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 Sobre a Deficiência Visual

 

Um Bom Diabrete

Condessa de Ségur

-excerto-

Mathilde Blind - Lucy Madox Brown
Mathilde Blind - Lucy Madox Brown


À MINHA NETA MADALENA DE MALARET
Minha boa Madalenazinha: Pedes uma dedicatória, aqui a tens. A Julieta, cuja história vais ler, não possui, como tu, bonitos e bons olhos (pois é cega), mas caminha a teu lado pela meiguice, pela bondade, pela prudência, por todas as qualidades que atraem a estima e a afeição. Assim, ofereço-te Um Bom Diabrete escoltado pela sua Julieta, que conseguiu fazer de um verdadeiro "diabo" um excelente e encantador rapaz, por meio dessa meiguice, dessa bondade que o sensibilizou e converteu. Emprega os mesmos meios com o primeiro "bom diabo" que encontrares no caminho da tua vida.
Tua avó, CONDESSA DE SÉGUR (Rostopchine)
 

ϟ

Numa cidadezinha da Escócia, na pequena Rua dos Combatentes, vivia a Sr.ª Mac-Miche, uma viúva dos seus cinquentas anos. Tinha aspecto duro e severo. Não via pessoa alguma, receosa de fazer qualquer despesa, pois era extremamente avarenta. A casa era velha, suja e triste. Um dia, em que fazia meia num quarto do primeiro andar, simples, quase miseravelmente mobilado, relanceava de vez em quando a vista através da janela e parecia esperar alguém; depois de haver dado diversos sinais de impaciência, exclamou:

― Incorrigível rapaz! Sempre atrasado! Detestável pessoa! Acabará na prisão, se não consigo corrigi-lo!

Mal acabara de proferir tais palavras, a porta envidraçada, que ficava em frente da janela, abriu-se. Um rapazito de doze anos entrou e estacou ante o olhar agastado da mulher. Havia, na fisionomia e em toda a atitude do pequeno, um misto de receio e resolução.

SR.ª MAC-MICHE ― Donde vens? Porque voltas tão tarde?

CARLOS ― Prima, demorei-me um bocado por causa da Julieta, que me pediu para a acompanhar a casa, porque já estava aborrecida no cartório do juiz de paz.

Sr.ª MAC-MICHE ― Que necessidade tinhas de a acompanhar? Ninguém do cartório se podia encarregar disso? Tornas-te sempre amável, serviçal, e, no entanto, sabes que preciso de ti. Mas hás-de arrepender-te, meu vadio! ... Vem daí.

Carlos, entre o desejo de resistir à prima e o medo que esta lhe inspirava, hesitou um instante; a prima voltou-se, e vendo-o ainda no mesmo sitio, arrastou-o por uma orelha para um quarto escuro, para onde o empurrou com violência.

― Uma hora no quarto escuro e pão e água para o almoço; para a outra vez há-de ser doutra maneira.

― Má mulher! Odiosa criatura! ― murmurou Carlos assim que ela fechou a porta. ― Odeio-a! Torna-me tão desgraçado, que preferia ser cego como a Julieta, a viver em casa desta megera... [...]


*

A ceguinha

― Outra vez, Carlos? ― exclamou Julieta ao sentir abrir a porta.

CARLOS ― Como adivinhaste que era eu?

JULIETA ― Pela maneira de abrir; como todos a abrem de maneira diferente é fácil de distinguir.

CARLOS ― Para ti, que és ceguinha e tens o ouvido muito apurado; eu não acho diferença nenhuma; afigura-se-me que a porta faz sempre o mesmo barulho.

JULIETA ― Que tens, Carlos? Mais alguma arrelia com a tua prima? Adivinho pelo tom da tua voz.

CARLOS ― É verdade! Essa má, essa horrível mulher torna-me também mau. Julieta: contigo sou bom e nunca tenho vontade de te pregar uma partida ou de me zangar; com a minha prima, sinto-me mau e sempre pronto a enfurecer-me.

JULIETA ― É porque ela não é boa e tu não tens paciência nem coragem.

CARLOS ― Paciência, é bom de dizer. Sempre gostava de te ver a ti; tu, que és um anjo de ternura e de bondade, ficarias furiosa...

Julieta sorriu, respondendo:

― Creio que não.

CARLOS ― Crês? Ora ouve o que hoje me aconteceu; não te disse nada quando cá estive porque tinha medo de que me fizesses voltar logo para casa; agora, tenho tempo, pois a minha prima está a dormir, e vais saber tudo.

Carlos contou fielmente o que se passara entre ele, a prima e Betty.

― Como queres que suporte estes castigos e injustiças com a paciência de um cordeiro que vai para o matadouro?

-Não te peço tanto -volveu Julieta, sorrindo. ― Há uma grande distância entre ti e um cordeiro; mas, ouve-me Carlos. Tua prima não é boa, bem o sei. Mas é mais uma razão para saberes como a tratar e não a irritares. Porque não és pontual, quando sabes que cinco minutos de demora a exasperam?

CARLOS ― É para ficar mais uns minutos junto de ti, Julieta; não estava ninguém em tua casa quando te acompanhei.

JULIETA ― Agradeço-te, Carlos; sei que me estimas muito, és bom e carinhoso comigo; mas porque não o és também um pouco para com a tua prima?

CARLOS ― Porque te estimo a ti e a detesto a ela; sempre que me ralha e me castiga injustamente, só penso em vingar-me e fazê-la arreliar.

― Carlos! Carlos! ― tornou Julieta em tom de censura.

CARLOS ― Sim, é isso: apanhou pancadas no peito, na cara; fiz esconder por Betty (que também a detesta) a sua dentadura na sopa; arranquei-lhe e amarfanhei-lhe a cabeleira postiça e quando acordar vai encontrar a caixa do rapé cheia de café, o livro e o trabalho desaparecidos; ficará furiosa e eu ficarei contente e vingado !

JULIETA ― Ora vê como te arrebatas! Bates o pé, escangalhas os móveis, gritas, encolerizas-te, em suma: procedes exactamente como ela e assim és tão mau como ela.

― Como minha prima? ! ― exclamou Carlos, serenando. ― Nada quero fazer como ela, nem parecer-me com ela em coisa nenhuma.

JULIETA ― Nesse caso sê bom e meigo.

CARLOS ― Não posso ! Digo-te que não posso! JULIETA ― Vejo que não tens é coragem. CARLOS ― Não tenho coragem? Tenho-a mais do
que ninguém para ter suportado a minha prima durante
três anos !

JULIETA ― Suportá-la, fazendo-a enraivecer constantemente; e tornas-te cada vez mais infeliz, o que me causa pena, muita pena.

CARLOS ― Perdoa-me, Julieta! Estou consternado, mas não posso proceder doutro modo.

JULIETA ― Experimenta; nunca tentaste! Fá-lo por mim. Queres? Prometes?

― Eu bem quero ― tornou Carlos com certa indecisão ― mas não prometo.

JULIETA ― Porquê, visto quereres?

CARLOS ― Porque uma promessa, e feita a ti principalmente, é uma coisa a que eu não poderia faltar e .. . e... creio que faltaria.

JULIETA ― Escuta: para principiar não te peço muito. Fala, barafusta, faz o que quiseres, mas não te vingues com os pontapés, os dentes, os cabelos, a sopa, o livro, o trabalho, e todas essas outras coisas que fazes!

CARLOS ― Vou tentar, Julieta; afianço-te que tentarei. Para começar, vou-me já embora, não vá ela acordar.

JULIETA ― E entregas-lhe o livro e o trabalho?

CARLOS ― Sim, sim, prometo... Ah! Ah! e o rapé! ― acrescentou Carlos, coçando a cabeça. ― Cheirar-lhe-á a café!

JULIETA ― Pratica uma boa acção: confessa-lhe a verdade e pede-lhe perdão.

CARLOS (crispando as mãos) ― Perdão? A ela, perdão? Nunca!

JULIETA (tristemente) ― Então, faz como te apetecer, meu pobre Carlos; que Deus te proteja e venha em teu auxílio ! Adeus !

― Adeus, Julieta, e até breve ― despediu-se Carlos, beijando-lhe a testa. ― Adeus. Ficas contente comigo?

― Nem por isso! Mas hei-de vir a estar com tempo.. . e paciência ― respondeu, sorrindo.

Carlos saiu a suspirar.

"Pobre e boa Julieta! Como tem paciência! Como é meiga! Como suporta a sua desgraça... porque é uma desgraça... uma grande desgraça ser ceguinha! É muito mais infeliz do que eu! Pedir perdão! ― aconselhou-me ela... [...]


*

Carlos não quis explicar a Julieta quais os meios a empregar; prometeu-lhe apenas continuar a ser dócil e delicado; Julieta teve de contentar-se com tal promessa. Carlos ainda se demorou uns instantes; mas saiu logo que Mariana, irmã de Julieta, voltou do trabalho.

Mariana tinha vinte e cinco anos; substituía, junto da irmã ceguinha, os pais que haviam perdido. A mãe morrera-lhes cinco anos antes na casa em que residiam; o seu pé-de-meia ter-lhes-ia sido mais do que suficiente para levarem uma agradável existência, mas os pais tinham contraído dívidas; eram-lhes precisos anos de trabalho e privações para as pagar sem nada vender da sua propriedade. Julieta contava apenas dez anos quando a mãe morreu. Mariana tomou a corajosa resolução de ganhar, trabalhando, a sua vida e a da irmã ceguinha, até ao dia em que estivessem livres de todas as dívidas. Trabalhava a dias ou em casa. Julieta, cega como era, contribuía um pouco para o bem-estar do pequeno lar: trabalhava bem e depressa em malhas e não lhe faltava encomendas; todos queriam uma saia, uma camisola, um xaile ou umas meias feitas pela ceguinha. Todos a estimavam nesse lugarzinho; a sua bondade, a sua meiguice, a sua resignação, a sua boa disposição e, principalmente, a sua
grande fé era de benéfica influência, não só para as crianças, como também para os pais. [...]


*

Audácia de Carlos.

Preciosa descoberta

O dia seguinte, dia desejado e esperado por Carlos, dia que devia trazer-lhe a satisfação de uma séria vingança, dia que devia ser seguido doutros não menos gostosos, chegou por fim, e Carlos tornou a enfiar as calças agora forradas e couraçadas por Betty. Estava bem! Uma chicotada devia ser amortecida por este providencial resto dos bonés do falecido Mac-Miche, morto vítima do contínuo constrangimento que lhe impunha o belicoso génio de sua mulher. Declarara-se-lhe uma doença de fígado. Sucumbiu após algumas semanas de cruéis sofrimentos.

Carlos entrou radiante na cozinha, onde o pequeno almoço o esperava, no momento em que a prima vinha da porta oposta para fazer a sua inspecção matinal. Carlos cumprimentou-a delicadamente, tomou a tigela do leite e pegou no açucareiro; a prima caiu-lhe em cima.
 

SR.ª MAC-MICHE ― Açúcar, para quê? Temos nova invenção, não? Devias dar graças a Deus por tomares leite em vez de comeres só pão seco.

CARLOS ― Mais graças a Deus daria se lhe acrescentasse este torrão de açúcar que tenho na mão.

Sr.ª MAC-MICHE ― Na mão? Largue-o, cavalheiro! Largue-o imediatamente!

Carlos largou-o, mas na tigela.

― Ladrão ! Bandido ! ― vociferou a prima. ― Merecias que te bebesse o leite.

CARLOS ― Como? Teria muito prazer, prima. Aqui tem a tigela.
 

Carlos estendeu-a à prima, estupefacta; a surpresa tirou-lhe a habitual presença de espírito; pegou maquinalmente na tigela e pôs-se a beber em pequenos goles, voltando-se para Betty. Carlos, sem perder tempo, tomou a chávena de café com leite para a prima que aquecia lentamente ao lume, comeu as sopas de pão que estavam a amolecer, apressou-se em beber o café e acabava a última gota, quando a prima se voltou.

SR.ª Mac-MICHE ― Então, comes pão seco? CARLOS ― Não, prima; estou bem; já acabei de
comer.

SR.ª MAC-MICHE ― Comeste? Quando? O quê?

CARLOS ― Agora mesmo, prima; enquanto me bebia o leite, eu bebia-lhe o café com leite mais o pãozinho que estava a amolecer.

SR.ª MAC-MICHE ― O meu café! O meu rico pão! Miserável! Dá-mos imediatamente!

CARLOS ― Lamento muito, prima, mas não posso! Podia lá adivinhar que mos pediria! Imaginei que tomasse o meu pequeno almoço para eu tomar o seu. É decerto bondosa de mais para comer os dois pequenos almoços e deixar-me a mim em jejum!

Sr.ª MAC-MICHE ― Ladrão! Glutão! Vais pagar-mas!

A prima agarrou Carlos pelo braço, arrastou-o até perto da casa da lenha, tomou uma chibata, atirou-o ao chão, como na véspera, e desatou a bater-lhe sem que ele fizesse um movimento para se defender. Do mesmo modo que no dia anterior, só parou quando o seu reumatismo começou a fazer-se sentir. Carlos levantou-se sozinho; as palas tinham-no preservado perfeitamente; nada sentira. Decidiu sair mas não sem proferir uma frase vingativa.

― Vou fazer tratamento a casa do sr. juiz de paz, prima. [...]


*

Nas circunstâncias difíceis em que se encontrava, a ameaça de fazer intervir o juiz de paz deixou a Sr.ª Mac-Miche bastante assustada a pensar no resultado da visita de Carlos ao juiz.

Enquanto esperava assustada, estremecendo ao mais pequeno ruído, Carlos correra a casa de Julieta, a quem, como na véspera, foi contar o que acontecera.

― Então, Julieta, que me aconselhas agora? Continuo a deixar-me agredir por essa desalmada mulher, que não desarma nem pela minha paciência nem pela minha submissão, nem pela minha coragem de suportar sem um queixume as pancadas com que me enche o corpo?

JULIETA (comovida) ― Não, Carlos, não! É de mais! Realmente é demasiado! Podes, deves evitar esses cruéis e injustos castigos. [...] Tenta arranjar meios inocentes no género das palas; tu tens imaginação e Betty ajudar-te-á.

― De que se trata? ― inquiriu Mariana que entrava na ocasião. ― Porque te encontras aqui tão cedo?

Carlos pôs Mariana a par dos acontecimentos.

― O que me apoquenta ― acrescentou ― é dever-lhe o pão que como, o fato que visto, o catre em que durmo.

MARIANA ― Nada lhe deves; ela é que te deve. Tenho a certeza de que teu pai depositou em casa dela cinquenta mil francos que lhe restavam e que te pertencem.

Carlos deu um pulo na cadeira.

CARLOS ― Cinquenta mil francos! Tenho cinquenta mil francos? ... Mas não, é impossível! Ela está sempre a dizer-me que sou um mendigo!

MARIANA ― Porque te rouba a fortuna. Mas, tranquiliza-te; há-de restituir-ta um dia. Só descobri isso há pouco e já falei ao juiz, pedindo-lhe que não deixasse de vigiar minha prima. Teu pai disse-me alguma coisa sobre tal assunto mais de uma vez, durante a sua última doença, mas vagamente, porque tua prima Mac-Miche estava sempre lá metida; porém, num destes dias, ao mexer numa velha carteira de teu pai, que me dera já quando estava mal e que eu guardei como lembrança dele, sem pensar que pudesse ter qualquer coisa de importante, achei o recibo dos cinquenta mil francos: está escrito pela mão de tua prima e guardo-o cuidadosamente.

CARLOS ― Ó Mariana, dá-mo depressa. Vou pedir o meu dinheiro à prima.

MARIANA ― Não, não to dou, porque to arrancaria e o rasgaria em bocadinhos e já não terias qualquer prova, e, além disso, és muito novo para receberes essa fortuna; precisas de chegar aos dezoito anos, e então será o juiz de paz quem ta fará restituir.

JULIETA ― E agora para que precisavas de dinheiro? Que lhe farias?

CARLOS ― Que lhe faria? Pagava tudo quanto vocês devem, para poderem viver sem privações e para não estares sempre só como acontece agora, pobre Julieta!

JULIETA (comovida) ― Meu bom Carlos, agradeço a tua bondade para connosco, mas não sou infeliz; não me aborreço; vens visitar-me muitas vezes, conversamos, rimos juntos e depois trabalho, estou contente por ganhar algum dinheiro, e quando estou cansada, penso e rezo.

CARLOS ― Em que pensas?

JULIETA ― Em Deus, que me concedeu a graça de ser cega...

CARLOS ― Graça? Chamas graça a essa infelicidade, que faz tremer os mais corajosos?

JULIETA ― Graça, sim, Carlos; se visse, talvez fosse azougada, leviana! Dizem que sou bonita; envaidecer-me-ia por isso; desejaria que me vissem, me admirassem; o trabalho aborrecer-me-ia; não obedeceria a Mariana, como faço; não te estimaria como te estimo; não teria a consolação de pensar no futuro que Deus me reserva após a minha morte e que cada hora do dia posso enriquecer, suportando com serenidade e paciência estas privações.

CARLOS (comovido) ― Bem vês que sofres tais privações...

JULIETA ― Decerto! Grandes e contínuas, mas suporto-as porque me robustecem junto de Deus; desejaria muito ver a minha querida Mariana, que tanto faz por mim; desejaria muito ver-te, a ti, meu bom Carlos, que tanta amizade e confiança me testemunhas ... Perdi a vista tão nova, que mal me lembro dela, de ti, de tudo o que os meus olhos viram. Mas... espero ... e resigno-me.

― Ó Julieta, Julieta! ― bradou Carlos, soluçando e pendurando-se-lhe ao pescoço. ― Ó Julieta, se pudesse restituir-te a vista! Querida, querida Julieta!

A cega limpou uma lágrima, que se lhe escapara e, ao ouvir os soluços da irmã juntarem-se aos de Carlos, disse-lhe:

― Mariana, minha irmã, não chores ! Tornas-me a vida serena, tão boa! Se soubesses que me sinto tão feliz como se visse!

Mariana abeirou-se de Julieta, que cingiu ao peito.

― Sou muito tua amiga, Julieta! Não posso fazer grande coisa por ti; mas o que faço, é com felicidade, com amor, como o faria por uma filha. És tudo para mim neste mundo, tudo! Nunca te deixarei; peço a Deus que me permita sobreviver-te, para adoçar as tristezas da tua vida até ao teu derradeiro suspiro.

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Sophie de Ségur

 
excerto de

Um Bom Diabrete (1865)
de Condessa de Ségur
Edição/reimpressão: 1990
Editor: Editorial Pública
 


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[1.Jun.2013]
Publicado por MJA