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 Sobre a Deficiência Visual


Uma Lição de Vida

Doraídes Alves Pereira

Blind Girl - Beatrice Offor - óleo sobre tela -1906/1917


« A história de uma menina carente e corajosa, que se transformou numa mulher independente e que soube superar a sua deficiência visual fazendo de sua vida um mar de realizações. »

 

SUMÁRIO:

CAP. 01: O nascimento
CAP. 02: O bebê
CAP. 03: A última gravidez
CAP. 04: A tragédia
CAP. 05: A descoberta
CAP. 06: A proposta
CAP. 07: A mudança
CAP. 08: Os amiguinhos
CAP. 09: O maldito vício
CAP. 10: A escola
CAP. 11: O desenvolvimento dos sentidos
CAP. 12: A decepção
CAP. 13: A volta à escola
CAP. 14: A alfabetização
CAP. 15: Uma infância difícil
CAP. 16: Os brinquedos e as roupas
CAP. 17: Os estudos
CAP. 18: A classe comum
CAP. 19: O adeus
CAP. 20: As dificuldades
CAP. 21: A salvação
CAP. 22: Um novo problema
CAP. 23: A aprendizagem dos sinais matemáticos
CAP. 24: A aceitação
CAP. 25: A ajuda
CAP. 26: Tudo acontece na hora certa
CAP. 27: A leitura
CAP. 28: A Primeira Comunhão
CAP. 29: O diploma
CAP. 30: A chuva
CAP. 31: Dona Odete
CAP. 32: O entrosamento
CAP. 33: A desconfiança
CAP. 34: O aniversário
CAP. 35: A ginástica
CAP. 36: A amizade
CAP. 37: Minha família
CAP. 38: Essa é minha família

CAP. 39: Os passeios
CAP. 40: O curso de datilografia
CAP. 41: O movimento jovem
CAP. 42: A palestrante CAP. 43: A máquina
CAP. 44: A surpresa
CAP. 45: A formatura
CAP. 46: A aposentadoria
CAP. 47: A opção
CAP. 48: A despedida
CAP. 49: O novo colégio
CAP. 50: Angélica
CAP. 51: A homenagem
CAP. 52: O estágio
CAP. 53: A anemia
CAP. 54: O cursinho
CAP. 55: A professora
CAP. 56: A inscrição
CAP. 57: A resposta
CAP. 58: A tempestade
CAP. 59: O vestibular
CAP. 60: A matrícula
CAP. 61: A bolsa de estudos
CAP. 62: A decisão
CAP. 63: A arrumação
CAP. 64: A triste despedida
CAP. 65: O Instituto
CAP. 66: Os membros do Instituto
CAP. 67: Como eu me senti no Instituto
CAP. 68: As dificuldades CAP. 69: A notícia
CAP. 70: A faculdade
CAP. 71: O desânimo
CAP. 72: O gravador
CAP. 73: As férias
CAP. 74: A volta
CAP. 75: O último domingo
CAP. 76: A morte
CAP. 77: A nova vida
CAP. 78: O primeiro Natal sem minha mãe
CAP. 79: A mudança de Toninho
CAP. 80: Os novos amigos
CAP. 81: O Banco de Olhos
CAP. 82: Os três irmãos
CAP. 83: O maior troféu
CAP. 84: A procura
CAP. 85: Os testes
CAP. 86: A admissão
CAP. 87: Uma nova experiência
CAP. 88: O incidente
CAP. 89: A nova casa
CAP. 90: As experiências da vida CAP. 91: Cecília
CAP. 92: Um raio de sol
CAP. 93: Os obstáculos
CAP. 94: O afastamento
CAP. 95: A verdadeira felicidade
CAP. 96: A nossa primeira viagem CAP. 97: Outros passeios
CAP. 98: A excursão
CAP. 99: Um grande sonho
CAP. 100: Artista uma vez na vida
CAP. 101: Os elogios e as críticas
CAP. 102: A má notícia durante os últimos preparativos
CAP. 103: Fortaleza: Um sonho que se transformou em realidade
CAP. 104: São Paulo, um terrível engano
CAP. 105: Um pressentimento horrível
CAP. 106: A bondade
CAP. 107: A maior desilusão
CAP. 108: O vazio
CAP. 109: De onde veio esta inspiração?
CAP. 110: A importância de se dar e receber

 

PREFÁCIO

Como essa vida é engraçada! Não é que fui encontrar Dora no momento em que eu mais precisava. O que você lerá a seguir chama-se VIDA. Os personagens são, ao mesmo tempo, protagonistas e antagonistas: a Coragem, a Perseverança, a Liberdade e a Felicidade estão de mãos dadas com o Medo, a Angústia, o Preconceito e a Tristeza. Lendo, percebi, que tenho um pouco de Dora e que guardo dentro de mim uma deficiente visual, que busca o Olhar para frente e sempre! Que Deus possa abrir a nossa Janela da Alma para entendermos que só a Fraternidade pode ajudar um mundo tão cheio de deficiências.
Luciana F. Ruiz, uma recente amiga.
Jul/05


CAPÍTULO 1
O nascimento

Na fazenda Invernada, perto da cidade de Mirassolândia, interior de São Paulo, vivia uma família composta por dez pessoas: o casal Laura e Lormino e os oito filhos. São eles: Idalina, Antônia, Sebastiana, Aparecido, Isabel, Maria Aparecida, Lourdevina e José.

Essa família levava a vida normalmente, feliz na medida do possível. Os maiores trabalhavam para ajudar no sustento da casa e os pequenos estudavam.

Dona Laura tornou a engravidar e não teve uma gravidez muito tranqüila. O senhor Lormino gostava de beber e, quando estava bêbado, não deixava de aprontar as suas confusões.

Dona Laura vivia em sobressaltos e se preocupava demais com o marido. O senhor Lormino, quando não estava bêbado, era um homem bom. Ele tinha um coração de ouro; mas, quando bebia, sai de baixo, era confusão na certa. Apesar de ter esse vício, era um homem honesto e justo.

No dia 8 de abril de 1958, Dona Laura começou a sentir as dores do parto. Foram tomadas todas as providências e eu nasci.

Todos me rodearam e festejaram meu nascimento.

Minha mãe, muito observadora, começou a me examinar. Olhava-me por todo corpo para ver se eu era perfeita. Foi quando ela olhou profundamente nos meus olhos. Do seu peito saiu um soluço absurdo e dos seus olhos brotaram lágrimas sentidas.

Meu pai e meus irmãos não entenderam o motivo daquelas lágrimas e a interrogaram. Ela dizia entre soluços e lágrimas que o meu olho não era perfeito, que era fundo.

O meu pai dizia que era uma bobagem, que ela estava muito emocionada e fazia tudo para distrai-la ou tirar aquele pensamento de sua cabeça. Foi em vão.

Meu pai se apaixonou por mim. Não queria acreditar que eu fosse cega. Eles tinham escolhido dois nomes para mim. Cláudia ou Daniela. No cartório, meu pai mudou de idéia porque queria que o meu nome fosse único. Ele me registrou com o nome de Doraídes. Minha mãe não gostou da idéia; porém, acabou concordando.

Naquele tempo, não existia luz elétrica nas fazendas e as pessoas usavam lamparina. Quando a lamparina estava no quarto, longe de mim, eu permanecia com os olhos abertos e só os fechava quando a claridade estava bem próxima.

Os meus três primeiros dias de vida pareceram três séculos para minha mãe. Foram três longos dias de muito sofrimento e dor.

Meu pai viu a situação inconsolável de minha mãe e decidiu me levar ao médico para tranquilizá-la. Lá o médico constatou que a minha retina era atrofiada. Para minha mãe, o pesar só aumentou. O coração de minha mãe não se enganou. Para meu pai foi uma surpresa muito grande. Naquele momento, constataram realmente que eu era cega.


CAPÍTULO 2
O bebê

Levaram-me para casa, todos tristes e chateados, sem saberem o que fazer ou como lidar com um ser tão pequeno, indefeso e, além de tudo, com problemas. Meus pais, que estavam acostumados com os filhos que enxergam, se depararam repentinamente com meu surgimento e pensaram que isso tumultuaria aquela família, que já não era um mar de rosas.

O meu pai tomou todas as providências necessárias. Levou-me ao oftalmologista e a decepção foi grande, pois descobriram que meu caso era irreversível. A retina era atrofiada, o nervo ótico muito fraco e, infelizmente, não existia cirurgia para esse tipo de problema. Foram, então, feitos alguns exames para descobrirem a causa da minha cegueira. Constatou-se que o problema era genético; porém, não hereditário. Os meus pais eram primos de primeiro grau, primo irmãos, os meus avôs eram irmãos, então, ocorreu o choque de genes. Nesse caso, os meus irmãos tiveram mais sorte do que eu.

As coisas começaram a normalizar. A minha família foi se acostumando com o meu problema. O choque inicial tinha passado, embora eles ainda sofressem.

Eu comecei a viver no seio daquela família numerosa. Do meu batizado nada sei. Disseram-me apenas que meu padrinho chamava-se Modesto.

No terceiro mês de idade, eu não quis mais mamar em minha mãe. Nessa época, eu ainda não pegava na mamadeira e era o maior dilema para me alimentarem. Minha mãe, com muito carinho, conseguiu resolver a situação: dava-me leite às colheradas.

Quando completei seis meses e comecei a comer papinha, foi uma alegria grande para meus pais. Realmente, eu fui um bebê que inspirou cuidados e, felizmente, aquela fase terrível passou.


CAPÍTULO 3
A última gravidez

Quando eu tinha um ano e sete meses, minha mãe engravidou novamente. Ela sofreu demais com a ansiedade, a angústia e a espera daquele novo bebê. Perguntava-se: Será que ele também viria com problemas?

Foram nove meses terríveis para passar. Até que, finalmente, chegou o tão esperado dia. Na data de 7 de agosto de 1960, nasceu o meu irmão, que todos, posteriormente, o chamariam de Toninho. Infelizmente, ele nasceu com o mesmo problema que eu. Minha mãe pensou que não ia suportar aquela situação, mas Deus lhe deu força e mais uma vez ela venceu.

Os mesmos procedimentos, os mesmos exames, os mesmos médicos, os mesmos resultados, as mesmas respostas, as mesmas lágrimas e as mesmas tristezas e decepções. Porém, dessa vez, com mais maturidade e experiência.

O tempo passava.

Eu e meu irmão éramos os xodós daquela família humilde. Eles não sabiam o que fazer para nos agradar e acredito que até nos prejudicou com tanto mimo e dengo.


CAPÍTULO 4
A tragédia

Eu era uma garotinha de três anos e meu irmão com oito meses. Minha família já tinha acostumado a conviver com o nosso problema.

O meu pai bebia demais e judiava da minha mãe e de meus irmãos. Nos seus momentos de embriaguez e fúria, os únicos que escapavam eram Toninho e eu. Até que um dia chegou o momento fatal.

Certa noite, quando meu pai chegou de uma festa, não queria entrar em casa por mais que minha mãe insistisse. Ela chamava e ele não respondia. Ela estranhou aquela atitude e foi lá fora ver o que estava acontecendo. Após sentir um cheiro muito forte, sua surpresa foi grande. Naquele momento, minha mãe encontrou meu pai com um lenço embebido em veneno e desfalecido no chão.

Ela chorava e gritava desesperadamente. Queria e precisava fazer algo urgentemente para que meu pai sobrevivesse.

Não demorou muito para que minha casa ficasse cheia de gente. O último desejo de meu pai foi ver Toninho e eu pela última vez. Naquele instante, pediu perdão a minha mãe e disse que cometera aquela fatalidade porque era necessário.

Assim, meu pai morreu, deixando minha mãe com dez filhos para criar e, ainda por cima, dois caçulas deficientes.

Foi um baque difícil para minha mãe. Ela ficou arrasada e não sabia como tomar as rédeas da situação.

Felizmente, minha mãe era uma mulher de fibra, honesta, corajosa e trabalhadora.

A princípio, minha mãe achou que não ia suportar aquele golpe. Imaginava: Se a situação estava ruim com meu pai, sem ele como seria?

Novamente, Deus se mostrou muito bom e minha mãe superou. Meu pai tinha morrido, mas a vida continuava para nós.

Minha mãe e meus irmãos foram trabalhar na lavoura. No começo, ela levava todos da casa, incluindo Toninho e eu. Minha mãe tinha medo de nos deixar em casa, então nos colocava em baixo das árvores.

Nós chorávamos muito, pois os insetos nos picavam. Para não nos ver sofrer, passou a nos deixar em casa com minha irmã Isa.


CAPÍTULO 5
A descoberta

Quando meu pai ainda era vivo, certa vez, chamou minha mãe para uma conversa. Nessa conversa, minha mãe percebeu que ele tinha planos suicidas.

Meu pai disse a minha mãe que tinha umas economias e que estavam emprestadas ao senhor Frederico, um amigo da família. Ele não se preocupou em colocar o dinheiro no banco, pois o senhor Frederico era um amigo de inteira confiança. Ele deixou bem claro que aquele dinheiro era para cuidar de mim e de Toninho. Disse, também, que os outros filhos, graças a Deus, tinham saúde perfeita e poderiam trabalhar para se manter.

Minha mãe, sabendo desse dinheiro se tranqüilizou.

Depois da morte de meu pai, meu irmão Cido, o mais velho dos homens, começou a sair quase todos os dias. Minha mãe implorava para que ele ficasse com a família, mas não adiantava. Ele pouco se importava com as súplicas dela.

Certo dia, o senhor Frederico procurou minha mãe. Estava acontecendo um fato grave e, certamente, ela teria que saber.

Ele disse que Cido procurou por ele dizendo que estavam precisando do dinheiro. Ele, sem nada perceber, foi dando o dinheiro aos poucos para o meu irmão.

Cido, simplesmente, gastou o dinheiro com mulheres e bebidas. Assim, todo o dinheiro que meu pai nos deixou acabou. Além disso, o meu irmão estava com muitas dívidas na cidade.

Minha mãe ficou muito nervosa e acabou indo parar no hospital. Ali começava o nosso drama, pois os médicos descobriram que minha mãe tinha problemas cardíacos. Ela ficou vários dias no hospital muito doente.

Quando minha mãe recebeu alta, estava com a cabeça cheia de problemas: dívidas para pagar, o sustento da família e a compra dos remédios caríssimos para sobreviver. Dessa vez, também, Deus não nos abandonou.

Naquele ano, a roça produziu bastante e, com muito trabalho, garra e coragem, conseguimos sair daquele sufoco.


CAPÍTULO 6
A proposta

Apesar dos problemas e tropeços, as coisas corriam normalmente para nós. Os donos da fazenda adoravam nossa família e faziam o que podiam para nos ajudar. Eles nos davam pedaços de terra para plantarmos e outras coisas mais. A roça estava linda, quase tudo já estava produzindo.

Um dia, recebemos a visita da minha avó Etelvina e do meu tio João. Eles estavam com um sério problema. Minha avó tinha uma casa alugada na cidade de Bálsamo. O inquilino não pagava o aluguel há muito tempo e, além disso, estava estragando a casa. Ela procurou a Justiça e disseram a ela que uma ação de despejo só seria possível se ela ou algum filho se mudasse para a casa.

Eles resolveram nos procurar e nos disseram que a cidade seria melhor para nós. Lá, ela nos disse, meus irmãos poderiam arrumar um emprego melhor, eu e Toninho poderíamos estudar e, com certeza, a nossa vida ia melhorar muito.

Minha mãe hesitou. Para isso teria que ir ao Fórum, levar seus dois filhos deficientes e dizer que estava precisando da casa. Ela teria que abandonar a roça já plantada e deixar aquela vida calma da fazenda para ir para a cidade. Em seus pensamentos, ela jamais queria me usar ou usar o meu irmão Toninho para conseguir alguma coisa. Não que tivéssemos pedido a ela, pois nós éramos muito crianças e não entendíamos dessas coisas. Ela se preocupava com o nosso futuro, com nossos estudos e escola para deficientes, naquele tempo, era algo muito escasso. Na fazenda jamais teríamos a chance de estudar.

Ela fez esse favor a minha avó, mas foi por nós. Poderíamos morar na casa e não pagaríamos nada. Tudo foi resolvido. E ficou claro que minha avó ganhou essa parada.


CAPÍTULO 7
A mudança

Os preparativos para a mudança foram todos providenciados. Minha mãe decidiu o que ia ou não ia levar e ficamos tristes, pois nós teríamos que deixar os brinquedos velhos. O caminhão precisava ter espaço livre para levar os objetos mais importantes. Tivemos que nos conformar.

Quando nos mudamos para Bálsamo, as minhas irmãs Idalina, Sebastiana e Antônia já tinham se casado. Assim, restavam sete filhos com minha mãe.

A casa era grande. Entre os cômodos, havia uma sala, uma cozinha, três quartos e o banheiro. No quarto da frente dormiam Cido e José. No quarto do meio dormiam minha mãe, Toninho e eu. No fundo ficariam Isa, Cidinha e Vina.

O quintal era enorme. Havia laranjeiras, mangueiras, mexeriqueiras, jabuticabeiras e alguns pés de café plantados.

Os meus irmãos trataram de arrumar emprego e minha mãe começou a lavar e passar roupa para fora. Era muito difícil, pois não possuíamos luz elétrica em casa. Nem água encanada. Para lavar roupas, minha mãe tinha de puxar água do poço e passá-las com ferro à brasa. Eu e Toninho ficávamos em casa. Naquele tempo, não havia classe especial para nós.


CAPÍTULO 8
Os amiguinhos

Não demorou muito para que fizéssemos amizade com muitas pessoas. Os vizinhos eram maravilhosos e solidários e as crianças adoravam brincar conosco.

Eu ficava muito triste quando meu irmão José e as minhas amiguinhas iam para a escola. Eu tinha uma vontade louca de estudar. Minha mãe tentava me distrair e eu ficava brincando com as crianças menores, que ainda não tinham idade para irem à escola.

Quando José ou minhas amigas iam fazer tarefa, eu ficava perto prestando atenção. Com isso, aprendi conjugar verbos e decorei todas as tabuadas sem entrar na escola.


CAPÍTULO 9
O maldito vício

Na cidade, tornou-se mais fácil para meu irmão Cido beber à vontade. Ele judiava demais da minha mãe. Quando ele chegava em casa bêbado, tornava-se insuportável. Xingava, gritava, esbravejava e jogava pratos de comida na parede. Era mal-criado e totalmente agressivo. Todos sofríamos muito, principalmente minha mãe.

Minhas irmãs Isa e Cidinha iam trabalhar no sítio e ficavam na casa da minha irmã Idalina. Nos finais de semana, elas iam para casa e levavam o dinheiro para minha mãe.

Nem sempre elas ficavam no sítio. Somente quando havia muito serviço para ser feito. Então, elas iam dar uma mão para o meu cunhado Mário.

Ai de nós se não existissem Isa e Cidinha! Quando Cido cismava, saía de casa na sexta-feira e voltava domingo à noite, muito sem graça e sem um tostão no bolso.


CAPÍTULO 10
A escola

Moramos um ano em Bálsamo, sem que aparecesse uma chance para eu e Toninho estudarmos. Um dia, o prefeito foi a minha casa e nos disse que ia abrir uma classe especial para deficientes visuais. Eu fiquei feliz, pois o meu maior sonho era estudar.

Eu e Toninho começamos freqüentar a escola. A professora se chamava Cecília.

Cecília era uma mulher enérgica e exigente. Possuía muita autoridade na voz, mas era boa de coração e muito competente.

O primeiro dia em que fomos à escola foi terrível. Queríamos que a nossa mãe ficasse conosco. Evidentemente, ela não pôde ficar, pois tinha muito trabalho a fazer em casa. E, mesmo que quisesse e pudesse, Dona Cecília não deixaria. Ela precisava ficar a sós com os alunos, sem a interferência de terceiros.

Foi difícil ficar com aquela mulher estranha e brava.

Minha mãe, com o coração partido e os olhos cheios de lágrimas, nos deixou e foi embora.

O primeiro dia foi só um reconhecimento e Dona Cecília conversou muito conosco. Mal respondíamos, pois estávamos com medo dela.

Na hora do recreio também foi horrível. Ela nos levou para o pátio. Eu fiquei atordoada no meio de tanto barulho. As crianças pulavam, cantavam, gritavam, corriam e brincavam alegremente. Eu estava triste, queria muito poder brincar com elas e fazer tudo que tivesse direito, mas eu estava tímida, com medo e até com vontade de chorar.

De repente, as crianças perceberam a nossa presença, ficaram quietas e nos rodearam conversando baixinho. Nós éramos motivos de curiosidade para elas. Eu estava acostumada com muitas crianças, mas as minhas vizinhas, as que me conheciam e estavam acostumadas a brincar comigo.

Jamais pensei que um dia eu pudesse ficar no meio de mais de mil crianças.

Algumas conversaram comigo timidamente e as maiores queriam me pegar no colo, como se eu fosse uma boneca de brinquedo. A partir daquele momento, algumas crianças começaram a me chamar de Dora. Adorei porque não gostava do meu nome. Posteriormente, quando aprendei a escrever, observava que a maioria das pessoas não colocava o acento no i. Naquela época não sabia, mas agora sei que há também outras pessoas que se chamam Doraídes.

Felizmente, tocou o sinal para voltarmos para a classe.

Eu já estava para chorar.


CAPÍTULO 11
O desenvolvimento dos sentidos

Logo no início, minha mãe e Dona Cecília começaram a ter divergências. Eu e Toninho éramos muito mimados e para que conseguisse alguma coisa, Dona Cecília tinha que ser enérgica até mesmo com minha mãe. Justo ela, que sempre nos tratou como dois bibelôs de cristal e que não podiam ser quebrados.

Era difícil para ela ver uma estranha interferir na nossa educação. Mesmo sendo a professora, ela não aceitava. Minha mãe era doente e se preocupava com o nosso futuro; por isso, aos poucos, ela foi aceitando.

Todos os dias, a hora de ir para a escola era a hora mais difícil. Nós não queríamos ir. Quantas vezes ela nos levou à força, nos deixando chorando e voltou chorando também para casa.

Eu não tinha mais vontade de ir para a escola. Queria caderno, lápis, livros e canetas. Queria os mesmos materiais que as minhas amigas tinham e nada desse material chegar.

Os materiais que eu recebia eu os achava estranhos. Achava que eram brinquedos e isso me entristecia muito. Dona Cecília estava trabalhando conosco o desenvolvimento dos sentidos.

Nas aulas, ela nos dava diversas fichas: grossas, finas, ásperas e lisas. Havia duas fichas de cada tipo e tínhamos que separar todas de duas em duas. Havia folhas com desenho em alto-relevo, curvas, retas e várias espécies de desenhos. Percorríamos, com os dedos, todos os desenhos para desenvolvermos o tato.

Ela nos dava uma caixa com vários vidros. Dentro dos vidros havia: sal, açúcar, álcool, pó de café e muitas coisas das quais eu não me lembro mais. Separávamos os vidros que possuíam a mesma substância. Assim, desenvolvíamos o olfato e o paladar.

Para mim, aquilo era uma brincadeira. Eu não percebia que estava aprendendo muito.

Ela nos dava várias figuras para encaixarmos nos devidos lugares. Dava-nos o ligue-ligue e muitos outros tipos de encaixe. Com massa de modelar fazíamos bolinhas e outros tipos de desenhos.

Havia, também, muitas contas de vários tamanhos e formatos. Ela nos dava um cordão com uma agulha na ponta para que passássemos as contas por dentro da agulha. A princípio, podíamos colocar à vontade, as que quiséssemos. Eu, obviamente, preferia as grandes. Era mais fácil de colocar. Quando estávamos bem craques, ela nos dava exercícios diferentes intercalados às contas. Assim, estávamos desenvolvendo a coordenação motora.

Tudo era maravilhoso, mas eu não percebia ainda essa maravilha, essa graça que estava recebendo dela e de Deus.


CAPÍTULO 12
A decepção

Dona Cecília chegou a me dar a reglete, a punção e o cubarítimo. Eu ficava colocando os dadinhos no cubarítimo e me entristecia. Eu tinha uma vontade enorme de aprender a ler e a escrever nos cadernos. Achava que estava perdendo tempo com tantas brincadeiras; mas, não dizia nada a ela. Eu tinha medo.

Eu colocava a folha na reglete e fazia pontinhos sem saber o que significava. Quando ia brincar com minhas amigas, tinha vergonha de contar o que aprendia na escola. Tinha medo de que elas rissem de mim.

Eu achava um absurdo minha mãe largar os serviços para me levar para brincar na escola.

Já estava me acostumando com aqueles exercícios, quando Dona Cecília chamou minha mãe para uma conversa séria.

Dona Cecília disse que iria embora e não podia mais continuar dando aula para nós. Disse os motivos, mas eu não me lembro muito bem. Era muito criança para entender essas coisas.

Quando ela foi embora, eu fiquei muito triste e decepcionada. Senti falta dela, da escola e dos amiguinhos. Senti muito a ausência daquela mulher. Senti muito a ausência daquela pessoa que me tratava de uma forma diferente por ser brava e enérgica. Senti saudade daquela mulher que não me mimava. Eu me senti como um peixe fora d’água. Realmente, muito perdida. Percebi, tarde demais, que, aquela mulher, da qual eu não gostava, era maravilhosa e não antipática. Pude perceber que ela estava me preparando para vida e eu não aceitava. Arrependi-me e pensei que poderia ter aproveitado mais. Poderia ter aprendido mais com ela e, talvez, nunca mais tivesse essa chance.

Com isso, aprendi que devemos aproveitar os momentos bons que a vida nos oferece. Precisamos dar valor às pessoas que querem o nosso bem. De nada adianta chorar o leite derramado.


CAPÍTULO 13
A volta à escola

Passou mais um ano sem que voltássemos à escola. Já tínhamos perdido a esperança. Da primeira vez, ficamos quatro meses e Dona Cecília teve que ir embora. Eu esperava a volta à escola como a mãe espera o bebê. Eu tinha muita ansiedade e vontade de voltar a estudar.

Um dia, quando menos esperávamos, Dona Cecília nos procurou. Disse-nos que havia outra professora que iria dar aula e que ela gostaria muito que voltássemos à escola.

Fomos conhecer a nova professora. Ela se chamava Arisla Claudete.

Dona Claudete era uma mulher doce. Tinha a voz mansa, calma e suave. Era gentil, simpática e possuía uma humanidade fora do comum. Eu a adorei. No início, pensei que ela fosse uma fada, uma santa, que tinha caído do céu para nos ajudar.

Ela contava lindas estórias que me deixavam deslumbrada. Estórias que eu sempre tive vontade de ler, mas nunca pude, não era ainda alfabetizada. Mesmo com Dona Claudete, que era uma pessoa boazinha e calma, eu não deixava de fazer as minhas manhas.

Ela era muito carinhosa, mas na hora que precisava, ficava muito brava. Foi mais fácil para ela porque eu já tinha me acostumado com as idéias dos materiais. Entendia que era cega e se quisesse aprender a ler teria que aceitar o sistema Braille. Comecei a pensar com carinho em tudo isso e fui em frente com garra e vontade.


CAPÍTULO 14
A alfabetização

Na escola eu usava a reglete com muita freqüência. No início, comecei a perfurar qualquer pontinho. Depois, Dona Claudete me fez perceber que todas as celinhas da régua tinham seis pontinhos. Então, eu preenchia os seis pontos. Ela pedia para que eu percorresse a folha toda para descobrir os meus erros. Ela ficava super feliz quando eu descobria um erro porque o meu tato estava bem desenvolvido.

Aos poucos, aprendi a reconhecer todos os pontinhos. Aprendi os nomes das letras, exercitei aquelas que são fáceis de confundir, como o d e o f, o e e o i, o h e o j.

Quando estava craque nas letras ela me deu a cartilha. Eu fiquei tão feliz que não consegui dormir naquela noite. Queria ficar estudando. Para que eu deitasse e descansasse um pouco, foi preciso que minha mãe escondesse a cartilha.

No outro dia, a primeira coisa que fiz foi querer a cartilha. Era maravilhosa, pois o mais importante para mim é que na cartinha os desenhos eram em alto-relevo. Aprendi a ler e a fazer cópia.

Toninho não conseguiu. Eu adorava ler para ele.

Quantas vezes Dona Claudete me deixou de castigo... Foram tantas que eu até perdi a quantia. Às vezes, porque eu fazia cópias que ela não tinha mandado. Outras, porque eu não fazia tarefa por preguiça. Nessa época, eu contava com nove anos de idade. Havia dias em que eu ficava brincando e esquecia das minhas obrigações.


CAPÍTULO 15
Uma infância difícil

Eu era uma menina feliz. Às vezes, entristecia porque eu não tinha bonecas bonitas como as minhas amigas. Não só não havia bonecas como também não havia outros brinquedos. Minha mãe não tinha condições de comprar. A vida era difícil para nós. Ela comprava remédios caros, pois não podia ficar sem eles, devido aos seus problemas sérios de saúde.

Como sofremos com as violências dos meus irmãos Cido e José! Eles bebiam e se tornavam insuportáveis. Cido se casou e minha cunhada também sentia o maior prazer em ofender minha mãe. Eu ainda era muito criança para entender aquela situação, mas me revoltei contra eles. Fiquei um tanto traumatizada. Não entendia como é que um filho podia ser tão mau para sua própria mãe.

Apesar de tanto sofrimento, eu era feliz e realizada. Sabia ler, tinha muitas amigas, várias pessoas gostavam de mim e isso era o que contava.


CAPÍTULO 16
Os brinquedos e as roupas

Um dia, Dona Claudete foi a minha casa e eu estava brincando. Ela pediu para que minha mãe me chamasse. Cheguei sem graça, pensei que tivesse feito algo errado na escola e ela tivesse vindo reclamar para minha mãe.

Dona Claudete correu ao meu encontro. Disse que tinha levado uns presentes para mim e para Toninho. Ficamos curiosos e ansiosos. Ela foi até o carro e nos entregou muitas caixas e pacotes. Fiquei perdida. Eu nunca tinha ganhado tantos presentes.

Havia uma boneca que tinha muitos cabelos e que fechava e abria os olhos. Era de borracha e parecia um bebê. Havia, também, um boneco acompanhado de mamadeira e piniquinho. Ele mamava e fazia xixi. Era uma gracinha! Muitas panelas, colheres, garfos, facas e vasilhas de plástico. Havia, entre os presentes, uma bonequinha preta e pequena. Aquele monte de brinquedos me deixou radiante.

Toninho ganhou um avião, carrinhos, bolas; enfim, todos os brinquedos que uma criança pode sonhar.

Ela também levou muitas roupas para nós. Eram novas e usadas. As usadas estavam em ótimo estado de conservação.

Minha mãe não tinha palavras para agradecer aquela bondade. Dona Claudete disse que não era necessário agradecer e que eu e Toninho éramos os dois presentes mais preciosos que ela tinha ganhado de minha mãe. Foi uma festa para nós.


CAPÍTULO 17
Os estudos

O tempo corria sem que nada de novo acontecesse, a não ser a rotina do cotidiano.

Isa também se casou. Ficamos eu, Toninho, minha mãe, a Cidinha, Vina e o José.

Os meus irmãos trabalhavam. Minha mãe ainda lavava roupas para fora. Eu e Toninho íamos à escola.

Eu ia muito bem nos estudos, as pessoas adoravam me ver lendo. Achavam-me uma gracinha.

Foi um ano maravilhoso e diferente para mim. Eu me sentia muito útil e importante.

Adorava ir à escola. Eu tinha muitos coleguinhas. Todos queriam brincar comigo. Eu me sentia a líder, a princesinha no meio de tantas crianças. Elas brigavam para me levar onde eu quisesse na hora do recreio.

Nunca imaginei que um dia, eu seria tão importante para as pessoas. Nunca imaginei que, um dia, seria tratada pelas pessoas como uma criança que enxerga normalmente. Às vezes, as pessoas esqueciam que eu era cega e esse esquecimento me deixava feliz.

No final do ano, fiz os exames e passei para a segunda série. Eu dava pulos de contente e ganhei um livro de presente de Dona Claudete. O título do livro era Belas Estórias.

Nas férias eu devorei o livro. Lia, relia as histórias e não me cansava.

Não gostei das férias, pois demoraram muito para passar. Eu sentia muitas saudades da Dona Claudete, dos amiguinhos e da escola.


CAPÍTULO 18
A classe comum

As aulas iniciaram e eu tinha que freqüentar a classe comum. Eu fiz a primeira série em classe especial, onde só havia eu e Toninho. A Izaltina, a Maristela e o Manoel eram alunos com visão subnormal. Eles estudavam em classe comum, mas iam todos os dias na classe especial para receber reforço e auxílio da Dona Claudete.

Quando a Dona Claudete disse que eu iria para a classe comum, fiquei confusa, com medo de não conseguir acompanhar a classe. Fiquei preocupada, pois eu seria a única deficiente no meio de quarenta crianças que enxergavam.

Eu ia perder aquele encanto, aquela doçura de pessoa que era a Dona Claudete. Todos os dias, nós iríamos nos encontrar, mas não seria a mesma coisa. Ela ia transcrever as minhas lições, ia copiar os livros para mim. Naquela época, os livros adotados para a segunda série não haviam sido copiados em Braille. Ela estaria ali para o que desse e viesse, mas seria diferente.

Fiquei triste. Ela, com muita doçura, abraçou-me e me convenceu que a classe comum seria melhor para mim. Disse-me que eu precisava me integrar com a sociedade e que ela não estaria sempre perto de mim para me proteger. Assegurou-me que eu arrumaria amiguinhas que me levariam à escola e a minha casa. Dessa forma, minha mãe não se sacrificaria tanto.

Eu não tinha outra opção e teria mesmo que ir para a classe comum. No meio dos tantos argumentos dela, foi mais fácil para mim. A minha professora de segunda série se chamava Lia.

Lia era boazinha também, tratava-me com muito carinho. Nos primeiros dias estranhei um pouco, mas depois me acostumei. Ela ia escrevendo na lousa e ditando para mim. Eu fazia as lições e Dona Claudete transcrevia para ela corrigir. Não havia marmelada! Caso eu escrevesse errado, Dona Claudete transcrevia exatamente do jeito que eu havia escrito.

Realmente, a classe comum foi ótima para mim. Passei a conviver mais tempo no meio das crianças normais e adquiri os mesmos hábitos e manias delas. Tornei-me menos egoísta e percebi que todas as crianças eram tão importantes quanto eu.

Eu era ótima para decorar poesias. Em quase todas as festinhas comemorativas, Dona Lia dava poesias para eu recitar.

Na segunda série, eu era umas das primeiras alunas da classe e sempre tirava ótimas notas. Dona Lia me elogiava e dizia que eu tinha sido bem alfabetizada.

Maria José era minha vizinha e estávamos na mesma classe. Fazíamos os deveres juntas. Também íamos e voltávamos juntas para casa. Éramos amigas inseparáveis. Quando ela faltava, sempre havia quem me levasse e trouxesse.


CAPÍTULO 19
A despedida

Um ano passou sem que eu percebesse. Foi bom e de muita experiências novas para mim. Fiz os exames e passei para a terceira série.

Nas férias, eu ficava sempre um pouco chateada. Gostava muito de estudar e detestava a idéia de ficar em casa. Era uma criança muito inquieta e não gostava de ficar parada. Apesar de brincar muito, ficava ansiosa para a volta às aulas.

Enfim, chegou o dia tão esperado. A professora da segunda série chamava-se Inês. Eu gostei dela e tinha a certeza de que iria aprender muito.

Uma notícia inesperada veio abalar a minha alegria.

Dona Claudete ia embora para São Paulo. Surgiu uma chance melhor para ela lá. Eu chorava desesperadamente, não queria perder aquele anjo bom. Não queria perder aquela amiga que tinha mudado a minha vida completamente. Quem iria me ajudar? Quem iria transcrever as minhas provas e lições? Quem iria copiar os livros para mim? Eu seria aceita na escola, sem o auxílio de uma professora especializada? Será que Dona Inês iria confiar em mim? Será que ela iria acreditar nas respostas que eu lesse?

Essas e muitas perguntas que eu fiz para mim mesma, me atordoaram. Eu pedia, eu implorava para que a Dona Claudete não fosse embora, mas de nada adiantou. Tinha mesmo que ir. Fez-me muitas recomendações. Pediu para que eu me comportasse bem, ressaltando que tinha a certeza de que tudo ia dar certo. Pediu para que eu tivesse fé em Deus. Disse que me escreveria e que queria as respostas para saber como eu estava.

Com a despedida de Dona Claudete, tudo se tornou muito difícil para mim.


CAPÍTULO 20
As dificuldades

Comecei a cursar a terceira série, sem o auxílio de uma professora especial. Dona Inês, era muito compreensiva e me dava muita força. Mesmo com aquela compreensão, aquela força, aquela paciência, aquele carinho, as dificuldades surgiram.

Com o avanço dos estudos eu me sentia perdida. Apareciam sinais novos, que eu não havia aprendido e que Dona Inês não tinha condições de me ensinar. Ela era uma professora comum, não tinha prática com deficientes visuais.

Eu entendia as matérias, mas na hora de fazer os sinais novos nas aulas de matemática, me enrolava toda. Eu queria acompanhar a classe normalmente e não queria ficar para trás de maneira alguma. Comecei a inventar sinais matemáticos por minha própria conta.

Eu sofria demais com a falta da Dona Claudete ou até mesmo de outra pessoa que pudesse me auxiliar.

A coisa que mais me deixava feliz é que eu estava conseguindo acompanhar a classe. Com dificuldade, é certo, mas estava.

Preocupava-me demais a idéia de que nunca mais encontraria uma professora que pudesse me ajudar. Eu tinha tantos sonhos... Queria ser alguém na vida, queria estudar, queria fazer uma faculdade, queria poder um dia ajudar minha mãe, que enfrentava tantas dificuldades para nos sustentar.


CAPÍTULO 21
A salvação

Eu tinha amizade com todos da escola. Conversava com a diretora, com as professoras, com os serventes e com os alunos.

Um dia eu estava desanimada e no recreio não quis brincar com minhas amiguinhas. Estava muito triste sentada no banco.

De repente, as lágrimas começaram a brotar nos meus olhos e eu não sabia por quanto tempo iria agüentar aquela situação. Não sabia também se os professores agüentariam.

Eu precisava urgentemente de uma professora para me auxiliar. Dona Edite e Dona Eliana moravam em São José do Rio Preto. Conheciam um colégio que diziam ter muitas classes especiais. Prometeram verificar se nesse colégio havia algo para mim.

Dentro de mim nasceu uma esperança, que me deu ânimo e força. Aquela noite nem dormi direito. Queria que o dia amanhecesse logo, para saber alguma notícia que pudesse me fazer bem.

Elas me trouxeram uma ótima notícia. Havia uma classe especial para cegos. Fiquei satisfeita, as minhas lições seriam transcritas por uma professora. O sol tinha voltado a brilhar para mim.

A professora era Dona Cecília. Sem demora, Dona Edite levou as tarefas para ela transcrever.

Ela me mandou um recado não muito animador. Disse que aquele ano não poderia ir a Bálsamo, não por ela, mas pelos compromissos que já tinha. Mesmo assim, ela se colocou inteiramente a minha disposição. Disse que eu poderia ir uma vez por semana ao colégio Cardeal Leme em Rio Preto e que ela, com todo prazer, me ajudaria.


CAPÍTULO 22
Um novo problema

A professora que eu tanto precisava apareceu. Eu ia continuar na classe comum, mas teria que ir uma vez por semana na classe especial de Rio Preto. Teria que ir alguém comigo. Eu não tinha curso de locomoção e, mesmo que tivesse, minha mãe jamais me deixaria ir sozinha. Na ocasião, eu tinha apenas doze anos. Minha mãe sequer tinha como pagar as passagens.

Cidinha e a Vina tinham se casado. José estava cuidando da vida dele e não podíamos contar com ele de maneira alguma.

O dinheiro que minha mãe ganhava lavando e passando roupas mal dava para o sustento da casa e para os remédios dela, que não eram poucos, ou muito menos, baratos.

Dona Vilma, a diretora da escola, sabendo das nossas dificuldades deu-nos as passagens. Ela ficou muito feliz com a minha honestidade, quando eu fui à diretoria levar o troco do dinheiro. Era uma quantia insignificante, que eu não me recordo agora, mas era dela.

Ela me abraçou e me fez muitos carinhos. Contou que tinha feito a promessa de ajudar uma família pobre e que essa família seria a nossa. A partir daquele momento, ela daria três pães para nós, que a minha mãe buscaria na padaria todos os dias. Essa notícia deixou minha mãe tranqüila e contente.


CAPÍTULO 23
A aprendizagem dos sinais matemáticos

Na primeira vez que fui ao Cardeal Leme, as coisas não foram muito boas para mim. Tive que começar a aprender os sinais matemáticos e muitas outras coisas que eu tinha inventado por conta própria.

Dona Cecília me ensinava tudo com muita paciência. Sempre me dizia que eu tinha mudado para melhor e que não era mais aquela menina mimada.

Apesar daquela bondade e paciência, Dona Cecília era muito enérgica e aquela energia foi muito boa para mim. Tudo o que eu sou hoje devo a ela. Ela me acompanhou daquela época até eu me formar.

Eu estava acostumada com aqueles sinais inventados por mim. Foi difícil acostumar com os sinais verdadeiros. Graças a minha força de vontade e a paciência de Dona Cecília, eu consegui assimilar bem.


CAPÍTULO 24
A aceitação

No primeiro dia, fomos eu e minha amiga Maria José para o colégio Cardeal Leme. Foi legal, apesar dos contratempos. Realmente, foi uma aventura diferente para mim, andar de ônibus sem a presença e proteção de minha mãe. Só eu e minha amiga, isso me fez sentir mais responsável e adulta, apesar de ainda ser uma criança. Eu me senti um pouco deslocada no meio de tantas pessoas diferentes.

Na escola havia vários alunos deficientes visuais. A maioria estudava em classe comum e alguns ainda estavam na classe especial com Dona Cecília. Eu não me lembro muito bem de todos, mas recordo-me de Francisco, Neno, Terezinha e João.

Fiquei surpresa, sobretudo porque não pensei que no mundo existissem tantos deficientes. Achei estranho ficar no meio deles, pois a turma era, na sua maioria, mais velha que eu. Por ter entrado na escola com dez anos, as crianças que eu tinha amizade eram, em grande parte, mais novas que eu. Fiquei com vergonha daqueles moços e tenho certeza de que todos me acharam muito infantil.

Na hora do recreio, todos iam para a classe especial. Ficavam conversando e trocando idéias. Não era por maldade, mas eu achava que entre eles e eu existia uma grande barreira. Não sei se fui eu que não os aceitava ou se foram eles que me deixavam de lado. Ou ainda, porque eu achasse o mundo deles totalmente diferente do meu.

Eles se viravam sozinhos, se locomoviam livremente sem o auxílio de ninguém e, no fundo, eu senti vontade de ser livre como eles.

Essa impressão ficou em mim durante somente as primeiras vezes que estive lá. Depois, me acostumei com eles e não posso negar que aprendi muitas coisas boas com esses novos amigos.


CAPÍTULO 25
A ajuda

Não demorou muito para que o prefeito soubesse das minhas idas todas as semanas para Rio Preto. Ele soube das minhas dificuldades e da ajuda de Dona Vilma. Mandou um recado para que eu fosse à prefeitura, pois ele precisava falar comigo.

Eu fui e ele disse-me que iria mandar uma perua me levar a Rio Preto todas as vezes que eu precisasse. Assim, Toninho também aproveitaria para ir à escola, se ele quisesse, é claro.

Passamos a receber muita ajuda: da prefeitura, do pessoal da escola e de muitas pessoas influentes da cidade. Minha família recebia leite em pó, macarrão, vitaminas, remédios e até roupas. Na verdade, as roupas eram usadas, mas em boa condição de uso.

Para a minha mãe, essa ajuda foi ótima, pois ela pode ficar mais tranqüila. Deus não desampara ninguém. Eu tenho muitas saudades daqueles tempos e daquelas pessoas maravilhosas que me ajudaram. Sei que algumas já faleceram. Outras, perdi o contato.


CAPÍTULO 26
Tudo acontece na hora certa

Aquele resto de ano eu viajei para Rio Preto, sempre uma vez por semana. Fiz exames e passei para a quarta série, graças a Deus.

Na quarta série, logo no início do ano, recebi uma notícia que me deixou feliz. Dona Cecília poderia ir a Bálsamo uma vez por semana e eu teria que continuar indo lá uma vez por semana também. Isso foi ótimo! Eu teria dois dias por semana com ela e Toninho poderia voltar a estudar. Eu cheguei à conclusão de que tudo acontece na hora certa. Deus sabe o que é bom para nós e as coisas que são conseguidas com sacrifício, realmente, são mais saborosas. Exatamente há um ano eu tinha sofrido e chorado desesperadamente e, naquele ano, eu sorria para a vida.

A minha professora da quarta série chamava-se Maria Deocira.

Dona Maria Deocira era uma mulher maravilhosa. Tinha um dom para ensinar! Dava gosto assistir às aulas dela. Eu tive muita sorte com minhas professoras. Elas tinham muita paciência e muita categoria para ensinar. A cada ano eu fazia novas amizades, conhecia pessoas maravilhosas, aprendia muito.

Eu era inteligente, sempre tirava ótimas notas e nunca dava trabalho para minha mãe. O estudo era uma das coisas mais importantes de minha vida.


CAPÍTULO 27
A leitura

Na maioria das vezes que eu ia a Rio Preto, levava para casa muitos livros para ler. Modestamente, eu sempre li muito bem. Adorava e ainda adoro ler. Com a leitura, aprende-se muito. Aprende a escrever certo, aprende a falar certo e, além disso, conhece coisas importantes. Às vezes, eu me identificava com alguns personagens e sentia vontade de estar na pele deles. Li e reli todos os romances em Braille, que eu encontrava na biblioteca do Cardeal Leme. Infelizmente, não existia e ainda não existem muitos livros em Braille. Eu sempre tive muita sede de leitura.


CAPÍTULO 28
A Primeira Comunhão

Enquanto estudava, eu fazia o catecismo também. Minha mãe era muito religiosa e um dos seus sonhos era me ver fazer a Primeira Comunhão. Num domingo, antes de receber o diploma de quarta série, chegou o dia da minha Primeira Comunhão. O vestido que usei era branco. Com muito sacrifício, minha mãe juntou dinheiro para comprar aquele vestido maravilhoso. Todos diziam que era lindo.

A missa foi emocionante e muito marcante para mim. Ensaiamos muitos hinos e cantamos durante a missa. Aquela cerimônia me transmitiu muita paz.

Após a missa houve uma festinha. Eu estava muito eufórica, me sentia realizada. Jamais pensei que um dia pudesse acontecer tanta coisa boa comigo. Quando eu era menor, pensava que nunca fosse ter os mesmos prazeres que as outras crianças.

Só fiquei um pouco triste porque ia sentir muita falta da minha professora de catequese, que era muito boa para mim. Além dos ensinamentos, ela me dava muitas coisas. Eu aprendi tanto com ela, que passei a ser professora de catequese.

Eu comecei a fazer parte do coral da igreja e aos domingos ia cantar na missa. Essa experiência foi muito boa para mim. Fiz amizade com muitas pessoas diferentes, inclusive, jovens.

A professora gostou da minha voz e me chamou para cantar com ela e outros jovens nos casamentos. Com isso, eu amadureci e me senti uma pessoa mais adaptada em meu mundo.


CAPÍTULO 29
O diploma

Como em todas as outras séries, na quarta eu fui muito bem. Passei nos exames com ótimos resultados.

Eu ia receber o diploma de quarta série. O prazer que sentia, não consigo descrever. Minha mãe, então, nem se fala. Nenhum filho dela tinha recebido diploma e, justo eu, deficiente visual, com quem ela se preocupava tanto, ia lhe dar aquela alegria.

Os preparativos para a festa foram feitos com muita alegria e ansiedade por todos.

Finalmente, chegou o dia tão sonhado. Eu estava vestida de branco, o mesmo vestido da Primeira Comunhão. Era a cor preferida de minha mãe.

Primeiro, celebrou-se a missa, depois foi a entrega dos diplomas na escola. Quando recebi o meu, nem acreditei! Pensei em tudo que tinha passado para chegar até ali! Tanto sofrimento, tanto sacrifício, tantas lágrimas! Certamente, havia valido a pena receber aquele prêmio compensador e passar por tudo que passei!

Eu abracei e beijei aquele diploma, que, para mim, era sagrado, uma bênção do céu. Aquele diploma era um troféu não só para mim, mas para minha mãe também.


CAPÍTULO 30
A chuva

Eu estava na quinta série e me sentia ansiosa e curiosa para chegar o primeiro dia de aula.

Até a quarta série eu tinha uma professora e agora, na quinta série, seria diferente. Cada matéria teria um professor.

Essa idéia de conhecer pessoas, ambientes e coisas diferentes, me deixava ansiosa.

No primeiro dia de aula, estava chovendo demais. Minha mãe tinha que me levar na escola a pé. Eu não conhecia os meus amigos de classe. Sempre nos primeiros dias minha mãe me levava. Não demorava e as crianças se ofereciam para me auxiliar. Eu tive sorte em todas as séries, pois sempre tive vizinhos na minha classe. Infelizmente, Maria José reprovou a terceira série e começamos a ficar em classes diferentes.

Voltando ao primeiro dia de aula, eu me arrumei toda bela e formosa e a minha mãe foi me levar. Chovia sem parar. Grandes enxurradas, ventos fortes, o guarda-chuva quase virava pelo avesso e minha mãe fazia de tudo para que eu não me molhasse muito. Eram enxurradas tão fortes, que não havia jeito de desviarmos.

Nessa época, eu tinha de treze para quatorze anos. Era pequena e magra. Minha mãe me pegou nos braços para atravessar a enxurrada. Aquele doce contato me fez agarrar a ela com ternura. Foi tão difícil chegar na escola, que até já tinha me esquecido que era o primeiro dia de aula.

Quando cheguei na escola, já haviam dado o sinal. Dona Zulmira, a diretora da escola, me levou até a classe. Ela pediu licença para Dona Odete, a professora de matemática, e me apresentou para todos.

A maioria dos alunos eu já conhecia, eram alunos das séries anteriores, que estudaram comigo. Os que eu não conhecia, foram super amáveis.

Eu fiquei sem graça por ter chegado atrasada, mas logo perdi a timidez e me entrosei com o pessoal.

Nós tínhamos cinco aulas por dia. A cada cinqüenta minutos, havia uma troca de professoras. Às vezes, acontecia de ter aula dupla de certas matérias.

Vera se propôs a me ajudar. Morava perto da minha casa e disse a mim que poderíamos ir juntas todos os dias à escola. Todos disseram que eu poderia contar com eles.

Todos foram prestativos comigo, mas alguns se tornaram inesquecíveis para mim. Lembro-me de pessoas especiais como Ely, Egler, Vera, Vilela, Maria Eliza, Maria Luiza, Sônia e muitos outros, que, se eu fosse escrever seus nomes, usaria páginas e mais páginas. Os professores também foram maravilhosos comigo, mas uma me marcou profundamente. Até hoje não consigo esquecer aquela bondade de pessoa.

No ginasial, os professores e alunos acabam se tornando uma família, pois são quatro anos de convivência. Já no primário, todos os anos, nós temos professores diferentes.


CAPÍTULO 31
Dona Odete

A professora a quem eu me referi no capítulo anterior é Dona Odete, a professora de matemática. Ela era incrível. Tinha a voz um pouco ardida, mas era agradável, doce e gentil na maneira de ensinar. Era sensível e carinhosa, sua presença transmitia muita paz. Identifiquei-me com ela. Adorava quando havia aula de matemática. Tudo o que ela ensinava, eu aprendia com a maior facilidade. Eu ficava triste quando não tinha aula dela, mas, dava um jeitinho para encontrá-la. Eu não sei o porquê, mas tinha uma afeição tão grande por ela, que nem eu mesma conseguia entender.

Na época das frutas, eu levava as mais lindas e viçosas para ela. Eu sentia que era correspondida naquele sentimento. Ela queria o meu bem, queria sempre me ver feliz.


CAPÍTULO 32
O entrosamento

Logo eu me entrosei com a turma. Nessa época, ia tanta gente em casa fazer as tarefas comigo, que até se tornava divertido. Parecia uma festa. Às vezes, até levavam petiscos para comermos.

Foi uma época maravilhosa. Quando me lembro sinto muitas saudades. Naquele tempo, eu era feliz e não sabia.

Como eu já disse em capítulos anteriores, minha casa era grande e o quintal enorme. Minha turminha adorava se reunir em casa. Eu me sentia muito vaidosa. Uma única deficiente visual no meio de tantos jovens que enxergam e que gostavam de mim. Sentia que eles faziam de tudo para me verem feliz. Eles, às vezes, até brigavam entre si, pois todos queriam passear comigo, todos queriam me ajudar ao mesmo tempo.

Eu, com muito jeitinho, conseguia apaziguar tudo. Logicamente não podia tomar partido, precisava de todos e não queria me indispor com ninguém.

Eu não sei o que passava pela cabeça da minha turma. Parece que eles tinham orgulho de ser meus amigos. Aquelas crianças, adolescentes e jovens tinham pureza e simplicidade nos sentimentos. Não tinham preconceitos e isso me deixava imensamente feliz.

Toninho também adorava ficar conosco. Apesar de tantos sofrimentos e sacrifícios, minha mãe ficava tranqüila, vendo a nossa felicidade. Eu acho que nem ela acreditava que um dia pudesse acontecer aquilo conosco.


CAPÍTULO 33
A desconfiança

Tudo corria maravilhosamente bem comigo. No começo do mês de abril de 1972, eu senti que minha vida tinha mudado. Todos estavam muito estranhos. Fazíamos as lições juntos, mas não era mais a mesma coisa.

Às vezes, eu os surpreendia numa rodinha, falando baixo e, quando eu chegava, eles paravam, mudavam de assunto, desconversavam. Aquilo tudo foi me deixando muito triste e desanimada. Até os professores tinham mudado. Eu não conseguia entender aquela mudança brusca.

Um dia, cheguei em casa e minha amiga Ely estava conversando com minha mãe e Toninho. Quando eu entrei, eles pararam e mudaram de assunto. Fiquei desnorteada e comecei a chorar. Minha mãe tentou me acalmar, mas as palavras e os carinhos dela só faziam com que eu chorasse mais.

Fiquei desconfiada e decepcionada com todos. Achei que nem mesmo minha mãe gostasse de mim.

Naquela noite fui dormir aos prantos, custei a pegar no sono. Estava com vontade de morrer, de sumir para um lugar onde ninguém me conhecesse.

No outro dia, quando minha mãe foi me acordar para ir à escola, eu estava indisposta e sem vontade. Ela me achou muito abatida, mas disse que eu não poderia faltar.

Eu estava muito aborrecida. Quando fui me vestir, ela me deu uma roupa nova para usar. Estranhei aquela atitude, não poderia entrar na escola sem uniforme. Minha mãe argumentou que o uniforme estava molhado e acaso não me deixassem entrar na escola, era para voltar para casa. Fiquei mais surpresa ainda, mas estava murcha para discutir com ela.


CAPÍTULO 34
O aniversário

Fui para escola como se estivesse indo para um matadouro. Não sabia como enfrentar minhas colegas, não tinha mais papo com elas. Eu não sabia por quanto tempo suportaria aquela situação.

Quando cheguei, não encontrei nenhum aluno da minha classe, a não ser Dalva, a garota que tinha passado em minha casa para irmos juntas. Não me barraram no portão. Entraria sem maiores explicações, o que me parecia bom. Além do mais, chegamos em cima da hora.

Tocou o sinal. Eu e Dalva fomos para a classe. A porta estava fechada e, quando a abrimos, uma turma que já estava lá dentro, começou a cantar o Parabéns a Você! Eu tremia timidamente.

Era 8 de abril, o dia do meu aniversário. Dias antes, eu tinha me lembrado, mas com a frieza e indiferença de todos para comigo, fiquei sem estímulos. Eu não tinha motivos para me preocupar com aniversário. Minha mãe não tinha condições de fazer festa para mim.

Eu sinceramente não esperava aquela festa surpresa, aquela animação, aquela badalação! Só então, eu pude entender aqueles cochichos, aquele mistério, aquela roupa nova.

Fiquei tão emocionada que não conseguia parar de chorar. Estava fazendo quatorze anos e nunca havia tido uma festa. Todos me abraçaram, me beijavam e me deram presentes.

Tantos eram os presentes que eu não conseguia segurá-los. Fiquei muda, não tinha palavras para agradecer, não sabia se sorria ou se chorava.

Percebi o quanto tinha sido injusta. Eles estavam preparando uma festa surpresa para mim e eu fui tão tola que nem percebi.

A festa estava completa. Havia pastéis, esfihas, coxinhas, risóles, tortas diversas, sanduíches, balas, bolo e vários outros tipos de doces. Cada um levou um prato diferente e, assim, fizeram aquela festa maravilhosa. Até hoje, essa lembrança boa não sai da minha cabeça.

No final da festa, Dona Odete se ofereceu para me ajudar a levar no carro os presentes e as coisas que sobraram. Cheguei em casa radiante. Não foi surpresa para minha mãe, pois ela sabia de tudo.


CAPÍTULO 35
A ginástica

A alegria e a paz voltaram. As coisas se normalizaram novamente. Ir à escola e estar com os amigos e professores era motivo de satisfação para mim.

Eu não fui dispensada da ginástica. Freqüentava normalmente as aulas de Educação Física. Eu adorava os dias que tínhamos ginástica. Correr, pular e fazer exercícios me faziam bem.

Eu era uma menina muito inquieta, não conseguia ficar parada por muito tempo. Aquela agitação toda me fazia sentir mais útil para mim mesma.

A professora não era preconceituosa. Ela pegava nas minhas mãos, no meu corpo e me ensinava como fazer os exercícios. Às vezes, eu me excedia, desperdiçava as minhas energias e, em conseqüência disso, saía da aula exausta. Eu me refazia logo e sempre estava pronta para outra.

A professora de Educação Física chamava-se Conceição. Nessa época, ela estava grávida e, quando chegou a hora, tirou o que chamamos de Licença Gestante.

Para substitui-la, nós tivemos uma professora chamada Lurdinha. Eu fiquei preocupada e confesso com um medo de não ser aceita por ela. Eu estava enganada. Ela era humilde, paciente, gentil e simpática. Ela gostou de mim e garanto-lhes que foi um sentimento mútuo.

Com paciência, ela me ensinava os exercícios. Eu percebia a situação dela, quando captava o que ela queria passar para mim.

A escola era o meu segundo lar. De manhã eu estudava. À tarde, quando havia ginástica, lá estava eu. Às vezes, à noite, eu ia passear para encontrar alguns amigos na hora do recreio. Eu me tornei muito conhecida e querida por todos.


CAPÍTULO 36
A amizade

Eu e a professora Lurdinha fizemos uma amizade fora do comum. Ela se preocupava comigo, com os meus gostos, com meus sonhos, com minhas vontades, com minhas ansiedades e, até mesmo, com as minhas inquietações.

Eu sempre tive vontade de ter um rádio. Meu irmão Toninho ganhou um de presente de alguém, mas no momento não me lembro quem era.

Todas as vezes que eu pegava aquele rádio era briga na certa. Gostávamos de programas diferentes. Ele tinha toda razão, pois o rádio era dele. Ele tinha o direito de ouvir o programa que quisesse.

Certo dia, ele brigou comigo por causa do rádio. Eu fui triste para a escola. Lurdinha, vendo-me naquele estado, foi me consolar. Ela sabia que aquela não era a primeira briga por causa daquele bendito rádio. Ela conversou muito comigo, brincou, fez o que pôde para me ver feliz novamente.

Uma tarde, quando eu menos esperava, ela foi até minha casa. Tinha ido levar um presente para mim. Eu não entendi o porquê daquele presente. Ela me deu uma caixinha e pediu para que eu adivinhasse o que havia dentro. Eu não tinha a mínima idéia e disse mil coisas, menos o que seria o presente verdadeiro.

Naquela época, os rádios eram muito caros e jamais me passou pela cabeça que um dia ganharia aquele presente tão sonhado e desejado por mim.

Ela, vendo que eu não adivinhava, pediu para que eu abrisse o embrulho. Eu tremia tanto, que mal conseguia segurar o pacote. Com pressa, tratei de abri-lo. Dei um grito de satisfação quando descobri o objeto. Era um rádio portátil à pilha. Eu o abracei e o cobri de beijos. Tentei erguê-lo do chão, mas não consegui. Eu era muito franzina e não tinha força para tanto.

Eu a agradeci; porém, fiquei triste por não poder retribuir o presente. Ela disse que o maior presente que eu poderia lhe dar era o meu sorriso. Era estar sempre feliz e que não precisava me incomodar em retribuir.

Além do rádio ela levou várias pilhas.

Assim que ela foi embora, eu liguei o rádio e fui ouvir os meus programas preferidos.

Senti-me tão realizada! Na festinha de aniversário, ganhei vários presentes que sempre sonhei em ter e que não tinha condições. Desde roupas e calçados a bijuterias e perfumes. Naquele dia, inesperadamente, ganhei aquele rádio que iria trazer paz entre eu e Toninho.


CAPÍTULO 37
Minha família

Os capítulos anteriores dediquei, completamente, aos meus estudos. Agora, vou fazer a descrição da minha família.

Idalina é minha irmã mais velha. É uma mulher trabalhadora, honesta, bondosa, leal, inteligente e sofredora. Ótima cozinheira e costureira muito caprichosa. Seus afazeres eram muitos e, também, lavava roupa para fora para ajudar no sustento da casa. Porém, não sabia ler. Casou-se muito jovem com um senhor chamado Mário. Homem bom, trabalhador; porém, sistemático. Tiveram três filhos: Valdecir, Valdeir e Elenice.

Sebastiana, minha outra irmã, conhecida por Tiana, é muito tímida. Não sei exatamente o porquê, mas dela eu não tenho muitas recordações. Casou-se muito jovem. Desse casamento nasceram seis filhos, três casais. Não me recordo o nome de todos. Casou-se com Antônio. Infelizmente, foi um casamento fracassado. Ele bebia demais e não gostava de trabalhar. Além disso, judiava dela e dos filhos.

Antônia, minha terceira irmã, é muito diferente de todas nós. Seu comportamento tímido, faz com que não tenha muito papo com outras pessoas. Casou-se com Eduardo. Desse casamento nasceram dois filhos: Marta e Jair. Ela é muito distante de nós, não sabemos quase nada dela. Seu marido é atrevido e mulherengo. Tem fazenda e algumas cabeças de gado. Não gosta de ajudar ninguém e pensa que pode comprar as pessoas com dinheiro.

Aparecido, mais conhecido como Cido Bigode, tinha fraqueza por bebidas alcoólicas. Casou-se três vezes. Sua primeira mulher chamava-se Virgilina, conhecida pelo apelido Lica. Desse casamento, nasceu um garoto chamado Devair. Sua segunda mulher chamava-se Santina. Ela era uma pessoa maravilhosa, honesta e de ótimas qualidades. Desse casamento nasceram duas lindas garotinhas: Sônia e Elizabete. Infelizmente, meu irmão não soube dar valor a essa mulher de ouro. Sua terceira e última esposa chama-se Sônia. Desse casamento, nasceram quatro filhos: Luciano, Leandro, Juliana e Tiago. Não tenho muito o que falar de Sônia, pois entre eu e ela existe uma grande incompatibilidade de gênios.

Isabel, conhecida como Isa, apelido que adotei quando eu ainda era pequena e não conseguia pronunciar o nome dela inteiro. A doce Isa cuidou de mim quando eu ainda era bebê. A doce Isa esteve sempre ao meu lado até o dia do seu casamento. A doce Isa não se importava com dinheiro nem com roupas bonitas. A doce Isa renunciava a tudo. A doce Isa se colocava em último lugar para ver-nos bem e felizes. A doce Isa em tudo colocava um toque de bondade e simplicidade. Ela casou-se com o senhor João Vasques, homem bom, justo, honesto e trabalhador. Formaram um casal perfeito. Ele era viúvo e já tinha três filhos: João Carlos, Pedro José e Maria José. Do casamento dele com Isa nasceu o garoto Orlando. Isa, quase uma criança, tinha uma responsabilidade muito grande pela frente: quatro crianças para cuidar e os deveres de dona-de-casa e esposa.

João Vasques era um homem bem posicionado socialmente. Tinha bens, podendo assim ajudar a minha mãe financeiramente. Homem de coração aberto para todos, não só os da família, como de pessoas necessitadas também. João Vasques tinha o coração grande, tendo assim, um lugarzinho aconchegante dentro dele para as pessoas humildes.

Esse casal nunca me abandonou. Sempre estiveram ao meu lado nas horas boas e difíceis. Esse casal merece um capítulo especial só para eles.

Maria Aparecida, a popular Cidinha é uma mulher boa, trabalhadora e de muita fibra. Casou-se com um rapaz chamado Ótimo, seu apelido é Nenê. Dessa união, nasceram quatro filhos, sendo eles: Paulo César, Marcos Roberto, Márcia Cristina e Rubens José.

Lourdevina, mais conhecida como Vina, é uma mulher amorosa, dedicada e muito carinhosa com as pessoas. É enérgica e brava; porém, por trás dessa energia e braveza, existe um coração de manteiga, não sabe guardar rancor de ninguém. Casou-se três vezes. Foi infeliz no primeiro e segundo casamento. O primeiro casamento foi com Edson e dessa união nasceram duas garotas: Janete e Andréia. Casou-se novamente com Gumercindo e tiveram o garoto Iraí. Casou-se pela terceira vez com José e dessa união não tiveram filhos.

O meu irmão José, conhecido por Zé, antes de casar, teve um rabo de saia. Viveu uns tempos com Cleide, uma garota muito rica e bonita. Dessa relação nasceu o garoto Júlio César. Por serem muito jovens, esse relacionamento não deu certo. Então, ele casou-se com Mara, a irmã de Sônia, esposa de Cido. Dessa união, nasceram quatro filhos, sendo eles: Odair José, Márcio José, Fernando e a linda baianinha Lucimara.

Eu e Toninho, como já disse em capítulos anteriores, morávamos com minha mãe.

Dona Laura, minha mãe, minha amiga, minha confidente, era uma mulher maravilhosa, bondosa, carinhosa, caprichosa, honesta, trabalhadora, batalhadora, lutadora; porém, muito doente.

Quando recordo tudo que eu, Toninho e minha mãe passamos juntos, tudo o que sofremos juntos, me dá uma vontade louca de chorar.

Minha mãe foi uma verdadeira heroína, por ter enfrentado tantos sofrimentos, tantos obstáculos para nos criar. Apesar de recebermos tanta ajuda, a vida era difícil e sacrificada para nós. Minha mãe também merece um capítulo especial.

Meu irmão Toninho tinha a mesma deficiência que eu e, talvez por isso, nós nos identificávamos muito. Certo que brigávamos bastante, por sermos os dois caçulas, mas brigávamos por motivos tolos e fúteis, coisas de crianças.


CAPÍTULO 38
Essa é a minha família

Leitor, no capítulo anterior eu te apresentei a minha família. Uma família simples com seus problemas, suas tristezas, suas alegrias, suas surpresas, seus pontos positivos e negativos como uma família comum.

Não me detive muito na minha família porque esse livro é sobre minha vida. A minha história é muito longa. Não pretendo desviar muito o assunto para não tornar o livro volumoso e cansativo. Porém, não posso deixar a minha família totalmente de lado. Por essa razão, resolvi apresentá-la a você.

Quero também deixar bem claro que me refiro mais a minha mãe e ao Toninho porque fomos os principais integrantes dessa história, que está se deslanchando. Aparecerão personagens importantes no decorrer da história, personagens que serão peças fundamentais desse livro.

A mesma coisa eu digo dos meus colegas, vizinhos, amigos e professores. São muitos e todos têm um lugar especial no meu coração. Infelizmente, é impossível citar o nome de todos. São pessoas que direta e indiretamente fazem parte de minha vida.

Nesse livro eu pretendo contar a você tudo o que passei para chegar ao que sou hoje.


CAPÍTULO 39
Os passeios

O tempo passava e eu, apesar dos contratempos, levava uma vida gostosa de ser vivida. Tinha apenas quatorze anos e, apesar da pouca idade, de ser apenas uma adolescente, tinha muita responsabilidade e preocupações. Preocupava-me com a saúde de minha mãe, com a nossa situação financeira e com os meus estudos. Nos estudos, graças a Deus, eu ia muito bem.

Continuava indo uma vez por semana a Rio Preto e Dona Cecília vinha uma vez a Bálsamo.

Eu fazia amizades com muita facilidade. Às vezes, os meninos e meninas brigavam entre eles para estarem comigo. Todos queriam passear comigo e para estudar em minha casa, então, nem se fala! Eu, com muito jeitinho, contornava a situação, pois sabia que precisava de todos. Não podia ir contra ninguém. Às vezes, a situação se tornava embaraçosa para mim.

No final, eles acabavam entendendo uns aos outros e a paz voltava a reinar entre todos.

Eu adorava ir à casa de Ely. Nós conversávamos muito, ouvíamos música e trocávamos idéias sobre o futuro. Depois de tanto bate papo e brincadeiras, íamos passear de bicicleta. Era uma aventura deliciosa. Às vezes, Ely ficava na garupa segurando o guidom e eu pedalava. Nós corríamos tanto que parecia que íamos voar. Na maioria das vezes, eu ia na garupa.

Ely morava longe de minha casa; porém, ela me buscava e levava. Era uma amizade muito gostosa. Todos os dias ela me levava lanches saborosos na escola. As roupas que ela me dava eram lindíssimas. Eram dela e de sua irmã Eunice.

Todas as noites nós íamos passear no jardim. Era o ponto de encontro da turma da escola. Tenho tantas saudades daquele tempo, que sinto o coração apertado no peito. Às vezes, quando Vera queria ver o seu paquera, que estudava à noite, íamos à escola. Era tanta brincadeira e folia. Eu gostava quando ela me convidava para ir à noite na escola. Assim, aproveitava para bater papo com as pessoas que trabalhavam no período noturno. Dona Paula, a mãe de Ely, era inspetora de alunos. Nós conversávamos muito. Ela sempre me deu força nas horas difíceis.

Às vezes, eu parava para pensar e não acreditava que tanta coisa boa estava acontecendo comigo, uma deficiente visual.

Aquele ano passou que eu nem percebi. Passei para a sexta série.


CAPÍTULO 40
O curso de datilografia

Na sexta série, eu comecei o ano normalmente, tudo foi maravilhoso. A cada dia uma nova aprendizagem, uma surpresa ou até mesmo uma decepção, por que não? Com os amigos e com a escola era muito difícil acontecer; mas, quem quisesse me ver triste, era só fazer alguma injustiça com minha mãe.

Em agosto de 1973, eu ia começar um curso de datilografia na escola. Eu fiquei louca para fazê-lo porque eu poderia escrever algum bilhete ou carta para alguém. Escreveria à máquina e não precisaria de outra pessoa que ficasse sabendo o que estava escrito. Não só por isso, mas sempre sonhei fazer o que fosse possível para mim.

Quando entrei na escola e aceitei o sistema Braille, fiz um propósito comigo mesma. Prometi-me fazer ou, pelo menos tentar fazer, tudo o que me oferecesse ensinamento.

Fiquei toda entusiasmada; mas, me entristeci quando fiquei sabendo que o curso era pago. Eu não tinha condições de pagar.

O SENAC mandou o curso para a escola. Dona Alice era a professora. Ao me ver, ela ficou encantada comigo e me disse que eu, com certeza, faria curso. Pediu para que eu não me preocupasse e que seria por conta dela. Fiquei eufórica e emocionada ao mesmo tempo.

Tantas pessoas boas, tantas pessoas maravilhosas me ajudando! Será que eu merecia aquela graça?

Tudo o que sou hoje devo a tantas pessoas caridosas! Eu estudava de manhã e fazia o curso à tarde. Quando havia aula de Educação Física, eu ia à noite na datilografia.

Dona Alice era um doce. Dedicava-se tanto a mim, que em poucos dias me tornei perita na máquina. Sabia escrever tudo o que queria. Era legal demais.

Eu me sentia em outro mundo. Era uma sensação agradável, pois eu escrevia e todos podiam ler. Não era como o Braille, que para pessoas que enxergam lerem, precisavam que Dona Cecília transcrevesse.

Senti algo diferente e difícil de descrever. Esqueci-me, por um momento, que eu era cega. Parecia que eu falava uma língua diferente das outras pessoas e que, de repente, tinha aprendido a falar a mesma língua delas.

Às vezes, eu ficava triste porque as pessoas não entendiam o Braille. Eu tinha medo de que elas não confiassem em mim. Quando aprendi a escrever na máquina comum, eu não cabia em mim de tão contente.

Deus é tão bom... Eu não enxergava, mas podia fazer tantas coisas boas. Eu podia fazer as coisas que as pessoas videntes faziam. Entretanto, muitas pessoas videntes não faziam o que eu fazia. Com o tempo, notei que muitas pessoas videntes não possuíam metade sequer do meu saber. Percebi que, às vezes, eu era tola, perdendo o meu tempo com tristezas por ser cega e por escrever pelo sistema Braille. Afinal de contas, foi por meio desse sistema que aprendi tanto e que conheci pessoas tão bacanas.

Chegava em casa dando pulos de contente. Cada coisa nova que aprendia era motivo de satisfação para minha mãe.

Fui bem no curso de datilografia, recebendo assim, o meu diploma e a amizade de uma pessoa tão legal como Dona Alice.


CAPÍTULO 41
O movimento jovem

Em 1974 eu estava na sétima série. Na quinta e sexta séries, eu aprendi o Francês e da sétima em diante eu aprenderia o Inglês.

Dos estudos nunca pode me queixar. Ia muito bem, graças a Deus. Da parte religiosa eu também não me esquecia. Desde que fiz a Primeira Comunhão, nunca deixei de freqüentar a igreja e ia à missa todo domingo. Adorava cantar no coral.

Vera participava do movimento de jovens. Ela participou de um encontro e gostou muito. Às vezes, quando eu ia a sua casa, ela lia lindas cartas e mensagens que recebia de seus amigos, que faziam parte do movimento de jovens de outras cidades. Eu ficava encantada e sonhava um dia fazer o encontro e corresponder-me com pessoas de outras cidades também.

Naquele ano, surgiu uma ótima oportunidade para mim. Ia ter um encontro em Bálsamo e, com certeza, eu poderia participar. Eu ficava ansiosa e curiosa para saber o que iria acontecer, o que eu iria ouvir e aprender. O pessoal não dizia nada e eu teria que esperar. Seria uma surpresa para todos que fizessem o encontro.

Enfim, chegou o dia tão esperado. O encontro iniciaria no sábado à noite e encerraria no domingo à noite.

Eu e Maria José fomos fazer esse encontro, tão comentado por todos que já tinham feito.

Deixamos as nossas famílias, os paqueras e os passeios para conhecermos o lado novo da vida para nós. E valeu a pena.

Ouvimos tantos hinos lindos, tantas palestras maravilhosas, tantas mensagens, tantas palavras que mexeram profundamente conosco.

Os palestrantes eram de Potirendaba. Eram jovens extremamente religiosos. Realmente eles estavam por dentro e tocavam fundo em nossos corações. Eu ouvi tanta coisa que me fez chorar, me fez refletir e descobri que, às vezes, era injusta com minha mãe, com minha família, com meus amigos e comigo mesma. Descobri que era muito exigente e perfeccionista. Sempre gostei de tudo certinho e a vida não é sempre assim. Infelizmente, eu descobria que, apesar de ir à missa todos os domingos e fazer parte do coral, eu estava um pouco longe de Deus. Ir à igreja, participar das atividades religiosas, não significa estar perto de Deus. No encontro, eu percebi que precisava mudar e melhorar muita coisa em minha vida para estar mais próximo de Deus.

Com tudo que ouvi e aprendi, fiquei mais madura, responsável e humilde. Adquiri um jeito de levar a vida sem sofrer antes da hora.

Durante o dia, recebemos muitas cartas e mensagens de amigos, que não estavam fazendo o encontro. Eram mensagens lindas que deixavam a todos emocionados e de bem com a vida.

No domingo à noite foi a missa de encerramento. Foi maravilhoso, nunca pensei que tantas pessoas gostassem de mim!

O encontro foi realizado no colégio que eu estudava e a missa foi no pátio. Estava repleto de pessoas. Eram amigos e parentes dos encontristas. A missa foi linda, cheia de emoções, alegrias e lágrimas de todos. Quando terminou, todos se abraçaram.

Para surpresa minha, Vina, minha irmã que morava em Olímpia, estava presente. Eu fiquei tão feliz com aqueles momentos que passei, que jamais me esquecerei.


CAPÍTULO 42
A palestrante

Depois que fiz o encontro, passei a freqüentar a reunião do movimento de jovens de Bálsamo. Essa reunião era realizada aos sábados à noite. A reunião iniciava às oito horas e terminava às nove e meia. Era legal. Nós nos reuníamos e depois íamos passear na praça. Às vezes, íamos a alguma brincadeira dançante na casa de amigos e, outras vezes, íamos à discoteca. Quando não havia algo diferente para fazer, nós ficávamos na praça e era super divertido.

Nas reuniões nós discutíamos e tentávamos resolver problemas da comunidade. Discutíamos sobre a missa do domingo e fazíamos tudo o que pudéssemos para favorecer a comunidade.

Em certa reunião, discutimos a possibilidade de formarmos um grupo de palestrantes na nossa comunidade. A idéia foi festejada e aplaudida por todos. Começamos a nos preparar para formarmos o grupo. Para dar uma palestra teríamos que escolher pessoas desembaraçadas, que gostassem de falar e que tivessem o dom da palavra. Eu fui escolhida para participar deste grupo. De início, fiquei preocupada com tanta responsabilidade que teria pela frente. Depois, fiquei feliz por confiarem em mim. Eu era tão nova no movimento e já tinha sido escolhida. Era também a mais jovem do grupo de palestrantes.

A partir desse dia, passamos a nos unir mais vezes para resolvermos os títulos e o conteúdo das palestras que íamos preparar. Eu fiquei com a palestra com o título A Escolha. Foi lindo! Preparei-a com carinho, empenho e dedicação. Era sobre a escolha de viver com Cristo. Nessa palestra, havia história de um menino que chupava balas e pirulitos com papel. Ele não sentia prazer pelo doce, mas achava o papel que os envolvia bonito. Em uma festa na escola, a professora distribuiu muitas balas e pirulitos entre as crianças.

Os amiguinhos daquele garoto festejaram alegremente. Ele, , no entanto, ficava em um canto muito triste. Foi, então, que a professora percebeu o motivo daquela tristeza tão grande. Ela desembrulhou os doces do garoto, ele pôde experimentar e se sentiu feliz como seus amiguinhos. Ele descobriu o sabor doce e eu tinha descoberto o sabor doce e delicioso de viver ao lado de Cristo.

O nosso grupo passou a dar palestras em vários encontros de jovens. Com a palestra A Escolha, eu sempre era aplaudida de pé. Dei esta palestra por muito tempo. Depois passei a dar a palestra A Alegria de Viver. Nessa outra palestra, eu dava o testemunho vivo da minha vida, das minhas lutas, dos meus tropeços e, principalmente, das minhas vitórias.

Para ser palestrante, eu tinha que renunciar a muitas coisas. Geralmente, aos domingos, eu não podia ficar com a minha família, pois havia a necessidade de viajar com o grupo para dar palestras em vários lugares. Eu me tornei muito conhecida na região e, às vezes, recebia convite para dar palestra, mesmo sem o grupo, em outros dias da semana.

Isso foi muito bom para mim, pois adquiri muitos conhecimentos e fiz amizades com pessoas importantes. Porém, minha mãe reclamava muito. Dizia que eu não ficava em casa, que eu não tinha mais tempo para a família e que ela temia, com tantas atividades, que eu ficasse doente. Dizia sentir muita falta de mim, que era muito doente e queria que eu ficasse mais tempo com ela.

Com jeitinho e carinho eu conseguia convencê-la e continuava com aquela vida intensa. Eu tenho certeza de que, apesar de tudo, ela se sentia orgulhosa de mim. Acho que nem ela podia imaginar, que um dia eu pudesse ter uma vida tão ativa.

Escola, igreja, reuniões, palestras, encontros, viagens, paqueras, namoros, tudo isso me fazia ter uma vida normal e, principalmente, sentir que eu era uma pessoa feliz.


CAPÍTULO 43
A Máquina

Apesar de tantas atividades, eu consegui passar para a oitava série com a maior facilidade. Como sempre, Dona Cecília ia uma vez por semana em Bálsamo e eu em Rio Preto.

Eu acompanhava as aulas com a reglete, pois ainda não tinha condições de comprar uma máquina Braille. Em 1975, Dona Cecília foi a Bálsamo e levou uma máquina do colégio Cardeal Leme para que eu treinasse. Ela disse que a máquina poderia ficar comigo por algum tempo. Eu não entendi aquela atitude. Disse a ela que preferia continuar com a reglete. Eu acreditava que se ficasse com a máquina, certamente me acostumaria mal e depois não teria dinheiro para comprar uma. Além disso, um dia ou outro eu teria que devolver aquela máquina da escola. Ela disse que eu teria que aprender a máquina e que não era para eu discutir as ordens dela.

Eu, passivamente aceitei, mas fiquei com medo de acostumar com mordomia.

Ela me explicou pausadamente o funcionamento da máquina. Para quem sabe o sistema de Braille, não é difícil de aprender. Assim, em poucos dias, aprendi as vantagens daquela máquina. Acompanhava as aulas com a maior rapidez. Às vezes, os colegas reclamavam, pediam para eu escrever mais devagar e eu me corrigia. É que ficava tão empolgada que esquecia que eles estavam escrevendo à mão.

Aquela máquina emprestada facilitou a minha vida cem por cento. Quando peguei o gostinho pela mordomia, Dona Cecília me disse que teria que levar a máquina. Eu fiquei triste, mas entendi. Lembrei-me de que, quando ela a trouxe, deixou bem claro que era só para eu aprender lidar com ela.

Levou a máquina embora e eu voltei a usar a reglete. A princípio estranhei, mas depois me acostumei novamente com a idéia.


CAPÍTULO 44
A Surpresa

Era 8 de abril e eu estava completando 18 anos. Estava muito feliz com a data, mas tinha condições de fazer festa. A turma, então, decidiu que nos reuniríamos no domingo em minha casa.

Cada um levaria um prato diferente e nós faríamos um almoço para comemorar o meu aniversário.

Estávamos tendo aula de português e a professora nos dividiu em grupos para fazermos um trabalho. Eu adorava aqueles trabalhos em grupos, sempre sobrava um tempinho para conversamos baixinho.

De repente, a porta da classe se abriu. Todos ficaram em silêncio. Várias pessoas se aproximaram do meu grupo e recolheram os materiais que estavam sobre a mesa, inclusive o meu.

As pessoas que se aproximaram colocaram um pacote grande sobre a mesa, bem pertinho de mim. Todos bateram palmas. Eu, sem saber o que estava acontecendo, acompanhei a turma. Então, as pessoas se aproximaram de mim e resolveram conversar. Era Dona Zulmira, a diretora da escola, doutor Antônio, o dentista e vários professores. Naquele momento, todos me deram os parabéns. Dona Zulmira pediu para que eu abrisse o embrulho. Eu não sabia por onde começar. Ergui o pacote da mesa. Estava tão emocionada que não conseguia abrir o pacote. Ao mesmo tempo, estava curiosa para saber o que havia lá dentro. Bruscamente, comecei a rasgar o papel que envolvia o presente. Era uma caixa. Eu a abri apressadamente. Plástico e isopor envolviam o presente.

Quando consegui tirar tudo, a minha surpresa foi tamanha, dei pulos e gritos de alegria. Eu chorava e abraçava a todos. Sentia-me muito satisfeita.

Era uma máquina Perkins Brailler. Só então eu pude entender a atitude de Dona Cecília. Mais uma vez, ela estava me preparando para um passo novo e bom na minha vida.

Quem me deu a máquina foi Dona Zulmira, o irmão dela e o prefeito.

Eu fiquei imensamente feliz com aquele presente, que tanto sonhava em possui-lo, mas não tinha a mínima esperança de obter um dia.

Com a máquina, pude fazer tanta coisa boa. Inclusive, foi com ela que escrevi este livro.

Eu não tinha palavras para agradecer o gesto de bondade daquelas pessoas bondosas. Elas me proporcionaram um momento inesquecível para mim.

A máquina é importada. O doutor Antônio a buscou em São Paulo. Ele tinha encomendado. Não foi difícil manejá-la, pois eu já tinha prática.


CAPÍTULO 45
A formatura

Aquele ano transcorreu tudo bem. Eu adorava estudar, por isso aprendia tudo com muita facilidade.

Apesar dos problemas que tinha em casa, eu tive um ano bom, de muitas surpresas boas e realizações.

Estava agora me preparando para a formatura que seria em dezembro. Todos estavam eufóricos. Os que tinham sido aprovados não cabiam em si de contentes e os reprovados estavam tristes, principalmente, por não participarem da festa de formatura.

A minha irmã Isa me deu de presente a roupa de formatura. Era uma saia azul e uma blusa branca bordada.

Convidei Dona Cecília para participar da festa. Aquela mulher que sempre me acompanhou nos momentos bons e ruins de minha vida, aceitou sem hesitar. Foi uma festa muito badalada.

Chegou a vez de receber o meu diploma e, para mim, aquilo era mais um troféu. Um troféu dedicado a mim e a ela também. Eu mereci, pelo meu esforço e ela, pelo carinho, empenho e dedicação.

Minha mãe se emocionou muito me vendo participar de um ato tão importante. Ela sabia que eu estava dando mais um passo à frente, subindo mais um degrau da escada da vida. Graças a Deus, o esforço dela estava valendo a pena e eu soube retribuir com aquele diploma.

A alegria foi geral. Todos brincavam, cantavam e sorriam.

Entristeci-me um pouco quando me lembrei de que alguns dos professores que me acompanharam durante quatro anos, não iriam mais dar aulas para mim no próximo ano. Não pude deixar de agradecer o amor, a atenção e a paciência, com que me trataram durante aqueles quatro deliciosos anos que passamos juntos. Só uma coisa me consolava: eu ia continuar estudando no mesmo colégio e poderia encontrá-los todos os dias.


CAPÍTULO 46
A aposentadoria

A minha mãe não andava bem de saúde. As suas internações no hospital estavam se tornando cada vez mais freqüentes. Para manter a casa e comprar remédios, minha mãe tinha que trabalhar muito.

Lavava e passava roupas de várias casas. Era uma maratona muito difícil para ela e o seu coração não estava suportando mais tanto esforço. Ela sentia muito cansaço e falta de ar. Seu corpo inchava e, às vezes, apareciam algumas manchas roxas que desapareciam com o tempo. Apesar do grave problema cardíaco, ela resistia e fazia de tudo para nos tranqüilizar.

Meu cunhado João Vasques, vendo a saúde de minha mãe se agravar cada vez mais, se apressou em aposentá-la. Com o dinheiro da aposentadoria, ela não precisaria trabalhar tanto.

O senhor João era muito bom. Já tinha conseguido a aposentadoria de vários idosos da cidade de Bálsamo. Ele temia que a minha mãe não conseguisse a aposentadoria. Minha mãe tinha apenas 55 anos, mas com a saúde abalada e frágil, não foi tão difícil.

Fomos várias vezes a Rio Preto tentar resolver este problema. Sentimos angústia e ansiedade até que um dia tivemos a ótima notícia que minha mãe estava aposentada. A perícia tinha aprovado e constatado o seu problema cardíaco. Com a aposentadoria minha mãe poderia ser poupada e poderia repousar mais.

Ficamos muito gratos ao meu cunhado. Penso que se não fosse a paciência e perseverança dele, nós não teríamos conseguido essa benção.

Foi um dia festivo para nós. Minha mãe, com aquele jeitinho meigo e carinhoso, não se cansava de agradecer a Deus e ao meu cunhado. Quando ela recebeu o primeiro salário, agradeceu a Deus por não ter que lavar e passar tanta roupa, prejudicando, assim, a sua saúde. Agora, ela teria mais tempo para repousar e aquele salário seria sagrado todos os meses.


CAPÍTULO 47
A opção

No ano de 1976, eu freqüentei o primeiro colegial. Novas matérias, novos professores, muitos antigos amigos e alguns novos também.

Eu era uma garota de dezoito anos e era mito responsável pelos estudos. Em todos os momentos de minha vida, os estudos estavam em primeiro lugar.

Queria tanto me formar, fazer uma faculdade, ser alguém importante para ajudar minha mãe! Mas, parece que o tempo não passava. Eu tinha medo de que ela morresse e não me visse formada. Eu fazia de tudo para ir bem em todas matérias. Não poderia perder um minuto de minha vida e fazia um esforço muito grande para acompanhar a classe.

Graças a Deus, como em todos os anos, aquele não poderia deixar de ser melhor. Passei para o segundo colegial. Naquele tempo, quando terminávamos o primeiro colegial, poderíamos fazer uma opção. Escolhendo o Magistério, eu poderia me formar mais rapidamente e trabalhar para ajudar minha mãe. Em Bálsamo, não havia Magistério. Eu teria que viajar todos os dias para estudar em Mirassol, uma cidade próxima.

Minha mãe ficou preocupada. Mesmo aposentada, ela não teria condições de me ajudar com as passagens de ônibus todos os dias. Como sempre, o prefeito não me abandonou e deu os passes de ônibus para mim e para a pessoa que me acompanhasse.

Várias amigas minhas optaram pelo Magistério. Eu não me preocupei. Poderia ir com elas. Vera estudou comigo desde a terceira série primária. Nós nos dávamos muito bem e eu a escolhi para me acompanhar. Pensei que as outras colegas teriam condições e poderiam pagar o ônibus. Além do mais, Vera morava mais perto de minha casa e nós tínhamos muitas afinidades. Não que eu não gostasse das outras, mas eu e Vera éramos confidentes.


CAPÍTULO 48
A despedida

Estava tudo resolvido para eu estudar em Mirassol. Eu estava feliz com aquela decisão, mas estava triste por deixar pessoas tão maravilhosas no colégio em Bálsamo. Eu devia tanto a elas! Ia sentir tantas saudades, que só de pensar começava a chorar. Eu não iria me mudar de Bálsamo e poderia ir quantas vezes quisesse ao colégio. Porém, no fundo sabia que não era a mesma coisa. Eu estava com o coração apertado, mas precisava lutar para ser alguém na vida. As amigas, que optaram pelo Magistério, iam fazer o segundo colegial à noite em Bálsamo também. Sendo assim, elas iam estudar à tarde em Mirassol e à noite em Bálsamo.

Eu não quis. Pensei bem e preferi ficar só com o Magistério. Estudando à tarde, eu teria que ir uma vez por semana a Rio Preto na classe especial. Eu achava que se estudasse à noite sobrecarregaria demais Dona Cecília que, além de mim, tinha outros alunos.

Não tive coragem de me despedir de ninguém. Preferi pensar que poderia encontrá-los quantas vezes quisesse e isso me serviu de consolo. Estava arrasada por deixar Dona Odete. Eu a amava como se fosse alguém da minha família.

Todos apreciaram minha decisão, mas ficaram tristes porque eu ia estudar em outro colégio e em outra cidade.


CAPÍTULO 49
O novo colégio

Era um colégio antigo. Chamava-se Instituto de Educação Anísio José Moreira.

Eu, que estava acostumada com uma classe numerosa e de ambos os sexos, estranhei um pouco. A minha tinha poucos alunos e só moças. Era uma turma calma e acolhedora. Algumas alunas eram casadas. As matérias eram totalmente diferentes. Psicologia, Didática, Sociologia eram as matérias consideradas fundamentais.

Os professores também eram tão diferentes, mas todos muito bondosos. Nos primeiros dias foi muito difícil para mim, mas depois me acostumei. Todos gostavam de mim e me cercavam com muito carinho e atenção. Eu logo assimilei as matérias. Eram prazerosas de serem estudadas. As matérias nos ensinavam a lidar com crianças. O que eu mais estranhava era viajar todos os dias e enfrentar ônibus lotado com as mãos cheias de material. Às vezes, não achava nenhum lugar para sentar. Quando o ônibus atrasava era ruim porque eu corria o risco de chegar atrasada na escola. Quando chovia era uma lástima. Nós nos molhávamos e tínhamos que ser malabarista para salvar os materiais. Sem contar quando perdíamos o ônibus e chegávamos mais tarde ainda em casa. Quando isso acontecia, minha mãe morria de preocupação. Cada vez que eu chegava em casa sã e salva, ela agradecia a Deus por mais essa bênção.

Apesar de tantas lutas e sacrifícios, valia a pena, pois eu estava fazendo o que gostava.


CAPÍTULO 50
Angélica

Das amigas que tive naquele colégio, a que mais me cativou foi Maria Angélica. Era uma menina doce, gentil, carinhosa e dedicada com todos. Sua mãe se chamava Iasmim e seu pai, Inério. Era de uma família maravilhosa. Eles moravam em Mirassol.

Nos primeiros dias de aula, Angélica, vendo o nosso sacrifício para estudar, não pôde deixar de estender a sua mão amiga para nós. Levou-nos em sua casa e nos apresentou sua família.

Nós travamos uma grande amizade e nos tornamos amigas e confidentes. Angélica não sabia o que fazer para me agradar.

No início, eu achei que ela era mais amiga de Vera, mas depois percebi que ela possuía mais afinidades comigo. Vera, apesar de ser jovem e amiga, era mais séria. Já eu e Angélica éramos mais brincalhonas e descontraídas. Levávamos tudo na brincadeira, em tudo colocávamos uma piadinha engraçada. Eu achei que Vera ficou um pouco enciumada, mas, depois, ela se acostumou com o nosso jeitinho especial de levar a vida. Às vezes, deixava-se levar pelas nossas brincadeiras.

Eu convidei Angélica para ir a minha casa e apresentei minha família a ela. A minha mãe adorou aquela doce menina, que me tratava com tanta meiguice. Não demorou muito tempo para que nossas famílias se tornassem amigas e se freqüentassem sempre. Nos finais de semana, quando Angélica não ia para minha casa eu ia para a dela. Tudo era motivo de festa para nós.

Desde que completei 18 primaveras, todos os anos eu fazia festinha de aniversário. O dinheiro era pouco, mas dávamos um jeitinho brasileiro. Todos colaboravam e nos reuníamos na minha casa.

Era raro acontecer um domingo que não nos reuníamos. Quase todos os domingos, nós fazíamos almoços especiais em minha casa. Cada um levava um prato diferente e fazíamos uma festa! Sem contar as brincadeiras dançantes. Tantos casais freqüentavam minha casa! Eu sentia que a minha mãe ficava um pouquinho sufocada com tanto tumulto de jovens. Por outro lado, ela ficava feliz e tranqüila por ver Toninho e eu rodeados de tanta gente alegre e simpática. Parece que aquela alegria a contagiava.

Eu tenho certeza de que ela gostava de ver as minhas paqueras e namoros mais de perto.


CAPÍTULO 51
A homenageada

Apesar de estudar fora e de minha vida estar um tanto agitada, eu não abandonei a minha vida religiosa. Continuava freqüentando as reuniões do movimento jovem, participando das missas, cantando no coral e viajando para dar as minhas palestras.

No ano de 1977, o presidente do movimento jovem fez uma comunicação que me comoveu muito. Ele disse que a minha mãe seria a homenageada do ano. No dia das mães, teria uma missa especial e ele queria que eu lesse o texto intitulado Retrato de Mãe.

“Uma simples mulher existe que, pela imensidão de seu amor, tem um pouco de Deus; e pela constância de sua dedicação, tem muito de anjo.

Que sendo moça, pensa como anciã; e sendo velha, age com as forças todas das juventudes.

Quando ignorante, melhor que qualquer sábio, desvenda o segredo da vida; e quando sábia, assume a simplicidade das crianças pobres.

Sabe enriquecer com a felicidade dos que ama; empobrece para que seu coração não sangre, ferido pelos ingratos.

Forte, entretanto, estremece ao choro de uma criancinha; e fraca, entretanto, se alteia com a bravura dos leões.

Viva, não lhe sabemos dar valor porque à sua sombra todas as dores se apagam; e morta, tudo o que somos e tudo o que temos daríamos para vê-la de novo e dela receber um aperto de seus braços, uma palavra de seus lábios.

Não exijam de mim que eu diga o nome dessa mulher, se não quiserem ensopar de lágrimas este álbum porque eu a vi passar no meu caminho.

Quando crescerem seus filhos, leiam para eles essa página.

Eles lhe cobrirão de beijos a fronte e dirão que um pobre viajante, em troca da suntuosa hospedagem recebida aqui, deixou para todos o retrato de sua própria mãe.”

Minha mãe teria que ir à missa sem saber de nada, pois eles queriam fazer uma surpresa para ela. Não foi difícil convencê-la. Ela era muito religiosa e adorava missas.

A igreja estava toda enfeitada de flores e repleta de pessoas da comunidade. Quando chegamos à igreja a minha mãe foi recebida por um grupo de crianças vestidas de branco. Deram-lhe um lugar especial para sentar. Ela ficou sem entender, mas aceitou aquela gentileza. Eu me reuni com a turma. Apesar de estar contente e orgulhosa a respeito de minha mãe, estava um pouco preocupada com ela. Tinha medo de que ela se emocionasse muito e ficasse doente. Os meus amigos tentaram me tranqüilizar, dizendo que ela estava calma e feliz.

A missa foi super emocionante e repleta de hinos lindos. Ao final, eu li aquele texto. Minha mãe ficou surpresa. Ela recebeu tantos presentes. Foi um dia inesquecível para ela e para mim também.

O ano de 1977 foi ótimo. Eu me desempenhei muito bem. As matérias eram fáceis de serem compreendidas e eu passei para o terceiro ano.


CAPÍTULO 52
O estágio

Quero deixar bem claro para você, leitor, que estou lhe contando a minha história ano a ano para não esquecer nem um detalhe importante de minha vida e para você acompanhar tudo parte por parte. Eu não quero e não posso deixar de lado nem um sofrimento nem uma alegria. Não quero ocultar nada, quero que leia tudo com muita atenção e quero, principalmente, que algum fato dessa história verdadeira lhe chame a atenção e lhe sirva de inspiração. Assim, prossigo.

No terceiro ano eu teria que começar a fazer o estágio. Assistiria às aulas nas classes de primeira à quarta série primária. Teria que aprender a lidar com as crianças e ensiná-las.

Dona Vanda, a nossa professora de Psicologia e Didática, dividia a nossa classe de duas em duas. Cada duas alunas teriam que assistir aula em uma classe diferente. Para fazer estágio, nós tínhamos que ir de manhã e ficar o dia todo na escola. De manhã fazíamos o estágio e à tarde freqüentávamos a aula normal. Foi legal aquele contato com as crianças, umas eram amáveis e dóceis. Já outras eram peraltas e agitadas. Nos primeiros dias de estágio, somente assistíamos às aulas. Posteriormente, a professora titular deixava a classe conosco.

Fazíamos estágio três vezes por semana: segunda, quarta e sexta. Em pouco tempo eu já sabia dar aula e conseguia dominar a classe com a maior facilidade. Pelo fato de ser cega, eu precisava do auxilio de outra amiga para escrever na lousa. Isso não era difícil, visto que eu sempre estava com uma amiga. O estágio foi ótimo para mim. Por meio dele adquiri muita experiência; porém, era muito cansativo ficar o dia todo fora de casa. Às vezes, eu levava almoço, outras vezes, lanche.

Angélica sempre nos convidava para almoçar em sua casa, mas nem sempre aceitávamos. Não queríamos tumultuar a paz doméstica daquela família bondosa. Logo que comecei a fazer o estágio, as crianças ficavam curiosas e todas queriam sentar perto de mim e fazer perguntas. Depois elas se acostumaram e fizeram uma grande amizade comigo. Na hora do recreio todas queriam me acompanhar. Dentre todas as crianças, uma era especial para mim.

Era uma garotinha chamada Sílvia. Ela estava na segunda série primária. Era magrinha, pequena, muito pobre e adorava estudar. Logo imaginei que ela teria que batalhar muito como eu para chegar em algum lugar nessa vida. Aquela garota me fazia voltar ao passado. As nossas histórias eram mais ou menos parecidas. Muitas vezes, eu dividia o meu lanche com ela. Às vezes, eu levava um a mais para ela. Eu adorava pegar aquela menina carente no colo e lhe contar histórias. Eu tinha um carinho muito especial por ela.


CAPÍTULO 53
A anemia

Pelo fato de estudar muito, ficar muito tempo fora de casa e ter muitas atividades, eu comecei a sentir um cansaço fora do comum. Não tinha apetite e sentia muito sono. Às vezes, era difícil me controlar para assistir às aulas. Comecei a emagrecer muito. As minhas roupas quase não serviam.

Minha mãe estava preocupada porque estava me achando muito abatida e pálida. Um dia na escola, passei muito mal e acabei indo parar no hospital. O médico me consultou e disse que eu teria que fazer alguns exames minuciosos. Receitou-me alguns remédios e eu voltei para casa. Não disse nada a minha mãe para não preocupá-la, mas eu estava me sentindo cada vez pior. Um dia ao voltar para casa, senti-me muito febril. Como se fosse um resfriado, senti dores por todo o corpo e tremia de frio.

Minha mãe, vendo-me naquele estado, foi à casa de Isa pedir socorro ao meu cunhado João Vasques. Sem muita demora, levaram-me para o hospital. O médico disse que eu tinha que ficar internada.

Minha mãe voltou chorando para casa, mas não existia outro jeito. Dona Vanda providenciou tudo para minha internação e Angélica se prontificou a ficar comigo no hospital. Assim, minha mãe ficaria mais tranqüila. No hospital, eu fiz vários exames, ficando constatado que eu estava com anemia profunda. Teria que fazer um tratamento rigoroso. Fiquei internada vários dias. Isa ficava comigo durante o dia e Angélica durante a noite. Nunca vou me esquecer da dedicação que as duas tiveram comigo. Felizmente, resisti ao tratamento e consegui me recuperar. Graças à atenção e dedicação de Angélica, eu copiei toda a matéria que tinha perdido na escola e essa minha ausência por alguns dias não me prejudicou em nada.

Consegui passar para o quarto ano de Magistério em 1978. Recebemos os diplomas de terceiro ano. Como sempre foi uma festa maravilhosa! Dona Cecília e minha mãe estavam presentes e orgulhosas.


CAPÍTULO 54
O cursinho

Em 1979 eu estava cursando o quarto ano de Magistério. Estava muito preocupada. Tinha medo de não conseguir arrumar um emprego. Algo me dizia que eu não poderia parar só nisso e que teria que fazer uma faculdade. Sabia que precisaria mudar de Bálsamo, pois era uma cidade muito pequena e seria impossível arrumar um emprego lá. Eu guardava essas preocupações para mim e não comentava nada com ninguém. Até junho, eu continuei levando aquela vida corrida de sempre. Fazendo estágio, freqüentando as aulas e indo uma vez por semana, à noite, na classe especial em Rio Preto. Nunca deixei de me preocupar em fazer uma faculdade. Para prestar o vestibular, eu teria que fazer um cursinho, visto que o Magistério não dava base para isso.

Novas preocupações. Para fazer o cursinho eu teria que pagar ou conseguir uma bolsa. Angélica, já fazia o cursinho no Objetivo à noite em Rio Preto. Ela disse que era época de vestibulinho para conseguir bolsa. Sem demora, eu tratei de me preparar. Para fazer o vestibulinho não precisava pagar nada.

Fiz a inscrição no Esquema, no Objetivo e no Anglo. Fiz vestibulinho nos três e passei em todos. Não podia freqüentar os três, pois estudava praticamente o dia todo. Escolhi o Anglo. Foi com o que mais me identifiquei. Comuniquei a minha mãe que teria que estudar a noite em Rio Preto também. No começo ela tentou resistir, mas depois me entendeu. Não foi fácil para mim. As segundas quartas e sextas, eu ficava o dia todo na escola em Mirassol por causa do estágio e das aulas. À noite, eu ia de lá mesmo para o cursinho em Rio Preto. Por causa do cursinho, eu passei a freqüentar a classe especial do Cardeal Leme às terças-feiras no período da manhã. De lá, ia para Mirassol para assistir as aulas à tarde e voltava à noite para Rio Preto novamente para ir ao cursinho. O dia mais tranqüilo para mim era quinta-feira, pois ficava em casa de manhã. Aos sábados e domingos eu tinha que ir ao cursinho de manhã e ficava em casa à tarde.

Como você pode ver, leitor, a minha vida não era nada fácil e tudo que consegui foi através de muita luta e sacrifício.

Apesar de tanta correria, eu consegui concluir o quarto ano.


CAPÍTULO 55
A professora

Concluído o quarto ano de Magistério, eu me formei para professora. Foi uma festa muito bonita. Para mim parecia um sonho, jamais poderia imaginar que um dia eu seria professora. Só eu sei quantas lágrimas me custaram aquele diploma.

Valeu a pena, mas eu ainda teria que batalhar muito para conseguir um emprego. Eu vi que estava totalmente certa nas minhas preocupações. Eu mesma não acreditava que era uma professora, quase me desanimei, tanto esforço e eu não fazia idéia quanto ainda teria que lutar para ser alguém, para ter um trabalho e principalmente um salário. O meu bom senso e força de vontade falaram mais alto. No ano de 80, eu teria que tomar uma decisão muito séria em minha vida, mas não falei nada para não estragar a festa de minha mãe. Deixei que ela aproveitasse aquela alegria de ter uma filha professora por algum tempo. Além disso, eu queria descansar um pouco para depois me preocupar com o ano vindouro.

Curti aquela festa como se fosse a primeira e única de minha vida. Eu sabia que em janeiro teria que enfrentar sérios problemas.

Descansar era só apelido porque no ano de 1979 eu não teria férias. Tinha que freqüentar as aulas no cursinho para me preparar para o vestibular. Eu falei por alto para minha mãe que iria fazer faculdade, mas não disse o curso nem o horário.


CAPÍTULO 56
A Inscrição

O final do ano foi ótimo, de muitas alegrias, mas também de muitas tristezas. Antes do Natal eu resolvi contar toda a verdade para minha mãe. Disse a ela que no ano de 1980, eu pretendia me mudar para Rio Preto e que iria fazer de tudo para conseguir uma vaga no Instituto Riopretense dos Cegos Trabalhadores. Minha mãe se desesperou, chorava demais e não se conformava com aquela idéia.

Com muito carinho, eu conseguia tranquilizá-la. Ela sonhava e até fantasiava que eu iria desistir daquela idéia maluca.

Maluca para ela, mas para mim era uma ótima idéia. Minha mãe não podia sequer pensar na minha mudança, que começava a chorar.

Os dias correram calmos, mas preocupantes para mim. Eu me preocupava com tanta coisa, que não conseguia dormir nem me alimentar direito. Preocupava-me com o vestibular, com minha mudança, com a minha mãe e com a idéia de, pela primeira vez, morar longe de minha família. Todos os dias, eu rezava e pedia força a Deus para não desistir da batalha antes do tempo.

Eu estava preparada para o vestibular quando chegou o dia da inscrição. Eu preparei a documentação e fui até a faculdade. Eles não disseram nada e aceitaram minha inscrição normalmente.

Depois de três dias me procuraram, dizendo que eu não poderia prestar o vestibular, pois o MEC (Ministério da Educação e Cultura) não tinha aprovado a minha inscrição. Eu me desesperei, fiquei triste e muito decepcionada. A classe inteira do cursinho se revoltou, disseram que iriam fazer de tudo para me ajudar, que não era possível em pleno século XX ainda existir tanto preconceito.

Eu fui à luta, procurei o MEC e o doutor Camilo disse que o MEC não tinha nada a ver com a decisão da faculdade. Fui à faculdade e me disseram que a responsabilidade era totalmente do MEC.

Eu decidi continuar estudando e lutando. Disse ao pessoal da faculdade que eu iria prestar o vestibular de qualquer jeito.

Como já disse, a classe se mobilizou com o meu problema e os professores também. Lembro-me de que, muitas vezes, quando eu chorava desesperada no cursinho, os professores e colegas de classe vinham me consolar com palavras confortadoras e animadoras. No meio de tanto preconceito e falta de informações concretas, decidi procurar o jornal. Acássio, Shirley, Angélica e o professor Faiçal me deram muita força. Acássio e Angélica iam comigo a todo lugar que eu precisava. Com a minha ida ao jornal, a coisa ferveu.

O MEC tentava tirar o corpo fora e a faculdade também. Eu me tornei manchete de jornal por vários dias e fiquei muito conhecida. Todos me paravam na rua para perguntar sobre aquela situação delicada. Eu estava lutando com todas as minhas forças; mas, no fundo, tinha medo de não conseguir vencer aquela batalha tão perigosa e tentadora para mim. Chegou o dia do vestibular e eu não tinha uma decisão. Não sabia se poderia fazer aquela prova tão sonhada por mim.


CAPÍTULO 57
A resposta

Naquele mesmo dia, liguei para a faculdade às oito horas da manhã. Eles disseram que teriam uma resposta para mim às 14 horas. Meu coração batia forte, eu senti um nó na garganta e chorei muito. Não consegui comer nada. Eu tremia e torcia a mão nervosamente. Mesmo que eles concordassem que eu prestasse o vestibular, não tinha a certeza de que iria ser bem sucedida, diante daquela guerra de nervos. O pessoal do jornal estava atrás de mim para saber o resultado que seria um prato cheio para eles. Às treze e trinta fui para a faculdade, não agüentava esperar mais. Quando cheguei, todos me receberam muito bem e não sabiam o que fazer para me agradar. Eu estava muito nervosa e curiosa para perder tempo com amabilidades; por isso, fui direto ao assunto. Eu queria, eu precisava saber a resposta imediatamente. O diretor da faculdade, vendo-me tão angustiada, pediu que me sentasse, que ele precisava dar uma notícia para mim.

Não quis me sentar, estava quase para explodir. Ele pediu que me acalmasse, que eu podia ficar doente e no hospital seria impossível prestar o vestibular.

Não entendi direito as últimas palavras dele, ou melhor, não acreditei. Pedi que ele repetisse sem brincar comigo. Ele me disse muito feliz que eu poderia prestar o vestibular, que estava tudo certo. Quando ouvi aquelas palavras fiquei muda, gelei-me toda e quase desmaiei. Ele pediu que Euclides, o moço que trabalhava na secretaria, me trouxesse um copo d’água. Emocionei-me tanto que não consegui engolir a água. Eu chorava, não conseguia dizer uma palavra sequer. Angélica e Acássio me abraçavam e via-se que estavam emocionados com aquela notícia. O diretor nos alertou e disse que a primeira prova seria à noite.


CAPÍTULO 58
A tempestade

Eu estava em Rio Preto, eram 15 horas. Eu tinha que ir para Mirassol na casa de Angélica tomar banho e jantar. De lá liguei para minha mãe e falei sobre a notícia. Ela ficou feliz por mim e me desejou muita sorte. Fizemos tudo muito rápido. A prova seria às 20 horas. Talvez o leitor esteja estranhando de até agora não ter dito o que iria prestar naquele dia tão importante para mim. É que eu queria fazer surpresa. Eu ia prestar Direito, pois tinha uma vontade muito grande de ser advogada.

Saímos de Mirassol às 18 horas e 30 minutos. O tempo estava formado para chover. O vento estava muito forte e trovejava sem parar. Chegamos em Rio Preto às 19 horas. Ficamos com medo, Angélica disse que ia chover bastante, que o tempo estava muito escuro. Felizmente, Acássio e sua esposa Shirley estavam nos esperando na rodoviária. Quando entramos no carro, estava começando a chuviscar. O vento entortava as árvores. Em pouco tempo começou a chover fortemente, os trovões e relâmpagos era arrasadores. Chovia granizo. Ficamos preocupados e começamos rezar. Não me lembro de ter presenciado uma tempestade tão feia como aquela. Em poucos minutos as ruas e avenidas ficaram totalmente inundadas. Não dava para ver nem as calçadas. Parecia que estávamos navegando em um mar violento. Eram árvores caídas, carros e motos que rodavam na enxurrada, foi uma enchente horrível. Acássio teve que parar o carro, não tinha condições de continuar a dirigir com aquela tempestade. Ficamos mudos, não tínhamos coragem de abrir a boca para dizer uma palavra.

Um desespero enorme tomou conta de mim. Temi por nossas vidas, temi por não chegarmos em tempo de fazer as provas. Fiquei horrorizada com tudo que estava acontecendo. Não consegui esconder aquele sofrimento aos meus amigos. Acássio, Shirley e Angélica tentaram me acalmar, mas percebi que eles também estavam muito horrorizados. O congestionamento foi grande. Havia muitos carros parados esperando passar a tempestade. Acássio tentava encontrar uma saída. Certo momento, lembrou-se de um outro caminho, que, talvez, nos daria passagem. Precisávamos sair daquela inundação urgentemente! Se ficássemos ali por muito tempo, nossas vidas estariam correndo um sério risco. As orações e a força de pensamento foram tão grandes, que, de repente, fomos iluminados. Os carros tentavam tomar um novo rumo e a tempestade se acalmava. O granizo cessou, mas a água caía abundantemente, como se tivesse sendo despejada por baldes gigantescos.

Apesar de muita água, Acássio conseguiu sair daquele abismo perigoso que estava nos ameaçando. Apesar de termos nos livrado do perigo maior, não estávamos totalmente salvos de um acidente. Acássio teve que ser muito prudente. Fomos devagar, continuava chovendo e as ruas estavam muito perigosas, totalmente alagadas e cheias de objetos carregados pela enxurrada. Com muito jeito, Acássio se livrava dos perigos. Quando me disseram que tínhamos chegado na faculdade, pensei que estivessem brincando comigo, mas logo me tiraram da dúvida.

Acássio parou o carro e descemos. Eu tremia muito, pois achei que não fosse conseguir andar para entrar na faculdade. Com aquela confusão toda, nos esquecemos de olhar a hora. Parecia que tínhamos ficado no carro muitas horas. É que quando estamos sofrendo o tempo não passa, os minutos se transformaram em longas horas. Felizmente conseguimos chegar em tempo de fazer a prova. Todos ficaram abismados ao me verem. Acho que pensavam que eu não iria por causa do temporal.


CAPÍTULO 59
O vestibular

Tive uma recepção na faculdade que não esperava. Havia muitas pessoas esperando por mim, inclusive jornalistas e repórteres. Eu estava muito nervosa e ansiosa por tudo que havia acontecido comigo nos últimos dias e, principalmente, naquele fatídico dia tempestuoso.

A prova iniciou mais tarde, por causa da tempestade. Tínhamos uma semana de provas pela frente. Naquele dia seria redação.

A competição era grande. Para disputar 300 vagas, eram 7 mil vestibulandos. Todos estavam nervosos e ansiosos por uma vaga.

Os jornalistas queriam me entrevistar antes da prova; porém, não aceitei. Eles esperaram pacientes por mim. O título da redação era O Problema da Violência no Brasil.

Refleti um pouco e comecei a escrever. Não sei de onde me veio tanta inspiração. Escrevi tanto! Não queria mais parar.

Falar sobre a violência que o meu país enfrentava e está enfrentando até hoje não foi difícil. Começando da violência com as crianças e todas as gerações até o vandalismo das obras públicas.

Fiquei super satisfeita, estava certíssima que tinha ido bem. Quando entreguei a prova, os jornalistas invadiram a sala que eu estava. Todos queriam me entrevistar. Com muita calma consegui atenuar aquela situação. Respondi todas as perguntas que me fizeram. Tiraram várias fotos minha. No outro dia as minhas fotos estavam estampadas nas primeiras páginas dos jornais da cidade. Na rua todos me abordavam e queriam falar comigo. Interrogavam-me sobre o vestibular e a faculdade. Foi maravilhoso.

Minha mãe ficou orgulhosa de mim. Como já disse parágrafos antes, ainda teria uma maratona muito difícil pela frente. As outras provas, provavelmente, não seriam tão fáceis. Tratei de deixar o entusiasmo e a badalação de lado e fui estudar. Felizmente, aquela semana de provas e pesadelos passou. Cabia-me aguardar o resultado.

Só Deus sabe como eu esperei ansiosa. Eu estava um pouco preocupada porque as minhas respostas não tinham batido com as dos meus amigos. Estava com medo de não ter passado. Quando o resultado saiu, eu estava sem coragem de saber. Angélica comprou o jornal para acompanharmos o resultado. Disse para ela olhar o nome dela primeiro.

Ela sorriu e me disse que o meu nem era preciso procurar naquela lista enorme, pois a minha foto estava na primeira página. A matéria dizia que eu tinha passado com ótimo resultado e que a minha redação era uma das primeiras. Fiquei muito feliz. O que me deixou um pouco aborrecida foi o fato de meus amigos de cursinho não serem aprovados.


CAPÍTULO 60
A matrícula

Mais uma vez eu fui manchete de vários jornais. Por eu ter passado no vestibular minha família e meus amigos ficaram muito felizes. Todos me abraçavam, me elogiavam, me davam presentes e eu nem sabia como retribuir aquela amabilidade.

Porém, nem tudo é festa. Eu estava com um grande problema pela frente. Para pagar a matrícula havia um prazo estabelecido. Como pagar se não havia dinheiro? Acássio, vendo a minha dificuldade, recorreu ao jornal. Foi uma campanha sensacional! Não demorou para que aparecesse uma alma caridosa para me ajudar. O senhor Luiz Pena, homem bom, honesto e respeitado, pagou a minha matrícula.


CAPÍTULO 61
A bolsa de estudos

Fiquei feliz e agradecida por aquele ato caridoso, mas o problema não acabava ali. Eu tinha outro mais sério. Conseguir uma bolsa de estudos. A faculdade não dava. Eram quatro anos de estudos. Eu teria que conseguir uma bolsa integral. Mais uma vez o bondoso Acássio recorreu aos jornais. Eu estava sem esperanças e muito desanimada.

Era sábado. Eu, Toninho e minha mãe tínhamos ido ao bar da Isa. Meu sobrinho me chamou, disse que tinha um homem me procurando. Fui até aquele desconhecido que me traria muita felicidade. Era o senhor Henrique Arenas. Ele disse que tinha acompanhado a minha luta através dos jornais. A luta para prestar vestibular, para conseguir a matrícula e para conseguir a bolsa de estudos era grande. Disse que a Transtécnica me daria uma bolsa integral para os quatro anos com o maior prazer. Fiquei eufórica. Conversamos muito. Aquela noite nem consegui dormir direito. Apesar de estar muito feliz, eu estava preocupadíssima com uma decisão que teria que tomar.


CAPÍTULO 62
A decisão

Na segunda-feira, convidei Angélica para ir a Rio Preto comigo. Procurei o senhor Euzébio, presidente do Instituto Riopretense dos Cegos Trabalhadores. Eu já conhecia Odenir, um rapaz deficiente visual que morava lá. Já sabia que o Instituto era um lar e que havia uma família que enxergava tomando conta. Sabia que em caso de necessidade, eu também poderia morar lá.

Expliquei para o senhor Euzébio toda a minha situação. Eu não poderia viajar todos os dias, pois eu teria que perder uma aula e meia para alcançar o ônibus que ia para Bálsamo. Além do mais, eu já estava cansada de viajar todos os dias e, mesmo se desse tempo de tomar o ônibus, eu teria que continuar dependendo da ajuda da Prefeitura porque não tinha dinheiro para viajar. Expliquei para ele que eu teria estágio e muita matéria para copiar. Resumindo, teria mesmo que morar em Rio Preto, caso contrário, seria muito difícil estudar na faculdade.

O senhor Euzébio entendeu a minha situação e concordou que eu fosse morar no Instituto. Adorei ter conseguido aquela vitória. Porém, para mim, uma grande alegria sempre vinha acompanhada de tristeza e problema. Dessa vez, não seria diferente.

Não sabia como contar para minha mãe. Tempos atrás, eu tinha comentado com ela sobre a possibilidade de morar no Instituto. Ela chorou muito e não aceitou. Eu tinha medo de que ela ficasse doente, mas precisei me arriscar, sobretudo porque não existia outra opção.

As aulas começariam em março, já estávamos em fevereiro e eu ainda tinha providências a tomar. Parece que minha mãe já estava adivinhando. Quando cheguei em casa, ela foi me encontrar e, vendo a minha cara de preocupação, interrogou-me. Gaguejei, enrolei, mas tive que acabar falando. Ela chorava desconsolada, pois nunca tinha se imaginado ficar longe de mim. Eu sentia uma enorme vontade de chorar e voltar atrás, mas não podia fraquejar. Era o meu futuro que estava em jogo. Minha família, meus vizinhos, meus amigos e meus colegas não se conformavam com aquela decisão. Para falar a verdade, nem eu mesma conseguia me conformar. Enfim, o que estava feito estava e eu não podia voltar atrás.


CAPÍTULO 63
A arrumação

Foram dias de muita tristeza, muitas lágrimas e muito carinho entre eu e as pessoas que me queriam bem. Comecei a preparar as minhas roupas, os meus objetos pessoais para a mudança.

Minha mãe ficava sempre junto a mim, me auxiliando. Não tinha a mínima idéia de como preparar a mala, aliás, eu não sabia fazer nada. Sempre fui uma garota mimada, sempre tive pessoas a minha disposição para fazer o que eu precisasse e quisesse.

A culpa não era minha, me acostumaram assim desde pequena. Às vezes, eu tentava fazer alguma coisa, mas minha mãe questionava e eu me acomodei naquela situação. Minha mãe chorava desesperadamente, ela implorava e argumentava para que eu mudasse de idéia. Eu ficava um pouco abalada, mas pedia força a Deus para não desistir. Ela se preocupava com as minhas roupas, não queria que eu levasse as mais novas, tinha medo que a lavadeira estragasse as peças. Ela sempre teve um zelo tão grande pelas minhas coisas, que era de se admirar. Tirei muitas coisas que não ia usar mais como: roupas, calçados, bijuterias e outros objetos pessoais. Pedi que ela desse para alguém necessitado. Ela achou bonita a minha atitude.

As minhas amigas, colegas e vizinhos não saíam da minha casa. Elas também não se conformavam com a minha decisão. Até parecia que ia me mudar para o fim do mundo.

Nas semanas que antecederam a minha mudança, íamos dormir muito tarde. Eu gostava tanto daquele aconchego que até perdia a vontade de me mudar.


CAPÍTULO 64
A triste despedida

Enfim, chegou o tão triste dia. Era 29 de fevereiro de 1980. O meu cunhado João Vasques e Isa levaram a minha mudança de carro. Minha mãe e Toninho também foram. Foi uma viagem triste, quase não conversávamos. O silêncio era cortado pelo barulho do carro e pelos soluços de minha mãe. Tentávamos consolá-la, mas não havia jeito.

Chegamos no Instituto, onde todos esperavam por mim curiosos. Minha família entrou para conhecer o Instituto e as pessoas que moravam lá. Foram conhecer o quarto que eu ia morar. Não ficaram lá muito tempo. O meu cunhado tinha outros compromissos e minha mãe chorava demais. Eu me segurava para não chorar perto dela para não inquietá-la ainda mais.

Dona Osmarina, a mulher que morava no Instituto para tomar conta, tinha três filhos: Tânia, Marilu e Vladimir. Tânia tinha onze anos, ela se encantou comigo. Desde que cheguei lá, ela ficava sempre ao meu lado. Quando minha família foi embora, eu pedi licença a ela, me tranquei no quarto e chorei muito. Tinha uma vontade imensa de voltar para casa no mesmo dia. Não me animava a desarrumar as malas nem sabia por onde começar. Decidi não mexer em nada naquele dia.


CAPÍTULO 65
O Instituto

O Instituto era uma casa grande composta de vários cômodos: quinze quartos, sendo sete na ala feminina e oito na ala masculina. Cinco banheiros, sendo três na ala feminina e dois na ala masculina. Despensa, cozinha, refeitório, rouparia, quarto de costura, salão de visitas, escritório, alguns cômodos desocupados e lavanderia.

No quintal havia uma horta e vários varais. Na frente, havia bancos grandes para sentar, tomar sol e também conversar à noite nos dias de calor. Era uma casa grande, mas eu achava triste e sombria. Hoje o Instituto mudou muito, passou por uma séria reforma. Não mora mais ninguém lá. Os deficientes vão apenas para estudar e retornam para seus lares.

Naquele tempo, podíamos morar lá. O senhor Euzébio era padrasto de Dona Osmarina. O Instituto estava praticamente como uma família. Havia diretores que não eram da família, mas eram todos muito unidos. Era uma família acolhedora que fazia tudo para que nos sentíssemos bem. O senhor Euzébio era casado com Dona Júlia, uma doce mulher, muito humana.


CAPÍTULO 66
Os membros do Instituto

Como eu já disse, morava uma família lá que tomava conta do Instituto. Dona Osmarina era casada com João Batista, tinham três lindas crianças. Todos enxergavam normalmente. A família de Dona Osmarina era muito grande, tendo, portanto, muitas crianças que freqüentavam o Instituto. Morava lá também, a neta do senhor Euzébio, por nome de Cássia. Eu dividia o quarto com ela. Ela ficava lá porque estudava em um colégio próximo. Havia dois funcionários que também residiam lá. Eram dois irmãos: Jota e Maria. Jota fazia a faxina da casa e Maria era a lavadeira. Os demais funcionários residiam fora. Os outros integrantes eram cegos e não sei se me recordo o nome de todos, vou tentar. Havia poucas mulheres e eram idosas. Dona Sebastiana, Dona Vitalina, Dona Umbelina, esta tinha o apelido de Vozinha, porque era a mais idosa da casa. Os homens eram vários: Joaquim, José Ramos, José Montes, Sabino, Odenir, Pereira, Sebastião, Evaristo, Paraná, Alvino, Salvador e muitos outros, que, realmente, não me recordo nesse instante. Só havia dois rapazes e os outros eram idosos. Só sei que morávamos em mais de trinta deficientes lá. Felizmente, com o passar do tempo, vários jovens foram morar lá, tanto rapazes, como garotas. O primeiro ano que eu ali morei não foi nada fácil para mim.


CAPÍTULO 67
Como eu me senti no Instituto

Senti-me um peixe fora d’água. Era um mundo totalmente diferente do meu. Eu estava acostumada com muitos jovens que enxergavam. Ouvíamos música, fazíamos agitos, contávamos piadas e brincávamos muito. Estava acostumada com uma família, com uma mãe maravilhosa, que só faltava adivinhar os meus desejos para satisfazê-los imediatamente. Meus amigos me rodeavam com muito carinho, mimo e atenção. De repente, eu me vi perdida no meio de tantos desconhecidos. Às vezes, eu sentia até medo de alguns. Com o tempo, é claro, descobri que eram todos dóceis e amáveis comigo.

O meu primeiro momento no Instituto foi tenebroso. Senti-me acuada, com muita vergonha, não tinha coragem sequer de abrir a boca para conversar. Eu chorava desesperadamente, sentia um medo inexplicável, nada me fazia voltar à razão. No dia que me mudei, estava acontecendo uma festa no Instituto. Era o casamento do senhor Euzébio com Dona Júlia. Eles viviam juntos há muito tempo e decidiram se casar naquele dia. O Instituto estava repleto de conhecidos da família. Os filhos e netos de Dona Júlia, os filhos e netos do senhor Euzébio e alguns amigos íntimos da família e todos os deficientes.

Todos adoravam Dona Júlia, pois ela era a deusa daquele pessoal carente. Eu não estava com cabeça para festa, preferi ficar trancada no quarto. Ouvia a alegria do pessoal e não conseguia entender aquela felicidade. A primeira impressão que tive daquele lugar é que estava presa numa cadeia. Senti-me horrorizada, tinha ojeriza de ouvir a voz daquelas pessoas. Tive vontade de cavar um buraco bem fundo e me esconder de tudo e de todos. Às onze horas chamaram-me para o almoço. Eu não tinha força nem coragem de me dirigir ao refeitório. Fome, então, nem pensar, só de lembrar de comida sentia enjôo. Tratei de ficar quietinha no meu canto, estava torcendo para que não sentissem a minha falta. Não demorou para que Tânia batesse na porta do quarto. Fingi que não estava ouvindo, mas ela insistiu. Vendo a insistência daquela doce criança, abri a porta. Ela me convidou para almoçar, pegou em minha mão meigamente. Eu resisti, disse que não estava com fome. Ela fez de tudo para me convencer, como eu não aceitasse, recorreu a sua avó. Dona Júlia carinhosamente disse que eu não podia ficar sem comer. Lembrou-me das recomendações de minha mãe, argumentou tanta coisa que eu decidi acompanhá-las.

Ela me mostrou a mesa que seria minha e me apresentou os companheiros de mesa. Sentei, fiquei espantada quando percebi aquele prato cheio de comida na minha frente. Ela disse que eu poderia comer. Eu estava tão enjoada, não sabia por onde começar. Naquele fia o cardápio era arroz, feijão, macarrão com frango e carne moída com batata. Não gostei da comida, achei que estava sem tempero, além do mais, detestava frango e carne moída. Não podia nem pensar na possibilidade de um prato lotado em minha frente. Almoçar naquele horário era uma catástrofe para mim. A batata estava cortada só no meio, comi apenas um pedaço e me retirei discretamente. Maria, a lavadeira do Instituto, era solteira. Uma moça simples, humilde, mas muito gentil e simpática. Ela, vendo-me tão triste, se aproximou de mim e conversamos muito. Consegui me distrair um pouco, mas naquele dia não consegui jantar também. Fui dormir bem cedo, estranhei bastante porque estava acostumada a me deitar sempre tarde.

Resolvi dormir cedo para me livrar da curiosidade das pessoas. Demorei a pegar no sono, mas consegui dormir um pouco. Acordei com o chamado para o café da manhã. Fui ao refeitório, mas me decepcionei. O cardápio era: chá mate, café e pão com manteiga.

Nunca tinha ficado sem tomar leite. Em resumo, não comi nem bebi nada. Pedi ao Odenir para que me acompanhasse até uma mercearia para comprar leite e bolachas. Comprei uma lata de leite em pó, vários tipos de bolachas, pão de fôrma e mais algumas coisas, das quais eu não me lembro. Eu sentia muitas saudades de minha mãe, de minha casa, de tudo que tinha deixado para trás.


CAPÍTULO 68
As dificuldades

As dificuldades que enfrentei foram inúmeras. Eu não sabia fazer nada, a minha mãe sempre me tratou como uma princesa, não deixava eu mover uma palha. No outro dia, quando me levantei fiquei totalmente desnorteada, não sabia arrumar a cama.

Tânia, com muito encanto e carinho, ensinou-me. Os meus cabelos eram longos, as minhas amigas me chamavam de índia. E para pentear os cabelos? Fiquei desesperada. Penteei do meu jeito e o deixei solto. Dona Osmarina disse que eu tinha que lavar as minhas roupas, mas que ela me ensinaria. Fiquei totalmente embaraçada. Achei que não ia dar conta de assumir tantas responsabilidades. O dia que me mudei para o Instituto era uma sexta-feira, me senti tão sem ambiente, que resolvi passear em minha casa no final de semana. Tal foi a alegria de minha mãe quando me viu chegar. Não contei nada sobre as minhas dificuldades. Só disse que iria cortar os cabelos porque iam me dar muito trabalho e eu não conseguiria cuidar deles. Ela não queria, mas acabou aceitando para me favorecer.

Foi ótimo o meu final de semana, estava tão gostoso que não sentia a mínima vontade de voltar. Aproveitei bastante aqueles deliciosos momentos ao lado de minha família e amigos. Como na vida nem tudo é festa, na segunda tive que voltar para o Instituto, prometendo retornar no próximo final de semana. Aproveitei para levar comestíveis dos quais eu gostava. Foi triste a minha volta, mas já estava um pouco conformada. Aquela segunda-feira seria o meu primeiro dia de aula na faculdade. Eu tremia de medo só de pensar. Teria que tomar dois ônibus e sozinha. Nunca tinha ido até uma esquina sem acompanhante.

Em Bálsamo, eu ia à casa de minhas amigas, sozinha, mas era diferente. A cidade era pequena, quase não havia movimento e, além do mais, todos me conheciam. Já Rio Preto era uma cidade grande, super movimentada. Nos dois primeiros dias, Dona Cecília me acompanhou de carro, deu-me muita força.

Já na quarta-feira seria o dia fatal para mim. Sofri demais, mas fui sozinha. Os motoristas e cobradores me auxiliaram, avisando o ponto que eu deveria descer. Tomei um ônibus até a faculdade. Na faculdade foi fácil, pois a maioria dos passageiros era estudante. Dona Cecília foi à faculdade me encontrar. Senti-me aliviada com a presença dela. Fiquei um pouco deslocada na classe, mas logo fiz amizade com a turma.

Eram pessoas bacanas que estavam dispostas a me ajudar. Fiquei com medo do trote do primeiro dia de aula, mas me respeitaram a não mexeram comigo. Aos poucos, fui me acostumando com aquela situação. No Instituto, não conseguia me alimentar direito e na faculdade enfrentava sérios problemas, pois não havia livros em Braille. Eu tinha que copiar tudo. Fiz várias amizades e o pessoal ditava as matérias para mim. Nos finais de semana, eu ia para minha casa. Minha mãe se preocupava muito, me achava abatida e magrinha.

Eu tentava tranqüilizá-la dizendo que estava tudo bem.

Com o tempo eu passei a ser o xodó, o raio de sol do Instituto. Fiz amizade com todos, conversava e brincava muito. Porém, quase tudo era motivo de lágrimas para mim e todos queriam me consolar.

Com já disse capítulos atrás, era a única moça deficiente que morava no Instituto. Todos gostavam de mim. Os velhinhos adoravam quando eu ia conversar com eles. Contavam-me muitas histórias e eles ouviam a minha carinhosamente. Comecei a sentir um carinho especial por todos, era como se eles fizessem parte de minha família.

Eles reclamavam porque eu não tinha muito tempo. Estudava no período da noite e todas as manhãs ia para o Cardeal Leme. À tarde, copiava as matérias da faculdade e estudava com alguns amigos. De manhã, eu ajudava Dona Cecília e copiava matérias também. A minha vida era muito corrida, mas sempre que me sobrava um tempinho, eu o dedicava ao pessoal do Instituto, principalmente aos idosos.


CAPÍTULO 69
A Notícia

Desde que me mudei para o Instituto, minha mãe ficou muito triste, pois ela sentia a minha falta e chorava demais. Isa a convidou para morar em sua casa. Ela hesitou um pouco, mas acabou aceitando. A principio, fiquei preocupada, mas depois me tranqüilizei. Na casa de Isa havia um cômodo grande que meu cunhado desocupou para minha mãe morar. Eu gostei muito. Assim, ela não ficaria tão sozinha com Toninho.

Além do mais, Isa tinha telefone, assim eu poderia conversar com minha mãe quantas vezes quisesse. Toninho não gostou muito da idéia, mas depois se conformou. Aquela notícia da mudança de minha mãe fez algo mudar dentro de mim. Parece que algum objeto precioso tinha se quebrado. Eu senti uma saudade inexplicável daquela casa simples e humilde, mas que tinha nos trazido muita sorte e felicidade. Analisei e fiquei brava comigo mesma. Não podia ser tão egoísta, eu já tinha me mudado, tomado um rumo diferente em minha vida. A minha mãe também tinha seus direitos. Calei-me e não disse nada.

Com o tempo, é claro, descobri que ela tinha feito a melhor opção.


CAPÍTULO 70
A faculdade

A faculdade era bem diferente das escolas onde eu tinha estudado. Era uma classe numerosa. Havia alunos de todas as idades. Os professores eram também diferentes, mas bondosos e compreensivos.

As matérias eram realmente puxadas e tomavam praticamente todo o meu tempo. Infelizmente, não havia material em Braille e eu tinha que me desdobrar, copiando toda a matéria. Não podia cochilar, tinha que fazer quase o impossível para estar em dia com as matérias. Essa correria me fazia bem. Eu me distraía e não tinha tempo para pensar e sentir saudades. Sempre torcia para chegar o fim de semana para estar com minha família. Quando era feriado, eu vibrava de felicidade.

Adorava ir para minha casa, ficar com minha família e comer a comida deliciosa de minha mãe. Adorava estar com meus amigos, passear livremente e me esquecer um pouco da agitação da cidade grande.

Quando estava em minha casa, dormia gostosamente e esquecia as preocupações da vida. Os finais de semana e feriado eram sagrados para mim. Eram os dias mais importantes de minha vida.

Na segunda-feira, eu tinha que voltar para aquela minha vida corrida e dar tudo de mim para conseguir ser alguém. Felizmente, sempre tive facilidade para fazer amizades e, na faculdade, fiz muitos amigos. Ia para a faculdade de ônibus e voltava de carona. Nem gosto de lembrar quando tomava ônibus, com as mãos cheias de material e com a bengala. Às vezes, era preciso que os passageiros mostrassem o lugar para eu me sentar. Quando chovia era uma catástrofe. Eu sentia uma vontade imensa de não ir à aula, mas não podia faltar de maneira alguma. Tinha a necessidade de ficar por dentro, não podia perder nada. Eu enfrentava aquele pesadelo. Não tem nada mais desagradável para um cego do que sair sozinho num dia de chuva.

Um deficiente visual pisa em poças d’água, molha e suja os pés, bate a bengala e a água espirra abundantemente. Quando está ventando forte, temos que ser artistas para não se perder. Sem contar que não há condições de carregar sombrinha ou guarda-chuva, principalmente quando está com as mãos cheias. Em dia de chuva, as pessoas ficam apressadas para não se molharem e quase não ajudavam quem está precisando. Quando alguém me ligava no Instituto em dias de chuva dizendo que ia me buscar, eu dava pulos de alegria porque, com certeza, me livraria de muitos incidentes desagradáveis. Eu me lembrava saudosa da vida que levava em Bálsamo. Nunca estamos felizes com o que temos. Quando eu estava em Bálsamo, achava que teria uma vida melhor em Rio Preto e, no entanto, as coisas não eram nada fáceis para mim. Com minha ida para Rio Preto aprendi a valorizar minha família, como se fossem jóias raras e preciosas para mim.


CAPÍTULO 71
O desânimo

Bem, leitor, como já deu para você perceber, a minha vida em Rio Preto era um tanto complicada e difícil. Eu tinha que batalhar muito para acompanhar a classe. Eles tinham os livros e apostilas nas mãos e eu tinha que copiar tudo para acompanhá-los. Era uma maratona difícil que estava me deixando desanimada. Eu fiz uma amizade muito bonita com Célia e ela me dava muita força. Estudávamos juntas. Quase todas as tardes eu ia a casa dela para estudarmos.

Célia era casada com Ignaldo e tinha um filhinho por nome Júnior, era uma gracinha. Ele já estava acostumado comigo. Quando não dava tempo de voltar para o Instituto, eu jantava na casa dela e íamos juntas à faculdade. Dona Osmarina também ma ajudava muito. Lembro-me de tantas vezes que ela ficava ditando matérias para mim, até altas horas da noite. Ela sempre me dizia brincando que também queria um diploma de advogada, pois já estava ficando por dentro de tudo. Ela me esperava chegar da faculdade e dizia que queria me ajudar. Às vezes, eu estava tão cansada, que achava que não ia ter forças. Porém, nunca fui do tipo que desperdiça chances nessa vida.

Copiava as matérias até de madrugada. Só parava quando ela me convidava para ir dormir. Eu dormia pouco porque no dia seguinte tinha que me levantar cedo para ir até o Cardeal Leme. Todo dia era a mesma coisa. Depois de algum tempo que morava no Instituto, a minha mãe passou a ficar hospitalizada com mais freqüência. Quase todas as semanas, Isa me ligava avisando que minha mãe estava internada. Eu ficava triste e desesperada, não sabia o que fazer. Na maioria das vezes, ia para o hospital nos horários de visita. Ela sempre ficava internada na Santa Casa de Saúde de Mirassol. Eu deixava as minhas obrigações escolares para visitá-la. Para mim ela estava em primeiro lugar. Ela ficava preocupada, dizia que eu não devia abandonar os estudos por sua causa, que ela não queria esse sacrifício de minha parte. Eu tentava tranqüilizá-la, dizendo que estava em dia com as matérias. Na realidade, eu estava estafada, tinha medo de não conseguir levar tudo até o fim. Não sei de onde conseguia arrancar tanta força para agüentar aquela vida corrida e tumultuada. Acho que era pela boa vontade de meus amigos e por bondade de Deus. O pessoal da faculdade percebeu a minha situação e conversava muito comigo para me animar.


CAPÍTULO 72
O gravador e as fitas

Um dia, depois de ter ido ao hospital visitar minha mãe que estava muito mal, cheguei arrasada na faculdade, quase em cima da hora. Dava para ver as marcas de sofrimento em meu rosto. As minhas amigas conversavam comigo e eu custava a responder o que elas me perguntavam. Ficaram indignadas e queriam saber o motivo da minha tristeza. Aquilo nunca tinha acontecido comigo na faculdade, mas naquele dia não agüentei e chorei desesperadamente.

O pessoal tentava me consolar, mas não conseguiam. Todos ficaram assustados ao me virem daquele jeito. Chegaram a propor me levarem ao médico. Aos poucos sufoquei o pranto. Todos me cobriram de carinho e elogios. Disseram que tinham uma surpresa boa para mim, mas só revelariam se eu sorrisse. Dei um suspiro mais triste que uma lágrima, que não convenceu muito. Ernesto se aproximou de mim e colocou vários pacotes sobre a mesa, disse que era tudo meu.

Abri o pacote maior, era um gravador. Depois abri os outros, eram várias fitas virgens. Fiquei atônita sem entender nada. Ele me disse que a classe tinha feito uma vaquinha para me ajudar. Com o gravador e as fitas eu gravaria as aulas, assim as coisas se tornariam mais fáceis para mim. Apesar de estar arrasada, fiquei feliz com a bondade de meus amigos. Sem dúvida, as coisas facilitaram para mim cem por cento. Felizmente, terminou aquele semestre. Fiz as provas e fui bem. Graças a Célia e Dona Osmarina, já tinha copiado boa parte do semestre seguinte.


CAPÍTULO 73
As férias

Graças a Deus, havia as férias tão esperadas por mim. Felizmente, eu poderia passar o mês em minha casa ao lado de minha família. Poderia descansar um pouco daquela vida agitada, embora tivesse um pouco de coisa para copiar. Só de estar com minha mãe eu me sentia no céu. Arrumei minhas malas e fui para Bálsamo feliz da vida. Eu dormia e comia bem, até que consegui recuperar alguns quilos. Foi maravilhoso, eu não queria que o tempo passasse. Cada dia que se findava era como se fosse um tesouro perdido. Minha mãe fazia as comidas que eu mais gostava, fazia tudo para me ver feliz. Até parecia um milagre, aquele mês não ficou doente.

Passamos momentos maravilhosos juntas. Não tinha a mínima vontade de voltar para o Instituto. O meu desejo era desistir de tudo e ficar bem sossegada no meu canto. Senti uma paz tão grande aquele mês, que parece ter sido o melhor tempo de minha vida. Era mês de julho, estava fazendo muito frio e eu aproveitava para dormir até tarde. Os passeios que eu dava com meus amigos eram maravilhosos! Eram de causar inveja a qualquer princesa. Todos me tratavam com carinho. Era como se tivesse chegado ao fim do mundo. Eu não queria que aquele tempo passasse nunca mais. Não queria que aqueles momentos deliciosos acabassem. O mundo me ensinou muitas coisas boas. Ensinou-me a viver bem comigo mesma, a cuidar de mim, a me virar sozinha, mas me ensinou uma coisa fundamental, que é valorizar a família e os momentos bons. Quantas vezes, em outros tempos, minha mãe fazia a comida gostosa e eu nem me aproximava da mesa? Eu nem experimentava a comida para agradar minha mãe!

Quantos momentos bons eu desperdicei? Quantas coisas boas deixei passar em brancas nuvens? É que eu não sabia o que estava reservado para mim. Eu nem por sonho sabia o que me esperava. Naquele mês de julho, analisei minha vida e fiquei um pouco triste, porque, naquela época, eu estava consciente, estava mais madura e sabia o que ainda teria que enfrentar, sabia o quanto ainda teria que aprender.

Aquela paz, aquele aconchego foi um doce remédio para minha alma. Descobri como a vida é preciosa, descobri o quanto é maravilhoso ter uma família, ter amigos e principalmente ter paz.


CAPÍTULO 74
A volta

Infelizmente, aquele mês de calma e tranqüilidade passou muito rápido para mim. Tornei a arrumar minhas malas com lágrimas nos olhos. Dessa vez, não deu para esconder as lágrimas de minha mãe. Ela também chorou muito e implorou para que eu desistisse daquela idéia maluca. Por um breve momento, pensei que ia ceder, mas parei para refletir e vi que se desistisse, estaria jogando fora o meu futuro e sendo egoísta comigo mesma.

Tratei de me acalmar e tranqüilizar minha mãe, brincando com ela, como se nada tivesse acontecido. Ela ficou muito triste, mas acabou concordando comigo. Foi difícil me readaptar no Instituto.

Acostumar com as coisas boas é muito fácil. Agora, batalhar, pegar no pesado e enfrentar as dificuldades do cotidiano sozinha, realmente, é bem difícil!

Quando cheguei no Instituto, parecia que tudo estava tão diferente. Por um momento o chão me faltou, mas o carinho do pessoal me reanimou. Continuei estudando, levando aquela vida corrida e agitada e, nos finais de semana, eu era recompensada com um passeio para minha casa. Em poucos dias já estava acostumada com aquela rotina. O mês de agosto passou sem que nada de novo acontecesse.


CAPÍTULO 75
O último domingo

Como sempre, o último final de semana do mês de agosto, fui passear em minha casa. Lembro-me, com muitas saudades, como se fosse hoje. Dia 29 de agosto, era sexta-feira, meu sobrinho João Carlos ligou no Instituto, disse-me que ia a Rio Preto à noite e que se eu quisesse uma carona para minha casa, com o maior prazer ele me esperaria. Que eu poderia assistir às aulas e ele me apanharia na faculdade. Feliz da vida, dando pulos e gritos de alegria, arrumei as minhas coisas.

À noite, fui para a faculdade e, no final das aulas, ele estava me esperando. Foi bom porque pude chegar uma noite antes em minha casa. Minha mãe também adorou a idéia. Não sei por que, mas naquele final de semana, achei tudo tão diferente, que até fiquei impressionada. Todas as vezes que eu ia a minha casa, minha mãe sempre me tratava bem, mas naquela vez foi especial. Ela ficou tão feliz com minha presença! Conversamos e rimos muito. Aquele final de semana, ela estava muito alegre e muito disposta. Ela fez tanta comida gostosa e diferente! Aproveitei a ocasião e fiz uma brincadeira. Disse que ela estava achando que eu ia para o fim do mundo e nunca mais nós duas iríamos nos encontrar. Foram momentos inesquecíveis e marcantes para mim. Na maioria das vezes, quando eu ia embora, ela não me acompanhava até o ponto de ônibus, porque o sol estava muito quente, e ela passava mal. Eu ia com minhas sobrinhas ou minhas amigas.

Naquele fim de semana, ela fez questão de ir ao ponto também. Brincou muito comigo e fez mil recomendações. Eu amei aqueles momentos deliciosos, mas voltei para o Instituto com o coração apertado. O pessoal do Instituto não entendeu o motivo de minha angustia. Fizeram tudo para me ver feliz. Fiquei sossegada, mas dentro do meu coração, tinha uma pontinha de tristeza e preocupação.


CAPÍTULO 76
A morte

Naquela noite não dormi bem, tive muitos sonhos e pesadelos. No outro dia estava indisposta, não fui ao Cardeal Leme.

Estava lá conversando com os idosos quando o telefone tocou. Dona Osmarina atendeu e instintivamente me chamou, dizendo que era para mim. Fui atender e fiquei abalada, quando Isa me disse que minha mãe estava hospitalizada. Chorei muito. Dona Osmarina, tentava me consolar, dizendo que não estava me entendendo, tantas vezes a minha mãe tinha sido internada e voltava boa para casa. Pediu que eu a ajudasse na recepção, para me distrair. Eu a ajudei até o horário da visita no hospital, mas não conseguia conter as lágrimas. À tarde, fui ao hospital e me desesperei ainda mais. Minha mãe não estava bem. À noite fui à faculdade, não consegui assistir às aulas. Pedi para que Célia gravasse as aulas para mim no dia seguinte. Peguei algumas roupas e fui para Bálsamo. Todos os dias nós íamos ao hospital e minha mãe estava cada vez pior. O médico sugeriu que ela ficasse num quarto particular. Imediatamente, meu cunhado João Vasques tomou as devidas providências e ela foi removida para um apartamento. Ficávamos com ela o dia todo, até que ela acabou indo para a UTI. Ficamos todos desesperados. Nunca a tínhamos visto daquele jeito. Foram dias de muito sofrimento, angústia e espera para nós. Além de minha mãe estar mal, eu tinha provas na faculdade, mas não estava com cabeça para estudar, muito menos para fazer provas. Decidi deixar as provas para segunda chamada.

Dia nove de setembro minha mãe piorou muito. Ela já tinha voltado para o apartamento. O médico proibiu as visitas. Isa, desde que minha mãe tinha passado para o apartamento, tinha estado no hospital constantemente. Quando o médico proibiu as visitas, disse que só poderia ficar duas filhas cuidando de minha mãe, os demais teriam que aguardar porque ela precisava de muito repouso. Obedecemos, pois o médico sabia o que estava fazendo. Só nos restava esperar. Ficaram Isa e Sebastiana. Foram todos para casa. Eu fui para a residência de Angélica. No outro dia teria que ir ao Cardeal Leme buscar uns materiais que Dona Cecília estava copiando para mim.

No dia seguinte bem cedo, liguei no hospital para saber notícias de minha mãe. Demoraram muito para me dar a resposta, mas disseram que ela estava melhor. Diante daquela notícia animadora, fui ao Cardeal Leme buscar o material. Fui de ônibus com Suzana, uma amiga minha que também era cega. Ela ia à escola de ônibus particular e eu sempre aproveitava uma carona. No Cardeal Leme todos me acharam abatida e fizeram tudo para me tranqüilizar. Quando cheguei na casa de Suzana, sua mãe Doroti disse que minha mãe tinha recebido alta e já estava em casa. Estranhei, não podia acreditar naquilo, se um dia antes ela estava tão mal, a ponto do médico proibir as visitas? Doroti fez o que pôde para que eu almoçasse. Disse que era para me acalmar, que ela me levaria de carro para minha casa. Depois de tanta insistência, consegui comer um pouco.

Quando acabei de almoçar, Doroti disse-me que o estado da minha mãe era grave, mas que ela tinha insistido muito para ir embora e que o meu cunhado tinha assinado uma autorização para tal. Foram ela e Suzana me levar, parecia que o carro não andava. Eu chorava desesperadamente, elas não tinham mais palavras para me acalmar. Quando chegamos em Bálsamo, eu estava tão desesperada, que não conseguia falar o meu endereço para Doroti. Eu estava muito confusa. Ela, vendo-me naquele estado desesperador, tratou de perguntar para alguém que eu não reconheci, o meu endereço. Quando chegamos em casa, o bar estava fechado e havia algumas pessoas na calçada. Entrei correndo, mas ouvi as pessoas cochichando. Fiquei mais calma quando fiquei sabendo que minha mãe estava viva. Aproximei-me da cama, ela não conversou comigo, já não estava mais falando. Isa me contou tudo o que tinha acontecido no hospital. Disse-me que nossa mãe passou por delírios a noite inteira e que tinha implorado para que a trouxessem para casa.

O médico disse que não tinha mais jeito, mas que precisava que alguém assinasse um termo para ela ir embora. Diante daquela informação, meu cunhado assinou para tranqüilizar minha mãe. Foi horrível. Minha casa ficou cheia de gente o dia inteiro. Minha mãe só gemia, falava tudo enrolado e ninguém entendia nada. Quando ela estava no hospital, não conseguia se alimentar há dez dias. Só estava com soro. Levávamos tudo o que ela gostava, mas ela não conseguia comer. Agora que estava em casa, de vez em quando minhas irmãs colocavam um algodão molhado na boca dela.

Às 7 horas da noite do dia 10 de setembro de 1980 minha mãe morreu. Foi o dia mais triste de minha vida. A morte é uma coisa horrível muito difícil de ser aceita. Parecia que o mundo tinha acabado para mim.

Eu tinha perdido minha razão de viver. O que seria de minha vida? O que seria feito da vida de Toninho, tão dependente dela e tão acostumado com ela?

Eu não me conformava, não aceitava a idéia de perder a minha mãe. Aquela doce mulher, que sempre me acompanhou nos momentos mais difíceis de minha vida. Aquela fada, que sempre adivinhava e fazia tudo para me ver feliz. E agora? Eu ia ser motivo de orgulho para quem? Quem iria me amar e se sacrificar por mim como minha mãe? Sentir-se órfã é a pior coisa do mundo.

A morte de minha mãe tinha levado um pedaço de mim também. Meus amigos foram tão solidários! Angélica ficou comigo o tempo todo. Ela também sentiu muito a morte de minha mãe. A hora do enterro foi tenebrosa. Eu não queria ver as pessoas jogando terra em cima de minha mãe. A morte... A perda de um ente querido é um sentimento inexplicável. Por mais que se tente esquecer, mais se revolta.

Eu lamentei e lamento por não ter ficado mais com minha mãe, por perder tanto tempo longe daquela presença tão deliciosa. É muito triste saber que não vamos ver nunca mais uma pessoa tão querida. É muito triste saber que não vamos mais ouvir a voz da pessoa amada! Saber que não vamos sentir, desfrutar da presença de um ser tão importante.

Com a morte de minha mãe, fiquei 45 dias na casa de Isa. Não tinha a mínima vontade de voltar para o Instituto. Célia me ligou dizendo que eu teria que voltar. As provas de segunda chamada iam começar e eu não podia perder de maneira alguma. Pensei em não voltar mais, mas percebi que agora, mais do que nunca, tinha que cuidar de minha vida e preocupar-me com Toninho que, com certeza, precisaria de mim. Sem muita vontade, voltei.


CAPÍTULO 77
A nova vida

Depois da morte de minha mãe, minha vida mudou muito.

Quando fui morar no Instituto, disse para o senhor Euzébio que seria só por quatro anos, até terminar a faculdade. Com a morte de minha mãe, ela disse que eu poderia morar no Instituto quanto tempo quisesse e precisasse. Fiquei mais tranqüila com aquela comunicação, pois não queria jamais morar com minhas irmãs. Não porque eu não gostasse delas, mas porque percebi que já estava mais do que na hora de cuidar de minha vida. Isa me convidou para morar em sua casa, eu não quis. Preferi ficar no Instituto.

O meu maior sonho era um dia poder levar Toninho para lá também. Ele estava na casa de Isa. Eu percebi que ele não estava muito à vontade. Depois de quase dois meses longe da faculdade, tive que voltar às aulas. Todos me abraçaram e deram os pêsames. Eu já não era mais aquela garota alegre, animada e com muitos sonhos na cabeça. Era simplesmente uma garota sofrida e órfã. Nem sabia por onde começar para fazer as provas. Tinha uma tonelada de matéria para copiar e estudar. Não sei de onde consegui arrancar tanta força para vencer aquela batalha difícil. Fiz as provas. Perdi muitas aulas, mas, mesmo assim, com muito esforço, consegui passar para o segundo ano. De certo que fiquei de exame e de segunda época em algumas matérias. Quase me matei de tanto estudar, mas consegui passar sem ficar em dependência em nenhuma matéria.

Aquela correria foi até bom para mim porque me ajudou a distrair e esquecer um pouco minhas tristezas.


CAPÍTULO 78
O primeiro Natal sem minha mãe

Foi triste o primeiro Natal sem minha mãe. Eu não quis ir para casa de minha família, preferi ficar no Instituto. Convidei Toninho para passar o Natal comigo. Ele aceitou e isso me deixou feliz. Quando fui morar no Instituto, achei que seria incapaz de passar um Natal lá. Eu achava que seria muito esquisito e solitário, mas, com a morte de minha mãe tão recente, preferi me isolar de minha família. Foi um Natal legal, diferente do que eu imaginava em outros tempos. Como a família de Tia Júlia e do senhor Euzébio era muito grande, todo mundo se reuniu no Instituto. Na véspera, teve ceia e Amigo Secreto.

No outro dia, houve um delicioso almoço. Com a visita de Toninho no Instituto, percebi nele a possibilidade de ir morar lá também. No outro dia, Isa foi ao Instituto buscar Toninho.

Fiquei triste com aquela separação e chorei muito. Depois da morte de minha mãe, raramente eu ia a Bálsamo e, por esse motivo, apeguei-me demais ao pessoal do Instituto. Tanto os internos quanto os funcionários e a família de tia Júlia se amarraram em mim.

O Ano Novo e as férias eu fui passar na casa de Isa. Foi bom, conversei muito com Toninho e consegui convencê-lo a ir para o Instituto também, visto que teria um curso profissionalizante e ele, com certeza, poderia participar.


CAPÍTULO 79
A mudança de Toninho

As aulas iam começar e eu tinha que voltar para o Instituto. Dessa vez foi sem lágrimas. Logicamente, na casa de Isa estava gostoso, mas era diferente. Eu já não tinha muitas raízes para me prender em Bálsamo. Depois da morte de minha mãe, eu e Dona Osmarina nos tornamos grandes amigas. Para mim, era como se ela fosse minha segunda mãe. Ela conversava muito comigo e me dava conselhos. Eu confiava piamente nela e ela correspondia a esse sentimento.

Finalmente chegou o dia da mudança de Toninho. Ele também, evidente, estranhou muito, assim como eu nos primeiros dias. Para ele era diferente, ao passo que não tínhamos mais nossa mãe e ele estava na hora de lutar para ser alguém. Aos poucos, Toninho, com muita dificuldade, foi se acostumando com a nova casa. Toninho teve mais sorte, pois eu já estava lá para dar uma força. Infelizmente, o curso profissionalizante não deu certo e Toninho, com a ajuda de um colega, começou a vender bilhetes de loteria. Nos primeiros dias, eu fiquei muito preocupada com ele, mas depois me acostumei. A ida de Toninho para o Instituto foi muito boa para mim, pois me senti mais forte.


CAPÍTULO 80
Os novos amigos

As coisas mudaram muito no Instituto. Pessoas mais jovens começaram a chegar. Depois de Toninho, foi Jacira. Não era uma moça de minha idade, mas não era idosa. Depois foi Lourdes, era mais nova que eu. Apesar de não ter muito tempo para conviver com os novos moradores do Instituto, eu fiquei feliz, pois quando podia estar lá era legal. Como sempre, o segundo ano de faculdade não foi fácil para mim. Muitas matérias para copiar e estudar e, além disso, haveria o estágio. Era uma correria sem fim e eu tinha que me desdobrar para conseguir nota nas provas e nos trabalhos.

Graças à colaboração de meus amigos de escola e de Dona Cecília, eu sempre conseguia dar um passo a frente. Conheci Marisa, uma nova amiga de classe. Aquela gentil garota me ajudava muito. Ditava e lia para mim. Eu, Célia e Marisa éramos amigas inseparáveis. Estudávamos e fazíamos tudo juntas. Os outros também ajudavam, mas Célia e Marisa eram as mais próximas. Apesar da correria e dificuldades, tudo transcorreu bem no segundo ano. Consegui passar para o terceiro ano sem dependência.

Não foi tão fácil como na época de escola e ginásio, visto que os meus colegas de classe tinham a vantagem de ter todo o material à mão. Enquanto eles estavam estudando, eu tinha que perder tempo para copiar as matérias. Mas valeu, graças a Deus, e com força de vontade consegui passar.


CAPÍTULO 81
O Banco de Olhos

Comecei a freqüentar o terceiro ano de Direito em 1982. Como sempre as mesmas dificuldades, mas eu já estava acostumada com aquela vida corrida. Acho até que me fazia bem. Para surpresa minha, foi inaugurado o Banco de Olhos em Rio Preto e a sede era no Instituto. Dona Osmarina e doutor Woyne me convidaram para trabalhar como secretária.

Eles conheciam o meu problema e sabiam que eu ficava a maior parte do tempo fora do Instituto, mas mesmo assim, me aceitaram. Eu faria um revezamento com Dona Osmarina. Era bom porque eu poderia ter dinheiro para comprar as minhas coisas. Fiquei contente e agora teria o meu dinheiro sem ter que depender da boa vontade das pessoas.

Desde a morte de minha mãe, eu passei a ver as pessoas do Instituto como se fossem pessoas da minha família. Eu adorava a convivência com aquelas pessoas humildes e simples. Tenho certeza de que eles também gostavam muito de mim. Vivíamos em união. Sempre um se preocupava com o bem-estar do outro. Se um ficasse doente era motivo de preocupação para todos. Se alguém estivesse feliz com algum acontecimento especial era motivo de alegria para todos. Assim levávamos uma vida feliz e normal. As coisas corriam normalmente sem que nada de especial acontecesse.

A cada ano o grau de dificuldade se acentuava mais e mais. Desdobrei-me para passar para o quarto ano sem dependência e, graças a meu bom Deus, consegui essa vitória.


CAPÍTULO 82
Os três irmãos

Em 1983, comecei a freqüentar o quarto ano de Direito. Com mais maturidade, eu não sofri muito. Já estava acostumada com aquela correria e já me sentia familiarizada com os estudos e com a classe. O pessoal também estava acostumado comigo e fazia tudo para me ajudar e me ver bem.

Só um fato me deixou triste. Dona Cecília foi convidada para trabalhar na Delegacia de Ensino, deixando, assim, a classe especial do Cardeal Leme. Embora ela dissesse que continuaria transcrevendo as provas para mim, eu fiquei um pouco insegura. Além de transcrever as provas, ela copiava muita coisa para mim. Às vezes, até levava para copiar em casa. Apesar de ter certeza de que ela não me abandonaria, me entristeci. Parecia que estava perdendo o meu braço direito. Dona Marilene foi a professora substituta de Dona Cecília. Ela me convidou para ajudá-la a dar aula. Gostei, porque me sentiria mais útil e ganharia mais dinheiro.

Não sei se foi pela minha experiência, mas o quarto ano pareceu-me mais fácil. Tirava boas notas nas provas e conseguia acompanhar a classe com mais calma e tranqüilidade. Nesse ano, aconteceu um fato que me deixou muito feliz. Três irmãos deficientes visuais que moravam em Monções se mudaram para o Instituto. Primeiro veio José Roberto, depois Marlene e Fátima. Eram três jovens humildes e simpáticos. A família deles era maravilhosa e eles foram para o Instituto para estudar. Naquela época, eu auxiliava Dona Marilene no Cardeal Leme e pude alfabetizá-los com muita alegria.

Eles assimilavam tudo muito rápido e se alfabetizaram depressa. A presença deles no Instituto foi ótima para mim, pois eu os tinha como se fossem meus irmãos. Com Fátima eu me apeguei demais. Confiava nela e tínhamos uma linda amizade. Nós tínhamos uma afinidade tão grande e nunca nos desentendemos. Eu me sentia tão bem no Instituto, que ficava com medo daquele tempo bom passasse.

O ano de 1983 passou muito rápido e, graças a Deus, consegui terminar o curso de Direito. Foi uma vitória tão grande, que não conseguia acreditar. Fiz uma descoberta especial. Na nossa vida nada é impossível, mesmo quando vemos tudo perdido em nossa frente, com força e perseverança sempre existe uma pontinha de esperança. Se confiarmos e lutarmos, nós chegaremos ao ideal desejado com certeza.

Eu pude perceber que, mesmo diante de tanto sofrimento e dificuldade, nunca estive sozinha. Fiz um apanhado geral em minha vida e vi o quanto Deus é maravilhoso! Vi todas as pessoas maravilhosas que ele colocou no meu caminho, na minha vida e no meu coração. Quando queremos, tudo vale a pena!


CAPÍTULO 83
O maior troféu

Comecei a me preparar para a formatura. Sem dinheiro, tive que fazer alguns milagres. O anel de advogada não pude comprar, mas ganhei de minha amiga Vera. A beca eu aluguei e o vestido branco, que eu usaria na missa, ganhei de um amigo. A sandália branca eu ganhei de Dona Osmarina. O vestido e sandália para usar após a Colação de Grau, meu cunhado João Vasques e minha irmã Isa me deram de presente.

Não participei do baile nem do coquetel, pois não tinha condições. Eu sei, que se quisesse teria conseguido, mas preferi não abusar da bondade das pessoas, que tanto me ajudaram e contribuíram para a minha felicidade. Mesmo não participando do baile e do coquetel, me senti feliz. Acredito que participei dos principais eventos. Foi maravilhoso, só senti por minha mãe não estar presente. A missa foi linda. Usei tudo branco. Enrolei meus cabelos de bigudim.

Fui me arrumar em um salão de beleza. Da minha família foram Isa, João Vasques e Toninho. Os meus amigos estavam presentes para me cumprimentar. No outro dia fui à Colação de Grau.

Usei um vestido lindíssimo por baixo da beca. Era decotado, fresquinho e calcei um sapato preto. Durante a Colação de Grau usei a beca. Não via a hora de acabar aquela cerimônia, pois a beca era muito quente e estava fazendo um calor insuportável. A colação de grau foi uma cerimônia maravilhosa e inesquecível para mim. Todos me aplaudiram de pé. Célia e Marisa ficaram comigo o tempo todo e me acompanharam para receber o diploma. Durante a Colação de Grau me emocionei, mas não chorei. Após o encerramento, tirei muitas fotos que guardo como relíquia até hoje. Quando terminou tudo, meu cunhado nos convidou para comemorar num barzinho.

Fomos. Levei comigo meus amigos mais íntimos e cada um comemorou do seu jeito. Quando me separei dos formandos para ir comemorar e só fiquei com minha família e meus amigos, eu comecei a chorar. Não havia nada que fizesse me controlar.

Todos fizeram tudo para me distrair e me agradar, mas não adiantou. Eu sentia um vazio muito grande dentro de mim. Sentia muita saudade da classe e da correria que já estava habituada.

E agora? O que seria de mim? Com o que eu iria me ocupar? Que eu teria para passar o meu tempo? Eu sabia que aquele não era o momento para pensar naquelas coisas, mas não conseguia me conter. Esforçava-me para festejar e sorrir com todos, mas não conseguia. No final da festa, minha irmã e meu cunhado foram embora preocupados comigo. Não consegui dormir aquela noite, só chorava e vomitava. Não queria ficar sozinha. Queria sempre muitas pessoas perto de mim para me distrair e tirar aqueles pensamentos tolos de minha cabeça.

No outro dia, amanheci triste e abatida e não consegui me alimentar. Eu estava arrasada e perdida. Não sabia o que fazer. Não sabia que rumo tomar em minha vida. Eu, que tanto reclamava daquela vida intensa e corrida, estava triste porque tudo tinha se acabado.


CAPÍTULO 84
A procura

Eu tinha recebido o maior troféu de minha vida, que era o diploma de advogada. Principalmente um diploma tão suado, sofrido e sacrificado por mim. Já sabia que para arrumar um emprego era quase que impossível. Para isso, era preciso muita grana para montar um escritório. Era preciso me associar a um advogado conhecido e bem conceituado na cidade. Eu não tinha cabeça e muito menos cacife para isso. Além do mais, eu já sabia o que me esperava com falta de material em Braille.

Quando ingressei na faculdade, tinha muitos sonhos para o futuro. Com o passar do tempo e os estágios, percebi e descobri que não ia advogar. Aquela vida não era a que sonhei para mim. Não desisti do curso porque não gosto de parar no meio do caminho e também acredito que nada acontece por acaso.

Se eu tinha optado por Direito é porque tinha uma razão de ser. Não me arrependi de fazer o curso e acho que adquiri maturidade e experiência. Essa experiência tinha sido boa para mim. Apenas, eu não tinha me encontrado profissionalmente, infelizmente. Acho que tudo que aprendemos é válido. Nunca é demais saber e conhecer. Não deu certo como advogada, mas eu não podia parar. Tinha que continuar lutando. Não sabia com que armas, mas, certamente, as arranjaria.

Enquanto não aparecia nada para mim, continuei no Banco de Olhos e no Cardeal Leme, sempre com muita garra e força de vontade para conseguir um lugar melhor. É muito triste a procura, às vezes, eu ficava angustiada e chateada. Outras vezes me acalmava e me conformava. No fundo tinha muito medo de não conseguir arrumar um bom trabalho. Fui muito longe com a minha procura. Fiz um curso de telefonista e adorei a idéia. Fiz estágio em vários lugares e não consegui emprego. Isso me desesperava profundamente. Com o tempo, sai do Banco de Olhos e fiquei só no Cardeal Leme. Às vezes, me cansava daquela procura incessante, mas não desistia. Era persistente. Infelizmente, não é fácil para um deficiente competir com uma pessoa que enxerga, mas eu tinha muita fé de conseguir um emprego.

Apesar de ter acontecido algumas coisas boas em minha vida em 1984, aquele ano não foi muito bom para mim. Foi cheio de expectativas, espera e angústias.


CAPÍTULO 85
Os testes

O ano de 1985 começou com a corda toda para mim e algumas amigas. Um dia eu e as meninas deficientes do Instituto fomos procuradas pela Telesp. Fizemos a ficha e ficamos aguardando pelos testes. Esperamos por aqueles testes com o mesmo carinho e ansiedade que a mãe espera pelo bebê. Eu queria tanto um trabalho, que sonhava acordada com tanta coisa que poderia fazer. Felizmente, chegou o dia tão esperado. Foi inesquecível para mim, até hoje me lembro daquele dia com saudades. Acho que foi o dia mais importante da minha vida. Foram dois dias de testes. Éramos sete: eu, Suzana, Fátima, Marlene, Lourdes, Cirlei e Terezinha.

Ansiosa e terrível foi a espera do resultado. Esperamos tanto e a resposta não vinha. Achava que jamais ia saber quem tinha passado. Procurei me ocupar com outras coisas e seguir minha vida normalmente para não sofrer muito com aquela espera.

Certo dia, recebi um telefonema. Era Buck. Ele perguntou se seria possível eu dar uma entrevista para a Entrelinhas. Entrelinhas é uma revista, ou jornal, que circula entre todos os funcionários, com as notícias mais importantes da Telesp. Eu nem hesitei e disse que iria.

Dona Clarice, uma das monitoras, foi me buscar no Instituto. Arrumei-me bem depressa. Estava muito ansiosa. Lembro-se como se fosse hoje: usei um vestido azul claro. Na Telesp todos queriam falar comigo. Conheci a sala de tráfego inteira. Conheci todas as telefonistas que estavam trabalhando, o PABX, que tanto sonhava trabalhar um dia.

Senti-me tímida no meio de tantos desconhecidos, mas me senti super importante diante de tanto carinho e atenção. Dona Clarice era doce e carinhosa comigo. Fazia de tudo para estar sempre sorrindo. Estranhei um pouco aquela entrevista, mas não comentei nada com ninguém. As perguntas eram como se eu já soubesse que tinha passado nos testes e já tivesse praticamente trabalhando na Telesp.

Ficava um pouco embaraçada, mas tentava respondê-las a contento. Naquele dia, fui embora sonhando um pouquinho mais alto. Apesar de tantas coisas boas que haviam me acontecido, tentei não me iludir muito e procurei levar minha vida normalmente.

À noite fui rodeada pelas meninas que tinham feito os testes. Elas queriam saber tudo sobre as entrevistas e a Telesp. Contei tudo e elas ficaram maravilhadas. Percebi que elas também se iludiram e sonhavam com um futuro melhor.

Passados alguns dias, Buck me ligou novamente. Perguntou se eu podia bater a lista interna da Telesp e disse que eu seria remunerada por isso.

Aceitei imediatamente. Além de estar precisando de dinheiro, a curiosidade falou mais alto. No outro dia, fui procurada por Buck e Dona Brígida, a chefe das telefonistas. Eles leram algumas páginas da lista e explicaram como queriam que eu a copiasse. Pediram a minha opinião e entramos num acordo. Uma amiga ditou e eu a devorei, como um faminto devora um prato de comida. Orgulhosa de mim mesma por prestar um serviço para a Telesp, avisei a Buck assim que a lista ficou pronta. Aguardamos ansiosas para que um dia fossemos chamadas para trabalhar na Telesp.


CAPÍTULO 86
A admissão

Já estava mais calma e despreocupada, quando, em uma tarde, recebi o telefonema de Dona Beatriz. Ela disse que eu e Fátima tínhamos que fazer uns exames médicos para a Telesp. Aquela noite nem dormimos direito.

No outro dia, fomos submetidas a vários exames. Desde exame de vista até de sangue e radiografia do pulmão. As outras ficaram tristes e desanimadas porque não tinham sido chamadas. No fundo elas tinham uma esperança. Logo após os exames, avisaram que tínhamos que providenciar todos os documentos.

Para mim não foi difícil, já tinha todos. Fátima enfrentou uma barra, tinha que providenciar quase todos os documentos, em muito pouco tempo. Com a ajuda de Dona Rute, uma amiga nossa, ela conseguiu. Logo que todas fizemos a ficha, Buck nos avisou que tínhamos que aprender assinar o nome à tinta. Durante aquela longa espera ficamos treinando sem desanimar. Foi por Deus. Naquela época que fomos chamadas, já sabíamos assinar. Após os exames e documentação avisaram que no outro dia tínhamos que estar na Telesp às oito.

Eu estava num dilema terrível. Eu tinha pegado mais aulas no Cardeal Leme porque a professora efetiva da sala estava viajando em Lua-de-Mel. Conversei com a diretora e consegui que a inspetora de alunos ficasse tomando conta da classe para mim.

Dona Clarice apanhou-nos no Cardeal Leme. Dona Cecília, como sempre, não poderia deixar de estar presente naquele dia tão especial. Era dia 22 de março de 1985, o dia do aniversário dela. Ela disse que era o maior e melhor presente que podia receber de nós, principalmente de mim, que ela conheceu desde pequena. Foi um dia marcante para nós. Assinamos tantos papéis!

Por coincidência estava tendo uma festinha na Telesp. No dia 21 as telefonistas tinham passado o objetivo. Passar o objetivo significa atingir acima da meta da empresa. Aproveitamos a festa, apesar de não ter conseguido comer nada. No primeiro dia, foi só para cuidar da admissão. Nem entramos na sala de tráfego. Como eu estava com aquele compromisso de aulas de manhã durante um mês, entrei num acordo com Dona Brígida, que iríamos ser treinadas à tarde. Depois que aprendêssemos, eu trabalharia de manhã, pois deixaria as aulas no Cardeal Leme e Fátima trabalharia à tarde, pois estudava de manhã.


CAPÍTULO 87
Uma nova experiência

Dona Clarice era a monitora que iria nos treinar. Ficou decidido que ela nos buscaria no Instituto, até que estivéssemos aptas a irmos sozinhas para a Telesp. Tudo era curiosidade e novidade.

Nos primeiros dias não sentávamos no PABX, pois havia muita coisa para aprender. As fraseologias, o modo de tratar os assinantes etc. Só sentávamos interligadas com telefonistas que já tinham experiência.

Na segunda-feira da semana seguinte, Jéferson, o segurança do trabalho, começou a nos treinar para irmos sozinhas para Telesp. Aprendemos rápido e nos tornamos mais independentes.

Fui a primeira a sentar sozinha no PABX, pois consegui passar pelo treinamento mais rápido que Fátima. Também nem podia se comparar, eu tinha muito mais possibilidade que ela. Enquanto ela respondia às questões com a reglete, eu respondia com a máquina, sem contar que eu já era uma advogada e ela estava apenas na segunda série primária. Mesmo assim, ela também conseguiu se sair muito bem. Com pouco tempo, ela estava no PABX e dava conta do recado.

A primeira vez que sentei no PABX achei que não ia dar conta. Era muito grande e chamava bastante. Em pouco tempo, como dizem por aí, tirei de letra.

Para mim, era uma vida nova. Quando recebi o primeiro ordenado! Nem sabia o que fazer com tanto dinheiro e dois talões de tickets. Sempre ganhei pouco nos trabalhos anteriores e para aumentar a minha alegria, tinha o último salário de professora, do último mês que dei aula.

Só senti por minha mãe não estar viva para participar de minha alegria. Sempre sonhei em arranjar um bom emprego para ajudar a minha mãe e, quando consegui, ela estava morta. Isso me entristeceu um pouco.

Eu estava feliz não só pelo dinheiro, mas por ter um emprego, por ser valorizada pelas pessoas, por ser importante, por ser lembrada pelas pessoas. Enfim, por ter a minha independência financeira também, por que não? Antes eu recebia, mas era pouco. Comprei roupas, calçados novos, os perfumes de minha preferência, as guloseimas mais deliciosas que eu já sonhei. Daquela vez, comprei tudo sem me preocupar se o dinheiro ia dar porque tinha a certeza de que daria e sobraria. Uma vida nova começou para mim. Agradeci a Deus, tinha realmente valido a pena sofrer e me tornar uma garota independente.

Passei dois anos maravilhosos e deliciosos, sem que nada de anormal acontecesse em minha vida. Trabalhava na Telesp e continuava morando no Instituto. Guardei dinheiro e consegui comprar um telefone, que era sonho antigo meu.

Tudo era paz, tudo era harmonia e, às vezes, eu achava que estava sonhando. Era bom demais para ser verdade. Nem acreditava que depois de tanto sofrimento, pudesse sentir aquela paz infinita. Felizmente era pura realidade. Às vezes, acontecia algo que me chateava, mas eram coisinhas tolas do dia-a-dia.

Em julho de 1987 fui ao congresso no Rio de Janeiro. Era o primeiro encontro do deficiente visual profissional. Lígia, a psicóloga do Instituto foi comigo. Foi uma bênção. Encontrei-me com milhares de deficientes profissionais. Fiquei feliz por ver que tantos tiveram a mesma sorte que eu. Todos os deficientes e acompanhantes que participaram desse evento receberam um diploma. Os que deram palestras receberam dois. Recebi dois porque falei sobre o meu trabalho e todos gostaram.

Esse emprego na Telesp mudou minha vida completamente. Tudo o que tenho hoje, consegui através do meu trabalho.


CAPÍTULO 88
O incidente

Como na nossa vida nem tudo são rosas, aconteceu um fato que fez com que a minha vida desse uma reviravolta muito grande.

Toninho continuava morando no Instituto também. Vendia os bilhetes e, assim, levávamos a vida. Porém, em setembro de 1987, ele teve uns probleminhas no Instituto e decidiu-se mudar de lá.

Fiquei muito abalada e tentei aconselhá-lo, mas de nada adiantou. Não tinha nada que fizesse com que ele mudasse de idéia. Ele procurou a pensão de uma conhecida nossa. Seu nome era Solange. Lá só moravam mulheres, mas tinha um quarto fora da pensão e ela permitiu que ele fosse morar lá. Para mim foi uma dor terrível ver meu irmão arrumar suas coisas e deixar o Instituto. Decidi me mudar também.

Procurei Solange e consegui uma vaga. Foi triste me mudar daquele lugar, que era para mim o meu lar. Deixar aquelas pessoas que eram com se fossem da minha família. Eu já tinha me acostumado tanto com eles, que senti uma dor profunda em meu coração.

O presidente tentou me deter, insistiu para que eu continuasse morando lá. Os idosos e as outras pessoas também quiseram me impediram, mas eu não ia conseguir continuar lá sem o meu irmão. Conversei com eles, expliquei a minha situação e saí sem mágoas.

Sempre que podia ia visitá-los e era uma festa. Foi triste demais mudar para a pensão, apesar de só ter jovens. Estranhei bastante. No Instituto, eu dividia o quarto com Jacira e, na pensão, nós morávamos em seis num mesmo quarto. Ainda bem que Solange cedeu um guarda-roupa só para mim. Logo coloquei um cadeado para que ninguém mexesse em minhas coisas.

Solange e os moradores da pensão faziam de tudo para me ver feliz, mas aquela vida não era a que eu sonhei para mim. Carmem, Cecília e Luciana eram as amigas prediletas. Com o tempo, Carmem e Luciana se mudaram. As outras eram legais, até brigavam para me ajudar, mas as que mais me cativaram foram as três. Carmem eu já conhecia. Cecília e Luciana eu fiquei conhecendo lá. Morei na pensão por oito meses, depois, eu e Toninho decidimos alugar uma casa.

Saí com minha amiga Simone para procurar uma casa boa e que ficasse próxima a um ponto de ônibus. A pensão ficava no centro da cidade e facilitava muito a nossa vida. Essa casa teria que ser em um bairro porque o aluguel era mais barato. Consegui achar uma casa bonitinha no Jardim Higienópolis. Não era um bairro tão afastado da cidade e a casa ficava em frente a um ponto de ônibus.

Eu não tinha móveis. Pedi para que Maria Ângela, a irmã de Solange, fosse na loja ver os móveis para mim. Eu não tinha tempo de cuidar dessas coisas porque estava fazendo hora-extra na Telesp e trabalhava praticamente o dia todo. Saía da Telesp às 17:30 horas e o comércio fechava às 18 horas. Maria Ângela tinha muito bom gosto e conseguiu comprar os móveis que eu compraria se eu fosse à loja.

Com sempre, Isa e João Vasques estiveram do meu lado para me ajudar. Quando me mudei do Instituto, foram eles que levaram as minhas coisas e do Toninho para a pensão. Quando me mudei da pensão, além de levarem os nossos pertences, nos deram um guarda-roupa grande e uma televisão. Eu comprei um fogão, uma geladeira, um armário da cozinha, uma mesa grande com seis cadeiras, uma estante e um jogo de sofá. Toninho já tinha cama, colchão e guarda-roupa. Comprei também minha cama, colchão e todos os utensílios de que uma casa precisa.

Quando decidi mudar da pensão, Cecília me procurou e pediu para ir morar conosco. Disse que dividiria as despesas, só que não poderia ajudar muito porque ganhava pouco, mas que ajudaria no que pudesse. Fiquei um pouco indecisa e pensativa, mas acabei concordando. Disse a ela que não precisaria ajudar com dinheiro, que eu queria que ela me ajudasse no serviço da casa.

Ela concordou e ficou muito feliz. Ficou decidido que ela moraria em minha casa e continuaria trabalhando fora. Nós duas faríamos o serviço de casa nas horas vagas. João Vasques deu uma cama para Cecília e ela comprou o colchão.


CAPÍTULO 89
A nova casa

A casa ficou uma gracinha quando estava tudo arrumadinho. Na sala ficaram o sofá e a estante com a televisão. No quarto de Toninho ficou a cama, o guarda-roupa e uma cômoda, que eu já tinha desde que mudei para a pensão. No meu quarto havia minha cama, a cama de Cecília e o nosso guarda-roupa. Na copa estavam o armário, a mesa com as cadeiras e a geladeira.

A cozinha era muito pequena e ficou lá só o fogão. Logo no primeiro dia que mudamos, fizemos amizade com Dona Helena e sua filha Sônia. Era uma família maravilhosa e foi de cara nos oferecendo ajuda. Aceitamos e ficamos felizes, pois o fogão ainda não tinha chegado. Dona Helena nos deu o jantar. Sônia não sabia o que fazer para nos ajudar. Éramos quase da mesma idade e nos tornamos grandes amigas.

Ela ia constantemente em minha casa e sempre estava alerta para o que desse e viesse. Quando um de nós saía para passear, ela fazia companhia para os outros. Quase todos os finais de semana, ela ia dormir em minha casa. Nós ficávamos conversando até tarde e ouvindo música. Para nós, era uma festa! Nunca o nosso assunto se esgotava. Sempre tinha um fato novo. Com a mudança para aquela casa, minha vida mudou muito. Quando chegava do trabalho, tinha que limpar a casa, lavar a nossa roupa e fazer a comida. Cecília me ajudava muito, mas quase sempre chegava tarde do trabalho. Levávamos uma vida calma e feliz. Minha casa estava sempre cheia de amigos. Acredito que essa tenha sido uma das melhores fases de minha vida.

Sempre gostei de estar perto dos amigos. Adorava compartilhar aquela alegria com eles. Não deixava de agradecer a Deus por aquela calma e tranqüilidade que estávamos vivendo.


CAPÍTULO 90
As experiências da vida

Moramos no Jardim Higienópolis até novembro de 1989. Os momentos maravilhosos e agradáveis, que vivemos naquela casa, foram inesquecíveis para nós. São relíquias, que até hoje guardo saudosa em meu peito.

A amizade que fiz naquele bairro, foi uma sementinha plantada em meu coração. Hoje ela cresceu, floriu e dá ótimos frutos.

Nunca falei de minha vida sentimental porque as minhas experiências com o estudo e com a vida profissional são o intuito desse livro

Você, leitor, só conhecerá a minha mais válida e importante experiência com amor da minha vida.

É lógico que durante o tempo que estudei, tive vários namorados. Alguns sérios que marcaram a minha vida, de alguma maneira. Outros, sem importância. Em 1989, eu já estava realizada tanto nos estudos, quanto na vida profissional. Já tinha aproveitado bastante a minha vida e achei que estava na hora de me casar. Arrumei um namorado no fim de 1988 e decidi me casar em 1989.

Foi um casamento como toda mulher sempre sonhou. Teve festa, vestido de noiva e tudo mais. Comprei uma casa e mudei do Jardim Higienópolis. O dia da mudança foi muito triste. Eu, Toninho e Cecília já estávamos acostumados com aquela casa que nos trouxe tantas alegrias.

Sentimos por deixar nossos amigos em bairro distante. Com o meu casamento, ficou decidido que Cecília trabalharia em minha casa. Ela gostou e ficou feliz. Eu também gostei, pois já estava acostumada com ela. Não gostei da casa nova. Era pequena e mal cabiam os móveis. Com o aumento e uma boa reforma ficou legal. Infelizmente, o meu casamento durou apenas dois anos e meio.

Acredito que não deu certo por falta de maturidade minha. Não estava preparada para um passo tão sério, que é o casamento. Não tive forças para levar aquela relação até o fim, mas foi uma experiência.

Tanto as experiências boas quanto as ruins são válidas. São peças que a vida nos prega. Essas experiências são para que a aprendemos alguma coisa e é sempre bom tirar algum proveito dessa aprendizagem. Servem para nos amadurecer.

Pelo lado prático da vida, todas as experiências são boas, pois aprendemos com elas e nos tornamos cautelosos. Pena que no vai-e-vem da vida, nos ferimos e também machucamos pessoas boas, honestas e inocentes que, talvez, não merecessem. Pena que sempre apanhamos sozinhos. A vida é um elo que envolve tantas pessoas e, às vezes, por causa de uns, outros tenham que sofrer. Infelizmente, não somos donos de nossos destinos. O tempo passa, as coisas acontecem e vão escapando pelos vãos dos dedos, sem condições de controle. Bom seria se a pudéssemos fazer o tempo voltar atrás e pensasse duas vezes antes de fazer alguma bobagem.


CAPÍTULO 91
Cecília

Cecília, apesar de ser mais nova que eu, me tratava como se fosse sua filha. Fazia todas as minhas vontades e eu era muito mimada. Cecília morou comigo durante 4 anos. Ela era considerada como uma pessoa da família. Nós combinávamos melhor do que duas irmãs. Na nossa vida, nem tudo é eterno e um dia ela resolveu se casar. Foi uma catástrofe para mim. Praticamente era ela a dona de minha casa. Tempos atrás, eu tinha feito curso de culinária e aprendi cozinhar muito bem. Mas, quando resolvia fazer uma comida diferente, ela estava sempre por perto me vigiando, como se eu fosse uma criança.

Tudo que precisava estava na mão. Ela abria as latas, olhava as comidas no forno, enfim, tinha todos os cuidados para que eu não me machucasse. Era ela que sabia onde ficava tudo. Eu não me importava com nada e entreguei minha casa totalmente a ela.

No fundo, eu achava que ela nunca ia me abandonar. Sofri muito com a despedida de Cecília. Era como se tivesse perdido alguém da minha família. Achei que não ia conseguir viver sem a aquela doce presença. Sem aquela gentil menina, que estava sempre por perto me dando a maior força.

Quando Toninho se casou, em março de 1990, eu fiquei muito triste por ter que ficar longe dela. Cecília fazia tudo para me alegrar, dizia que sempre que eu quisesse me levaria na casa dele.

Depois de muito chorar e sofrer, acabei me acostumando com aquela idéia. Quando tinha passado o baque do casamento de Toninho, em 1992 Cecília também resolveu se casar. Então, sofri toda aquela perda novamente. Nunca vou me esquecer da bondade e dedicação com que ela tratava Toninho e eu.

Com o tempo, entendi que Toninho e Cecília tinham que viver a vida deles. Percebi que estava sendo egoísta. Eles também mereciam ser felizes e só me restava torcer por eles. Torcer para que eles tivessem mais sorte do que eu.

Com a saída de Cecília, me sentia perdida e solitária. Depois de Cecília passaram várias empregadas em minha casa. Eu não me acostumava com elas, nem sempre elas faziam tudo certinho. Até que um dia apareceu Rosa. Ela era uma menina carente, que precisava de um emprego para morar. Combinamos e ela foi para minha casa. Com o tempo me acostumei com ela e nos tornamos muito amigas.


CAPÍTULO 92
Um raio de sol

Naquela época eu não tinha carro, ia para o trabalho de ônibus. Indo todos os dias no mesmo horário e no mesmo ônibus, fiz amizade com muitos passageiros. Algumas pessoas que me ajudavam quando dava na teia, outras neutras.

Dentre tantos passageiros, havia um, Itemar, que por coincidência tomava o mesmo ônibus na cidade. O emprego dele ficava na mesma rua que o meu. Itemar morava no mesmo bairro que eu. Ele ia brincando com todo mundo. Ele contava piadas, cantava, falava versos e aquilo me incomodava profundamente. Eu não conseguia entender meus sentimentos, mas se pudesse não o deixaria fazer aquilo.

Tinha uma mulher que também ia no ônibus e os dois brincavam muito. Passei a sentir uma antipatia grande e gratuita por ela.

Um dia tomei o ônibus na cidade com destino ao meu trabalho e Itemar me ofereceu ajuda. Eu não aceitei. Ele descia dois pontos depois de mim. O ponto que eu estava acostumada descer estava uma lástima, em construção, entulhos e muitos obstáculos que me atrapalhavam. Apesar de tantos obstáculos, não entendi porque não aceitei aquela ajuda que seria preciosa para mim.

No outro dia ele tornou a oferecer ajuda. Hesitei um pouco, lembrei do meu sofrimento do dia anterior e aceitei. A partir daquele dia, ele passou a me ajudar constantemente. A cada instante, a cada momento, a cada dia a nossa amizade aumentava mais. Eu tinha comprado um telefone há muito tempo, mas ainda não tinha sido instalado. Quando o instalaram, eu não cabia em mim de contente. Dava o número para todas as amigas me ligar, nem parecia que trabalhava na Telesp, no meio de tantos telefones. Ter um telefone sempre foi o meu maior sonho. Acho que foi por isso que fiquei feliz.

Um dia no terminal do ônibus, quando dei o número para uma amiga, Itemar anotou sem que eu soubesse. À tarde, ele me ligou tentando passar um trote. Eu reconheci a voz dele na hora.

Aquele telefonema me trouxe uma alegria inexplicável. Itemar fez amizade com Toninho e Suzana. Ajudava a todos sem distinção.

Toninho estava construindo uma casa aqui em Rio Preto e Itemar acompanhou aquela construção do princípio ao fim. Quase todos os dias nós íamos ver o andamento da casa. Ele não sossegou, enquanto não viu a casa pronta. Eu percebia que com ele era diferente. Eu era especial para ele, tanto que ele quis aprender o Braille. Em doze aulas ele já sabia ler e escrever. Não conseguia tirá-lo de minha cabeça, mas não queria admitir.

Um dia quando estávamos indo para o trabalho, ele apertou minha mão de um modo especial. Retribui aquela carícia e uma grande ternura nos envolveu. Foi muito bom. Não tínhamos coragem de tocar no assunto, mas tudo estava mexendo demais com nossa cabeça. Se há uma coisa em nosso corpo que não mandamos, e muito menos conseguimos controlar, é o coração. Ele não obedecia por mais que insistisse. Itemar abriu a porta do meu coração, entrou e a trancou, jogando a chave no mar.

Para mim não existia coisa melhor do que estar com ele. Quando dormia, ele estava presente em todos os meus sonhos. Quando estava acordada, ele era o raio de sol que iluminava minha vida. Ele passou a ser a luz dos meus olhos e do meu caminho. Passou a fazer parte total e integral de minha vida e do meu destino. Por mais que quisesse tirá-lo de minha vida, seria humanamente impossível. Eu já estava contaminada por aquele amor, que veio como um turbilhão e me envolveu profundamente.


CAPÍTULO 93
Os obstáculos

Na minha vida sempre consegui tudo o que quis, mas tudo o que consegui foi com muito sofrimento e daquela vez não poderia ser diferente.

Começaram a surgir vários empecilhos que atrapalhavam o meu relacionamento com o Itemar. Ninguém entendia o nosso amor. As pessoas me diziam que a nossa diferença de idade era muito grande e que esse relacionamento jamais daria certo. Outras diziam a ele que eu era cega, que provavelmente eu iria sentir ciúmes. Além de interferência de terceiros, tivemos outros problemas que não valem a pena serem citados. Não ligávamos com o falatório do povo, mas eram tantos problemas que, de uma certa forma, nos afetavam. Eu recebia trotes de todas as espécies, tentando destruir o nosso amor. Não sei o que as pessoas ganhavam, tentando atrapalhar a vida de duas pessoas que se amavam. As pessoas duvidavam do nosso amor e lutavam para que aquele sentimento tão bonito se acabasse. Para algumas pessoas, o fim do nosso amor seria uma vitória. Não é fácil viver um grande amor. Se o amor não for forte e verdadeiro, se não tiver uma base sólida e um alicerce, não vai para frente. Felizmente, o nosso amor era verdadeiro, baseado somente em verdades e muito carinho.

Leitor, eu sei que nesse capítulo tem uma parte obscura que, certamente, você não entendeu. É que na nossa vida acontecem fatos absurdos, que se forem explanados poderão machucar e ofender muitas pessoas. É preferível omitir fatos que irão machucar a mim mesma. Infelizmente, grande parte da sociedade ainda é muito preconceituosa. Infelizmente, a incompreensão é primordial na nossa vida. Se eu narrar certos episódios daquela época vai gerar uma polêmica muito grande. O meu intuito não é esse, o que passou, passou. Este capítulo está sendo crítico e desagradável para mim porque a palavra omissão não é muito costumeira no meu dicionário. Pena que nem todos pensem e entendam assim. Levando por outro lado, é melhor que seja assim. Não quero e não posso ser egoísta. Tenho que pensar em outras pessoas que não pensam como eu e que, com certeza, se magoariam.


CAPÍTULO 94
O afastamento

Eu e Itemar nos sentimos perdidos e solitários no meio daquela batalha. As pessoas que se diziam nossos amigos viraram as costas para nós. Em vez de nos ajudar, eles preferiam nos criticar ou fazer piadas de mau gosto. Foi a pior fase da minha vida, mas foi uma ótima lição porque aprendi muita coisa das quais eu não acreditava que fossem verdades.

Aprendi a conhecer as pessoas como realmente elas são e que, infelizmente, nem sempre podemos confiar nelas. Aprendi, também, que o importante não é a quantidade e sim a qualidade.

A maioria das portas fechou-se para nós. As pessoas que se diziam nossos amigos nos tratavam como estranhos. Dos muitos amigos que tínhamos poucos nos deram a mão.

Foram tão poucos, que não me envergonho de citar o nome deles: Isa, João Vasques, Toninho, Suzana, Rosa, Romualdo Caprara e o senhor Guido. Eles nos deram a mão e nos abriram as portas. Colocaram-se inteiramente a nossa disposição para o que desse e viesse. Fiquei triste. No meio de tantos amigos que tínhamos, nos restaram apenas sete.

No meio daquela confusão toda, de tantos problemas, não conseguia dormir nem me alimentar direito. Emagreci demais e peguei um resfriado muito forte. Estávamos desnorteados e sem sabermos o que fazer.

Um dia, decidimos nos suicidar. Fizemos vários planos para a nossa morte. Primeiro, decidimos que nos jogaríamos do topo do edifício mais alto da cidade. Pensamos bem e chegamos a conclusão de que se fizéssemos isso prejudicaríamos o zelador do prédio. Então, resolvemos nos jogar na linha do trem. Essa tentativa era infalível, com certeza, morreríamos.

Porém, uma preocupação me invadia. Eu não tinha deixado nada escrito para ele. Disse para Itemar que seria melhor irmos jantar e depois deixar algo escrito para que Toninho pudesse entender.

Depois do jantar, nós estávamos mais calmos e decidimos entregar nossas vidas nas mãos de Deus. Decidimos lutar com coragem pelo nosso amor. Eu estava cada dia me senti pior, por conta da indiferença que vinha das pessoas.

Eu estava cada dia mais fraca e minha saúde piorava. Nem por isso deixei de trabalhar. Ia todos os dias ao trabalho, mas me sentia cansada e sem forças.

Certo dia, eu fiquei muito mal, com febre alta e vômito. Naquele dia, avisei minha chefe que não ia trabalhar, pois precisava ir ao médico.

Itemar estava trabalhando e Rosa me acompanhou. O trajeto de casa até a Plantel foi longo e sofrido para mim. Às vezes, eu sentia a morte me rondando, mas Rosa me animava e pedia-me para ter forças, pois chegaríamos logo.

Ela queria tomar um táxi, mas eu estava tão enjoada que não podia sequer pensar em andar de carro. Com muito esforço, conseguimos chegar.

Pedi para a secretária que deixasse me deitar no sofá de espera. Ela percebeu que eu não estava bem e me encaminhou diretamente ao consultório. O médico disse que eu estava com pneumonia e precisava ser internada urgentemente. Ressaltou que eu precisaria de muito repouso e cuidados e que corria risco de vida.

Fui para o hospital e fiquei internada uma semana. Durante esse tempo que fiquei no hospital, Rosa ficava comigo durante o dia e Itemar à noite. Nunca vou me esquecer do carinho e da atenção com Rosa me tratava. Eu estava muito fraca, desnutrida e desidratada; por isso, fiquei com soro o tempo todo.

Ela me dava banho, vestia-me, dava-me comida na boca. Algumas vezes, tratava-me como uma criança e fazia tudo para me ver tranqüila.

Itemar, mesmo estando cheio de problemas, fazia o possível e impossível para me ver bem. Durante o tempo em que fiquei hospitalizada, apenas alguns amigos e minha família foram me visitar. Algumas pessoas da Telesp ligaram para saber como eu estava. Senti que precisava daquele carinho dos amigos, de Itemar, do médico e das enfermeiras. Consegui me restabelecer.

Moramos uns dias no apartamento do senhor Guido. Depois, ficamos de hotel em hotel até conseguirmos comprar a nossa casa novamente.


CAPÍTULO 95
A verdadeira felicidade

O tempo foi passando e tudo foi voltando aos seus devidos lugares. Nós conseguimos comprar a casa e Rosa continuou trabalhando conosco.

Eu e Itemar decidimos viver juntos, um para outro. Com aquela confusão toda, não tínhamos carro nem telefone. Começamos tudo a partir da casa e dos móveis. Aliás, começamos tudo do mais importante, do amor.

Com amor e paciência conseguimos nos reerguer. Lentamente, nós conseguimos comprar um telefone, fato que me deixou imensamente feliz. Vivíamos em paz e na mais perfeita felicidade. O nosso amor não fracassou como muitos queriam. Muito pelo contrário, estava cada vez mais forte.

Certa ocasião, quando estava tudo bem entre nós dois, sentíamos que tentavam nos atrapalhar com trotes e vários golpes sujos, mas não conseguiram. Eu saía do trabalho mais cedo que Itemar e ia para casa. Toda tarde, arrumava-me e ficava esperando por ele. Percebia a presença dele à distância, corria para o portão e ficava com um sorriso nos lábios. Quando ele entrava em casa, era uma festa. Nós nos beijávamos, abraçávamos, ríamos e brincávamos muito um com o outro.

Todo dia íamos mais cedo para o trabalho para namorarmos um no banco da praça. Alguns nos chamavam de casal 20 e achavam lindo o nosso amor.

Aos poucos, fui percebendo que as pessoas que se afastaram de nós foram se aproximando como se nada tivesse acontecido. Depois de tanto sofrimento, eu pude conhecer a verdadeira felicidade.

Conseguimos comprar um carro e foi uma festa para nós. Com o carro, podíamos passear muito mais. Quando chegávamos em algum lugar desconhecido, Itemar ia descrevendo tudo para mim. Passei a enxergar com os olhos dele e aprendi a conhecer o lado belo de tudo nos mínimos detalhes. A paciência de Itemar comigo era inesgotável.

Não só eu, mas Toninho e Suzana também foram privilegiados com a presença daquele anjo bom. Ele não se cansava de se doar totalmente.

Às vezes, eu não acreditava que a minha vida tivesse se transformado daquela maneira. Achava que estava sonhando e jamais imaginei que pudesse ser amada tão intensamente por uma pessoa maravilhosa como Itemar. Conheci um lado encantador da vida, que até agora era totalmente estranho e indiferente para mim. Conheci restaurantes e lugares diversos que me deixavam encantada e de bem com a vida.

Não existe coisa mais gostosa do que amar e ser amada. Não existe coisa mais linda do que viver ao lado da pessoa querida. Dizem que amar é fazer um pacto com o sofrimento. Posso até acreditar que sim e digo que, nesse caso, valeu a pena sofrer. Em troca daquele sofrimento tivemos uma paz infinita. Ah, leitor! Você não sabe como vale a pena lutar, como vale a pena não desistir do nosso objetivo em hipótese alguma. A paciência, a esperança e a perseverança são três palavrinhas das que você não deve se esquecer nunca. São três palavras que devem fazer parte do seu dia-a-dia sempre.

Sempre se lembre de lutar, mesmo se, por alguns momentos, você achar que não valha a pena. Se você parar, desistir e se acomodar, nunca terá a certeza de um futuro melhor.


CAPÍTULO 96
A nossa primeira viagem

Em 1994, depois de um ano e meio que estávamos juntos, Itemar me proporcionou uma alegria enorme. Convidou-me para passar uma semana de nossas férias em Ocean, na Praia Grande. Eu não cabia em mim de contente e comecei a arrumar minhas coisas um mês antes das férias.

Quando era solteira fui ao Rio de Janeiro com minha amiga Carmem. Aproveitamos demais a praia e até peguei uma queimadura de segundo grau. Quando era criança ouvia as pessoas falando do mar e ficava maravilhada com as histórias que ouvia. Depois que aprendi a ler, lia tudo que conseguia sobre o mar. Mesmo sem conhecer o mar tinha um sentimento inexplicável por ele. Acho que foi por isso que fiz tantas extravagâncias quando fui à praia com Carmem. A idéia de voltar à praia, de poder entrar no mar, de sentir aquela brisa, de sentir a maresia, de pisar descalça na areia e caminhar sem nenhuma preocupação me deixou embriagada de felicidade. Convidei minha amiga Sônia para ir conosco. Ela imediatamente aceitou. Disse-me que nunca tinha ido à praia. Eu esperava ansiosa pelo dia da viagem e não conseguia falar nem pensar em outra coisa. Quando estávamos dentro do ônibus, achei que estava vivendo uma benção. Viajamos a noite toda e chegamos às 5h 30 minutos da madrugada em Santos.

Tomamos outro ônibus até a cidade Ocean e fomos direto para as colônias de férias. Fomos muito bem recebidos pelos funcionários da colônia de férias e eles nos indicaram em qual apartamento íamos ficar. Guardamos nossas coisas, tomamos um banho, fizemos nosso café da manhã e saímos para dar uma volta até a praia, que ficava a pouca distância da colônia.

A colônia ficava na Avenida dos Sindicatos. No tráfego até a praia, Itemar e Sônia iam me descrevendo tudo de novo para que viam. Eu, muito curiosa, fazia muitas perguntas. Eles, com muita paciência e doçura, respondiam todas. A alegria que senti quando chegamos na praia foi muito grande. Acredito que foi o tamanho do mar.

Era muito cedo e a água estava um pouco fria. As pessoas estavam sem coragem de entrar no mar. Fomos caminhando descalços pela praia. Criamos coragem e entramos na água de mansinho.

Primeiro, nós deixamos que as águas molhassem nossos pés e nossas pernas. Nem nos demos conta de que estávamos brincando em águas tão frias.

Eu e Sônia não sabíamos nadar; por isso, não nos aventuramos muito. Já Itemar sabia e ia longe. Ultrapassava as ondas e ficava brincando nas com elas. Eu ficava feliz quando ele voltava, pois tinha a certeza de que tudo estava bem.

Ficamos na praia até às 11h 30min e voltamos para a colônia. Tomamos um banho de piscina e brincamos um pouco na água. Já era hora do almoço. Naquele dia, resolvemos almoçar na colônia. Depois do almoço, fomos dar umas voltas pelos arredores para conhecermos tudo.

Descobrimos um restaurante agradável e aconchegante. Chamava-se Cabana e decidimos fazer as refeições dos outros dias ali. Tudo era festa para mim. Eu não me cansava. Itemar e Sônia ficavam abismados com aquela energia toda.


CAPÍTULO 97
Outros passeios

Nós fizemos amizade com muitos que ali passavam. O senhor José guardava os nossos pertences quando entrávamos na água. Ele era um senhor muito bom. Estava sempre sorrindo e nos contava muitas histórias de lá. Eu ficava encantada com tudo que ouvia. Adorei saber todos os detalhes da ressaca do mar. Quando ele começava contar histórias sobre o mar, eu não tinha vontade de ir embora. Ficava horas pensativa e uma melancolia, uma saudade de algo que não sabia direito, tomava conta de mim. Se pudesse me mudaria para perto da praia, mas não estava na hora.

Quase todas as noites, nós três íamos dar uma volta de trenzinho para conhecer os pontos turísticos da cidade. Depois de ficarmos uns dias em Ocean, resolvemos passear por outras praias nas cidades próximas. O lugar do qual eu mais gostei foi São Vicente. O mar de São Vicente é mais clamo e pude aproveitar melhor. Ficamos depois das ondas. A água batia no meu ombro. Itemar me segurava carinhosamente, pois tinha medo que acontecesse algo comigo. Pulávamos quando a água balançava. Procuramos ficar longe das ondas para não engolir água. Saímos da água depois das 11 horas. Estávamos totalmente cansados. Fomos procurar um restaurante para almoçarmos e, por não conhecermos a cidade, andamos bastante. Almoçamos e voltamos para a colônia. Itemar tirava fotos de mim e de Sônia em todos os lugares que ele achava bonito. Naquele dia, todos nós estávamos exaustos.

Itemar não se cuidou. Não gostava de passar protetor solar. Estava tão queimado, que sentia dores por todo corpo. Eu e Sônia fomos até a farmácia comprar remédios para ele. Naquela noite ele quase não dormiu, mas estava disposto para nos acompanhar no dia seguinte. Íamos a Itanhaém.

Tomamos um trenzinho e fomos para a Praia dos Sonhos, onde foi gravada, pela primeira vez, a novela Mulheres de Areia.

Não entramos na água. Já estava tarde e o sol estava muito quente. Andamos um pouco pela praia e depois fomos almoçar.

No restaurante conhecemos Marlene, que por coincidência, morou muito tempo em Rio Preto. A família dela ainda morava em Rio Preto.

Marlene tinha se mudado para São Paulo, onde dava aulas. Ela possuía um apartamento de praia em Itanhaém. No restaurante, ela nos ofereceu salada, começamos a conversar e travamos uma grande amizade. Parecia que nos conhecíamos há anos. Depois do almoço fomos conhecer alguns pontos turísticos do lugar.

Marlene sempre nos contava uma linda história quando chegávamos a determinado ponto turístico. Conhecemos a Ilha das Gaivotas, a casa do pescador Floriano, a pedra de onde o pai de Da Lua tinha caído e morrido, a cama de Anchieta e a estátua da mulher de areia. Fiquei um pouco triste porque os vândalos tinham quebrado o braço da estátua.

Em alguns momentos, nós andamos por lugares perigosos. Eram muitos obstáculos para mim que não enxergava. Itemar e Marlene se encarregaram de me ajudar com muito carinho. Nos lugares mais perigosos, Itemar me carregava no colo. Depois de muito andarmos e conhecermos tudo, fomos em um bar tomar água gelada e sorvete. O tempo estava ameaçando chuva.

Marlene nos convidou para conhecer seu apartamento. Por sorte, quando chegamos no apartamento que era à beira mar, desabou uma forte chuva. Na escada do apartamento, Marlene, Sônia e Itemar olhavam as belezas que a natureza oferecia. Eles me contavam tudo que viam e eu ficava encantada. Sentia uma vontade imensa de ver tudo com os meus próprios olhos, mas ficava triste. Acho que eles adivinharam os meus pensamentos, pois me envolveram com uma ternura tão grande que me senti amada e importante.

Quando passou a chuva, nós fomos embora. Fiquei triste por deixar a doce e encantadora Marlene e deixar aquele lugar, que me trouxe tanta paz.

No sábado à noite, nós fomos passear em Ocean. Foi super divertido! Havia vários trenzinhos. Rimos muito e contamos muitas piadas. Pelo fato da colônia ficar na Avenida dos Sindicatos, havia pessoas de várias cidades do Brasil.

Através daquele passeio de trenzinho, nos tornamos conhecidos. Depois de passear bastante, fomos tomar um lanche numa barraquinha que ficava em frente a nossa colônia. Fomos dormir depois da meia noite. Estávamos muito cansados.

No domingo, eu, Itemar e Sônia levantamos bem cedinho para aproveitarmos o nosso último dia de praia. Já estávamos com as passagens de volta compradas para o domingo à noite. Fomos cedo para a praia, brincamos e aproveitamos bastante. Voltamos para a colônia e tomamos um banho de piscina pela última vez. Depois do almoço, voltamos à praia e nos despedimos dos amigos que tínhamos feito.

Estava ameaçando chover novamente; por isso, não tinha sol e estava ventando bastante. Nos despedimos de todos. Chorei quando me despedi do mar. Por mim não iria embora nunca mais. À tarde, choveu bastante e viajamos com chuva. Fizemos uma ótima viagem de volta. Na segunda-feira, às seis da manhã já estávamos em Rio Preto. Foi um sonho bom que infelizmente passou muito depressa.


CAPÍTULO 98
A excursão

O final do ano de 1994 foi ótimo. Tudo correu bem; porém, sem novidades.

Itemar nunca mudou a maneira de me tratar. Sempre amável, sempre com muito amor e carinho. Nunca me senti tão amada em toda minha vida.

Leitor, talvez você não acredite que o verdadeiro amor exista. Posso lhe afirmar que sim. Já senti isso na minha pele, no meu sangue, no meu coração. É tão ou mais agradável do tudo que de bom e belo a vida nos oferece.

Depois de um ano e meio juntos, nós ainda estávamos vivendo uma doce Lua-de-Mel. Itemar fazia o possível e o impossível para me ver feliz. Ele era diretor social do Sindicato dos Empregados de Turismo e Hospitalidade de São José do Rio Preto.

O presidente do sindicato programou uma excursão para a cidade Ocean em abril de 1995. Depois de ir a uma reunião do sindicato, ele me contou aquela novidade. Eu dava pulos e gritos de alegria. Não acreditava que ia voltar à praia tão depressa. Porém, ele não estava com vontade de ir àquela excursão. Eu o cobria de carinho e implorava que ele concordasse. Ele não sabia dizer não para mim e acabou concordando.

Comecei a me preparar para aquela excursão, como se tivesse me preparando para um casamento. Era como se nunca tivesse ido à praia. Pagamos a excursão em três vezes. Eu esperava o momento de viajar ansiosamente. A única coisa que me entristeceu durante os preparativos para a viagem foi o casamento de Rosa. Depois de quase três anos morando e trabalhando em minha casa, ela se casou. Senti muito por ter que ficar longe daquela grande amiga. Itemar, vendo a minha tristeza, se desdobrou. Enquanto não arrumávamos outra empregada, ele me ajudaria no serviço de casa.

Nós trabalhávamos brincando. Ele via em tudo um jeito de me fazer sentir uma princesa. Às vezes, eu não acreditava que pudesse existir um homem que pudesse fazer tanto bem a uma mulher como Itemar.

Ele era administrador de um prédio e por lá sempre passavam pessoas à procura de emprego. Não ficamos muito tempo sem empregada.

Logo apareceu Neuza procurando emprego no prédio e ele a contratou para trabalhar em nossa casa. Gostei. Ela era muito humilde e simpática. Em poucos dias, ela se adaptou com o serviço e até me ajudou nos últimos preparativos para a viagem.

Foi maravilhoso, ficamos três dias na praia. Fizemos amizade com a família de toda a diretoria do Sindicato.

Curti a praia como se ela fosse parte de mim. É inexplicável esse amor que tenho pelo mar. Se pudesse desvendaria todos os seus mistérios. Itemar, sabendo dessa minha admiração, procurava descrever toda sua beleza. Quanto mais ele falava, mais eu queria saber. Naquele momento, fiquei triste por enxergar o mar só com os olhos da alma. O meu maior desejo era vê-lo como a maioria o via. Era poder correr na areia sozinha, poder entrar na água sozinha, ver as ondas e dominá-las.

Itemar percebeu a minha melancolia e começou a correr e brincar comigo. Eu não disse nada a ele; porém, o nosso amor era tão grande, que ele sempre pressentia o que me atormentava.

O primeiro dia que passamos na praia não foi tão proveitoso porque estava chovendo e fazendo um pouco de frio. Mesmo assim, não deixamos de ir visitar meu amigo mar. Os outros dias foram inesquecíveis.


CAPÍTULO 99
Um grande sonho

Levávamos uma vida de causar inveja. Nunca brigávamos, nunca ficávamos sem nos falar. É lógico que algumas vezes tivemos opiniões diversas, mas nunca foi motivo de divergência para nós.

Itemar sempre me tratou com carinho e ternura, tanto na rua e nos nossos passeios, quanto em casa. Quando saía do trabalho, ele ia correndo para casa. Nunca me deixou sozinha e nunca saiu para passear com os amigos.

Ao me escolher, ele renunciou a tudo.

Eu tentava retribuir aquele amor com a mesma intensidade e fazia tudo para agradá-lo. Queria vê-lo feliz sempre. Nós assistíamos aos programas de televisão juntos e tudo que se passava em silêncio ele me contava.

Eu passei a ter aquele homem charmoso, que me envolveu até a raiz dos cabelos como ídolo. Não sabia o que fazer para mostrar o tamanho do meu amor. Ele era tudo para mim. A razão do meu viver.

Se pudesse dar a mundo a ele, acho que seria pouco. Um dia, resolvi escrever uma carta para o Programa em Nome do Amor, realizado pelo animador Silvio Santos. Realmente é um programa Em Nome do Amor, pois tudo é feito por amor e com amor. Escrevi contando a minha estória de amor com Itemar. Escrevi a carta em Braille e Itemar a transcreveu. Não acreditava totalmente no programa e achava que era tudo combinado. Pensei que jamais fosse ser chamada para participar. Mas no fundo, o meu maior sonho, era ir até lá e contar a nossa história para o Brasil inteiro.

Quando menos esperava, ligaram-me do SBT. Achei que estava sonhando. Na primeira vez, falei com Norberto. Ele me pediu algumas fotos. Enviei-as com a maior urgência. Depois de 8 meses voltaram a me ligar. Falei com Rosana. Reconstitui toda a minha história.

Itemar não acreditava que eu tivesse tido a coragem de enviá-la, por isso quando lhe contei que tinham me ligado do SBT, ele ficou pasmo. Aconselhou-me para que não fôssemos, mas aquela viagem era mais importante para mim do que qualquer coisa. Ele percebeu que não conseguiria me convencer do contrário e acabou concordando.

Pedi licença no meu trabalho por dois dias. Dona Eulália conseguiu isso para mim.

Nos preparamos para a viagem. Era como se estivesse indo para um palácio encantado.


CAPÍTULO 100
Artista uma vez na vida

Quando chegou o dia da viagem, fiquei muito feliz. Durante os preparativos, Rosana manteve um contato por telefone comigo quase que diário. Ela cuidou para que tudo desse certo. Viajamos de avião pela empresa TAM.

A emoção foi enorme. Nunca imaginei que pudesse viajar de avião. No avião fomos tratados como um casal de príncipes. A aeromoça era meiga e educada. Quando voava, me sentia muito emocionada. O meu coração batia em ritmo acelerado e parecia que ia parar. Itemar estava do meu lado, cuidando de mim, com aquele jeitinho todo especial de ser.

Quando o avião decolou, senti um friozinho na barriga e quando pousou também. Pela primeira vez, eu estava em São Paulo.

Quando chegamos, fomos recebidos por um motorista do SBT. Não gastamos um centavo, tudo foi por conta do programa. No aeroporto de Congonhas, ficamos um pouco esperando por Valéria, uma moça do Rio de Janeiro, que também ia participar do programa e que ia ficar no mesmo hotel que nós.

Quando nos encontramos, nos dirigimos para o hotel Eldorado. Rosana ligou para mim até no aeroporto para saber se tudo estava bem. Chegamos no hotel e fomos tomar um banho para jantar. Por ser de classe média, nunca tinha visto tanto luxo e mordomia. O quarto do hotel era lindo. Itemar, sempre incansável, ia me descrevendo tudo. Fiquei encantada com tudo. Jantamos no hotel e ficamos conversando um pouco com Valéria. Depois, fomos dormir para estarmos em forma no outro dia. Não dormimos direito, estávamos ansiosos por tudo que ia acontecer. Itemar, que não estava por dentro de tudo, quase que não dormiu.

Levantamos bem cedo e fomos tomar o café da manhã. Foi um verdadeiro banquete. Mal terminamos de tomar o café e o motorista do SBT já estava nos esperando. Fomos em várias pessoas no carro. Todos iam participar do programa. Durante o trajeto, fizemos amizade com todos. Conversamos e rimos bastante, embora todos estivessem nervosos.

No SBT, nós todos fomos recebidos com muito carinho e atenção. Lá, as mulheres foram para uma ala e os homens para outra.

A Produção deixou todos os participantes do programa impecáveis. Esperamos um bom tempo para que as gravações iniciassem. Serviram-nos lanches e refrigerantes à vontade. Não consegui comer nem beber nada, pois estava muito nervosa. Antes que o programa fosse gravado, Silvio Santos conversou com todas as pessoas que escreveram para o programa. Quando Sílvio nos chamou, meu coração batia tão forte, que parecia que ia sair pela boca. Quando subimos ao palco, fomos aplaudidos por aquele auditório alegre. Eu estava com um vestido palha, longo, rodado e todo trabalhado com aplicações de gripir. O modelo do vestido era frente única e mostrava o colo. Comprei-o desde a primeira vez que Norberto tinha me ligado. Todos acharam lindo e disseram que eu tinha bom gosto. Estava muito bem maquiada e com o cabelo preso.

Itemar estava todo de branco e formávamos um lindo casal. Pela primeira vez, senti-me uma artista, uma estrela.

Sílvio Santos me fazia as perguntas e eu as respondia. Depois de várias perguntas, foi exibido o nosso filme. Esse lindo filme foi montado pela produção, que usaram as cartas e as fotos que enviei. Enquanto passava o filme, Itemar me abraçava e beijava. Diante de tanto carinho consegui me acalmar um pouco.

Quando terminou o filme, Sílvio ainda fez várias perguntas, tanto para mim quanto para Itemar. Quando o casal ia ao programa contar a sua história de amor, ou quando ia se reconciliar, era de praxe, que o programa proporcionasse uma semana em algum lugar turístico do Brasil.

Sílvio nos ofereceu uma semana em algum lugar de nossa preferência. Itemar, humildemente não queria aceitar.

Eu, mais que depressa disse que aceitaria, mas que teria que ser em novembro quando estaríamos em férias. Quando saímos do palco, fomos aplaudidos calorosamente pelo auditório. Fomos nos vestir e aguardamos a viagem de volta. Enquanto esperávamos que as gravações terminassem, eu disse a Rosana que gostaria de conhecer Lombardi.

Ela disse que ele não estava, mas se aparecesse lá, com certeza, eu o conheceria pessoalmente. Tive sorte. Não demorou muito tempo, ele apareceu. Para mim, foi um sonho inacreditável.

Lombardi conversava comigo, como se já nos conhecêssemos há muito tempo. Ele fez questão de tirar uma foto comigo e com Itamar.

Fiquei triste quando chegou a hora de ir embora. Por mim, ficaria morando lá. Sempre fui muito bem tratada por todos, mas lá era diferente. Lá eu me sentia como uma artista, ninguém me conhecia e todos me rodeavam com muito carinho, atenção e curiosidade.

Como na vida nem tudo é festa, tive que encarar a realidade e voltar para a casa. O motorista do SBT nos levou até o aeroporto.

A volta não foi diferente. Fomos tratados com a mesma amabilidade por todos.


CAPÍTULO 101
Os elogios e as críticas

Quando chegamos em casa, nós não acreditávamos que tanta coisa boa tivesse acontecido conosco. Foi tudo maravilhoso. É lógico que estávamos preocupados com as conseqüências. Tudo na vida tem dois lados: o bom e o ruim. Não sei se é felizmente ou infelizmente, mas tudo tem os prós e os contras. Por um lado é felizmente porque sem as divergências a vida seria uma rotina e não teria graça. Por outro lado é infelizmente porque a sociedade sempre nos cobra alguma coisa. Há quem critique algo que fizemos, morre de vontade de fazer nem em sonho faria.

No outro dia, quando voltei ao trabalho, todos estavam curiosos. Queriam saber o que realmente tinha acontecido. Se tudo era verdadeiro e se tudo tinha sido pago pelo programa.

Foi difícil trabalhar naquele dia. Tive que responder mil perguntas. Não cansava de falar tudo o que havia acontecido comigo. Lembrava-me de tudo com muitas saudades como se tivesse acontecido há anos.

O programa foi gravado no dia 19 de junho de 1996 e foi ao ar dia 14 de julho. Enquanto não tinha ido ao ar, as pessoas não sabiam o desenrolar da história e ficaram curiosas para assistir.

Quando foi ao ar, o telefone de minha casa não parava de tocar. Para assistir ao programa, tive que tirar o telefone do gancho. No outro dia, o interrogatório e a curiosidade das pessoas foram maiores. A maioria elogiou, disse que foi tudo muito lindo e emocionante. Alguns criticaram. Disseram que eu não devia ter feito aquilo. Outros disseram que eu tive muita coragem, mas a palavra coragem foi pronunciada com tanta ironia, que me machucou. Houve até quem fizesse piadas de mau gosto. As pessoas que não me conheciam fizeram elogios e se emocionaram. Na rua, muitos nos paravam para saber com detalhes tudo sobre o programa. Algumas pessoas ligaram no meu trabalho, perguntando se era eu mesma que tinha ido ao programa. Com paciência, eu respondia às perguntas na medida do possível. Por causa de minha participação no programa, fiz amizade com alguns deficientes de outras cidades.Na época, fiquei um pouco triste com as críticas e as brincadeiras de mau gosto. Hoje dei a volta por cima e se fosse fazer tudo de novo, eu faria em alto estilo, sem me arrepender.

Algumas pessoas não entenderam porque contei a minha história de amor com Itemar sem omitir fatos. Infelizmente, às vezes, a verdade, que nos deixa felizes, entristece e magoa outras pessoas.

Infelizmente, não pudemos prever e muito menos adivinhar o futuro. Se isso fosse possível, a maioria das pessoas, certamente, não sofreria. Mas não existe o belo sem o feio, a esperança sem a descrença, o otimismo sem o pessimismo. Um caminha ao lado do outro de mãos dadas e fazem a nossa vida ter mais sentido. As pessoas que me entenderam, acreditaram em mim e, com certeza, acreditaram no amor. A convivência entre eu e Itemar, de certa forma, deixava claro que nosso amor era verdadeiro. Para entender esse amor é necessário que as pessoas admirem quem vive a vida sem medo. A maioria acha que o amor é lindo e que vale a pena ser vivido, mesmo que, para isso, nos machuquemos um pouco. Eu me enquadro nessa maioria. Porém, há quem pense que o amor é passageiro e que faz mal. Há quem prefira ficar em cima do muro, vendo tudo passar sem emoção e sem a alegria de nunca ter vivido um grande amor, de nunca ter lutado para conseguir o que deseja, só para não errar.

Pergunto-me: Será que a nossa renúncia da vida não é um erro? Sempre gostei de lutar, vencer, amar, viver e até mesmo, algumas vezes, errar. Errar? Sim, sou humana e a nossa vida é cheia de baixos e altos, erros e acertos. É caindo e levantando que conseguimos tudo o que queremos. É devagar que a alcançamos os nossos maiores sonhos.


CAPÍTULO 102
A má notícia durante os últimos preparativos

De julho a novembro de 1996, tudo correu sem que nada de especial acontecesse. Eu estava ansiosa que chegasse novembro para que fizéssemos aquela viagem tão sonhada por mim. Durante esse tempo, cuidei com muito carinho dos preparativos, sem esquecer nenhum detalhe. Fui às lojas com a Cidinha, comprei biquínis, roupas para mim e para Itemar. Comprei uma máquina fotográfica para registrar os momentos bons e todos os lugares bonitos que íamos passar juntos.

A minha ansiedade era tão grande, que os dias pareciam ter mil horas. Quando chegou o mês de novembro, fiquei muito feliz. Estava cuidando dos últimos preparativos para a viagem, pois íamos viajar dia 10 de novembro.

Dia 5 Isa me ligou muito triste, João Vasques estava hospitalizado. Nos últimos anos, ele não andava bem de saúde. Estava com problemas cardíacos e já tinha até colocado Marca-Passo. Ele, que era um homem tão trabalhador, não gostava de ficar parado em hipótese alguma. Nunca o vi reclamar de cansaço, estava sempre disposto. Desde o ano de 1988, ele ficou doente e nunca mais voltou a ser o que era. Cada vez que ele ficava hospitalizado, era um sofrimento enorme para Isa. Todos ficávamos apreensivos, pois não queríamos perder aquele anjo bom, que sempre nos protegia. Quando Isa ligou, fomos imediatamente ao hospital visitá-lo. Passamos praticamente um dia com ele. Todas as vezes que ele ficava hospitalizado, Isa ficava no apartamento como acompanhante.

Quando chegamos no hospital, ele ficou muito feliz. Conversamos e rimos bastante, até almoçamos juntos. Eles dividiram a comida conosco. Ao nos despedir, ele ficou triste, não queria que fôssemos embora. Prometemos voltar outras vezes e assim o fizemos.

Tudo estava pronto para a viagem. No sábado Toninho e Susana foram passar o dia conosco. De manhã, compramos algumas marmitas prontas e fomos para o hospital passar umas horas com Isa e João.

Ficamos felizes. Quando chegamos recebemos a boa notícia que João Vasques estava de alta. Só iam almoçar e esperar que Orlando os fossem buscar. Almoçamos todos juntos e nos divertimos bastante. Logo após o almoço, Orlando estava lá para levá-los para Bálsamo. Nos despedimos na porta do hospital. Ele nos fez mil recomendações a respeito da viagem. Estava preocupado conosco. Naquela época, muito se falava em acidentes de avião.

Voltamos para casa mais tranqüilos, poderíamos viajar despreocupados, pois nosso querido e bom amigo estava melhor. À tarde, Toninho e Suzana se despediram de nós, nos desejando boa sorte e ótima viagem. Fiquei triste, pois aquela despedida deixou-me com o coração apertado.

Naquela noite não dormi direito.


CAPÍTULO 103
Fortaleza - um sonho que se transformou em realidade

Estava morrendo de vontade de viajar, mas estava preocupadíssima por deixar minha casa e meus entes queridos por alguns dias. Às 14 horas do dia 10 tomamos um táxi e fomos para o aeroporto.

Algo estava errado, mas não sabíamos ao certo o que. Tanto eu quanto Itemar sentimos uma tristeza e uma insegurança muito grande.

Até São Paulo fomos pela empresa Rio-Sul. Nos distraímos depois que entramos no avião. Itemar ia descrevendo tudo o que via. Fizemos escala em Ribeirão Preto, mas foi por poucos minutos, só o tempo de embarcação dos outros passageiros. Em São Paulo fizemos conexão.

De lá para Fortaleza, fomos pela Varig. Foi uma viagem longa, pois fizemos escala em Brasília. Já dessa vez, foi um pouco mais demorado. O avião era enorme. Itemar ficou feliz e me disse que sempre sonhou em viajar pela Varig. A viagem foi tão longa, que comecei a ficar desesperada. Pensava que a distância me separava de minha família e de meus amigos.

Chegamos em Fortaleza às 1h 30 minutos da madrugada. Gostei quando desci do avião e senti aquela brisa agradável. Tinha um guia turístico nos esperando e nos levou até o hotel Ceará. Esse moço que estava nos esperando era da Vision Turismo. A produção do SBT comprou o pacote de nossa viagem por essa empresa. Durante o trajeto até o hotel, Nunes foi nos explicando tudo sobre os passeios que estavam incluídos no pacote e os que não estavam. Quem quisesse poderia comprar o pacote dos outros passeios. Ele também nos explicou, que poderíamos deixar as passagens com a empresa para confirmação, caso quiséssemos. Não estávamos sós eu e Itemar, Nunes tinha ido buscar várias pessoas.

No hotel, tudo era lindo luxuoso e muito confortável. Pegamos um apartamento de frente para o mar. Itemar não se cansava de olhar tanta beleza e me descrever tudo.

Em Fortaleza a temperatura é altíssima e estava um calor abrasador. Tomamos banho e tentamos descansar um pouco, pois estávamos muito exaustos. Embora tivesse ar condicionado no apartamento, dormimos mal por causa do calor.

Itemar tirou várias fotos, desde o avião até os lugares mais lindos do hotel. No outro dia, levantamos bem cedo, tomamos o café da manhã e nos preparamos para o passeio para a praia de Cumbuco. Conforme o prometido, o ônibus nos apanhou no hotel. Depois de pegar os turistas em vários hotéis, um rapaz, cujo apelido era Mandioquinha ia nos contando as histórias e lendas de lá. Ia dizendo tudo que a cidade de Fortaleza podia nos oferecer. Ia nos mostrando os lindos lugares e contando tudo sobre aquela bela cidade. De todas as histórias que ele contou, a que mais me encantou foi sobre Iracema, a virgem dos lábios de mel. Eu já tinha lido o romance Iracema, mas nunca imaginei que um dia estivesse no local onde se desenrolou aquele lindo romance.

Por estar muito quente, não pudemos aproveitar a praia de Cumbuco. Chegamos muito tarde e não tivemos coragem de enfrentar aquele sol terrível.

Não aproveitamos, também, outros passeios que a praia de Cumbuco oferecia. Alguns passeios eram perigosos para mim. Almoçamos lá e tentamos nos divertir um pouco.

O primeiro passeio foi muito cansativo. Decidimos não fazer os outros e optamos por ficar lá mesmo. Na terça, depois do café da manhã, fomos fazer um passeio à beira mar. Itemar ia tirando fotos de todos os lugares bonitos que via. Depois de uma longa caminhada, paramos para descansar um pouco. Descobrimos que poderíamos fazer um belo passeio de escuna. Aquela idéia me deixou feliz. Deixamos o passeio para quarta-feira, pois não estávamos preparados. Naquele dia, voltamos bem tarde para o hotel.

Depois de um belo banho, fomos almoçar no hotel praiano. O hotel Ceará e o Praiano eram da mesma rede. Como o hotel Ceará não oferecia refeições, íamos para o Praiano. Toda aquela mordomia por conta do programa Em Nome do Amor. O hotel Praiano também era lindíssimo, os garçons eram de uma educação fora do comum, não sabiam o que fazer para deixar os turistas à vontade. Por termos participado recentemente do programa Em Nome do Amor, praticamente quase todos nos conheciam.

As pessoas nos perguntavam tudo sobre o programa e algumas não acreditavam que toda nossa história seria verdadeira. Obtiveram nossa confirmação e ficaram abismadas.

No restaurante do hotel, a comida era uma delícia. Aproveitamos para comer muito peixe. Decidimos seguir o cardápio, durante as refeições de todos os dias. A comida de que mais gostamos foi Peixe à Fiorentina.

Repetimos essa delícia de comida duas vezes. Na terça-feira, depois do almoço, fomos passear no calçadão. Fizemos amizade com muitos outros turistas.

Na quarta-feira, fomos fazer o passeio de escuna. Aquele passeio me deixou tranqüila e feliz. O guia turístico ia contando as histórias de lá. Aquelas histórias mexiam demais com minha cabeça. Estar em alto mar era um sonho que tive desde criança. Foi um passeio maravilhoso e inesquecível para mim. Fiquei triste quando o passeio terminou. Por mim, ficaria no mar o dia todo. Aquela paz infinita me tirou qualquer tipo de preocupação. Durante o passeio da escuna, conhecemos Alda e Luís Carlos. Eles moravam em São Paulo e tinham ido passar uns dias em Fortaleza. Era um casal simpático e maravilhoso. Conversamos bastante. Parecia que fazia muitos anos que nos conhecíamos. Trocamos endereços e números de telefone. Pena que eles iam embora na sexta-feira. Estávamos em hotéis diferentes, mas marcamos outros encontros.

Todas as noites, nós íamos à feira de artesanato. Tudo era lindo. Fizemos amizade com quase todos os feirantes. Na quinta-feira fomos à praia, perto do hotel mesmo. Havia muitas pessoas lá e nos divertimos bastante. Aquele dia o mar estava muito calmo. Só não aproveitamos mais por causa do sol, que estava muito quente.

Sexta-feira de manhã, nós fomos nos despedir de Alda e Luís Carlos. Fomos à piscina do hotel. Ela era linda. Senti-me bem solta e até brinquei na cascata. Por não saber nadar, sempre ficava um pouco apreensiva, embora adorasse a água. O clima de lá era totalmente diferente do daqui, muito quente e seco. Tive um choque térmico ao entrar na piscina. Minutos antes, estávamos andando na rua e o calor era grande. Logo após, entramos em água fria. Depois que saímos da piscina, comecei a me sentir mal. Em poucas horas eu estava totalmente resfriada e indisposta. Nem um lugar estava bom para mim. Eu estava sufocada com falta de ar. Itemar levou-me até a farmácia e comprou os remédios que eu estava acostumada tomar.

No sábado fomos à praia e não entrei na água. Não me sentia bem. Além disso, o mar estava muito bravo e ventava forte. Itemar aproveitou um pouco.

Depois do almoço fomos para o calçadão. Ficamos conversando com as pessoas que passavam e paravam. No meio de tantos turistas, conhecemos Jardelina, mais conhecida por Jarda.

Aquela doce e carinhosa menina me encantou profundamente. Ela nos viu no programa Em Nome do Amor e foi confirmar se era verdade. Embora não conhecesse, senti a sinceridade de suas doces palavras. Passamos a tarde conversando. Aquele sábado eu estava triste e com muita saudade de Toninho. Parecia que eu não ia encontrá-lo nunca mais. Jarda me ouviu com carinho e atenção. De vez em quando uma lágrima escapava dos meus olhos, com meiguice, ela enxugava antes que Itemar percebesse.

Eu estava doente, com muita saudade de casa e de todos. Aquele clima quente e seco estava me deixando cada vez mais sufocada. Jarda entendeu tudo que estava se passando comigo e tentou me distrair com carinho e atenção.

Conhecer Jarda foi a melhor coisa que me aconteceu naquele passeio. A afinidade e cumplicidade que nos envolveu foi muito grande. Parecia que ela fazia parte de minha vida há muito tempo. Hoje me lembro e sinto uma saudade enorme de Jarda.

À noite, fomos à feira nos despedir das pessoas com quem fizemos amizades. Embora não estivesse bem, fiz o possível para ser agradável com todos.


CAPÍTULO 104
São Paulo, um terrível engano

No domingo levantamos bem cedo e nos preparamos para a volta. O guia de turismo foi nos buscar no hotel. Quando estava indo para o aeroporto, senti saudade de Jarda e do mar, mas fiquei feliz por estar voltando. Já estávamos no avião e tivemos que desembarcar, pois o avião estava com problema e não conseguiu decolar. Aquele desembarque me deixou aborrecida. Se tivesse que ficar mais um dia em Fortaleza, o meu pulmão não iria agüentar e, com certeza, teria que ir para o hospital. Depois de cinco horas de espera, o avião ficou pronto e conseguimos voltar.

Quando nos preparamos para a viagem em Fortaleza, decidimos ficar uma semana em São Paulo na volta. Eu não conhecia São Paulo. Estive lá somente quando fomos participar do programa, mas foi tudo muito rápido. Naquela ocasião, adorei a cidade. Grande parte da família de Itemar morava lá. Prometi a eles que iríamos e assim o fizemos.

Quando desembarcamos em São Paulo, estava chovendo. Aquele clima fresco e úmido fez com que me sentisse bem melhor. Dunga, Célia, Cristiane, Neno e Leusli estavam nos esperando no aeroporto de Cumbica.

Dunga é o filho de Itemar, casado com Célia. Eles têm uma filha chamada Cristiane. Leusli é a sobrinha de Itemar casada com Neno. Todos nos receberam bem.

Faziam o que podiam para nos agradar. Como grande parte da família de Itemar mora em São Paulo, foi difícil dizer que ficaríamos na casa de Dunga. Todos queriam estar conosco e isso era humanamente impossível. Ficar na casa do filho de Itemar nos parecia mais lógico. Prometemos passear na casa de todos e dormir pelo menos um dia na casa de Leusli. Dunga nos recebeu com uma festa. Tinha churrasco e vários tipos de comida. Aquela semana que íamos passar em São Paulo seria muito cansativa, pois tínhamos várias famílias para visitar.

No domingo fomos dormir tarde, mas conseguimos descansar. Na segunda-feira de manhã, ficamos na casa de Dunga. Cristiane se encantou comigo e eu com ela.

Depois do almoço, quando Cristiane foi para a escola, fomos visitar o irmão de Itemar e mais algumas famílias. Na segunda feira, dormimos na casa de Leusli e na terça, bem cedinho, continuamos a nossa maratona de visitas. Havia pessoas que o Itemar não via há mais de 30 anos. Em todas as casas que fomos todos nos receberam bem. Embora tivesse sido tratada como uma princesa por todos, eu estava triste, angustiada e muito cansada. Procurava não demonstrar muito aquela tristeza para não atrapalhar a felicidade de Itemar.

Decepcionei-me com a cidade de São Paulo. Ela era bem diferente do que imaginava. Os lugares distantes. Às vezes, passávamos horas andando de carro para chegar no local desejado. Aqueles longos passeios de carro, aquela poluição terrível, deixaram-me mal. Cheguei à conclusão de que São Paulo não era o céu que eu sonhava.


CAPÍTULO 105
Um pressentimento horrível

Na terça-feira, chegamos na casa de Leusli à tardinha.

Eu estava triste e com muita vontade de chorar. Estava morrendo de saudade de Toninho, de Isa e de minha casa. Dunga percebeu a minha tristeza e disse que uma semana passaria depressa. Fiquei sozinha na sala assistindo TV. Meu coração estava apertado, parecia que ia explodir. Eu tinha vontade de voltar para casa a pé.

Depois do jantar fui jogar dominó com as crianças, mas não consegui desviar meus pensamentos de minha casa e de minha família. Parecia que não ia encontrá-los nunca mais. Depois de um bate-papo, fomos dormir.

Estava totalmente exausta, mas não conseguia pregar os olhos.

Estava muito inquieta, virava e revirava na cama e o sono não chegava. Itemar viu a minha inquietação e me interrogou. Insistiu para que eu falasse. Diante da preocupação dele, não resisti e me desabafei. Chorei desesperadamente e até propus que ele me deixasse vir embora só, assim, ele poderia ficar lá e visitar o resto da família. Evidentemente, ele não concordou. Eu estava tão desesperada! Não consegui esconder a minha tristeza de ninguém.

Estava chovendo muito forte. Itemar se levantou e começou a andar pela casa, conversava e, carinhosamente, tentava me distrair. Nem ninguém, nem nada conseguiram me tirar daquele estado deplorável. Mesmo acordada, eu via a morte rondando alguém de minha família. Via o meu irmão atropelado. Estava com um pressentimento terrível.

Como ainda era de madrugada, depois de conversar um pouco com Itemar e me desabafar, consegui dormir um pouco. Só tive pesadelos e sonhos ruins. Quando amanheceu, eu estava desnorteada. Eu queria, eu precisava falar com alguém da minha família. Precisava saber o que estava acontecendo. Aquela angústia estava me matando aos poucos. Não conseguia disfarçar as minhas lágrimas de mais ninguém. Itemar contou a Leusli o que estava acontecendo comigo.

Ela disse que eu poderia ligar para ficar mais tranqüila.

Aquele sinal verde me aliviou um pouco. Liguei em minha casa e falei com minha empregada. Ela disse que Toninho não tinha ligado e que não sabia notícia dele. Desliguei o telefone e comecei a chorar mais ainda. Itemar teve a idéia de ligar para Ruth, a vizinha de Toninho, pois naquela época ele não tinha telefone.

Eu estava tão descontrolada que não consegui fazer a ligação. Quando consegui falar com a Ruth, senti uma vontade enorme de abraçá-la apertado e, através daquele abraço, voltar para perto dos meus entes queridos. Perguntei sobre Toninho e ela disse que ele estava bem, mas que ela precisava me dar uma notícia desagradável. Meu irmão cunhado João Vasques tinha morrido na terça-feira à noite.

Aquela notícia caiu sobre mim como um raio. Nem esperei ela terminar de falar, passei o telefone para Itemar. Quando o Itemar desligou o telefone eu chorava e gritava descontroladamente. Eu pedia, implorava para Itemar me levar de volta para minha cidade. Itemar ficou pasmo com a notícia. Foi tomar as providências para que voltássemos naquele dia mesmo.

Ligou no aeroporto e conseguiu antecipar as passagens. Arrumamos as nossas malas apressadamente. Dunga e Neno foram nos levar ao aeroporto. Por causa do tempo chuvoso, o vôo atrasou bastante.

Eu nem acreditava que estava voltando para casa. Apesar do avião estar voando, achei que demorou muito a chegar. Eu tinha ligado de São Paulo e pedi para que alguém nos esperasse no aeroporto de São José do Rio Preto. O meu cunhado morava em Bálsamo e o velório estava sendo realizado na Câmara Municipal daquela cidade, visto que ele era vereador. Quando chegamos, não tinha ninguém nos esperando, pois já estava quase na hora do enterro. Informaram no aeroporto que tinham ido dois rapazes nos esperar e, como demoramos para chegar, foram embora. Alugamos um táxi e o motorista correu bastante. Felizmente, chegamos em tempo: cinco minutos antes do enterro. A Câmara estava lotada.

Eu senti muito aquela morte. Era como se tivesse perdido meu pai. Itemar também não se conformava. Tinha meu cunhado como um irmão ou até mesmo como um pai. Fiquei triste por ele não estar vivo, por não poder contar a ele sobre a viagem e principalmente, por não poder desfrutar mais aquela presença maravilhosa.

Isa até hoje não se conforma com essa perda, ficou abatida e emagreceu bastante. Até hoje, todos os dias, ela vai ao cemitério cuidar do túmulo do marido. Todos sentimos saudades daquele homem bom, que era o nosso anjo da guarda. Infelizmente, ele não estará presente no dia da publicação desse livro. O meu anjo da guarda, que me acompanhou em todos os momentos de minha vida, tanto bons, quanto ruins. Quantas vezes rimos e choramos juntos! As minhas alegrias e vitórias eram prêmios para ele. As minhas tristezas e inquietações eram para ele motivos de inquietação e preocupação. Ele sentia tudo como se fosse meu pai. Não é fácil perder um ente tão querido assim.

Ele se foi, mas a sua doce e bondosa imagem vai estar sempre presente.


CAPÍTULO 106
A bondade

Seria um erro de minha parte encerrar esse livro sem me lembrar da bondade de algumas pessoas que me cercam. São tantas, mas existem algumas que são especiais e que dão uma dose maior de prazer e gratidão a minha vida.

São algumas pessoas que trabalham comigo e que me ajudam muito. Vou começar por Cidinha. Esta mora em Mirassol. É uma cidade próxima a Rio Preto. Cidinha é maravilhosa, faz tudo o que pode para me ver feliz. Sempre que preciso ir à cidade fazer algumas compras, ela está sempre pronta para me acompanhar.

Com muito carinho e paciência, ela vai comigo nas lojas, mostra-me tudo que quero comprar, com boa vontade e alegria. Somos confidentes e dividimos os nossos problemas, tentando sempre nos ajudar mutuamente na medida do possível. Ela nunca hesitou em me ajudar, dividindo assim um pouco mais de atenção que poderia dedicar a seus filhos. Esse amor fraterno que nos envolve me deixa muito feliz.

Sua voz é doce e suave, sua presença transmite muita paz e ternura.

A doce e triste Zenaide é encantadora. Preocupa-se muito comigo e eu com ela. Sempre quando tem alguma reforma ou obstáculos pelos lugares onde passo, ela está atenta e me avisa imediatamente. Sempre que é possível, Zenaide está comigo me auxiliando nas mínimas coisas. No trabalho, ela gosta de sentar perto de mim. Conta-me tudo o que vê, nos mínimos detalhes. É uma pessoa magnífica e em seu coração não tem se quer uma gota de maldade. Ela procura só ver o lado bom das pessoas e por isso sofre muito. Não teve sorte no amor. Sua voz é doce e suave. Ela tem na voz um tom de tristeza e melancolia que, às vezes, toca fundo em meu coração. É ciumenta, carente e insegura nas suas decisões e diante dos perigos que a vida oferece. Somos amigas inseparáveis e dividimos todos os nossos segredos, as nossas dúvidas, as nossas tristezas e as nossas alegrias.

Jandira, uma verdadeira cristã, é uma amiga maravilhosa. Todos gostariam de tê-la como amiga. É prestativa. Está sempre pronta a ajudar os amigos, tanto nas horas boas quanto nas horas difíceis. Sempre que preciso, ela me acompanha nas compras e quando vou ao médico. A palavra não, não faz parte do seu dicionário em se tratando de fazer o bem. Jandira sabe o que quer e não tem medo de tomar decisões. É muito segura e dona de seus atos. Sua voz é forte e transmite muita segurança. Às vezes, ela divide a atenção de suas filhas comigo para me auxiliar e me fazer o bem. Sabe aconselhar e resolver os problemas como ninguém. É muito doce e carinhosa com as amigas. Sua presença transmite uma paz infinita e uma certeza que nada de mal vai acontecer.

Cida Costa é uma amiga maravilhosa. É muito enérgica e sincera, em tudo que faz e diz. Não mede esforços para ajudar os amigos. Às vezes, sua energia e sinceridade ferem, mas tão logo seu carinho apaga qualquer tipo de mágoa. Apesar de ser muito segura, nem sempre ela vê maldade no coração das pessoas. Para ela não tem hora para ouvir e aconselhar os amigos. Sua voz é grave, mas muito agradável. Sua presença é marcante e me faz um bem enorme. Por ser enérgica, às vezes, nem todos podem ter o prazer de conhecer o seu lado belo. Eu sou privilegiada, conheço e me orgulho por ter uma amiga assim.

Cleonice é muito vaidosa e sentimental. Chora por qualquer motivo, mas com uma dose de carinho ela volta a sorrir. É uma amiga preciosa. Está pronta a ajudar e se preocupa com a felicidade dos amigos. É muito ciumenta e quase sempre se torna carente e frágil. É insegura e procura resolver os problemas com uma certa cautela. Sua voz é muito dengosa e transmite um carinho especial. Sua presença é gostosa e sua amizade é uma relíquia.

Eulália, minha ex-chefe, é uma pessoa muito justa. Apesar de ser muito enérgica, é de uma humanidade e sensibilidade fora do comum. Sua voz é suave e transmite muito carinho. É difícil dizer não a um pedido dela porque ela coloca uma dose de ternura em sua voz. Para ela dizer não a um pedido nosso é algo impossível, quase não está a seu alcance. Sua presença é calma e transmite uma tranqüilidade enorme.

Helena Aquiles é uma amiga bondosa. Sempre que pode está disposta a ajudar a todos. Tudo que ela faz é por amor e de coração. Sua voz transmite muita serenidade e sua presença transmite um bem-estar enorme.

Marta, que agora está em outro setor, é uma amiga que deixou saudades. Infelizmente, não posso desfrutar de sua doce presença porque ela trabalha o dia todo e é muito ocupada. Jamais vou esquecer o quanto ela me ajudou e o bem enorme que ela me fez.

Leonice, apesar de também estar em outro setor, é uma amiga magnífica e especial. Ela não se esquece de mim e sempre arruma um tempinho para me ligar. Preocupa-se demais comigo e está sempre pronta a me ajudar. Mesmo trabalhando o dia todo, ela se propôs a fazer compras comigo aos sábados, caso eu necessite. É muito alegre e está sempre sorrindo. Sua voz é agradável e transmite muita ternura. Sua presença é especial e inspira tranqüilidade.

Referi-me a essas amigas, mas há tantas outras que merecem ser lembradas. Neide, Orzélia, Nair e Tânia, são pessoas boas e que, de uma maneira ou de outra, estão sempre dispostas e prontas a me ajudar.

Eu dedico nesse capítulo todo meu afeto, todo meu carinho e toda minha amizade a todas elas.

Agradeço a todas por esse amor fraterno e por essa amizade gratificante.


CAPÍTULO 107
A maior desilusão

Vivi doze anos de felicidade completa ao lado do meu amor. Foram os melhores anos da minha vida.

Nunca brigamos. Às vezes, pensávamos de modo diferente. Com um bom diálogo, tudo dava certo. Sempre tudo acabava em pizza!

Acho que o que vivemos foi um conto de fadas, pois nunca vi um casal tão feliz quanto o nosso!

Ele me chamava de Negrinha. Ele era o meu Pretinho.

Tudo para nós era motivo de satisfação e alegria. Éramos inseparáveis.

Dizem que o amor verdadeiro só acontece uma vez na vida. Tenho a absoluta certeza de que comigo foi assim! Nós mergulhamos um no mundo do outro. Ambos renunciamos a algo para estarmos sempre bem juntinhos.

Tudo corria maravilhosamente bem até que no dia 20 de março de 2002, o meu Pretinho teve um acidente vascular cerebral. Ele ficou na U.T.I. do IELAR e, pela primeira vez, ficamos separados depois de tanto tempo bem juntinhos.

Ele teve uma ótima neurologista e foi socorrido a tempo. Foi ao cardiologista e fez uma serie de exames. Passou a tomar vários remédios controlados.

Em outubro de 2002 ele foi submetido a uma cirurgia na próstata. Depois da cirurgia, ele ficou novamente na U.T.I. Mais uma vez, tivemos que nos separar. Fiquei tão feliz quando ele foi para o quarto! Fiquei com ele no hospital até que foi dada alta.

Passei a ter um cuidado especial com ele. No dia 7 de novembro ele passou mal com fortes crises de arritmia. Novamente, fomos para o hospital e lá ficamos vários dias.

A saúde dele foi ficando cada vez mais frágil e os meus cuidados com ele foram aumentando. No dia 01 de dezembro ele foi submetido a uma nova cirurgia.

Eu sentia um medo imenso de perde-lo e passei a tratá-lo como criança. Cuidava de sua alimentação, do hospital e de seus remédios. A minha ligação com ele ficou cada vez maior. Todos os dias, nós fazíamos caminhada e eu fazia de tudo para que ele nunca ficasse sozinho.

No ano de 2003, ele seguiu fazendo os tratamentos. Ora estava bem, ora estava mal. Porém, nada de tão grave.

No final de 2003, ele começou a piorar. Ele ficava muito triste, mas não queria ir ao médico. Apesar de tudo, as nossas festas de fim de ano foram ótimas. Tudo foi perfeito!

Em 2004, o meu Pretinho, sempre quando ia ao trabalho, se despedia de mim, como se nunca mais fôssemos nos encontrar. Eu passei a observar aquilo e ficava com o meu coração apertado. Preocupava-me com ele e toda hora ligava para o seu trabalho para saber se estava tudo bem.

A minha casa estava em reforma e ele ficava muito feliz no final de cada dia, quando via que a reforma estava ficando perfeita.

No dia 15 de janeiro, ele trabalhou e voltou para casa ao meio-dia, pois era domingo. Almoçamos juntos e, como de costume, ele foi assistir a um filme na televisão. Eu fui dormir um pouco e quando acabou o filme, ele também se deitou e pediu que eu ficasse ao lado dele. Conversamos e brincamos bastante.

Dentro do meu coração, eu sentia que ele não estava bem. Comecei a interrogá-o e ele dizia que não era nada.

Eu estava na sala assistindo ao jogo do Brasil e ele estava no quarto. De repente, ouvi um barulho estranho. Era como se alguém estivesse despejando um balde de água dentro do quarto.

Saí correndo e chamando pelo meu Pretinho. Ele não respondia. Eu entrei em desespero!

Quando cheguei no banheiro, ele estava vomitando. Corri para segurá-lo e percebi que ele estava gelado.

Levei-o para a cama. Dei-lhe dois copos de Coca-Cola e ele se sentiu melhor.

Insisti para que ele tomasse um banho e ele não queria, pois estava se sentindo muito indisposto. Esperei por alguns minutos e não percebia melhora alguma. Ele suava frio.

Decidi chamar o resgate e ele foi tomar banho. Ele passou muito mal debaixo do chuveiro e eu corri para ajudá-lo. Molhei-me todinha. Eu queria chamar os vizinhos, mas ele não permitiu. O resgate chegou e a enfermeira me ajudou a vesti-lo. Fomos para o hospital e de lá liguei para uma amiga. Ela foi para lá e ficou aguardando comigo. O médico me fazia muitas perguntas.

De madrugada, aproximadamente 1h 30 da manhã, ele foi falar comigo. Disse que o meu Pretinho ia ficar na U.T.I. e o quadro dele era muito grave. Eu queria me despedir dele e o médico argumentava que não.

Comecei a chorar desesperadamente e pedi de joelhos. O médico se comoveu, pegou em minhas mãos e me levou até a U.T.I.

Foi uma despedida muito triste. Ele me abraçava chorando e pediu para que eu ficasse lá. O médico explicava e ele não entendia. Eu saí de lá arrasada. Tive um triste pressentimento que eu não o encontraria nunca mais.

Quando cheguei em casa tomei todas as providências. Avisei a família dele e a minha. A minha amiga Cida passou aquela noite comigo. Eu não conseguia parar de chorar; muito menos dormir.

Ah, meu Deus! Como aquela noite foi longa!

No dia 20, às 11 horas da manhã recebi um telefonema do hospital. Sem subterfúgios, o médico me deu a tristíssima notícia de que meu Pretinho tinha morrido. Eu comecei a chorar e a gritar desesperadamente. A minha empregada pegou o telefone e falou com o médico. Eu não acreditava que aquilo estava acontecendo comigo.

A Luana foi comigo para o hospital, onde nos encontramos com Cida e Toninho. Rose foi cuidar da papelada junto à funerária.

Eu, Toninho e Cida ficamos no hospital. Eu não parava de chorar e a psicóloga do hospital nos deixou ir até o necrotério. Quando toquei o corpo do meu Pretinho, o meu coração se despedaçou. Eu acreditava piamente que estava sonhando e aquilo tudo seria um terrível pesadelo. Infelizmente, era real. Era a mais dura e crua realidade. O meu Pretinho tinha ido embora para sempre.

O velório foi a cena mais triste da minha vida. Fiquei o tempo todo ao lado do meu Pretinho. Eu acreditava que, a qualquer momento, o meu Pretinho ia levantar do caixão e falar comigo.

Na verdade, até hoje não aceito a morte dele.

No dia 21 de janeiro, às 8 horas da manhã, o meu Pretinho foi sepultado e, junto com ele, foi grande parte do meu coração.


CAPÍTULO 108
O vazio

Tudo ficou deserto e fazia na minha vida depois que o meu Pretinho morreu. Eu perdi a vontade de viver, perdi aquela felicidade que iluminava o meu coração. Sentia-me muito sozinha e não me animava com anda.

Eu fiquei perdida e desnorteada. O meu mundo caiu. Não tivemos filhos, infelizmente. Tive que me readaptar a tudo novamente. Eu era muito mimada pelo meu Pretinho e pela Rose. Não saía mais sozinha. A não ser com a Rose, com meu Pretinho ou com alguma amiga.

O meu Pretinho era muito ciumento. Para ele, eu era um troféu. Agora me falta algo. A minha vida é vazia e não consigo esquecer o meu Pretinho. Ainda tenho a impressão de que um dia ele vai voltar. Mas quando caio na real sei que isso jamais irá acontecer.

Agora me tornei uma mulher independente. Vou onde quero e volto sozinha. Porém, só Deus sabe como eu preferia aquela vida.

O meu maior medo era o da solidão. Agora, ela me persegue dia e noite.

Às vezes, em meio a uma multidão, sinto-me a criatura mais solitária do mundo.

Toninho fica comigo durante os dias da semana e aos finais de semana sempre vem uma amiga ou outra. Sinto medo.

Eu até já passei um final de semana sozinha e não senti medo, mas todos se preocupam muito comigo.

Acho chato quando vou fazer compras porque sempre tenho que pedir o auxílio de alguém.

O meu mundo era colorido e agora parece que perdeu totalmente o encanto.

Eu tento disfarçar, mas, às vezes, a tristeza, vem fazer moradia no meu coração.

É uma tristeza misturada com saudades e isso dói muito!

Estou freqüentando o Instituto e é uma terapia para mim. Às vezes, falo bobagens, mas, felizmente, o pessoal do Instituto tem muita paciência comigo.

Às vezes, o meu peito fala coisas tristes e eu não quero ouvir. Não quero e não posso! Sempre peço: Ah, meu Deus! Tire essa tristeza do meu coração! Dê-me alguma motivação e me faça ver a vida como ela é!

Foi a pior dor que eu já senti em minha vida! O pior dos sentimentos.

Não consigo expressar agora os meus sentimentos, pois as lágrimas insistem em rolar em meu rosto.

Para escrever essas poucas linhas, tirei lágrimas de meu coração!

Não gosto de deixar nada inacabado e, pela primeira vez, isso está acontecendo comigo!


CAPÍTULO 109
De onde veio essa inspiração?

Sempre tive vontade de escrever um livro, mas não sabia por onde começar. Não sabia que assunto explanar, não sabia nem mesmo que título dar. Tentei escrever várias vezes, mas quando ia ler não achava de acordo. Sempre parecia que estava faltando alguma coisa. Aliás, faltava a inspiração. Depois de várias tentativas, desisti por uns tempos. Sempre gostei de escrever e, às vezes, ficava horas a fio escrevendo assuntos diversos. Nunca imaginei que um dia conseguisse escrever um livro.

Um dia resolvi escrever uma carta para o programa Em Nome do Amor. A carta foi um sucesso. O programa teve uma repercussão enorme. Depois daquela carta, o desejo de escrever um livro falava mais alto dentro de mim.

Uma noite chuvosa me deitei mais cedo e custei a pegar no sono. Comecei a planejar meu livro. Descobri que seria possível escrever porque as palavras inspiradoras brotavam de dentro de mim.

No outro dia, eu comecei a escrever. Uma inspiração divinal tomou conta de mim. As palavras saíam como se eu tivesse fazendo apenas uma cópia. Hoje, quando leio o que escrevi, fico sem saber de onde arranquei tanta força.

Analisando bem, descobri que este livro nasceu do programa Em Nome do Amor. Depois daquele dia, percebi que poderia escrever algo, que chamaria a atenção do público.

Meu maior sonho sempre foi ser uma pessoa famosa. Agora que escrevi este livro, sei que serei capaz de escrever outro.

A minha participação no programa Em Nome do Amor fez com que uma porta fechada diante de mim se abrisse. Olhando por essa porta, descobri que nasceu um novo mundo, cheio de expectativas para o meu futuro. Através dessa porta, descobri um mundo encantado, que poderá me proporcionar um bem enorme. Descobri o dom que eu tenho de escrever, de botar no papel tudo o que sinto, de extravasar minhas idéias. Quando escrevo bastante, sinto-me leve e solta. Sinto-me como se tivesse viajando para outras terras e esqueço que sou cega. Nesse momento, vejo diante de mim as mais lindas paisagens. É como se uma fada derramasse em meu espírito uma dose dupla de paz e tranqüilidade. Parece que ela realmente me faz ver tudo ao meu redor.

O mais importante é que, quando paro de escrever, não me entristeço porque sou cega. Muito pelo contrário, me sinto calma e cheia de esperança na vida. Fortaleço-me no amor e na fraternidade.


CAPÍTULO 110
A importância de se dar e receber

Leitor, no último capítulo desse livro, não posso deixar de falar sobre a importância de dar e receber. Não posso omitir e não falar da importância que temos para o mundo e para todos que nos cercam.

O corpo é a coisa mais preciosa que temos, pois com ele podemos fazer tanta coisa boa! Botando o cérebro para funcionar, podemos descobrir várias maneiras de ajudar as pessoas. Com os ouvidos, podemos ouvir os lamentos dos desesperados e ouvir os problemas das pessoas descrentes da vida.

Ao final, com certeza, teremos uma palavra amiga para os angustiados e sem esperança.

Você não acha maravilhoso quando pode fazer isso por alguém?

Ah, leitor, como os olhos são importantes! Ver a cor da roupa, achar um objeto perdido, descrever uma cena que se passa em silêncio, indicar o caminho certo e sem perigo. Ao fazer isso para um deficiente visual é como se você estivesse dando o céu de presente a ele. Eu recebi e recebo tudo isso das pessoas no meu dia-a-dia. Quando isso acontece, sinto-me como se tivesse ganhado o mundo inteiro de presente.

Meu coração transborda com a bondade e solidariedade humana. Tenho certeza de que as pessoas que me ajudam também se sentem bem, pois posso sentir a felicidade delas no seu jeito de falar comigo. Acho que elas também percebem a minha felicidade.

Com a boca podemos falar, cantar e sorrir. Ao falar com o desesperado, cantar para um desanimado e sorrir para um desiludido estamos dando e recebendo um bem enorme.

Suas mãos, seus braços, o aconchego de seu corpo... Já pensou que milagre seus carinhos poderão fazer para os necessitados? Já pensou que você também poderá receber de outras pessoas?

Ouvir alguém ajudar alguém. Sorrir para alguém. Fazer um simples gesto é uma verdadeira doação. Quando se fala em dar e receber, não devemos nos apegar somente ao bem material. Principalmente, devemos nos apegar ao bem espiritual.

Com o nosso corpo provido de tantas riquezas e nosso coração provido de tanta generosidade, com certeza, podemos fazer muitas coisas. Até mesmo todos os nossos órgãos poderão ser doados para quem precisa.

Leitor, se ame cada vez mais. O seu corpo inteiro é um bem precioso. Se você não amar a si mesmo, como poderá amar seus semelhantes?

Pense em tudo que você poderá receber de alguém, mas não se esqueça em hipótese alguma o que você poderá fazer por esse alguém. Já recebi tanto das pessoas, só não sei se me doei à altura. Valorize seu corpo o mais que puder, pois quando temos a falta de um órgão é que percebemos o valor que ele tem para nós.

Leitor, eu, sendo cega, lutei, caí muitas vezes, mas tive a coragem de levantar e começar tudo de novo. Não posso negar que errei muitas vezes também. Afinal, o erro faz parte da vida de todos, mas acertei inúmeras vezes. A nossa vida não é feita só de coisas boas, pois não somos perfeitos.

Leitor, não tenha medo de cair, não tenha medo de fraquejar, acima de tudo, não tenha medo de vencer. Siga sempre em frente, mas não se esqueça de olhar para trás, pois sempre haverá alguém superior ou inferior a você.

Para os superiores procure mostrar que você também é capaz. Não se esqueça de estender sua mão amiga para os inferiores e os auxilie para que eles consigam chegar onde você está.

Não desanime porque não conseguiu seu ideal. Lembre-se que a esperança deve ser sua eterna companheira. Se você não puder fazer muito por alguém, faça o que tiver em seu alcance. Futuramente, você terá a certeza de que fez alguém feliz.

Nesse capítulo falei um pouco sobre o nosso corpo, mas procurei frisar mais sobre o coração e os olhos.

Quando criança, iniciei um passeio pela estrada da vida. Em todos os obstáculos, em todas as esquinas, em todas as ruas e avenidas e, principalmente em todos os degraus, achei uma mão amiga. Encontrei pessoas dispostas a me ajudar de coração.

A estrada da vida é muito tortuosa. Quando eu achava que tudo estava perdido, sempre aparecia um anjo bom. Passei a encarar a estrada da vida com os olhos de meus anjos da guarda e com os olhos da alma. Disse anjos da guarda no plural, porque tenho vários anjos que passaram pela minha vida. Com a ajuda de tantos anjos, aprendi a conhecer a estrada da vida, mesmo entre os labirintos.

Há muitas pessoas começando, há muitas pessoas precisando e espero que todos tenham a mesma sorte que eu tive. Espero que essas pessoas consigam ir em frente e subir os degraus. Espero que consigam dominar até mesmo os labirintos que parecem sem saída.

Apesar de ser cega, esses anjos me acompanharam sempre, fizeram brilhar um raio de esperança e felicidade em de mim.

Hoje a minha vida tem um brilho especial, um brilho forte, um brilho divino que me faz sentir uma estrela. Tudo isso graças aos meus anjos da guarda e graças a muitas pessoas que, de uma forma ou de outra, contribuíram para o meu engrandecimento.

FIM

 

DEDICATÓRIA
A minha mãe LAURA MARIA DE JESUS (em memória). Ela me deu a vida com muito sacrifício.
Enquanto era viva, fez o que pôde para que um dia eu fosse alguém.
Ao meu esposo ITAMAR DE JESUS (em memória), que, com sua paciência, ternura, compreensão, carinho e amor, fez com que eu me sentisse uma mulher amada e feliz. A lembrança da luz dos seus olhos clareia o meu caminho e dá um brilho especial a minha vida. A todos os professores que passaram por mim e mataram minha sede de saber.
A minha família, a todos os amigos e a todas as pessoas, que, com um simples
gesto de amor, contribuíram para minha felicidade.

 

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A AUTORA

Doraídes Alves Pereira
nasceu dia 8 de abril de 1958. Passou sua infância na cidade Bálsamo, interior do estado de São Paulo. Cursou a faculdade de Direito na cidade de São José do Rio Preto, cidade onde mora atualmente. Aos 43 anos de idade, resolveu escrever porque sempre nutriu a paixão por livros e pela leitura.
Chegar até aqui não foi fácil, pois além das dificuldades comuns a todo ser humano, Dora é deficiente visual desde que nasceu. Passou por preconceitos sociais, do qual tudo se cobra: casa, filhos, marido, trabalho, comportamento e perfeição. Encontrou na arte uma forma de tornar irreverente, contestador e subversivo o mundo em que vive.
Certamente, não ganhou a guerra. Mas, quem ganhou?
Ela chega lá. É só acertar umas coisinhas...

 


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14.Set.2013
Publicado por MJA