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 Sobre a Deficiência Visual

 

Uma Rapariga Simples

Arthur Miller

-excerto-

Uma rapariga simples - Arthur Miller (capa)


Nessa segunda-feira de manhã, Janice acordou com frio, o que era estranho: parecia que um vento lhe soprava por cima à medida que despertava de um sono profundo, lembrando-se de que era Junho e que na véspera tinha estado calor em Central Park. E abrindo os olhos virada para ele, como de costume, viu que a cara dele estava estranhamente pálida. Apesar de nela ainda persistir o que ela chamava sorriso do sono e da habitual expressão de felicidade nas comissuras da boca. Mas parecia mais pesado em cima do colchão. Percebeu imediatamente e, com horror, levantou a mão e tocou-lhe na bochecha. Era o fim de uma longa história. O primeiro pensamento, como uma queixa contra um erro, foi: "Mas ele só tem sessenta e oito anos".

Medo, sem lágrimas, pelo menos exteriores. Só um golpe na parte de trás do pescoço. A vida dava punhadas.

― Ah! ― lamentou-se em voz alta e juntando as mãos levou-as à boca. ― Ah! ― Inclinou-se para ele, o cabelo sedoso tocou-lhe na cara. Mas ele não estava lá. ― Ah, Charles! ― Uma certa raiva foi dispersada pela razão. E pela surpresa.

A surpresa permaneceu: toda a vida dele tinha sido qualquer coisa, tinha-lhe dado este homem, este homem que nunca a tinha visto. Ali estendido, era terrível.

Oh, se ela pudesse falar-lhe mais uma vez, perguntar-lhe ou dizer-lhe... o quê? A coisa que tinha no coração, a surpresa. Que ele a tinha amado e que nunca a tinha visto durante os catorze anos de vida em comum. Apesar de tudo, havia sempre qualquer coisa dentro dela que tentava deslocar-se para a linha de visão dele, como se com um relance de uma fracção de segundo os olhos dele pudessem acordar do seu sono eterno.

Que fazer agora? Oh, querido Charles, o que é que eu faço com tudo o resto?

Havia qualquer coisa por acabar. Mas suponho, disse ela a si mesma, que nunca se espera nada quando as luzes se acendem no fim do filme, deixando-nos estrábicos no passeio.

Mais uma vez mexeu-se para lhe tocar, mas ele já lá não estava, já não era dela, já não era nada, e ela retirou a mão e sentou-se com uma perna pendurada para fora da cama.

Ela tinha odiado a sua própria cara quando era criança mas sabia que tinha classe e, pelo menos, uma vez por dia fixava-se nisso e no seu corpo robusto e no seu longo pescoço elegante. E claro, na sua ironia. Era e queria ser uma snobe. Sabia como ultrapassar um desprezo, andar com um bamboleio das ancas quando caminhava, apesar de não ter ilusões quanto ao aspecto repuxado das suas bochechas, como se a sua pele tivesse sido repuxada por algum, e ter o lábio superior alongado. Um bocado como Disraeli, pensou ela uma vez, quando viu a fotografia dele num texto do liceu. E uma testa demasiado alta (recusava-se a ignorar qualquer coisa que fosse negativa). Pensou se teria sido tirada do útero e esticada, ou se a sua mãe teria sido assustada por uma girafa. Quando ia a festas por mais de uma vez tinha reparado que os homens que estavam atrás dela eram apanhados de surpresa quando ela se voltava para eles. Mas tinha aprendido a sacudir o cabelo liso, brilhante e castanho-claro e a pôr aquela expressão de ironia defensiva, perdão silencioso para o desaparecimento inevitável deles. Tinha um charme vigoroso que era quase ― mas claro, não totalmente suficiente. Não desde a infância mas só a partir de quando a mãe lhe tinha mostrado um anúncio da Ivory na Cosmopolitan e exclamado amorosa e ternamente:

― Isto é que é beleza! ― como se olhar para o anúncio fixamente a pudesse transformar numa dessas raparigas.

Então sentiu-se culpada. No entanto, aos quinze anos acreditava que entre as ancas e o peito ela era tão fantástica como Betty Grable, ou quase. E tinha um leve ócio provocador de que os homens pareciam gostar quando se interessavam por bocas.

Aos dezasseis anos a Tia Ida, que tinha vindo do Egipto fazer uma visita, tinha dito:

― Tens um ar egípcio, as mulheres egípcias são quentes.

O facto de se recordar desse disparate fazia com que se risse e ficasse bem-disposta mesmo quando já tinha entrado nos sessenta, depois de Charles ter morrido.

Deitada na cama num domingo de manhã, evocava algumas memórias, ouvindo prazenteiramente o som abafado de Nova Iorque.  [...]

*

Uma tarde a porta rangente do elevador abriu-se e ela viu um homem elegante, na casa dos quarenta ― ou talvez já nos cinquenta e poucos anos ― com uma bengala numa mão e uma mala na outra. Com um andar estranho e muito direito entrou no elevador e Janice só percebeu que era cego quando ele se aproximou muito dela e depois se virou para a porta levantando um dos pés em vez de se virar simplesmente. Tinha um corte da barba no queixo.

― Vamos para baixo, não vamos?

― Sim, para baixo. ― Sentiu um impulso repentino. Uma liberdade próxima, uma libertação quando ele, por instantes, olhou cegamente para o rosto dela.

Na entrada, dirigiu-se directamente para a porta envidraçada que dava para a rua, atravessando o chão de mosaico. Ela esperou por ele e empurrou as portas para que ele saísse.

― Posso ajudá-lo?

 ― Obrigado, muito obrigado.

Saiu para a rua e dirigiu-se directamente para a Broadway. Caminhou ao lado dele.

― Vai apanhar o metro? Eu também vou se quiser que o acompanhe.

― Ah, seria óptimo. Obrigado apesar de eu conseguir ir sozinho.

Caminhou ao lado dele que, surpreendentemente, mantinha uma boa passada. Que vida tinha nas pálpebras agitadas! Era como se acompanhasse um homem que via mas a liberdade que ela sentia ao acompanhá-lo fazia com que lhe viessem lágrimas de alívio e gratidão aos olhos. Percebeu que tinha colocado toda a sua emoção na voz que subitamente lhe saía da boca com a alegre inocência de uma menina.

A voz dele era rouca e monocórdica como se a usasse pouco.

― Vive há muito tempo no hotel?

― Desde Março. Desde que me divorciei ― acrescentou sem embaraço. ― E você?

― Oh, já lá vivo faz agora cinco anos. As paredes do décimo segundo andar são insonorizadas, sabia?

― Toca algum instrumento?

― Piano. Trabalhei para a Decca, no departamento de música clássica, e ouço muitos discos em casa.

― Que interessante. ― Ela sentiu o prazer dele durante esta conversa sem tensão. À medida que caminhavam conseguia aperceber-se da gratidão que ele sentia para com ela. Estava só. Provavelmente as pessoas evitavam-no ou comportavam-se demasiado formalmente, ou qualquer coisa desse género. Por instantes deu largas ao seu instinto, nunca se tendo sentido tão segura de si própria, tão livre.

Ao cimo das escadas do metropolitano, pegou-lhe gentilmente no braço como se ele fosse um pássaro que ela quisesse amparar. Ele não opôs resistência e na cancela giratória insistiu em pagar o bilhete dela com as moedas que já tinha prontas na mão. Não fazia ideia para onde ele ia ou para onde é que ela estava a fingir que ia.

― Como é que sabe onde deve sair?

― Conto as paragens.

― Claro, que estupidez.

― Vou para a 57.

― É para onde eu vou.

― Trabalha lá?

― Na verdade, ainda me estou a instalar... Mas estou à procura de qualquer coisa.

― Bom, não lhe vai ser difícil, parece-me muito nova.

― Na verdade, eu não ia para lado nenhum, só queria ajudá-lo.

― A sério?

― Sim.

― Como se chama?

― Janice Sessions. E você?

― Charles Bucman.

Gostaria de lhe perguntar se ele era casado mas, obviamente, não podia sê-lo, não devia sê-lo, havia qualquer coisa nele profundamente organizada e não devia estar preso a nada nem a ninguém.

Na rua ele parou na curva que ia para a parte de cima da cidade.

― Vou para o Athletic Club na 59.

― Posso acompanhá-lo?

― Claro. Faço uma hora de ginástica antes de ir para o escritório.

― Parece estar bastante em forma.

― Você também devia fazer ginástica. Apesar de achar que você também está em forma.

― Como é que consegue saber?

― Pela maneira como pousa os pés.

― A sério!

 ― Sim, eles dizem muito. Dê-me a sua mão.

Rapidamente ela deu-lhe a mão esquerda que ele pegou com a direita. Fez pressão com o indicador e o dedo médio na palma da mão dela e ela deixou a mão ir.

― Você está em bastante boa forma, mas devia fazer natação porque o seu fôlego não é lá grande coisa.

Estava encantada, envolvida por o que ele estranhamente sabia acerca dela.

― Se calhar até vou fazer ― Ela detestava fazer exercício mas desejava começar assim que pudesse. Debaixo do toldo cinzento do Athletic Club ele parou e virou-se para ela. Pela primeira vez pôde olhar para as pálpebras agitadas dele mais do que uns instantes e olhar directamente para os seus olhos castanhos. Sentiu que se ia engasgar com tanta gratidão porque ele estava a sorrir vagamente como se gostasse de a observar tão intimamente num sítio público. Percebeu que nunca estivera tão certa desde que nascera.

― Estou no número 1214 se quiser vir tomar um copo comigo.

― Adorava. ― Riu por aceitar tão depressa o convite. ― Tenho de lhe dizer ― disse ela, ouvindo-se a si própria com o terror do embaraço, mas resolveu não desanimar antes que o desejo explodisse nela ― que me fez imensamente feliz.

― Feliz? Porquê?

Ele começava a corar. Ficou admirada que o embaraço pudesse aparecer no rosto quase esfíngico dele.

― Não sei porquê. O facto é que me fez feliz. Sinto que me conhece melhor que ninguém. Desculpe se estou a ser idiota.

― Não... não. Por favor, venha ter comigo logo à noite.

― Venho, venho.

*

Ela sentiu que se podia aproximar e beijar-lhe os lábios e que ele não se importaria porque ela era bonita. Ou era a mão dela que era bonita.

― Podes apagar a luz, se quiseres.

― Não sei. Se calhar deixo-a acesa.

Ele despiu os calções e procurou a cama com a canela e deitou-se ao lado dela enquanto ela lhe olhava para o rosto cego. A mão dele descobriu o corpo belo e feliz dela. Era um toque puro, pura verdade para lá de qualquer discurso. Tudo o que ela era mexia-se por baixo da mão dele, como água a derreter... Ela sentia-se liberta de toda a sua vida e beijou-o ternamente, rezando para que existisse um deus que a livrasse de cometer qualquer erro em relação a ele, que ele pusesse as mãos onde ela desejava que ele as pusesse, que o controlasse e que a escravizasse aos seus mais pequenos movimentos.

Num intervalo ele percorreu o rosto dela com os dedos e ela suspendeu a respiração quando sentiu a respiração dele suspender-se ao sentir-lhe a curva do nariz, o lábio superior e a testa, pressionando-lhe levemente as maçãs do rosto, a descoberta ― ela tinha a certeza ― de que lhe faltavam distinção e que estavam enterrados num rosto redondo, apesar de contraído.

― Não sou bonita ― perguntou mais do que afirmou.

― É sim, nos sítios que me interessam.

― Consegues ver como é que sou?

― Muito bem.

― A sério que sou?

― Mas que diferença é que isso pode fazer para mim?

Rolou para cima dela pondo a boca na dela. Depois percorreu-lhe o rosto com os lábios. O prazer dele brotou novamente nela.

― Vou morrer aqui, o meu coração vai parar aqui mesmo debaixo de ti, porque é tudo o que eu preciso e não aguento.

― Gosto do teu cicio.

― Gostas? Não parece infantil?

― Parece, é por isso que gosto. De que cor são os teus cabelos?

― Consegues imaginar as cores?

― Acho que consigo imaginar o preto, são pretos?

― Não, são cor de castanha, vagamente avermelhados e muito lisos. Dão-me quase pelos ombros. Tenho a cabeça grande e a minha boca também é para o grande e um bocado proeminente. Mas tenho um andar bonito, talvez até muito bonito na opinião de alguns, gosto de andar de uma maneira provocante.

― Tens um rabo lindo.

― Pois, esqueci-me de falar nele.

― Adorei pegar-lhe.

― Fico contente. ― Depois acrescentou: ― Na verdade estou muda de contentamento.

― E como é que me achas?

― Acho que és um homem lindo. Tens pele morena e cabelo castanho com risca ao lado, e um queixo muito bem desenhado. Acho que a tua cara é oval, do género silencioso e que transmite confiança. És mais alto do que eu uns dez centímetros e és magro, sem ser escanzelado. Acho que és espectacular!

Ele riu à socapa. Ela pegou-lhe no pénis.

― E isto é perfeito. ― Ele riu e beijou-a ao de leve. Depois adormeceu de imediato. Deixou-se estar deitada ao lado dele não ousando mexer se para o não acordar novamente para a vida e para os seus perigos.

*

Nos finais dos anos setenta, quando vivia na Village, leu nos jornais que o Crosby Hotel estava a ser demolido para lá construírem um complexo de apartamentos. Nessa altura estava a trabalhar para uma organização de direitos civis, controlando a violação destes quer na costa Leste quer na Oeste. Decidiu tirar uma hora a mais no intervalo do almoço e foi até à parte alta da cidade para ver, pela uma última vez, o velho hotel antes que ele desaparecesse. Agora estava na casa dos sessenta. Charles tinha morrido durante o sono há pouco mais de um ano. Saiu do metropolitano e desceu pela rua lateral e verificou que o andar de cima, o décimo segundo, já tinha desaparecido. Encostou-se a um prédio e ficou a observar os homens a demolirem as paredes de tijolo com uma facilidade surpreendente. Por tanto, era apenas a gravidade que sustentava os prédios! Conseguia ver o interior, as várias cores com que tinham pintado as paredes, o cuidado que tinham posto na escolha dos tons! A cada bocado de alvenaria que caía formavam-se vagalhões de nuvens de pó no ar. Todas as gerações levam bocados da cidade, como as formigas arrastando pequenos galhos. Brevemente chegariam ao seu antigo quarto. Uma estupefacção vazia invadia-a lentamente. Dos sessenta e um anos de vida tinha tido catorze anos bem passados. Nada mau.

Lembrou-se das dúzias de recitais e de concertos, dos jantares em restaurantes, do total amor e confiança que Charles tinha por ela, que se tinha transformado nos olhos dele. De certo modo, ele tinha-a virado do avesso de tal modo que ela olhava para o mundo em vez de suster a respiração quando o mundo olhava para ela e a desaprovava. Aproximou-se das portas da frente do hotel e ficou do outro lado da rua, sentindo o cheiro fantasmagórico de terra fria que um edifício em ruínas tem, tentando recordar se daquela primeira vez em que tinha saído com ele para a rua e depois entrado no metropolitano, o último dia da sua despresunção. Tinha comprado um perfume novo que a envolvia no meio do ar poeirento e que lhe agradava.

Regressou à Broadway e passou pelos lugares de fruta, pelos restos deixados pelos acidentes de automóveis às esquinas, pelos restos de massa de pizza que os citadinos deitavam para o chão, pelas cascas e caroços de fruta, por uma bota perdida e por uma gravata podre,  por uma mulher sentada no passeio a pentear o cabelo, pelos rapazes negros empolgados a jogar basketball ruidosamente, pela implosão das causas e desígnios que conhecera desse passado a desaparecer rapidamente e que já não tinha forças para relembrar Charles de braço dado com ela aqui, caminhando imperturbável de chapéu muito direito na cabeça e de lenço escarlate ao pescoço, e assobiando baixinho mas convictamente o tema principal de Harold in Italy.

― Oh Morte, oh Morte, ― disse quase em voz alta, esperando à esquina que a luz mudasse, e maravilhando-se com a sorte que tivera ao viver em beleza.
 

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Fotografia de Arthur MillerArthur Miller (1915 — 2005)
Foi um dos maiores dramaturgos norte-americanos de sempre. A sua peça, de 1949, "Morte de um Caixeiro Viajante" (Death of a Salesman) ganhou o Prémio Pulitzer e três Prémios Tony, bem como o prémio do Círculo de Críticos de Teatro de Nova Iorque. Foi a primeira peça a conseguir os três prémios simultaneamente. Ao longo da sua obra, faz uma crítica contundente à sociedade de seu país. Destaca-se também por protestar contra a falta de liberdade de expressão e a perseguição a comunistas no período do McCarthyismo.

Obras mais importantes:
• All My Sons (1947)
• Death of a Salesman (1949)
• The Crucible (1953)
• A View from the Bridge (1955)
• After the Fall (1964)
• Broken Glass (1994)
• Resurrection Blues (2002)
• Finishing the Picture (2004)

Em 1956, comparece perante o "Comité parlamentar das actividades anti-Americanas", após ter sido denunciado por Elia Kazan como tendo participado em reuniões do Partido Comunista. No mesmo ano casa-se com Marilyn Monroe. A 31 de Maio de 1957, Miller é considerado culpado de desobediência ao Congresso por recusar-se a revelar os nomes dos membros de um círculo literário suspeito de pertencer ao Partido Comunista. A sua condenação foi anulada pelo Tribunal Federal de Apelação a 8 de Agosto de 1958. No mesmo ano reune e publica as suas peças na colectânea Collected Plays. Morre em 2005 de insuficiência cardíaca crónica, com 89 anos, em Roxbury, Connecticut. [in Wikipedia]

 

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Uma Rapariga Simples
[excerto]
Arthur Miller, 1992
Novela
Titulo original: Homely Girl (EUA) / Plain Girl (GB)
Tradução: Carla Fonseca da Costa
Diário de Notícias: Biblioteca de Verão
Lisboa, 2000

fonte do texto integral: SCRIBD


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[20.Nov.2012]
Publicado por MJA