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 Sobre a Deficiência Visual


Um Justo

Victor Hugo

Monsenhor Myriel - ilustração de Gustave Brion
Monsenhor Myriel - ilustração de Gustave Brion
para a 1.ª edição de 'Os Miseráveis', 1862


Em princípios do ano de 1821, os jornais deram a notícia da morte de Monsenhor Myriel, bispo de Digne, apelidado de Monsenhor Bemvindo, o qual falecera com oitenta e dois anos, com reputação de santidade. O bispo de Digne, para acrescentar aqui um pormenor que os periódicos omitiram, quando morreu, havia muitos anos que estava cego, mas vivendo satisfeito com a sua cegueira, por ter a irmã junto de si.

Digamo-lo de passagem, ser cego e ser amado, é com efeito, neste mundo, onde nada é completo, uma das formas mais estranhamente esquisitas da felicidade. Ter de contínuo ao pé de si uma mulher, uma filha, uma irmã, um ser encantador, que está ali porque lhe é preciso, porque não pode passar sem ele, saber que é indispensável ao ente que lhe é necessário, poder incessantemente medir a sua afeição pelas horas que o tem na sua presença e dizer consigo: «Uma vez que me consagra todo o seu tempo é porque possuo todo o seu coração».

Ver-lhe o pensamento, à falta de lhe poder ver o rosto, ter a certeza da fidelidade de uma criatura no eclipse de um mundo, pressentir o roçagar de um vestido, como se fosse um ruído de asas, ouvi-la falar, cantar, andar de um lado para outro e pensar que é o centro daquelas falas, daquele cantar, daqueles passos; manifestar a todos os instantes a sua própria atracção, sentir-se tanto mais poderoso quanto mais fraco é, e torna-se na escuridão e pela escuridão, o astro em torno do qual gravita aquele anjo; poucas felicidades há no mundo iguais a esta.

A suprema felicidade da vida é a convicção de que somos amados, mas amados por nós mesmos, ou antes, a despeito de nós mesmos; esta convicção tem-na o cego. No meio da sua desdita, ser servido é ser acariciado. Falta-lhe alguma coisa? Não.

Quando se conserva o amor não se perde a luz. E que amor! Um amor inteiramente formado de virtudes. Não há cegueira onde exista certeza. A alma procura às apalpadelas a alma e encontra-a. E esta alma, que tem já passado por todas as provas, é uma mulher. Quando um cego sente a mão do seu guia, é a sua; os lábios que lhe tocam a fronte, sãos os seus lábios; a respiração que sente junto de si, pertence-lhe.

Receber dela tudo, desde o culto à compaixão, não ser nunca esquecido, ter sempre o socorro da sua doce fraqueza, apoiar-se num vime inabalável, tocar com as próprias mãos a Providência e poder tomá-la nos braços! Deus palpável! Que encanto! O coração, essa celeste flor obscura, entra então em misteriosa expansão. Ninguém trocaria uma tal sombra por toda a claridade! A alma anjo está sempre ali; se acaso se afasta é para voltar de novo; desvanece-se como o sonho e reaparece como a realidade.

É certa a sua presença, quando se sente a aproximação de um calor benéfico. O coração transborda de serenidade, de alegria e de êxtase; e o cego torna-se um esplendor no meio da noite. E depois, mil cuidadozinhos, mil desvelos. Nadas que são enormes num tal vácuo como a cegueira.

Os mais inefáveis sons da voz feminina empregam-se em embalar o cego e suprem para ele o Universo desaparecido. O cego é acariciado pela alma. Não vê, mas sente-se adorado. A cegueira é um paraíso de sombras. Fora deste paraíso que Monsenhor Bemvindo passara para o outro.

FIM

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excerto de

OS MISERÁVEIS
Victor Hugo
(Livro Quinto - cap. IV)
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira
Centaur Editions


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[8.Mar.2016]
Publicado por MJA