museu (como previamente combinado) que abrisse o compartimento, e S. B. pôde tocar o torno. O resultado foi surpreendente. [...] Ele correu com as mãos por sobre o torno, com os olhos fechados, apertados. Depois, afastou-se um pouco, abriu os olhos e disse: “Agora que o toquei, posso vê-lo”.

O mesmo aconteceu com Virgil e o gorila. Esse exemplo espetacular de como o tato podia tornar possível a visão explicava algo mais que me intrigara. Desde a operação, Virgil vinha comprando soldadinhos de brinquedo, carros, bichos e prédios célebres em miniatura — todo um mundo liliputiano — e passando horas com eles. Não era uma mera infantilidade ou espírito lúdico que o levaram a tais recreações. Tocando-os, ao mesmo tempo em que os olhava, podia forjar uma correlação crucial; podia preparar-se para ver o mundo real aprendendo antes a ver esse mundo de brinquedo. A disparidade de escala não importava, assim como não havia importado para S. B., que foi capaz de dizer a hora imediatamente num grande relógio de parede porque podia correlacioná-lo com o que conhecia pelo toque de seu relógio de bolso.

Fomos almoçar num restaurante de peixes e, enquanto comíamos, fiquei observando Virgil de tempos em tempos. Notei que começou a comer de maneira normal, como quem enxerga, cortando com precisão pedaços de tomate de sua salada. Em seguida, conforme continuava, sua mira foi piorando: seu garfo passou a errar os alvos e a pairar indeciso no ar. Por fim, incapaz de “ver”, ou compreender, o que estava em seu prato, abandonou os esforços e passou a usar as mãos para comer como antes, como um cego. Amy já havia me falado sobre essas recaídas, descrevendo-as no diário. Houve reversões parecidas, por exemplo, ao fazer a barba, começando com um espelho, pela visão, com uma concentração tensa. Em seguida, o movimento da lâmina se tornava mais lento, e ele começava a examinar incerto seu rosto no espelho ou tentava confirmar pelo toque o que via pela metade. Por fim, dava as costas ao espelho, ou fechava os olhos, ou apagava a luz, e terminava o trabalho pelo tato.

Que Virgil tivesse períodos de cansaço visual agudo em decorrência do esforço ou uso prolongado da vista não era de surpreender; todos nós passamos pelo mesmo se exigimos demais da nossa visão. Algo acontece, por exemplo, com o meu próprio sistema visual se passo três horas olhando direto para um eletroencefalograma: começo a perder coisas nas linhas e fico vendo garatujas ofuscantes em toda parte — nas paredes, no teto, em todo o campo visual —, e nesse momento tenho que parar e fazer outra coisa ou, o que é ainda melhor, ficar com os olhos fechados por uma hora. E o sistema visual de Virgil, comparado ao normal, devia ser, nesse estágio, extremamente instável.

Menos fáceis de entender, e mais alarmantes, talvez ameaçadores, eram os longos períodos de “turvação” — de visão ou conhecimento deteriorados —, por horas ou mesmo dias, que surgiam de repente, sem razões claras. Bob Wasserman ficou muito intrigado com as descrições que Virgil e Amy fizeram dessas flutuações; praticava a oftalmologia havia cerca de 25 anos, tendo operado muitas cataratas, mas nunca encontrara nada dessa espécie.

Depois do almoço, fomos todos ao consultório do Dr. Hamlin. Ele havia tirado fotografias detalhadas da retina logo após a cirurgia e Bob, examinando agora o olho (tanto por oftalmoscopia direta como indireta) e comparando-o com as fotografias, não via qualquer sinal de complicações pós-operatórias. (Um exame especial — a angiografia por fluoresceina — havia mostrado um edema macular cistóide, mas que não teria causado as súbitas flutuações tão impressionantes.) Já que não parecia haver uma causa local ou ocular suficiente para tais flutuações, Bob levantou a hipótese de que fossem conseqüência de um estado médico subjacente — ficamos impressionados com a má aparência de Virgil logo que o conhecemos — ou pudessem representar uma reação neural do sistema visual do cérebro a condições de sobrecarga sensória ou cognitiva. Não é um esforço para pessoas com a visão normal construir formas, contornos, objetos e cenas a partir de sensações puramente visuais; elas fazem essas construções visuais, um mundo visual, desde o nascimento e para tanto desenvolvem um vasto e desembaraçado aparato cognitivo. (Normalmente, metade do córtex cerebral é dedicado ao processamento visual.) Mas em Virgil essas capacidades cognitivas, subdesenvolvidas, eram rudimentares; as partes visuais-cognitivas de seu cérebro podiam facilmente ter sido esmagadas.

Os sistemas cerebrais, em todos os animais, podem responder a um estímulo esmagador, ou a um estímulo que ultrapassa um ponto critico, com um desligamento súbito.

(Nota 11: “Pavlov, falando dessas reações nos cães, chamou-as “inibição transmarginal em conseqüência de estímulo supramaximizado”, e viu tais desligamentos como defesas naturais).

Essas reações nada têm a ver com os indivíduos ou suas motivações. São estritamente locais e fisiológicas e podem ocorrer até mesmo em parcelas isoladas do córtex cerebral: são uma defesa biológica contra uma sobrecarga neural.

Todavia, os processos perceptivos-cognitivos, enquanto fisiológicos, também são pessoais — não se trata de um mundo que a pessoa percebe e constrói, mas de seu próprio mundo —, e levam a, estão ligados a, um eu perceptivo, com uma vontade, uma orientação e um estilo próprios. Esse eu perceptivo pode sucumbir com a paralisação de sistemas perceptivos, alterando a orientação e a própria identidade do indivíduo. Se isso acontece, a pessoa não apenas fica cega, mas deixa de se comportar como um ser que enxerga, sem apresentar nenhum registro de qualquer mudança em seu estado interior, esquecendo-se completamente da visão que teve, ou do fato de tê-la perdido. Esse estado de total cegueira psíquica (conhecido como síndrome de Anton) pode ocorrer se houver uma lesão extensa, como a de um derrame, nas partes visuais do cérebro. Mas também parecia acontecer, vez por outra, com Virgil. Nessas ocasiões, com efeito, ele podia falar de “ver” enquanto, na realidade, agia como um cego, sem qualquer tipo de comportamento visual. Éramos levados a nos perguntar se toda a base da percepção visual e da identidade de Virgil não seria ainda demasiado fraca, de modo que ele podia entrar e sair não apenas de uma cegueira física, mas de uma cegueira psíquica total, semelhante à síndrome de Anton.

Um tipo completamente diferente de suspensão — ou retração — visual parecia associado a situações de grande estresse ou conflito emocional. E para Virgil esse período foi de fato um dos mais estressantes por que passou: acabara de ser operado, acabara de se casar; o curso tranqüilo de sua vida de cego e de solteiro fora estilhaçado; estava sob uma enorme pressão de expectativa; e o próprio ato de ver era atordoante e exaustivo. Essas pressões aumentaram com a proximidade do dia do casamento, especialmente com a chegada de sua própria família à cidade; eles não apenas tinham sido contra a operação a princípio, mas agora insistiam que na realidade ele continuava cego. Tudo isso foi documentado por Amy em seu diário:

9 de outubro: Fomos à igreja para fazer a decoração do casamento. A visão de Virgil completamente turva. Incapaz de distinguir grande coisa. É como se a visão tivesse entrado em queda livre. Virgil age como “cego” de novo. [...] Tenho que guiá-lo por toda parte.

11 de outubro: A família de Virgil chega hoje. Sua vista parece ter saído de férias. [...] É como se tivesse voltado a ser cego! A família chegou. Não podiam acreditar que ele pudesse ver. Toda hora em que ele afirmava que podia ver alguma coisa, eles diziam: “Ah, você está chutando”. Trataram-no como se fosse totalmente cego — guiando-o por todo lado, dando-lhe tudo o que quisesse. [...] Estou muito nervosa, e a visão de Virgil desapareceu. [...] Queria ter certeza de que estamos fazendo a coisa certa.

12 de outubro: Dia do casamento. Virgil muito calmo [...] visão um pouco melhor, mas ainda turva. [...] Pôde me ver vindo pelo corredor, mas estava muito turva. [...] Belo casamento. Festa na casa de mamãe. Virgil cercado pela família. Ainda não aceitam a visão dele, ele não conseguia ver grande coisa. Despediu-se de sua família esta noite. A visão começou a melhorar assim que partiram.

Nesses episódios, Virgil foi tratado por sua família como um cego, tendo sua identidade visual negada ou solapada, e reagiu, de acordo, comportando-se como tal ou mesmo ficando cego — urna retração ou regressão extensiva de parte do seu ego a uma negação esmagadora e aniquilante da identidade. Tal regressão poderia ser vista como motivada, ainda que inconscientemente — uma inibição de base “funcional”. Assim, parecia haver duas formas distintas de “comportamento cego” ou “atuação cega” — a primeira, uma paralisação do processamento e da identidade visual, de base orgânica (um processo “de baixo para cima” ou distúrbio neuropsicológico, no vernáculo neurológico); a outra, uma paralisação ou inibição da identidade visual, de base funcional (um distúrbio “de cima para baixo” ou psiconeurótico), embora não menos real para ele. Dada a extrema debilidade orgânica de sua visão — a instabilidade de seus sistemas visuais e da identidade visual neste momento —, era muito difícil, por vezes, saber o que se passava, distinguir entre o “fisiológico” e o “psicológico”. Sua visão era tão marginal, tão próxima dos limites, que tanto uma sobrecarga neural como um conflito de identidade podiam empurrá-la para além deles.

(Nota 12: Quando existe uma fraqueza orgânica específica, o estresse emocional pode facilmente assumir uma forma física; assim, asmáticos têm crises de asma sob estresse, parkinsonianos ficam mais parkinsonianos, e uma pessoa como Virgil, com uma visão limítrofe, pode ser empurrado para além desses limites e ficar (temporariamente) cego. Era, por conseguinte, extremamente difícil por vezes distinguir nele o que era uma vulnerabilidade fisiológica e o que era um “comportamento motivado”).

Marius von Senden, repassando em seu livro clássico Space and sight (1932) todos os casos publicados num período de trezentos anos, concluiu que todo adulto que acaba de recobrar a visão passa, mais cedo ou mais tarde, por uma “crise de motivação" — e que nem todo paciente consegue superá-la. Fala de um paciente que se sentia tão ameaçado pela visão (o que significava ter de deixar o instituto de cegos e sua noiva lá) que ameaçou arrancar os próprios olhos; cita caso após caso de pacientes que “se comportam como cegos” ou “se recusam a ver” após uma operação, e outros que, temendo o que a visão pode acarretar, recusam a operação (um desses relatos, intitulado “L’aveugle qui refuse de voir”, foi publicado já em 1771). Tanto Gregory como Valvo estendem-se sobre os perigos emocionais de se impor um novo sentido a um cego — como, após uma exaltação inicial, pode seguir-se uma depressão devastadora (e até mesmo letal).

Foi exatamente essa depressão que tomou o paciente de Gregory: no hospital, S. B. mostrava grande excitação e progresso perceptivo. Mas a promessa não se cumpriu. Seis meses após a operação, Gregory relata, ficamos com uma forte impressão de que, para ele, sua visão era quase que inteiramente decepcionante. Ela lhe permitia fazer algumas coisas a mais [..] mas ficou claro que as oportunidades que lhe oferecia eram menores do que ele havia imaginado. [...] Em grande parte, continuava vivendo a vida de um cego, por vezes nem se dando ao trabalho de acender as luzes à noite. [...] Não se dava bem com os vizinhos [agora], que o achavam “esquisito”, e seus colegas de trabalho [antes tão respeitosos] pregavam peças nele e o provocavam por não conseguir ler.

Sua depressão aumentou, ele ficou doente e, dois anos após a operação, S. B. morreu. Tivera uma saúde perfeita, havia desfrutado da vida no passado; tinha apenas 54 anos.

Valvo nos fornece seis histórias exemplares, e uma profunda discussão, sobre os sentimentos e comportamento de pessoas cegas desde a infância quando confrontadas com a “dádiva” da visão e com a necessidade de renunciar a um mundo, a uma identidade, por outro.

(Nota 13: Em seu ironicamente intitulado Lettre sur les aveugles à l’usage de ceux qui voient (1749), o jovem Diderot mantém uma posição de relativismo cultural e epistemológico — que os cegos podem, a sua maneira, construir um mundo completo e suficiente, ter uma “identidade cega” completa e nenhum sentimento de incapacidade ou inadequação, e que o “problema” de sua cegueira e o desejo de curá-la, por conseguinte, é nosso, não deles. Ele também acha que a inteligência e a cultura podem fazer uma diferença fundamental quanto aquilo que os cegos podem entender; podem lhes dar, ao menos, um entendimento formal de muito do que não podem perceber diretamente. Ele é levado a essa conclusão especialmente ao ponderar sobre o caso de Nicholas Saunderson, o celebrado matemático e newtoniano cego, que morreu em 1740. Que Saunderson, que nunca viu a luz, pudesse concebê-la tão bem, pudesse ser (entre tantas coisas!) um professor de óptica, pudesse construir, a sua própria maneira, um quadro sublime do universo, é algo que excita imensamente Diderot).


Um dos maiores conflitos de Virgil, como em todos os que acabam de recobrar a visão, era a incômoda relação entre tato e visão — sem saber quando tocar ou olhar. Isso era óbvio em Virgil desde o dia da operação e muito evidente no dia em que o vimos, quando mal conseguia ficar com as mãos longe do brinquedo de formas para crianças, ansiava tocar os animais e desistiu de cortar sua comida. Seu vocabulário, toda a sua sensibilidade e sua imagem do mundo eram expressos em termos táteis — ou, pelo menos, não visuais. Ele era, ou tinha sido até a operação, uma pessoa inteiramente tátil.

Foi demonstrado que em surdos de nascença (especialmente se sempre se comunicaram pela linguagem dos signos) algumas das partes auditivas do cérebro são realocadas para uso visual.

Também ficou provado que em cegos que lêem em braille o dedo leitor tem uma representação excepcionalmente grande nas partes táteis do córtex cerebral. É de se suspeitar que as partes táteis (e auditivas) do córtex são alargadas nos cegos e podem até se expandir para o que normalmente é o córtex visual. O que sobra do córtex visual, sem o estímulo visual, pode ficar em grande parte sem se desenvolver. Parece provável que tal diferenciação do desenvolvimento cerebral acompanhe a perda de um sentido na infância e a intensificação compensatória de outros sentidos.

Se este fosse o caso de Virgil, que poderia acontecer se a função visual se tornasse subitamente possível, passasse a ser exigida? Podia-se esperar certamente algum aprendizado visual, algum desenvolvimento de novos caminhos nas partes visuais do cérebro. Nunca houve nenhuma documentação sobre o despertar da atividade no córtex visual de um adulto, e tínhamos a esperança de fazer tomografias de emissão de pósitrons especiais do córtex visual de Virgil para mostrar essa atividade enquanto ele aprendia a ver. Mas com que se pareceria esse aprendizado, essa ativação? Seria como um bebê aprendendo a ver pela primeira vez? (Era o que Amy pensava de início.) Mas a pessoa que começa a enxergar não está na mesma linha primordial, neurologicamente falando, dos bebês, cujos córtices cerebrais são eqüipotenciais — igualmente prontos para se adaptar a qualquer forma de percepção. O córtex de um adulto cego desde a infância, como Virgil, já se tornou altamente adaptado a percepções organizadas no tempo e não no espaço.

(Nota 14: O psicólogo canadense Donald Hebb tinha um interesse profundo pelo desenvolvimento da visão e apresentou muitas provas experimentais contra a idéia de que fosse, tanto em animais superiores como no homem, “inata”, como se pensava freqüentemente.
Ele era fascinado, compreensivelmente, pelo raro “experimento” (se me permitem tal termo) de restaurar a visão na vida adulta aos cegos congênitos, e faz longas considerações, em The organization of behaviour, sobre os casos coletados por Von Senden (o próprio Hebb não teve qualquer experiência pessoal com esse tipo de caso).

Estes forneceram uma abundante confirmação para sua tese de que para ver é preciso experiência e aprendizado; com efeito, ele achava que eram necessários, no homem, quinze anos de aprendizado para alcançar o pleno desenvolvimento da visão.

Mas um porém deve ser feito (também é feito por Gregory) em relação à comparação que Hebb faz entre o adulto que começa a ver e um bebê. É possível que o adulto que acaba de recobrar a visão passe de fato por alguns estágios de aprendizado e desenvolvimento da infância; mas um adulto não é, neurológica e psicologicamente, como um bebê — já está comprometido com uma vida de experiências perceptivas — e tais casos não podem, por conseguinte (como supõe Hebb), informar-nos sobre como é o mundo de um bebê, servir como uma janela ao de outra forma inacessível desenvolvimento de sua percepção).

Uma criança de colo apenas aprende. E uma tarefa enorme, sem fim, mas que não está carregada de um conflito sem solução. Um adulto que recobra a visão, em contrapartida, tem que fazer uma mudança radical de um modo seqüencial para outro visual-espacial e essa mudança desafia a experiência de toda uma vida. Gregory enfatiza isso, mostrando como conflito e crise são inevitáveis se “os hábitos e estratégias perceptivos de toda uma vida” têm que mudar. Tais conflitos são erguidos no âmago do próprio sistema nervoso, uma vez que o adulto cego de infância, que passou a vida adaptando e especializando seu cérebro, tem que pedir a este que inverta tudo agora. (Além disso, o cérebro de um adulto não tem mais a maleabilidade do de uma criança — esta é a razão por que se torna mais difícil aprender novas línguas ou habilidades com a idade. Mas, no caso de um homem previamente cego, aprender a ver não é como aprender outra língua; é, segundo Diderot, como aprender uma língua pela primeira vez.) Nos que acabam de ganhar a visão, aprender a ver exige uma mudança radical no funcionamento neurológico e, com isso, uma mudança radical no funcionamento psicológico, no eu, na identidade. A mudança pode ser experimentada literalmente em termos de vida e morte.

Valvo cita um de seus pacientes que diz: “É preciso morrer como uma pessoa que vê para poder renascer como um cego”, e a recíproca é igualmente verdadeira: é preciso morrer como um cego para renascer como uma pessoa que vê. E o ínterim, o limbo — “entre dois mundos, um morto,/ O outro impotente a nascer” —, que é tão terrível. Embora a cegueira possa a princípio ser uma terrível perda e privação, isso pode atenuar-se com o passar do tempo, já que se dá uma profunda adaptação, ou reorientação, pela qual o cego reconstitui e se reapropria do mundo em termos não visuais. Ela se torna então um estado diferente, uma forma diferente de ser, com suas próprias sensibilidades, coerência e sentimentos. John Hull a chama de “cegueira profunda” e a vê como “uma das ordens do ser humano”.

(Nota 15: “Se a cegueira tem uma positividade própria, é uma das ordens do ser humano, o mesmo (ou ainda mais) deve ser dito em relação á surdez, que não apenas compreende um aumento das capacidades visuais (e, em geral, espaciais), mas toda uma comunidade de surdos-mudos, com sua própria linguagem visual-gestual (signos) e cultura. Problemas parecidos com os de Virgil podem ser enfrentados por surdos de nascença, ou de tenra infância, submetidos a implantes da cóclea. O som para eles não produz, a principio, qualquer associação ou significado — por isso, sentem-se, ao menos de início, num mundo de caos auditivo, ou agnosia. Mas além desses problemas cognitivos existem também problemas de identidade; em certo sentido, essas pessoas precisam morrer como surdos para renascer como quem ouve. Potencialmente, isso é muito mais grave e tem implicações de ramificação social e cultural, uma vez que a surdez pode não ser apenas uma identidade pessoal, mas compartilhada lingüística, comunitária e culturalmente. Essa questões bastante complexas são debatidas por Harlan Lane em The mask of benevolence: disabling the deaf communhty).

No dia 31 de Outubro, a catarata do olho esquerdo de Virgil foi removida, revelando uma retina, e uma acuidade, semelhante à do direito. Foi uma grande decepção, já que havia esperança de que este olho pudesse estar bem melhor que o outro — o suficiente para fazer uma diferença crucial em sua visão. Sua vista de fato melhorou um pouco: conseguia fixar melhor os objetos, os movimentos dos olhos à procura das coisas tornaram-se menos freqüentes e estendeu-se seu campo visual.

Agora com os dois olhos em funcionamento, Virgil voltou ao trabalho, mas passou a achar, cada vez mais, que havia outro lado da visão, que muito dela era atordoante e parte absolutamente chocante. Tinha trabalhado contente na ACM por trinta anos, ele dizia, e pensava conhecer todos os corpos de seus clientes. Agora ficava espantado ao ver os corpos e as peles que antes conhecera apenas pelo toque; ficava estupefato com a gama de cores de pele e ligeiramente enojado com manchas e “nódoas” em peles que suas mãos haviam sentido como perfeitamente lisas.

(Nota 16: Gregory observa em relação a S. B.: “Também achou feias algumas coisas que amava (incluindo sua mulher e a si mesmo!) e ficava com freqüência chateado com os defeitos e imperfeições do mundo visível”.

Sentia um alívio, ao fazer massagens, quando fechava os olhos. Continuou melhorando, visualmente, nas semanas seguintes, em especial quando ficava livre para determinar seu próprio ritmo. Fez tudo para viver a vida de um homem com visão, mas também ficou mais atormentado nesse período. Expressava ocasionalmente o temor de ter que jogar a bengala fora e sair, atravessar as ruas, só com a visão; e, certa vez, falou do medo de que “tivessem a expectativa” de que ele viesse a dirigir e conseguisse um trabalho inteiramente “baseado na visão”. Este foi, portanto, um tempo de muita luta e sucessos reais — mas alcançados, sentia-se, a um custo psicológico, um custo de profundo esforço e cisões interiores.

Numa de suas saídas, na semana anterior ao Natal, ele e Amy foram a um balet. Virgil gostou de O quebra-nozes: sempre adorara música e agora, pela primeira vez, também via alguma coisa.

“Pude ver as pessoas saltando sobre o palco. Mas não dava para ver a roupa que usavam”, disse.

Pensou que gostaria de ver um jogo de beisebol ao vivo e ficou esperando a abertura da temporada na primavera.

O Natal foi uma data particularmente festiva e importante — o primeiro Natal após seu casamento, o primeiro com visão — e ele voltou, com Amy, à fazenda da família no Kentucky. Viu a mãe pela primeira vez em mais de quarenta anos — mal tinha conseguido vê-la, ou qualquer outra coisa, na época do casamento — e a achou “realmente bonita”. Viu novamente a velha casa da fazenda, as cercas, o córrego no pasto, que também não via desde criança; nunca havia deixado de acalentá-los na imaginação. Algumas de suas visões haviam sido muito decepcionantes, mas não a da casa e da família — foi puro júbilo.

Não menos importante foi a mudança na atitude da família em relação a ele. “Parecia mais alerta”, disse sua irmã. “Caminhava, andava pela casa, sem apalpar as paredes — levantava-se e ia.” Ela sentiu que houvera “uma grande diferença” desde que havia sido operado pela primeira vez, e a mãe e o resto da família acharam o mesmo.

Telefonei-lhes na véspera do Natal e falei com sua mãe, sua irmã e os outros. Convidaram-me para me juntar a eles, e eu gostaria de ter podido ir, porque parecia um momento alegre e positivo para todos eles. A oposição inicial da família à visão de Virgil (e talvez também a Amy, por ter insistido nisso) e a descrença deles no fato de que pudesse realmente enxergar foi algo que ele internalizou, algo que podia literalmente aniquilar sua visão. Agora que a família tinha se “convertido”, era de se esperar que um dos principais bloqueios psicológicos se dissolvesse. O Natal foi o climax, mas também a resolução, de um ano extraordinário.

O que aconteceria, fiquei pensando, no próximo ano? O que ele poderia esperar, na melhor das hipóteses? Quanto de um mundo visual, de uma vida visual, ainda o esperava? Não tínhamos, francamente, nenhuma certeza nesse ponto. Ainda que as histórias de tantos pacientes fossem soturnas e assustadoras, alguns, pelo menos, superaram o pior de suas dificuldades para sair com uma nova visão relativamente não conflitante.

Valvo, normalmente cauteloso ao expressar-se, deixa-se levai um pouco ao descrever alguns dos resultados mais felizes de seus pacientes: Uma vez que nossos pacientes adquirem modelos visuais, e conseguem trabalhar com eles de forma autônoma, parecem experimentar uma grande alegria no aprendizado visual [...] um renascimento da personalidade. [...] Começam a pensar em áreas totalmente novas da experiência.

“Um renascimento da personalidade” — era justamente o que Amy queria para Virgil. Era difícil, para nós, imaginarmos tal renascimento nele, já que se mostrava tão fleumático, tão assentado em suas maneiras. E ainda assim, a despeito de uma quantidade de problemas — retinianos, corticais, psicológicos, possivelmente médicos —, tinha se saído de certa forma muito bem, mostrando um aumento constante em sua capacidade de apreender o mundo visual. Com sua motivação predominantemente positiva, e o óbvio prazer e vantagens que podia tirar do ato de ver, parecia não haver razão para que não progredisse ainda mais. Não poderia nunca esperar uma vista perfeita, mas certamente uma vida radicalmente ampliada pela visão.

A catástrofe, quando veio, foi muito repentina. No dia 8 de Fevereiro, recebi um telefonema de Amy: Virgil desfalecera e fora levado, cinza e letárgico, para o hospital. Tinha uma pneumonia lobar, uma consolidação extensa de um dos pulmões, e estava na UTI, com oxigênio e antibióticos na veia.

Os primeiros antibióticos usados não surtiram efeito: ele piorou; seu estado ficou crítico; e por alguns dias oscilou entre a vida e a morte. Depois de três semanas, a infecção foi finalmente dominada e o pulmão começou a reexpandir. Mas Virgil continuou seriamente doente, já que, embora a pneumonia se dissipasse, deixou-o com uma deficiência respiratória — quase uma paralisia do centro respiratório do cérebro, que o impossibilitava de responder adequadamente aos níveis de oxigênio e dióxido de carbono no sangue. Os níveis de oxigênio no sangue começaram a cair — abaixo da metade do normal. E o nível de dióxido de carbono começou a subir — até quase três vezes o normal. Precisava constantemente de oxigênio, mas só podiam lhe dar um pouco, temendo que seu centro respiratório combalido ainda ficasse pior. Com seu cérebro privado de oxigênio e intoxicado pelo dióxido de carbono, a consciência de Virgil flutuava e se apagava, e nos piores dias (quando o oxigênio em seu sangue estava mais baixo e o dióxido de carbono mais alto) não podia ver nada: ficava completamente cego.

Muita coisa contribuiu para a continuidade dessa crise respiratória: os próprios pulmões de Virgil estavam compactos e fibrosados; estava com uma bronquite avançada e enfisema; não tinha movimento do diafragma de um dos lados, em conseqúência da poliomielite na infância; e, para culminar, estava extremamente obeso — o suficiente para causar uma síndrome de Pickwick (cunhada a partir do menino gordo e sonolento, Joe, em As aventuras do sr. Pickwick). Nela, há uma séria depressão respiratória, impossibilitando a oxigenação completa do sangue, associada a uma crise do centro respiratório do cérebro.

Virgil provavelmente já vinha ficando doente havia alguns anos; vinha engordando desde 1985. Mas entre seu casamento e o Natal ganhou mais dezoito quilos — chegando, em duas semanas, a 127 quilos —, em parte por retenção de líquidos em decorrência da deficiência cardíaca, e em parte por não parar de comer, o que costumava fazer sob estresse.

Agora tinha que passar três semanas no hospital, com o oxigênio no sangue ainda despencando a níveis assustadoramente baixos, apesar de estar recebendo oxigênio — e a cada vez que o nivel ficava muito baixo ele se tornava letárgico e totalmente cego. Amy sabia no momento em que abria a porta que tipo de dia era aquele — em que nível estava o oxigênio no sangue —, dependendo se ele usava os olhos, olhava em volta, ou se ficava atrapalhado, apalpando as coisas, “agindo como um cego”. (Nós nos perguntamos, em retrospectiva, se as estranhas flutuações apresentadas por sua visão desde praticamente o dia da operação não teriam também sido causadas, ao menos em parte, por flutuações de oxigênio no sangue, com conseqüente hipoxia retiniana ou cerebral. Provavelmente, Virgil tivera uma leve síndrome de Pickwick por anos, e podia ter chegado perto de uma crise respiratória e de uma hipoxia mesmo antes de sua enfermidade aguda.) Havia um outro estado, intermediário, que Amy achou muito intrigante; em tais momentos, ele dizia não ver nada de nada, mas ia na direção dos objetos, evitava obstáculos, e se comportava como se enxergasse. Amy não conseguia entender esse estado singular, em que ele manifestamente reagia aos objetos, podia localizá-los, estava vendo, e contudo negava toda consciência da visão. Esse estado — chamado de visão implícita, inconsciente, ou de visão cega — ocorre quando as partes visuais do córtex cerebral estão desativadas (como pode ocorrer em caso de falta de oxigênio, por exemplo), mas os centros visuais na região subcortical permanecem intatos. Os sinais visuais são percebidos e recebem respostas adequadas, mas nada dessa percepção chega à consciência.

Por fim, Virgil pôde deixar o hospital e voltar para casa, mas como um aleijado respiratório. Foi ligado a um torpedo de oxigênio e não podia nem se mover de sua cadeira sem ele. Parecia improvável a esta altura que se recuperasse algum dia o bastante para sair e voltar a trabalhar, e a ACM sentiu que era preciso acabar com seu trabalho. Alguns meses depois, foi forçado a deixar a casa onde tinha vivido como funcionário da ACM por mais de vinte anos. Essa era a situação naquele verão: Virgil perdera não apenas a saúde, mas o emprego e a casa também.

Em Outubro, entretanto, ele já estava se sentindo melhor e podia largar o oxigênio por uma hora ou duas a cada vez. Não tinha ficado inteiramente claro para mim, ao falar com Virgil e Amy, o que finalmente acontecera com sua visão depois de todos esses meses. Amy disse que esta havia “quase desaparecido”, mas que agora sentia que ela estava voltando conforme ele melhorava. Quando telefonei para o centro de reabilitação visual onde Virgil fora avaliado, contaram-me outra história. Virgil, pelo que me disseram, parecia ter perdido toda a visão que recuperara no ano anterior, sobrando-lhe apenas alguns traços. Kathy, sua terapeuta, achava que ele via as cores, mas pouco além disso — e às vezes cores sem objetos: assim, podia ver uma auréola ou névoa rosa em torno de um frasco de Pepto-Bismol sem enxergar claramente o próprio frasco.

(Nota 17: Semir Zeki observou em alguns casos de anoxia cerebral que as áreas do córtex visual dedicadas á construção da cor podem ser relativamente preservadas, de forma que o paciente pode ver cores e nada mais — nenhuma forma, nenhum contorno, nenhum sentido de objetos, qualquer que seja).

Essa percepção da cor, ela disse, era a única visão constante; em relação ao resto, ele se mostrava quase cego, não via objetos, tateava, parecia visualmente perdido. Estava de novo com os velhos movimentos dos olhos, cegos e ao acaso. E, no entanto, às vezes tinha, espontaneamente, sem mais nem menos, momentos repentinos e surpreendentes de visão, em que via até os menores objetos. Mas em seguida essas percepções desapareciam tão repentinamente quanto haviam aparecido, e normalmente ele não conseguia recuperá-las. Na prática, ela disse, Virgil agora estava cego.

Fiquei chocado e perplexo quando Kathy me disse isso. Estes fenômenos eram radicalmente diferentes de tudo o que ele havia mostrado antes: o que estava acontecendo agora com seus olhos e seu cérebro? À distância, eu não podia saber ao certo o que estava acontecendo, especialmente porque Amy, do seu lado, sustentava que a visão de Virgil estava melhorando.

Com efeito, ficava furiosa quando alguém dizia que Virgil era cego, e retrucava que na realidade o centro de reabilitação visual estava “ensinando-o a ser cego”. Assim sendo, em fevereiro de 1993, um ano após o início de sua doença devastadora, trouxemos Virgil e Amy para Nova York para nos encontrarmos mais uma vez e submetê-lo a alguns exames fisiológicos especializados das funções retinianas e cerebrais.

Assim que me deparei com Virgil no portão de desembarque do aeroporto de LaGuardia, pude ver por mim mesmo que tudo tinha dado terrivelmente errado. Estava agora quase vinte quilos mais gordo do que quando o conheci em Oklahoma. Carregava um torpedo de oxigênio amarrado num dos ombros. Tateava, seus olhos erravam, parecia totalmente cego. Amy o guiava, com a mão sob seu cotovelo, onde quer que fossem. E todavia, enquanto atravessávamos a ponte da rua 59 em direção à cidade, por vezes ele notava algo — uma luz na ponte —, não numa tentativa de adivinhar, mas vendo-a com a maior precisão. Mas não conseguia nunca manter a visão ou recuperá-la, e portanto ficava visualmente perdido.

Quando o examinamos em meu consultório — primeiro usando grandes alvos coloridos, e em seguida amplos movimentos e lanternas —, ele não enxergou nada. Parecia completamente cego — mais cego do que havia sido antes de suas operações, porque na época pelo menos podia detectar a luz coerentemente, mesmo através das cataratas, a direção da luz e a sombra de mãos movendo-se diante de si. Agora não conseguia detectar nada de nada, parecia não ter mais nenhum receptor fotossensível: era como se suas retinas tivessem acabado. Ainda que não completamente — o que era mais estranho. Vez por outra conseguia ver algo com precisão: uma vez, ele viu, descreveu e pegou uma banana; em duas ocasiões, foi capaz de acompanhar o movimento casual de uma barra de luz com suas mãos numa tela de computador; e por vezes tentava alcançar objetos, ou “adivinhava-os” corretamente, mesmo se continuasse dizendo que não via “nada” nessas ocasiões — a visão cega primeiro observada no hospital.

Ficamos consternados com sua deficiência quase uniforme, e ele estava afundando num estado desmoralizado, derrotado —já era hora de interrompermos os testes e fazermos uma pausa para almoço. Quando lhe passamos uma cumbuca de frutas, e ele as tocou com dedos ágeis, habilidosos e sensíveis, seu rosto se iluminou, e ele recobrou a animação. Deu-nos, enquanto manuseava as frutas, uma admirável descrição tátil, mencionando o aspecto encerado, lustroso da casca da ameixa, a penugem suave do pêssego e a maciez das nectarinas (“como as bochechas de um bebê”), e a casca áspera e enrugada das laranjas. Pesava as frutas na mão, falava do peso e da consistência, das sementes e dos caroços; e depois, levando-as ao nariz, de seus diferentes cheiros. Sua apreciação tátil (e olfativa) parecia muito mais apurada que a nossa. Incluímos uma pêra de cera extremamente verosímil entre as frutas de verdade; com sua forma e coloração realistas, tinha enganado completamente pessoas com visão. Virgil não caiu nem por um minuto: bastou tocá-la para explodir numa gargalhada. “É uma vela”, disse imediatamente, de certa maneira perplexo. “Com a forma de um sino ou de uma pêra.” Podia ter sido de fato, nas palavras de Von Senden, “um exilado da realidade espacial”, mas sentia-se profundamente em casa no mundo do tato, no tempo.

Mas se seu sentido do tato tinha sido perfeitamente preservado, sobraram, o que era evidente, apenas alguns lampejos de sua retina — centelhas raras, momentâneas, de retinas que agora pareciam 99% mortas. Bob Wasserman, que não via Virgil desde nossa visita a Oklahoma, também ficou aterrado pela degradação da vista e quis reexaminar as retinas. Ao fazê-lo, constatou que estavam exatamente como antes — manchadas, com áreas de maior e menor pigmentação. Não havia qualquer evidência de uma nova doença. Ainda que o funcionamento mesmo das áreas preservadas da retina tenha caído para zero. Os eletrorretinogramas, concebidos para registrar a atividade elétrica da retina quando estimulada pela luz, eram completamente planos, e os potenciais visuais evocados, concebidos para mostrar a atividade nas partes visuais do cérebro, também eram inexistentes — não havia mais nada, eletricamente, acontecendo em ambas as retinas ou no cérebro que pudesse ser registrado (pode ser que tenha havido centelhas de atividade raras, momentâneas, mas se houve não conseguimos captá-las).

Essa inatividade não podia ser atribuida à doença original, retinite, havia muito inativa. Algo mais tinha surgido no ano anterior e extinguido, efetivamente, o que lhe restava do funcionamento da retina.

Lembramos como Virgil tinha se queixado constantemente de clarões, mesmo em dias relativamente pouco luminosos, nublados — como a luz parecia por vezes ofuscá-lo, de forma que precisava dos óculos mais escuros. Seria possível (como sugeriu meu amigo Kevin Halligan) que, com a remoção de suas cataratas — que talvez tivessem protegido suas frágeis retinas por décadas —, a luz natural tenha se mostrado fatal, inutilizando suas retinas? Dizem que pacientes com outros problemas de retina, como degeneração macular, podem ser intolerantes em demasia à luz — não apenas ultravioleta, mas de todos os comprimentos de onda — e que esta pode acelerar a degeneração de suas retinas. Seria isso o que tinha acontecido com Virgil? Era uma possibilidade. Será que devíamos tê-lo previsto e racionado de alguma maneira a vista de Virgil, ou a luz ambiente?

Outra possibilidade — mais verosímil — dizia respeito à hipoxia contínua de Virgil, ao fato de não ter oxigenado o sangue adequadamente por um ano. Tivemos indícios muito claros de sua visão aumentando e decaindo no hospital conforme os gases no sangue aumentavam ou diminuíam. Será que a indigência repetida e continuada de oxigênio em suas retinas (e talvez também nas áreas visuais do córtex) foi o fator que as matou? Cogitou-se, a esta altura, se aumentando a oxigenação do sangue para 100% (que teria requerido uma prolongada respiração artificial com oxigênio puro) não poderíamos restaurar parte do funcionamento retiniano e cerebral. Mas foi decidido que esse procedimento seria muito arriscado, já que podia causar uma depressão permanente ou de longo prazo do centro respiratório do cérebro.

Esta é, portanto, a história de Virgil, a história da recuperação “milagrosa” da visão por um homem cego, uma história basicamente semelhante à do jovem paciente de Cheselden, em 1728, e de um punhado de outros nos últimos três séculos — mas com uma estranha e irônica reviravolta final.

O paciente de Gregory, tão bem adaptado à cegueira antes da operação, primeiro ficou encantado com a visão, mas logo esbarrou em esforços e dificuldades intoleráveis, vendo a “dádiva” ser transformada em maldição, ficando profundamente deprimido, para morrer pouco depois. Quase todos os primeiros pacientes, de fato, após a euforia inicial, foram esmagados pelas imensas dificuldades de adaptação a um novo sentido, embora uns poucos, como salienta Valvo, tenham se adaptado e se saído bem. Será que Virgil poderia ter superado essas dificuldades e se adaptado à visão quando tantos outros sucumbiram no meio do caminho?

Nunca saberemos, já que o curso da adaptação — e, de fato, da vida como a conhecera — foi subitamente atravessado por uma trapaça gratuita da sorte: uma doença que, de um só golpe, roubou-lhe trabalho, casa, saúde e independência, deixando-o seriamente comprometido, incapaz de sustentar-se por conta própria. Para Amy, que tanto insistira na operação, e que investira tão apaixonadamente na visão de Virgil, era um milagre perdido, uma calamidade. Virgil, por sua vez, mantém-se filosófico: “Essas coisas acontecem”. Mas foi estraçalhado por esse golpe, e deu vazão a ataques de raiva: raiva de sua incapacidade e de sua doença; raiva de uma promessa e um sonho despedaçados; e subjacente a isso, e mais fundamental que tudo, uma raiva que foi sendo alimentada nele quase desde o início — raiva de ter sido empurrado para uma batalha que não podia nem abandonar, nem vencer.

No começo, houve certamente espanto, admiração e por vezes júbilo. Houve também, é claro, uma grande coragem. Foi uma aventura, uma excursão para dentro de um novo mundo, do tipo que é dado a poucos. Mas então surgiram os problemas, os conflitos, de ver mas não ver, de não ser capaz de criar um mundo visual, e ao mesmo tempo ser obrigado a abrir mão do seu próprio mundo. Viu-se entre dois mundos, exilado em ambos — um tormento ao qual não parecia ser possível escapar. Mas aí, paradoxalmente, veio uma libertação, na forma de uma segunda e derradeira cegueira — uma cegueira que ele recebeu como uma dádiva. Agora, por fim, a Virgil é permitido não ver, escapar do mundo ofuscante e atordoante da visão e do espaço, para retornar ao seu próprio e verdadeiro ser, o mundo íntimo e concentrado de todos os outros sentidos que havia sido seu lar por quase cinqüenta anos.

FIM
 

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in UM ANTROPÓLOGO EM MARTE - Sete histórias paradoxais
O caso do pintor daltónico |  O último hippie | Uma vida de cirurgião | Ver e não ver | A paisagem dos seus sonhos | Prodígios | Um antropólogo em Marte |
Autor: OLIVER SACKS
Tradução: BERNARDO CARVALHO
Edição: COMPANHIA DAS LETRAS

Título original: An Anthropologist on Mars - Seven paradoxical tales by Oliver Sacks, 1995
 


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[28.Set.2011]
Publicado por MJA